Derrota
de Flávio e fuga para os EUA dificulta soltura de Jair Bolsonaro por indulto ou
por via judicial
O
ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) segue em prisão
domiciliar após ser condenado pelo STF (Supremo Tribunal Federal), em 11 de
setembro de 2025, por uma tentativa frustrada de golpe de Estado. O relator,
ministro Alexandre de Moraes, entendeu que Bolsonaro liderou uma série de ações
coordenadas para continuar no poder.
Os
fatos incluíam conspiração e constrangimento de membros das Forças Armadas para
adesão à empreitada, desinformação eleitoral para descredibilizar o processo,
plano de assassinato de adversários políticos e depredação de patrimônio
público.
A
candidatura do filho Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aumentou a expectativa pela
soltura do ex-presidente. A derrota para Lula (PT) no domingo (25), por outro
lado, arrefece as movimentações e diminuiu a expectativa de liberdade. O
senador deixou o Brasil, o que também lança dúvidas sobre a participação em
negociações sobre o tema.
Por
outro lado, o resultado nas eleições abriu caminho para que o PL, partido com a
maior bancada e que abriga grande parte dos bolsonaristas, eleja nomes na mesa
diretora das Casas. Para conseguir se manter no cargo, o atual presidente do
Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), articula uma maneira de soltar
Bolsonaro e agradar os senadores da legenda.
A base
bolsonarista no Congresso Nacional já havia articulado o PL da Dosimetria, que
altera regras de execução penal para diminuir o tempo de cadeia dos condenados
pela tentativa de golpe. A análise de constitucionalidade das novas regras está
parada no STF.
No
Judiciário, a defesa de Jair Bolsonaro entrou com um pedido de revisão criminal
no Supremo. A ação serve para rever uma condenação caso fatos novos surjam ou
problemas na condução do processo sejam identificados posteriormente.
O
ministro Kassio Nunes Marques, indicado pelo próprio ex-presidente, é o
relator. Na quarta-feira (28), ele deu dez dias para a PGR (Procuradoria-Geral
da República) se manifestar sobre o pedido.
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No STF: revisão criminal
A
defesa protocolou duas ações. A primeira, de maio, alega cerceamento de defesa.
A segunda, do fim de setembro, sustenta haver fatos novos e prova nova. A prova
nova é um parecer de perícia contratada que aponta erros na coleta e
armazenamento de provas digitais. O documento embasa pedido liminar para
Bolsonaro aguardar o julgamento em liberdade.
A Folha
de S.Paulo revelou em 5 de outubro que Kassio avaliava soltar o ex-presidente
por liminar. Dois dias depois, o gabinete disse que só analisaria o caso após o
segundo turno, para evitar interferência na eleição. Especialistas avaliam que
uma liminar de soltura só caberia diante de erro judicial crasso, o que, em
geral, não enxergam no processo de Bolsonaro.
A
possibilidade da soltura do ex-presidente por uma decisão monocrática de Kassio
surgiu após o resultado do primeiro turno das eleições de 2026, no domingo (5).
Flávio terminou à frente de Lula, mas o petista reverteu a situação e se
reelegeu para o quarto mandato à frente do Palácio do Planalto.
Caso
Flávio tivesse sido eleito, a liminar de Kassio era a principal aposta para que
o pai “subisse a rampa do Planalto ao lado”, como prometia.
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No governo: indulto ou graça
Alcolumbre
disse a aliados que vai procurar Lula para defender um indulto humanitário a
Bolsonaro. O tema não foi tratado na primeira conversa entre os dois, na
segunda-feira (26), após a votação.
O
indulto é um ato de clemência que depende apenas do presidente. Segundo
aliados, Alcolumbre vai esperar a eleição decantar e as consequências da fuga
de Flávio antes de levar a proposta. O perdão presidencial era a principal
aposta da família com a eleição de Flávio.
Segundo
especialistas, há jurisprudência no STF de que crimes contra o Estado
democrático de Direito, pelos quais Bolsonaro foi condenado, não admitem
indulto nem anistia. Isso poderia jogar a bola de volta para o Judiciário.
Em
2023, a corte já havia derrubado o indulto individual concedido por Bolsonaro,
então presidente, ao ex-deputado Daniel Silveira, condenado por ameaças a
ministros do STF. Mesmo validado, a medida só extingue os efeitos penais e
mantém a inelegibilidade.
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No congresso: dosimetria e anistia
Se Lula
recusar o indulto, Alcolumbre disse a congressistas que trabalhará pela
aprovação de uma anistia no Congresso. Em troca, quer que a direita abandone a
pressão pelo impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal e apoie a
reeleição dele à chefia da Casa.
Rogério
Marinho (PL-RN) e Tereza Cristina (PP-MS) são cotados para disputar a
presidência do Senado contra Alcolumbre, apostando na maioria eleita pela
direita. A oposição nega acordo. “Creio que não temos acordo de trocar vidas
por poder. Chega a ser asqueroso”, disse a senadora Damares Alves
(Republicanos-DF) ao Painel.
O
primeiro passo, segundo um aliado de Alcolumbre, seria o STF validar a Lei da
Dosimetria. Promulgada por ele em 8 de maio, após a derrubada do veto de Lula,
Moraes suspendeu o texto no dia seguinte.
A lei
impede somar as penas de golpe de Estado e de abolição violenta do Estado
democrático de Direito no mesmo contexto. Vale a mais grave, com aumento, e a
progressão de regime fica mais rápida.
Para
Bolsonaro, a mudança reduziria o tempo em regime fechado de 6 a 8 anos para
entre 2 anos e 4 meses e 4 anos e 2 meses, a depender da interpretação. A lei
também diminui penas de crimes cometidos em multidão.
Moraes,
sorteado relator das ações contra a lei, aguarda o plenário julgar a
constitucionalidade do texto. A tendência da corte é validar a norma, com
recados contra atos antidemocráticos.
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Como está o cumprimento de pena de Bolsonaro?
Mesmo
com a condenação em setembro de 2025, a pena de 27 anos e três meses de prisão
é contada a partir do dia 4 de agosto daquele ano. Nessa data, o ex-presidente
teve sua prisão domiciliar decretada por violar a proibição do uso de redes
sociais.
A conta
para cumprimento de pena segue uma regra de detração, considerando também o
período em que um réu ficou preso antes de ser definitivamente condenado.
No dia
22 de novembro, Bolsonaro perdeu a benesse da prisão domiciliar ao descumprir
mais uma vez medidas cautelares. Na ocasião, violou a tornozeleira eletrônica
com um ferro de solda. Por motivos de saúde, ele voltou para casa em 24 de
março de 2026, onde segue até hoje.
Moraes
concedeu excepcionalmente uma prisão domiciliar humanitária por problemas
médicos. Em julho, o relator voltou a confirmar o benefício por tempo
indeterminado. Apesar de não estar em um presídio, o ex-presidente cumpre pena
em regime fechado.
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Flávio Bolsonaro enfrenta isolamento após carta golpista
e fuga para os EUA
Após
uma operação cinematográfica de fuga e despiste, o senador Flávio
Bolsonaro
(PL) chegou com sua mulher e duas filhas a Miami nesta quarta-feira (28) e
divulgou uma carta golpista em que se apresentou
como “verdadeiro presidente do Brasil”, apesar da derrota para Lula (PT) no
domingo (25) por uma margem de 4,4 milhões de votos.
Depois
de poucos minutos, ele recuou e optou por “líder do Brasil”, mas manteve uma
série de mentiras e distorções sobre o processo eleitoral, com postura
semelhante à adotada em 2022 por seu pai, Jair Bolsonaro, atualmente em prisão
domiciliar após condenação por tentativa de golpe de Estado.
A carta
de Flávio nos EUA teve ao menos quatro versões, duas publicadas pelo próprio
senador em rede social e duas por aliados próximos da família Bolsonaro — uma
das quais chegou a trazer um brasão com a palavra “Brazil”, escrita com z.
A
divulgação, associada à ala mais radical do bolsonarismo, foi acompanhada de
manifestações de distanciamento de fiadores de Flávio na disputa eleitoral.
O
senador Rogério Marinho (PL-RN), que coordenou a campanha presidencial,
declarou que nem ele nem o partido podem afirmar que houve fraude nas eleições.
O governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), disse
que “o caminho é respeitar o resultado das urnas e seguir em frente”.
A
senadora Tereza Cristina (PP-MS), ex-ministra da Agricultura de Jair Bolsonaro,
pregou respeito ao resultado das urnas, afirmou que a eleição acabou e que é
hora de a direita unir esforços. Partidos que apoiaram Flávio no segundo turno
contra Lula também reafirmaram apoio ao pleito e ao respeito democrático.
Apesar
da proximidade com o clã Bolsonaro, das críticas às eleições brasileiras e do
aval para que Flávio fique nos EUA, o presidente Donald Trump declarou a
jornalistas que não pretende se envolver na crise política brasileira. “Não vou
comentar sobre isso, mas sei que demos a ele autorização para entrar no país,
então veremos”, disse. “Mas não vou me envolver. Foi uma eleição muito
estranha, com certeza.”
Na
primeira e na segunda versão das divulgadas por seus aliados, Flávio se dirige
“ao povo brasileiro e à comunidade internacional” e se apresenta como “o
verdadeiro presidente eleito do Brasil”.
Depois,
Flávio publicou em sua própria conta em rede social uma versão sem a palavra
“eleito”, mas mantendo-se como “verdadeiro presidente”. Em seguida, fez uma
edição e republicou o conteúdo, adotando a expressão “líder do Brasil”.
“Na
noite de domingo, vi estarrecido uma fraude eleitoral se concretizar diante dos
meus olhos. A atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula [o ministro do
Supremo Cristiano Zanin] permitiu que uma impossibilidade matemática se
concretizasse e Lula acrescentasse mais de 10 milhões de votos do primeiro para
o segundo turno”, afirma o texto.
A
teoria golpista, sem fundamento ou provas, repete o que dizem bolsonaristas nas
redes. Flávio já havia dito no domingo que não reconhecia a vitória do rival
porque a Justiça Eleitoral aceitou esticar em duas horas o horário de votação,
algo que seu próprio partido também pediu em algumas localidades. Na segunda,
porém, antes da fuga do Brasil, havia modulado o discurso, falando em liderar a
oposição.
No
período da prorrogação da votação, pouco mais de 34 mil votos foram computados,
e por fim o PL desistiu de protocolar ação pedindo a nulidade do pleito.
Na
carta, Flávio também agradeceu o papel dos presidentes aliados Javier Milei
(Argentina) e Donald Trump (Estados Unidos) na sua rocambolesca fuga.
O
argentino teria entrado com “a coragem” e o americano, com a acolhida. Nenhum
dos dois reconheceu a vitória de Lula e Trump chamou a eleição de fraudulenta,
embora tenha se distanciado até aqui da fuga em si, apenas dizendo que irá
conceder visto aos Bolsonaros.
O
roteiro, que não havia sido encampado pelo seu próprio partido, é típico do
bolsonarismo e do trumpismo. O pai de Flávio dizia ter sido roubado no primeiro
turno de 2018 e nunca reconheceu a derrota de 2022. Já o americano nega ter
perdido para Joe Biden em 2020.
Ele foi
recebido com serviço VIP na pista, fazendo um desembaraço imigratório rápido e
sendo levado com escolta para algum ponto no norte da Flórida, onde se
encontraria com o irmão Eduardo, que se refugia desde o ano passado no país de
Trump, onde estimulou a campanha tarifária contra o Brasil.
O
senador fugiu do Brasil sem cumprir a determinação judicial para entregar seus
passaportes nacionais, mas viajou com o documento italiano (ele obteve a
cidadania em 2023). Segundo a PF, não é considerado foragido por não haver um
pedido de prisão contra ele.
A
medida, pedida pela Polícia Federal por risco de fuga, foi determinada pelo
ministro do STF Alexandre de Moraes logo após o anúncio da derrota no domingo,
e anunciada no dia seguinte. Aliados do senador dizem que ela é persecutória,
mas há divisões acerca do apoio à fuga.
A
operação é envolta em mistérios que levam a questionamentos no Brasil e nos
três países envolvidos, todos governados por aliados dos Bolsonaros. Apenas o
equatoriano Daniel Noboa ficou fora do agradecimento de Flávio.
A
opacidade começa com o avião usado no voo, um Gulfstream G400, matrícula
LV-JQW, operado pela empresa argentina Baires Fly — envolvida em um escândalo
de corrupção que derrubou em 2025 um político próximo de Milei, aliado tão
próximo dos Bolsonaros que estrelou a convenção que lançou Flávio.
Segundo
o monitor Flightradar24, o aparelho chegou a Porto Iguaçu (Argentina) na noite
de segunda (26), com o nome de Flávio na lista de passageiros de um voo marcado
para as 22h14. A tripulação ficou retida e não houve autorização para o plano
de rota, segundo autoridades locais.
Enquanto
isso, no Brasil, havia versões conflitantes acerca do que ocorrera. Aliados de
Flávio diziam, sob reserva, que ele já estava a caminho dos Estados Unidos e,
em alguns casos, até pousado na Flórida. A rota ora era pela Argentina, ora por
roteiros fantasiosos que incluíam a Venezuela ora sob domínio de Trump ou uma
operação secreta da CIA.
Ao fim,
como ensina em suas memórias Tony Mendez, o homem que tirou diplomatas
americanos do Irã na Revolução Islâmica de 1979, retratada no vencedor do Oscar
“Argo”, a solução mais eficaz parece ter sido algo mais simples — mas nem por
isso menos espetaculosa.
A
Direção Nacional de Migrações da Argentina havia negado na manhã de terça ter
recebido Flávio e família.
À
noite, o órgão disse que os Bolsonaros haviam ingressado no país às 22h50. O
avião deixou Porto Iguaçu às 0h21 da quarta e demorou 5h25min para chegar a
Guayaquil, contornando o Brasil e evitando assim seu espaço aéreo e uma
improvável interceptação.
Quatro
horas depois, já com a notícia no ar, o Gulfstream decolou rumo a Miami. Alguns
dos aliados do senador que haviam relatado sua ida aos EUA sustentavam que ela
havia ocorrido na terça, mas o desembarque os provou ou errados, ou
mal-intencionados.
A
divulgação de informações falsas foi encampada principalmente por pessoas
próximas a Eduardo, reforçando a suspeita de uma ação para despistar e permitir
a conclusão da fuga.
Segundo
a PF, não é feita checagem de documentos de brasileiros que saem por terra rumo
à Argentina, mas o órgão estava mobilizado desde a manhã para rastrear uma
eventual passagem de Flávio. Se havia risco de fuga e a imprensa argentina
havia dito que o avião esperava o senador, o procedimento na fronteira merecerá
escrutínio.
Uma TV
argentina disse, por sua vez, que Flávio e família já estavam em Porto Iguaçu
durante a terça, escondidos, o que leva o questionamento direto à mesa do órgão
de imigração do governo Milei acerca de como foi feito o registro dos
Bolsonaros.
A
desinformação tomou ares de guerra na terça. O próprio Flávio havia dito na
véspera, após ser intimado pela PF a entregar os passaportes, que iria dar os
documentos e nunca deixar o Brasil. Seu irmão Eduardo ironizou a suspeita de
fuga, dizendo que o empresário Elon Musk havia enviado “um foguete” para pegar
o senador.
Nos
EUA, o Departamento de Estado foi mais claro, dizendo que iria dar o visto a
Flávio e família, e não o asilo político ventilado por aliados bolsonaristas.
Um de seus operadores nos EUA, o jornalista Paulo Figueiredo, reclamou de
“notícias falsas” — uma especialidade justamente de seu grupo político.
Ele foi
o responsável pela divulgação da primeira carta golpista de Flávio, com uma
piada pronta embutida: em cima do texto o primeiro brasão da República, na qual
o país se chamava Estados Unidos do Brazil —com Z mesmo. Na versão final,
postada pelo senador no X, voltou a ser República Federativa do Brasil.
Fonte:
Folhapress

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