Os
“donos” da IA estão no (des)controle
A
semana que deveria inaugurar os debates sobre um modelo de governança global
para a inteligência artificial terminou com a prova de que a tecnologia está
fora do controle dos governos. Na sexta-feira, a OpenAI confirmou que agentes
seus acessaram no meio do ano sites do Departamento de Comércio dos Estados
Unidos e da SEC, a comissão que regula o mercado de capitais. Os agentes também
tentaram, sem sucesso, entrar nos sistemas do Departamento de Educação. A
empresa não percebeu as invasões, encontradas por pesquisadores da Transluce,
um laboratório independente. Dois dias antes, o primeiro-ministro australiano,
Anthony Albanese, havia revelado que outro agente da OpenAI invadira em junho o
portal do Medicare, o sistema público de saúde do país. Em julho, como já
debatemos aqui neste espaço, agentes da mesma empresa tinham invadido a Hugging
Face, a maior plataforma de modelos de IA abertos do mundo.
Nos
mesmos dias, os laboratórios solicitavam regras. Na quarta-feira, Sam Altman
(OpenAI) e Dario Amodei (Anthropic) foram ao Conselho de Segurança da ONU pedir
aos governos que assumam as rédeas da tecnologia. Na quinta-feira, veio a
público que as duas empresas e o Google desenham desde julho a configuração de
um órgão próprio para escrever as regras de teste, auditoria e notificação de
incidentes, sem supervisão governamental. No mesmo dia, Donald Trump recebeu Xi
Jinping na Casa Branca e os dois governos discutiram um canal de alerta sobre
incidentes de IA restrito às duas potências.
O
arranjo que emerge de uma semana de promessas e revelações decide quem terá
autoridade sobre os modelos antes de decidir como contê-los. Os candidatos são
os laboratórios que não agiram para conter os próprios incidentes e as duas
potências que disputam a liderança da tecnologia. Até aqui, o resto do mundo
está fora das mesas onde essas decisões serão tomadas.
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O palco da ONU
A
sessão do Conselho de Segurança, presidida pelo chanceler francês Jean-Noël
Barrot, deu aos executivos um palco reservado a chefes de Estado. Altman pediu
padrões internacionais para medir capacidades e verificar salvaguardas. Amodei
propôs acordos pontuais como a proibição do uso de IA em armas biológicas, com
padrões comuns de teste e notificação de incidentes.
As duas
propostas carregavam cláusulas de exclusão. Altman disse que as decisões devem
passar por governos que prestem contas a seus cidadãos, critério que, segundo a
CNN, deixa a China de fora. Amodei havia defendido em ensaio de 12 de setembro
que Estados Unidos e aliados mantenham a maior vantagem possível sobre a China,
com repressão ao contrabando de chips e propriedade intelectual sobre os
modelos. A cooperação que os laboratórios pedem ao mundo pressupõe a manutenção
da liderança estadunidense. Thomas Wolf, cofundador da Hugging Face, questionou
se é possível construir cooperação global declarando o objetivo de ampliar a
própria vantagem.
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O clube escreve as regras
O apelo
público no Conselho da ONU veio depois de uma construção privada. Desde julho,
representantes de OpenAI, Anthropic e Google DeepMind se reúnem para criar uma
entidade de autorregulação, provisoriamente chamada de Standards Authority for
Frontier AI, com lançamento previsto até o início de 2027. Altman disse a
funcionários que os laboratórios teriam de criá-la por conta própria, sem o
governo. A OpenAI avisou que seguiria adiante com ou sem apoio oficial. Entre
as atribuições previstas está definir como os incidentes devem ser relatados. A
direção cogitada para a autoridade reúne nomes que serviram aos governos de Joe
Biden e de Trump, o que daria à entidade um verniz bipartidário.
As
empresas que querem redigir as regras de notificação ocultaram os próprios
incidentes. A OpenAI soube em agosto da invasão australiana e só avisou o
governo em 10 de setembro, por meio de uma caixa de correio pública. Dias
depois, deixou o caso fora da lista de incidentes que publicou junto com seu
próprio protocolo de notificação. O Google soube em julho que seu modelo Gemini
havia invadido três empresas durante um teste e só tornou o episódio público
quando o Wall Street Journal perguntou. As invasões de sites do governo
estadunidense só vieram à tona porque pesquisadores de fora da OpenAI as
encontraram. Altman admitiu que a empresa não divulgou os desvios de seus
modelos com a rapidez que deveria.
A
coordenação entre concorrentes para fixar as regras do próprio mercado já
rendeu uma ação judicial por conluio. O modelo tem precedente na ICANN, a
entidade privada que administra os endereços da internet e nasceu em 1998 sob
contrato com o Departamento de Comércio estadunidense. Os demais governos
ficaram restritos a um comitê consultivo. Os padrões técnicos da rede saíram de
fóruns abertos a engenheiros de qualquer país, mas o financiamento e os postos
de direção se concentraram em grandes corporações, em sua maioria
estadunidenses. A nova entidade que vem sendo construída repete a fórmula com
um agravante. Nasce do acordo entre apenas três concorrentes que serão ao mesmo
tempo os regulados e os juízes do que conta como incidente.
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Washington e Pequim
Trump
recusa pisar no freio. Na Assembleia Geral, rejeitou o que chamou de esquema
globalista para controlar a IA. Na manhã do encontro com Xi, escreveu que
queria deixar a tecnologia exatamente onde está. Um memorando em circulação na
Casa Branca ataca o movimento filosófico a que Amodei é associado. Uma fonte
próxima ao governo o acusou de encarnar uma abordagem contrária ao America
First.
A
recusa em regular convive com o filtro de quem acessa os modelos. Em junho,
controles de exportação levaram a Anthropic a suspender por quase três semanas
a distribuição mundial a seus modelos mais avançados. Na semana que passou, a
Casa Branca pediu à OpenAI e à Anthropic que só entreguem novos modelos ao
instituto britânico de segurança de IA depois dos testes estadunidenses.
Washington controla a porta de saída dos modelos e deixa as regras sobre o que
acontece dentro deles com quem os fabrica.
Com
Pequim, a agenda de riscos se resume a um canal bilateral. O secretário do
Tesouro, Scott Bessent, propôs um mecanismo de notificação de incidentes de IA
inspirado na linha direta criada entre Washington e Moscou depois da crise dos
mísseis de Cuba. Justificou a proposta pela necessidade de transparência entre
a primeira e a segunda potências de IA do mundo. Nada do que veio a público
prevê compartilhamento com outras nações.
Xi joga
em dois registros. Na ONU, seu embaixador condenou as “panelinhas” tecnológicas
que obrigam outros países a escolher lado e defendeu os modelos abertos. Na
Casa Branca, Xi aceitou a moldura das duas nações líderes com responsabilidade
compartilhada. Segundo o comunicado chinês, propôs continuar o diálogo sobre IA
e prevenir em conjunto seu uso indevido, sempre sob controle humano. Pequim lê
a agenda de segurança dos laboratórios estadunidenses como instrumento de
contenção das empresas chinesas. O ministro da Segurança do Estado, Chen Yixin,
incluiu entre os riscos da IA os desequilíbrios causados pelos monopólios
tecnológicos ocidentais. A pesquisadora Michelle Nie, do Center for a New
American Security, observa que Pequim vê nos apelos por pausa uma forma de
inflar o valor das empresas dos EUA antes de abrirem capital ou de frear
concorrentes chineses.
Os
laboratórios chineses ficaram fora da foto. Xi viajou sem executivos e não se
sabe onde DeepSeek, Alibaba ou Z.ai se sentarão nesse arranjo. Do lado chinês,
a informação sobre falhas corre primeiro para o Estado. A Z.ai repassa as
vulnerabilidades que seus sistemas encontram a uma base nacional administrada
pelo Ministério da Segurança do Estado.
A
cúpula terminou sem acordo sobre IA. Segundo o New York Times, os dois lados
abriram novos canais de comunicação sobre os riscos mais graves da tecnologia,
sem detalhar quais. Só o comunicado chinês registrou o que os presidentes
disseram sobre o tema. O documento não menciona o telefone vermelho. Trump e o
presidente da Câmara dos Representantes, Mike Johnson, marcaram para esta
terça-feira uma reunião com executivos do setor. Johnson disse querer todos
numa sala grande, de porta fechada, para resolver a questão. Altman, Jensen
Huang (Nvidia), Mark Zuckerberg (Meta) e Sundar Pichai (Google) estiveram no
jantar de Estado oferecido por Trump a Xi. Amodei, que segundo a Axios tinha
conflito de agenda, foi a ausência mais notada. Depois do evento, Trump o convidou
pessoalmente para um jantar privado na Casa Branca no domingo (27), o primeiro
encontro a sós entre os dois. Meses antes, assessores haviam desaconselhado a
reunião sob o argumento de que Amodei seria estranho demais para o gosto do
presidente. O jantar antecede a reunião de terça-feira com os demais
executivos.
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Quem fica para trás
O vazio
de governança atinge também os governos que legislaram primeiro. Um
levantamento do New York Times com mais de 20 legisladores, tecnólogos e
especialistas descreve governos ultrapassados pela tecnologia e empresas como
Anthropic e OpenAI deixadas, em grande medida, a policiar a si mesmas. Sean Ó
Heigeartaigh, da Universidade de Cambridge, resumiu que todos supõem haver
adultos na sala, mas não há nenhum. Como sempre, a tecnologia anda mais veloz
que o legislador, deixando as administrações e órgãos reguladores para trás. A
lei europeia de IA, aprovada em 2024, isenta testes feitos antes do lançamento
de um modelo na Europa. Por isso a invasão da Hugging Face, ocorrida durante
testes, ficou numa zona cinzenta de fiscalização. No Congresso dos Estados
Unidos, o projeto que exigiria testes de segurança dos modelos está parado com
dezenas de outras propostas. Brett Guthrie, o republicano que preside a
comissão responsável, admitiu não entender como os modelos funcionam e prevê
votação só no próximo ano.
Dois
dias antes da sessão do Conselho de Segurança, o Painel Científico Independente
da ONU sobre IA concluiu que uma falha de agentes pode atravessar fronteiras
nacionais e que a segurança da IA pode estar se tornando questão de segurança
coletiva. O caso australiano ilustra o problema.
Na
mesma semana, 26 países e a Comissão Europeia, sob liderança da Noruega,
subscreveram a declaração A Call for Control of Frontier AI Models. O texto
pede testes obrigatórios antes do lançamento, avaliação independente e
notificação compartilhada de incidentes graves. Propõe estudar uma instituição
internacional capaz de fixar padrões e exige que a supervisão avance sem
ampliar a distância entre países no acesso aos benefícios da IA. É a única das
propostas em circulação que prevê lugar para quem está fora dos dois polos.
Entre os signatários estão África do Sul, Quênia e Serra Leoa, mas não o
Brasil.
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O lugar do Brasil
Na
abertura da Assembleia Geral, Lula acusou um punhado de tecno-oligarcas de
conduzir uma corrida sem freios éticos à revelia da ONU. O diagnóstico está
correto e o país tem instrumentos à mão. O primeiro seria aderir à declaração
norueguesa, que continua aberta. O Brasil é fundador da WAICO, a organização de
cooperação em IA liderada por Pequim. África do Sul, Quênia e Cazaquistão já
participam das duas iniciativas.
Nos
fóruns criados pela Assembleia Geral em 2025, o Brasil pode exigir que qualquer
canal de alerta entre potências ou entre empresas tenha contrapartida
multilateral, com registro comum e aviso obrigatório a todo Estado afetado.
Internamente, a obrigação que a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) já impõe
para incidentes com dados pessoais pode se estender aos modelos de IA usados na
administração pública e em serviços críticos, como condição de contrato. O
projeto de lei de IA em debate no Congresso, que o New York Times destaca em
contraste com a espera de Índia, Japão, Austrália, Canadá e Quênia, é o veículo
natural para essa obrigação. A regra deveria valer igualmente para fornecedores
estadunidenses e chineses.
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No controle do descontrole
Enquanto
nos espantamos com as últimas peripécias dos agentes de IA e conjecturamos
sobre o fato de os sistemas poderem estar se preparando para nos destruir, os
três laboratórios “donos” da IA aceleram na redação das regras ao mesmo tempo
que pedem retoricamente freio no desenvolvimento. Estão se reunindo fora dos
holofotes para criar uma situação de fato e de direito para o controle de seu
descontrole. Como se fossem vestais de uma Roma distópica, acreditam que
governos e os povos do mundo devem admirá-los e criar exceções de todos os
tipos para que possam nos proteger dos riscos que eles mesmos criaram e, por
enquanto, só seus funcionários podem amenizar.
A
narrativa que estão criando garante uma vantagem porque quem inventou o veneno
vai nos oferecer a cura. A ideia de vender uma sensação de pânico global ajuda
na hora de apresentar os tranquilizantes. E, ao colocar a tecnologia no prumo,
os laboratórios receberão os louros por protegerem a humanidade. Assim como foi
feito com a governança da internet, este reconhecimento de autoridade poderá
fazer com que os países deixem que eles tomem as rédeas ao lado de uma
comunidade técnica capturada.
Trump e
Xi voltam a se encontrar em novembro, na APEC de Shenzhen. Até lá, a entidade
dos laboratórios terá avançado em seu calendário e a declaração norueguesa
continuará à espera de novas assinaturas. Se o arranjo se consolidar no formato
atual, a governança da IA ficará nas mãos de quem mais tem interesse em ditar
suas regras. O restante da humanidade seguirá assistindo de fora.
Fonte:
Por James Görgen, em Outras Palavras
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