China,
Gaza, Trump e a nova geração da esquerda: por que o socialismo voltou ao
debate?
O
projeto socialista recobra força depois de um período de decepções, devido ao
fim da euforia neoliberal, da revalorização do planejamento e dos êxitos da
China. É reconsiderado na Rússia diante do perigo de uma catástrofe bélica e
reaparece nos Estados Unidos com mudanças geracionais e vitórias municipais, em
confronto com a fúria anticomunista da direita. Estas experiências renovam as
estratégias da esquerda para chegar ao governo e disputar o poder. Na América
Latina, as adversidades da conjuntura convivem com um grande acervo de teorias
e experiências socialistas que realçam o anti-imperialismo e a unidade
regional. O socialismo é uma velha aspiração dos militantes populares que lutam
para construir uma sociedade de igualdade e justiça. É um projeto situado no
polo oposto do capitalismo e ambiciona erradicar os padecimentos sociais, as
tragédias bélicas e a destruição do meio ambiente que esse sistema provoca. Sua
prioridade é reverter a tremenda desigualdade contemporânea, com políticas de
expansão da propriedade pública e autoadministração popular. Este projeto
começou a recobrar força em distintos
rincões do planeta.
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Mutações e protagonistas
A
proposta socialista teve acolhidas muito diversas nas últimas décadas. Houve um
período de esperança na segunda metade do século XX, durante o auge do
denominado bloco socialista em um terço do mundo. Posteriormente irrompeu o
entusiasmo dos anos 70, no compasso da radicalização suscitada pelo êxito das
revoluções vietnamita e cubana. Esta adesão começou
a erodir-se pelos questionamentos internos gerados pelo conflito
sino-soviético, as críticas na Hungria, os distanciamentos da Iugoslávia, as
recolocações na Tchecoslováquia e o descontentamento na Polônia. A posterior
implosão da União Soviética derivou em um repúdio ao socialismo nos anos 90 e
em uma generalizada indiferença na década seguinte, quando fora da América
Latina o projeto igualitário parecia um tema do passado. Este mal-estar
diluiu-se posteriormente e atualmente há muitos indícios de reconsideração do
socialismo. A dissipação da euforia neoliberal é a principal determinante desta
mudança. A crise financeira de 2008 desmentiu todos os pressupostos
antissocialistas de otimismo com o capitalismo.
Primeiro
reapareceu a intervenção estatal para socorrer os banqueiros e depois se
generalizaram as vozes que ponderam a regulamentação da economia, em detrimento
da primazia dos mercados. A pandemia e a fratura da globalização reforçaram
esta reabilitação da intervenção estatal, erodindo ainda mais o endeusamento da
“mão invisível” e de um funcionamento espontaneamente equilibrado do
capitalismo. Os programas de investimento estatal voltam a apresentar dimensões
gigantescas e cresce o clamor por estabelecer algum tipo de impostos
significativos para o novo punhado de mil milionários digitais. Esta elite
pretende capturar os governos para consolidar seu domínio plutocrático,
aumentando a escandalosa desigualdade atual. Neste cenário, distante da
veneração neoliberal dos mercados, reapareceu o interesse por recuperar o
planejamento, como instrumento de gestão econômica. Este instrumento tem
aplicações parciais em distintas áreas da gestão capitalista, mas foi
desenvolvido e aperfeiçoado com as políticas socialistas que permitem seu pleno
desenvolvimento.
A
necessidade de planificar a economia e regulamentar os mercados tornou-se
urgente, frente ao descontrolado agravamento dos desequilíbrios ambientais e o
aterrador desmanejo que gera a Inteligência Artificial. As catastróficas
consequências dos dois processos estão criando enormes temores nos próprios
epicentros do capitalismo, quebrando a ingênua confiança nesse sistema que
imperou no começo do novo século. Aqueles que ainda repetem o tosco discurso
que contrapõe “o triunfo do capitalismo” ao “fracasso do socialismo” perderam
contato com a realidade. Não registram que o novo cenário inclui o fulminante
êxito da China, com seu crescimento
sustentado e sua disputa com os Estados Unidos pela primazia nas tecnologias de
ponta. Esta conquista obedece a que evitou a autodestruição padecida pela União
Soviética e optou por modificar o rumo econômico, sem demolir as vantagens
legadas por sua trajetória socialista. A China substituiu a exportação de bens
básicos por uma ampla gama de produtos elaborados e exibe chamativas melhoras
do nível de vida da população. Superou por completo sua velha condição de país
subdesenvolvido e se transformou em um grande protagonista econômico
internacional prescindindo da coerção militar. O gigante asiático descartou o
neoliberalismo e a financeirização, mas não poderia ter chegado a seu estágio
atual com a mera aplicação de modelos keynesianos. Desenvolveu um esquema de
predomínio da esfera política sobre o universo econômico, que submete os
capitalistas à autoridade efetiva do Estado. Estes setores privilegiados
existem e são influentes, mas não controlam as principais alavancas do poder, nem
as decisões estratégicas que são definidas pelo Partido Comunista. Por esta
razão, a regulamentação da economia funciona, os planos quinquenais são
cumpridos e é possível limitar o impacto das crises financeiras. Os gestores
deste modelo o definem como uma variedade de “socialismo de mercado”. Outros o
visualizamos como um processo em disputa para uma longa transição ao pós
capitalismo. Mas em qualquer interpretação, a China traz numerosos argumentos
para apoiar a reconsideração do socialismo, que nesse país se conceitualiza nos
âmbitos que revitalizam o marxismo. Esta mesma sequência se corrobora no
Vietnam, que em outra escala está transitando por um processo semelhante.
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Reavaliações e convulsões
O
socialismo é um conceito primordialmente associado às conquistas populares.
Forja-se com as melhoras no nível de vida, que os despossuídos obtêm em sua
batalha contra o capitalismo. Com este parâmetro em mente, começam a emergir
novas avaliações do significado que teve a União Soviética. O modelo econômico
deste país esteve muito afetado pela improdutividade, o desabastecimento e a
escassa variedade de produtos consumidos. Mas não carregava nenhum dos dramas
contemporâneos do desemprego, do endividamento pessoal ou da precarização do
trabalho, que atualmente imperam em todos os países capitalistas. As enormes
conquistas sociais que havia na URSS tiveram uma projeção externa maiúscula, ao
impor a vigência do “Estado de bem-estar” no Ocidente. As impensáveis melhoras,
que se instauraram e estiveram vigentes durante décadas nos países
desenvolvidos, foram aceitas pelo temor do comunismo, que classes dominantes
associavam à existência da União Soviética. O desmoronamento desse regime abriu
caminho para a ofensiva neoliberal e a sistemática demolição dos sindicatos,
dos convênios coletivos e dos direitos de educação, moradia e saúde.
Este
reconhecimento do significado que teve a URSS é um tema de debate atual, que
permite superar as desqualificações dessa experiência. A economia da União
Soviética não fracassou na concorrência com os Estados Unidos, posto que ambas
as potências estavam situadas em planos diferentes. Nas relações efetivamente
comparáveis, a Rússia se encontrava melhor que a Turquia, a China avançava mais
que a Índia e a Europa do Leste não padecia nenhuma das grandes desgraças da
América Latina. Esta reavaliação da URSS começa a ganhar adesão dentro da
Rússia, desde que foi superada a desintegração da era Yeltsin. Diante de um
bloco ocidental belicista atualmente empenhado em dobrar ou fraturar o país,
reforça-se a revalorização das conquistas conseguidas pela União Soviética,
durante décadas de resistência a esta mesma agressão.
A
guerra da Ucrânia, as sanções comerciais dos Estados Unidos e a pressão
financeira da Europa consolidaram esta reconsideração, que objetiva o suicídio
político cometido com a dissolução da URSS. A revisão desse desacerto explica o
resgate dos valores socialistas e o reaparecimento da simbologia comunista, em
iniciativas internacionais (como o Sovitern) que convocam a retomar o
bolchevismo. O socialismo recupera também significado devido ao contexto
bélico, que se verifica com especial virulência na Ucrânia, Palestina e Irã.
Este cenário de militarização tende a generalizar-se como um novo perigo de
alcance global. Assim como no passado, o belicismo aumenta quando as grandes
corporações capitalistas não encontram saída para sua crise e generalizam as
guerras, para recriar seus negócios com economias bélicas e reconversões
militares da produção. Este curso predominou na Primeira Guerra Mundial e se
repetiu na Segunda conflagração, suscitando os cataclismas que derivaram nas
revoluções socialistas da Rússia, China, Europa e Oriente. A recriação deste
cenário desponta como uma dramática possibilidade atual, com a conseguinte
opção entre “socialismo ou barbárie” de que falava Rosa Luxemburgo.
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Gerações em disputa
O reaparecimento atual do
projeto socialista obedece, em grande parte, a uma mutação geracional. Na
segunda década do século XXI se verifica uma mudança de época, porque os
grandes acontecimentos que fecharam o século passado já não impactam os jovens
do novo período. Especialmente a implosão da URSS – que afetou tão duramente a
consciência socialista internacional do século XX – não influi sobre as
gerações atuais. Constitui um episódio do passado para os setores mais
politizados e um evento quase desconhecido para o grosso da população.Por esta
razão, termos tão difamados durante o auge neoliberal – como o socialismo ou o
comunismo – estão perdendo suas conotações negativas e são reconsiderados sem
preconceitos pelos netos das experiências igualitárias. Esta mudança de percepções
explica a renovada adoção juvenil destas bandeiras. Esta virada é muito visível
nos Estados Unidos. Ali, o novo prefeito de Nova York, Madmani, não oculta sua
adesão ao socialismo e esta identificação é compartilhada pelos jovens que o
apoiam. Tanto as pesquisas, como a impactante sequência de triunfos da corrente
socialista no Partido Democrata (DSA), confirmam essa simpatia. São vitórias
que se estendem a várias cidades do país, canalizando uma crescente reprovação
aos mil milionários digitais, que enriquecem com a precarização dos
trabalhadores.
Mas o
socialismo ressoa com força, não só pela reconsideração de seus promotores.
Também desponta pela fúria que descarregam seus opositores. A própria
terminologia do marxismo foi reinstalada na agenda pública por esta difamação.
Ao demonizar o socialismo com tanta virulência, a ultradireita ressuscitou a
curiosidade e o interesse por um programa situado nas antípodas do trumpismo.
Esta contundente contraposição suscita intensos debates. Os reacionários
veneram o capitalismo, apresentando a desigualdade como um dado inevitável.
Consideram que a propriedade é uma instituição invulnerável e observam o
mercado como um pilar intocável de qualquer sociedade. Com estes pressupostos
naturalizam o desemprego, reivindicam o egoísmo e legitimam a exploração. Pelo
contrário, os socialistas defendem as melhorias sociais, exaltam a justiça,
favorecem a cooperação e auspiciam a fraternidade entre os povos. Por esta
razão, aplaudem os direitos conquistados pelas mulheres, pelas minorias e pelos
oprimidos de toda índole, favorecem a democratização da sociedade e propiciam a
regulamentação dos bens comuns.
A
batalha de ideias entre os dois setores se estende a todos os campos e inclui a
disputa pelo próprio uso do termo liberdade. Os direitistas engrandecem este
conceito, mas a única acepção efetiva que lhe atribuem é a ausência de
restrições ao mercado e o consequente privilégio que têm os capitalistas para
explorar os trabalhadores. Pelo contrário, os socialistas associam a liberdade
à igualdade e à possibilidade de melhoras sociais para as maiorias populares.
Um contraponto do mesmo tipo cerca a acepção crítica do Estado que têm as duas
correntes. A verborragia anti estatista da ultradireita transformou-se em um
fogo de artifício, ao omitir que o capitalismo não poderia subsistir nem um
minuto, sem o apoio do Estado. Pelo contrário, o projeto socialista de eliminar
a opressão estatal se baseia em um propósito coerente de expandir
paulatinamente a igualdade, para desenvolver uma longa travessia para o
comunismo. O reaparecimento do socialismo na agenda pública atemoriza os
poderosos, que convalidam a brutal campanha anticomunista lançada por
Trump, Rubio e seus sequazes. Retomam os fantasmas da guerra fria e o arsenal
persecutório do macartismo que muitos analistas supunham extinto. Ressuscitam
esta ladainha, porque estão obcecados pela potencial reconstituição de seu real
inimigo, que é o socialismo.
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Experiências e estratégias
O
socialismo reaparece em estreita conexão com novas versões das velhas
experiências municipais. Existe uma tradição centenária neste âmbito, que volta
a operar como laboratório do poder popular. Esta gravitação atualmente se
verifica nos êxitos eleitorais da esquerda em cidades relevantes. Nova York é o
caso mais significativo devido à nova camada militante que retoma as campanhas
nas ruas. Buscam a proximidade direta com os vizinhos, refutando a crença de
que a política ficou deslocada ao etéreo universo das redes sociais. Agem com
grande suporte dos jovens da classe trabalhadora, que massificaram propostas de
impostos progressivos sobre o grande capital, defesa dos migrantes e repúdio ao
genocídio em Gaza. Com a causa palestina como bandeira central de sua ação
política, conseguiram criar um primeiro contrapeso de grande porte à
ultradireita, no centro do capitalismo. O que aconteceu em Nova York já tem
prolongamentos em outras localidades, como a cidade austríaca de Graz, onde a
prefeita comunista foi reeleita, com grande aprovação a seu programa de
moradia. Há pesquisas que antecipam vitórias eleitorais da esquerda em
importantes metrópoles da Europa, confirmando a onda de renascimento do
socialismo municipal, que tem sólidas raízes e maiores dimensões na Índia e no
mundo asiático. A mesma tendência verificou-se anteriormente na América Latina,
a partir do ensaio inaugural do orçamento participativo em Porto Alegre. Estas
experiencias induzem a rever o modelo de “Viena a Vermelha” que, no princípio
do século XX foi conceitualizado pelo marxismo austríaco como um elo da
estratégia para conquistar o Estado. No cenário atual, estes nexos remetem à
proposta socialista de chegar ao governo pela via eleitoral, para disputar a
partir dali o poder efetivo.
É
evidente que uma vitória da esquerda nas eleições presidenciais constitui
apenas um primeiro passo para confrontar o verdadeiro poder político dos que
governam às costas do povo. Aporta forças para começar uma transformação
democrática, que permita à população decidir quanto aos temas cruciais da
sociedade. Esta mesma batalha se estende ao poder judiciário e à luta contra a
casta que dita regras a favor dos poderosos. É também uma contenda pela
hegemonia do poder midiático, monopolizado por um punhado de empresários e pelo
controle do poder militar, administrado pelos guardiães do status quo. Estas
conquistas das alavancas da sociedade apontam para a erradicação do domínio
econômico que detêm os capitalistas, para abrir caminho à igualdade social. O
socialismo é um processo que transita por esta expansão do poder popular em
detrimento do poder burguês, mediante uma drástica reconversão do Estado. Lenin
esclareceu de que maneira opera esta instituição, como epicentro do controle
exercido por uma minoria de capitalistas sobre a maioria da sociedade.
A
esquerda é socialista porque está comprometida com este projeto, em
contraposição ao progressismo que sustenta o capitalismo e renega as metas
igualitárias. Por esta renúncia, costumam transitar pelos governos sem desafiar
o poder, gerando as decepções que pavimentam o ascenso da direita. Uma
estratégia socialista adequada ao contexto atual não é um diagrama de
escritório. Requer lutas de grande intensidade e rebeliões que permitam
combinar a reforma com a revolução, deixando para trás as errôneas contraposições
entre os dois planos. Como afirmava Luxemburgo, existe plena complementariedade
entre as reformas conquistadas no sistema atual e a dinâmica revolucionária que
erradicará o capitalismo. A própria ação popular tenderá a visualizar, em cada
caso, as modalidades específicas dessa mescla. Este processo exige desenvolver
o curso de radicalização que postularam muitos teóricos do marxismo. Envolve
uma dinâmica de longo prazo, pavimentada com estratégias de hegemonia e avanços
da esfera pública. O ressurgimento do socialismo favorece a revisão destas
coordenadas do projeto pós capitalista.
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Singularidades regionais
A
reconsideração do socialismo na América Latina é mais adversa na conjuntura,
mas muito sólida em perspectiva. As dificuldades no curto prazo devem-se à
força que exibe a onda ultradireitista, com mais governos na região do que em
qualquer outra zona do planeta. Esta extensão obedece ao refluxo de um ciclo
progressista, que teve um alcance superior a esboços do mesmo tipo em outras
regiões. Este desvantajoso cenário atual afeta os três pilares da perspectiva
socialista das últimas décadas: Cuba, Venezuela e Bolívia.
Cuba é
uma pequena ilha situada a 90 milhas de Miami, que não pode avançar sozinha no
horizonte socialista sem confluir com processos semelhantes em escala regional
ou global. Enfrenta, agora, um perigo extremo com o agravamento do bloqueio
imperialista. Trump impede a chegada de petróleo e tenta provocar uma crise
humanitária para sepultar a revolução, que o povo defende com grande heroísmo.
Venezuela enfrentou uma esgotadora batalha pela sobrevivência, que opacou seu
projeto renovador de socialismo do século XXI. Atualmente foi ocupada de fato
pelos Estados Unidos, para roubar o petróleo e transformar o país em uma
colônia. O modelo plurinacional da Bolívia continha elementos de potencial
trânsito para o socialismo, com grande protagonismo dos povos originários. Esse
curso ficou obstruído pelo retorno da direita ao governo, com
um ajuste neoliberal que desencadeou a primeira grande revolta do período em
curso. Mas estas adversidades convivem com a consistência que acumula o projeto
igualitário na América Latina, ao cabo de duas décadas de grande organização,
militância e consciência popular. Na maior parte dos países forjaram-se novas
redes de lutadores, com uma grande variedade de experiências vinculadas à
prática socialista. Este percurso não foi uma improvisação recente. A América
Latina conta com um acervo secular da esquerda, com tradições socialistas e
comunistas que moldaram a formação da classe operária e com referências da
estatura que teve Recabarren no Chile.
Este
legado alimentou um pilar teórico singular, que na região se configurou em
torno do marxismo latino-americano. Este alicerce conceitual amadureceu ao
calor da revolução cubana, enfatizando a gravitação do sujeito na transformação
revolucionária e na conseguinte incidência da vontade para mudar a sociedade.
Com esta marca realçou a importância dos princípios éticos e gestou uma
concepção do homem novo, que lhe permitiu registrar a presença de uma grande
variedade de segmentos populares na dinâmica transformadora. Captou este papel
determinante dos camponeses e dos moradores nos anos 70, em contraposição à
ortodoxia comunista, que raciocinava com o foco posto nas forças produtivas.
Este enfoque postulava uma transformação social, centrada em definir quais eram
os processos que impulsionavam ou freavam o desenvolvimento econômico,
destacando a centralidade dos protagonistas populares.
A
esquerda radical do século XXI absorveu o marxismo latino-americano e herdou
sua sensibilidade para reconhecer o papel dos povos indígenas, das mulheres e
dos precarizados. Mas, sobretudo, manteve seu compromisso com a luta popular e
a centralidade da ação direta, em contraposição a um progressismo ligado à
passividade, que impõe a veneração da institucionalidade convencional. O
socialismo também se nutre na América Latina da contribuição legada pela Teoria
Marxista da Dependência, que explica a sistemática drenagem de recursos de que
padece uma região periférica e subdesenvolvida. Esta tradição conceitual
permitiu compreender todas as consequências do extrativismo, que empobrece a
zona e perpetua sua condição dependente. A compreensão destes processos nutre a
elaboração dos programas econômicos socialistas, que contemplam a
especificidade da América Latina. Estes projetos combinam estratégias de
crescimento, reindustrialização e redistribuição de renda, centrados na
soberania energética, alimentícia e financeira.
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Figuras, identidades e atitudes
Da
síntese do Marxismo Latino-americano e da Teoria da Dependência brotaram os
projetos socialistas, que prestam atenção ao lugar geopolítico de uma região
submetida ao domínio estadunidense. Esta opressão salta aos olhos, na era do
imperialismo descarado, brutal e confiscatório encabeçado por Trump. Dessa
corroboração surge o registro da enorme centralidade que tem o
anti-imperialismo na região e a consequente convergência da esquerda com o
nacionalismo revolucionário. Esta conexão se verificou com Sandino, Cárdenas,
Torrijos e mais recentemente com Chávez e o projeto bolivariano. Não há dúvida
que o projeto socialista transita na América Latina por avanços na unidade
latino-americana. É evidente que a região não pode resistir aos Estados Unidos
ou negociar convênios favoráveis com a China, sem garantir sua própria
confluência. UNASUL e CELAC são vislumbres desta articulação, que teve na ALBA
uma primeira grande tentativa de forjar alternativas de coordenação econômica
solidária, com horizontes socialistas.
O
marxismo anti-imperialista da América Latina se nutre também dessas figuras que
valorizaram Martí (Mella) e polemizaram com a idealização da burguesia nacional
(Mariátegui). Com esta ótica gestaram um olhar próprio, em disputa com os
enfoques dogmáticos e eurocentristas que desconheciam as especificidades da
região. Destes legados emergiu Fidel Castro, como principal expoente da
esquerda do século XX. Sintetizou como nenhum outro líder uma convergência
plena de teoria e prática socialistas, ao conceber a revolução cubana como um
episódio da emancipação latino-americana. Rejeitou o manejo convencional do
governo e comandou a captura do poder do Estado, demonstrando nos fatos como se
desenvolve uma transformação revolucionária. Foi um dirigente que exibiu enorme
perspicácia, autonomia e inteligência política, aderindo ao ideário socialista,
sem aceitar os mandatos do Kremlin. Em certo período promoveu a ação
guerrilheira e em outros momentos estimulou cursos de radicalização
institucional, com grande capacidade para adaptar este projeto à mudança de
circunstâncias. Com esta visão manteve estreitas relações com Salvador Allende.
Fidel conseguiu uma assimilação maiúscula de Lenin para pensar estratégias
políticas com categorias de ação, avaliando as relações de forças, a
especificidade de cada cenário, a definição do inimigo principal e a busca de
alianças para forjar o poder popular.
A
América Latina tem muito a contribuir com um ressurgimento do socialismo que,
antes de mais nada, exige recuperar este objetivo como explicitamente
enunciado. A defesa do objetivo igualitário com uma nítida identidade
anticapitalista é a forma mais simples e espontânea de recriar um ideal que
volta ao primeiro plano da história. Reivindicar o socialismo sem vergonha e
sem timidez, com os símbolos e denominações de sua trajetória é a melhor forma
de plantar uma bandeira de rejeição frontal à prepotência da ultradireita. O
progressismo rejeita essa admissão para ficar bem com os poderosos e só fala de
“outro mundo”, “outra sociedade” ou “outro futuro”, abjurando do ideal
comunista e temendo as proclamações anticapitalistas. Por isso entrega as
bandeiras, capitula no governo e gera os desenganos que a direita canaliza.
Diante desta rendição, emerge a nova esquerda que aposta sem titubear no
ressurgimento do socialismo.
Fonte:
Por Claudio Katz, em Estratégia.la

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