A
vitória de Lula no segundo turno
A
vitória de Lula no segundo turno encerrou uma disputa eleitoral, mas abriu
outra responsabilidade política. Podemos respirar, celebrar e reconhecer o
esforço de quem conversou, caminhou, explicou, enfrentou a mentira e compareceu
às urnas. Não podemos, entretanto, confundir o alívio com uma autorização para
voltar à condição de espectadores. O voto decidiu quem deverá exercer a
Presidência; não resolveu, por si, as relações de força que atravessam o Estado
e a sociedade.
Se
queremos que o resultado se transforme em condições de vida, precisaremos
continuar presentes nas redes e, principalmente, nas ruas. A governabilidade
democrática exige negociação institucional, mas também uma sociedade
organizada, capaz de sustentar direitos, fiscalizar decisões e impedir que o
mandato popular seja reduzido à administração dos limites impostos pelos grupos
mais poderosos.
Essa
presença não deve ser pensada como prolongamento indefinido da campanha. Uma
sociedade não suporta viver quatro anos na intensidade emocional das últimas
semanas de uma eleição. O que precisamos construir é uma continuidade de outra
qualidade: menos dependente da emergência, mais enraizada nos lugares onde a
vida acontece.
O
entusiasmo deve encontrar formas de organização que sobrevivam à retirada dos
palanques. A conversa que ajudou alguém a decidir seu voto pode tornar-se
acompanhamento de uma política pública; o grupo que compartilhou informações
pode aprender a fiscalizar uma votação; a praça que recebeu a comemoração pode
acolher uma assembleia. A vitória terá duração política se a energia que a
produziu adquirir objetivos, responsabilidades e memória. Sem isso, a
mobilização corre o risco de deixar apenas fotografias.
É por
essa razão que precisamos olhar o território antes de anunciar uma
interpretação. O país não cabe na nossa rede de amizades, no grupo em que todos
concordam conosco ou na imagem de uma avenida tomada por bandeiras. Uma eleição
nacional reúne situações distintas, e a distribuição municipal dos votos impede
que a alegria se transforme em cegueira.
A
pergunta não é apenas onde Lula venceu. É também onde perdeu por pouco, onde
sua desvantagem diminuiu, onde o adversário permaneceu forte e que relações
sociais precisam ser investigadas para compreender esses resultados. Os números
permitem localizar diferenças; não autorizam, sozinhos, a atribuição de motivos
a milhões de pessoas. A interpretação começa quando recusamos tanto o mapa como
destino quanto a vontade política como explicação suficiente de tudo.
Segundo
o resultado divulgado pela Justiça Eleitoral, Lula venceu com 51,79% dos votos
válidos, diante de 48,21% de Flávio Bolsonaro. A diferença de 3,58 pontos
percentuais confere legitimidade à vitória e, simultaneamente, mostra a
dimensão eleitoral do campo derrotado. O balanço do TSE registrou
aproximadamente 128,2 milhões de votantes e abstenção de 19,2%, inferior aos
21,08% do primeiro turno.
Esses
dados confirmam a ampliação do comparecimento, mas não identificam
individualmente quem retornou às urnas nem permitem distribuir todos os novos
votos por uma causa única. Seria precipitado atribuir a mudança exclusivamente
às redes, exclusivamente às ruas ou a uma operação de campanha. O que se pode
afirmar é que a decisão se produziu com participação ampliada, num país que
continuou profundamente disputado.
Entre
as capitais, o levantamento do portal UOL baseado nos dados do TSE
registrou treze vitórias de Lula e catorze de Flávio Bolsonaro. Na cidade de
São Paulo, os percentuais foram 55,50% contra 44,50%; no Rio de Janeiro, 51,54%
contra 48,46%. As diferenças foram, portanto, de 11 e 3,08 pontos. Salvador deu
a Lula 73,23%, contra 26,77%, uma vantagem de 46,46 pontos; Recife, 61,27%
contra 38,73%, diferença de 22,54; Fortaleza, 60,07% contra 39,93%, diferença
de 20,14. Porto Alegre registrou 55,84% contra 44,16%, vantagem de 11,68
pontos. O mesmo levantamento mostra Flávio à frente em Belo Horizonte, por
50,80% a 49,20%; Brasília, por 54,28% a 45,72%; e Curitiba, por 62,29% a
37,71%. As diferenças foram de 1,60, 8,56 e 24,58 pontos, respectivamente.
Esses
contrastes recusam uma interpretação homogênea das grandes cidades. Há capitais
em que a vitória foi larga, outras em que uma pequena variação alteraria o
vencedor e outras em que a direita manteve vantagem expressiva. Também não
existe autorização para transformar o Nordeste num bloco sem diferenças: em
Maceió, Flávio alcançou 52,01%, diante de 47,99% de Lula, diferença de 4,02
pontos.
A força
regional do lulismo não elimina conflitos locais, assim como uma vitória
conservadora não apaga a presença de trabalhadores, estudantes e movimentos
democráticos naquela cidade. Uma política nacional consequente precisa
reconhecer essa diversidade sem fazer dela uma coleção de estereótipos. Nenhuma
população deve receber, como explicação de seu voto, um insulto disfarçado de
análise sociológica. O primeiro compromisso de quem pretende ampliar uma
maioria é reconhecer que ainda há muito a compreender.
São
Paulo permite observar outra diferença decisiva: a existente entre contar
municípios e contar eleitores. Na capital, Lula recebeu 3.864.354 votos e
Flávio Bolsonaro, 3.097.923: uma vantagem de 766.431 votos. No estado,
entretanto, Flávio venceu por 53,85% a 46,15% e foi o mais votado em 573 das
645 cidades; Lula venceu em 72. Ainda assim, a distância estadual caiu de 10,48
pontos, em 2022, para 7,70 pontos, em 2026.
Lula
ganhou menos municípios paulistas que na eleição anterior, mas reduziu sua
desvantagem no conjunto do estado. Em São Bernardo do Campo, obteve 55,37%,
contra 44,63%, diferença de 10,74 pontos. O aparente paradoxo desaparece quando
lembramos que cada município reúne contingentes eleitorais distintos e que
reduzir uma derrota também altera o resultado nacional.
Campinas
torna essa relação mais concreta. Flávio Bolsonaro recebeu 360.222 votos, ou
54,24%, e Lula, 303.914, ou 45,76%: diferença de 56.308 votos e 8,48 pontos
percentuais. A vantagem do candidato do PL permaneceu, embora tenha diminuído
em relação ao primeiro turno. Em Juiz de Fora, a direção foi outra: Lula
recebeu 184.952 votos e Flávio Bolsonaro, 135.835, uma diferença de 49.117
votos; os percentuais foram 57,66% e 42,34%, separados por 15,32 pontos.
São
dois municípios relevantes para compreender a heterogeneidade do Sudeste, não
amostras capazes de explicar toda a região. Os resultados recomendam investigar
trajetórias locais, formas de trabalho, serviços públicos e organização
política. Não permitem deduzir automaticamente que todo trabalhador de
determinado setor, ou todo morador de determinado bairro, votou da mesma
maneira.
Há,
ainda, um movimento que a imagem estática do vencedor municipal esconde.
Levantamento do jornal Folha de S. Paulo, também com dados do TSE,
identificou melhora da posição relativa de Lula em 96,7% dos municípios entre
os turnos e virada em 211 deles. Minas Gerais reuniu 76 dessas viradas e São
Paulo, 32. Rio de Janeiro e Macapá foram as capitais que mudaram de vencedor.
Em Itabirito, a diferença passou de aproximadamente 4,5 pontos favoráveis a
Flávio, no primeiro turno, para 4,9 pontos favoráveis a Lula, no segundo.
Melhorar
a posição relativa não significa receber todos os votos antes destinados a
outros candidatos. Significa que a distância entre os concorrentes se
modificou. O resultado nacional depende também dessas alterações menos
vistosas, ocorridas em lugares que continuam pintados com a cor do adversário.
Nesse
ponto, o livro Contrato social de Jean-Jacques Rousseau ajuda a formular
o problema, desde que não o convertamos numa justificativa retrospectiva para
qualquer posição de nosso campo. No livro II, capítulo I, a soberania aparece
como exercício da vontade geral e, por isso, não pode ser alienada. No livro
III, capítulo I, o governo é distinguido do soberano: cabe-lhe executar as leis
e administrar, não substituir o corpo político.
A
conclusão que podemos extrair para nosso debate é precisa: escolher governantes
não equivale a entregar-lhes definitivamente a capacidade de querer, julgar e
agir em comum. O povo não desaparece depois da eleição. A autorização conferida
a quem governa não transforma o cidadão em propriedade de um mandato, de um
partido ou de um dirigente.
É
necessário preservar, contudo, a distância histórica. Jean-Jacques Rousseau não
escreveu um manual para uma federação continental, socialmente desigual,
atravessada por partidos, sindicatos, plataformas digitais e instituições
representativas como as brasileiras. Sua crítica à representação, especialmente
no livro III, capítulo XV, não pode ser transportada sem mediações para
justificar o desprezo pelo Parlamento. Também seria incorreto identificar a
vontade geral com a soma dos votos de Lula, com uma manifestação de rua ou com
a preferência de uma liderança.
O
interesse comum precisa ser disputado e elaborado publicamente; nenhuma
organização pode declarar-se sua proprietária. A fecundidade de Jean-Jacques
Rousseau está na pergunta que nos obriga a manter aberta: como evitar que a
atividade dos governantes se autonomize daqueles em nome de quem o poder é
exercido?
Essa
pergunta altera o sentido da palavra governabilidade. Se ela significar apenas
capacidade de reunir votos parlamentares, negociar cargos e administrar
interesses já constituídos, teremos uma definição estreita de um problema muito
maior. Uma medida pode encontrar passagem institucional e, ainda assim,
afastar-se das necessidades que deram sentido à eleição. Inversamente, uma
demanda social pode ser justa e amplamente defendida, mas permanecer sem
tradução administrativa, orçamento ou apoio legislativo.
A
governabilidade democrática precisa construir essa passagem entre necessidade,
deliberação e realização. O governo tem responsabilidade própria nesse
processo; não pode transferir à população a culpa por toda dificuldade.
Cabe-lhe explicar escolhas, apresentar alternativas, negociar com transparência
e responder pelas decisões que toma. A mobilização popular amplia
possibilidades, mas não absolve administradores de suas obrigações.
Sustentar
Lula significa defender o direito de exercer o mandato conquistado e criar
condições sociais para que compromissos com a maioria sejam realizados. Não
significa aprovar antecipadamente cada decisão. Essa distinção não é um detalhe
moral acrescentado ao final de um argumento partidário; é uma condição de sua
consistência democrática. Um sindicato que reivindica melhores condições de
trabalho, uma comunidade que denuncia a ausência de atendimento ou uma
universidade que exige recursos não se tornam inimigos porque cobram um governo
em que votaram.
Se a
fidelidade exigida for o silêncio, a relação entre governo e sociedade se
empobrece. A crítica fundamentada oferece ao próprio governo informações que os
círculos de poder frequentemente filtram. Uma base social autônoma pode
defender um mandato e contestar uma medida sem que haja contradição entre os
dois gestos.
O
Congresso deve entrar nessa análise com a mesma precisão. A vitória
presidencial não dissolve a legitimidade de deputados e senadores eleitos, nem
torna ilegítima toda oposição. Divergir de um projeto, apresentar emendas ou
votar contra o Executivo pode fazer parte do funcionamento democrático. O
julgamento político precisa examinar o conteúdo e os efeitos de cada decisão,
identificando quem propõe, quem altera, quem vota e quem será atingido.
A
denúncia genérica de que o Parlamento impedirá tudo pode mobilizar por alguns
dias, mas também obscurece diferenças e favorece a desresponsabilização. Quando
todos aparecem como uma força indistinta, ninguém responde concretamente por
nada. A fiscalização popular ganha força ao tornar inteligível uma escolha:
qual direito foi restringido, qual despesa foi recusada, qual interesse recebeu
proteção e quais alternativas estavam disponíveis.
As
redes são indispensáveis nessa tarefa, mas sua presença não pode ser confundida
com organização suficiente. Uma mensagem pode alcançar milhares de pessoas sem
criar qualquer capacidade de ação comum. Um vídeo pode provocar indignação e
desaparecer antes que alguém compreenda o assunto. A velocidade favorece a
circulação; nem sempre favorece a reflexão. Precisamos de comunicação capaz de
explicar uma medida, indicar sua fonte, admitir incertezas e corrigir erros com
a mesma visibilidade dada à afirmação inicial.
Não há
defesa consequente da democracia quando a desinformação é condenada apenas no
adversário. O compromisso com a verificação precisa alcançar aquilo que
gostaríamos que fosse verdadeiro. A credibilidade acumulada pode valer mais, no
tempo longo da política, que a vantagem instantânea de uma mensagem falsa
compartilhada com entusiasmo.
É
principalmente nas ruas que essa continuidade pode adquirir corpo, desde que a
palavra rua seja compreendida em toda a sua extensão. Ela inclui manifestações,
mas também a reunião no bairro, o sindicato, a associação, a escola aberta à
comunidade, a atividade cultural e o encontro em que uma demanda dispersa se
torna assunto coletivo. Não basta ocupar fisicamente uma avenida se, depois,
ninguém sabe onde procurar os demais.
A força
de um ato depende também dos vínculos que o antecedem e das responsabilidades
que permanecem quando ele termina. Uma política popular precisa conseguir
voltar ao mesmo lugar, prestar contas do que foi feito e ouvir o que mudou. Sua
presença não deve ser reconhecida apenas pela proximidade de uma eleição, mas
pela disposição de compartilhar problemas que não cabem no calendário da
campanha.
A
defesa da presença nas ruas exige ainda um compromisso inequívoco com a ação
pacífica e com o pluralismo. Uma manifestação não representa automaticamente
toda a população, por maior que seja. Sua legitimidade está no direito de
tornar visíveis demandas e disputar decisões, não na pretensão de substituir
por aclamação os procedimentos que permitem a convivência democrática. O espaço
público deve permanecer aberto também a quem discorda de nós.
Defender
o mandato eleito significa preservar as condições em que outros poderão
disputar eleições e exercer oposição. Uma maioria que tenta tornar permanente
sua posição por meio da supressão dos direitos alheios destrói o princípio que
legitima a própria vitória. A firmeza política de que precisamos deve ser
acompanhada dessa disciplina democrática, inclusive nos momentos em que o
conflito elevar a temperatura.
A
universidade pública tem uma responsabilidade particular nessa construção. Não
lhe cabe fornecer selo acadêmico a uma preferência partidária, nem ocupar o
lugar de quem vive os problemas investigados. Cabe-lhe produzir conhecimento
rigoroso, formar capacidade de julgamento e tornar seus recursos intelectuais
acessíveis ao debate público. Professores, estudantes e pesquisadores podem
ajudar a ler um orçamento, compreender um indicador, examinar uma política e
identificar o que uma estatística permite concluir.
Podem
também aprender com saberes que não se originam na instituição. A extensão
ganha densidade quando estabelece reciprocidade e continuidade, em vez de
tratar a comunidade como destinatária passiva. Em um ambiente saturado de
afirmações rápidas, defender o tempo da explicação é uma contribuição política
concreta: permite que as pessoas participem com mais autonomia das decisões que
as afetam.
A
objeção mais forte à mobilização permanente merece ser enfrentada: ela poderia
manter o país em campanha, agravar a polarização e reduzir o espaço da
negociação. Esse risco existe quando a organização depende de fabricar
urgências, tratar todo desacordo como traição e exigir adesão sem perguntas.
Mas o risco não se resolve pela retirada da sociedade. Resolve-se pela
qualidade da participação: objetivos públicos, procedimentos abertos, respeito
às divergências e capacidade de negociar sem esconder o conteúdo do acordo.
Uma
sociedade organizada pode diminuir a distância entre governantes e governados,
enquanto uma sociedade apenas excitada pode ampliá-la. O desafio é transformar
intensidade em duração, indignação em entendimento e apoio em capacidade de
intervenção. Esse trabalho é menos espetacular que uma campanha, mas pode ser
politicamente mais profundo.
O
horizonte dessa mobilização deve ser concreto: melhores condições de trabalho,
serviços públicos de qualidade, formação, segurança, moradia e possibilidades
de futuro. Essas necessidades não desaparecem sob o brilho de uma vitória. O
tempo de quem espera atendimento, procura emprego ou tenta permanecer estudando
não coincide com o tempo das negociações institucionais. É preciso tornar essa
diferença politicamente visível, sem prometer soluções instantâneas nem
naturalizar adiamentos indefinidos.
Um
compromisso público deve permitir que se pergunte o que foi feito, o que falta,
por que falta e quem responde pelo próximo passo. Quando a espera não possui
interlocutor nem explicação, o reconhecimento de um direito pode conviver com
sua ausência cotidiana. A participação democrática deve trabalhar justamente
nessa distância entre a promessa e a experiência.
Ganhar
o segundo turno foi indispensável. Agora precisamos dar continuidade ao que a
eleição tornou possível. A defesa do governo eleito será mais forte quanto
maior for a autonomia, a organização e a capacidade crítica de sua base social.
Precisaremos das redes para comunicar e verificar, das instituições para
deliberar e executar, das ruas para tornar visível e compartilhada a vontade de
transformar a vida.
Não se
trata de permanecer para sempre na noite da apuração, repetindo a alegria de
uma vitória. Trata-se de levar para os dias comuns a responsabilidade que
aquela noite abriu. O voto não encerra a soberania popular. Depois que as urnas
se fecham, continua nossa tarefa de impedir que o povo seja chamado a decidir o
futuro apenas para, em seguida, ser afastado de sua construção. A democracia
precisa dessa presença cotidiana para que a vitória se torne vida digna.
Fonte:
Por João dos Reis Silva Júnior, em A Terra é Redonda

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