terça-feira, 30 de junho de 2026

Trump, traição e tensão entre Brasil e EUA viram 'motor de engajamento' para Lula e Flávio Bolsonaro nas redes sociais

Temas ligados aos Estados Unidos, a Donald Trump, traição dos Bolsonaro e às tensões entre Brasília e Washington viraram um dos principais motores de engajamento da pré-campanha presidencial nas redes sociais.

Em alguns casos, publicações sobre o assunto tiveram desempenho até 40 vezes superior ao de outras do mesmo perfil.

A conclusão é de um levantamento da BBC News Brasil, com apoio do Laboratório de Internet e Ciência de Dados da Universidade Federal do Espírito Santo, que analisou mais de 5 mil publicações dos últimos três meses no X, no Instagram e no TikTok.

O efeito é mais significativo nas contas dos presidenciáveis que lideram as pesquisas de intenção de voto até o momento: Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), que tratam mais do assunto. Mas a reportagem considerou também outros pré-candidatos à Presidência que registravam ao menos 3% das intenções de voto, segundo o agregador de pesquisas da BBC.

Os dados mostram que episódios como as investigações comerciais envolvendo o Pix, a classificação de facções criminosas como terroristas e os encontros com Trump passaram a gerar algumas das publicações de maior repercussão.

Foram analisados os perfis de Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo).

Enquanto Lula obtém grande repercussão ao associar o debate à soberania nacional, nomes da oposição conseguem alto engajamento ao relacionar os EUA ao combate ao crime organizado ou à aproximação com Trump.

A relação entre o Brasil e os EUA vive momentos de tensão constante nos últimos meses. O episódio mais recente envolveu a divulgação de uma entrevista do presidente Donald Trump ao site Axios no dia 19 de junho.

Na entrevista, Trump afirmou que o presidente Lula é uma pessoa "volátil" e que o Brasil teria se tornado um lugar "perigoso". Lula respondeu pedindo que ele "não se meta" nas eleições brasileiras.

<><> 'Brasil é dos brasileiros'

O levantamento da BBC News Brasil mostra Flávio Bolsonaro com o maior número de interações no X e no Instagram. Já Renan Santos consegue melhor performance no TikTok.

Lula, no entanto, é o maior beneficiário do discurso que envolve os EUA, sob um argumento de defesa da soberania nacional, em qualquer uma das redes sociais analisadas.

Uma publicação do presidente feita no dia 2 de junho atingiu cerca de 255 mil interações no X. Trata-se de uma imagem com o texto "O Pix é do Brasil!", feita um dia depois do governo do presidente americano Donald Trump concluir uma investigação comercial iniciada contra o Brasil em julho do ano passado.

O documento propõe tarifas retaliatórias de 25% sobre produtos brasileiros. Um dos alvos do documento americano é o sistema de pagamentos Pix.

O governo americano acusa o Banco Central brasileiro de exercer papel duplo no Pix — "como regulador e proprietário/operador" do Pix — criando um "conflito de interesses, na ausência de salvaguardas processuais adequadas".

Lula usou o episódio para criticar os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro, a quem chamou de "vendilhões e traidores da pátria".

"Esses filhos do Bolsonaro conseguem ser pior do que ele. E são, na verdade, vendilhões da pátria. Foram pedir para que um país estrangeiro se intrometesse nas decisões brasileiras. É isso que vocês têm que dizer alto e bom som: são traidores", disse Lula em discurso em Catalão, no interior de Goiás.

Esta é a segunda publicação mais popular de Lula no período analisado, perdendo apenas para um vídeo no Tiktok e no Instagram de maio, em que ele é recebido por um garoto cordelista em Amparo, Sergipe, que declama um poema ao presidente.

Quatro dias depois do post sobre Pix, Lula voltou a viralizar com uma foto usando camiseta da seleção brasileira e a legenda "O Brasil é dos brasileiros", com mais de 196 mil interações no X.

• Facções criminosas como terroristas e encontro com Trump abastecem oposição

Nem só Lula ganha com a tensão entre Brasil e EUA. Flávio Bolsonaro tem se destacado no assunto com ainda mais frequência: das dez publicações de suas contas com mais interações, quatro estavam ligadas ao tema.

A segunda publicação mais popular de Flávio viralizou em 30 de maio ao provocar Lula e dizer que o presidente está revoltado porque ele está "enfrentando o CV e o PCC".

O comentário é uma referência à decisão do governo americano de classificar as facções criminosas brasileiras como terroristas.

A designação das organizações como terroristas foi vista como uma derrota para Lula. O governo brasileiro era contra a medida – o principal argumento era de que ela poderia colocar em risco a soberania nacional ao abrir espaço para ações militares norte-americanas sob o pretexto de combate ao terrorismo.

Do outro lado, o grupo liderado por Flávio Bolsonaro vinha defendendo publicamente a medida há mais de um ano, apontando a posição contrária do governo Lula à designação como uma suposta demonstração de conivência da administração petista com o crime organizado.

Flávio critica, em vídeo, uma fala de Lula em que, ao comentar a decisão, disse que estava "triste" com a notícia vinda dos americanos e então usou o termo "nossos criminosos" para se referir às facções brasileiras. Para Lula, estes "não são os terroristas que o Trump quer".

Outro post viral de Flávio é um vídeo em que ele aparece dizendo que Lula foi atrás de Trump para "fazer lobby a favor de CV e PCC" e que ele foi "trabalhar para que eles fossem tratados como terroristas."

Ronaldo Caiado também apostou no assunto e faturou: três de dez publicações com maior engajamento acima da média trataram do tema das facções. No caso de Caiado, no entanto, há menor enfoque na relação com os EUA e mais ênfase em suas propostas para a segurança pública e em seus resultados enquanto governador de Goiás nesta área.

Nos perfis de Renan Santos, o tema não é o que mais engaja — suas publicações mais virais são as que criticam ações do governo federal ou tratam de segurança pública.

Ainda assim, quando falou da classificação de facções criminosas como terroristas em um vídeo, obteve um desempenho quatro vezes maior do que o de costume.

Nos perfis de Romeu Zema, o tema não esteve entre os favoritos. Mas ele tem outro trunfo nas redes: suas publicações críticas a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) são as que mais viralizam.

<><> EUA viram marcador político e vídeos ampliam alcance nas redes

O levantamento utilizado pela reportagem também indica que os vídeos se consolidaram como a principal forma de alcançar públicos mais amplos nas redes dos presidenciáveis — quatro em cada cinco interações no período analisado foram com conteúdos neste formato.

"O engajamento é uma métrica fundamental para as plataformas. Quanto maior o engajamento, maior a tendência de que aquele conteúdo seja exibido para outras pessoas. Ele mede a capacidade de um conteúdo de reter a atenção do público, seja por uma resposta positiva ou negativa", diz Gabriel Herkenhoff, pesquisador do Laboratório de Internet e Ciência de Dados da Universidade Federal do Espírito Santo.

"Conteúdos com maior carga afetiva ou maior capacidade de gerar controvérsia acabam atraindo mais atenção. Mesmo a resposta negativa faz com que aquele conteúdo apareça para mais pessoas."

O pesquisador afirma que os EUA funcionam hoje como um marcador de pertencimento político nas redes. "Em um cenário de forte polarização, eles acabam funcionando como um marcador de grupo: você está com o meu grupo ou contra o meu grupo."

<><> 'O eleitor do meio é quem está em disputa'

Para Jairo Pimentel, professor do Laboratório de Pesquisa de Opinião Pública e Mídias da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp), o que está em disputa nas redes não é quem fala melhor sobre os EUA ou sobre segurança pública, mas qual agenda consegue se impor no debate.

"Há uma disputa de agendas: o presidente com uma agenda mais de soberania e o Flávio e a direita com um discurso mais contra a bandidagem, em relação à segurança pública."

No caso de Lula, a aposta na soberania nacional segue uma lógica já conhecida pela ciência política.

"Existe um efeito documentado chamado rally round the flag, que é basicamente um momento de comoção nacional em defesa dos interesses nacionais que acaba unificando uma boa parcela do eleitorado em torno de alguma questão relacionada aos valores nacionais e à soberania nacional", diz.

Para Pimentel, episódios como o tarifaço de Trump no ano passado e os atritos recentes entre os dois países ajudaram a melhorar a avaliação do presidente. Apesar disso, ele ressalta que a disputa eleitoral permanece equilibrada.

"Hoje a eleição está muito dividida ainda, mesmo com o caso do Flávio. Você pega o último Datafolha e são só quatro pontos de vantagem para o presidente, o que é facilmente reversível para a oposição", afirma, em referência à divulgação de conversas do pré-candidato com o banqueiro Daniel Vorcaro em reportagem do The Intercept Brasil.

Do outro lado, avalia, a oposição consegue explorar simultaneamente a pauta da segurança pública e a aproximação com os EUA.

"Quando você pergunta qual é o principal problema do país, sobretudo para o público mais à direita, surge a questão da segurança pública. É um calcanhar de Aquiles da esquerda de uma forma geral, que não consegue lidar muito bem com essa temática."

"Ela tem esse duplo sucesso. Ao mesmo tempo em que trata da segurança como tema relevante, ela também cria uma 'vacina' para a aproximação com os EUA, que é uma coisa da qual a direita brasileira, sobretudo o bolsonarismo, não pode se distanciar."

Pimentel pondera, no entanto, que o alcance das redes sociais não significa necessariamente um grande impacto eleitoral.

"As redes sociais pegam justamente esses eleitores que já estão bem polarizados, que representam uma minoria do eleitorado", afirma.

Para ele, a disputa decisiva ocorre entre os eleitores menos engajados politicamente.

"O eleitor do meio, que está em disputa, é mais influenciado quando essas temáticas transbordam do noticiário ou das redes sociais para o dia a dia."

Nesse contexto, Trump acaba tendo influência sobre a disputa.

"O impacto do Trump é esse. Ele dá muita vazão a essas notícias para um público que está desinteressado em política, mas que acaba recebendo essas informações mesmo não querendo."

Até agora, diz Pimentel, as manifestações do presidente americano têm beneficiado mais Lula do que a direita.

"O que a gente está vendo é que até agora ele tem feito gols contra para a direita. Toda vez que se manifesta, ele traz algum elemento que ajuda o presidente Lula a se posicionar melhor no xadrez eleitoral."

"Por outro lado, a gente não sabe como vai ser no futuro, quais serão as manifestações ou as atitudes que ele vai tomar. Mas a atuação do Trump em relação ao Brasil é um elemento importante da disputa presidencial deste ano."


Fonte: BBC News Brasil


 

A resistência do povo cubano diante do assédio e das agressões do governo estadunidense

Em 3 de fevereiro de 1962, há pouco mais de 64 anos, o presidente Kennedy anunciou um embargo total ao comércio com Cuba, ampliando proibições adotadas nos dois anos anteriores e dando início ao caráter extraterritorial do bloqueio.

Entre os muitos crimes do império estadunidense contra países da América Latina, destacam-se as décadas de agressão contra a República de Cuba. Nestes dias, repetem-se as declarações arrogantes do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que vai se apoderar de Cuba, fazer com ela o que quiser, ou de que os cubanos, tomados pelo medo, entregarão sua soberania e esquecerão suas tradições pátrias. Paralelamente, desloca navios de guerra para perto de nossas costas.

Com assombro, o mundo tem visto como, à hostilidade, ao assédio e às agressões de várias décadas, soma-se agora um bloqueio energético, para impedir que compremos combustíveis ou até mesmo com ações de pirataria e apreensão dos cargueiros que pretendam levar petróleo aos nossos portos. E pretendem justificá-lo com acusações infundadas e argumentos insustentáveis, declarando que Cuba representa “uma ameaça incomum e extraordinária” à segurança dos Estados Unidos.

É uma acusação ridícula e, ao mesmo tempo, perigosa. Contradiz as avaliações realizadas durante quase três décadas pelo Pentágono e pelo Comando Sul. Em meados da década de 1990, diante de uma solicitação do Congresso, o Departamento de Defesa ianque respondeu de forma clara que, em sua avaliação, considerava a ilha uma ameaça nula, salvo se ocorresse um êxodo massivo em direção aos Estados Unidos e à região.

O Índice Global de Crime Organizado, financiado pelo governo estadunidense, coloca Cuba na posição 168 entre 193 países em termos de criminalidade.

Não vemos justificativa para uma ação militar contra Cuba. Cuba é um país pacífico. Não somos inimigos dos Estados Unidos. A Ilha não abriga, não apoia, não financia nem permite organizações terroristas ou extremistas; tampouco existem bases militares ou de inteligência estrangeira em seu território, e Cuba nunca apoiou nenhuma atividade hostil contra os EUA, nem permitirá que, a partir de Cuba, se atue contra outra nação. Não representamos nenhuma ameaça.

A cooperação bilateral em matéria de segurança com a ilha demonstrou essa afirmação, com uma colaboração ativa na interdição de narcóticos ilegais, no controle da migração ilegal, na ajuda em casos de desastres naturais e até mesmo na eliminação de resíduos tóxicos.

Uma agressão militar contra Cuba, além de criminosa, originaria uma grave crise e instabilidade na região. O que acontece com Cuba hoje pode acontecer com qualquer país. Os próprios Estados Unidos correm o risco de criar um foco de caos e instabilidade em sua própria fronteira.

<><> Uma antiga pretensão

É sabido que, desde sua fundação há 250 anos, esse país desejou e trabalhou para se apoderar de Cuba. A hostilidade desse governo se intensificou com o triunfo da Revolução de 1959, ao estabelecer uma política de resgate de seus recursos nacionais e de sua soberania, e ao pôr fim ao status neocolonial e dependente. Por isso, para os gestores da política ianque, tornou-se essencial acabar com o mau exemplo soberano de Cuba e com nosso direito à autodeterminação.

Recorreu-se a uma guerra econômico-financeira brutal, à subversão, ao terrorismo, a agressões militares, sabotagens, ao uso de mercenários, a planos de atentado contra Fidel Castro, à introdução de vírus para afetar nossa produção agropecuária e a muitas outras ações que violam de maneira flagrante os princípios essenciais do direito internacional.

Tem sido uma ameaça incomum. Estamos falando da hostilidade sustentada por parte do império mais poderoso da história, situado em nossa vizinhança, a cerca de 150 km; algo como a metade da distância entre São Paulo e Rio de Janeiro.

Uma formulação oficial, o Memorando de Lester Mallory, vice-secretário de Estado assistente para Assuntos Interamericanos do Departamento de Estado, levado à atenção do presidente Dwight Eisenhower e datado de 6 de abril de 1960, sintetiza as intenções para estabelecer o bloqueio, ao assinalar:

“A maioria dos cubanos apoia Castro… Não existe uma oposição política efetiva… A influência comunista está impregnando o governo… Todos os meios possíveis devem ser empreendidos com prontidão para debilitar a vida econômica de Cuba… Realizar os maiores avanços para negar dinheiro e suprimentos a Cuba, para diminuir os salários monetários e reais, para provocar fome, desespero e a derrubada do governo…”.

O espírito daquela nota atuou com a força de uma diretriz contra Cuba, executada e reforçada por catorze administrações, tanto democratas quanto republicanas. O teor geral da posição dos EUA em relação a Cuba é uma abordagem de linha dura sobre aquilo que considera seu quintal, ao estilo da Doutrina Monroe, e de seu antigo desejo, durante mais de um século, de anexar a ilha.

Certamente Cuba se encontra agora em meio a grandes dificuldades. Embora o governo dos Estados Unidos saiba que os problemas enfrentados por Cuba se devem, em grande medida, às suas políticas de bloqueio ianque, Trump intensifica sua verborragia, pois acredita ver nisso uma oportunidade de se apoderar de nosso país. São, na realidade, sonhos irrealizáveis, que se desfarão como bolhas de sabão.

O bloqueio econômico, financeiro e comercial, de alcance extraterritorial, com sanções equivalentes a uma verdadeira guerra econômico-financeira contra Cuba, é chamado por eles eufemisticamente de “embargo”. Gerou perdas entre dois e quatro bilhões de dólares anuais durante sessenta anos, embora não existam cifras para dimensionar a magnitude das dificuldades e dos sofrimentos causados à população cubana.

Durante um quarto de século, ano após ano, a Assembleia Geral das Nações Unidas apoiou resoluções que interpelam os Estados Unidos e condenam sua política de bloqueio. Foram votações quase unânimes, aprovadas por cerca de 180 países. O Brasil tem apoiado sistematicamente essas resoluções.

<><> Alguns âmbitos concretos do bloqueio e seu impacto

Não se trata de Cuba voltar ou não a ter acesso ao mercado estadunidense. Levemos em conta que:

o cerco nos obriga a comerciar em condições de grande desvantagem, com proibição de transações em dólares; obriga-nos ao uso de custosos empréstimos comerciais de curto prazo; limita o conjunto de fornecedores disponíveis e os encarece; restringe transações de terceiros países com insumos de procedência cubana, e impede Cuba de adquiri-los de qualquer origem se contiverem valores de procedência estadunidense; proíbe navios de acessar seus portos se tiverem feito escala em nossas costas; não podemos acessar tecnologias dos Estados Unidos nem, às vezes, as de nenhum outro país desenvolvido; e tentam, por todos os meios, impedir qualquer via de entrada de divisas no país e frustrar toda oportunidade de negócio que Cuba articule no mundo.

A investida se estende a muitos outros campos. Funcionários estadunidenses se dedicam a pressionar, com ameaças de fortes sanções, entidades privadas e governos de todo o mundo para que se abstenham de se relacionar com nosso país. O marco dessa política também se estende à proibição inconstitucional de viajar a Cuba aplicada aos cidadãos estadunidenses, com o objetivo de afetar nossa indústria turística.

Nestes dias, as pressões e o caráter extraterritorial do bloqueio se intensificam. No início de maio, o presidente Trump emitiu uma nova ordem executiva muito mais ampla, com medidas dirigidas contra qualquer pessoa ou entidade “estrangeira ou estadunidense” que opere em setores vitais para a entrada de divisas na ilha. Trata-se de subverter a ordem interna, estrangular a economia e anular a capacidade de Cuba de relacionar seu sistema bancário e sua economia com o resto do mundo.

A ofensiva imperial golpeou múltiplas frentes: Visa e Mastercard deixam de operar na ilha; mineradoras canadenses e cadeias hoteleiras espanholas fogem por medo das sanções secundárias da administração Trump. Mas o país não está de braços cruzados; buscam-se e encontram-se alternativas para resistir.

Nos últimos cinco anos, cerca de 250 novas medidas hostis foram adotadas pelo governo estadunidense. A cada nova administração, somam-se novos pretextos e ações hostis em áreas que ampliam a política de bloqueio. Entre essas áreas está a migratória, tradicionalmente instrumentalizada para atacar Cuba ou criar dificuldades bilaterais. Deixaram de cumprir a entrega de vistos fixada nos acordos migratórios bilaterais, ao mesmo tempo em que estimulam as saídas ilegais. Paralelamente, com grande cinismo, Washington ameaça com duras medidas se Cuba permitir um fluxo migratório desordenado e massivo.

Como parte do cerco, tem grande impacto a inclusão de Cuba em uma espúria lista de “países patrocinadores do terrorismo”, a qual serve de base para sanções contra Cuba e contra terceiros países, muitos dos quais se veem intimidados diante dessa medida.

A complexidade das leis e regulações do bloqueio potencializa permanentemente a influência da claque política e econômica anticubana da Flórida sobre os funcionários eleitos e as máquinas políticas nacionais de ambos os partidos do sistema.

Na retórica contra Cuba, ficam relegados múltiplos vínculos bilaterais que subsistem e são de benefício mútuo para ambos os países; em matéria de segurança do trânsito aéreo e marítimo, luta contra o narcotráfico e o crime organizado, coordenação em matéria de meteorologia; facilitação dos vínculos familiares entre os cubanos residentes em ambos os países e, naturalmente, no que se refere aos mencionados acordos bilaterais para um fluxo migratório ordenado.

Há muitas esferas válidas para um diálogo bilateral construtivo, e são muitos, nesse país, os que poderiam se beneficiar de uma relação construtiva com Cuba. Por exemplo, setores empresariais, exportadores agrícolas, firmas de capital e investidores com oportunidades de negócios existentes na ilha; uma parte substantiva da comunidade de cubanos residentes nesse país; centros de pesquisa e empresas farmacêuticas interessadas nos benefícios que podem derivar das conquistas científicas de Cuba nesses campos, etc. Nesse marco, tudo é possível; no passado, muitos acordos foram alcançados e todos foram cumpridos por Cuba; nem sempre pela parte estadunidense.

É preciso dizer, por outro lado, que certo grau de acompanhamento a partir do exterior tem sido importante para nossa resiliência. Em alguns momentos, a conjuntura latino-americana tem sido um fator a considerar, talvez latente, mas que não pode ser ignorado nos cálculos do governo dos Estados Unidos em sua política em relação a Cuba e à região.

Obviamente, o objetivo perseguido com o bloqueio de render o povo cubano pela fome e provocar a derrubada da Revolução não foi nem será alcançado. Muito pelo contrário, catalisou a capacidade de resistência dos cubanos e despertou maior simpatia e solidariedade para com Cuba no restante do mundo.

Mas isso não deve obscurecer que esse fracasso no plano político foi acompanhado por um impacto real e nefasto sobre nossa sociedade e nossa economia. Muito dano e sofrimento gerou para nossa população, para o cidadão comum, o que testemunha o caráter criminoso dessa política antiquada, hipócrita e contraproducente.

Ao mesmo tempo, o governo cubano expressou reiteradas vezes sua disposição para o diálogo respeitoso e para edificar um novo tipo de relação com os Estados Unidos, de construir uma relação respeitosa. Essa disposição para dialogar sobre temas bilaterais foi reiterada nestes dias pelo presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, ao mesmo tempo em que se reafirma que não se pode pretender, nem por um momento, que Cuba renuncie aos princípios da Revolução e do Socialismo, nem que faça concessões inerentes à sua soberania e independência, ou ceda no exercício de sua política externa comprometida com as causas justas, a defesa da autodeterminação dos povos e o apoio histórico a países irmãos.

Enquanto o bloqueio e a hostilidade dos governos estadunidenses não se modificarem e não houver disposição para um tratamento respeitoso e de igual para igual entre nossos países, é e será sempre fundamental que Cuba e o povo cubano sigam em frente, sem ceder no essencial de sua soberania e demonstrando sua capacidade de manter a estabilidade, o desenvolvimento e sua inserção econômica com o restante do mundo.

¨      Cuba responde ao bloqueio com soberania e criatividade. Por José Reinaldo Carvalho

O momento é decisivo na trajetória da Revolução Cubana. O governo revolucionário combina resistência heroica, soberania e criatividade, componentes essenciais da decisão lúcida de promover adaptações, atualizar o modelo econômico e realizar reformas com plena autonomia política e consciência socialista para enfrentar os efeitos do bloqueio imposto pelos Estados Unidos. Há, por óbvio, uma necessidade premente e emergencial de encontrar soluções adequadas para os angustiantes problemas provocados pela política genocida do imperialismo, urgência que não pode ser ignorada sob pretexto algum.

A complexa experiência da luta anti-imperialista já ensinou às forças progressistas, provadas no exercício do internacionalismo, que os povos aos quais se dirigem ações solidárias são plenamente autônomos para definir sua própria caminhada. A solidariedade verdadeira não substitui a soberania dos povos nem pretende ditar fórmulas externas. Ao contrário, parte do reconhecimento de que cada revolução se desenvolve em condições históricas concretas, sob correlações de forças específicas, enfrentando inimigos reais e contradições próprias. No caso cubano, essa compreensão é decisiva: o objetivo socialista da Revolução permanece mantido, mas sua construção não pode ser concebida como ato súbito, resultado de decreto ou aplicação mecânica de esquemas abstratos.

Para além do sentido emergencial, as medidas anunciadas pelo governo revolucionário cubano resultam de uma elevada compreensão teórica e política, que envolve estratégia e tática, conhecimento da realidade nacional e mundial, percepção aguda do momento histórico, domínio das leis gerais do desenvolvimento social, compreensão da natureza da luta de classes, identificação do caráter dos inimigos a enfrentar, atenção às leis objetivas da evolução histórica, às peculiaridades nacionais e às tendências de longo prazo. O marxismo permanece como teoria guia, precisamente porque oferece instrumentos para interpretar a realidade e transformá-la, e não porque forneça receitas prontas ou modelos rígidos. A teoria revolucionária que sistematiza leis universais do desenvolvimento histórico não constitui um amontoado de dogmas. Sua força reside na capacidade de orientar a ação concreta, reconhecer fluxos e refluxos, avanços e recuos, adaptar formas de luta e de organização, e manter firme o horizonte socialista sem perder contato com as exigências vivas da realidade.

A posição apresentada pelo presidente Miguel Díaz-Canel, também primeiro-secretário do Partido Comunista de Cuba, na Terceira Sessão Extraordinária da Assembleia Nacional do Poder Popular, em sua 10ª Legislatura, recoloca no centro do debate uma verdade essencial sobre a Revolução Cubana: resistir não significa permanecer imóvel. Ao contrário, a resistência heroica de Cuba diante do bloqueio imperialista exige hoje audácia, criatividade e capacidade de renovar caminhos sem renunciar aos princípios que sustentam sua soberania, sua essência e seus objetivos históricos.

Como ensinava Fidel Castro, revolução é o sentido do momento histórico. Essa definição continua atual porque impede que o pensamento revolucionário seja confundido com dogmatismo. Dirigir uma revolução sitiada por pressões externas, dificuldades econômicas e insuficiências internas requer coragem para corrigir rumos, abrir alternativas e preservar o essencial: a independência política do país, o direito de seu povo decidir o próprio destino e a persistência nos objetivos da revolução.

Ao afirmar que Cuba “desenha e propõe soberanamente” as mudanças consideradas urgentes, Díaz-Canel buscou responder tanto às dificuldades concretas enfrentadas pela população quanto à narrativa externa que tenta apresentar a ilha como um “Estado falido”. O presidente cubano rejeitou essa leitura e denunciou que ela é vendida ao mundo ao mesmo tempo em que se intensificam pressões contra o povo cubano.

A crítica e a autocrítica, como afirmou Díaz-Canel, fazem parte da tradição política do governo cubano. Esse ponto é fundamental. Reconhecer erros e insuficiências internas não diminui a Revolução; ao contrário, fortalece sua capacidade de sobrevivência histórica. O verdadeiro pensamento revolucionário não se refugia em fórmulas congeladas. Ele enfrenta a realidade, identifica contradições e busca soluções com base no interesse nacional. Nesse contexto, a decisão de avançar na abertura da economia deve ser compreendida como uma tentativa de ampliar capacidades produtivas. Cuba não está cedendo a pressões externas. Está buscando mecanismos próprios para respirar, produzir, comercializar e desenvolver-se sem pedir autorização a Washington. Díaz-Canel fez questão de afirmar que as decisões não decorrem de negociações com os Estados Unidos. Cuba, disse ele, continua disposta a dialogar com respeito sobre todos os temas possíveis, como já demonstrou historicamente. Mas o diálogo entre nações soberanas não pode ser confundido com submissão, chantagem ou imposição unilateral de condições.

O presidente cubano atribuiu as dificuldades de aproximação entre os dois países a setores que sabotam qualquer tentativa de entendimento. Segundo ele, esses grupos espalham ameaças, vazam informações falsas, perseguem negociações e apostam na “opção perversa da asfixia” para provocar uma explosão social em Cuba. A denúncia é grave porque expõe a natureza desumana do bloqueio. Não se trata de uma disputa abstrata entre governos. Trata-se de medidas que atingem o cotidiano de uma população inteira, dificultando operações bancárias, encarecendo importações, bloqueando a chegada de combustíveis, alimentos e medicamentos e punindo quem deseja investir ou comerciar com Cuba.

Díaz-Canel resumiu essa contradição ao afirmar: “Não se pode falar de liberdade enquanto se empurra de propósito um povo inteiro para o desespero por falta de recursos que hoje são vitais para a existência”. A frase desmonta o discurso daqueles que dizem defender o povo cubano enquanto apoiam políticas destinadas a tornar sua vida mais difícil. Em outro trecho, o presidente dirigiu-se diretamente ao governo dos Estados Unidos: “Ao governo dos Estados Unidos dizemos, sem ódio, mas sem medo: se de verdade querem ajudar o povo cubano, deixem-nos viver!”. A força dessa declaração está em sua simplicidade. Cuba não exige privilégios. Exige o direito elementar de comerciar, comprar medicamentos, importar combustível, receber investimentos, obter créditos e manter relações normais com seus emigrados e com o mundo. “Deixem Cuba mostrar ao planeta do que este povo é capaz quando não há obstáculos aos seus esforços para se levantar”, afirmou Díaz-Canel. É justamente aí que reside o núcleo político do momento atual. A Revolução Cubana não está diante de uma escolha entre resistir e mudar. Está diante da necessidade histórica de mudar para continuar resistindo.

As medidas anunciadas por Cuba expressam essa combinação entre firmeza e inovação. São decisões corajosas porque enfrentam simultaneamente dois desafios: a agressividade externa e os limites internos de um modelo pressionado por condições extraordinárias. Em vez de negar a realidade, o governo cubano afirma que pretende transformá-la a partir de suas próprias forças. Esse é o sentido mais profundo da soberania. Não é isolamento. Não é recusa ao comércio, ao investimento ou ao diálogo. Soberania é poder decidir os termos da própria abertura, estabelecer prioridades nacionais e impedir que a crise seja usada como instrumento de rendição política. A história de Cuba demonstra que a resistência, quando se torna criativa, pode produzir caminhos inesperados. Ao acrescentar medidas inovadoras à tradição de luta de seu povo, o país reafirma que a Revolução não pode ser reduzida a uma peça de museu nem a uma fórmula fechada. Ela precisa ser, como ensinou Fidel, expressão viva do momento histórico. Por isso, a frase final de Díaz-Canel sintetiza a mensagem política do discurso: “Cuba não vai pedir permissão para existir nem entregará sua soberania”. Em tempos de bloqueio, crise e pressão internacional, essa afirmação não é apenas uma defesa nacional. É também um chamado à inteligência revolucionária, à criatividade política e à coragem de mudar sem deixar de ser Cuba.

 

Fonte: Brasil 247

 

A nova razão de Estado: quando as plataformas governam

Este artigo também representa a continuidade de uma linha de investigação que venho desenvolvendo nos últimos anos sobre guerra híbrida, operações psicológicas, soberania informacional, plataformas digitais, inteligência artificial e as transformações do poder na era da infraestrutura computacional. Ao longo desse percurso, esses temas deram origem a pesquisas que, à primeira vista, pareciam tratar de objetos distintos. O acontecimento desencadeado pela ameaça tarifária de Donald Trump permite, pela primeira vez, reuni-los sob uma mesma chave interpretativa. Mais do que inaugurar uma nova hipótese, este texto procura demonstrar que esses processos sempre fizeram parte de uma única transformação histórica: a mudança das condições materiais sobre as quais se exerce a soberania no século XXI.

<><> O que Trump revelou?

Em 26 de junho de 2026, Donald Trump anunciou que os Estados Unidos poderão impor tarifas de até 100% contra países que decidirem tributar ou ampliar a regulação sobre grandes corporações tecnológicas americanas. À primeira vista, trata-se de mais um capítulo da guerra comercial iniciada anos atrás entre Washington e seus principais parceiros econômicos. Essa leitura, porém, perde o elemento central do episódio. Trump não inaugurou uma nova política externa. Apenas tornou explícita uma transformação histórica que vinha sendo construída silenciosamente ao longo de mais de duas décadas. Pela primeira vez, um presidente norte-americano assumiu de forma aberta que a expansão global de corporações privadas de infraestrutura digital constitui um interesse estratégico do Estado americano. A partir daquele momento, regular plataformas digitais deixou de ser apenas uma questão tributária, concorrencial ou tecnológica. Passou a significar, também, entrar em rota de colisão com a política externa da maior potência do sistema internacional.

Essa mudança altera profundamente a forma como devem ser interpretados acontecimentos que, até então, pareciam desconectados. A disputa entre o Supremo Tribunal Federal e as plataformas digitais, a revisão do artigo 19 do Marco Civil da Internet, o avanço do Digital Services Act europeu, a guerra dos semicondutores entre Estados Unidos e China, os contratos bilionários firmados entre o Pentágono e empresas como Amazon, Microsoft, Google, Oracle, OpenAI, Palantir e Anduril, assim como as pressões americanas contra iniciativas nacionais de tributação digital, deixam de representar episódios isolados. Todos passam a integrar um mesmo processo histórico: a disputa pelo controle da infraestrutura digital sobre a qual se organizam a economia mundial, os sistemas de inteligência, a capacidade militar, a circulação da informação e, cada vez mais, o próprio exercício da soberania.

Durante muito tempo, governos, analistas e boa parte da academia trataram Google, Amazon, Meta, Microsoft, Nvidia, Apple e OpenAI como gigantes econômicos cuja influência decorria do tamanho de seus mercados. Essa explicação tornou-se insuficiente. Essas corporações deixaram de ocupar apenas posições dominantes na economia digital. Hoje, controlam infraestruturas indispensáveis ao funcionamento do capitalismo contemporâneo: computação em nuvem, inteligência artificial, sistemas operacionais, ecossistemas móveis, publicidade digital, modelos fundacionais de IA, capacidade computacional, chips avançados, redes globais de dados e plataformas que intermediam parcelas crescentes da vida econômica, política e social. A novidade histórica não está apenas na concentração econômica, mas na natureza estratégica dessas infraestruturas.

É justamente esse deslocamento que a ameaça de Trump ilumina. Ao prometer retaliar economicamente países que decidam impor limites às grandes corporações tecnológicas americanas, Washington revela que a proteção dessas empresas já não responde apenas à lógica do mercado. Responde à lógica da razão de Estado. Como em outros momentos da história, quando grandes potências mobilizaram sua política externa para proteger rotas marítimas, reservas de petróleo, cadeias industriais ou a estabilidade do dólar, os Estados Unidos passam a tratar sua infraestrutura digital como um ativo estratégico cuja expansão internacional deve ser garantida pelo poder político, econômico e diplomático do Estado. Compreender essa transformação é indispensável para entender não apenas a política externa americana, mas a própria natureza da disputa geopolítica que definirá a soberania dos Estados no século XXI.

<><> Quando muda a base material, muda a razão de Estado

Toda grande transformação da ordem internacional começa muito antes de aparecer nos discursos dos chefes de Estado. Ela nasce nas mudanças da base material que sustenta a acumulação de riqueza e, somente depois, reorganiza instituições, estratégias nacionais e relações de poder. Foi assim com a Revolução Industrial, quando ferrovias, carvão e siderurgia redefiniram a geopolítica europeia. O mesmo ocorreu no século XX, quando petróleo, indústria pesada, sistema financeiro internacional e capacidade militar passaram a estruturar a hegemonia norte-americana. Nenhuma potência preservou sua posição apenas pela força das armas. Todas protegeram, antes de tudo, a infraestrutura material que tornava possível sua superioridade econômica, tecnológica e militar.

O século XXI inaugura um novo deslocamento histórico. A infraestrutura estratégica da economia mundial deixa de estar concentrada apenas em portos, refinarias, fábricas ou bancos centrais. Passa a ser estruturada também por computação em nuvem, inteligência artificial, semicondutores avançados, cabos submarinos, data centers, sistemas operacionais, plataformas digitais, modelos fundacionais e gigantescas capacidades de processamento de dados.

Essa transformação altera, inevitavelmente, a própria natureza do Estado. A razão de Estado sempre acompanhou a evolução da base material sobre a qual se organiza o poder. Quando a riqueza dependia do controle das rotas oceânicas, as marinhas tornaram-se prioridade nacional. Quando o petróleo passou a mover a indústria e as guerras, garantir seu abastecimento transformou-se em objetivo permanente da política externa das grandes potências. Agora, quando cadeias produtivas, sistemas financeiros, inteligência militar, pesquisa científica, comunicações e serviços públicos dependem de infraestrutura computacional distribuída globalmente, proteger essa infraestrutura torna-se uma questão de sobrevivência estratégica. É nesse ponto que a política externa deixa de enxergar grandes corporações digitais apenas como empresas privadas e passa a tratá-las como ativos indispensáveis à reprodução do poder nacional.

É precisamente aqui que a ameaça tarifária de Donald Trump adquire significado histórico. Ela não representa uma ruptura com a tradição estratégica dos Estados Unidos, mas sua atualização diante de uma nova base material da hegemonia. Ao prometer retaliar países que imponham limites regulatórios ou tributários às grandes corporações americanas de infraestrutura digital, Washington sinaliza que cloud, inteligência artificial, chips, plataformas e capacidade computacional passaram a ocupar o mesmo patamar estratégico que, em outras épocas, foi reservado ao petróleo, ao complexo industrial-militar, ao dólar ou às rotas marítimas. A disputa pela soberania digital, portanto, não nasce de um debate tecnológico. Ela emerge da transformação histórica das condições materiais que sustentam o exercício do poder no sistema internacional.

<><> As corporações deixaram de disputar mercados. Passaram a disputar soberania

Durante décadas, as grandes empresas de tecnologia foram compreendidas como atores econômicos extraordinariamente bem-sucedidos. Google dominava o mercado de buscas; Microsoft, os sistemas operacionais; Amazon, o comércio eletrônico; Apple, os dispositivos móveis; Meta, as redes sociais. Essa classificação tornou-se insuficiente. A transformação ocorrida na última década modificou profundamente a natureza dessas corporações. Elas deixaram de controlar apenas mercados para controlar infraestruturas indispensáveis ao funcionamento de Estados, empresas, universidades, sistemas financeiros, hospitais, forças armadas e serviços públicos.

A computação em nuvem talvez seja a demonstração mais evidente dessa mudança. Em dezembro de 2022, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos anunciou o programa Joint Warfighting Cloud Capability (JWCC), distribuindo contratos bilionários entre Amazon Web Services, Microsoft Azure, Google Cloud e Oracle. O objetivo era construir a infraestrutura computacional que sustentará operações militares em todos os níveis de classificação, do ambiente administrativo às operações estratégicas e de combate. Não se trata da compra de softwares. Trata-se da terceirização de uma parcela significativa da infraestrutura digital sobre a qual passa a operar o maior aparato militar do planeta. Quando a capacidade de processamento de dados, inteligência e comando depende de plataformas privadas, essas empresas deixam definitivamente a condição de fornecedoras convencionais para ocupar posição estratégica na arquitetura do poder estatal.

O mesmo movimento ocorre no campo da inteligência artificial. Em 2025, a OpenAI firmou contrato com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos para desenvolver aplicações voltadas à segurança nacional. Pouco depois, outras empresas de IA passaram a integrar programas federais destinados à modernização das capacidades militares americanas. Paralelamente, companhias como Palantir consolidaram-se como fornecedoras permanentes de sistemas de análise de dados para inteligência, defesa e segurança pública, enquanto a Anduril expandiu rapidamente sua atuação na produção de tecnologias autônomas para uso militar. O que une essas empresas não é o setor em que atuam, mas a função estratégica que passaram a desempenhar: fornecer a infraestrutura computacional sobre a qual o Estado organiza capacidades essenciais de defesa, vigilância, logística, comando e decisão.

A transformação não se limita ao campo militar. Google e Microsoft estruturam serviços utilizados por governos em dezenas de países; Amazon concentra parte expressiva da infraestrutura mundial de computação em nuvem; Nvidia tornou-se peça central da cadeia global de inteligência artificial ao controlar a produção dos chips mais avançados do planeta; Apple e Google administram os dois principais ecossistemas móveis da economia digital; Meta opera plataformas que concentram bilhões de usuários e organizam fluxos globais de informação. Nenhuma dessas empresas atua apenas em seu mercado original. Todas passaram a ocupar posições estruturais na infraestrutura computacional que sustenta o capitalismo contemporâneo.

É justamente essa mudança que explica por que Washington passou a tratá-las de forma distinta. O Estado americano não protege essas corporações apenas porque elas geram empregos, impostos ou inovação tecnológica. Protege-as porque sua capacidade econômica, militar, científica e geopolítica tornou-se crescentemente dependente das infraestruturas que elas controlam. A ameaça tarifária de Donald Trump representa, portanto, a expressão política de uma transformação material muito mais profunda. Quando essas corporações passam a sustentar o funcionamento da economia, da defesa, da inteligência e da administração pública, sua expansão internacional deixa de ser apenas um objetivo empresarial. Torna-se parte da própria estratégia de reprodução da hegemonia americana.

<><> Trump apenas disse em voz alta

Durante anos, a defesa internacional das grandes corporações tecnológicas americanas ocorreu de forma difusa, quase sempre apresentada como parte da proteção ao livre comércio, à inovação ou à competitividade internacional. Antes de Donald Trump, diferentes administrações recorreram a negociações diplomáticas, disputas na Organização Mundial do Comércio, investigações conduzidas pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), acordos bilaterais e pressão econômica para contestar iniciativas nacionais que buscavam ampliar a tributação ou a regulação das plataformas digitais. A novidade de 2026 não está, portanto, na existência dessa política. Está na maneira como ela passou a ser formulada.

Ao anunciar a possibilidade de impor tarifas de até 100% contra países que decidissem tributar ou ampliar a regulação sobre grandes corporações tecnológicas americanas, Trump eliminou a linguagem técnica que até então envolvia esse conflito. A mensagem tornou-se direta: limitar a expansão dessas empresas passaria a produzir consequências econômicas para Estados soberanos. O episódio marcou uma inflexão simbólica importante porque transformou uma disputa regulatória em uma questão explícita de política externa e de coerção comercial. O que antes aparecia disperso em documentos técnicos, negociações multilaterais e procedimentos administrativos passou a ser anunciado como prioridade estratégica da própria presidência dos Estados Unidos.

Essa transformação pode ser observada retrospectivamente. Desde 2019, o USTR abriu investigações com base na Section 301 contra impostos sobre serviços digitais adotados por países como França, Índia, Itália, Espanha, Turquia, Áustria e Reino Unido, sob o argumento de que essas medidas discriminavam empresas americanas. Em paralelo, Washington pressionou sucessivamente as negociações conduzidas pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), buscando limitar iniciativas nacionais de tributação digital e deslocar o debate para uma solução multilateral mais favorável aos interesses americanos. O objetivo permanecia o mesmo: impedir que Estados nacionais estabelecessem regras capazes de reduzir a capacidade de expansão internacional das grandes corporações digitais sediadas nos Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, a União Europeia avançava em direção oposta. A aprovação do Digital Services Act, do Digital Markets Act e, posteriormente, do AI Act representou a tentativa mais ambiciosa já realizada por um bloco econômico para recuperar capacidade regulatória sobre plataformas digitais. Pela primeira vez, grandes corporações passaram a enfrentar obrigações relacionadas à transparência algorítmica, mitigação de riscos sistêmicos, acesso de pesquisadores a dados, responsabilidade sobre conteúdos e fiscalização permanente por autoridades públicas. O conflito deixava de ser tributário. Tornava-se uma disputa sobre jurisdição, soberania e capacidade dos Estados de impor limites a infraestruturas privadas transnacionais.

Para Washington, a defesa internacional das grandes corporações de infraestrutura digital já não constitui apenas uma agenda comercial. Constitui uma questão estratégica de Estado. Quando tarifas passam a ser mobilizadas para proteger plataformas, provedores de computação em nuvem, empresas de inteligência artificial e fabricantes de semicondutores, a política externa americana revela uma mudança qualitativa. O conflito deixa de ocorrer apenas entre empresas e reguladores. Passa a opor projetos distintos de soberania. De um lado, Estados que buscam recuperar capacidade de governança sobre a infraestrutura digital presente em seus territórios. De outro, a potência que abriga as principais corporações responsáveis por essa infraestrutura e que, cada vez mais, utiliza seu peso econômico, diplomático e comercial para preservar sua expansão global.

<><> O Brasil tornou-se um laboratório da disputa

Se a ameaça tarifária de Donald Trump tornou explícita a nova razão de Estado americana, o Brasil talvez seja um dos países onde essa transformação pode ser observada com maior nitidez. Nos últimos anos, poucas democracias concentraram, simultaneamente, disputas tão profundas sobre responsabilidade das plataformas digitais, inteligência artificial, tributação da economia digital, proteção de dados, infraestrutura computacional e soberania regulatória. Longe de constituírem episódios isolados, esses conflitos revelam a emergência de uma mesma contradição histórica: a tentativa de reconstruir capacidade estatal sobre infraestruturas privadas que passaram a exercer funções essenciais para a organização da vida econômica, política e social.

A decisão do Supremo Tribunal Federal de redefinir a interpretação do artigo 19 do Marco Civil da Internet representa um dos momentos mais importantes desse processo. Ao reconhecer que grandes plataformas podem responder civilmente em determinadas circunstâncias mesmo antes de decisão judicial específica, a Corte deslocou o centro do debate. A questão deixou de ser apenas liberdade de expressão ou moderação de conteúdo. Passou a envolver o reconhecimento de que plataformas digitais desempenham funções estruturais na esfera pública e, justamente por isso, não podem permanecer completamente apartadas das responsabilidades inerentes à vida democrática. A posterior regulamentação editada pelo Poder Executivo, fortalecendo o papel da Autoridade Nacional de Proteção de Dados na fiscalização dessas atividades, reforça a percepção de que o Estado brasileiro busca reconstruir instrumentos institucionais de governança sobre uma infraestrutura que já ultrapassa o campo privado.

Essa tentativa, entretanto, encontra limites que extrapolam a política doméstica. Em 2025, reportagens revelaram que o governo brasileiro adiou propostas de tributação sobre grandes plataformas digitais em meio às negociações comerciais com Washington, diante do receio de ampliar tensões com a administração Trump. O episódio ilustra uma mudança qualitativa da disputa. A capacidade de um Estado nacional definir regras para empresas que operam em seu território passa a sofrer influência direta da política externa da potência que abriga essas corporações. A soberania regulatória deixa de depender apenas do equilíbrio interno entre Executivo, Legislativo e Judiciário. Passa também a enfrentar constrangimentos produzidos pela crescente associação entre interesses corporativos e interesses estratégicos do Estado americano.

O Brasil ocupa posição singular nesse processo porque reúne características raramente presentes em um mesmo país. É uma das maiores democracias do mundo, possui mercado digital de dimensão continental, concentra centenas de milhões de usuários das principais plataformas globais, tornou-se protagonista nas discussões internacionais sobre regulação da economia digital e integra o BRICS, bloco que busca ampliar a autonomia tecnológica e política do Sul Global. Ao mesmo tempo, depende fortemente de infraestrutura computacional controlada por corporações estrangeiras, desde serviços de computação em nuvem até modelos de inteligência artificial e ecossistemas digitais que estruturam parte significativa da economia nacional. Essa combinação transforma o país em um espaço privilegiado para observar a tensão entre soberania jurídica e dependência material.

É justamente por isso que o debate brasileiro transcende as fronteiras nacionais. O que está em disputa não é apenas a redação de uma lei, a competência de uma agência reguladora ou a responsabilidade civil de uma plataforma específica. O que se observa é um dos primeiros grandes testes da capacidade de um Estado periférico reconstruir jurisdição sobre infraestruturas digitais transnacionais cuja expansão passou a integrar a estratégia geopolítica da principal potência do sistema internacional. Por isso, o Brasil deixou de ser apenas um observador dessa transformação histórica. Tornou-se um dos territórios onde se decidirá, na prática, até onde um Estado nacional ainda é capaz de exercer soberania sobre infraestruturas digitais controladas por corporações transnacionais.

<><> A soberania do século XXI

Ao longo da história, a soberania nunca foi uma categoria abstrata. Ela sempre dependeu das condições materiais que permitiam aos Estados exercer autoridade sobre seus territórios, proteger suas economias e projetar poder para além de suas fronteiras. Em diferentes momentos, essas condições estiveram associadas ao controle da terra, das rotas marítimas, da capacidade industrial, das reservas energéticas, da moeda internacional ou da superioridade militar. Cada transformação da base material da economia reorganizou também a própria ideia de soberania. O século XXI não rompe com essa lógica histórica. Apenas desloca seu eixo para uma nova infraestrutura: a capacidade computacional.

Esse deslocamento produz uma mudança profunda na forma como deve ser compreendida a autonomia dos Estados. Leis, constituições, tribunais, parlamentos e governos continuam indispensáveis, mas deixam de ser suficientes quando parcelas crescentes da economia, da administração pública, da comunicação, da inteligência, da pesquisa científica e até da capacidade militar passam a depender de infraestruturas digitais controladas por corporações transnacionais. A soberania deixa de ser apenas uma questão jurídica. Torna-se, cada vez mais, uma questão material. Quem não controla capacidade computacional, infraestrutura em nuvem, sistemas de inteligência artificial, produção de semicondutores, redes de dados e plataformas estratégicas passa a exercer sua autoridade dentro de limites definidos por estruturas que escapam ao seu próprio território.

É justamente nesse ponto que a ameaça tarifária de Donald Trump adquire significado histórico. Ao transformar a defesa internacional das grandes corporações de infraestrutura digital em instrumento explícito de política externa, Washington sinaliza que essas empresas passaram a ocupar posição equivalente àquela que, em outros períodos, foi reservada ao petróleo, ao dólar, à indústria pesada ou ao complexo militar-industrial. Não se trata de afirmar que o Estado americano tenha sido substituído pelas plataformas ou que interesses públicos e privados tenham deixado de produzir tensões e disputas. O que se observa é um processo diferente: à medida que a infraestrutura digital se converte em condição material da hegemonia, sua proteção passa a integrar os objetivos estratégicos do próprio Estado.

Essa transformação impõe um desafio inédito ao Brasil e ao conjunto do Sul Global. A discussão já não se resume à regulação das plataformas, à tributação da economia digital ou à responsabilização de empresas por conteúdos publicados em seus serviços. O problema tornou-se estrutural. A capacidade de formular políticas públicas, proteger dados estratégicos, desenvolver inteligência artificial, expandir infraestrutura computacional, formar capacidades industriais e preservar autonomia decisória passa a integrar o próprio conceito de desenvolvimento nacional. Em outras palavras, soberania digital deixa de ser um capítulo das políticas de tecnologia para tornar-se um capítulo das estratégias nacionais de desenvolvimento.

Pela primeira vez, a maior potência do sistema internacional afirma de forma aberta que proteger a expansão global de suas corporações de infraestrutura digital constitui um interesse estratégico de Estado. É essa explicitação que transforma um episódio de política comercial em um marco histórico. A disputa central do século XXI já não ocorre apenas em torno de fronteiras, mercados ou recursos naturais. Ela passa pelo controle da infraestrutura que organiza a economia, a informação, a inteligência, a guerra e a própria capacidade dos Estados de exercer soberania. Para o Brasil e o Sul Global, compreender essa transformação deixou de ser apenas um exercício analítico. Tornou-se uma condição para disputar, com autonomia, seu lugar na arquitetura do poder mundial.

 

Fonte: Por Reynaldo José Aragon, em Brasil 247

 

Eleições sob pressão: o avanço da desinformação e dos ataques cibernéticos

Há mais de uma década, as chamadas ameaças híbridas deixaram de ser apenas um conceito acadêmico para se tornar uma realidade capaz de influenciar sociedades em todo o mundo. Entre os momentos mais vulneráveis a esse tipo de ação estão os períodos eleitorais. Segundo especialistas, os seis meses que antecedem um pleito concentram os maiores riscos de interferência no debate público e na confiança dos eleitores.

Em uma sociedade cada vez mais digital e interdependente, os conflitos também assumem novas formas. Não se trata mais apenas de bombardeios, invasões ou ataques militares convencionais. Ciberataques, campanhas de desinformação e pressões econômicas também podem ser utilizados para influenciar países e sociedades. Esse conjunto de estratégias é conhecido como ameaças híbridas, ações capazes de comprometer a estabilidade política, a segurança nacional e a economia de países em todo o mundo.

Em Helsinque, na Finlândia, está localizada a sede do Centro Europeu de Excelência para o Combate às Ameaças Híbridas (Hybrid CoE). Criada em 2017 em parceria com a União Europeia e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), em um contexto de crescente preocupação dos governos com o avanço desse tipo de ação, a instituição apoia seus 35 países membros com pesquisas, treinamentos e análises voltados à prevenção e ao combate dessas ameaças.

Martha Turnbull, diretora da área de Influência Híbrida do Hybrid CoE, ressalta que um dos cenários que mais tem registrado o aumento de ameaças híbridas é o período eleitoral. “Vemos uma grande quantidade de desinformação nos cerca de seis meses que antecedem a eleição. Isso se encaixa em um padrão mais amplo que temos observado, no qual esses atores procuram minar a confiança do público no sistema eleitoral e no governo atual”, afirma.

Turnbull explica que, à medida que a eleição se aproxima, essas atividades passam a se concentrar em partidos políticos e candidatos específicos, além de tentar desencorajar a participação dos eleitores. “Isso não termina no dia da eleição. Essas atividades continuam nas semanas seguintes, buscando desacreditar os resultados”, complementa.

Não são apenas atores externos que impõem ameaças, mas também internos. “No contexto eleitoral atual, observamos que existe uma ligação entre ameaças externas e atores domésticos em muitos países", afirma Turnbull. "Em alguns casos, essa ligação é direta, quando o ator externo orienta diretamente grupos ou indivíduos que estão dentro do país realizando algum tipo de atividade. Em outros casos, a ligação não é tão clara, mas, de forma geral, o que estamos vendo é uma conexão cada vez maior entre esses atores”, diz a especialista.

O principal alvo das ameaças híbridas durante períodos eleitorais são justamente os eleitores. Por isso, de acordo com o Hybrid CoE, combater esse fenômeno também envolve fortalecer a educação midiática da população, para que as pessoas consigam identificar e resistir à desinformação.

<><> IA muda o cenário das ameaças híbridas

Além do cenário eleitoral, o avanço da inteligência artificial (IA) vem transformando a forma como ameaças híbridas são produzidas e combatidas. Segundo Turnbull, atores envolvidos nesse tipo de atividade utilizam modelos de linguagem e outras ferramentas de IA para ampliar sua capacidade de atuação, aumentar a escala das operações e acelerar respostas.

“Isso, obviamente, é muito desafiador. Além disso, algumas dessas tecnologias tornam essas atividades muito mais difíceis de rastrear e, consequentemente, mais difíceis de atribuir responsabilidade e de responder a elas”, ressalta.

Também existe, no entanto, um aspecto positivo. Governos e instituições vêm utilizando a IA para fortalecer sistemas de monitoramento e resposta a ameaças híbridas. O saldo dessa transformação, porém, ainda é incerto. "Acho que, neste momento, a balança ainda não pendeu claramente para um lado ou para o outro", avalia Turnbull.

<><. Europa vê Rússia como principal preocupação

O Hybrid CoE está localizado em um ponto simbólico. Helsinque fica a menos de 200 quilômetros da fronteira com a Rússia, país apontado por especialistas como a principal fonte de ameaças híbridas ao continente europeu na última década. “Consideramos que a principal ameaça para a Europa vem da Rússia, mas também observamos o aumento de ameaças por parte do Irã e da China”, afirma Martha Turnbull.

Desde a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, em 2022, o Hybrid CoE afirma ter observado um aumento significativo das atividades relacionadas a ameaças híbridas. “Temos observado uma atividade concentrada, particularmente por parte da Rússia, no campo da desinformação, que busca enfraquecer o apoio à Ucrânia e minar a disposição do país de continuar lutando com o apoio que recebe de seus aliados”, diz Turnbull.

Essas ações podem assumir diferentes formas. “Pode ser propaganda para tentar desgastar a população e conquistá-la para o seu lado. Também pode envolver ataques cibernéticos. Pode incluir ainda atividades militares de pequena escala, como cruzar fronteiras, violar espaços aéreos ou interferir em sinais de GPS”, ressalta.

<><> Brasil: a desinformação no centro das ameaças híbridas

No Brasil, o tema também vem sendo acompanhado por pesquisadores. O professor de antropologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Piero Leirner, autor do livro O Brasil no espectro de uma guerra híbrida, afirma que, no contexto político brasileiro, a principal preocupação está em dinâmicas de desinformação.

“Os principais atores que manejaram estratégias híbridas de desinformação e de manipulação política aqui são atores 100% internos, embora ligados a atores externos. Eu acredito que a desinformação não é apenas no sentido de fake news. Isso é uma parte ínfima do problema. Na verdade, é uma estrutura geral que eu chamo de dissonância cognitiva e que muita gente chama de polarização”, diz Leirner.

À medida que o Brasil se aproxima das eleições presidenciais de 2026, marcadas para outubro, a desinformação retorna ao centro das atenções no cenário político. Embora as redes sociais tenham ampliado seu alcance e velocidade, o uso dessa estratégia para influenciar o debate público faz parte das campanhas há décadas. Para Leirner, em especial, ataques à credibilidade do sistema eleitoral devem voltar a ocupar espaço no debate público.

O pesquisador avalia ainda que as instituições brasileiras não estão preparadas para prevenir e responder a esse tipo de ameaça. “A principal ameaça é o fato de que as nossas principais instituições políticas estão embebidas nesse ambiente, e elas próprias fazem uso disso [da desinformação]”, ressalta.

 

Fonte: Por Julia Valente, para RFI

 

“Meu corpo não me obedecia”: o que é distonia e por que é subdiagnosticada

Aos 30 anos, Maria Nilde Soares vivia uma vida tranquila e estável. Tinha casa própria e estabilidade no emprego como consultora comercial. No entanto, sua vida começou a tomar um rumo diferente quando passou a ter espasmos e contrações nos músculos do rosto.

"Meu olho esquerdo começou a piscar sozinho e, depois, minha boca se contraía. Até que minha cabeça passou a se mover involuntariamente para o lado", conta Nilde à CNN. "Todos [os médicos] queriam me internar em uma clínica porque afirmavam que meu problema era de cunho psicológico, e não neurológico", completa.

Os tratamentos propostos, voltados à saúde mental, não surtiram efeito e os sintomas pioraram e se tornaram tão incapacitantes que Nilde tentou o suicídio duas vezes.

"Acordar e dormir todos os dias com dor afeta o seu psicológico. Não ter controle do próprio corpo afeta o seu psicológico. Mas o problema não era psicológico, era neurológico", reitera.

Com dor incapacitante, Nilde chegou a ser afastada do seu emprego, o que também trouxe consequências para seu bem-estar mental. "O trabalho com vendas tem uma cobrança muito grande, e a minha produção caiu, obviamente. Eu fui demitida por isso", conta.

Foram mais de quatro anos e sete médicos consultados até que Nilde ouvisse a palavra "distonia" pela primeira vez. Esse é o nome dado a um conjunto de distúrbios que levam a contrações musculares involuntárias que causam posturas anormais, espasmos ou movimentos repetitivos.

<><> O que é distonia?

A distonia é um transtorno de movimento caracterizado por contrações musculares involuntárias, podendo ser focalizada (acomete apenas uma região do corpo, como mãos, pescoço, pés ou olhos) ou generalizada (acomete várias regiões corporais).

"Essa contratura involuntária dos músculos gera uma postura anormal e muita incapacidade, podendo acontecer durante o repouso ou vir associada a algum movimento voluntário", explica Sara Casagrande, neurologista especialista em distúrbios do movimento, à CNN.

Segundo o Manual MSD, a distonia resulta de hiperatividade em diversas áreas do cérebro, como os gânglios basais (que ajudam a iniciar ou suavizar os movimentos voluntários), tálamo (que organiza mensagens sobre os movimentos musculares), cerebelo (que coordena os movimentos do corpo) e córtex cerebral (substância cinzenta).

"Nós temos um conjunto de núcleos na base do cérebro que se conectam e precisam de uma perfeita harmonia de sinais entre eles para gerar um comando correto para o córtex cerebral, responsável pela motricidade. Se há algum ruído ali, por disfunção genética ou química secundária, o comendo vai errado e esse paciente acaba tendo movimentos involuntários", explica Casagrande.

Existem duas causas possíveis de distonia: a genética (distonia primária) e a associada a uma doença ou uso de medicamento (distonia secundária). Além disso, existem dois tipos do transtorno:

•        Distonias focais e segmentares: afetam só uma parte do corpo e costumam surgir após os 20 a 30 anos de idade. Exemplos: blefarospasmo (que afeta as pálpebras), distonia cervical (pescoço), distonia espasmódica (cordas vocais), distonias ocupacionais (relacionadas a tarefas específicas) e doença de Meige (piscar involuntário dos olhos com estalos da mandíbula);

•        Distonias generalizadas: afetam o tronco e mais duas partes diferentes do corpo, sendo frequentemente de origem genética.

<><> Desconhecimento médico dificulta diagnóstico

A demora para obter um diagnóstico preciso não é algo que ocorreu apenas com Nilde. De uma forma geral, a jornada do paciente com distonia costuma ser longa e árdua, segundo Casagrande. Um dos principais motivos para isso é a desinformação dos próprios médicos.

"Eu, como neurologista especializada em distúrbio de movimento e com uma grande vivência de estudos na distonia em si, percebo isso dentro da própria neurologia. Esse é um assunto que poucos na área conhecem", afirma. "A população que não tem acesso a um especialista é muito julgada e tem o diagnóstico errado de que é um problema ortopédico ou psicológico. Muitos são julgados como pacientes psiquiátricos, como se aquela doença fosse inventada", completa.

O diagnóstico é feito através da análise médica dos sintomas e exames de imagem, como ressonância magnética ou tomografia computadorizada, que podem identificar a causa do distúrbio. A eletromiografia, que avalia a atividade elétrica dos músculos e nervos, também pode confirmar o diagnóstico.

"A experiência do profissional e uma escuta atenta fazem toda a diferença. Também precisamos ampliar o conhecimento sobre a distonia, tanto entre médicos quanto na população", destaca a neurologista.

<><> Tratamento adequado traz qualidade de vida

Enquanto estava recebendo o tratamento errado para sua condição, Nilde sentiu seus sintomas piorarem e, aos poucos, foi perdendo o controle e os movimentos do corpo.

"Perdi o movimento do pescoço para o lado direito. A sensação era de que o meu corpo não me obedecia mais", conta. "Eu perdi 87% da mobilidade corporal e cheguei a ficar de cadeira de rodas, precisando de uma enfermeira 24 horas. Tomava água de canudinho e a comida era só papa", relembra.

Em algumas das internações, as dores eram tão intensas que precisou de morfina. "Era a única forma de suportar. E, fora a medicação, precisava ficar constantemente com o pescoço encostado no ombro, pois era a posição mais confortável", relata.

Após ser encaminhada para um especialista e realizar o exame de eletromiografia, Nilde foi diagnosticada com distonia cervical. O momento trouxe alívio. "Foi a primeira vez que me senti ouvida e soube o que realmente estava acontecendo comigo", conta.

Hoje, com 54 anos, Nilde recebe o tratamento adequado para sua condição, feito com toxina botulínica e uso de medicamentos específicos. Além disso, ela passou por uma cirurgia para colocação de implante de estimulação cerebral profunda (ou DBS, da sigla em inglês para Deep Brain Stimulation).

"Antes da cirurgia, eu tomava cerca de 28 medicamentos. Agora eu tomo só quatro", conta. "Mas mesmo com DBS, a toxina botulínica é muito importante", avalia.

A toxina botulínica atua relaxando a musculatura do paciente com distonia e aliviando a dor, garantindo mais funcionalidade, segundo Casagrande. "Ela é um grande divisor de águas para o tratamento desses pacientes", afirma a especialista.

Outras opções de tratamento incluem a reabilitação com fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional, a depender de cada caso.

<><> Rede de apoio também é importante para saúde mental

Depois de tudo o que passou até conseguir a confirmação do seu diagnóstico, Nilde sentiu a necessidade de levar conhecimento para outros pacientes e profissionais de saúde, além de cobrar políticas públicas em prol dos direitos de pessoas com distonia.

Foi com esse objetivo que ela criou o Instituto Distonia Saúde, em 2018. "Nós damos voz aos pacientes com eventos para que a sociedade e os próprios médicos, fisioterapeutas, psicólogos e neuropsiquiatras para eles entenderem que a distonia é, sim, uma doença rara, já que tem um diagnóstico difícil e demorado", afirma.

O Instituto, além de oferecer rede de apoio para pacientes com distonia ou que estão investigando a causa dos seus sintomas, também é uma forma de conscientização acerca da doença e de visibilidade para consultas públicas e outras discussões sobre o assunto.

Uma delas, por exemplo, é o Projeto de Lei n.º 4521/24, de autoria da deputada Silvia Waiãpi (PL-AP), que define a distonia como deficiência, assegurando aos pacientes com o distúrbio todos os direitos previstos no Estatuto da Pessoa com Deficiência. Atualmente, a PL está tramitando na Câmara dos Deputados.

"Apesar de o Ministério da Saúde dizer que somos 65 mil brasileiros com distonia, nós não somos reconhecidos o suficiente para conseguirmos nossos direitos. É uma luta grande", finaliza.

 

Fonte: CNN Brasil