sexta-feira, 14 de agosto de 2026

China, Gaza, Trump e a nova geração da esquerda: por que o socialismo voltou ao debate?

O projeto socialista recobra força depois de um período de decepções, devido ao fim da euforia neoliberal, da revalorização do planejamento e dos êxitos da China. É reconsiderado na Rússia diante do perigo de uma catástrofe bélica e reaparece nos Estados Unidos com mudanças geracionais e vitórias municipais, em confronto com a fúria anticomunista da direita. Estas experiências renovam as estratégias da esquerda para chegar ao governo e disputar o poder. Na América Latina, as adversidades da conjuntura convivem com um grande acervo de teorias e experiências socialistas que realçam o anti-imperialismo e a unidade regional. O socialismo é uma velha aspiração dos militantes populares que lutam para construir uma sociedade de igualdade e justiça. É um projeto situado no polo oposto do capitalismo e ambiciona erradicar os padecimentos sociais, as tragédias bélicas e a destruição do meio ambiente que esse sistema provoca. Sua prioridade é reverter a tremenda desigualdade contemporânea, com políticas de expansão da propriedade pública e autoadministração popular. Este projeto começou a recobrar força em distintos rincões do planeta.

<><> Mutações e protagonistas

A proposta socialista teve acolhidas muito diversas nas últimas décadas. Houve um período de esperança na segunda metade do século XX, durante o auge do denominado bloco socialista em um terço do mundo. Posteriormente irrompeu o entusiasmo dos anos 70, no compasso da radicalização suscitada pelo êxito das revoluções vietnamita e cubana. Esta adesão começou a erodir-se pelos questionamentos internos gerados pelo conflito sino-soviético, as críticas na Hungria, os distanciamentos da Iugoslávia, as recolocações na Tchecoslováquia e o descontentamento na Polônia. A posterior implosão da União Soviética derivou em um repúdio ao socialismo nos anos 90 e em uma generalizada indiferença na década seguinte, quando fora da América Latina o projeto igualitário parecia um tema do passado. Este mal-estar diluiu-se posteriormente e atualmente há muitos indícios de reconsideração do socialismo. A dissipação da euforia neoliberal é a principal determinante desta mudança. A crise financeira de 2008 desmentiu todos os pressupostos antissocialistas de otimismo com o capitalismo.

Primeiro reapareceu a intervenção estatal para socorrer os banqueiros e depois se generalizaram as vozes que ponderam a regulamentação da economia, em detrimento da primazia dos mercados. A pandemia e a fratura da globalização reforçaram esta reabilitação da intervenção estatal, erodindo ainda mais o endeusamento da “mão invisível” e de um funcionamento espontaneamente equilibrado do capitalismo. Os programas de investimento estatal voltam a apresentar dimensões gigantescas e cresce o clamor por estabelecer algum tipo de impostos significativos para o novo punhado de mil milionários digitais. Esta elite pretende capturar os governos para consolidar seu domínio plutocrático, aumentando a escandalosa desigualdade atual. Neste cenário, distante da veneração neoliberal dos mercados, reapareceu o interesse por recuperar o planejamento, como instrumento de gestão econômica. Este instrumento tem aplicações parciais em distintas áreas da gestão capitalista, mas foi desenvolvido e aperfeiçoado com as políticas socialistas que permitem seu pleno desenvolvimento.

A necessidade de planificar a economia e regulamentar os mercados tornou-se urgente, frente ao descontrolado agravamento dos desequilíbrios ambientais e o aterrador desmanejo que gera a Inteligência Artificial. As catastróficas consequências dos dois processos estão criando enormes temores nos próprios epicentros do capitalismo, quebrando a ingênua confiança nesse sistema que imperou no começo do novo século. Aqueles que ainda repetem o tosco discurso que contrapõe “o triunfo do capitalismo” ao “fracasso do socialismo” perderam contato com a realidade. Não registram que o novo cenário inclui o fulminante êxito da China, com seu crescimento sustentado e sua disputa com os Estados Unidos pela primazia nas tecnologias de ponta. Esta conquista obedece a que evitou a autodestruição padecida pela União Soviética e optou por modificar o rumo econômico, sem demolir as vantagens legadas por sua trajetória socialista. A China substituiu a exportação de bens básicos por uma ampla gama de produtos elaborados e exibe chamativas melhoras do nível de vida da população. Superou por completo sua velha condição de país subdesenvolvido e se transformou em um grande protagonista econômico internacional prescindindo da coerção militar. O gigante asiático descartou o neoliberalismo e a financeirização, mas não poderia ter chegado a seu estágio atual com a mera aplicação de modelos keynesianos. Desenvolveu um esquema de predomínio da esfera política sobre o universo econômico, que submete os capitalistas à autoridade efetiva do Estado. Estes setores privilegiados existem e são influentes, mas não controlam as principais alavancas do poder, nem as decisões estratégicas que são definidas pelo Partido Comunista. Por esta razão, a regulamentação da economia funciona, os planos quinquenais são cumpridos e é possível limitar o impacto das crises financeiras. Os gestores deste modelo o definem como uma variedade de “socialismo de mercado”. Outros o visualizamos como um processo em disputa para uma longa transição ao pós capitalismo. Mas em qualquer interpretação, a China traz numerosos argumentos para apoiar a reconsideração do socialismo, que nesse país se conceitualiza nos âmbitos que revitalizam o marxismo. Esta mesma sequência se corrobora no Vietnam, que em outra escala está transitando por um processo semelhante.

<><> Reavaliações e convulsões

O socialismo é um conceito primordialmente associado às conquistas populares. Forja-se com as melhoras no nível de vida, que os despossuídos obtêm em sua batalha contra o capitalismo. Com este parâmetro em mente, começam a emergir novas avaliações do significado que teve a União Soviética. O modelo econômico deste país esteve muito afetado pela improdutividade, o desabastecimento e a escassa variedade de produtos consumidos. Mas não carregava nenhum dos dramas contemporâneos do desemprego, do endividamento pessoal ou da precarização do trabalho, que atualmente imperam em todos os países capitalistas. As enormes conquistas sociais que havia na URSS tiveram uma projeção externa maiúscula, ao impor a vigência do “Estado de bem-estar” no Ocidente. As impensáveis melhoras, que se instauraram e estiveram vigentes durante décadas nos países desenvolvidos, foram aceitas pelo temor do comunismo, que classes dominantes associavam à existência da União Soviética. O desmoronamento desse regime abriu caminho para a ofensiva neoliberal e a sistemática demolição dos sindicatos, dos convênios coletivos e dos direitos de educação, moradia e saúde.

Este reconhecimento do significado que teve a URSS é um tema de debate atual, que permite superar as desqualificações dessa experiência. A economia da União Soviética não fracassou na concorrência com os Estados Unidos, posto que ambas as potências estavam situadas em planos diferentes. Nas relações efetivamente comparáveis, a Rússia se encontrava melhor que a Turquia, a China avançava mais que a Índia e a Europa do Leste não padecia nenhuma das grandes desgraças da América Latina. Esta reavaliação da URSS começa a ganhar adesão dentro da Rússia, desde que foi superada a desintegração da era Yeltsin. Diante de um bloco ocidental belicista atualmente empenhado em dobrar ou fraturar o país, reforça-se a revalorização das conquistas conseguidas pela União Soviética, durante décadas de resistência a esta mesma agressão.

A guerra da Ucrânia, as sanções comerciais dos Estados Unidos e a pressão financeira da Europa consolidaram esta reconsideração, que objetiva o suicídio político cometido com a dissolução da URSS. A revisão desse desacerto explica o resgate dos valores socialistas e o reaparecimento da simbologia comunista, em iniciativas internacionais (como o Sovitern) que convocam a retomar o bolchevismo. O socialismo recupera também significado devido ao contexto bélico, que se verifica com especial virulência na Ucrânia, Palestina e Irã. Este cenário de militarização tende a generalizar-se como um novo perigo de alcance global. Assim como no passado, o belicismo aumenta quando as grandes corporações capitalistas não encontram saída para sua crise e generalizam as guerras, para recriar seus negócios com economias bélicas e reconversões militares da produção. Este curso predominou na Primeira Guerra Mundial e se repetiu na Segunda conflagração, suscitando os cataclismas que derivaram nas revoluções socialistas da Rússia, China, Europa e Oriente. A recriação deste cenário desponta como uma dramática possibilidade atual, com a conseguinte opção entre “socialismo ou barbárie” de que falava Rosa Luxemburgo.

<><> Gerações em disputa

O reaparecimento atual do projeto socialista obedece, em grande parte, a uma mutação geracional. Na segunda década do século XXI se verifica uma mudança de época, porque os grandes acontecimentos que fecharam o século passado já não impactam os jovens do novo período. Especialmente a implosão da URSS – que afetou tão duramente a consciência socialista internacional do século XX – não influi sobre as gerações atuais. Constitui um episódio do passado para os setores mais politizados e um evento quase desconhecido para o grosso da população.Por esta razão, termos tão difamados durante o auge neoliberal – como o socialismo ou o comunismo – estão perdendo suas conotações negativas e são reconsiderados sem preconceitos pelos netos das experiências igualitárias. Esta mudança de percepções explica a renovada adoção juvenil destas bandeiras. Esta virada é muito visível nos Estados Unidos. Ali, o novo prefeito de Nova York, Madmani, não oculta sua adesão ao socialismo e esta identificação é compartilhada pelos jovens que o apoiam. Tanto as pesquisas, como a impactante sequência de triunfos da corrente socialista no Partido Democrata (DSA), confirmam essa simpatia. São vitórias que se estendem a várias cidades do país, canalizando uma crescente reprovação aos mil milionários digitais, que enriquecem com a precarização dos trabalhadores.

Mas o socialismo ressoa com força, não só pela reconsideração de seus promotores. Também desponta pela fúria que descarregam seus opositores. A própria terminologia do marxismo foi reinstalada na agenda pública por esta difamação. Ao demonizar o socialismo com tanta virulência, a ultradireita ressuscitou a curiosidade e o interesse por um programa situado nas antípodas do trumpismo. Esta contundente contraposição suscita intensos debates. Os reacionários veneram o capitalismo, apresentando a desigualdade como um dado inevitável. Consideram que a propriedade é uma instituição invulnerável e observam o mercado como um pilar intocável de qualquer sociedade. Com estes pressupostos naturalizam o desemprego, reivindicam o egoísmo e legitimam a exploração. Pelo contrário, os socialistas defendem as melhorias sociais, exaltam a justiça, favorecem a cooperação e auspiciam a fraternidade entre os povos. Por esta razão, aplaudem os direitos conquistados pelas mulheres, pelas minorias e pelos oprimidos de toda índole, favorecem a democratização da sociedade e propiciam a regulamentação dos bens comuns.

A batalha de ideias entre os dois setores se estende a todos os campos e inclui a disputa pelo próprio uso do termo liberdade. Os direitistas engrandecem este conceito, mas a única acepção efetiva que lhe atribuem é a ausência de restrições ao mercado e o consequente privilégio que têm os capitalistas para explorar os trabalhadores. Pelo contrário, os socialistas associam a liberdade à igualdade e à possibilidade de melhoras sociais para as maiorias populares. Um contraponto do mesmo tipo cerca a acepção crítica do Estado que têm as duas correntes. A verborragia anti estatista da ultradireita transformou-se em um fogo de artifício, ao omitir que o capitalismo não poderia subsistir nem um minuto, sem o apoio do Estado. Pelo contrário, o projeto socialista de eliminar a opressão estatal se baseia em um propósito coerente de expandir paulatinamente a igualdade, para desenvolver uma longa travessia para o comunismo. O reaparecimento do socialismo na agenda pública atemoriza os poderosos, que convalidam a brutal campanha anticomunista lançada por Trump, Rubio e seus sequazes. Retomam os fantasmas da guerra fria e o arsenal persecutório do macartismo que muitos analistas supunham extinto. Ressuscitam esta ladainha, porque estão obcecados pela potencial reconstituição de seu real inimigo, que é o socialismo.

<><> Experiências e estratégias

O socialismo reaparece em estreita conexão com novas versões das velhas experiências municipais. Existe uma tradição centenária neste âmbito, que volta a operar como laboratório do poder popular. Esta gravitação atualmente se verifica nos êxitos eleitorais da esquerda em cidades relevantes. Nova York é o caso mais significativo devido à nova camada militante que retoma as campanhas nas ruas. Buscam a proximidade direta com os vizinhos, refutando a crença de que a política ficou deslocada ao etéreo universo das redes sociais. Agem com grande suporte dos jovens da classe trabalhadora, que massificaram propostas de impostos progressivos sobre o grande capital, defesa dos migrantes e repúdio ao genocídio em Gaza. Com a causa palestina como bandeira central de sua ação política, conseguiram criar um primeiro contrapeso de grande porte à ultradireita, no centro do capitalismo. O que aconteceu em Nova York já tem prolongamentos em outras localidades, como a cidade austríaca de Graz, onde a prefeita comunista foi reeleita, com grande aprovação a seu programa de moradia. Há pesquisas que antecipam vitórias eleitorais da esquerda em importantes metrópoles da Europa, confirmando a onda de renascimento do socialismo municipal, que tem sólidas raízes e maiores dimensões na Índia e no mundo asiático. A mesma tendência verificou-se anteriormente na América Latina, a partir do ensaio inaugural do orçamento participativo em Porto Alegre. Estas experiencias induzem a rever o modelo de “Viena a Vermelha” que, no princípio do século XX foi conceitualizado pelo marxismo austríaco como um elo da estratégia para conquistar o Estado. No cenário atual, estes nexos remetem à proposta socialista de chegar ao governo pela via eleitoral, para disputar a partir dali o poder efetivo.

É evidente que uma vitória da esquerda nas eleições presidenciais constitui apenas um primeiro passo para confrontar o verdadeiro poder político dos que governam às costas do povo. Aporta forças para começar uma transformação democrática, que permita à população decidir quanto aos temas cruciais da sociedade. Esta mesma batalha se estende ao poder judiciário e à luta contra a casta que dita regras a favor dos poderosos. É também uma contenda pela hegemonia do poder midiático, monopolizado por um punhado de empresários e pelo controle do poder militar, administrado pelos guardiães do status quo. Estas conquistas das alavancas da sociedade apontam para a erradicação do domínio econômico que detêm os capitalistas, para abrir caminho à igualdade social. O socialismo é um processo que transita por esta expansão do poder popular em detrimento do poder burguês, mediante uma drástica reconversão do Estado. Lenin esclareceu de que maneira opera esta instituição, como epicentro do controle exercido por uma minoria de capitalistas sobre a maioria da sociedade.

A esquerda é socialista porque está comprometida com este projeto, em contraposição ao progressismo que sustenta o capitalismo e renega as metas igualitárias. Por esta renúncia, costumam transitar pelos governos sem desafiar o poder, gerando as decepções que pavimentam o ascenso da direita. Uma estratégia socialista adequada ao contexto atual não é um diagrama de escritório. Requer lutas de grande intensidade e rebeliões que permitam combinar a reforma com a revolução, deixando para trás as errôneas contraposições entre os dois planos. Como afirmava Luxemburgo, existe plena complementariedade entre as reformas conquistadas no sistema atual e a dinâmica revolucionária que erradicará o capitalismo. A própria ação popular tenderá a visualizar, em cada caso, as modalidades específicas dessa mescla. Este processo exige desenvolver o curso de radicalização que postularam muitos teóricos do marxismo. Envolve uma dinâmica de longo prazo, pavimentada com estratégias de hegemonia e avanços da esfera pública. O ressurgimento do socialismo favorece a revisão destas coordenadas do projeto pós capitalista.

<><> Singularidades regionais

A reconsideração do socialismo na América Latina é mais adversa na conjuntura, mas muito sólida em perspectiva. As dificuldades no curto prazo devem-se à força que exibe a onda ultradireitista, com mais governos na região do que em qualquer outra zona do planeta. Esta extensão obedece ao refluxo de um ciclo progressista, que teve um alcance superior a esboços do mesmo tipo em outras regiões. Este desvantajoso cenário atual afeta os três pilares da perspectiva socialista das últimas décadas: Cuba, Venezuela e Bolívia.

Cuba é uma pequena ilha situada a 90 milhas de Miami, que não pode avançar sozinha no horizonte socialista sem confluir com processos semelhantes em escala regional ou global. Enfrenta, agora, um perigo extremo com o agravamento do bloqueio imperialista. Trump impede a chegada de petróleo e tenta provocar uma crise humanitária para sepultar a revolução, que o povo defende com grande heroísmo. Venezuela enfrentou uma esgotadora batalha pela sobrevivência, que opacou seu projeto renovador de socialismo do século XXI. Atualmente foi ocupada de fato pelos Estados Unidos, para roubar o petróleo e transformar o país em uma colônia. O modelo plurinacional da Bolívia continha elementos de potencial trânsito para o socialismo, com grande protagonismo dos povos originários. Esse curso ficou obstruído pelo retorno da direita ao governo, com um ajuste neoliberal que desencadeou a primeira grande revolta do período em curso. Mas estas adversidades convivem com a consistência que acumula o projeto igualitário na América Latina, ao cabo de duas décadas de grande organização, militância e consciência popular. Na maior parte dos países forjaram-se novas redes de lutadores, com uma grande variedade de experiências vinculadas à prática socialista. Este percurso não foi uma improvisação recente. A América Latina conta com um acervo secular da esquerda, com tradições socialistas e comunistas que moldaram a formação da classe operária e com referências da estatura que teve Recabarren no Chile.

Este legado alimentou um pilar teórico singular, que na região se configurou em torno do marxismo latino-americano. Este alicerce conceitual amadureceu ao calor da revolução cubana, enfatizando a gravitação do sujeito na transformação revolucionária e na conseguinte incidência da vontade para mudar a sociedade. Com esta marca realçou a importância dos princípios éticos e gestou uma concepção do homem novo, que lhe permitiu registrar a presença de uma grande variedade de segmentos populares na dinâmica transformadora. Captou este papel determinante dos camponeses e dos moradores nos anos 70, em contraposição à ortodoxia comunista, que raciocinava com o foco posto nas forças produtivas. Este enfoque postulava uma transformação social, centrada em definir quais eram os processos que impulsionavam ou freavam o desenvolvimento econômico, destacando a centralidade dos protagonistas populares.

A esquerda radical do século XXI absorveu o marxismo latino-americano e herdou sua sensibilidade para reconhecer o papel dos povos indígenas, das mulheres e dos precarizados. Mas, sobretudo, manteve seu compromisso com a luta popular e a centralidade da ação direta, em contraposição a um progressismo ligado à passividade, que impõe a veneração da institucionalidade convencional. O socialismo também se nutre na América Latina da contribuição legada pela Teoria Marxista da Dependência, que explica a sistemática drenagem de recursos de que padece uma região periférica e subdesenvolvida. Esta tradição conceitual permitiu compreender todas as consequências do extrativismo, que empobrece a zona e perpetua sua condição dependente. A compreensão destes processos nutre a elaboração dos programas econômicos socialistas, que contemplam a especificidade da América Latina. Estes projetos combinam estratégias de crescimento, reindustrialização e redistribuição de renda, centrados na soberania energética, alimentícia e financeira.

<><> Figuras, identidades e atitudes

Da síntese do Marxismo Latino-americano e da Teoria da Dependência brotaram os projetos socialistas, que prestam atenção ao lugar geopolítico de uma região submetida ao domínio estadunidense. Esta opressão salta aos olhos, na era do imperialismo descarado, brutal e confiscatório encabeçado por Trump. Dessa corroboração surge o registro da enorme centralidade que tem o anti-imperialismo na região e a consequente convergência da esquerda com o nacionalismo revolucionário. Esta conexão se verificou com Sandino, Cárdenas, Torrijos e mais recentemente com Chávez e o projeto bolivariano. Não há dúvida que o projeto socialista transita na América Latina por avanços na unidade latino-americana. É evidente que a região não pode resistir aos Estados Unidos ou negociar convênios favoráveis com a China, sem garantir sua própria confluência. UNASUL e CELAC são vislumbres desta articulação, que teve na ALBA uma primeira grande tentativa de forjar alternativas de coordenação econômica solidária, com horizontes socialistas.

O marxismo anti-imperialista da América Latina se nutre também dessas figuras que valorizaram Martí (Mella) e polemizaram com a idealização da burguesia nacional (Mariátegui). Com esta ótica gestaram um olhar próprio, em disputa com os enfoques dogmáticos e eurocentristas que desconheciam as especificidades da região. Destes legados emergiu Fidel Castro, como principal expoente da esquerda do século XX. Sintetizou como nenhum outro líder uma convergência plena de teoria e prática socialistas, ao conceber a revolução cubana como um episódio da emancipação latino-americana. Rejeitou o manejo convencional do governo e comandou a captura do poder do Estado, demonstrando nos fatos como se desenvolve uma transformação revolucionária. Foi um dirigente que exibiu enorme perspicácia, autonomia e inteligência política, aderindo ao ideário socialista, sem aceitar os mandatos do Kremlin. Em certo período promoveu a ação guerrilheira e em outros momentos estimulou cursos de radicalização institucional, com grande capacidade para adaptar este projeto à mudança de circunstâncias. Com esta visão manteve estreitas relações com Salvador Allende. Fidel conseguiu uma assimilação maiúscula de Lenin para pensar estratégias políticas com categorias de ação, avaliando as relações de forças, a especificidade de cada cenário, a definição do inimigo principal e a busca de alianças para forjar o poder popular.

A América Latina tem muito a contribuir com um ressurgimento do socialismo que, antes de mais nada, exige recuperar este objetivo como explicitamente enunciado. A defesa do objetivo igualitário com uma nítida identidade anticapitalista é a forma mais simples e espontânea de recriar um ideal que volta ao primeiro plano da história. Reivindicar o socialismo sem vergonha e sem timidez, com os símbolos e denominações de sua trajetória é a melhor forma de plantar uma bandeira de rejeição frontal à prepotência da ultradireita. O progressismo rejeita essa admissão para ficar bem com os poderosos e só fala de “outro mundo”, “outra sociedade” ou “outro futuro”, abjurando do ideal comunista e temendo as proclamações anticapitalistas. Por isso entrega as bandeiras, capitula no governo e gera os desenganos que a direita canaliza. Diante desta rendição, emerge a nova esquerda que aposta sem titubear no ressurgimento do socialismo.

 

Fonte: Por Claudio Katz, em Estratégia.la

 

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