Flávio
Bolsonaro: a força de milhões de votos e a fraqueza de uma liderança
Há
acontecimentos políticos que provocam indignação e perplexidade. A notícia da
saída de Flávio Bolsonaro do Brasil, depois de disputar a Presidência da
República e receber quase 50 milhões de votos, é um desses acontecimentos.
Como
compreender que um político com tamanho respaldo popular, apoiado por uma
poderosa estrutura partidária e pertencente a uma família que acaba de
demonstrar extraordinária força eleitoral, decida abandonar o país?
Não
estamos falando de um político isolado, sem apoio, sem partido, sem
representação. Estamos falando de uma liderança que conquistou a confiança de
quase 50 milhões de brasileiros e que, justamente por isso, assumiu
responsabilidades que não desaparecem com a derrota eleitoral.
É essa
contradição que impressiona. A força dos votos de um lado. A fraqueza da
liderança de outro.
A
decisão de deixar o Brasil, em circunstâncias que envolvem determinações
judiciais e a possibilidade de proteção oferecida pelo presidente estadunidense
Donald Trump, representa, a meu ver, uma traição política à confiança dos
milhões de eleitores que votaram nele.
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A extraordinária força eleitoral do bolsonarismo
O
resultado das eleições de 2026 demonstrou que o bolsonarismo continua sendo uma
das principais forças políticas do Brasil.
O
Partido Liberal elegeu 127 deputados federais e 28 senadores, consolidando uma
representação parlamentar de enorme peso. Na Câmara dos Deputados, sua bancada
representa aproximadamente um quarto das 513 cadeiras.
A força
do sobrenome Bolsonaro também se manifestou nas urnas. Dos oito familiares que
disputaram cargos eletivos, cinco foram eleitos.
Michelle
Bolsonaro, esposa de Jair Bolsonaro e madrasta de Flávio, foi a candidata mais
votada ao Senado pelo Distrito Federal. Carlos Bolsonaro conquistou uma cadeira
no Senado por Santa Catarina. Renato Bolsonaro, irmão do ex-presidente, foi
eleito deputado federal por São Paulo, enquanto Jair Renan Bolsonaro, seu filho
mais novo, foi eleito deputado federal por Santa Catarina.
É uma
demonstração impressionante de fidelidade eleitoral a uma família que
transformou seu sobrenome em instrumento de mobilização política.
Essa
força não pode ser ignorada. Ela representa milhões de brasileiros, uma parcela
expressiva da sociedade, com presença organizada no Congresso Nacional e em
diferentes estados.
E é
precisamente por isso que a saída de Flávio Bolsonaro do país assume tamanha
gravidade política.
Quem
recebe milhões de votos não recebe apenas uma manifestação de simpatia. Recebe
uma responsabilidade perante a sociedade.
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A rota da fuga: Argentina, Equador e Estados Unidos
A saída
de Flávio Bolsonaro do Brasil apresenta circunstâncias que revelam a dimensão
política de sua decisão.
Acompanhado
da esposa e das duas filhas, o candidato derrotado atravessou a fronteira de
Foz do Iguaçu com a Argentina na noite de terça-feira, 27 de outubro.
De
Puerto Iguazú, embarcou em um avião particular fretado, um Gulfstream G400
operado pela empresa argentina Baires Fly.
Segundo
as informações divulgadas pela imprensa argentina, a aeronave seguiu para
Guayaquil, no Equador, país também governado pela direita, onde teria realizado
uma escala de abastecimento antes de prosseguir para Miami, nos Estados Unidos.
As
notícias sobre o deslocamento da aeronave não esclarecem, por si sós, todos os
detalhes do paradeiro de Flávio Bolsonaro. A confirmação de que o avião chegou
a determinado destino não equivale necessariamente à comprovação de que todos
os passageiros desembarcaram ali.
O
próprio Donald Trump, questionado sobre o assunto, declarou desconhecer o
paradeiro de Flávio, embora tenha manifestado disposição de recebê-lo nos
Estados Unidos.
A
viagem ocorreu em meio a informações sobre uma determinação do ministro
Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, para que Flávio entregasse
seus passaportes, inclusive o diplomático, e não deixasse o território
nacional.
Se
confirmada a desobediência à ordem judicial, estaremos diante de uma questão
que ultrapassa a responsabilidade política e exige resposta das instituições
competentes.
Mas o
problema político já está colocado.
Como
explicar aos quase 50 milhões de brasileiros que votaram em Flávio Bolsonaro
que seu candidato, depois de mobilizar tamanha força eleitoral, decidiu deixar
o país?
Uma
liderança política não se mede apenas pelo número de votos que conquista.
Mede-se também pela coragem de enfrentar as adversidades, pela fidelidade aos
compromissos assumidos e pelo respeito às instituições.
A
derrota eleitoral faz parte da democracia. Não deveria significar o abandono
das responsabilidades públicas.
Do
ponto de vista político, é difícil não interpretar essa atitude como uma
traição à confiança depositada por milhões de eleitores.
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Lula enfrentou o cárcere
O
contraste com a trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva é inevitável.
Lula
foi investigado, processado, condenado e preso. Permaneceu 580 dias encarcerado
na sede da Polícia Federal, em Curitiba, entre abril de 2018 e novembro de
2019.
Não
abandonou o Brasil. Não procurou proteção de um governo estrangeiro. Enfrentou
a prisão, sustentou sua defesa e continuou reivindicando a revisão das
condenações.
Posteriormente,
o Supremo Tribunal Federal anulou suas condenações na Lava Jato, reconhecendo
problemas jurídicos fundamentais nos processos, entre eles a incompetência da
vara que o julgou. O STF também reconheceu a parcialidade do então juiz Sergio
Moro no caso do tríplex.
A
anulação das condenações não corresponde, juridicamente, a uma sentença
absolutória por inocência. Mas desconstituiu as decisões que haviam levado Lula
à prisão.
O
contraste político é evidente.
Lula
enfrentou o cárcere e continuou sua trajetória política. Voltou a disputar
eleições e retornou à Presidência da República pelo voto popular.
Flávio
Bolsonaro, por sua vez, depois de conquistar uma votação extraordinária,
escolheu deixar o território nacional em circunstâncias que ainda exigem
esclarecimento.
Não se
trata de afirmar que sair do país seja, por si só, uma prova de culpa. Não é.
Trata-se
de perguntar que espécie de liderança se revela diante da adversidade.
A
grandeza de um dirigente não está apenas em conquistar votos, mas em assumir as
consequências de seus atos e responder perante o povo que representa.
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Trump e a proteção estadunidense
Há
ainda um componente internacional que torna esse episódio particularmente
grave.
O
presidente Donald Trump declarou que aceitaria receber Flávio Bolsonaro nos
Estados Unidos. A manifestação do presidente estadunidense sugere disposição
política de acolhê-lo, embora não represente, por si só, a concessão de
residência ou de qualquer outra condição migratória.
O
episódio remete inevitavelmente à atitude de seu pai, Jair Bolsonaro, que
deixou o Brasil no final de 2022, depois de perder a eleição presidencial para
Lula, sem participar da transmissão da faixa presidencial.
Agora,
o filho repete o caminho do pai, com uma diferença fundamental: Flávio acaba de
receber quase 50 milhões de votos.
A
família Bolsonaro construiu boa parte de seu discurso político em torno do
patriotismo, da defesa da bandeira nacional e da exaltação dos símbolos
brasileiros.
Entretanto,
quando enfrenta dificuldades com as instituições nacionais, procura nos Estados
Unidos uma proteção que não encontra no próprio país.
Que
patriotismo é esse?
Como
conciliar a defesa proclamada da pátria com a procura de proteção política
junto ao governo de uma potência estrangeira?
O
problema ultrapassa a situação pessoal de Flávio Bolsonaro. Envolve a soberania
brasileira e o respeito às instituições da República.
O
Brasil não pode aceitar que suas instituições sejam subordinadas à vontade de
governos estrangeiros, muito menos que dirigentes políticos recorram à proteção
de outras potências para escapar de suas responsabilidades nacionais.
A
soberania não pode ser apenas uma palavra utilizada nos discursos eleitorais.
Precisa ser um compromisso permanente com o país, com suas instituições e com
seu povo.
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A força eleitoral não substitui a grandeza política
A
democracia pressupõe o direito de disputar eleições, vencer e perder. Pressupõe
também que os dirigentes políticos respeitem as instituições e respondam por
seus atos.
Os
quase 50 milhões de votos recebidos por Flávio Bolsonaro constituem uma força
política extraordinária. Não podem ser apagados nem desprezados.
Mas
também não podem funcionar como salvo-conduto diante da Justiça.
É
justamente essa força eleitoral que torna sua atitude tão desconcertante.
Com uma
bancada poderosa no Congresso, dezenas de senadores, governadores aliados e uma
família amplamente representada nas instituições, Flávio dispunha de condições
políticas para continuar liderando a oposição.
Poderia
enfrentar as investigações, apresentar sua defesa, mobilizar seus
correligionários e preparar seu partido para as disputas futuras.
Em vez
disso, deixou o país.
A
atitude revela, a meu ver, uma profunda debilidade de liderança. A força
eleitoral demonstrada nas urnas não encontrou correspondência na disposição de
assumir responsabilidades.
É
possível conquistar milhões de votos sem possuir a grandeza política necessária
para representar esses milhões de cidadãos nos momentos difíceis.
O
verdadeiro dirigente não é aquele que aparece apenas nas vitórias, cercado de
multidões e aplausos. É aquele que permanece ao lado de seus seguidores quando
chegam as derrotas, as dificuldades e as adversidades.
Flávio
Bolsonaro recebeu quase 50 milhões de votos. Sua saída do Brasil deixa esses
eleitores diante de uma pergunta incômoda: onde está o líder em quem
depositaram sua confiança?
O
bolsonarismo demonstrou nas urnas uma força extraordinária. Mas seu candidato
derrotado deixou o país no momento em que essa força precisava de direção
política.
A
história costuma ser implacável com os dirigentes que confundem popularidade
com grandeza, poder eleitoral com autoridade moral e patriotismo com submissão
a interesses estrangeiros.
O
Brasil precisa de uma oposição democrática, capaz de disputar projetos de país,
fiscalizar o governo e respeitar a soberania popular.
O que
não precisa é de lideranças que reivindicam a confiança do povo nas urnas e,
diante das adversidades, procuram abrigo sob a proteção de uma potência
estrangeira.
A força
de quase 50 milhões de votos não foi suficiente para manter seu candidato no
país. Eis a contradição fundamental: um movimento politicamente poderoso,
representado por uma liderança que, no momento decisivo, demonstrou sua
fraqueza.
Fonte:
Por Paulo Cannabrava Filho, em Diálogos do Sul Global

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