'Um
dos grandes mistérios da ciência': o que a anestesia geral revela sobre o nosso
cérebro
Em
1797, o almirante Horatio Nelson (1758-1805), comandante da Marinha britânica,
teve seu braço direito amputado.
A
cirurgia salvou sua vida. Mas reza a lenda que o único anestésico que ele
recebeu foi um gole de rum.
Na
maior parte da história humana, a retirada de membros foi realizada em
pacientes totalmente despertos. A anestesia geral revolucionou as cirurgias, mas surgiu apenas
em 1846.
A
partir dali, passamos a desligar temporariamente a consciência, a qualquer
momento, em qualquer lugar, em qualquer pessoa. Com ela, Nelson poderia não ter
testemunhado a amputação e ser ligado novamente para o café da manhã do dia
seguinte.
Atualmente,
são realizadas mais de 350 milhões de cirurgias com anestesia geral todos os anos. Mas ainda não sabemos ao
certo como estes medicamentos misteriosos nos colocam para dormir.
Agora,
surgem novas indicações que ensinam aos cientistas as funções fundamentais do
nosso cérebro. Elas chegam a nos
dar pistas sobre as origens da nossa própria consciência.
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Sono universal
Existem
diversas categorias de anestésicos. Alguns trabalham
bloqueando diretamente a dor, enquanto outros nos deixam relaxados e
sonolentos.
Mas a
anestesia geral vai um passo além. Ela nos deixa inconscientes e, com isso,
ficamos sem nenhuma percepção do que quer que aconteça em seguida.
Existe
uma infinidade de anestésicos capazes de induzir o
estado de inconsciência. Eles variam de gases aparentemente inertes raramente
empregados na prática, como o xenônio, até o propofol, que é o anestésico geral
mais comum e amplamente utilizado.
Os
anestésicos gerais podem ter estruturas químicas muito diferentes. Mas seu
efeito geral é interferir na comunicação entre as células
nervosas do cérebro, evitando que elas conversem entre si.
Imagens
de ressonância magnética mostram claramente que existe uma redução global da atividade cerebral. O que não sabemos
ao certo é como exatamente isso leva o paciente a dormir.
Entre
outras coisas, ainda não está claro se o estado de inconsciência induzido pelo
anestésico exige o desligamento total, ou seja, do cérebro inteiro, ou se,
talvez, algumas regiões são mais importantes do que outras.
"Mesmo
se todo o cérebro desligar, como ele é muito interconectado, fica muito difícil
identificar o que acionou o desligamento global", explica o professor de
biofísica e anestesia Nick Franks, do Imperial College de Londres.
"Se
você observar as imagens cerebrais, fica claro que existem certas regiões mais
sensíveis, que são desligadas em primeiro lugar. Isso levanta a questão de se
elas acionariam o desligamento global."
Frank
indica o tálamo, uma estrutura em
formato oval em local profundo do cérebro. Ele age como núcleo central entre as
regiões cerebrais.
Esta
região parece se desligar primeiro quando alguém recebe anestesia geral.
O
tálamo desempenha papel fundamental no início e na manutenção do sono, entre outras
funções. Será que a anestesia funciona "sequestrando" o circuito
natural do sono no cérebro?
"Se
você anestesiar um animal e estimular em seguida uma parte muito seletiva do
tálamo, você pode acordá-lo", explica
Franks.
"Estudos
também demonstram que algumas pessoas em coma podem ser acordadas por estimulação talâmica. Ou seja, esta é uma
área crítica para o despertar."
Mas são
necessários novos estudos para descobrir se isso é o que está acontecendo.
Outros
cientistas acreditam que o córtex cerebral (a camada enrugada
externa do cérebro) seja a principal "casa da consciência" e, por
isso, é ali que os anestésicos devem exercer seus maiores efeitos.
Mas
existem outras regiões cerebrais que também estão relacionadas, como os lobos frontal e parietal.
O
primeiro fica um pouco atrás da testa e é responsável por muitas atividades de
nível superior, como o pensamento crítico. O segundo fica mais atrás e está
envolvido no processamento de informações sensoriais, como o tato.
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Terceiro estado
Mas
estão surgindo indicações de que o nosso cérebro pode ser capaz de manter um
estado de consciência intermediário, ou seja, nem adormecido, nem acordado.
Na
maioria das pessoas, ser anestesiado significa a perda total da consciência e,
portanto, de toda a memória dos eventos. Mas não é o que acontece com todas as
pessoas.
Calcula-se
que um em cada 15 mil pacientes que passam por cirurgia pode se lembrar de
aspectos da intervenção depois de acordar. Este fenômeno é conhecido como
consciência acidental.
O
anestesista Jaideep Pandit, dos Hospitais da Universidade de Oxford, no Reino
Unido, acredita que esses indivíduos vivenciem um "terceiro estado"
de consciência, em algum ponto entre adormecer e acordar, ou entre a
consciência e a inconsciência.
Durante
seus estudos, Pandit ofereceu aos pacientes um anestésico e um relaxante
muscular, mas usou um torniquete para evitar que o relaxante paralisasse o
antebraço. Esta medida permitiu que os pacientes inconscientes movessem sua
mão, se assim o desejassem.
Ele
concluiu que um terço dos pacientes conseguiu, sob comando, apertar os dedos da
pessoa responsável pelo experimento, embora não mostrassem sinais de estarem
acordados, nem de sentirem dor durante a cirurgia.
Pandit
indica que este resultado sugere que existe um terceiro nível de consciência.
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A singularidade do pensamento consciente
O
chamado "problema difícil da consciência" permanece sendo um dos
grandes mistérios não resolvidos da ciência. Mas observar o que há de diferente
quando perdemos esta capacidade ajuda a desvendar os seus segredos.
É
verdade que o sono regular também envolve a perda da consciência, mas a
anestesia geral nos permite desligá-la a qualquer momento, facilitando seu
estudo.
Um
ponto importante é a singularidade das nossas experiências conscientes. É
geralmente aceito que a experiência consciente de cada pessoa ou animal é
totalmente subjetiva e específica para eles.
O
neurocientista Andrea Luppi, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido,
investigou se a anestesia geral pode ajudar a explicar como isso funciona.
Ele
examinou o cérebro de pessoas sob anestesia geral, utilizando imagens de
ressonância magnética funcionais. Esta tecnologia pode registrar o fluxo de
sangue no cérebro, para observar o impacto dos anestésicos.
Luppi
se interessou particularmente pela conectividade funcional, que é a medida de
como as diferentes regiões do cérebro se comunicam e coordenam sua atividade.
Normalmente,
este tipo de atividade neural segue um padrão tão único que pode agir como uma
"impressão digital", para identificar uma pessoa.
Mas
Luppi e seus colegas concluíram que, sob os efeitos da anestesia, os cérebros
individuais deixam de ser tão "únicos" e passam a ser mais parecidos
entre si.
O
interessante é que o cérebro humano anestesiado também se torna menos distinto
do cérebro dos outros primatas. Isso sugere que as regiões do cérebro humano
mais afetadas pela anestesia são aquelas que são mais recentes, evolutivamente
falando.
Luppi
acredita que uma importante característica da anestesia é que ela impede
diferentes regiões do cérebro de conversar entre si.
Quando
estamos acordados, essas regiões conseguem interagir, mesmo que não estejam
diretamente conectadas. Mas isso é muito raro no cérebro anestesiado, onde
apenas regiões diretamente ligadas entre si parecem "conversar".
"Quando
estamos acordados, o fluxo da consciência orienta a sequência de padrões
cerebrais que visitamos", escreveu Luppi em 2024. Mas ele explica
que, sob anestesia, a atividade cerebral fica sem direção.
As
descobertas de Luppi se enquadram na ideia de que a consciência não resulta da
atividade em uma região específica do cérebro. Trata-se, isso sim, de uma rede.
A
consciência surge da coordenação entre diferentes centros. É como suspender as
ações de um governo, desligando os sistemas de comunicação do país.
Luppi
também acredita que a anestesia geral poderá esclarecer como os psicodélicos,
como o LSD e a psilocibina (os "cogumelos mágicos"), alteram o estado
de consciência das pessoas.
Os
anestésicos atenuam a comunicação entre diferentes regiões do cérebro, enquanto
os psicodélicos parecem fazer o contrário. Eles induzem o cérebro a abrir novas
linhas de comunicação.
Mas, em
última análise, existe ainda muito a aprender sobre o local onde reside a
consciência no cérebro humano.
"Nossa
compreensão da consciência é muito rudimentar", segundo o professor de
anestesiologia e medicina perioperatória e da dor Boris Heifets, da
Universidade de Stanford, no Estado americano da Califórnia.
"Por
isso, acho que, se você conseguir encontrar alguém que explique como funciona a
experiência consciente, por favor, me avise. Eu adoraria falar com eles."
Importante: todo o conteúdo
desta reportagem é fornecido apenas como informação geral e não deverá ser
tratado como substituto ao aconselhamento de um médico ou outro profissional de
saúde.
Fonte:
BBC Future

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