Onde
está e quem é o inimigo do povo?
Congresso
inimigo do povo. Taxação dos super-ricos. Hugo Nem se Importa. Tudo isso
desapareceu neste ano de campanha e o povo ficou sem inimigo.
É
verdade que há um inimigo que se apresenta nesses termos e que vem do exterior.
Mas, isso não explica para as pessoas a realidade da desigualdade social, a
experiência da desigualdade que é marcada no dia a dia pela percepção difusa de
que há algo ou alguém contra nós. As dificuldades concretas do cotidiano são
pioradas na medida em que as pessoas estão aterrorizadas pela violência, pelo
crime, pelo roubo.
O
esforço do trabalho traduzido em um consumo suado desaparece em um instante,
como um celular no assalto veloz. Ou como o tempo de lazer arrancado pela
impossibilidade de se deslocar na comunidade. Ou como a taxa extorquida por
chantagem. E mil outras formas.
A
segurança pública é o que marca mais claramente o que é o inimigo. Não adianta
explicar as minúcias e astúcias envolvidas na designação do inimigo da vida
cotidiana como terrorismo. Não faz sentido insistir que aquele inimigo externo,
os EUA, usam o termo narcoterrorismo para legitimar a ingerência direta na
organização social brasileira.
Principalmente
para o segundo turno, se houver, é urgente afirmar: as facções são o inimigo
número 1 do povo. Lula deveria, acredito, sustentar com convicção que a partir
daqui as facções criminosas são o inimigo número 1 do Estado brasileiro. É
preciso rebatizar o problema sem diluir a oposição que dá cara à violência.
Nem
adianta valorizar a tática de estrangulamento financeiro, embora justa, quando
a rotina é impactada pelo medo constante. Nem dizer que reconhece a
legitimidade do terror que as pessoas sentem. É preciso anunciar quem é o outro
e que estamos sim em guerra.
E o que
isso tem a ver com o congresso inimigo do povo ou com os bilionários?
Tudo.
Estes últimos precisam ser taxados inclusive para financiar a segurança
pública. A grana lavada faz tanta falta quanto a grana que o Estado deixa de
cobrar de quem vive com o suficiente para gerações inteiras de ócio
improdutivo.
O
congresso é o espaço institucional privilegiado para criar e evitar essas
taxações. Também é responsável por fortalecer grupos que estão diretamente
ligados a conflitos e crimes no campo, que é o análogo do terror da ocupação de
territórios nas cidades. Assim, as leis do agro que passaram praticamente em
branco no debate público há poucos meses permitem também o crime, não “apenas”
ambiental. Mas, Hugo Nem se Importa. Davi Alcolumbre também não.
E aqui
estamos nós repactuados com o congresso inimigo do povo, como se o monstro que
vem do exterior não estivesse confortável por contar com aliados diretos, os
entreguistas bolsonaristas raiz, e com aliados indiretos (ou cínicos),
confortavelmente instalados no congresso nacional.
Portanto,
para que nossa pauta tenha concretude, é preciso recompor a cara do inimigo,
recuperar a nossa unidade política. É preciso saber contra o que estamos
lutando. Não apenas contra o “de fora”, mas quem são os inimigos caseiros.
Porque sem estes, as facções aparecem como um desvio de sucesso que não conta
com nenhuma ajuda de agentes institucionais ou, pior ainda, que ninguém nas
instituições tem algo a ver com isso.
Se não
há inimigo do povo nesses espaços, a questão é só incompetência. E se não damos
conta sozinhos de parar o terror, que venha a ajuda de fora. Soberania: o que é
isso, afinal? Diante da urgência do cotidiano, nada.
E esse
outro do povo que se espalha e se dilui nas instituições e em espaços de poder,
disfarçados sob a bandeira da unidade nacional, é fundamental para que o mostro
externo possa abocanhar a vida nacional.
Virou
até modinha hoje constatar que as democracias morrem por dentro, por meio das
instituições. Já era evidente no golpe de 2016 e, antes disso, no que talvez
tenha sido um caso experimental em tempos de capitalismo renovado, no Paraguai
de Fernando Lugo, em 2012.
Essa
história mostra que é fundamental prestar atenção às oposições internas,
domésticas. Para um golpe que tenha sucesso do ponto de vista do imperialismo
estadunidense, é preciso uma base institucional relevante no país absorvido. Só
assim a aparência de soberania se mantém em todos os países escondidos sob o
escudo das Américas. Estão aconchegados ideologicamente sob as asas da águia de
rapina.
No
Paraguai foi preciso o congresso inimigo do povo, no Brasil de 2016 foi preciso
o congresso inimigo do povo. E hoje parece que Ninguém se Importa. Serão quase
todos reeleitos.
Porém,
foi e é preciso um pouco mais do que isso para dobrar os joelhos da sociedade
brasileira. Uma parcela maior do que a habitual do judiciário, por exemplo. E
uma produção contínua de ideologia, processo facilitado e organizado pelas
redes digitais e demais aparatos tecnológicos.
Essa
constituição de um campo social próprio dos inimigos do povo organizou
possibilidades de percepção e raciocínio que surpreendem a cada dia. Alguns
chamam de fascismo, como Vladimir Safatle, mas não penso que o termo descreve o
outro a partir do qual estamos construindo nosso “eu”, possivelmente chamado
democracia.
Como
alternativa à ameaça sem nome definido, muitos reafirmam a necessidade da
frente ampla. A frente ampla é uma unidade defensiva que se estabelece como
barreira de contenção diante da ameaça apresentada como outro, como inimigo
(isto, exatamente na medida em que ameaça o modo de existência social coletivo
e solidário que defendemos). Nessa linha, outros, como André Singer, amenizam a
designação ressaltando nesse movimento de contracorrente um “viés fascista”.
No
momento, para designar o outro em termos analíticos e próprios da teoria
política, o que nem sempre é apropriado na disputa política eleitoral, tendo a
concordar mais com a fórmula de Florestan Fernandes, que em 1971 apresentava
aos gringos o fascismo na América Latina. Ele analisava então a “fascistização
sem fascismo” que “fomenta a guerra civil a frio” e cabe muito bem na
“normalidade constitucional”.
Parece
que muito antes de Fernando Lugo já se percebia que a fascistização dispensa o
fascismo; isto é, esse processo social não requer o fechamento da democracia,
em si mesma para lá de restrita aqui e em toda a América Latina.
Onde
está e quem é o inimigo do povo? Essa oposição a algo ou alguém que ameaça, que
dá sentido à própria ideia de povo, precisa ser reafirmada a cada momento. Para
isso, é preciso que o outro tenha uma cara. Mais do que isso, é fundamental que
não seja a cada vez um vilão de ocasião. A violência que restringe a democracia
e a vida concreta diária tem muitas camadas e se efetiva de diversas formas.
Mas
seus personagens estão vinculados uns aos outros e não se pode pactuar com
alguns sem legitimar os demais. É só assim que a fascistização pode se
embrenhar na vida civil, disfarçada de solução para a insegurança real, e
compor uma unidade difusa suficientemente forte para receber os inimigos do
povo, domésticos e importados, de braços abertos.
Contra
isso, é urgente assumirmos que temos inimigos internos. Os bilionários que
lucram com a desigualdade, incluindo aí as bets, a maior parte do congresso,
figuras destacadas da política institucional. E as facções. Não seria difícil
mostrar em um powerpoint que os personagens concretos de todos esses espaços
estão vinculados ao candidato. Não deixemos, portanto, de nomear todos os
personagens que compõem a ameaça – às instituições da democracia e à vida
cotidiana – como inimigos do povo.
• A intervenção dos EUA na eleição
brasileira. Por Emiliano José
Não há
nada submerso, nenhuma dissimulação: os EUA mostram-se dispostos a seguir no
rumo de transformar, ou de garantir a condição de quintal desse continente
denominado América Latina, ancorado, como o próprio império afirma, na Doutrina
Monroe, formulada lá pelo início do século XIX. Por tal disposição, mostram-se
empenhados em interferir nas eleições brasileiras, transformadas, por isso
mesmo, nas mais importantes de nossa história.
Donald
Trump promove essa perseguição com discursos obviamente falsos, como já ficou
evidente, por exemplo, na aplicação das tarifas pedidas e acatadas pelo filho
do ex-presidente condenado pela intentona golpista, quando se revelou serem os
EUA superavitários na relação comercial com o Brasil.
Das
tantas perseguições, acresça-se agora a articulada por ele, reunindo os
governos de extrema direita na conspiração destinada a atacar a soberania
brasileira, pretendendo uni-los no combate às organizações do crime organizado
no Brasil.
Ao
determinar a organização do chamado “Escudo das Américas”, em março deste ano,
Donald Trump visava obviamente deixar no ar, nem sempre no ar, o espectro da
intervenção dos EUA no continente, cuja demonstração manu militari ele havia
feito com o sequestro e prisão do presidente Nicolás Maduro e da mulher dele,
Cília Flores.
É como
se quisesse evidenciar, com aquele atentado terrorista contra a soberania
venezuelana, todo o poder discricionário concentrado no império, a não
considerar mais nada quanto ao direito das nações. O combate ao crime
organizado, necessário e fundamental, como o presidente Lula tem ressaltado, é
papel de cada nação, sem desprezar de modo nenhum a colaboração com outros
países, como o Brasil tem insistido. Tal combate, no entanto, não dá o direito
de intervenção de um país sobre outro, como ficou manifestado no discurso
recente do mandantário brasileiro na ONU.
Aos EUA
caberiam políticas públicas capazes de retirá-lo da condição de maior
consumidor de drogas do mundo. O império não tem nenhuma autoridade para falar
de combate às substâncias consideradas ilícitas, até porque enfrenta uma grave,
enorme crise de saúde pública relacionada aos opióides, como o fentanil. A
droga tornou-se autêntica epidemia no país, especialmente em Filadélfia, Los
Angeles, São Francisco e nova York. O país tem demonstrado, à saciedade, enorme
incapacidade de enfrentar o problema.
Para
opinar, e só opinar, sobre a luta contra o crime organizado voltado à produção
de drogas, deveria, primeiramente, fazer o dever de casa, e não pretender
intervir em outras nações. O Brasil sabe como enfrentar o problema e nunca se
esquivou de colaborações. Não aceita, no entanto, ser quintal de ninguém, como
ressaltado pelo presidente Lula, insista-se, no memorável discurso dele na ONU,
no dia 22 de setembro deste ano.
Sabemos,
no entanto, não se tratar efetivamente de combate ao narcotráfico. Não é esta,
verdadeiramente, a preocupação do império. Os EUA, e eles chegaram a dizer isso
abertamente, fixaram o retorno à Doutrina Monroe como objetivo, e não escondem
a pretensão de ter a América Latina como simples quintal. E nessa quadra
histórica, tal pretensão infelizmente é apoiada entusiasticamente por governos
de extrema direita.
Não se
trata de combate às drogas. Isso é só fachada, para inglês ver. Tudo tem a ver
com o domínio imperial, com a vocação imperialista, marcada, nesse momento, não
só pelo reforço à dominação da América Latina, incluindo-se aí a violência
inominável contra Cuba, como também a agressão ao Irã, onde já foi derrotado, e
o genocídio praticado em Gaza.
O
presidente Lula condenou duramente o massacre em Gaza, o crime contra Cuba, no
discurso dele da ONU. Disse da luta pela paz e contra a fome. E insistiu na
defesa da soberania das nações, mirando naturalmente o direito à realização de
eleições livres no Brasil, sem nenhuma intervenção estrangeira, ao contrário do
desejado pelo adversário Tariflávio, cuja posição é de absoluta subalternidade,
sempre rastejando diante do império.
Não
estamos enfrentando uma eleição normal. Recentemente, assistimos à prisão de
Fernando Cerimedo, expressão de uma impressionante rede de disseminação de fake
news, de intervenção dos EUA nas eleições da América Latina. Diria: até as
dissimulações estão sendo desprezadas.
Se a
companheira dele, Nadia Beller, a quem pretendeu assassinar, tiver razão, e ele
for de fato agente da CIA, torna-se evidente a imbricação do trabalho
político-cultural, destinado a modificar o pensamento das pessoas, em princípio
o trabalho dos think tanks, das organizações não-governamentais vinculados
direta ou indiretamente aos EUA, com os serviços de inteligência e de
repressão.
Donald
Trump, aliás, de alguma forma, lida bem com essa duplicidade. Pode valer-se do
trabalho do pessoal de comunicação, das fazendas de bots e trolls voltadas a
influenciar e fraudar eleições, conjugado com as ameaças e se for o caso com a
violência. Agora, evidencia-se o cerco às eleições brasileiras, que deve
prosseguir e já é excessiva e constante.
Taxações,
proteção a refugiados golpistas, envio de um nome sem credenciais exigidas para
ser embaixador no Brasil, suspensão de visto da embaixadora brasileira nos EUA,
envio de emissários norte-americanos para questionar o processo eleitoral
(presença recusada pelo governo brasileiro), reunião organizada pelo consulado
norte-americano com comunicadores de extrema-direita e qualificação do PCC e
Comando Vermelho como organizações terroristas, tudo isso atendendo a pedidos
da família Bolsonaro, tipicamente uma organização criminosa atuando contra o
Brasil.
Não
estamos enfrentando uma eleição sob um quadro de normalidade democrática: há
uma evidente intervenção externa, aberta, como se tivessem os EUA o direito de
arbitrar nossos caminhos, ainda na esteira da velha Doutrina Monroe. Trata-se,
do nosso ponto de vista, do pessimismo da inteligência, otimismo da vontade, na
esteira do pensamento de Romain Rolland, dito largamente utilizado por Antonio
Gramsci.
Não
deixar de utilizar a razão para conhecer as dificuldades. Nem se paralisar
diante delas, ao contrário. Superá-las, valer-se da boa política, utilizar-se
de nossas forças para derrotar a barbárie, representada pela extrema-direita,
personificada no caso brasileiro pelo Tariflávio, a quem o próprio Estadão
praticamente chamou de chefe de milícias, como verdadeiramente ele é.
A
cidadania brasileira garantirá as eleições e a vitória de Lula. Tem forças para
tanto, como tem sido demonstrado, com a intensa mobilização experimentada pela
campanha de Lula e pelas mobilizações em todo o Brasil. Vamos vencer para que
não retornemos à barbárie. Para seguir como nação capaz de atender às
necessidades do nosso povo, e caminhar sempre soberana, de cabeça erguida. À
vitória! É Lula de novo, com a força do povo!
Fonte:
Por Monica Loyola Stival, em A Terra é Redonda

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