O
intestino é um segundo cérebro, diz médica de Harvard
Embora
o sistema nervoso entérico — a rede de neurônios que governa o trato
gastrointestinal — seja descrito na anatomia clássica há mais de um século,
muita gente continua acreditando até hoje que o intestino não passa de um
“encanamento”, uma espécie de tubo passivo de transporte de comida.
Em uma
entrevista recente à Harvard Medicine, revista oficial da Faculdade de Medicina
da famosa universidade americana, a professora e autora Trisha Pasricha explica
que essa rede de nervos do intestino afeta o humor, a imunidade, a produção de
neurotransmissores e pode até ser o local de origem de doenças como o
Parkinson.
No seu
livro You've Been Pooping All Wrong — "Você tem feito cocô do jeito
errado” em tradução livre — a neurogastroenterologista parte de uma constatação
clínica da American Gastroenterological Association (AGA): 40% dos americanos
tiveram que interromper atividades cotidianas em 2022 por problemas
intestinais.
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Parte
desses sintomas, afirma a pesquisadora, é agravada ou perpetuada por
comportamentos incorretos — postura no vaso, ignorar o impulso de evacuar,
dieta pobre em fibras, uso do celular no banheiro, abuso de adoçantes
artificiais, entre outros. A outra parte do problema é a desinformação e o
silêncio.
Ou
seja, esses sintomas sérios — que têm causa orgânica ou funcional real — muitas
vezes não são reportados ao médico por vergonha ou tabu. Segundo os dados da
AGA, um em cada três americanos só discutiria sintomas intestinais se o médico
perguntasse primeiro, o que atrasa o diagnóstico e o tratamento.
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O nervo que conecta tudo
"Tudo
o que você faz — sejam os seus pensamentos, seu humor, o que você come — todas
essas coisas terão um grande impacto no seu intestino. E, como consequência,
isso vai influenciar todos os outros aspectos da sua saúde”, afirma Pasricha em
sua entrevista.
Essa
bidirecionalidade da comunicação intestino-cérebro via nervo vago, um consenso
estabelecido nas últimas décadas, explica por que estados emocionais afetam tão
diretamente o sistema digestivo — e vice-versa. Não é por acaso que sentimos a
necessidade urgente de ir ao banheiro antes de uma apresentação, ou temos
prisão de ventre durante períodos de estresse.
Tudo
isso é resultado de uma ligação real: anatômica, elétrica e hormonal. Em seu
laboratório em Boston, a equipe de Pasricha identificou que muitos pacientes
com doença de Parkinson relatavam histórico anterior de úlceras. A pesquisa
mostrou que lesões gastrointestinais antigas estavam associadas a um risco 76%
maior de desenvolver a doença.
A
hipótese mais aceita hoje sobre a origem intestinal do Parkinson é que a
proteína alfa-sinucleína sofre uma alteração (mal dobramento) no trato
gastrointestinal, e se propaga pelo nervo vago até o cérebro. No entanto, o que
desencadeia essa dobra ainda é desconhecido, e demanda novos estudos.
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Tratando o intestino como um cérebro
Pasricha
afirma que o papel do intestino tem sido subestimado na saúde e no bem-estar
geral. Por isso, um dos objetivos do seu livro é promover uma completa
reconfiguração do olhar. "O que eu coloco no meu corpo terá consequências
imediatas neste cérebro tão delicado e sensível", sugere.
A
reconfiguração que a neurogastroenterologista propõe é concreta: tratar o
intestino como um cérebro — "que é como eu penso no meu intestino e como
eu o trato", diz. Por isso, recomenda tratar cada refeição, cada estado
emocional, cada hábito como algo que repercute em um órgão neurológico ativo.
O
intestino merece, portanto, o mesmo cuidado dispensado ao sistema nervoso
central: ele recebe sinais do que comemos e sentimos — e responde influenciando
humor, metabolismo e saúde de forma ampla. Não por acaso, sintomas intestinais
e estados emocionais tendem a se espelhar: a fisiologia é compartilhada.
Partindo
dessa premissa, o livro You've Been Pooping All Wrong oferece orientações
práticas — sobre fibra alimentar, postura, hábitos e microbioma — baseadas em
evidências clínicas. Lançada nos Estados Unidos pela Penguin Random House, a
obra ainda não tem tradução prevista para o Brasil.
Fonte:
CNN Brasil

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