sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Gustavo Tapioca: O traidor de 60 milhões também fugiu

A partida repentina de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos — realizada à revelia de sua própria base e em aberto descumprimento de decisões judiciais no Brasil — intrigou observadores da política nacional e internacional. 

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À primeira vista, o movimento foi interpretado no debate público como um ato de desespero diante do cerco jurídico. 

No entanto, uma análise mais apurada das engrenagens de Washington sugere uma inversão fundamental de premissas: 

quem mais precisava de Flávio Bolsonaro em solo americano neste exato momento não era ele próprio, mas sim o Secretário de Estado e estrategista conservador Marco Rubio.

<><> Álibi geopolítico e o Senado 

A operação ocorre em um momento crítico para a política externa e interna dos Estados Unidos. 

Sob a sombra das disputas eleitorais e diante de uma correlação de forças acirrada no Senado americano, lideranças neoconservadoras encontram-se sob forte pressão. 

Trazer Flávio Bolsonaro para os EUA sob a salvaguarda de setores influentes em Washington atende a um duplo propósito utilitário para Marco Rubio. Instrumentalizar a pauta sul-americana para alimentar a base republicana com o discurso de “perseguição política” à extrema-direita no continente.

Afirmar-se como o principal formulador e articulador da política externa para a América Latina sob a doutrina de segurança e influência hemisférica.

 (“This is our hemisphere”) (“Este hemisfério é nosso”), a frase de Marco Rubio consolida sua projeção interna como o sucessor natural de Donald Trump.

<><> Bastidores de Washington

A tese de que a ida do senador brasileiro atende primordialmente aos interesses táticos de Washington encontra respaldo em reportagens e análises veiculadas pela imprensa brasileira e internacional. 

Interlocutores e veículos de comunicação registraram que a acolhida e a facilitação da fuga e da estadia do parlamentar contaram com articulações diretas sob o guarda-chuva de Marco Rubio e do Departamento de Estado que ele comanda.  

Analistas internacionais destacam que o movimento busca fixar uma referência de “oposição no exílio” a partir da Flórida para exercer pressão diplomática sobre o governo brasileiro. 

Ao mesmo tempo, o movimento provocou reações no meio político em Washington: parlamentares democratas repudiam o uso de estruturas diplomáticas para abrigar aliados políticos estrangeiros. 

O episódio elevou o tom do debate diplomático, expondo a tentativa republicana de transformar fricções institucionais sul-americanas em ativos para a disputa política doméstica nos Estados Unidos.

<><> O bolsonarismo desidrata 

Enquanto em Washington a presença de outro Bolsonaro fugitivo atende a uma necessidade tática de Rubio, no Brasil o efeito imediato foi o atordoamento e a orfandade do campo bolsonarista raiz.

Ao trocar o mandato em Brasília pela tutela de gabinetes e dos encantos da Flórida, Flávio Bolsonaro não protagoniza um ato de bravura ou resistência, mas a capitulação definitiva e covarde da sua própria relevância. 

É a amarga ironia do discurso ultranacionalista: o patriotismo de brado que inflamou praças e telas no Brasil termina no silêncio acomodado sob a guarida de burocratas estrangeiros. 

Ao fugir do país e entregar o próprio destino às conveniências de Marco Rubio, o senador comete a maior das afrontas: traiu abertamente os seus 60 milhões de eleitores, virando as costas para a metade do Brasil que acreditou em suas promessas e em suas mentiras.

Abandonando lideranças atônitas e militantes órfãos à própria sorte, o senador desidrata o bolsonarismo e entrega de bandeja o controle da oposição ao pragmatismo fisiológico do Centrão. 

De pretenso líder de um movimento nacional a ativo conveniente na diplomacia de Washington, Flávio assina sua própria irrelevância ao trocar a altivez do mandato parlamentar pelo triste papel de figura secundária no teatro de sombras norte-americano.

No afã de escapar do escrutínio judicial e servir de álibi retórico para o projeto de poder de Marco Rubio, ele descobre a lição mais dura do pragmatismo internacional: na geopolítica das superpotências, quem desonra o próprio povo para virar peça no jogo alheio não é tratado como aliado de primeira hora — é usado até o limite da conveniência e descartado como mero peão assim que o vento político muda.

<><> De pai para filho desde 2022

Seu pai, Flávio, abandonou o país em 2022, traindo milhões de pessoas que acreditaram nele — muitas das quais foram levadas a lutar em um golpe fracassado para mantê-lo no poder. Hoje cumprem penas severas de prisão.   O destino de pai Jair também foi a prisão, condenado a uma pena de 27 anos e três meses de reclusão.

Seguindo os mesmos passos, você também fugiu para os Estados Unidos de Trump e Rubio, consumando a traição a 60 milhões de eleitores — a metade do Brasil que agora assiste, perplexa, à repetição da história e da farsa da dinastia Bolsonaro.

•        Fujão vira tóxico e derruba políticos que o apoiaram até o último minuto. Por Marco Damiani

A carta em que o fujão se declarou presidente e, em seguida, líder do Brasil fez um verdadeiro strike entre os políticos que o apoiaram, com toda ênfase e pelos piores motivos, derrubando, como pinos de boliche, o moral de cada um deles. A foto em que bolsonaristas empedernidos aparecem à volta do derrotado que abandonaria a todos já na noite seguinte ao que viram na TV agora é um retrato pronto e acabado da escória da política brasileira.

Tarcísio de Freitas estava lá. O governador de São Paulo, com dois senadores eleitos pelo estado, arriscou diante da forte possibilidade de ser isolado por Flávio Bolsonaro na montagem do governo para firmar pé na campanha e pregar pelo filho de seu mentor político, o pai Jair. Perdeu a aposta pelos dois lados. Nem haverá governo para servir de teste de retribuição nem há mais a menor condição de o governador manter apoio político ao 01. Estar ao lado do candidato derrotado que não aceitou o resultado virou algo tóxico, mas Tarcísio já tem essa marca em si. Agora a questão é se limpar, o que ele está tentando fazer, afastando-se e projetando um futuro em que já se declara candidato à Presidência em 2030. A pressa nunca foi uma boa estratégia política.

Rogério Marinho, sentado ao ladinho de Flávio, parece ainda não ter acordado do impacto da fuga. Ele foi um dos responsáveis pela retomada do ânimo das bases lulistas quando começou a falar como grande articulador do futuro governo de extrema-direita, logo após o 1º turno. Já se via com os poderes de chefe da Casa Civil com o luxo de ainda escolher a alternativa de ser presidente do Senado. Ferrou-se. Marinho não vai passar nem pela calçada do Palácio do Planalto, e o senador eleito Arthur Lira é favorito para tomar para si a chefia da chamada Câmara Alta. Mentor do mal, o potiguar ficou na mão sem mentorado.

O piá Nikolas Ferreira não deu uma dentro durante toda a campanha, e ali naquela sala cometeu sua última gafe. Ele carrega contra si o videozinho cochichando ao pé do ouvido do candidato derrotado, garantindo que ele chegaria aos 64 milhões de votos. Errou na mosca. Lula chegou, mas Flávio ficou mais de 4 milhões de eleitores aquém. Parte desse carreamento para o presidente reeleito atribuiu-se à montagem de fake news que Nikolas comandou na Bahia, mentindo sobre as condições de vida da população nordestina. Ele pode perder o mandato pela divulgação de um relatório falso da PF sobre o caso Master. Deve sair de circulação nos próximos tempos, desmoralizado e tendo de cuidar da própria sobrevivência política.

Pablo Marçal, uma das figuras mais perigosas da atual política brasileira, viu em Flávio um veículo para devolvê-lo ao centro da cena, depois de sua frustrada candidatura à Prefeitura de São Paulo. Oportunista, tornou-se o puxa-saco mais determinado, e deu com os burros n’água quando seus pitacos para Flávio no primeiro debate do segundo turno, na Band, resultaram em reforço da imagem de arrogante e despreparado do ex-candidato extremista.

Douglas Ruas, eleito governador do Rio de Janeiro, talvez seja quem menos perde com a fuga de Flávio para os Estados Unidos. O campo do bolsonarismo no estado ficará livre com a ausência do país do miliciano referencial. Ruas pode deitar e rolar, sem precisar dar justificativas e explicações a ninguém.

Quem não estava lá, mas passou recibo foi a ex-senadora Kátia Abreu, ligada ao agronegócio. Ela é mais uma que ficou desmoralizada com o abandono de seu líder ideológico. Mostrou indignação. “Deixa de ser mole”, esbravejou pela mídia com o fugitivo. “Homem não pode vestir calça só até meio-dia, Flávio Bolsonaro. Homem tem que vestir calça de manhã, de tarde e de noite”. Os bolsonaristas que adularam Flávio até o último minuto antes da fuga carregarão para sempre o peso da má escolha.

 

Fonte: Brasil 247

 

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