Família
de Moraes quer me constranger com processo baseado em alegação falsa, diz
senador Alessandro Vieira
Quando
o senador Alessandro Vieira (MDB-SE) recebeu a BBC News Brasil para esta
entrevista em seu gabinete no Senado, na terça-feira (28/4), ele havia acabado
de ser informado sobre uma intimação da Justiça de São Paulo. A notificação
estava sobre sua mesa, ao lado de uma bandeirinha do MDB, o quarto partido ao
qual é filiado desde que foi eleito em 2018. Trata-se de um processo movido
pelo escritório Barci de Moraes, em nome do ministro do Supremo Tribunal
Federal (STF) Alexandre de Moraes, sua mulher, Viviane Barci de Moraes, e a
filha, Giuliana Barci de Moraes, pedindo R$ 20 mil de indenização para cada um
por danos morais. Segundo a petição, o senador, que foi relator da
recém-encerrada CPI do Crime Organizado, fez "declarações públicas
injuriosas e difamatórias" associando "falsamente" o ministro e
sua família à facção Primeiro Comando da Capital (PCC).
Leia a
seguir os principais trechos da entrevista.
• A rejeição ao nome de Jorge Messias para
o STF é uma resposta do Senado diante de ataques da Corte à Casa, dentre eles a
ação do Gilmar Mendes na PGR contra o senhor?
Alessandro
Vieira - Não. O resultado é a consequência de um conjunto de coisas: a atuação
de Davi Alcolumbre e do grupo mais próximo dele, que se incomodou no passado
com a não indicação do Rodrigo Pacheco e que apoiou essa rejeição; o incômodo
com as várias apurações da PF que têm sido notícias nas últimas semanas; e a
atuação direta de dois ministros Alexandre de Moraes e Flávio Dino que não têm
interesse na aprovação do Messias no Supremo. E também a atuação direta da
oposição. O recado para o Supremo é uma minoria irrisória [que votou nesse
sentido].
• É um recado para o governo?
Vieira
- O derrotado é o governo.
• Acredita que o PL da Dosimetria pode
beneficiar líderes de facções? Ele contraria o PL antifacção?
Vieira
- Não. Ele ficou restrito às pessoas do 8 de janeiro. Não contraria o PL
antifacção também. Até poderia ter um conflito no tocante a tempos de
progressão de pena, mas a mesa tirou essa parte. Eu e a imensa maioria do
Congresso acreditamos que as penas são excessivas. Não dá para punir a pessoa
que fez um pix [para financiar o ato] com 14 anos de prisão. Mas ninguém será
anistiado.
• Acha que pode haver represália do
Supremo após a derrubada do veto?
Vieira
- Não. O Supremo participou, inclusive, da redação do texto.
A
quantidade de jogo de cena que tem em Brasília deveria virar seriado da
Netflix.
• A CPI do Crime Organizado se propunha a
investigar criminosos, facções, milícias, tráfico de drogas, mas acabou
indiciando três ministros do Supremo e o procurador-geral da República no caso
do Banco Master. Como chega nisso?
Vieira
- Não há crime organizado sem lavagem de dinheiro e sem acesso através da
corrupção do poder público. Esse passo a passo foi sendo cumprido, ouvindo
especialistas, profissionais de segurança. E acontecem o caso Master e também a
operação no Estado do Rio de Janeiro, que aponta o envolvimento do Comando
Vermelho com um braço político na Assembleia Legislativa do Estado. E avança
naturalmente a CPI por esses pontos, porque tinha aderência. E isso tudo é
votado e aprovado pelo colegiado. São sucessivas quebras [de sigilo],
requerimentos, pedidos de depoimento. A gente chega nos ministros quando se
constata a existência de transações financeiras de alto volume entre o Banco
Master e o escritório de advocacia da família do ministro Alexandre de Moraes,
um contrato de R$ 129 milhões, dos quais R$ 80 milhões chegaram a ser pagos sem
uma aparente contraprestação da mesma proporção. Quando você pega as outras
bancas de advocacia que prestavam serviço para o Master e que realizaram
milhares de audiências, a remuneração é muitíssimo mais baixa. Ao mesmo tempo,
a gente encontra a movimentação financeira que aponta a compra pelo Banco
Master, através de um dos vários fundos comandados por eles, de cotas num
resort que seria de familiares do ministro Dias Toffoli. O ministro Dias
Toffoli, ao longo do processo, confessa ser ele também sócio oculto desse fundo
de investimentos. A gente faz a quebra de sigilo desse fundo específico. E daí
tem uma atuação do ministro Gilmar Mendes suspendendo essa quebra e determinando
a destruição dos dados caso já tivessem sido enviados.
• Há relatos de parlamentares supostamente
com relações até com o Beto Louco, um dos líderes do PCC. Como não aponta
nenhum parlamentar?
Vieira
- Nesse relatório final a gente faz a distinção específica entre crime comum e
crime de responsabilidade. E explica tecnicamente que para o crime comum eu
preciso de uma produção de prova de maior densidade.Nós elencamos mais de uma
dúzia de pessoas politicamente expostas, parlamentares, líderes partidários,
ex-parlamentares ou até mesmo o ex-presidente [Michel] Temer, que receberam
recursos muito significativos deste grupo. Mas não é possível realizar
diligências suficientes que permitissem constatar que aquilo é ou foi um crime.
O ex-prefeito de Salvador, ACM Neto (União Brasil), presta uma consultoria para
o Banco Master e recebe em torno de R$ 6 milhões a hora. A nora do hoje senador
Jaques Wagner (PT-BA) recebe em torno de R$ 14 milhões. Eu não tenho como dizer
que essas transações são criminosas só com este dado. E a CPI só conseguiu este
dado. Porque as demais coisas dependeriam de diligências que, ou não foram
permitidas pela justiça — no caso, por exemplo, das quebras de sigilo de
advocacia — ou não tivemos perna para fazer diligências in loco. O que a gente
fez com muita responsabilidade foi separar o que é crime comum, mostrar os
fatos e que eles precisam ser melhor investigados. Com relação ao que é crime
de responsabilidade, onde a única esfera de investigação, processamento e
julgamento é o Senado, a gente entendeu que era possível avançar, porque os
fatos já confirmados, comprovados, confessados, na minha visão, eram
suficientes para enquadramento como crime de responsabilidade.
• E não seria possível pedir a quebra do
sigilo dessas autoridades apontadas como supostamente envolvidas?
Vieira
- Não me pareceu, no momento, que fosse a melhor produção de prova.
• Por quê?
Vieira
- O volume que nós tínhamos de apurar era imenso. Nós não tivemos colaboração
da Polícia Federal. A partir da atuação do ministro Alexandre de Moraes, o Coaf
parou de enviar os documentos e os relatórios de inteligência financeira. E a
CPI também não teve seu prazo prorrogado.As dificuldades operacionais impediram
maior avanço.
• O senhor recebeu hoje a informação de
que a Justiça foi acionada contra o senhor devido à CPI. O que houve?
Vieira
- Dias depois da leitura do relatório, o ministro Gilmar Mendes oficiou ao PGR
pedindo para que eu seja processado por um suposto abuso de autoridade, que
consistiria em ter lido um voto que foi derrotado pelo colegiado. E a família
do ministro Alexandre de Moraes me intimou por um suposto dano moral, em um
processo na Justiça de São Paulo. Tanto num caso como no outro não existe
nenhuma base legal e fática para as coisas. No caso do Gilmar, é porque não tem
como alguém cometer abuso de autoridade lendo um voto, nós temos garantia
constitucional de inviolabilidade das nossas palavras, manifestações e votos. A
gente respondeu imediatamente, usando como base todas as decisões do próprio
ministro Gilmar na história, no Supremo. Ele decidiu sempre no sentido de que
isso é absolutamente coberto pelo instituto da imunidade parlamentar. No caso
da família do ministro Alexandre, me parece até mais grave, porque a alegação
que eles apresentam à Justiça é falsa, não existe. Eles alegam que em uma
entrevista específica eu teria afirmado que essa família, através do
escritório, recebeu o dinheiro do PCC. Essa é simplesmente uma afirmação que
não existe. E eles provocam a Justiça, me obrigam a me defender no Estado de
São Paulo, onde eu não resido, me parece que com o objetivo de constrangimento.
• Qual foi a afirmação que o senhor fez
exatamente?
Vieira
– Foi que esse escritório de advocacia, que é o Barci de Moraes, que é
comandado pela esposa do ministro Alexandre e os filhos, recebeu um valor de
altíssima monta do Banco Master, que é um grupo criminoso. Hoje, nenhum
brasileiro em sã consciência tem dúvida de que o Master era uma organização
criminosa, desenhada, desenvolvida para ter ganho ilícito através de fraudes,
de fundos falsos, desvio de recursos de previdência e também de acesso à
corrupção.
• O ministro Gilmar Mendes também colocou
em dúvida o financiamento do senhor pelo crime organizado. Como é que o senhor
responde a isso?
Vieira
- Me parece um ato de desespero do ministro Gilmar. Ele não tem nenhum
argumento, nenhuma fala, nenhuma ideia. Ele parte de uma agressão pura e
simples.
Eu
estou completando 25 anos de polícia. Eu nunca respondi a um procedimento
sequer. Eu nunca tive um boletim de ocorrência registrado contra mim. São
acusações falsas, graves, ofensivas e que têm um objetivo específico de ataque
à imagem. O ministro Gilmar — e alguns colegas dele já reportaram isso em
sessões plenárias do Supremo — tem essa praxe da ofensa [diante da] falta de
argumentos. Ele não tem capacidade de negar nenhum dos fatos. Ele não consegue
negar que relatou um habeas corpus absolutamente irregular no caso da Maridt
[empresa do ministro Dias Toffoli e seus familiares, envolvida no caso Master],
quando ele concedeu habeas corpus para uma pessoa jurídica, ressuscitando um
processo arquivado há três anos para se julgar prevento. Ele não consegue negar
os contratos milionários. Ele não consegue negar as caronas de jatinho e ele
acha que é interessante me ofender e me agredir.
• O senhor não tem medo de ser
instrumentalizado pelos bolsonaristas que querem a saída de Alexandre de Moraes
por causa do processo contra Bolsonaro?
Vieira
- Não. Essa é uma pauta minha desde 2019. Eu chego aqui em fevereiro de 2019,
apresento uma proposta de CPI para apurar a conduta de ministros. Não tem crise
institucional, não tem ataque ao Supremo, tem questionamento com relação à
conduta individual de ministros que, como qualquer um de nós, jornalista,
político, policial, é ser humano, pode cometer erros. Desde 2019 eu defendo
essa pauta. E agora, novamente, a pauta persiste por conta dos fatos, das
condutas. Se isso vai servir de proveito eleitoral para A ou para B, a gente
não pode controlar. O que a gente não pode é colocar isso para debaixo do
tapete.
• Quando o senhor fala em 2019, o senhor
está falando da CPI da Lava Toga. Agora, de novo, tem o pedido de uma CPI do
Banco Master e também de uma CPI para investigar o Supremo.
Vieira
- Na verdade, [para apurar] a conduta dos ministros que têm vinculação com o
Banco Master. São reações ao método do Supremo. No momento em que o Supremo
começa a invalidar quebras de sigilo, alegando que a CPI do Crime Organizado
não poderia fazê-lo, a gente apresenta a CPI do Master, que reuniu, salvo
engano, 53 assinaturas. Quando eles passam a falar que a atuação específica dos
ministros não poderia ser objeto de apuração, a gente apresenta uma nova CPI
exclusivamente para tratar da relação entre os ministros e o Banco Master. Por
que a gente faz isso? Para afastar as falsas alegações jurídicas de uma
ilegitimidade, de uma impossibilidade de fazê-lo. Existe uma série de
desinformações que os ministros realizam com a maior cara lisa. Por exemplo, dizer
que uma CPI não pode apurar crimes de responsabilidade. A CPI da Covid indiciou
por crime de responsabilidade o ex-presidente Bolsonaro. Uma outra CPI mais
antiga, do PC Farias, indiciou Fernando Collor, os dois casos por crime de
responsabilidade.
• A prerrogativa de uma CPI é investigar
um fato determinado. No caso da CPI da Lava Toga, que fato é esse?
Vieira
- Nós tínhamos 12 casos elencados no requerimento original que diziam respeito
a ministros do STJ [Superior Tribunal de Justiça], STF e, se não estiver
enganado, do TST [Tribunal Superior do Trabalho]. Esse processo persistiu por
algum tempo e foi engavetado numa manobra do presidente Davi Alcolumbre
(União-AP), em seu primeiro mandato como presidente da Casa, que jogou o
requerimento para a Comissão de Constituição e Justiça, onde foi aprovado um
parecer. O relator foi um senador do PT, o Rogério Carvalho, e teve apoio do
bolsonarismo — o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), muito contrário à CPI desde
sempre — do pessoal do PT e da turma ali mais do centrão, vamos chamar de
centrão raiz. Eles disseram que nesse relatório, dos 12 fatos, alguns não podem
ser objeto de apuração em CPI. Mas não disseram quais eram os casos e nem o que
fazer com os outros que poderiam ser objeto de CPI. Seria caso de um recurso
para plenário que nunca aconteceu.
• O relatório final da CPI dá a impressão
de que o crime organizado só se infiltrou no Judiciário. Não tem parlamentares
ligados ao crime organizado?
Vieira
– Ele é muito textual, explicando a infiltração em todos os segmentos e todos
os níveis do aparato estatal. A gente mostra isso com clareza. A diferença está
no ato de indiciamento, porque esse ato me pareceu próprio da CPI no tocante ao
crime de responsabilidade e não há atos de indiciamento com relação aos demais
casos, porque não me pareceu robusto o suficiente o conjunto probatório. O
senador Davi Alcolumbre, presidente da Casa, se recusou a fazer a prorrogação
da CPI sem nenhuma justificativa, fundamentação. Isso gerou uma restrição de
resultados. Se nós tivéssemos mais quebras [de sigilo], é bastante possível que
nós tivéssemos outros indiciamentos, inclusive por crime comum.
• O senhor acredita que o crime organizado
está infiltrado também no Legislativo?
Vieira
- Profundamente.
• E como é frequentar um lugar onde parte
dos seus pares tem relação com o crime organizado?
Vieira
- O crime organizado domina hoje, territorialmente, quase um quarto da nação
brasileira. Movimenta centenas de bilhões de reais e é natural que ele se
infiltre em todas as atividades. O relatório da CPI é muito didático ao mostrar
que, quando você vê o tamanho do faturamento anual do crime organizado no
Brasil, as facções violentas representam um pedaço mínimo. Hoje, a imensa
maioria desse recurso ilícito vem de mercados legais que foram invadidos pelos
criminosos e de fraudes. Nessa aba das fraudes, você vê cada vez mais as
operações policiais e da Justiça mostrando a infiltração no aparelho público
para fraudar licitações porque o criminoso não é ideológico. Ele quer lucro
ilegal e percebe que é muito mais fácil e muito menos arriscado entrar na política
através de financiamento ilegal de campanha ou através diretamente de
candidatos, e começar a subtrair patrimônio público. A pena é mais baixa, o
risco de prisão é muito menor, o risco de confronto é zero. E ele passa a
usufruir dos contatos, das benesses e das garantias que os relacionamentos
políticos proporcionam. Você vê isto no caso do Banco Master de forma muito
consistente. O imenso esforço que o Vorcaro faz de relacionamento e de dinheiro
para estabelecer raízes para todos os lados, de esquerda, direita, centro. Ele
não tem nenhum preconceito. Para ele, o importante é criar um clima que
favoreça o cometimento de crime que ele continua cometendo. Trabalhar nesse
ambiente é um retrato do que vive o brasileiro. A diferença é que aqui eu posso
fazer alguma coisa.
• Como seria uma reforma no Judiciário?
Vieira
- Nós temos diversas propostas de reforma já em tramitação nas duas Casas há
muito tempo. Elas não avançam por falta de interesse do Poder Judiciário,
materializado na posição dos ministros do Supremo. Mas seria muito oportuno
revisar a forma de indicação e preenchimento das vagas nas Cortes superiores e
estabelecer prazo de permanência, seja através do mandato, como acontece na
maior parte das cortes constitucionais europeias, seja pela elevação da idade
mínima. A gente está escolhendo ministros que vão permanecer 30 anos na cadeira
e isso acaba gerando uma sensação que a gente vê muito materializada nos
discursos do ministro Gilmar Mendes: ele acha que ele é o Supremo. Ele se
confunde com a instituição quando ele é apenas um integrante transitório,
passageiro da instituição, como eu sou do Senado. Mas tudo isso tem que passar
por uma construção política muito consistente e que sempre enfrentou forte
resistência do próprio Supremo. É uma vergonha o que você vê hoje. Ninguém pode
achar normal um ministro voando de carona com dono de bet.
• O que o senhor aprendeu sobre crime
organizado nesses últimos anos e, especialmente, com essa CPI do Crime
Organizado?
Vieira
- O mundo em geral, e o Brasil em particular, não têm dúvida sobre o que
precisa ser feito, quais são os caminhos, quais são as dificuldades. O que nos
falta é vontade política para enfrentar. E o relatório materializa essas
informações. Eu tenho uma Receita Federal que tem uma falta de servidores na
casa dos 20 mil. Nós temos uma Abin com apenas 20% do quadro preenchido. Eu
tenho um Banco Central também com quadro diminuto, um número elevado de vagas
disponíveis, a CVM, que o mercado multiplicou infinitamente, tem uma estrutura
menor do que tinha há dez anos. O caminho que nós temos que ter é muito claro:
combate à lavagem de dinheiro, combate à corrupção e estruturação das
inteligências e das operações integradas. Isso custa dinheiro, mas não é um
dinheiro fora de padrão. O investimento que a Polícia Federal estima para fazer
todo o reaparelhamento do seu parque tecnológico de inteligência e para
estruturar as operações integradas em todo o Brasil está na casa de 1 bilhão e
meio, mais ou menos. Não é um valor absurdo para o resultado que gera. Hoje eu
não tenho essas atuações acontecendo por carência direta. Para tomar conta hoje
dos casos do Master do INSS, a Polícia Federal está convocando servidores do
Brasil inteiro, desfalcando as regionais para que possa dar conta aqui do
material que estão aprendendo. Mas isso é pouco.
• Se o senhor tivesse a caneta na mão,
qual seria o seu primeiro ato?
Vieira
- A criação do Ministério da Segurança e a dotação do orçamento necessário.
Teria a aprovação unânime nas duas Casas, não há dúvida. Tanto que foi
compromisso de campanha dos dois candidatos na última eleição, não cumprido
pelo vencedor, como não tinha sido cumprido pelo presidente anterior. Quer
dizer, tanto o Bolsonaro da direita como o Lula da esquerda tratam a segurança
pública à base de factoides. O relatório da CPI Crime Organizado tem mais de
200 páginas, acho que coisa de 15 páginas, cuidava dos ministros do Supremo e
PGR. Todo o restante cuidava desse diagnóstico, das sugestões, das propostas
legislativas necessárias. Porque eu preciso aumentar a pena para lavagem de
dinheiro. Eu preciso obrigar os escritórios de advocacia a reportarem operações
aparentemente ilegais, como em qualquer lugar do mundo.
• Mas o senhor sabia que pedir o
indiciamento de três ministros do Supremo seria a notícia.
Vieira
- Mas a gente não pode evitar uma conduta porque vai ser notícia ou vai ajudar
alguém.
• O senhor acha que o modelo de El
Salvador, que a direita radical gosta de usar como bom exemplo de política de
segurança pública, funcionaria aqui?
Vieira
- Não. Primeiro, porque ele é inconstitucional. Na nossa Constituição, a gente
está falando de cláusulas pétreas, porque ele parte de um pressuposto de que eu
poderia encarcerar indefinidamente pessoas sem processo, encarceramento
massivo.
Aquele
encarceramento de El Salvador, fazer proporcionalmente para o Brasil levaria um
volume de milhões de brasileiros para a cela a um custo astronômico e romperia
com padrões básicos da nossa Constituição, que prevê a ressocialização, prevê o
devido processo legal. O tipo de experiência que não vale a pena nem estudar,
porque ele é inaplicável para a nossa realidade. E não me parece ser o
necessário, porque eu repito, a gente tem dentro do Brasil lugares que
conseguiram fazer o dever de casa.
• O senhor disse que se arrependeu de ter
votado e apoiado o ex-presidente Jair Bolsonaro em 2018. Do que mais o senhor
se arrepende nessa vida política?
Vieira
- Eu acho que nós temos sempre ajustes para fazer, mas arrependimentos
propriamente ditos são poucos. O que para mim é muito sólido no tocante ao Jair
Bolsonaro, é que o que foi vendido na campanha foi incompatível com a prática
desde o início do mandato, que foi um mandato que se entregou rapidamente para
o centrão e foi um mandato que precisou fazer um acordo político com o Supremo
por conta de interesses familiares e pessoais. Ele tinha um filho processado
por rachadinha, que é hoje candidato à Presidência, o Flávio Bolsonaro. Essa
falta de coragem para enfrentar o que é de verdade, para mim, contaminou muito.
E eu sempre acreditei e acredito que o combate à corrupção tem que ser um eixo
do Brasil. Em 22 eu acabei votando no Lula contra o Bolsonaro, pela percepção
de que a continuidade do Bolsonaro ia desaguar num golpe de Estado.
• E o senhor se arrepende de novo?
Vieira
– Não. Foi uma escolha necessária do momento.
• E neste ano vai votar em quem?
Vieira
- Estou procurando uma solução de terceira via. Eu votei na Marina Silva em 18,
votei na Simone Tebet [no primeiro turno] em 22 e agora vou procurar um
candidato da terceira via novamente.
• Que seria quem?
Vieira
- Só temos dois nomes, três nomes: Renan, Zema e Caiado. Eu não ouvi nenhum dos
três falar ainda sobre o Nordeste. E hoje, como eu represento meu Estado e
represento minha região, é importante que os candidatos que querem ser
presidentes da República lembrem que o Brasil não se limita ao sudeste, ao
centro-oeste. E já conversei com pelo menos dois deles sobre o tema. Faltam
propostas para a minha região, para o meu Estado, para tentar entender o que
eles querem fazer com o Brasil, além de ser anti alguma coisa. A gente passou
muito tempo no Brasil votando contra o Lula e contra o Bolsonaro. A gente tem
que começar a se acostumar a votar a favor de alguma coisa, a favor do Brasil.
• E em quem o senhor não votaria de jeito
nenhum?
Vieira
- Não votarei no primeiro turno de jeito nenhum nem em Flávio Bolsonaro, nem em
Luiz Inácio Lula da Silva.
• E num eventual segundo turno com os
dois?
Vieira
- Eu vou torcer muito para que algum nome diferente chegue lá.
• Se a eleição fosse hoje, o segundo turno
seria disputado por Lula e Flávio, segundo todas as pesquisas. Em quem o senhor
não votaria?
Vieira
- Não tenho como fazer essa resposta.
• O senhor acabou de dizer que se sentiu
enganado pelo Jair Bolsonaro. O senhor não tem ideia de em quem não votaria?
Vieira
- Veja, os dois têm problemas muito graves. A gente vai ter que fazer uma
análise num eventual segundo turno entre os dois, a partir de uma coisa
pragmática do meu Estado, da minha região, entender o que vai acontecer. Mas
não vejo os dois como um projeto de futuro, de Brasil. Não conheço sequer uma
proposta dos dois para o próximo mandato de presidente. Apenas o refratário
contra o outro, cada um usando o biombo que mais interessa: a defesa da
democracia, o combate ao, sei lá, o comunismo do outro.
• O senhor foi de quatro partidos: entrou
para a política pela Rede, passou pelo Cidadania, pelo PSDB e agora está no
MDB. Acha que o eleitor sabe de que partido o senhor é hoje?
Vieira
- Imagino que o eleitor de Sergipe tenha conhecimento e tenho certeza de que
nenhum deles dá muita importância ao partido. Acho que partidos políticos
perderam muita importância para o eleitor. Para a atuação parlamentar, eles são
relevantes. O MDB, sem dúvida nenhuma. Um partido que me ajuda na atuação
parlamentar. Mas existe uma desconexão muito grande entre a sociedade e o mundo
de Brasília e os partidos políticos. As pessoas já há muito tempo votam em
pessoas, em projetos pessoais. Resgatar isso seria muito bom para a democracia.
Mas a gente está bem longe.
• O que acha da proposta de Donald Trump
de tornar o PCC e o Comando Vermelho organizações terroristas?
Vieira
- Primeiro, tem um pedaço disso que foge da nossa alçada, porque é uma escolha
individual do governo americano, um ato executivo dele. Sob o ponto de vista
técnico, é inútil. Não gera absolutamente nenhum benefício. Inclusive, de
acordo com a legislação vigente hoje no Brasil, o terrorista tem uma pena menor
do que o faccionado. A aprovação de uma medida dessa natureza pode submeter o
Brasil a sanções econômicas de outros países. Então, é mais uma coisa do
arsenal de respostas fáceis e falsas para programas de problemas difíceis.
• E tratar com penas diferentes,
faccionados ou líderes de facção?
Vieira
- É uma alternativa e muito importante. Foi o que a gente defendeu no Senado,
que eu fui relator do PL antifacção, que fazia uma distinção mais marcante com
relação a isso.O líder [de uma facção] é um cara que eu preciso tratar com
isolamento total, penas muito mais altas. O faccionado que está na ponta, que é
de facílima reposição e que muitas vezes está começando no crime, ele não pode
ter o mesmo tratamento. Isso gera uma ausência de proporcionalidade. Mas a
opção dos deputados foi pela manutenção de um texto que mais ou menos, nivela a
todos.
• E o senhor seria a favor da pena de
morte ou da prisão perpétua para esses líderes?
Vieira
– Não. A pena de morte me parece negativa, especialmente pelo fato de ela não
poder ser recomposta no caso de erro. E os erros acontecem e a prisão perpétua,
ainda que pessoalmente eu acho que seja uma solução merecida para vários
crimes, como os crimes de violência sexual, especialmente contra crianças e
adolescentes, ela é incompatível com a nossa Constituição e, novamente,
cláusulas pétreas. Eu teria que ter uma nova Constituição para abrir as portas
para isso.
• Há quem diga que o Brasil está virando
um narcoestado. O senhor concorda com isso?
Vieira
- Não, mas nós estamos em um processo longo de degradação. Se você vê que no
estado do Rio de Janeiro nós temos preso o ex-presidente da Assembleia
Legislativa, identificado pela polícia como líder do braço político do Comando
Vermelho, e esse cara era um dos candidatos favoritos para a eleição de
governo, você vê que em alguns pedaços do nosso país estão avançando nesse
caminho. O norte do Brasil enfrenta grandes dificuldades pela ausência do
Estado, mas ainda não é um narcoestado e nós temos plenas condições de fazer
uma reação bem estruturada, inteligente e rápida.
• É um Estado ausente?
Vieira
- Mais do que tudo isso, um Estado omisso.
Fonte:
BBC News Brasil

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