sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Família Bolsonaro: uma família em conflito com o sistema judiciário

Ninguém no Brasil duvidava das prioridades de Flávio Bolsonaro ao chegar à presidência: indultar o pai e promover a destituição do juiz que iniciou o processo contra ele, Alexandre de Moraes. Até que ocorreu a grande surpresa, a virada que quase ninguém esperava, liderada por Luiz Inácio Lula da Silva. Foi então que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) partiu para o ataque sem hesitar: a pedido da Polícia Federal, ordenou a apreensão dos passaportes do filho mais velho de Jair Bolsonaro e candidato derrotado. Flávio decidiu fugir para os Estados Unidos, assim como seu pai fizera em 2022 e como seu irmão Eduardo também fizera, ambos agora condenados pela justiça brasileira.

O caso em que Moraes baseou seu argumento, cujas ações enérgicas atraíram críticas não apenas da extrema direita, envolve um amigo e suposto associado de Flávio Bolsonaro. Trata-se de um advogado, Willer Tomaz, ligado à indústria de jogos de azar online, um negócio que Lula proibiu antes das eleições com amplo apoio popular, porque o jogo causou grandes prejuízos ao país.

O caso está sob sigilo, mas o que vazou indica que o juiz está investigando um suposto esquema de lavagem de dinheiro e sonegação fiscal. A polícia suspeita que o líder da extrema direita seja um sócio secreto de Tomaz, cujo nome veio à tona durante a campanha eleitoral depois que a polícia revelou, entre outras coisas, que ele possuía um "hangar secreto" no aeroporto de Brasília com um cofre, supostamente usado para esconder dinheiro. O que é indiscutível, de acordo com as conversas e documentos apreendidos, é a estreita relação entre Bolsonaro e Tomaz. Voos de ambos e suas famílias em jatos particulares para os Estados Unidos, Europa e África foram documentados.

Moraes e Bolsonaro são inimigos declarados, mas, em um dos paradoxos mais surpreendentes da política brasileira, eles tinham um amigo em comum, e ambos estão envolvidos em seus esquemas. Esse amigo é ninguém menos que o agora famoso banqueiro Daniel Vorcaro, atualmente preso após o colapso do seu Banco Master, que resultou em um prejuízo monumental de aproximadamente 10 bilhões de dólares.

A relação de Moraes com o banqueiro quase certamente serviria de base para o seu processo de impeachment no Senado, uma medida que Bolsonaro desejava (e que ainda não pode ser descartada, dada a maioria conservadora na Câmara). A polícia interceptou conversas em que Vorcaro pergunta ao juiz, pouco antes de sua prisão, se deveria deixar o país. O banqueiro havia assinado um contrato astronômico de consultoria jurídica no valor de 131 milhões de reais (cerca de 25 milhões de dólares) com o escritório de advocacia da esposa de Moraes. Para aumentar a ironia, a quantia é quase idêntica aos 134 milhões de reais que Bolsonaro solicitou a Vorcaro, um valor exorbitante para a produção de um filme biográfico sobre Jair Bolsonaro, o suposto propósito. Flávio também está sendo investigado neste caso pelo Supremo Tribunal Federal, embora por um juiz menos hostil: André Mendonça, ex-ministro da Justiça de seu pai, que o nomeou para o tribunal superior devido à sua fé "profundamente evangélica".

Enquanto o candidato presidencial derrotado provavelmente fugia, outra frente jurídica se abriu para ele no Supremo Tribunal Federal (STF). Desta vez, presidida por um magistrado que já havia sido ministro, neste caso durante o governo Lula. O ministro Flávio Dino anunciou a abertura de um inquérito para apurar se a campanha de Bolsonaro recebeu financiamento ilícito da Rede Rockbridge, uma rede americana ultraconservadora cofundada pelo atual vice-presidente do país, JD Vance. Dino também pretende esclarecer se, como denunciado pelo Partido dos Trabalhadores (PT), a plataforma tecnológica Meta atuou de forma dissimulada para favorecer o candidato de extrema-direita. Além disso, a Polícia Federal abriu outro inquérito contra o ex-candidato à presidência por suspeita de irregularidades na concessão de um empréstimo de três milhões de reais do Banco de Brasília para a compra de uma mansão na capital, avaliada em seis milhões de reais (US$ 1,2 milhão).

Flávio Bolsonaro deixa para trás seu pai, cada vez mais isolado e confinado em sua casa em Brasília, cumprindo pena de 27 anos em prisão domiciliar por conspiração para um golpe de Estado, ao se recusar a reconhecer a vitória de Lula em 2022. Nos Estados Unidos, ele se reunirá com seu irmão Eduardo, que, caso retorne ao Brasil, poderá enfrentar uma pena de quatro anos de prisão imposta pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por ações que visavam intimidar aqueles que investigavam seu pai. A polícia suspeita que parte do dinheiro que Vorcaro deu a Flávio foi usada para financiar as atividades de seu irmão nos EUA como lobista da família Bolsonaro junto ao governo Trump.

•        Tancredo Neves, Opa-locka. Por Hugo Souza

É expressivo que o foragido tenha chegado aos EUA por um aeroporto usado pela CIA no passado -- no passado? -- para ações golpistas na América Latina, entre elas a invasão da Baía dos Porcos.

Eis o artigo.

Há exatamente um ano, no dia 28 de outubro de 2025, mais de 120 pessoas foram mortas na Serra da Misericórdia, entre os complexos de favelas da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, durante a chamada Operação Contenção, a mais letal operação policial já registrada no Brasil. Entre os mortos, cinco policiais civis ou militares. O resto é apenas o resto: 117 indivíduos da arraia-miúda do tráfico de drogas chamados na época pelos chefes de polícia do Rio e pelo então governador do estado, Cláudio Castro, de “narcoterroristas”.

Nesta quarta-feira, 28, a Human Rights Watch divulgou um relatório sobre a chacina aniversariante. Intitulado “Uma estratégia de morte”, o relatório mostra, por exemplo, que 75% dos “narcoterroristas” trucidados na Operação Contenção foram baleados pelas costas.

No dia seguinte à matança recorde, um certo senador fluminense defendeu que “o Rio precisa de uma operação dessa por dia”. Mas este certo senador costuma fazer mesmo uma defesa dessa por dia. Chama mais a atenção o que este senador disse publicamente apenas cinco dias antes da Operação Contenção. No dia 23 de outubro do ano passado, ele disse ao secretário “de Guerra” dos EUA, Pete Hegseth: “Que inveja! Ouvi dizer que há barcos como esse aqui no Rio de Janeiro, na Baía de Guanabara, inundando o Brasil com drogas. Você não gostaria de passar alguns meses aqui nos ajudando a combater essas organizações terroristas?”.

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A referência era aos ataques mortais do Comando Sul dos EUA a embarcações supostamente de “narcoterroristas” venezuelanos no Caribe e no Pacífico, bombardeios que antecederam a Operação Resolução Absoluta, a invasão de Caracas para sequestrar Nicolás Maduro, nos primeiros dias de 2026.

Este mesmo senador acaba de desembarcar nos EUA, violando determinação da Justiça brasileira de permanecer em território nacional. Trata-se de um criminoso comum fugindo da Justiça, mas não apenas. Recém-derrotado em eleição para a Presidência da República, o bandoleiro viaja a fim de conspirar com potência estrangeira para desestabilizar o Brasil, onde ainda contam, o fugitivo e a potência MAGAzificada, com uma legião de ressentidos e enraivecidos também prontos para atacar o próprio país. Alguns deles quatro estrelas; outros, ministros do STF, do TSE; governadores de estado e suas “forças de segurança”, que saíram à caça de eleitores de Lula, à noite, nas ruas, após o resultado da eleição; senadores, uma pá de deputados federais. Um deles, recém-eleito para a Câmara, foi quem comandou a Operação Contenção, um ano atrás, quando era secretário de Polícia Civil do Rio. O delegado foi votado por 133.626 fluminenses, cerca de mil votos por cada cadáver produzido na Serra da Misericórdia.

E contam, os conspiradores, com os Faria limers sócios do PCC, vulgo “mercado”; sojeiros desmatadores e grileiros donos de bois, vulgo “agronegócio”; as Big Techs estadunidenses, com seus pesados interesses no Brasil contrários aos interesses do Brasil, seus satélites de órbita baixa, suas redes ditas sociais. E nas redes sociais das Big Techs espalham-se como rastilho de explosivo (orgânico? Impulsionado? Algoritimicamente?) as listas para boicote político de gente e de empresas. Há quase 100 anos, na Alemanha, o Judenboykott foi o ponto de partida, espalhou-se explosivamente e culminou na Kristallnacht — a Noite dos Cristais. É isso que se pretende fomentar como um novo “8/1”?

É significativo que a fuga das galinhas, do galinha verde, tenha acontecido pela Ponte Tancredo Neves, nome do primeiro presidente civil eleito no Brasil após 21 anos de ditadura. É expressivo que o autoproclamado “verdadeiro presidente eleito” dos “Estados Unidos do Brasil” tenha chegado aos EUA pelo aeroporto de Opa-locka, no condado de Miami-Dade, usado pela CIA no passado, no auge do Big Oil, como base para ações golpistas na América Latina, entre elas a invasão de outra Baía, a dos Porcos.

Antes da eleição para a Presidência da República, o campo democrático tinha tarefa única, vencer a eleição, mas sem perder contato com a seguinte realidade: a vitória, se viesse, teria de ser defendida desde o minuto seguinte contra as forças do golpismo. O bolsonarismo militar não está no poder, como em 2022, mas, ao contrário de 2022, agora eles têm Trump.

A vitória veio, histórica. Os memes sobre a fuga do rebolão miliciano são ótimos, são uma beleza. Trump pode sair muito enfraquecido das midterms, as eleições de meio de mandato nos EUA, daqui a poucos dias. Sim, a guerra psicológica está aí, a todo vapor. É difícil imaginar a Delta Force e o SEAL Team 6 abduzindo Lula do Palácio do Planalto. Mas o fato é este e não dá margem para subestimações: aconteceu nas últimas horas uma concertação internacional para dar fuga a cidadão acautelado pela Justiça brasileira e ela envolveu a Casa Branca, a Rosada e possivelmente um segundo país da América do Sul, do “Escudo das Américas”.

E para quê? Para o miliciano rebolar no Mango’s Tropical Cafe, em South Beach, é que não foi, é que não é.

•        A direita brasileira, perplexa, deixa Flávio Bolsonaro sozinho com suas acusações de fraude eleitoral

“Uma fraude eleitoral diante dos meus olhos.” Com essas palavras, Flávio Bolsonaro falou pela primeira vez dos Estados Unidos. Em um comunicado, afirmou, por alguns minutos, ser o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”. A fuga do ex-candidato de extrema direita após sua derrota eleitoral pegou de surpresa seus aliados mais fiéis. Frederick Wassef, advogado de Flávio Bolsonaro, disse que a notícia o pegou de surpresa. Valdemar Costa Neto, presidente do Partido Liberal (PL), também desconhecia o plano de fuga. O senador Rogério Marinho, coordenador da campanha presidencial, afirmou que Flávio Bolsonaro não informou nenhum dos líderes do partido sobre seus planos de deixar o país. Após a fuga do senador, o PL convocou uma reunião de emergência para decidir o futuro do partido, da qual participou Michelle Bolsonaro, ex-primeira-dama e senadora eleita.

Veículos de comunicação brasileiros como O Globo, Folha de São Paulo e Estadão de São Paulo destacaram o "tom golpista" da carta em suas capas. Nela, ele acusa Lula de ter cometido "fraude eleitoral" e afirma ser alvo de "perseguição política que começou com meu pai".

Com algumas exceções, as principais lideranças do bolsonarismo permanecem em silêncio ou reconheceram a derrota. O PL reconheceu a vitória de Lula em um comunicado oficial. Tarcísio de Freitas, que venceu as eleições para o governo de São Paulo no primeiro turno e é um dos aliados mais firmes do bolsonarismo, também reconheceu a vitória de Lula na tarde de terça-feira. Considerado o nome mais forte para liderar a direita no Brasil, Tarcísio decepcionou a ala mais radical do bolsonarismo, pois não questionou o resultado eleitoral nem reproduziu o discurso de perseguição política utilizado por Flávio Bolsonaro. Dentro do PL, os jovens deputados Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato, os mais votados do país, estão ficando isolados em sua reivindicação de que os resultados não sejam reconhecidos.

A postura mais radical do bolsonarismo não vem de seu núcleo central, mas de aliados secundários. De um lado, Sérgio Moro, o juiz que prendeu Lula ilegalmente em 2018 e foi eleito governador do Paraná, apoiou a decisão de Flávio Bolsonaro de deixar o país. “O Brasil ainda está longe da normalidade institucional. Nesse contexto, é compreensível que Flávio deixe o país”, afirmou. De outro, Pablo Marçal, o coach de extrema direita que surpreendeu ao conquistar milhões de votos nas eleições municipais de São Paulo em 2024, manifestou apoio a Flávio Bolsonaro em uma publicação no Instagram: “Não é uma fuga! É exílio”. Marçal, que assessorou Flávio Bolsonaro durante o segundo turno eleitoral, pretende se candidatar à Presidência em 2030, apesar de estar inelegível até 2032.

A pressão sobre Flávio Bolsonaro aumenta após sua fuga do Brasil. A Polícia Federal (PF) estuda solicitar ao Supremo Tribunal Federal (STF) o bloqueio dos bens de Flávio Bolsonaro, a quebra de seu sigilo bancário e sua prisão preventiva, com o objetivo de forçar seu retorno ao Brasil.

Alexandre de Moraes, ministro do STF responsável pela investigação que acusa Flávio Bolsonaro de lavagem de dinheiro e evasão de divisas, já determinou o bloqueio de bens e a quebra de sigilo bancário do advogado Willer Tomaz, amigo pessoal de Flávio Bolsonaro, que deixou o Brasil na sexta-feira.

A PF suspeita que Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz, que chegaram a utilizar uma conta bancária conjunta, participavam de um esquema de lavagem de dinheiro envolvendo uma casa de apostas on-line, entre outras atividades. Segundo especialistas em direito consultados pelo Folha de S.Paulo, a fuga de Flávio Bolsonaro fornece fundamento jurídico para a decretação de sua prisão preventiva.

Por outro lado, lideranças de peso do Partido dos Trabalhadores (PT) estão intensificando a pressão contra Flávio Bolsonaro. Lula da Silva, vencedor das eleições do último domingo, criticou duramente a fuga de seu adversário político na segunda-feira, durante a comemoração de seu 81º aniversário. Lula classificou a saída de Flávio Bolsonaro do país como “vergonhosa” e uma “falta de respeito”: “Quem não deve, não teme. O cidadão que sai escondido deste país deve alguma coisa”.

Além disso, deputados do PT pediram a Alexandre de Moraes a decretação da prisão preventiva de Flávio Bolsonaro e a solicitação de um alerta vermelho à Interpol, para dar início aos trâmites de sua extradição.

No entanto, algumas lideranças de peso do PT temem que Flávio Bolsonaro radicalize nos Estados Unidos e incentive o governo de Donald Trump a adotar novas medidas contra o Brasil.

 

Fonte: El País/Come Ananás/El Diário

 

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