terça-feira, 29 de setembro de 2026

Onde está e quem é o inimigo do povo?

Congresso inimigo do povo. Taxação dos super-ricos. Hugo Nem se Importa. Tudo isso desapareceu neste ano de campanha e o povo ficou sem inimigo.

É verdade que há um inimigo que se apresenta nesses termos e que vem do exterior. Mas, isso não explica para as pessoas a realidade da desigualdade social, a experiência da desigualdade que é marcada no dia a dia pela percepção difusa de que há algo ou alguém contra nós. As dificuldades concretas do cotidiano são pioradas na medida em que as pessoas estão aterrorizadas pela violência, pelo crime, pelo roubo.

O esforço do trabalho traduzido em um consumo suado desaparece em um instante, como um celular no assalto veloz. Ou como o tempo de lazer arrancado pela impossibilidade de se deslocar na comunidade. Ou como a taxa extorquida por chantagem. E mil outras formas.

A segurança pública é o que marca mais claramente o que é o inimigo. Não adianta explicar as minúcias e astúcias envolvidas na designação do inimigo da vida cotidiana como terrorismo. Não faz sentido insistir que aquele inimigo externo, os EUA, usam o termo narcoterrorismo para legitimar a ingerência direta na organização social brasileira.

Principalmente para o segundo turno, se houver, é urgente afirmar: as facções são o inimigo número 1 do povo. Lula deveria, acredito, sustentar com convicção que a partir daqui as facções criminosas são o inimigo número 1 do Estado brasileiro. É preciso rebatizar o problema sem diluir a oposição que dá cara à violência.

Nem adianta valorizar a tática de estrangulamento financeiro, embora justa, quando a rotina é impactada pelo medo constante. Nem dizer que reconhece a legitimidade do terror que as pessoas sentem. É preciso anunciar quem é o outro e que estamos sim em guerra.

E o que isso tem a ver com o congresso inimigo do povo ou com os bilionários?

Tudo. Estes últimos precisam ser taxados inclusive para financiar a segurança pública. A grana lavada faz tanta falta quanto a grana que o Estado deixa de cobrar de quem vive com o suficiente para gerações inteiras de ócio improdutivo.

O congresso é o espaço institucional privilegiado para criar e evitar essas taxações. Também é responsável por fortalecer grupos que estão diretamente ligados a conflitos e crimes no campo, que é o análogo do terror da ocupação de territórios nas cidades. Assim, as leis do agro que passaram praticamente em branco no debate público há poucos meses permitem também o crime, não “apenas” ambiental. Mas, Hugo Nem se Importa. Davi Alcolumbre também não.

E aqui estamos nós repactuados com o congresso inimigo do povo, como se o monstro que vem do exterior não estivesse confortável por contar com aliados diretos, os entreguistas bolsonaristas raiz, e com aliados indiretos (ou cínicos), confortavelmente instalados no congresso nacional.

Portanto, para que nossa pauta tenha concretude, é preciso recompor a cara do inimigo, recuperar a nossa unidade política. É preciso saber contra o que estamos lutando. Não apenas contra o “de fora”, mas quem são os inimigos caseiros. Porque sem estes, as facções aparecem como um desvio de sucesso que não conta com nenhuma ajuda de agentes institucionais ou, pior ainda, que ninguém nas instituições tem algo a ver com isso.

Se não há inimigo do povo nesses espaços, a questão é só incompetência. E se não damos conta sozinhos de parar o terror, que venha a ajuda de fora. Soberania: o que é isso, afinal? Diante da urgência do cotidiano, nada.

E esse outro do povo que se espalha e se dilui nas instituições e em espaços de poder, disfarçados sob a bandeira da unidade nacional, é fundamental para que o mostro externo possa abocanhar a vida nacional.

Virou até modinha hoje constatar que as democracias morrem por dentro, por meio das instituições. Já era evidente no golpe de 2016 e, antes disso, no que talvez tenha sido um caso experimental em tempos de capitalismo renovado, no Paraguai de Fernando Lugo, em 2012.

Essa história mostra que é fundamental prestar atenção às oposições internas, domésticas. Para um golpe que tenha sucesso do ponto de vista do imperialismo estadunidense, é preciso uma base institucional relevante no país absorvido. Só assim a aparência de soberania se mantém em todos os países escondidos sob o escudo das Américas. Estão aconchegados ideologicamente sob as asas da águia de rapina.

No Paraguai foi preciso o congresso inimigo do povo, no Brasil de 2016 foi preciso o congresso inimigo do povo. E hoje parece que Ninguém se Importa. Serão quase todos reeleitos.

Porém, foi e é preciso um pouco mais do que isso para dobrar os joelhos da sociedade brasileira. Uma parcela maior do que a habitual do judiciário, por exemplo. E uma produção contínua de ideologia, processo facilitado e organizado pelas redes digitais e demais aparatos tecnológicos.

Essa constituição de um campo social próprio dos inimigos do povo organizou possibilidades de percepção e raciocínio que surpreendem a cada dia. Alguns chamam de fascismo, como Vladimir Safatle, mas não penso que o termo descreve o outro a partir do qual estamos construindo nosso “eu”, possivelmente chamado democracia.

Como alternativa à ameaça sem nome definido, muitos reafirmam a necessidade da frente ampla. A frente ampla é uma unidade defensiva que se estabelece como barreira de contenção diante da ameaça apresentada como outro, como inimigo (isto, exatamente na medida em que ameaça o modo de existência social coletivo e solidário que defendemos). Nessa linha, outros, como André Singer, amenizam a designação ressaltando nesse movimento de contracorrente um “viés fascista”.

No momento, para designar o outro em termos analíticos e próprios da teoria política, o que nem sempre é apropriado na disputa política eleitoral, tendo a concordar mais com a fórmula de Florestan Fernandes, que em 1971 apresentava aos gringos o fascismo na América Latina. Ele analisava então a “fascistização sem fascismo” que “fomenta a guerra civil a frio” e cabe muito bem na “normalidade constitucional”.

Parece que muito antes de Fernando Lugo já se percebia que a fascistização dispensa o fascismo; isto é, esse processo social não requer o fechamento da democracia, em si mesma para lá de restrita aqui e em toda a América Latina.

Onde está e quem é o inimigo do povo? Essa oposição a algo ou alguém que ameaça, que dá sentido à própria ideia de povo, precisa ser reafirmada a cada momento. Para isso, é preciso que o outro tenha uma cara. Mais do que isso, é fundamental que não seja a cada vez um vilão de ocasião. A violência que restringe a democracia e a vida concreta diária tem muitas camadas e se efetiva de diversas formas.

Mas seus personagens estão vinculados uns aos outros e não se pode pactuar com alguns sem legitimar os demais. É só assim que a fascistização pode se embrenhar na vida civil, disfarçada de solução para a insegurança real, e compor uma unidade difusa suficientemente forte para receber os inimigos do povo, domésticos e importados, de braços abertos.

Contra isso, é urgente assumirmos que temos inimigos internos. Os bilionários que lucram com a desigualdade, incluindo aí as bets, a maior parte do congresso, figuras destacadas da política institucional. E as facções. Não seria difícil mostrar em um powerpoint que os personagens concretos de todos esses espaços estão vinculados ao candidato. Não deixemos, portanto, de nomear todos os personagens que compõem a ameaça – às instituições da democracia e à vida cotidiana – como inimigos do povo.

•        A intervenção dos EUA na eleição brasileira. Por Emiliano José

Não há nada submerso, nenhuma dissimulação: os EUA mostram-se dispostos a seguir no rumo de transformar, ou de garantir a condição de quintal desse continente denominado América Latina, ancorado, como o próprio império afirma, na Doutrina Monroe, formulada lá pelo início do século XIX. Por tal disposição, mostram-se empenhados em interferir nas eleições brasileiras, transformadas, por isso mesmo, nas mais importantes de nossa história.

Donald Trump promove essa perseguição com discursos obviamente falsos, como já ficou evidente, por exemplo, na aplicação das tarifas pedidas e acatadas pelo filho do ex-presidente condenado pela intentona golpista, quando se revelou serem os EUA superavitários na relação comercial com o Brasil.

Das tantas perseguições, acresça-se agora a articulada por ele, reunindo os governos de extrema direita na conspiração destinada a atacar a soberania brasileira, pretendendo uni-los no combate às organizações do crime organizado no Brasil.

Ao determinar a organização do chamado “Escudo das Américas”, em março deste ano, Donald Trump visava obviamente deixar no ar, nem sempre no ar, o espectro da intervenção dos EUA no continente, cuja demonstração manu militari ele havia feito com o sequestro e prisão do presidente Nicolás Maduro e da mulher dele, Cília Flores.

É como se quisesse evidenciar, com aquele atentado terrorista contra a soberania venezuelana, todo o poder discricionário concentrado no império, a não considerar mais nada quanto ao direito das nações. O combate ao crime organizado, necessário e fundamental, como o presidente Lula tem ressaltado, é papel de cada nação, sem desprezar de modo nenhum a colaboração com outros países, como o Brasil tem insistido. Tal combate, no entanto, não dá o direito de intervenção de um país sobre outro, como ficou manifestado no discurso recente do mandantário brasileiro na ONU.

Aos EUA caberiam políticas públicas capazes de retirá-lo da condição de maior consumidor de drogas do mundo. O império não tem nenhuma autoridade para falar de combate às substâncias consideradas ilícitas, até porque enfrenta uma grave, enorme crise de saúde pública relacionada aos opióides, como o fentanil. A droga tornou-se autêntica epidemia no país, especialmente em Filadélfia, Los Angeles, São Francisco e nova York. O país tem demonstrado, à saciedade, enorme incapacidade de enfrentar o problema.

Para opinar, e só opinar, sobre a luta contra o crime organizado voltado à produção de drogas, deveria, primeiramente, fazer o dever de casa, e não pretender intervir em outras nações. O Brasil sabe como enfrentar o problema e nunca se esquivou de colaborações. Não aceita, no entanto, ser quintal de ninguém, como ressaltado pelo presidente Lula, insista-se, no memorável discurso dele na ONU, no dia 22 de setembro deste ano.

Sabemos, no entanto, não se tratar efetivamente de combate ao narcotráfico. Não é esta, verdadeiramente, a preocupação do império. Os EUA, e eles chegaram a dizer isso abertamente, fixaram o retorno à Doutrina Monroe como objetivo, e não escondem a pretensão de ter a América Latina como simples quintal. E nessa quadra histórica, tal pretensão infelizmente é apoiada entusiasticamente por governos de extrema direita.

Não se trata de combate às drogas. Isso é só fachada, para inglês ver. Tudo tem a ver com o domínio imperial, com a vocação imperialista, marcada, nesse momento, não só pelo reforço à dominação da América Latina, incluindo-se aí a violência inominável contra Cuba, como também a agressão ao Irã, onde já foi derrotado, e o genocídio praticado em Gaza.

O presidente Lula condenou duramente o massacre em Gaza, o crime contra Cuba, no discurso dele da ONU. Disse da luta pela paz e contra a fome. E insistiu na defesa da soberania das nações, mirando naturalmente o direito à realização de eleições livres no Brasil, sem nenhuma intervenção estrangeira, ao contrário do desejado pelo adversário Tariflávio, cuja posição é de absoluta subalternidade, sempre rastejando diante do império.

Não estamos enfrentando uma eleição normal. Recentemente, assistimos à prisão de Fernando Cerimedo, expressão de uma impressionante rede de disseminação de fake news, de intervenção dos EUA nas eleições da América Latina. Diria: até as dissimulações estão sendo desprezadas.

Se a companheira dele, Nadia Beller, a quem pretendeu assassinar, tiver razão, e ele for de fato agente da CIA, torna-se evidente a imbricação do trabalho político-cultural, destinado a modificar o pensamento das pessoas, em princípio o trabalho dos think tanks, das organizações não-governamentais vinculados direta ou indiretamente aos EUA, com os serviços de inteligência e de repressão.

Donald Trump, aliás, de alguma forma, lida bem com essa duplicidade. Pode valer-se do trabalho do pessoal de comunicação, das fazendas de bots e trolls voltadas a influenciar e fraudar eleições, conjugado com as ameaças e se for o caso com a violência. Agora, evidencia-se o cerco às eleições brasileiras, que deve prosseguir e já é excessiva e constante.

Taxações, proteção a refugiados golpistas, envio de um nome sem credenciais exigidas para ser embaixador no Brasil, suspensão de visto da embaixadora brasileira nos EUA, envio de emissários norte-americanos para questionar o processo eleitoral (presença recusada pelo governo brasileiro), reunião organizada pelo consulado norte-americano com comunicadores de extrema-direita e qualificação do PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, tudo isso atendendo a pedidos da família Bolsonaro, tipicamente uma organização criminosa atuando contra o Brasil.

Não estamos enfrentando uma eleição sob um quadro de normalidade democrática: há uma evidente intervenção externa, aberta, como se tivessem os EUA o direito de arbitrar nossos caminhos, ainda na esteira da velha Doutrina Monroe. Trata-se, do nosso ponto de vista, do pessimismo da inteligência, otimismo da vontade, na esteira do pensamento de Romain Rolland, dito largamente utilizado por Antonio Gramsci.

Não deixar de utilizar a razão para conhecer as dificuldades. Nem se paralisar diante delas, ao contrário. Superá-las, valer-se da boa política, utilizar-se de nossas forças para derrotar a barbárie, representada pela extrema-direita, personificada no caso brasileiro pelo Tariflávio, a quem o próprio Estadão praticamente chamou de chefe de milícias, como verdadeiramente ele é.

A cidadania brasileira garantirá as eleições e a vitória de Lula. Tem forças para tanto, como tem sido demonstrado, com a intensa mobilização experimentada pela campanha de Lula e pelas mobilizações em todo o Brasil. Vamos vencer para que não retornemos à barbárie. Para seguir como nação capaz de atender às necessidades do nosso povo, e caminhar sempre soberana, de cabeça erguida. À vitória! É Lula de novo, com a força do povo!

 

Fonte: Por Monica Loyola Stival, em A Terra é Redonda

 

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