sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Flávio Bolsonaro: a força de milhões de votos e a fraqueza de uma liderança

Há acontecimentos políticos que provocam indignação e perplexidade. A notícia da saída de Flávio Bolsonaro do Brasil, depois de disputar a Presidência da República e receber quase 50 milhões de votos, é um desses acontecimentos.

Como compreender que um político com tamanho respaldo popular, apoiado por uma poderosa estrutura partidária e pertencente a uma família que acaba de demonstrar extraordinária força eleitoral, decida abandonar o país?

Não estamos falando de um político isolado, sem apoio, sem partido, sem representação. Estamos falando de uma liderança que conquistou a confiança de quase 50 milhões de brasileiros e que, justamente por isso, assumiu responsabilidades que não desaparecem com a derrota eleitoral.

É essa contradição que impressiona. A força dos votos de um lado. A fraqueza da liderança de outro.

A decisão de deixar o Brasil, em circunstâncias que envolvem determinações judiciais e a possibilidade de proteção oferecida pelo presidente estadunidense Donald Trump, representa, a meu ver, uma traição política à confiança dos milhões de eleitores que votaram nele.

<><> A extraordinária força eleitoral do bolsonarismo

O resultado das eleições de 2026 demonstrou que o bolsonarismo continua sendo uma das principais forças políticas do Brasil.

O Partido Liberal elegeu 127 deputados federais e 28 senadores, consolidando uma representação parlamentar de enorme peso. Na Câmara dos Deputados, sua bancada representa aproximadamente um quarto das 513 cadeiras.

A força do sobrenome Bolsonaro também se manifestou nas urnas. Dos oito familiares que disputaram cargos eletivos, cinco foram eleitos.

Michelle Bolsonaro, esposa de Jair Bolsonaro e madrasta de Flávio, foi a candidata mais votada ao Senado pelo Distrito Federal. Carlos Bolsonaro conquistou uma cadeira no Senado por Santa Catarina. Renato Bolsonaro, irmão do ex-presidente, foi eleito deputado federal por São Paulo, enquanto Jair Renan Bolsonaro, seu filho mais novo, foi eleito deputado federal por Santa Catarina.

É uma demonstração impressionante de fidelidade eleitoral a uma família que transformou seu sobrenome em instrumento de mobilização política.

Essa força não pode ser ignorada. Ela representa milhões de brasileiros, uma parcela expressiva da sociedade, com presença organizada no Congresso Nacional e em diferentes estados.

E é precisamente por isso que a saída de Flávio Bolsonaro do país assume tamanha gravidade política.

Quem recebe milhões de votos não recebe apenas uma manifestação de simpatia. Recebe uma responsabilidade perante a sociedade.

<><> A rota da fuga: Argentina, Equador e Estados Unidos

A saída de Flávio Bolsonaro do Brasil apresenta circunstâncias que revelam a dimensão política de sua decisão.

Acompanhado da esposa e das duas filhas, o candidato derrotado atravessou a fronteira de Foz do Iguaçu com a Argentina na noite de terça-feira, 27 de outubro.

De Puerto Iguazú, embarcou em um avião particular fretado, um Gulfstream G400 operado pela empresa argentina Baires Fly.

Segundo as informações divulgadas pela imprensa argentina, a aeronave seguiu para Guayaquil, no Equador, país também governado pela direita, onde teria realizado uma escala de abastecimento antes de prosseguir para Miami, nos Estados Unidos.

As notícias sobre o deslocamento da aeronave não esclarecem, por si sós, todos os detalhes do paradeiro de Flávio Bolsonaro. A confirmação de que o avião chegou a determinado destino não equivale necessariamente à comprovação de que todos os passageiros desembarcaram ali.

O próprio Donald Trump, questionado sobre o assunto, declarou desconhecer o paradeiro de Flávio, embora tenha manifestado disposição de recebê-lo nos Estados Unidos.

A viagem ocorreu em meio a informações sobre uma determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, para que Flávio entregasse seus passaportes, inclusive o diplomático, e não deixasse o território nacional.

Se confirmada a desobediência à ordem judicial, estaremos diante de uma questão que ultrapassa a responsabilidade política e exige resposta das instituições competentes.

Mas o problema político já está colocado.

Como explicar aos quase 50 milhões de brasileiros que votaram em Flávio Bolsonaro que seu candidato, depois de mobilizar tamanha força eleitoral, decidiu deixar o país?

Uma liderança política não se mede apenas pelo número de votos que conquista. Mede-se também pela coragem de enfrentar as adversidades, pela fidelidade aos compromissos assumidos e pelo respeito às instituições.

A derrota eleitoral faz parte da democracia. Não deveria significar o abandono das responsabilidades públicas.

Do ponto de vista político, é difícil não interpretar essa atitude como uma traição à confiança depositada por milhões de eleitores.

<><> Lula enfrentou o cárcere

O contraste com a trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva é inevitável.

Lula foi investigado, processado, condenado e preso. Permaneceu 580 dias encarcerado na sede da Polícia Federal, em Curitiba, entre abril de 2018 e novembro de 2019.

Não abandonou o Brasil. Não procurou proteção de um governo estrangeiro. Enfrentou a prisão, sustentou sua defesa e continuou reivindicando a revisão das condenações.

Posteriormente, o Supremo Tribunal Federal anulou suas condenações na Lava Jato, reconhecendo problemas jurídicos fundamentais nos processos, entre eles a incompetência da vara que o julgou. O STF também reconheceu a parcialidade do então juiz Sergio Moro no caso do tríplex.

A anulação das condenações não corresponde, juridicamente, a uma sentença absolutória por inocência. Mas desconstituiu as decisões que haviam levado Lula à prisão.

O contraste político é evidente.

Lula enfrentou o cárcere e continuou sua trajetória política. Voltou a disputar eleições e retornou à Presidência da República pelo voto popular.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, depois de conquistar uma votação extraordinária, escolheu deixar o território nacional em circunstâncias que ainda exigem esclarecimento.

Não se trata de afirmar que sair do país seja, por si só, uma prova de culpa. Não é.

Trata-se de perguntar que espécie de liderança se revela diante da adversidade.

A grandeza de um dirigente não está apenas em conquistar votos, mas em assumir as consequências de seus atos e responder perante o povo que representa.

<><> Trump e a proteção estadunidense

Há ainda um componente internacional que torna esse episódio particularmente grave.

O presidente Donald Trump declarou que aceitaria receber Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos. A manifestação do presidente estadunidense sugere disposição política de acolhê-lo, embora não represente, por si só, a concessão de residência ou de qualquer outra condição migratória.

O episódio remete inevitavelmente à atitude de seu pai, Jair Bolsonaro, que deixou o Brasil no final de 2022, depois de perder a eleição presidencial para Lula, sem participar da transmissão da faixa presidencial.

Agora, o filho repete o caminho do pai, com uma diferença fundamental: Flávio acaba de receber quase 50 milhões de votos.

A família Bolsonaro construiu boa parte de seu discurso político em torno do patriotismo, da defesa da bandeira nacional e da exaltação dos símbolos brasileiros.

Entretanto, quando enfrenta dificuldades com as instituições nacionais, procura nos Estados Unidos uma proteção que não encontra no próprio país.

Que patriotismo é esse?

Como conciliar a defesa proclamada da pátria com a procura de proteção política junto ao governo de uma potência estrangeira?

O problema ultrapassa a situação pessoal de Flávio Bolsonaro. Envolve a soberania brasileira e o respeito às instituições da República.

O Brasil não pode aceitar que suas instituições sejam subordinadas à vontade de governos estrangeiros, muito menos que dirigentes políticos recorram à proteção de outras potências para escapar de suas responsabilidades nacionais.

A soberania não pode ser apenas uma palavra utilizada nos discursos eleitorais. Precisa ser um compromisso permanente com o país, com suas instituições e com seu povo.

<><> A força eleitoral não substitui a grandeza política

A democracia pressupõe o direito de disputar eleições, vencer e perder. Pressupõe também que os dirigentes políticos respeitem as instituições e respondam por seus atos.

Os quase 50 milhões de votos recebidos por Flávio Bolsonaro constituem uma força política extraordinária. Não podem ser apagados nem desprezados.

Mas também não podem funcionar como salvo-conduto diante da Justiça.

É justamente essa força eleitoral que torna sua atitude tão desconcertante.

Com uma bancada poderosa no Congresso, dezenas de senadores, governadores aliados e uma família amplamente representada nas instituições, Flávio dispunha de condições políticas para continuar liderando a oposição.

Poderia enfrentar as investigações, apresentar sua defesa, mobilizar seus correligionários e preparar seu partido para as disputas futuras.

Em vez disso, deixou o país.

A atitude revela, a meu ver, uma profunda debilidade de liderança. A força eleitoral demonstrada nas urnas não encontrou correspondência na disposição de assumir responsabilidades.

É possível conquistar milhões de votos sem possuir a grandeza política necessária para representar esses milhões de cidadãos nos momentos difíceis.

O verdadeiro dirigente não é aquele que aparece apenas nas vitórias, cercado de multidões e aplausos. É aquele que permanece ao lado de seus seguidores quando chegam as derrotas, as dificuldades e as adversidades.

Flávio Bolsonaro recebeu quase 50 milhões de votos. Sua saída do Brasil deixa esses eleitores diante de uma pergunta incômoda: onde está o líder em quem depositaram sua confiança?

O bolsonarismo demonstrou nas urnas uma força extraordinária. Mas seu candidato derrotado deixou o país no momento em que essa força precisava de direção política.

A história costuma ser implacável com os dirigentes que confundem popularidade com grandeza, poder eleitoral com autoridade moral e patriotismo com submissão a interesses estrangeiros.

O Brasil precisa de uma oposição democrática, capaz de disputar projetos de país, fiscalizar o governo e respeitar a soberania popular.

O que não precisa é de lideranças que reivindicam a confiança do povo nas urnas e, diante das adversidades, procuram abrigo sob a proteção de uma potência estrangeira.

A força de quase 50 milhões de votos não foi suficiente para manter seu candidato no país. Eis a contradição fundamental: um movimento politicamente poderoso, representado por uma liderança que, no momento decisivo, demonstrou sua fraqueza.

 

Fonte: Por Paulo Cannabrava Filho, em Diálogos do Sul Global

 

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