segunda-feira, 28 de setembro de 2026

As teias abertas de Flávio Bolsonaro

O livro "As veias abertas da América Latina", de 1971, no qual o jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano discorre sobre como os mais de 400 anos de espoliação das nações europeias sobre as colônias da América Latina, incluindo o imperialismo norte-americano a partir do século 19, influenciaram muitos jovens da América Latina e Caribe. Me inspirou, também, a fazer paródia no título desta coluna que aborda uma arte de conexões de Flávio Bolsonaro (perdoem os erros do original) que circulou no X esta semana. As "Teias de Flávio Bolsonaro" se interligam no caso Master, de Daniel Vorcaro, cujo avião Embraer Legacy 650, prefixo PP-NLR, tinha como sócios o advogado Willer Tomaz e o ex-banqueiro, como cotistas da Prime You.

Ao ser pego, esta semana, em mais uma mentira em relação a seu relacionamento com Vorcaro, quando a revista "Piauí" revelou que o senador (PL-RJ) voou, em janeiro de 2025, da Flórida (Fort Lauderdale) para Brasília com a mulher Fernanda e as duas filhas, além de Willer Tomaz e senhora, o presidenciável Flávio Bolsonaro (que negara, em maio deste ano, conhecer Daniel Vorcaro, e teve que se explicar diante do áudio irrefutável em que tratava o banqueiro como "irmão"), caiu em nova contradição. O avião também serviu ao ministro Alexandre de Moraes e senhora em agosto de 2025.

Quando relatou sua primeira conversa com Daniel Vorcaro para pedir R$ 134 milhões para bancar o filme "Dark horse", disse que foi no final de 2024, "quando não se tinha levantado os problemas de Vorcaro". Embora diga que tinha certeza de que o avião usado era do advogado Willer Tomaz, "uma amizade legítima", a verdade é que o voo, em janeiro de 2025 já foi sob as asas de Vorcaro, que a partir de fevereiro começou a liberar mensalmente as verbas para o doleiro Antônio Carlos Freixo Junior, o "mineiro", dono da Entre Investimentos, transferir os dólares, após escala no paraíso fiscal das Bahamas, para o fundo Havengate, gerido no Texas pelo advogado de Eduardo Bolsonaro, Paulo Calixto. "Mineiro", por sinal, como delator do Master, conecta PCC, "Dark horse" e Vorcaro. E aqui para nós: quais amizades não são legítimas?

<><> Oito tópicos com rolos do senador

Separados por cores na arte acima, os rolos em que o presidenciável se envolveu desde que se elegeu deputado estadual pelo Rio de Janeiro, em 2003, chamam a atenção pelas interligações do advogado Willer Tomaz (o da "amizade legítima"), não só no caso Master como no caso dos descontos ilegítimos do INSS, e como também na tentativa de levar na mão grande a casa do jogador Richarlyson, Em Angra dos Reis - RJ.

Willer Tomaz, que operava nos bastidores para Daniel Vorcaro, era amigo do desembargador Newton Ramos, cujo escritório da mulher, Camila Ramos, iria receber R$ 427 milhões (5%) do Master se conseguisse a liberação antecipada de títulos precatórios no Tribunal Regional Federal da 1ª região, de onde o ministro Kassio Nunes Marques saiu para o STF, de 12 processos de usinas de açúcar e álcool que reclamavam indenização do Tesouro Nacional. O Conselho Nacional de Justiça anulou o caso e determinou a devolução de R$ 4,7 bilhões ao Tesouro Nacional. Ou seja, quase cobre os gastos de R$ 5,8 bilhões decorrentes da atualização do Bolsa Família pela inflação de 15% desde 2022.

Willer Tomaz está envolvido em tráfico de influência no escândalo do INSS, em favor de Antônio Carlos Antunes, o “careca do INSS” – por incrível coincidência, a empresa de Flávio, Bravo Grafeno, que produz capacetes para motociclistas, tinha o mesmo contador e o endereço de 16 outras empresas do “careca do INSS”, em Brasília. Willer venceu também concorrência fraudulenta da concessão da RioPag (Loterj), no governo Cláudio Castro, aliado político de Flávio Bolsonaro no Rio de Janeiro. O governo Cláudio Castro, como vão revelando as etapas da “operação Carbono Oculto”, facilitou as fraudes fiscais do Grupo Refit de Ricardo Magro, refugiado nos Estados Unidos (a devassa feita pelo governador interino mostra casos de arrepiar).

<><> Relações perigosas com a milícia

A revelação do jornal “O Estado de S. Paulo”, de que o gabinete do senador destinou verba de R$ 200 mil, proveniente do “Orçamento Secreto”, em 2024, a projeto esportivo do miliciano Robinson Calixto, pede mais explicações do que a resposta protocolar do gabinete do senador que pode vir a ser presidente da República. Calixto, conhecido como “Peixe”, foi condenado em 2025, pelo Supremo Tribunal Federal, por atuar como fornecedor de armas para milícias da Zona Oeste, área dos irmãos Brazão. Incluindo, o fuzil usado por Ronnie Lessa para matar a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes, em 2018.

Quando era deputado estadual na Alerj, além das “rachadinhas”, cujas investigações foram arquivadas, em 2020, após a troca do ministro da Justiça e Segurança Pública Sérgio Moro por Anderson Torres, Flávio Bolsonaro não se cansava de condecorar PMs matadores e milicianos, cuja atuação justificava "em nome da segurança". O miliciano Adriano da Nóbrega, um dos chefões do “Escritório do Crime”, foi um dos condecorados por Flávio, que empregou, em seu gabinete na Alerj, a mulher e parentes do miliciano, morto em 2020, na Bahia.

Assim como tinha ou tem relações com milicianos, o senador fez alianças com deputados da Alerj vinculados ao Comando Vermelho, como TH Joias e o ex-presidente Rodrigo Bacellar, seu candidato e de Cláudio Castro a governador.

Advogado nem sempre escolhe clientes. Mas é estranho que entre os clientes do escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro figure o “Faraó dos Bitcoins”. O garçom e pastor evangélico Glaydson A. Santos foi preso e condenado por criar pirâmide financeira em bitcoin que lesou clientes em R$ 9 bilhões. Convenhamos: jogatina sem controle e evasão fiscal e de divisas dão as mãos com as criptomoedas. E o Brasil é o país onde elas apresentam a maior expansão...

<><> As apostas nas 'bets'

Depois que o presidente Lula comparou as “bets” a câncer e disse que levaram “cassino para dentro de casa”, Flávio Bolsonaro procurou associar o governo Lula à regulamentação do “tigrinho”. A verdade está no meio. Quem autorizou a volta do jogo (de forma eletrônica) no Brasil [o jogo em cassinos foi suspenso no governo Dutra, em 1945, por pressão da mulher, D. “Santinha”] foi o presidente Michel Temer, no final do mandato, em 2018.

O governo Bolsonaro, em quatro anos, nada fez, em matéria de regulamentação, controle da evasão de divisas (a maior parte das “bets”, sob controle estrangeiro ou de brasileiros, tem sedes em paraísos fiscais) e pagamento de impostos. Um dos motivos é porque Flávio Bolsonaro defendia a regulamentação dos cassinos em “resorts”. Para tanto, viajou, na companhia de Willer Tomaz (e ainda de senadores e empresários), em janeiro de 2020, para Las Vegas (Nevada).

Quando o governo Lula assumiu, em 2023, a jogatina não era tão ostensiva. De 2024 em diante, com a exigência de registro no Ministério da Fazenda e cobrança de impostos, houve enorme exposição nas camisas dos principais clubes e nas transmissões esportivas. Mas a “banca”, além de ter de pagar pelo registro, perdeu o ganho de 100% - o governo Lula tentou tributar os ganhos em 18%, mas o “lobby” do Congresso brecou em 12%. Entretanto, o cassino eletrônico já corria solto. Tirou R$ 141 bilhões de consumo, o governo só arrecadou R$9,9 bilhões, e arruinou milhões de famílias.

Há casos estarrecedores de gente da classe média alta internada na Clínica Gávea, na Zona Sul carioca, especializada em crises psiquiátricas. Os problemas gerados por dívidas de jogo dominam as internações. Houve até suicídios. Imagine o quanto de destruição não causou nas camadas de menor renda, atraídas pelo fascínio do jogo. Só o delator Antônio Carlos Freixo, o "Mineiro", pode ensinar como ganhar 570 vezes na loteria, somando R$ 176 milhões... O imposto é menor que declarar o ganho normal à Receita.

•        A fatura da vassalagem. Por Jorio Dauster

Há duas semanas publiquei aqui um artigo intitulado “Algo está podre no Vice-Reino da Venezuela” em que analisei o vexaminoso acordo sobre petróleo com os Estados Unidos e terminei dizendo que seus termos permitiam ao eleitor brasileiro conhecer “o altíssimo preço da vassalagem”. Mas eu nunca poderia imaginar que, graças ao jornal “O Estado de S. Paulo”, aquilo que era mera especulação pudesse ser confirmado poucos dias depois sob a forma das 21 (!!!) exigências com que o governo norte-americano confrontou o Brasil em outubro de 2025 a fim de supostamente negociar o tarifaço de 50% com que nos ameaçava.

Embora os Estados Unidos já sejam superavitários no intercâmbio bilateral com o Brasil, as condições norte-americanas na área comercial eram inadmissíveis por exigirem até mesmo a isenção total de tarifas com respeito ao etanol, produtos químicos, máquinas, veículos e autopeças, bens de alta tecnologia e outros segmentos, além de mais abertura para produtos remanufaturados, serviços digitais e bens industriais (inclusive com a ridícula obrigação de que o governo brasileiro priorizasse a compra de aviões fabricados pela Boeing). Constava também a necessidade de que os dois países buscassem garantir “maior estabilidade ao mercado mundial de soja” (leia-se: restrição de nossas exportações do produto para a China) e evitassem o “excesso de capacidade global na produção de aço” (leia-se: inter alia, reduzir nossas compras de produtos siderúrgicos procedentes da China).

No setor altamente sensível dos produtos farmacêuticos, éramos instados a aceitar automaticamente os certificados eletrônicos da FDA (Food and Drug Administration), assim escanteando a Anvisa com relação a todos os remédios e aparelhos médicos procedentes dos Estados Unidos.

Mas a “lista de desejos” da Casa Branca ia muito além da pauta meramente comercial porque abarcava questões regulatórias, jurídicas e políticas que implicavam imenso desrespeito à soberania nacional. Apenas como exemplo, as autoridades brasileiras não poderiam aplicar contra cidadãos, residentes ou empresas dos Estados Unidos punições por manifestações que, na avaliação norte-americana, gozariam da proteção da Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos – ou seja, uma clara invasão da competência jurídica do Brasil em seu próprio território!

Na mesma área, foram propostas garantias específicas para empresas norte-americanas de serviços digitais, assegurando-lhes aviso prévio e o direito de contestar decisões, multas ou quaisquer medidas vinculadas a publicações em redes sociais. Em outra linha de absurdos, era questionado indiretamente o papel vitorioso do Pix quando se exigia que o Banco Central do Brasil obedecesse ao princípio da “neutralidade competitiva” tanto na regulação dos arranjos de pagamento quanto em sua atuação relacionada ao sistema doméstico – para gáudio e lucro das empresas norte-americanas que dominam o mercado de cartões de crédito, das “big techs” que instrumentalizam os pagamentos e de grandes bancos onde as transações são processadas.

Outra intromissão inaceitável tinha a ver com o setor mineral, em particular os chamados minerais críticos e terras raras. O documento estabelecia o acesso antecipado às informações sobre vendas de ativos e processos de licitação, bem como limitações a investimentos de entidades estrangeiras consideradas “preocupantes” – forma evidente de permitir ao governo dos Estados Unidos o pleno controle desses recursos de incomensurável importância estratégica.

O objetivo subjacente de impedir a presença da China nesse setor se torna ainda mais claro devido à exigência de que fosse “revista” a venda de operações de níquel feita recentemente pela Anglo American a um grupo chinês. E, malgrado a usurpação de boa parte das reservas de petróleo pesado da Venezuela, não resta dúvida de que as substanciais jazidas existentes na nova fronteira da Margem Equatorial atrairão a cobiça norte-americana por serem do tipo leve e de excelente qualidade.

Neste breve resumo de um rol alentado de exigências, cabe por fim, devido à sua atualidade, destacar a demanda por uma eleição presidencial “livre e justa” em que não fossem detidos “dissidentes políticos” nem fosse restringida a participação deles no pleito. Além da indevida intromissão em assuntos internos de outra nação, a óbvia referência indireta aos condenados por atos contra a democracia no Brasil chamava a atenção pelo uso do termo “dissidentes”, até então jamais invocado nem mesmo por todos que foram democraticamente punidos pelo fracassado golpe de Estado.

E isso porque, no linguajar político internacional, a expressão é empregada há décadas para caracterizar as figuras que se opõem a governos autoritários ou totalitários, o que não ocorre no Brasil, onde o próprio presidente do Tribunal Superior Eleitoral é um ministro da corte suprema designado pelo ex-presidente. Seria mesmo uma vergonhosa pretensão que esses tristes personagens de nossa história recente desejassem igualar-se a indivíduos tão notáveis quanto Nelson Mandela, que lutou contra o regime de apartheid e passou 27 anos preso antes de se tornar presidente da África do Sul. Ou mesmo Václav Havel e Aleksandr Soljenitsin, escritores que desafiaram os regimes de força na Tchecoslováquia e na União Soviética.

Mas é exatamente essa sucessão de absurdos e atentados à independência do Brasil que confere importância vital à fatura posta sobre a mesa alguns meses atrás e depois guardada no bolso dos que, vendo a América Latina como um quintal, tudo farão para submeter aquele pedaço de terra que ainda escapa ao domínio do império trumpiano. Porém ninguém mais pode alegar desconhecimento do que nos espera: essa fatura, cujos pormenores vão do hilário ao horripilante, sem dúvida, será reapresentada no dia 1º de janeiro de 2027 caso nosso relacionamento com os Estados Unidos seja ditado por um trânsfuga que chama Trump de “meu chefe” e passa os dias nos porões da Casa Branca tramando punições ao país onde nasceu, a seus cidadãos e a suas autoridades

 

Fonte: Por Gilberto Menezes Côrtes, no JB

 

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