segunda-feira, 30 de setembro de 2024

José Reinaldo de Carvalho: ‘Unidade latino-americana - um brado de resistência contra o imperialismo estadunidense

A América Latina vive mais um capítulo de luta pela soberania e autodeterminação. O imperialismo estadunidense, sempre ávido por manter seu domínio sobre a região, intensifica suas agressões econômicas e políticas contra governos que ousam desafiá-lo.

Neste contexto, as sanções impostas a Cuba, Venezuela e Nicarágua não são apenas medidas unilaterais, mas armas de guerra que visam asfixiar os processos soberanos desses países. Diante disso, a resposta deve ser clara e contundente: a unidade latino-americana é a única saída para derrotar o imperialismo e garantir o futuro de paz e autodeterminação. 

Durante a 24ª Reunião do Conselho Político da Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América - Tratado Comercial dos Povos (ALBA-TCP), os ministros das Relações Exteriores de Cuba, Venezuela e Nicarágua denunciaram com veemência a contínua interferência dos Estados Unidos nos assuntos internos de seus países. O chanceler cubano, Bruno Rodríguez, foi incisivo ao denunciar como as oligarquias regionais, com o apoio de Washington, estão recorrendo a métodos que já deveriam ter sido abolidos, como novos tipos de intentonas golpistas, interferência nos assuntos internos, inclusive contendas eleitorais e ameaças de todo tipo para desestabilizar governos populares e progressistas e interromper processos revolucionários. 

·        Sanções: armas de guerra econômica

As sanções impostas pelos Estados Unidos a Cuba, Venezuela e Nicarágua são a mais nova manifestação das práticas imperialistas. Estas medidas coercitivas, que afetam diretamente as economias e as populações desses países, são eufemisticamente chamadas de "sanções", mas, na prática, equivalem a atos de guerra econômica. Elas buscam minar as bases econômicas, sociais e culturais dessas nações, forçando-as à submissão. No caso de Cuba, o bloqueio econômico, que já dura mais de seis décadas, é o mais longo da história moderna e tem causado enormes prejuízos ao povo cubano. Além disso, a inclusão de Cuba na lista de "Estados patrocinadores do terrorismo" é mais um exemplo do cinismo estadunidense, que utiliza esse rótulo para estrangular o país. 

Na Venezuela, o governo do presidente reeleito Nicolás Maduro enfrenta uma campanha maciça de desinformação e sabotagem promovida por forças internas e externas, em conjunto com avaliações que visam destruir sua soberania e desestabilizar seu governo. A Venezuela é alvo de uma guerra de novo tipo, na qual o imperialismo estadunidense utiliza todas as suas ferramentas — desde a mídia até a sabotagem econômica — para tentar destruir um projeto soberano e independente. 

A Nicarágua, por sua vez, também sofre o impacto dessas medidas brutais. O ministro das Relações Exteriores da Nicarágua, Valdrack Jaentschke, expressou durante a reunião da ALBA-TCP que as chamadas sanções nada mais são do que a continuação das instruções militares e interferências que o imperialismo impôs à América Latina ao longo dos séculos 19 e 20. Para ele, a resistência dos países da ALBA não é apenas uma luta contra a agressão direta dos Estados Unidos, mas também parte de um processo mais amplo de transição para uma nova ordem mundial multipolar, mais justa e igual

·        O papel da ALBA-TCP na resistência

A Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América - Tratado Comercial dos Povos (ALBA-TCP) tem mostrado ser um bastião de resistência contra as ofensivas imperialistas. Durante o encontro recente, os membros do bloco  reafirmaram seu compromisso com a unidade e a cooperação mútua para enfrentar os desafios impostos pelas potências hegemônicas. A ministra das Relações Exteriores da Bolívia, Celinda Sosa, destacou que as potências imperialistas continuam a ameaçar a unidade da América Latina, tentando interferir nos processos internos e minar a soberania das nações.

Essa solidariedade entre os países da ALBA é um exemplo claro de que a resistência é possível. Ao defenderem conjuntamente a autodeterminação de seus povos, esses países estão enviando uma mensagem forte: não serão intimidados pelas tentativas dos Estados Unidos de impor sua agenda de dominação. A unidade latino-americana é, portanto, a resposta mais eficaz contra a estratégia imperialista de dividir para

·        A urgência da solidariedade regional

As palavras de Bruno Rodríguez durante o Conselho Político da ALBA-TCP ecoam a urgência de fortalecer a solidariedade regional. A América Latina não pode permitir que os Estados Unidos continuem a desestabilizar governos soberanos com golpes, sabotagem econômica e campanhas de desinformação. A história nos ensina que a fragmentação da América Latina sempre favorece as potências estrangeiras, e a unidade de nossos povos é a única maneira de garantir a paz, o desenvolvimento e a justiça social em

É essencial que os países da América Latina e Caribe consolidem seus laços e rejeitem categoricamente qualquer forma de interferência externa. Como bem lembrou Rodríguez, “não há nação na nossa região que esteja imune aos planos de desestabilização”. Se permitirmos que Cuba, Venezuela e Nicarágua sejam asfixiadas pelas ações imperialistas, abriremos caminho para que outros países da região sejam os próximos alvos

A América Latina deve unir-se mais uma vez em defesa de sua soberania e dignidade. O imperialismo estadunidense continua agindo para enfraquecer governos progressistas e impor sua agenda de exploração. No entanto, a resistência demonstrada por Cuba, Venezuela e Nicarágua é um exemplo de que, mesmo diante das agressões mais brutais, é possível lutar e vencer.

A unidade latino-americana é uma necessidade histórica. A ALBA-TCP, com o seu compromisso inquebrantável com a soberania dos povos, deve continuar persistindo nessa luta. 

 

¨      ‘O servo da guerra e o estadista da paz’. Por Marcelo Zero

Zelensky continua com suas agressões gratuitas contra o Brasil e contra Lula. É algo doentio.

Agora, na ONU, Zelensky criticou abertamente a proposta de paz Brasil/China para solucionar o conflito da Ucrânia. Chamou-a de “destrutiva”, sem sequer saber de algum detalhe, pois ela ainda não foi exposta em suas minúcias.

Trata-se apenas de uma proposição de princípios básicos para a abertura de um diálogo, em torno de uma paz factível e realista.

Entre outros pontos, a proposta do Brasil e da China destaca que:

As duas partes acreditam que o diálogo e a negociação são a única solução viável para a crise na Ucrânia. Todos os atores relevantes devem criar condições para a retomada do diálogo direto e promover a desescalada da situação até que se alcance um cessar-fogo abrangente. O Brasil e China apoiam uma conferência internacional de paz realizada em um momento apropriado, que seja reconhecida tanto pela Rússia quanto pela Ucrânia, com participação igualitária de todas as partes relevantes, além de uma discussão justa de todos os planos de paz.

Como se vê, trata-se uma proposição “muito destrutiva.”

Zelensky questionou também o “real interesse” de Lula, da China e do Brasil em tal acordo. Insinuou, de forma canalha, que Lula quer ter protagonismo às expensas da Ucrânia. Que não teria real interesse em paz.

Ora, Lula não precisa da Ucrânia e de sua guerra para ter protagonismo. Ao contrário de Zelensky, Lula é um grande líder mundial que está empenhado em uma agenda positiva de combate à pobreza, às desigualdades, às mudanças climáticas, de uma nova governança global etc. E na construção de um mundo pacífico, simétrico e multipolar.

Já Zelensky apresenta ao mundo apenas seu chamado “plano da vitória”, isto é, seu plano de continuidade da guerra com a Rússia, pois a sua “proposta” implica rendição incondicional de Moscou.

Na realidade, Zelensky está investindo em uma guerra que afeta o mundo inteiro e que está se tornando cada vez mais perigosa. Uma guerra que ameaça alastrar-se e se transformar em um enfrentamento franco entre a Otan e a Rússia, dois polos militares nuclearizados.

Putin já deixou claro que poderá utilizar esse tipo de arma, caso a Otan/Ucrânia insistam numa ofensiva em território russo.

Observe-se, a esse respeito, que a Rússia dispõe de armas nucleares táticas, que podem ser colocadas em mísseis hipersônicos, capazes de atingir cerca de 8 mil quilômetros por hora. Não é bom apostar, como fazem alguns desavisados, que a recente decisão de Moscou é apenas um blefe.

Como disse Lula, se Zelensky fosse inteligente, ele apostaria na diplomacia.

Lula tem toda razão.

A Ucrânia não possui condições de ganhar essa guerra, mesmo com a montanha de ajuda que recebe do Ocidente.

Kiev já perdeu mais de 500 mil combatentes nesse esforço inútil e não tem reservas para continuar a sustentar uma guerra de degaste com a Rússia, que dispõe de reservas militares bem maiores e amplo domínio em artilharia e aviação.

Aos poucos, mas de forma sistemática, a Ucrânia perde cada vez mais território, com a continuidade da guerra. Embora o objetivo de Moscou nunca tenha sido a conquista da Ucrânia, como dizem os desinformados, as forças militares russas já dominam cerca de 23% do território ucraniano. E seguem avançando.

A tendência inexorável, com a continuidade da guerra, é a de que a Ucrânia perca mais território, tornando cada vez mais assimétricas as negociações, em detrimento de Kiev.

Por isso, analistas comprometidos com um mínimo de racionalidade consideram que seria do interesse objetivo da Ucrânia iniciar negociações de paz sérias e realistas. No mínimo, se evitaria mais derramamento inútil de sangue ucraniano.

Zelensky, no entanto, pressionado pelos EUA e a Otan, persiste no esforço bélico, e aprofunda e a alarga a guerra.

Mas Zelensky sequer é um “senhor da guerra”. É servo de uma guerra, à qual a Ucrânia foi conduzida por interesses geopolíticos dos EUA e aliados.

Já Lula, que Zelensky tem obsessão em criticar, é um estadista de nível internacional, um senhor da paz e das negociações.

Se fosse “esperto”, Zelensky ouviria Lula. Afinal, ouvir Lula é ouvir o Sul Global e a voz da razão. Não é pouco.

 

¨      'Plano de vitória' de Zelensky pode levar à grande guerra na Europa, acredita mídia

O chamado "plano de vitória" proposto pelo atual líder ucraniano Vladimir Zelensky pode levar a uma guerra em grande escala na Europa, envolvendo os Estados Unidos, disse o analista e ex-oficial militar norte-americano Robert Maginnis em um artigo publicado na revista on-line American Thinker.

O artigo faz referência ao encontro do presidente dos EUA Joe Biden com Zelensky, no qual, segundo vários relatos da mídia, o líder da Ucrânia solicitou, mais outra vez, a permissão de atacar o território russo com armas ocidentais de longo alcance.

"Vladimir Zelensky está nos Estados Unidos esta semana para vender seu plano de vitória sobre a Rússia, que, se for aceito, pode levar a uma guerra mais ampla na Europa, incluindo com os Estados Unidos", escreveu ele.

De acordo com Maginnis, o ponto principal do plano de Zelensky é obter a aprovação da administração Biden para lançar ataques com mísseis aos territórios russos que estão longe da zona do conflito.

Se os Estados Unidos aprovarem o plano de Zelensky, isso vai levar a uma forte escalada do conflito, acredita Maginnis.

Contudo, após o encontro de ontem (26), a Casa Branca apenas declarou alocar cerca de US$ 8 bilhões (R$ 43,5 bilhões) para ajuda à Ucrânia.

No que diz respeito ao ponto principal, ainda antes das conversações, uma porta-voz presidencial norte-americana disse que os Estados Unidos não fariam declarações sobre autorização de ataques à Rússia.

O porta-voz da presidência russa, Dmitry Peskov, comentando o plano de Zelensky, disse que Moscou está ciente da essência do governo ucraniano, continua a operação militar especial e atingirá todos os seus objetivos.

Peskov enfatizou que ainda não existe um "plano" tangível, nem mesmo para o Ocidente.

¨      Trump diz a Zelensky que tem 'relacionamento muito bom' com Putin e cita fim de conflito

Nesta sexta-feira (27), Donald Trump e Vladimir Zelensky se reuniram na Trump Tower, em Nova York.

Ao lado de Zelensky, o candidato republicano à Casa Branca afirmou que trabalharia com a Ucrânia e a Rússia para acabar com o conflito, segundo o g1.

"Temos um relacionamento muito bom [com Zelensky], e eu também tenho um relacionamento muito bom, como vocês sabem, com o presidente [Vladimir] Putin", disse o ex-presidente, acrescentando que "se vencermos, vamos resolver isso muito rapidamente", referindo-se às eleições presidenciais de 5 de novembro nos Estados Unidos.

Falando a repórteres na Trump Tower, Zelensky disse que quer discutir com Trump o seu "plano de vitória" para a Ucrânia. O encontro entre o republicano e o ucraniano acontece após Zelensky visitar a Casa Branca, no dia anterior (26).

A oposição ao governo, liderada por Trump, acusou o presidente Joe Biden e a vice-presidente e também candidata, Kamala Harris, de usarem o encontro com intuito eleitoreiro, a 40 dias da eleição presidencial no país.

Na quarta-feira (25), o Comitê de Supervisão da Câmara dos Representantes dos EUA informou que está investigando o Poder Executivo pelo suposto uso de fundos públicos para financiar um voo de Zelensky à Pensilvânia para fazer campanha para Harris.

 

Fonte: Brasil 247/Sputnik Brasil

 

Daron Acemoglu: ‘Escapando da Nova Era Dourada’

Em uma América onde a riqueza se tornou cada vez mais a principal fonte de status social, os bilionários são vistos como gênios empreendedores que exibem níveis únicos de criatividade, coragem, previsão e experiência em uma ampla gama de tópicos. No entanto, deveria ser óbvio que a riqueza é uma métrica ruim para a sabedoria.

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Bilionários da tecnologia como Bill Gates, Mark Zuckerberg e Elon Musk não estão apenas entre as pessoas mais ricas da história da humanidade. Eles também são excepcionalmente poderosos – social, cultural e politicamente. Embora isso seja em parte um reflexo do status social que nossa sociedade atribui à riqueza em geral, essa não é a história toda.

O que importa ainda mais do que a simples riqueza é que esses bilionários em particular são vistos como gênios empreendedores que exibem níveis únicos de criatividade, ousadia, previsão e experiência em uma ampla gama de tópicos. Adicione o fato de que muitos deles controlam os principais meios de comunicação – ou seja, as principais plataformas de mídia social – e você tem algo quase inigualável na história recente.

A imagem do rico e corajoso empresário que transforma o mundo pode ser rastreada até pelo menos os barões ladrões da Era Dourada. Mas uma das principais fontes de seu apelo popular contemporâneo é o romance Atlas Shrugged de Ayn Rand, cujo protagonista, John Galt, se esforça para recriar o capitalismo por meio da força bruta de seu idealismo e vontade.

Embora o romance de Rand tenha mantido status canônico nas mentes dos empreendedores do Vale do Silício e políticos de tendência libertária, a influência de seu arquétipo central dificilmente se limita a esses círculos. De Bruce Wayne (Batman) e Tony Stark (Homem de Ferro) a Darius Tanz na série de TV Salvation, inovadores ricos e tecnologicamente experientes que salvam o mundo de um desastre iminente são um marco da nossa cultura popular.

·        O poder da bolsa

Alguns indivíduos sempre terão mais poder do que outros, mas quanto poder é demais? Antigamente, o poder era ligado à força física ou à proeza militar, enquanto agora seus privilégios geralmente derivam do que Simon Johnson e eu chamamos de “poder de persuasão”, que, como explicamos em nosso livro Power and Progress, está enraizado em status ou prestígio. Quanto maior seu status, mais facilmente você pode persuadir os outros.

As fontes de status variam muito entre as sociedades, assim como a extensão em que ele é distribuído de forma desigual. Nos Estados Unidos, o status tornou-se firmemente ligado ao dinheiro e à riqueza durante a Revolução Industrial, e a desigualdade de renda e riqueza disparou como resultado. Embora tenha havido períodos em que a intervenção do governo buscou reverter a tendência, a sociedade americana sempre foi estruturada em torno de uma hierarquia de status íngreme.

Essa estrutura é problemática por vários motivos. Para começar, a competição constante por status — e o poder de persuasão que ela confere — é em grande parte um caso de soma zero, porque status é um “bem posicional”. Mais status para você significa menos status para seu vizinho, e uma hierarquia de status mais íngreme implica que algumas pessoas serão felizes enquanto muitas outras serão infelizes e insatisfeitas.

Além disso, investimentos em atividades de soma zero tendem a ser ineficientes e excessivos em comparação a investimentos em atividades de soma não zero. É melhor gastar um milhão de dólares em relógios Rolex de ouro ou em aprender novas habilidades?

Ambos podem ter valor intrínseco — a beleza do relógio versus o orgulho de adquirir novos conhecimentos — mas o primeiro investimento apenas sinaliza que você é mais rico e mais capaz de consumo conspícuo do que os outros. O segundo, por outro lado, aumenta seu capital humano e também pode contribuir para a sociedade. O primeiro é em grande parte de soma zero, e o segundo é em grande parte de soma não zero. Pior, o primeiro pode facilmente sair do controle, pois todos gastam ainda mais em consumo conspícuo para ficar à frente dos outros.

Os comentaristas costumam perguntar por que alguém com centenas de milhões de dólares precisaria de centenas de milhões a mais. Existem poucas coisas que você não pode pagar se já tem US$ 500 milhões, então por que ansiar por US$ 1 bilhão? Porque “bilionário” é uma classificação de status. O que importa não é o poder de compra, mas o prestígio e o poder que ele confere em relação aos seus pares. Num equilíbrio de “riqueza é status”, uma corrida louca dos ultra-ricos para acumular cada vez mais riqueza torna-se inevitável.

·        A Ditadura do Diletantismo

Existem bases evolutivas e sociais para vincular o poder de persuasão ao status e prestígio. Afinal, é individualmente racional aprender com pessoas que têm experiência, e é razoável vincular a experiência ao sucesso.

Além disso, essa forma de aprendizado é boa para as comunidades, porque facilita a coordenação e a convergência para as melhores práticas. Mas quando o status é vinculado à riqueza, e a desigualdade de riqueza cresce muito, a base que sustenta a experiência começa a ruir.

Considere o seguinte experimento mental. Quem tem maior experiência em carpintaria – um bom carpinteiro mestre ou um bilionário de fundos de hedge? Parece natural escolher o primeiro; mas quanto mais a riqueza confere status, maior o peso atribuído às visões dos bilionários de fundos de hedge, mesmo sobre carpintaria. Ou considere um exemplo contemporâneo mais relevante. Quais visões sobre liberdade de expressão têm mais peso hoje, um bilionário da tecnologia ou um filósofo que há muito tempo luta com o problema, e cujas evidências e argumentos foram submetidos ao escrutínio de outros especialistas qualificados? Milhões de pessoas no X (Twitter) escolheram implicitamente o primeiro.

Quanto mais nos aprofundamos no equilíbrio “riqueza é status”, mais podemos aceitar a supremacia dos bilionários da tecnologia. No entanto, é difícil acreditar que a riqueza possa ser uma medida perfeita de mérito ou sabedoria, muito menos um proxy útil para autoridade em carpintaria ou liberdade de expressão. Além disso, a riqueza é sempre um tanto arbitrária. Podemos discutir infinitamente se LeBron James é melhor do que Wilt Chamberlain era no auge de sua carreira no basquete, mas em termos de riqueza, não há disputa. Enquanto Chamberlain tinha um patrimônio líquido estimado em US$ 10 milhões na época de sua morte em 1999, o patrimônio líquido de James é estimado em US$ 1,2 bilhão.

Esses resultados diferentes não são sobre o talento ou a ética de trabalho de cada jogador. Em vez disso, Chamberlain viveu em uma época em que as estrelas do esporte não eram compensadas tanto quanto são hoje. Isso tem a ver em parte com tecnologia (todos podem assistir James hoje em dia graças à TV e à mídia digital), em parte com normas (pagar centenas de milhões para superestrelas culturais se tornou mais aceitável) e em parte com impostos (se os EUA ainda tivessem uma taxa marginal de imposto de renda acima de 90%, James teria menos dinheiro e o país teria menos desigualdade de riqueza).

Da mesma forma, se o setor de tecnologia não tivesse se tornado tão central para a economia e se não fosse impulsionado por uma dinâmica tão forte de vencedor leva tudo (que é em parte uma questão de escolha sobre como organizamos certos mercados), os magnatas da tecnologia de hoje não teriam se tornado tão ricos. O fato de Gates e Musk terem sido tributados menos não os torna mais sábios, mas certamente os tornou mais ricos e, portanto, mais influentes sob o equilíbrio prevalecente de “riqueza é status”.

·        O poder corrompe

Tais figuras também se beneficiam de uma dinâmica ainda mais perniciosa que Johnson e eu exploramos em Poder e Progresso, usando o exemplo de Ferdinand de Lesseps. Lesseps ganhou um status tremendo na França do final do século XIX, onde era conhecido como “Le Grand Français”, devido ao seu sucesso em concluir a construção do Canal de Suez diante da oposição britânica de longa data ao projeto.

Lesseps teve visão e demonstrou grande habilidade em convencer políticos no Egito e na França de que o comércio marítimo internacional se tornaria muito importante. Mas ele também teve muita sorte: as tecnologias esperadas de que ele precisava para construir o canal sem eclusas (o que era inicialmente impossível devido à quantidade de escavação e escavação envolvidas) foram desenvolvidas bem a tempo de salvar o projeto.

Com sua vitória em Suez, Lesseps ganhou grande prestígio. Mas o que ele fez com seu novo status é instrutivo. Ele se tornou imprudente, desequilibrado e arrogante, empurrando o projeto do Canal do Panamá em uma direção impraticável que, no final, levou à morte de mais de 20.000 pessoas e à ruína financeira de muitas outras (incluindo sua própria família). Como todas as formas de poder, o poder de persuasão pode tornar alguém arrogante, desenfreado, perturbador e socialmente desagradável.

A história de Lesseps continua relevante, porque claramente tem ecos no comportamento de muitos bilionários hoje. Enquanto alguns dos indivíduos mais ricos dos Estados Unidos não usam seu status derivado da riqueza para influenciar debates públicos críticos (pense em Warren Buffett), muitos o fazem. Gates, Musk, George Soros e outros não hesitam em opinar sobre questões que são importantes para eles, e embora seja fácil acolher tais contribuições daqueles com quem concordamos, devemos resistir a essa tentação. Faz muito sentido para a sociedade explorar o conhecimento e a sabedoria daqueles com experiência em um determinado tópico, mas é contraproducente amplificar o status daqueles que já têm muito status (e estão trabalhando muito para aumentá-lo).

·        Outra maneira

Claro, não é inteiramente culpa dos bilionários que a política dos EUA esteja alimentando uma desigualdade massiva (embora eles certamente façam lobby por políticas que tenham esse efeito). Eles devem, no entanto, assumir a responsabilidade se fizerem mau uso do imenso status que a riqueza lhes proporciona em condições de desigualdade crescente. Isso é especialmente verdadeiro quando eles alavancam seu status para promover seus próprios interesses econômicos às custas dos outros, ou para polarizar uma sociedade já dividida com retórica provocativa ou comportamento de busca por status.

Se bilionários irresponsáveis ​​já exercem muita influência social, cultural e política indevida, a última coisa que deveríamos querer é dar a eles fóruns públicos ainda maiores — por exemplo, na forma de sua própria rede social, como Musk agora tem por meio de sua propriedade da X. Em vez disso, deveríamos buscar meios institucionais mais fortes para limitar o poder e a influência daqueles que já são privilegiados, bem como reconsiderar as políticas tributárias, regulatórias e de gastos que criaram tais disparidades massivas em primeiro lugar.

Mas o passo mais importante também será o mais difícil. Precisamos começar a ter uma conversa séria sobre o que devemos valorizar e como podemos reconhecer e recompensar as contribuições daqueles que não comandam vastas fortunas. Embora a maioria das pessoas concorde que há muitas maneiras de contribuir para a sociedade e que se destacar na vocação escolhida deve ser uma fonte de satisfação individual e estima dos outros, desconsideramos esse princípio e corremos o risco de esquecê-lo completamente. Isso também é um sintoma do problema.

 

Fonte: Jornal GGN

 

Como equilibrar os pratos de ensino, pesquisa e extensão?

Uma carreira de sucesso como pesquisador, mais de 2 mil citações no google acadêmico. Já enquanto docente, na sala de aula, um profissional com muitas dificuldades em transmitir o conteúdo da disciplina.

A situação acima descreve perfeitamente, na minha visão, um dos professores do meu programa de pós-graduação e também alguns que tive na graduação. Já quero deixar bem sinalizado que esta não é uma coluna que tem a intenção de culpabilizar esses profissionais.

Primeiro porque, em muitos deles, eu notava claramente o quanto tentavam transmitir o conteúdo da melhor forma. Segundo, porque creio que estamos diante de uma problemática institucional e que nasce no próprio modelo de pós-graduação brasileiro, ou seja, na escola de formação dos futuros docentes universitários.

•        Autonomia do estudante e consequências no aprendizado

Sou graduado em economia pela USP e me lembro que, na apresentação do curso, o coordenador disse algo como "Vocês agora estão na faculdade, não mais no cursinho ou ensino médio. Não esperem aulas 'show' e aprendam a ter autonomia na aprendizagem".

Entendo o ponto dele e concordo. Já falei aqui na coluna muitas vezes sobre o fato de que o estudante tem, sim, responsabilidade na própria aprendizagem, e que esta precisa ser um processo horizontal e não vertical.

No entanto, nada me tira da cabeça que, mesmo no melhor dos mundos, é necessário ter um professor que realmente consiga nos transmitir o conteúdo e ser um mediador entre nós e o conhecimento. Já tive docentes sensacionais: você assiste à aula sem piscar e sai dela querendo compartilhar com todos ao redor o quanto aprendeu.

Por outro lado, já tive aqueles com quem eu não conseguia entender o conteúdo de forma alguma e também docentes com os quais prestar atenção em suas aulas era um desafio gigantesco. Nessas disciplinas, confesso, tenho lacunas na aprendizagem, e o problema é quando isso ocorre com disciplinas relevantes para aquela formação específica.

Assumo minha parcela de responsabilidade e poderia sim ter estudado sozinho e de forma autônoma, mas, para mim, o papel de um professor mediando ainda é muito importante.

•        O papel do modelo atual

Reforço aqui, outra vez, que não estou culpabilizando o docente universitário. Alguém pode, claro, trazer relatos de professores que eram maus profissionais e que nem tentavam ser bons, mas isso tem em qualquer profissão e não é argumento para sustentar a tese de que o docente universitário não se importa com a aprendizagem de seus alunos.

A maioria dos professores, sim, tenta fazer um bom trabalho, mas o sistema não ajuda. Para pintar o quadro, precisamos de três ingredientes: o modelo de pós-graduação, o modelo de contratação dos docentes universitários e a formação continuada desses profissionais.

•        Pós-graduação não forma professores

O problema começa logo na pós-graduação. Para ser docente universitário no Brasil, no geral, o caminho é: graduação, mestrado e depois o doutorado.

A questão é que os programas de pós-graduação, em geral, não formam futuros professores, mas sim futuros pesquisadores. Salvo em casos específicos, não há disciplinas de didática e nem políticas que visam desenvolver essas habilidades no corpo discente.

Aqueles que decidem prosseguir na carreira acadêmica, ao assumirem vagas em universidades públicas, terão pelo menos três responsabilidades: ensino, pesquisa e extensão. Além disso, há outras atribuições.

Serão excelentes em todas as funções? Provavelmente não. E isso não é culpa do profissional, mas sim do modelo. A razão é que ele, primeiro, sobrecarrega esse profissional e, segundo, porque desconsidera as preferências e diferenças de perfis.

O terceiro ingrediente é a preparação para esses profissionais assumirem o cargo de docência, sobretudo em um cenário em que suas formações na pós-graduação, muito provavelmente, não os preparam para isso. Muitas universidades já oferecem cursos de didática e afins, mas acaba sendo algo bem pontual e não pautado em uma formação contínua.

No final, temos excelentes pesquisadores que não gostariam de ser professores, mas que precisam. Assim como profissionais que desejam fortemente a excelência nos três pilares, mas que simplesmente não conseguem, dada a grande quantidade de atribuições. Ou seja: o próprio modelo, no limite, irá enviesar o potencial de pelo menos um dos pilares.

•        O que pode mudar?

No contexto de respeitar as diferenças de perfis e preferências, seria perfeito se houvesse a possibilidade de escolher qual ou quais funções alguém gostaria de assumir ao ingressar na docência. Isso, na verdade, já ocorre em universidades de outros países. Nelas, já há o cargo apenas de pesquisador.

No Brasil, por causa da grande quantidade de universidades públicas, talvez seja uma política ousada demais, tanto no sentido de ruptura quanto no sentido orçamentário. O motivo: uma mudança dessas exigiria mais profissionais nas universidades. Infelizmente, muitas delas já fazem milagre com o recurso que recebem.

Então, a solução se pauta no pré- e no pós-ingresso na docência.

No pré, estamos falando dos programas de pós-graduação. Ainda que nem todos os discentes almejem a atuação futura como docentes, seria muito interessante que fossem implementadas, de modo obrigatório, disciplinas de didática que visassem o desenvolvimento de habilidades indispensáveis para qualquer docente.

Além disso, há margem para aumentar os projetos e bolsas, tanto no nível federal quanto estadual e até mesmo universitário, que visem proporcionar experiências práticas de docência para os discentes.

Paralelo a isso, é preciso aumentar as políticas que já existem em caráter obrigatório de formação e desenvolvimento após o ingresso na docência. Para fazerem um bom trabalho, é necessário que todos esses profissionais recebam o suporte necessário e atualizado.

 

•        O gap entre a formação universitária e o mercado de trabalho

Uma grande amiga é psicóloga formada pela USP. Lembro-me de uma conversa que tivemos há alguns anos em que ela compartilhou a grande dificuldade que muitas colegas de turma estavam enfrentando para entrar no mercado de trabalho e divulgar os próprios serviços.

A razão é que hoje em dia é muito comum que profissionais da psicologia sejam autônomos, ou seja: que estejam completamente sozinhos, desde a divulgação dos próprios serviços até a gestão das próprias carreiras e horários.

E não somente os da psicologia. O mercado de trabalho mudou bastante, e muitas áreas, sobretudo na era das redes sociais, seguem a mesma estrutura.

É possível, sim, ganhar um bom dinheiro e ser bem-sucedido, tendo um grande número de clientes/pacientes e se especializando o bastante para cobrar um valor acima do mercado, mas isso requer habilidades que a graduação simplesmente não ensina, especialmente nas universidades públicas.

Assim, uma galera se vê formada na USP, UFRJ, UFRGS, UFBA, UNICAMP e em muitas das melhores do Brasil, mas completamente perdida sobre como vender os próprios serviços e trilhar uma trajetória de sucesso no mercado de trabalho.

<><> É obrigação da universidade pública capacitar para o mercado de trabalho?

Falei sobre o caso depois com outro amigo e sugeri políticas que a universidade deveria adotar para instrumentalizar melhor os egressos para o mercado de trabalho atual. Na visão dele, esse não deveria necessariamente ser o papel da universidade pública.

A instituição é muito forte em pesquisa e nesse quesito é indiscutivelmente bem-sucedida, com pesquisadores de renome internacional, pesquisas de ponta e contribuições diretas para o desenvolvimento do país.

Sou egresso da USP e atualmente faço mestrado na UFRJ. Tenho muito orgulho da jornada que venho construindo, mas em alguns momentos, confesso, senti falta de uma maior proximidade com o mercado de trabalho de modo geral – digo, no caso, de um contato mais estreito com grandes empresas e até mesmo grandes instituições governamentais, no sentido da prática mesmo profissional.

Aí fica o questionamento, é obrigação da universidade pública estreitar esses laços e criar políticas focalizadas em preparar os discentes para a vida pós-universidade?

Obrigação é uma palavra meio forte. Não diria que é o caso e entendo quem defenda que os mundos não se misturem, mas acho sim que há margem para trabalhar essa lacuna.

<><> Lacuna entre o mundo na universidade e o mercado de trabalho

Em algum momento da minha vida eu já acreditei que um diploma da USP ou de qualquer universidade pública era uma chave-mestra para qualquer oportunidade de emprego. A realidade se mostrou diferente e vejo colegas e amigos completamente perdidos nessa fase da transição para o mercado de trabalho, enviando 100 currículos e recebendo nenhum retorno ou uma oportunidade cuja remuneração é exatamente a mesma oferecida a alguém sem qualquer tipo de formação.

Não estou, em nenhuma medida, questionando a qualidade das formações ofertadas. Os professores são excelentes, os cursos são excelentes e recebemos formações sólidas e de muita qualidade.

Minha provocação é que de um lado temos uma formação sólida e um diploma que foi bravamente conquistado, e de outro há um universo prático de trabalho onde nos encontramos completamente perdidos e que, não exageradamente,  estamos despreparados para desbravar. Tenho contato diário com universitários de letras de todo o país e vejo o quanto é incrivelmente desafiador entrar no mercado de trabalho e o quanto carecem das instruções mais básicas.

É fato que hoje em dia em boa parte das áreas, para não dizer todas, o mainstream é ser autônomo ou empreendedor, ou seja, como dito no início da coluna: focar tanto em divulgar o próprio serviço, quanto na administração e no trabalho em si. Refiro-me a áreas como: jornalismo, direito, psicologia, fisioterapia, etc.

Por outro lado, é muito mais difícil para um engenheiro de petróleo ou para um profissional da enfermagem, por exemplo, trilhar o caminho de forma autônoma. Nessas áreas, o mais seguro e tradicional ainda é entrar em alguma empresa ou instituição.

Em ambos os casos, sobretudo no primeiro, as universidades falham em auxiliar seus discentes, criando um mar de egressos com nada mais além de uma formação teórica e um diploma.

<><> Quais políticas podem ser adotadas?

Em muitos cursos há iniciativas dos próprios alunos, como as empresas júnior, que focam em treinar para uma aplicação mais prática do aprendizado do curso. Há, inclusive, relatos dizendo que isso é um grande diferencial na entrevista de emprego. Alinhado a isso, há também coordenações de alguns cursos que criam laboratórios práticos e parcerias bem bacanas nesse sentido.

No entanto, de modo geral, há margem para um trabalho mais enfático e focalizado, a nível institucional.

Seria interessante que, em áreas onde o mais comum é trabalhar de forma autônoma ou ir para o caminho do empreendedorismo, fosse adicionada na grade curricular, pelo menos, uma disciplina de preparação. Nela, poderia ser trabalhadas questões básicas de marketing: como divulgar os próprios serviços, como abordar as pessoas, como administrar a agenda e a carreira em si, como escolher os próprios preços.

Essa disciplina teria esses conceitos básicos já aplicados por área. Por exemplo: a para estudantes de direito teria especificidades que a para a galera da psicologia não teria. Afinal, são carreiras diferentes e com suas idiossincrasias.

Enfim, questões aparentemente básicas, mas que seriam de extrema importância e que ajudariam muito os discentes. Até porque, essa inserção no mercado é muito mais desafiadora para quem vem de famílias de baixa renda, e o ingresso na universidade, para eles, é sim uma grande ação para que possam ascender socialmente. É preciso ajudar esses indivíduos para além de os capacitar teoricamente, justamente para que suas formações encontrem o potencial máximo.

 

Fonte: Por Vinícius De Andrade, em DW Brasil

 

Fran Smith: ‘O pensamento positivo pode prolongar a vida?’

Após a morte de meu pai, minha mãe entrou em um centro comunitário com piscina e começou a nadar várias vezes por semana. Dorothy tinha quase 80 anos. Ela conheceu gente, aprendeu sobre programas e serviços locais para pessoas mais velhas, e descobriu um centro de idosos que continua sendo seu ponto de encontro há 18 anos.

Ela serve almoço por um dólar. Um DJ anima o local e ela começa a dançar. Ela fez amigos, incluindo um grupo de mulheres que se encontram para almoçar todos os sábados em um restaurante que serve porções enormes e café. Eu costumo dizer que ela tem uma vida social melhor do que a minha.

Os cientistas sabem há bastante tempo que pessoas com fortes laços com amigos e familiares tendem a viver muito tempo. Uma equipe da Universidade Brigham Young (EUA) analisou os resultados de 148 estudos que datam de 1900, quando investigaram o efeito das relações sólidas na longevidade. Ao todo, os estudos incluíram 308 849 participantes e acompanharam temas durante quase oito anos. No final daquela época, as pessoas com fortes conexões sociais tinham 50% mais chances de estarem vivas do que aquelas que estavam isoladas e solitárias.

De acordo com a análise, uma vida social satisfatória era tão benéfica para a sobrevivência a longo prazo quanto deixar de fumar (algo que minha mãe fez após quatro décadas de tabagismo) e pode ser ainda mais crucial do que o exercício e a superação da obesidade, por exemplo.

As conexões sociais podem influenciar a saúde através do que os pesquisadores chamam de "amortecimento do estresse". O apoio de outros nos ajuda a nos adaptarmos emocionalmente a doenças, à morte de um ente querido ou a outros desafios que muitas vezes se acumulam à medida que envelhecemos. Lidar melhor com estes desafios, por sua vez, facilita o fluxo de hormônios induzidos pelo estresse que enfraquecem nosso sistema imunológico e aumentam a suscetibilidade a infecções mortais, doenças cardíacas e acidentes vasculares cerebrais. Relações fortes também nos encorajam a cuidar melhor de nós mesmos e podem proporcionar uma sensação de propósito – um outro fator associado a uma vida mais longa.

Em pesquisas como esta, é claro, é difícil encontrar o que chamamos de causa e efeito. O envolvimento social mantém as pessoas idosas saudáveis – ou a saúde robusta lhes dá o prazer e o desejo de passar tempo com os amigos? De qualquer forma, uma nota dos editores acompanhando a análise de Brigham Young dizia que os médicos e outros profissionais de saúde "deveriam levar as relações sociais tão a sério quanto outros fatores de risco que afetam a mortalidade".

“Os cientistas sabem há bastante tempo que pessoas com fortes laços com amigos e familiares tendem a viver muito tempo.”

•        O poder das crenças

Becca Levy, professora de epidemiologia e psicologia na Universidade de Yale, mostra outra influência na longevidade saudável: nossas crenças sobre o envelhecimento. Dezenas de estudos foram publicados mostrando que pensar na marcha como um momento para desfrutar ou algo a temer tem uma influência poderosa sobre o que fazemos bem ou mal ao nos aproximarmos desse estágio.

Ele ficou curioso sobre os efeitos na saúde das crenças sobre o envelhecimento e como os estereótipos e valores culturais sobre os idosos moldam nossas atitudes pessoais, como um estudante de pós-graduação visitando o Japão. Este país tem uma das maiores expectativas de vida do mundo. Por muito tempo, os cientistas atribuíram isso aos genes e à dieta, mas Levy se perguntou se ele estava interpretando algo menos óbvio.

Suas ideias sobre as crenças sobre o envelhecimento foram consolidadas quando um feriado nacional, o Keiro No Hi, que significa Dia do Respeito ao Idoso, chegou em setembro. Pessoas mais velhas enchiam parques e cenários de restaurantes de graça. Alunos entregaram comida aos presos. No Japão, observei, as pessoas mais importantes impunham respeito e até reverência. Eles não foram deixados de lado ou ridicularizados como "velhos" ou "além da colina".

"O que eu realmente notei foi como a cultura parecia tratar de maneira diferente os membros mais velhos da sociedade japonesa, ao contrário da discriminação etária que eu estava acostumado a ver nos Estados Unidos", lembra Levy.

Levy descobriu que os adultos na faixa dos 30 e 40 anos, que tinham noções positivas sobre a velhice – eles a equiparam com sabedoria, por exemplo, ao invés de decrepitude – tinham mais probabilidade de estar com boa saúde décadas mais tarde. Em outro estudo, ela mostrou que pessoas com 50 anos ou mais que tinham uma visão otimista do envelhecimento eram muito mais capazes de realizar tarefas diárias durante seus próximos 18 anos – atividades como tirar a neve do chão e andar meio quilômetro. As pessoas mais velhas que tinham crenças de idade positivas no início de um dos estudos de Levy também tinham muito mais chances de se recuperar totalmente após uma lesão incapacitante.

A pesquisa de Levy também sugere que as percepções positivas do envelhecimento oferecem proteção contra o declínio cognitivo, mesmo em adultos que são geneticamente suscetíveis. Levy e seus colegas estudaram pessoas que carregavam o gene APOE ε4, o que aumenta o risco de Alzheimer. No início do projeto, todos os seus sujeitos estavam livres de demência. Aqueles que tinham uma visão otimista da velhice tinham 47% menos probabilidade de desenvolver demência do que os portadores do gene APOE ε4, que tinham noções sombrias de envelhecimento.

Em outro estudo, Levy descobriu que pessoas relativamente jovens, saudáveis e cognitivamente adequadas, que não viam nada promissor sobre envelhecer, tinham muito mais probabilidade de eventualmente desenvolver no cérebro marcas patológicas da doença de Alzheimer. E seus hipocampos, as estruturas cerebrais curvas essenciais para a memória, encolheram três vezes mais rápido.

Talvez o fato mais marcante, Levy descobriu que as pessoas com a visão mais otimista do envelhecimento viveram em média sete anos e meio mais do que as pessimistas.

•        Mente sã, corpo são

Como as crenças exercem tal poder? Por um lado, diz Levy, pessoas com uma mentalidade positiva sobre o envelhecimento tendem a ter melhor autoeficácia e autodomínio, a capacidade de assumir o controle de suas vidas e regular seus impulsos. Elas também tendem a comer bem, a se exercitar e a tomar medicamentos prescritos. E têm níveis mais baixos de cortisol hormonal e outros biomarcadores do estresse.

Escrever é uma maneira de mudar a forma como pensamos sobre o envelhecimento. Em um estudo, Levy pediu a grupos de adultos que imaginassem um dia na vida de uma hipotética pessoa idosa, física e mentalmente saudável, e escrevessem brevemente sobre isso uma vez por semana. Após apenas quatro semanas, as percepções negativas sobre o envelhecimento diminuíram significativamente.

Em outro estudo, ela propôs que os participantes mantivessem um diário com fotos de idosos que eles viam na TV. Ela abriu os olhos das pessoas para os estereótipos condescendentes e feios que nos bombardeiam e distorcem nossas percepções e suposições sobre o envelhecimento. "A ideia é tornar as pessoas mais conscientes, tanto de suas próprias crenças etárias quanto de mensagens de fé etária que encontram na vida cotidiana", explica Levy.

Perguntei a Levy se nossa visão coletiva sobre o envelhecimento melhorou à medida que a população mais idosa passou a ultrapassar os 65 anos". Na verdade, ela me disse, os preconceitos de idade pioraram.

Ela e seus colegas desenvolveram um programa linguístico computadorizado e analisaram um banco de dados com mais de 400 milhões de palavras de livros, jornais, revistas e periódicos acadêmicos de 200 anos atrás. A equipe examinou os adjetivos que mais frequentemente apareciam com palavras "idosas" e similares, e os sinônimos para "pessoas idosas". A linguagem era geralmente positiva até o final do século 19, quando a expectativa de vida para os brancos nos Estados Unidos era de 41 anos. (Os pesquisadores naquela época não rastreavam a expectativa de vida para outras populações). Desde então, as palavras relacionadas à velhice tornaram-se cada vez mais desdenhosas.

Os idosos podem ser o último grupo de pessoas que nossa sociedade se sente livre para zombar, diz Levy. Ela aponta para notícias sobre piadas cruéis no início da pandemia da Covid, quando pessoas com mais de 65 anos estavam morrendo a taxas excepcionalmente altas e o termo "removedor de boomer (termo para alguém nascido logo após a Segunda Guerra)" se tornou um meme amplamente compartilhado no Twitter.

Ler pesquisas de cientistas na tentativa de desvendar os mistérios do envelhecimento pode fazer com que seja difícil sentir-se bem por envelhecer. A ideia de "curar" o envelhecimento o transforma em uma. Os estudos publicados começam, incessantemente, com más notícias. "O envelhecimento é um processo degenerativo que leva à disfunção dos tecidos e à morte", começa um artigo sobre o tema.

"Acho que ao rotular o envelhecimento como uma doença, são ignorados muitos pontos fortes do envelhecimento e as muitas maneiras pelas quais pode haver crescimento na vida futura", diz Levy.

“Adultos na faixa dos 30 e 40 anos que tinham noções positivas sobre a velhice tinham mais probabilidade de estar com boa saúde décadas mais tarde.”

•        O futuro da medicina

Quanto mais aprendi sobre a ciência da longevidade, mais entusiasmado fiquei com as perspectivas de descobertas que beneficiarão a todos à medida que envelhecemos. Mas quando me aproximava dos 68, não conseguia me livrar das imagens incômodas da disfunção tecidual e da morte celular que ocorre dentro de mim.

Steve Horvath, desenvolvedor de relógios epigenéticos para medir a idade biológica, ofereceu-se para fazer um teste comigo – um teste com o nome de GrimAge. Enviei-lhe dois frascos minúsculos do meu sangue. Alguns meses depois, recebi os resultados: minha idade biológica era 3,3 anos mais baixa do que minha idade cronológica.

O relatório ofereceu um alegre parabéns. Mesmo assim, eu me senti decepcionado. Certamente eu não estava em sintonia com alguns dos cientistas da longevidade que conheci, como David Sinclair, que se exercitam religiosamente, rapidamente, tomam suplementos ou drogas fora do padrão, e parecem estar muito dispostos a enfrentar o tempo.

Depois pensei em minha mãe, ainda curtindo a vida aos 90 anos. A pesquisa de Becca Levy me convenceu de que a visão de minha mãe explica, pelo menos em parte, sua vitalidade. Nunca a ouvi resmungar sobre seu aniversário ou dizer que não pode fazer algo porque é muito velha, uma reclamação que começo a ouvir de amigos da minha idade.

"Não. Eu não sou muito velha. Talvez  faça as coisas mais devagar, e talvez faça menos coisas. Mas não sou muito velha para dançar ou caminhar, ou fazer qualquer coisa que eu goste de fazer".

Ela faz uma pausa. "Bem, eu não nadaria mais".

"Porque você não o faz há muito tempo?"

"Porque eu não gosto da minha aparência no traje de banho".

 

Fonte: National Geographic Brasil