O
que a rejeição de Messias diz sobre futuro do governo Lula
As
imagens do senador Davi Alcolumbre (União-AP)
dando um tapa na mesa e arremessando o seu microfone após anunciar o veto da
Casa à indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF) selaram uma vitória
histórica do Congresso no jogo de poder com o governo, emitindo sinais claros
sobre a reta final do mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e suas
pretensões eleitorais.
O
risco, avaliam analistas ouvidos pela DW, é o de paralisia da agenda
governamental no Legislativo às vésperas do pleito presidencial de outubro.
A
votação desta quarta-feira (29/04) marca a primeira rejeição pelo Senado a um nome
escolhido pelo Executivo para a Corte em 132 anos. Nem mesmo a indicação
polêmica do ex-advogado do presidente, Cristiano Zanin, encontrou tais
obstáculos. Um paradoxo ao se analisar o perfil de Messias – evangélico e com bom trânsito entre
conservadores, ainda que com menor empenho político que seus antecessores.
Mesmo
diante do fortalecimento do Centrão e do crescimento do bolsonarismo como força
política, a derrota imposta a Lula não é trivial. O presidente governa sem uma
maioria parlamentar clara e enfrenta índices de governabilidade incômodos desde
que voltou ao poder. Ainda assim, até então, conseguia aprovar pautas
consideradas mínimas e prioritárias.
Ao
longo dos últimos cinco meses de articulação, porém, o presidente do Senado
comandou uma campanha de rejeição ao indicado de Lula após ter visto preterido
seu próprio candidato, o senador Rodrigo Pacheco(PSB-MG). A
expectativa era a de que, após pautar a ascensão do ministro Flávio Dino ao
STF, Pacheco seria o próximo da fila, o que não aconteceu. O Executivo ainda
preferiu disparar a nomeação de Messias antes da eleição – novo desencontro com
o desejo de Alcolumbre.
"Passei
por cinco meses de um processo de desconstrução da minha imagem. Toda sorte de
mentira para me desconstruir ocorreu. Nós sabemos quem promoveu tudo
isso", reagiu Messias após a votação, em declaração que soou como um
recado indireto a Alcolumbre.
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O recado ao Planalto e ao Supremo
O
resultado é interpretado como um gesto simbólico dirigido a Lula, diz o
cientista político da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Rodrigo Prando.
"O
primeiro recado para Lula, que busca a reeleição, é que ele não tem o poder que
imagina ter, e é óbvio que isso, de certa maneira, faz com que a imagem dele na
disputa política fique a de um político enfraquecido, sem perspectiva de
manutenção do poder", afirma.
Não à
toa, horas depois da sessão plenária, parlamentares da oposição usaram as redes
sociais para decretar "o fim do governo". Prando vê nesse movimento
um sinal dos senadores do campo bolsonarista, mas não só.
"Alcolumbre quis de uma maneira muito clara mostrar que ele é que manda no
Senado", pontua. O gesto também se estende aos ministros do Supremo, já
que o senador tem o poder de manter na gaveta ou pautar os 97 pedidos de
impeachment contra magistrados.
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Ano eleitoral amplia risco de paralisia e antecipa a disputa política
O revés
é ainda maior em ano eleitoral, quando tradicionalmente governos aceleram
pautas cujo impacto reverbera nas pesquisas eleitorais. O erro de cálculo da
articulação do Planalto cobraria o preço de um possível rompimento da relação
com Alcolumbre. Como presidente da Casa, a caneta do senador é determinante
para destravar a pauta do Congresso.
Para a
cientista política Andréa de Freitas, coordenadora do Centro de Estudos de
Opinião Pública (Cesop) da Unicamp, a derrota imposta ao governo gera uma
lógica de estagnação.
"É
um recado de que não existe uma coalizão estável e que a aprovação das medidas
do governo é um risco sério até o final do mandato. Talvez a gente veja algum
grau de paralisia até meados do recesso branco, que vem com a eleição, pelo
menos até se ter um caminho mais claro do que vai ser o resultado
eleitoral", afirma.
Segundo
Freitas, a paralisia decorre de uma disputa que já se desenha acirrada. O principal
candidato opositor, o senador Flávio Bolsonaro, atua no dia a dia das
negociações parlamentares e vem conseguindo reverter o favoritismo do
incumbente nas pesquisas eleitorais.
Além
disso, a rejeição a Messias antecipa a disputa eleitoral para a política
cotidiana do Congresso, o que leva atores políticos que ainda não definiram um
lado a esperar o resultado das urnas.
"Todos
os atores que não estão claramente do lado ou do Flávio ou do Lula passam por
um momento em que ficar parado é o melhor jogo, porque você não se indispõe
explicitamente com nenhum dos lados e espera o resultado eleitoral para decidir
de que lado você está."
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Centrão consolida poder e impõe limites ao governo
Para a
pesquisadora, a distribuição dos votos no Senado sugere que esse "bloco do
meio" não é pequeno. A vitória do presidente da Casa revela o poder do
Congresso diante de um Executivo cada vez mais refém do chamado Centrão, ainda que parte
deste grupo esteja alinhado ao bolsonarismo. Se nos primeiros governos petistas
o presidencialismo de coalizão funcionava de forma mais natural, o novo mandato
de Lula enfrenta partidos desse espectro com peso decisivo nas negociações.
Ao
final de 2022, já estava claro que o poder acumulado de siglas como União
Brasil, PP, MDB, PSD e Republicanos teria papel central nos anos seguintes.
Todos assumiram cargos na Esplanada do Ministério em algum momento nos últimos
anos, o que não se materializou em alinhamento automático. Mesmo com vitórias
em pautas como a Reforma Tributária, o governo saiu
perdendo em temas como o PL da Dosimetria e a CPMI do
INSS, impulsionados por dissidências do Centrão.
O MDB e
o PSD, por exemplo, que até o começo de abril comandavam cinco ministérios,
estão sendo acusados de "trair" a expectativa de voto em Jorge
Messias. Um áudio vazado no microfone de Alcolumbre durante a sessão plenária
mostrou que o presidente tinha um cálculo melhor que o líder do governo na
Casa, Jaques Wagner (PT-BA). "Acho que ele vai perder por oito",
disse ele, antecipando quase exatamente o placar de 42 votos contrários e 34
favoráveis.
Apesar
da presença no gabinete presidencial, estes partidos não prometem apoio
uníssono a Lula no pleito de outubro. O presidente chega às vésperas da eleição
com 52% de rejeição ao seu governo, um dos índices mais altos desde o início de
seu mandato, segundo pesquisa Quaest. Escândalos como o caso Master e as investigações sobre a cúpula do
INSS frearam sua popularidade. Desde janeiro de 2025, mais brasileiros rejeitam
do que aprovam o Lula 3.
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Lula avalia reação e depende de Alcolumbre para próximos passos
O
caminho a ser adotado por Lula ainda é incerto. Se o governo assume a paralisia
como inevitável, pode confrontar Alcolumbre e retirar cargos apadrinhados pelo
senador no Planalto, avalia Freitas, da Unicamp. Se vê espaço de negociação,
pode ampliar ainda mais a presença do Congresso no Executivo. "Eu não sei
se o governo tem recurso suficiente para mudar a opinião desses sujeitos,
porque o recurso está na urna e não dentro do Legislativo nessa relação",
conclui Freitas.
Rodrigo
Prando também aponta a possibilidade de o presidente calibrar suas intenções e
buscar conciliação com o Senado ou, em sentido oposto, radicalizar a crítica
contra o Congresso. Em entrevista à Folha de S.Paulo, o ministro da
Secom, Sidônio Palmeira, discordou de que o contato institucional tenha sido
comprometido.
Ainda
assim, se Lula quiser indicar um novo nome ao STF neste ano, dependerá do aval
de Alcolumbre. A tendência, porém, é que o senador aguarde as urnas e segure
essa indicação até outubro.
"Se
a história institucional brasileira ensina algo, é que episódios raros costumam
marcar inflexões. A rejeição de Messias pode ser lembrada, no futuro, não
apenas como um fato isolado, mas como o início de um novo momento na relação
entre Executivo, Legislativo e Judiciário. Em ano eleitoral tudo isso ganha uma
dimensão de dramaticidade", argumenta Prando.
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Se Lula não trucar, corre o risco de perder a eleição
derrota
na aprovação do nome de Messias no Senado foi maiúscula. Tentar minimizá-la é
um grande erro político. Mas só em outubro saberemos se ela foi um ponto de
inflexão para a vitória de Lula ao 4º mandato. Ou o início do fim de sua
carreira política.
Já há
um grupo de políticos defendendo que o governo minimize os resultados e faça
como o velho marinheiro, que durante o nevoeiro toca o barco devagar.
Se Lula
fizer isso selará o seu destino. Não vencerá as eleições de outubro e ainda
jogará no lixo sua história de lutas.
O povo
brasileiro quer estabilidade, mas ao mesmo tempo mudança. Não aguenta mais a
classe política que tem. Alcolumbre tem 3% de aprovação na pesquisa Atlas
publicada hoje e Hugo Motta 2%. Lula 45%.
É hora
de mostrar quem tem voto e ser o antisistema. Apostar na rejeição desse
Congresso e enfrentá-lo.
Pedir
apoio do povo para aprovar as 40h e o fim da escala 6×1. Fazer uma legislação
contra as Bets. Lançar o desenrola 2.0. E mandar um outro nome para o STF para
o Senado já. Isso mesmo.
Escolher
uma mulher e de preferência negra com história ilibada, carreira sólida no
judiciário e compromisso popular e jogar no colo de Alcolumbre. Ele que diga
não.
Essa
jogada traria as mulheres para a luta. Serão elas que vão ou não reeleger Lula.
O Brasil sairia do marasmo institucional da política feita nos gabinetes dos
velhos marinheiros e iria para o terreno das ruas.
Há
risco? Evidente. Mas não há nos acordos de gabinetes? O que foi então a
humilhante derrota de ontem? Há momentos que o excesso de prudência é inimiga
do sucesso. Esse é um deles. Eles gritaram truco. É hora de subir na mesa e
gritar 6.
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Enterrar CPI do Master é parte do acordão entre
Alcolumbre e Flávio Bolsonaro sobre Messias e Dosimetria
acordão
entre o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP) e Flávio Bolsonaro
(PL), que resultou na rejeição da indicação de Jorge Messias ao Supremo
Tribunal Federal (STF) na noite desta quarta-feira (29) e deve derrubar o veto
de Lula ao PL da Dosimetria nesta quinta-feira (30), contou com o enterro da
CPI do Banco Master, de Daniel Vorcaro, e no Congresso para fazer com que um
dos maiores escândalos financeiros do país saia das manchetes da mídia liberal
durante a campanha eleitoral.
Na
sessão conjunta do Senado e da Câmara, que vai analisar o veto de Lula à
“anistia” a Jair Bolsonaro, Alcolumbre deve ignorar a leitura do pedido de
instalação da Comissão sobre o escândalo financeira.
O
motivo é simples: o acesso aos documentos da investigação, com uma possível
quebra de sigilo, além dos depoimentos deixaria clara a ligação fisiológica
tanto de Alcolumbre, quanto do clã Bolsonaro com o maior esquema de corrupção
financeiro no país, que liga a Faria Lima a facções criminosas, como o PCC.
Uma CPI
sobre o Master daria acesso à base governista a toda a documentação que mostra,
por exemplo, o financiamento das campanhas de Jair Bolsonaro (PL) e Tarcísio
Gomes de Freitas (Republicanos) com doações vultosas, de R$ 5 milhões, do
pastor Fabiano Zettel, da Igreja Lagoinha, cunhado de Vorcaro.
A
comissão também poderia trazer à tona – e às manchetes, em meio à campanha
eleitoral – a negociação entre Flávio Bolsonaro (PL) e Paulo Henrique Costa,
ex-presidente do Banco de Brasília, que está preso, sobre o benevolente
empréstimo da instituição estatal para compra da mansão do senador em Brasília.
Pelo
lado de Alcolumbre, uma CPI revelaria a relação dele e do União Brasil com o
ecossistema de Vorcaro. Alvo da Operação
Zona Cinzenta, desencadeada pela PF em fevereiro, Jocildo Silva Lemos foi indicado
pelo presidente do Senado para a presidência da Amprev — Amapá Previdência.
Em 2024
e 2025, sob a gestão de Lemos, a Amprev realizou investimentos significativos
em letras financeiras emitidas pelo Banco Master — cerca de R$ 400 milhões no
total — mesmo após alertas sobre os riscos da instituição e orientações
contrárias de órgãos de controle. Esses aportes deixaram o fundo entre os mais
expostos à crise do banco após sua liquidação pelo Banco Central.
Uma CPI
também levaria o caso Master de volta ao noticiário da mídia liberal, que tem
escondido o escândalo por dois motivos:
- Por fazer parte
do esquema, com o recebimento de verbas milionárias em publicidade e
patrocínio de eventos do grupo de Vorcaro e,
Por interesse eleitoral, visto Flávio Bolsonaro assumiu a candidatura do sistema e levará a defesa do projeto neoliberal sob seu governo. - Além disso, uma
comissão voltaria a expor as vísceras do sistema que une Vorcaro com
figuras proeminentes do Centrão, como o “amigo da vida” Ciro Nogueira
(PP), ex-comandante da Casa Civil, e outros ex-ministros de Bolsonaro,
como João Roma e Ronaldo Bento (Cidadania) e Flávia “Arruda” Perez
(Secretaria-Geral da Presidência).
O
banqueiro ainda foi beneficiado pela presidência de Roberto Campos Neto no
Banco Central e da expansão das fintechs pela política econômica de Paulo
Guedes, que seriam tragados pela CPI.
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O acordão
O
grande acordo entre Davi Alcolumbre e Flávio Bolsonaro começou a ser
costurado em fevereiro. À época, a negociata envolvia uma troca simples: a
horda bolsonarista se uniria ao Centrão para barrar a CPI do Master em troca da
derrubada do veto sobre a Dosimetria.
Insatisfeito
com a indicação de Jorge Messias por Lula à vaga de Luís Roberto Barroso no
STF, Alcolumbre, que queria Rodrigo Pacheco (PSB-MG) no posto, ampliou a
barganha.
Imporia
a derrota histórica a Lula, que culminou com a rejeição do nome de Messias pelo
plenário do Senado na noite desta quarta-feira (29), em troca de mais um
mandato na Presidência do Senado, a partir de 2027, caso Flávio Bolsonaro (PL)
vença as eleições presidenciais.
Com o
acordo firmado, Alcolumbre atuou nos bastidores para aliciar os pares para
rejeição do nome de Messias, alegando controlar o voto de ao menos 50 senadores
sobre o caso.
O
presidente do Senado ainda teria feito jogo duplo, alimentando a esperança dos
líderes do governo de que a indicação passaria, embora não se comprometesse a
trabalhar nem contra, nem a favor. O que não ocorreu.
Nos
bastidores, Alcolumbre teria feito um levante, com informações preciosas que
têm dos colegas, para convencê-los.
Um dos
principais alvos foi justamente Ciro Nogueira, que chegou a anunciar que
votaria a favor de Messias, mas recuou diante dos argumentos de Alcolumbre e
Flávio Bolsonaro, especialmente sobre o caso Master.
O áudio
vazado segundos antes do anúncio da rejeição de Messias, em que Alcolumbre diz
ao líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), que “acho que ele vai
perder por oito” consolidou a armação, um dia antes da sessão que deve derrubar
o veto de Lula sobre o PL da Dosimetria e enterrar definitivamente a CPI do
Master.
Fonte:
DW Brasil/Fórum

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