Por
que a Bíblia evangélica é diferente da católica
O
tradicional conjunto de livros sagrados que forma a Bíblia não é exatamente o
mesmo para católicos e protestantes.
Por
conta do processo histórico não exatamente igual que grupos diferentes do
cristianismo seguiram no amadurecimento do chamado cânone dos livros sagrados,
as diferenças entre os textos utilizados por diferentes denominações religiosas
cristã não se restringem a variações de tradução.
De
forma geral, as disparidades estão todas no Antigo Testamento, a parte da
Bíblia que precede o nascimento de Jesus e é praticamente igual às escrituras
judaicas.
Para os
católicos, são 46 livros os que compõem esse segmento. Protestantes excluem os
livros de Tobias, Judite, os dois volumes de Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico
(também chamado de Sirácida) e Baruc.
"Protestantes
e católicos não divergem quanto ao Novo Testamento. Divergem quanto ao Antigo
Testamento", sintetiza o teólogo e historiador Gerson Leite de Moraes,
professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.
É por
isso que, no dia a dia, convencionou-se usar termos como "bíblia
católica" e "bíblia protestante" — ou "bíblia
evangélica", terminologia mais comumente utilizada no Brasil
contemporâneo, principalmente quando se refere aos grupos protestantes de
denominações mais recentes historicamente.
Essa
discrepância tem raízes históricas e está no cerne do próprio cisma que viveu o
cristianismo no século 16, a origem das denominações cristãs não católicas.
"Não
existem duas bíblias completamente diferentes, uma católica e uma protestante.
O Novo Testamento é o mesmo", diz o frade franciscano Maurício Solfa,
filósofo, teólogo, psicanalista e autor do livro 60 Dias Para Mudar.
"Havia
uma discussão grande sobre a autoridade da Bíblia, sobre qual era a verdadeira,
qual tinha mais autoridade. Ao longo do tempo isso foi diminuindo. Ambos
entenderam que a verdadeira mensagem é amar o próximo", diz o evangelista
e palestrante Adimir Telles, membro da Igreja Assembleia de Deus e autor de,
entre outros livros, O Querer Faz a Diferença.
Antes
de mais nada é preciso lembrar que o cristianismo parte de uma base judaica.
Assim, os livros que formam o Antigo Testamento são a bíblia judaica, um
conjunto de textos que provavelmente circulava de forma oral já por volta do
ano 1.000 antes da Era Comum e, de lá para cá, passou a ser registrado.
"A
própria formação do cânone judaico não ocorreu de uma hora para a outra",
diz Moraes. "Foram seis ou sete séculos em que eles discutiram quais eram
os livros aceitos. É um debate que se arrastou até praticamente o final do
primeiro século [da atual Era], com muita disputa sobre que livro entraria e
que livro não entraria e um forte apelo à tradição."
Quando
Jesus viveu, já havia um corpus relativamente consolidado dessa literatura
considerada sagrada.
Os
primeiros cristãos seguiram produzindo seus textos. A partir da morte de Jesus
e, principalmente na virada do primeiro para o segundo século da Era Comum — e
ao longo das décadas de tal século —, muito se escreveu a respeito da vida e da
mensagem daquele homem que teria feito milagres, arrebanhado seguidores e morto
crucificado pelas autoridades romanas que, aliadas com a elite judaica,
dominavam a região de Jerusalém.
Eram
relatos sobre aqueles primeiros cristãos — o livro Atos dos Apóstolos —,
histórias sobre quem teria sido Jesus — os quatro evangelhos, João, Lucas,
Marcos e Mateus — e as cartas com orientações enviadas para as comunidades que
eram fundadas em torno dessa mesma fé, dentre as quais se destacam as escritas
por Paulo de Tarso (?-68), depois chamado de São Paulo ou Paulo Apóstolo.
Com o
cristianismo se organizando e se institucionalizando, veio também a necessidade
de definir: o que, afinal, daquela literatura que vinha sendo produzida e
arquivada, mereceria ser reconhecida como textos inspirados por Deus? O que
precisava ser canonizado, se tornando então parte dos textos sagrados que
deveriam nortear a fé comum dali por diante?
Não foi
fácil chegar a um consenso. Ao longo de séculos, muitos debates e encontros
foram realizados em busca de uma Bíblia consolidada. E essa história tem a ver
não só com os textos que foram preservados, mas também com suas traduções e os
vieses de confirmação de cada material.
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Caminhos cristãos
A raiz
da discrepância está em um trabalho hercúleo realizado por sábios escribas em
Alexandria por volta do século 3º antes da Era Comum.
Por
razões até hoje não muito claras, eles tiveram a missão de traduzir para uma
versão corrente do grego daquela época as escrituras consideradas sagradas
pelos judeus.
O
conjunto ganhou o nome de Septuaginta, ou "versão dos setenta", por
conta de uma lenda de que os tradutores teriam ficado em salas separadas,
confinados, ao longo de 72 dias e, ao fim da missão, todos eles tinham versões
idênticas do trecho. Essa narrativa imaginária corresponde ao relatado pelo
historiador judaico-romano Flávio Josefo (37-100), mas é tida como fantasiosa.
O nome, contudo, ficou.
Quando
os primeiros cristãos buscavam o cânone, voltaram-se para esse material grego —
vale ressaltar que os primórdios do cristianismo encontrou solo fértil em
terras gregas, como Corinto e Tessalônia, entre outras tantas cidades por onde
Paulo circulou e a quem escreveu cartas.
"A
Igreja Católica acabou reconhecendo esses livros, essa antiga tradução grega
das escrituras judaicas, como parte de um cânone", afirma Solfa. Desse
conjunto, fazem parte os sete livros do Antigo Testamento que estão na bíblia
católica, mas não na versão protestante. Por causa dessa fonte grega, a versão
católica da Bíblia tem ainda dois capítulos e um trecho a mais no livro de
Daniel e diversos acréscimos em Ester.
Com a
reforma protestante, desencadeada por Martinho Lutero (1483-1546) em 1517, os
dissidentes passaram a considerada como fonte inquestionável do Antigo
Testamento os textos canonizados pelo judaísmo — ou seja, sem Tobias, Judite,
os dois volumes de Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico e Baruc, chamados por eles
de apócrifos e, pelos católicos, de conjunto deuterocanônicos.
Esses
sete livros acabaram sendo desconsiderados pelo cânone judaico apenas no
concílio de Jamnia, na virada do primeiro para o segundo século da Era Comum —
por isso constavam do conjunto traduzido em Alexandria.
"Os
grandes eixos da fé cristã estão presentes nas duas tradições. Nenhuma das
versões da bíblia pode ser desprezada", diz Solfa.
Mas o
próprio cânone católico, lembra o frade Solfa, "não apareceu pronto".
"Ele foi se formando ao longo dos primeiros séculos, a partir das
primeiras comunidades cristãs", pontua. A base foi a Septuaginta, a partir
de então os demais escritos foram sendo recolhidos, copiados, lidos nas
assembleias, difundidos.
"No
início, houve discussões sobre alguns livros", comenta o franciscano.
"Progressivamente, a Igreja foi reconhecendo a coleção que hoje
temos."
A mais
antiga lista conhecida com todos os livros que formam o Novo Testamento data de
367. É um documento escrito pelo então arcebispo de Alexandria, o líder
religioso Atanásio (296-373), hoje considerado santo.
Em 393,
no Concílio de Hipona — nome antigo da atual cidade de Annaba, na Argélia —,
pela primeira vez se instituiu o chamado cânone cristão, sob a liderança de
nomes como o então presbítero Aurélio Agostinho (354-430), depois Santo
Agostinho.
Na
virada do século 4º para o 5º, a Bíblia tomaria forma mais consolidada graças à
tradução empreendida pelo teólogo, historiador e sacerdote Eusébio Sofrônio
Jerônimo (347-420), o São Jerônimo, que verteu os textos todos desse corpus
para o latim corrente da época — a obra acabou conhecida como Vulgata. Mesmo
assim, havia mais debate do que consenso. "São Jerônimo tinha reserva em
relação a determinados livros que Santo Agostinho defendida", comenta
Solfa.
Esse
processo se prolongou ao longo da Idade Média. O Concílio de Florença,
realizado de 1431 a 1445 é um evento que já trazia uma lista equivalente ao
cânone atual.
O
interessante dessa história é que foi somente com a reforma protestante que a
Igreja Católica também se viu na necessidade de cravar como "verdade
religiosa" a sua seleção canônica. "A definição dogmática solene veio
com o Concílio de Trento, em 1546, no contexto da reforma protestante",
diz Solfa. "Ali se confirmou como sagrados e canônicos os livros que hoje
compõem a bíblia católica.
"Trento
não criou a bíblia católica. O concílio referendou o que já vinha sendo
recebido na tradição há séculos", afirma.
Referendou
em resposta a um movimento dissidente que voltou às origens judaicas para
reconhecer o que era, no seu entender, o legítimo.
Para os
protestantes, os sete livros "excluídos" passaram a ser considerados
apócrifos. Mesmo assim, não podiam ser desprezados. "Lutero escreveu sobre
eles. Acreditava que embora não pudessem ser equiparados aos das sagradas
escrituras, era uma leitura boa e proveitosa", afirma Moraes. "Talvez
não tenham sido inspirados [por Deus], não tenham a mesma autoridade que os
demais."
Moraes
afirma que desde a origem os protestantes "não se furtavam a ler e citar
os livros considerados apócrifos". Teólogos contemporâneos tendem a lidar
com muito respeito diante das versões alheias à sua denominação.
"Expressões
como 'bíblia católica' e 'bíblia protestante' são compreensivelmente utilizadas
e não estão erradas desde que não dêem a entender que se tratam de dois livros
inteiramente distintos, já que são basicamente as mesmas obras", afirma o
teólogo Vinicius Cardoso von Mengden, professor no Seminário Adventista
Latinoamericano de Teologia.
"São
diferenças ligadas à história da formação e do reconhecimento do cânone do
Antigo Testamento", resume Mengden.
Para os
católicos, 30 de setembro é considerado o Dia da Bíblia — trata-se da data da
morte de São Jerônimo, em 420. Protestantes comumente adotam como homenagem às
escrituras o segundo domingo de dezembro, desde 2001 oficializado no Brasil por
lei federal como o Dia da Bíblia.
Fonte:
BBC News Brasil

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