Gustavo
Tapioca: O traidor de 60 milhões também fugiu
A
partida repentina de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos — realizada à
revelia de sua própria base e em aberto descumprimento de decisões judiciais no
Brasil — intrigou observadores da política nacional e internacional.
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À
primeira vista, o movimento foi interpretado no debate público como um ato de
desespero diante do cerco jurídico.
No
entanto, uma análise mais apurada das engrenagens de Washington sugere uma
inversão fundamental de premissas:
quem
mais precisava de Flávio Bolsonaro em solo americano neste exato momento não
era ele próprio, mas sim o Secretário de Estado e estrategista conservador
Marco Rubio.
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Álibi geopolítico e o Senado
A
operação ocorre em um momento crítico para a política externa e interna dos
Estados Unidos.
Sob a
sombra das disputas eleitorais e diante de uma correlação de forças acirrada no
Senado americano, lideranças neoconservadoras encontram-se sob forte
pressão.
Trazer
Flávio Bolsonaro para os EUA sob a salvaguarda de setores influentes em
Washington atende a um duplo propósito utilitário para Marco Rubio.
Instrumentalizar a pauta sul-americana para alimentar a base republicana com o
discurso de “perseguição política” à extrema-direita no continente.
Afirmar-se
como o principal formulador e articulador da política externa para a América
Latina sob a doutrina de segurança e influência hemisférica.
(“This is our hemisphere”) (“Este hemisfério é
nosso”), a frase de Marco Rubio consolida sua projeção interna como o sucessor
natural de Donald Trump.
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Bastidores de Washington
A tese
de que a ida do senador brasileiro atende primordialmente aos interesses
táticos de Washington encontra respaldo em reportagens e análises veiculadas
pela imprensa brasileira e internacional.
Interlocutores
e veículos de comunicação registraram que a acolhida e a facilitação da fuga e
da estadia do parlamentar contaram com articulações diretas sob o guarda-chuva
de Marco Rubio e do Departamento de Estado que ele comanda.
Analistas
internacionais destacam que o movimento busca fixar uma referência de “oposição
no exílio” a partir da Flórida para exercer pressão diplomática sobre o governo
brasileiro.
Ao
mesmo tempo, o movimento provocou reações no meio político em Washington:
parlamentares democratas repudiam o uso de estruturas diplomáticas para abrigar
aliados políticos estrangeiros.
O
episódio elevou o tom do debate diplomático, expondo a tentativa republicana de
transformar fricções institucionais sul-americanas em ativos para a disputa
política doméstica nos Estados Unidos.
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O bolsonarismo desidrata
Enquanto
em Washington a presença de outro Bolsonaro fugitivo atende a uma necessidade
tática de Rubio, no Brasil o efeito imediato foi o atordoamento e a orfandade
do campo bolsonarista raiz.
Ao
trocar o mandato em Brasília pela tutela de gabinetes e dos encantos da
Flórida, Flávio Bolsonaro não protagoniza um ato de bravura ou resistência, mas
a capitulação definitiva e covarde da sua própria relevância.
É a
amarga ironia do discurso ultranacionalista: o patriotismo de brado que
inflamou praças e telas no Brasil termina no silêncio acomodado sob a guarida
de burocratas estrangeiros.
Ao
fugir do país e entregar o próprio destino às conveniências de Marco Rubio, o
senador comete a maior das afrontas: traiu abertamente os seus 60 milhões de
eleitores, virando as costas para a metade do Brasil que acreditou em suas
promessas e em suas mentiras.
Abandonando
lideranças atônitas e militantes órfãos à própria sorte, o senador desidrata o
bolsonarismo e entrega de bandeja o controle da oposição ao pragmatismo
fisiológico do Centrão.
De
pretenso líder de um movimento nacional a ativo conveniente na diplomacia de
Washington, Flávio assina sua própria irrelevância ao trocar a altivez do
mandato parlamentar pelo triste papel de figura secundária no teatro de sombras
norte-americano.
No afã
de escapar do escrutínio judicial e servir de álibi retórico para o projeto de
poder de Marco Rubio, ele descobre a lição mais dura do pragmatismo
internacional: na geopolítica das superpotências, quem desonra o próprio povo
para virar peça no jogo alheio não é tratado como aliado de primeira hora — é
usado até o limite da conveniência e descartado como mero peão assim que o
vento político muda.
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De pai para filho desde 2022
Seu
pai, Flávio, abandonou o país em 2022, traindo milhões de pessoas que
acreditaram nele — muitas das quais foram levadas a lutar em um golpe
fracassado para mantê-lo no poder. Hoje cumprem penas severas de prisão. O destino de pai Jair também foi a prisão,
condenado a uma pena de 27 anos e três meses de reclusão.
Seguindo
os mesmos passos, você também fugiu para os Estados Unidos de Trump e Rubio,
consumando a traição a 60 milhões de eleitores — a metade do Brasil que agora
assiste, perplexa, à repetição da história e da farsa da dinastia Bolsonaro.
• Fujão vira tóxico e derruba políticos
que o apoiaram até o último minuto. Por Marco Damiani
A carta
em que o fujão se declarou presidente e, em seguida, líder do Brasil fez um
verdadeiro strike entre os políticos que o apoiaram, com toda ênfase e pelos
piores motivos, derrubando, como pinos de boliche, o moral de cada um deles. A
foto em que bolsonaristas empedernidos aparecem à volta do derrotado que
abandonaria a todos já na noite seguinte ao que viram na TV agora é um retrato
pronto e acabado da escória da política brasileira.
Tarcísio
de Freitas estava lá. O governador de São Paulo, com dois senadores eleitos
pelo estado, arriscou diante da forte possibilidade de ser isolado por Flávio
Bolsonaro na montagem do governo para firmar pé na campanha e pregar pelo filho
de seu mentor político, o pai Jair. Perdeu a aposta pelos dois lados. Nem
haverá governo para servir de teste de retribuição nem há mais a menor condição
de o governador manter apoio político ao 01. Estar ao lado do candidato
derrotado que não aceitou o resultado virou algo tóxico, mas Tarcísio já tem
essa marca em si. Agora a questão é se limpar, o que ele está tentando fazer,
afastando-se e projetando um futuro em que já se declara candidato à
Presidência em 2030. A pressa nunca foi uma boa estratégia política.
Rogério
Marinho, sentado ao ladinho de Flávio, parece ainda não ter acordado do impacto
da fuga. Ele foi um dos responsáveis pela retomada do ânimo das bases lulistas
quando começou a falar como grande articulador do futuro governo de
extrema-direita, logo após o 1º turno. Já se via com os poderes de chefe da
Casa Civil com o luxo de ainda escolher a alternativa de ser presidente do
Senado. Ferrou-se. Marinho não vai passar nem pela calçada do Palácio do
Planalto, e o senador eleito Arthur Lira é favorito para tomar para si a chefia
da chamada Câmara Alta. Mentor do mal, o potiguar ficou na mão sem mentorado.
O piá
Nikolas Ferreira não deu uma dentro durante toda a campanha, e ali naquela sala
cometeu sua última gafe. Ele carrega contra si o videozinho cochichando ao pé
do ouvido do candidato derrotado, garantindo que ele chegaria aos 64 milhões de
votos. Errou na mosca. Lula chegou, mas Flávio ficou mais de 4 milhões de
eleitores aquém. Parte desse carreamento para o presidente reeleito atribuiu-se
à montagem de fake news que Nikolas comandou na Bahia, mentindo sobre as
condições de vida da população nordestina. Ele pode perder o mandato pela
divulgação de um relatório falso da PF sobre o caso Master. Deve sair de
circulação nos próximos tempos, desmoralizado e tendo de cuidar da própria
sobrevivência política.
Pablo
Marçal, uma das figuras mais perigosas da atual política brasileira, viu em
Flávio um veículo para devolvê-lo ao centro da cena, depois de sua frustrada
candidatura à Prefeitura de São Paulo. Oportunista, tornou-se o puxa-saco mais
determinado, e deu com os burros n’água quando seus pitacos para Flávio no
primeiro debate do segundo turno, na Band, resultaram em reforço da imagem de
arrogante e despreparado do ex-candidato extremista.
Douglas
Ruas, eleito governador do Rio de Janeiro, talvez seja quem menos perde com a
fuga de Flávio para os Estados Unidos. O campo do bolsonarismo no estado ficará
livre com a ausência do país do miliciano referencial. Ruas pode deitar e
rolar, sem precisar dar justificativas e explicações a ninguém.
Quem
não estava lá, mas passou recibo foi a ex-senadora Kátia Abreu, ligada ao
agronegócio. Ela é mais uma que ficou desmoralizada com o abandono de seu líder
ideológico. Mostrou indignação. “Deixa de ser mole”, esbravejou pela mídia com
o fugitivo. “Homem não pode vestir calça só até meio-dia, Flávio Bolsonaro.
Homem tem que vestir calça de manhã, de tarde e de noite”. Os bolsonaristas que
adularam Flávio até o último minuto antes da fuga carregarão para sempre o peso
da má escolha.
Fonte:
Brasil 247

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