terça-feira, 31 de março de 2026

Anistia 79 abrindo as grades dos nossos porões

Apesar de seu título, o documentário de Anita Leandro não é exatamente sobre anistia. No material de divulgação para imprensa, a própria diretora afirma isso textualmente: “Esse filme não é um filme temático sobre anistia. Não é isso. É um encontro com pessoas que participaram desse evento. E é a emoção dessas pessoas diante desse material.”

Claro, Anistia 79 presta um grande serviço às discussões sobre todo o processo de luta pela anistia, suas possibilidades, seus limites e seu resultado naquele momento. Com uma clareza da direção e dos entrevistados e entrevistadas, fica nítida a lucidez que os militantes, que se reuniram em Roma, tinham da derrota política da luta contra a ditadura e da fragilidade da esquerda naquele momento, exigindo uma reestruturação da estratégia política.

Diante da quase ausência de brechas oferecidas pela ditadura, a luta pela anistia não foi apenas uma tática para garantir a sobrevivência dos militantes e a volta dos exilados brasileiros ao país, facultando uma possibilidade, ainda que remota à época, de estabelecer novas margens para ação e disputa políticas. No plano regional, a luta pela anistia brasileira também identificava o papel central do Brasil na construção e consolidação de ditaduras na América do Sul, razão que, por sua força, convenceu as autoridades italianas a iniciarem o Tribunal Bertrand Russell II, em 1974.

Como fica claro nas palavras do senador italiano Lelio Basso, presidente do Tribunal Russell II, que se estendeu até 1976, logo na abertura do documentário: “A iniciativa deste Tribunal partiu dos exilados brasileiros, aos quais se somaram exilados chilenos e de outros países. Nos demos conta de que a América Latina constitui-se nesse momento o fenômeno mais grave do ponto de vista da violação, e até da supressão, dos direitos democráticos e da instauração de regimes ditatoriais. É um dos maiores perigos para as democracias, não só na América Latina, mas no mundo inteiro, porque o totalitarismo, como o fascismo, tende sempre a se propagar.”

Um ano antes da instalação desse tribunal, América do Sul assistiu à derrubada de dois presidentes eleitos e a instauração de duas ditaduras. Em 27 junho de 1973, o presidente Juan María Bordaberry conspirou com os militares para fechar o Senado e a Câmara dos Deputados, anunciando a criação de um Conselho de Estado que substituísse a função constitucional do Congresso e instalando a ditadura no Uruguai. Um mês e meio depois, foi a vez do Chile sucumbir ao golpe. Em 11 de setembro do mesmo ano, o presidente Salvador Allende foi derrubado pelas Forças Armadas, morrendo no bombardeio executado para sua retirada do governo do Chile. No início do último ano dos trabalhos do Tribunal Bertrand Russell II, foi a vez da ditadura ser implementada na Argentina, em 1976. Em cada um desses golpes, lá esteve presente a importante contribuição da ditadura brasileira.

Em termos de duração, as ditaduras argentina e uruguaia duraram respectivamente 7 e 10 anos, a primeira terminando em 1983 e a segunda em 1985. Se o Brasil foi fundamental na organização dos golpes, na implementação das ditaduras e da concomitantemente repressão nos países do Cone-Sul, a luta pela anistia brasileira também foi importante para debilitar esses mesmos regimes ditatoriais. Se o processo de anistia brasileira durou mais de 5 anos e o fim da ditadura mais 6, essa luta prestou grande contribuição em debilitar o grande centro irradiador de golpes e de implementação de ditaduras na América do Sul.

Deixando isso claro logo no início do documentário, Anita Leandro parte para contar a história que deseja, que não é sobre anistia. Isso fica escancarado também logo no início do filme, a partir de dois comentários seguidos, aparentemente gratuitos. Primeiro, Luiz Eduardo Greenhalg identifica e anuncia “Denise Crispim e a Eduarda, com a camisa do CBA, feita pelo Henfil. Ali tinha o Bode Orelana. ‘Já vejo no horizonte a anistia’.” Depois, Branca Moreira Alves continua falando sobre Eduarda, dizendo que ela: “Parece o pai dela… Tão novinha, né? Eu acho que foi à Eduarda que alguém perguntou: – Você sabe o que quer dizer anistia? E ela disse: – É ir para o Brasil.”

Cortando a modorrenta e repetitiva discussão etimológica de que anistia significa esquecimento, Anita parte para o significado concreto naquelas circunstâncias: anistia é uma garota, filha de um pai torturado, assassinado e desaparecido, e de uma mãe igualmente torturada grávida, poder voltar para seu país, que ainda não conhecia por causa da perseguição ditatorial.

Naquela década de 1970, não havia nenhuma garantia de que a anistia possibilitaria a chance de reconstrução da democracia brasileira. Como medida de emergência naquela conjuntura, a anistia foi construída para garantir a vida e o retorno de brasileiros e brasileiras que estavam sendo massacrados, pagando com a vida ou com a saúde – física, mental, emocional. No filme, todos os militantes e todas as militantes têm clareza que a anistia era uma medida extrema de sobrevivência, mesmo que sob o custo da impunidade dos torturadores da ditadura.

Era preciso fazer mais um sacrifício para poder vislumbrar alguma chance de futuro. Com todos os seus problemas e limitações, a anistia de 79 conseguiu prestar uma grande contribuição ao processo de abertura, que permitiu o retorno à democracia. E é essa ideia de retorno que Anita Leandro quer tematizar. No material promocional do filme, Anita Leandro deixa essa intenção textualmente registrada, ao afirmar que “queria ter aquela imagem da Denise Crispim com a camiseta do Henfil, com a filhinha Eduarda de mãos dadas, como uma espécie de ritornelo. Uma imagem que atravessasse todo o filme, como uma espécie de cristal de tempo da anistia. De um lado, uma mulher torturada na gravidez, uma sobrevivente que perdeu o irmão e o marido, que teve o pai e a mãe torturados… E ela própria, torturada no sétimo mês de gravidez. E, do lado dela, essa filha, uma outra sobrevivente, que nasceu dentro da prisão, sob custódia, num hospital militar…”

Em resumo, a anistia cumpriu com seu papel de garantir a sobrevivência de militantes que, sem ela, provavelmente seriam mais torturados, assassinados e desaparecidos. A sobrevivência da menina, figurada por Eduarda no filme, era o fundamental naquele momento.

Persistindo nesse objetivo, Anita Leandro busca não mais garantir a sobrevivência de gerações ameaçadas naquele tempo, mas também contribuir para a sua vivência, em uma espécie de aprofundamento da abertura, desta vez subjetiva.

No começo do filme, há o depoimento de Denise Crispim no Tribunal Bertrand Russell II: “Com a palavra, Denise Crispim. A testemunha não tem força para falar e preferiu que seu testemunho fosse lido por outra pessoa. – Eu leio… Nasci em 8 de agosto de 1949. Fui presa em 23 de junho de 1970, na casa da Rua Amélia, em São Paulo. Eu vivia clandestina nessa casa com meu companheiro, Eduardo Leite. Ele não estava quando fui presa. Levaram-me para a Operação Bandeirantes, na Rua Tutóia. Eu estava grávida de seis meses. Albernaz mandou me buscar para interrogar-me. Me deu muitos golpes. O único lugar onde não fui golpeada foi na barriga. Temiam que eu abortasse. Este era um problema sério porque os vizinhos tinham me visto. Eduardo foi preso mais ou menos entre os dias 20 e 22 de agosto. Saí 20 dias depois do parto com liberdade vigiada. Quando a imprensa anunciou que o haviam matado, fui com a família dele, a irmã, para a porta do DOPS e fiz um escândalo: queria seu corpo. Está provado que quem tirou Eduardo do DOPS, na noite em que a imprensa anunciou sua fuga, foi o Fleury. E foi ele quem o matou. O corpo foi encontrado no Cemitério Areia Branca, em Santos. Foram meses de torturas. Eu, que era sua companheira, que o conhecia melhor do que qualquer outra pessoa, não o reconheci. O corpo, o rosto… estava tudo desfigurado. Era assustador. Foi uma tortura científica. Torturar para destruir fisicamente, mas assegurando-se de que não morra totalmente… e que mantenha um resto de vida. Via-se feridas velhas, apodrecida, sangue coagulado e um olho estava perfurado. De um lado da cabeça, o osso estava afundado. Os dentes estavam todos quebrados. Tinha uma dentição perfeita antes de ser preso. O corpo tinha cinco buracos de balas. Tenho a impressão que não foi morto a tiros. No corpo, não havia um só lugar que não tivesse sido massacrado. Mas um olho estava intacto. Foi esse olho que me permitiu a identificação. Me ajudaram também a reconhecê-lo umas cicatrizes profundas na mão, decorrentes de um antigo acidente de carro.”

Durante toda a leitura do depoimento, o documentário mostra Denise Crispim em pé no tribunal, calada, olhando para baixo, completamente absorta, como se tentasse esconder-se em si mesma. Ao final do filme, revemos Denise assistindo à filmagem do Tribunal Bertrand Russell II e da Conferência de Roma, que tratou da questão da anistia em 1979. Bastante emocionada, Denise comenta as cenas dos registros fílmicos daqueles anos. Como uma mãe apresentando a família e os amigos à filha, Denise vai tecendo breves comentários sobre algumas pessoas.

Sobre o pai, José Maria Crispim:

“Olha o meu pai ali! Posso voltar? Sim… já passou. Ele está entre… aí! De óculos, entre esses dois. Esse de óculos, José Maria Crispim… Vai aparecer minha mãe, eu acho… Meu pai, ao lado do Apolonio…

Ele se exilou. Estava no Chile; de lá, refugiou-se na embaixada da Argentina e seguiu para a Argentina. Depois, saiu para a Europa e veio para a Itália. Ele chegou antes de mim…”

Sobre a mãe, Encarnación Lopes Perez:

“Olha a minha mãe aí! No meio. Encarnación… Ela está de óculos, mais atrás. Uma guerreira, minha mãe. Ela foi presa e torturada. E se jogou de um carro em movimento quando a levavam para um encontro que teria com o Bacuri…”

Sobre um amigo da militância:

“Esse é o Murilo? Filho da Carmela… Que pecado! Que tragédia na vida dela… Ele se salvou da ditadura e foi morrer de forma tão estúpida, né?”

Nesse percurso do documentário, Anita Leandro mobiliza Denise Crispim como esse fio condutor do processo de abertura subjetivo, que liga o início ao final do filme. No começo, absolutamente calada e traumatizada. No final, ainda visivelmente traumatizada, Denise consegue falar e apresentar seus familiares e amigos. Junto a Denise, praticamente todos aqueles e todas aquelas, que deram entrevistas, fizeram o mesmo gesto de apontamento, nomeação e relato das pessoas que estiveram na Conferência de Roma.

A despeito de parecer prosaico, esse movimento é uma das experiências mais importantes que descendentes de atingidos e atingidas pela violência de Estado da ditadura mais sentem falta. De modo geral, a experiência mais comum é o completo silenciamento sobre as violências sofridas, acabando por contribuir, tragicamente, com os propósitos da ditadura – o apagamento e o esquecimento.

No Filhos e Netos por Memória, Verdade e Justiça, as novas pessoas que chegam para ingressar no coletivo costumam apresentar um desconhecimento profundo da história dos próprios familiares, quando não um desconhecimento total. Ao colocar Luiz Eduardo Greenhalg, Heloísa Greco, Hamilton Lopes dos Santos, Dirceu Greco Monteiro, Branca Moreira Alves, José Pedro da Silva, Marijane Lisboa, Jean Marc von der Weid, Denise Leal, Mariana Conceição Leal, além da própria Denise Crispim, Anita Leandro oferece uma experiência a muitos e muitas filhos, filhas, netos, netas, sobrinhos, sobrinhas etc., que jamais tiveram em suas famílias.

Em sua fascinação pelas imagens, Anita Leandro pôde proporcionar um pouco de reparação a esses familiares, gesto pouquíssimo praticado, quando praticado, pelo Estado brasileiro até os dias de hoje. A obsessão da diretora por essas imagens é similar à de filhos, filhas, netos, netas, sobrinhos, sobrinhas etc.

Expondo no material de divulgação para imprensa como encontrou essas imagens, a diretora relata que: “Esse filme parte de 90 minutos de um material de arquivo inédito, que eu encontrei meio escondido, inacessível, numa biblioteca de Nanterre, perto de Paris, especializada em questões políticas da América Latina. Esse material foi produzido por Hamilton Lopes dos Santos, um exilado brasileiro que morava em Paris. Quando ele ficou sabendo que ia acontecer, em Roma, em junho de 1979, a Conferência Internacional pela Anistia, com a cara e a coragem, juntou uma equipe de duas pessoas e uma mixaria de dinheiro que conseguiu e foi para Roma filmar esse evento, durante três dias. O material foi filmado em 16 milímetros, com uma qualidade de som maravilhosa, e ficou guardado num porão, em Paris, até o momento em que eu o descobri, em cassetes mini DV.”

Para muitos e muitas filhos, filhas, netos, netas, sobrinhos, sobrinhas etc., o único contato com seus familiares atingidos pela violência de Estado da ditadura é por meio dos arquivos. Frequentemente, são exigidas longas pesquisas em arquivos sem nenhuma garantia de que algum documento será encontrado, e, mesmo que o seja, que oferecerá alguma informação. Muitas vezes, é possível encontrar fotos e outros detalhes triviais, mas que valem ouro pela escassez de registros históricos, muito frequentemente, pouco guardados pelas famílias de atingidos pela violência da ditadura.

Ao tratar dos arquivos no material de divulgação para imprensa, Anita Leandro explica que a Conferência de Roma: “É o maior encontro da diáspora brasileira no exílio depois que começou a ditadura militar. E é o único encontro filmado. Aliás, foi realmente uma sorte que tenha sido filmado. As imagens de arquivo da história aparecem assim, por infração. Essas imagens poderiam nem existir se esse cara [Hamilton Lopes dos Santos], um dia, não tivesse dito para si mesmo: ‘preciso deixar um registro disso aqui para os meus filhos’. E ele teve essa lucidez de registrar esse encontro.”

Apesar da rara lucidez de Hamilton, seus registros fílmicos padeceram do mesmo mal de muitos documentos da ditadura. Durante quase 50 anos, esse material ficou guardado em um porão. Diante dessa descoberta, Anita Leonardo colocou-se a tarefa de transmitir o máximo possível desse registro da Conferência de Roma. Novamente, como explica no material de divulgação para imprensa: “A gente cortou apenas os excessos no material de arquivo. No essencial, tudo está ali. E foi muito gratificante quando mostramos o primeiro corte para o Hamilton. Ele veio à nossa mesa de montagem, viu o primeiro corte e falou: ‘Eu, finalmente, vi a conferência’. Porque, nos dias da filmagem, em Roma, ele não tinha tempo para ver nada, porque estava dirigindo a coisa. Eu disse, então, a ele que a ideia era essa mesmo: restituir alguma coisa dessa conferência, o mais próximo possível do material bruto, para todos os brasileiros.”

Para quem é filho, filha, neto, neta, sobrinho, sobrinha, bisneto, bisneta etc., não há excessos no filme, pois a experiência realmente excessiva é a da violência do Estado, pelos crimes cometidos e pela impunidade, do silenciamento e do esquecimento.

Mesmo as pessoas mais conhecidas que aparecem no filme – Apolonio de Carvalho, Gregório Bezerra, Manuel da Conceição, Helena Greco, Márcio Moreira Alves, Modesto da Silveira -, hoje não passam de ilustres desconhecidas. Para muitos e muitas, ver essas pessoas na tela será um primeiro contato, uma verdadeira descoberta, que emociona não apenas pelo afeto compartilhado pelos participantes na Conferência de Roma, mas também pela história apagada dessas pessoas.

A partir dessa percepção, Anistia 79 foi montado. Como já mencionado na abertura deste artigo, o documentário “não é um filme temático sobre anistia. Não é isso. É um encontro com pessoas que participaram desse evento. E é a emoção dessas pessoas diante desse material.”

A preocupação de Anita Leandro encontra-se justamente nessa vontade de resgatar o passado e oferecê-lo ao presente e ao futuro, numa tentativa de reparação e de luta contra os efeitos dessa violência praticada sistematicamente pelo Estado brasileiro durante a ditadura, e que continuou mesmo depois do fim do regime ditatorial. Com esse objetivo, a diretora quer mobilizar arquivo e memória para reconstituir aqueles dias tão incertos e sombrios, e mostrar como é possível lutar mesmo diante de condições tão desfavoráveis.

Novamente, como bem explicitado no material de divulgação à imprensa: “A fala tem um certo frescor, que surpreende a própria pessoa que fala. A testemunha se surpreende com aquilo que diz. E isso solicita a memória por outros caminhos, de uma outra forma. Talvez uma memória muito mais recalcada do que a memória dos fatos: a memória do corpo, a memória do tom da voz. Há outras camadas de memória em jogo, que essa confrontação com o material de arquivo traz à tona. Não é tanto aquela memória pré-elaborada do fato histórico, mas uma memória mais subterrânea, mais…profunda.

Então, isso já orienta a montagem. A montagem tem diante de si uma conversa, um olhar sobre os arquivos, uma análise desses arquivos. O que não era análise dos arquivos não interessava para nós. E eles estão sempre analisando aquele momento histórico. Essa valorização do arquivo foi dada primeiramente no momento da filmagem e, depois, no trabalho de associação da montagem.”

Ao abrir o arquivo físico-fílmico do material registrado por Hamilton Lopes dos Santos, guardado em um porão por quase 50 anos, Anita Leandro pôde abrir o arquivo físico-emocional, físico-mental, físico-corpóreo de alguns de seus principais participantes. Ao fazer isso, a diretora não apenas descerra as portas do mundo, onde a canção foi decepada, como também permite a abertura do nosso porão interno, fechado a sete chaves.

O sucesso da ditadura não se deve exclusivamente apenas aos crimes praticados nos seus porões à época, mas também em transformar a própria vida psíquica de seus sobreviventes e seus descendentes em um porão. Com Anistia 79, Anita Leandro nos oferece uma chave de saída.

 

Fonte: Por Felipe Lott, para Le Monde

 

Os segredos sobre a saúde da mulher escondidos no sangue da menstruação

Como muitas mulheres que menstruam, Emma Backlund preferia não pensar muito sobre o sangue que perdia todos os meses.

Mas, quando a startup de biotecnologia NextGen Jane pediu seu sangue menstrual em 2023, Backlund prontamente guardou oito absorventes internos de um ciclo e os enviou pelo correio para o laboratório da empresa em Oakland, na Califórnia.

Claro, era um pedido incomum, mas relativamente simples — e ela ficou mais do que feliz em ajudar, especialmente se isso significasse que outras meninas no futuro poderiam evitar o sofrimento que ela enfrentou ao crescer.

"Quando eu tinha 11 anos, tive minha primeira menstruação e achei que estava morrendo", diz Backlund, uma estudante de pós-graduação de 27 anos, de Minnesota, nos Estados Unidos. "Lembro de dizer para minha mãe que eu precisava ir ao hospital. E praticamente todas as menstruações que tive desde então foram assim. Eu vomitava todo mês. Perdia atividades sociais e aulas. Era uma dor ardente, lancinante, dilacerante, que não passava."

Backlund levou 13 anos para descobrir que tinha endometriose, um distúrbio crônico e debilitante no qual o tecido que reveste o útero começa a crescer fora dele.

A endometriose faz com que 190 milhões de pessoas no mundo — cerca de um décimo das mulheres em idade reprodutiva — sofram com menstruações intensas, dor pélvica agonizante, problemas urinários ou intestinais e até infertilidade.

O pior é que o diagnóstico costuma levar entre cinco e 12 anos, como aconteceu com Backlund. A confirmação exige uma laparoscopia, um procedimento médico no qual uma pequena câmera é inserida na cavidade pélvica, explica Ridhi Tariyal, cofundadora e diretora-executiva da NextGen Jane.

É por isso que Tariyal e outros líderes de startups inovadoras estão trabalhando para desenvolver um teste diagnóstico melhor — que promete ser mais rápido, mais barato e menos invasivo do que a cirurgia, e que pode revelar muito mais do que apenas o diagnóstico de endometriose.

O segredo, acreditam eles, está no sangue menstrual.

<><> Uma mina de ouro médica

A análise de amostras de urina por médicos remonta aos tempos da Babilônia e da Suméria, há cerca de 6 mil anos. As fezes e o sangue venoso passaram a ser estudados um e dois séculos atrás, respectivamente.

Mas o sangue menstrual nunca recebeu muita atenção clínica. Ainda assim, trata-se de um fluido complexo: metade dele é sangue comum, enquanto o restante é composto por proteínas, hormônios, bactérias, tecido endometrial e células eliminadas da cavidade vaginal, do colo do útero, das trompas de falópio, dos ovários, entre outras partes.

"Você tem acesso a tipos de células e outras assinaturas moleculares que simplesmente não aparecem no sangue total, na saliva ou em outros tipos de amostras", diz Tariyal. "É essencialmente uma biópsia natural, que oferece informações sobre os órgãos reprodutivos."

A empresa dela, a NextGen Jane, envia absorventes internos de algodão especialmente desenvolvidos para voluntárias como Backlund e já analisou mais de 2 mil amostras menstruais de mais de 330 mulheres desde sua fundação, em 2014.

"Você pode usar [o sangue menstrual] para investigar qualquer condição que afete o útero — e são muitas", diz Christine Metz, bióloga reprodutiva dos Feinstein Institutes for Medical Research, da Northwell Health, nos Estados Unidos.

Metz começou estudando o sangue menstrual para identificar biomarcadores de endometriose há mais de uma década, mas agora também quer entender se esse fluido pode oferecer pistas sobre outras condições, como câncer de endométrio, adenomiose — quando o revestimento do útero cresce para dentro da parede uterina — e endometrite, que é uma inflamação persistente do endométrio.

"O fluxo menstrual tem muito valor para compreender a saúde do útero, algo que não conseguimos acessar por outros meios", afirma Metz. "É um material biológico muito único."

Um estudo, por exemplo, identificou 385 proteínas encontradas exclusivamente no sangue menstrual.

Além de estar disponível mensalmente, outra grande vantagem é que o sangue menstrual oferece uma visão mais completa da saúde do útero em comparação com a pequena fração de tecido retirada em uma biópsia endometrial.

"O útero tem aproximadamente o tamanho de uma toranja, então uma biópsia endometrial não fornece uma avaliação global", explica Metz, que pede às voluntárias de seus estudos que coletem amostras com um coletor menstrual. "Já o fluxo menstrual corresponde a todo o endométrio eliminado."

<><> Uma busca por biomarcadores específicos

Como o sangue menstrual foi por muito tempo negligenciado pela pesquisa científica, ainda não está claro se a endometriose possui biomarcadores exclusivos suficientemente confiáveis para um teste diagnóstico. Mas Metz e seu parceiro de pesquisa, o geneticista Peter Gregersen, já estudaram mais de 3.700 mulheres — com resultados promissores até agora.

"Há muitas diferenças", diz Metz. Para começar, mulheres com diagnóstico de endometriose têm uma quantidade muito menor de células "natural killer" uterinas — células do sistema imunológico que desempenham um papel importante no início da gravidez, ao facilitar a implantação do embrião, o desenvolvimento da placenta e a proteção contra infecções.

"Elas estão ligadas à fertilidade, então ter poucas dessas células não é algo bom", afirma Metz.

A equipe dela também identificou uma diferença importante nas células fibroblásticas do estroma, que ajudam a reparar e regenerar o revestimento do útero após cada menstruação. Quando havia endometriose, essas células apresentavam mais marcadores inflamatórios e tinham menor capacidade de induzir as mudanças que preparam o útero para a gravidez.

Esse último fator também tem sido associado a outras condições, como a síndrome dos ovários policísticos (SOP) e abortos recorrentes.

O laboratório de Metz também descobriu que a expressão de certos genes está alterada em pacientes com endometriose. Em conjunto, essas diferenças são o que os médicos poderiam buscar em um teste diagnóstico alternativo e não invasivo baseado na análise do sangue menstrual.

Metz espera solicitar aprovação da Food and Drug Administration (FDA), dos Estados Unidos, para um kit de diagnóstico domiciliar em algum momento de 2027.

Já os pesquisadores da NextGen Jane estão extraindo e sequenciando o RNA mensageiro (mRNA) do sangue menstrual para identificar biomarcadores específicos da endometriose.

Até agora, eles identificaram alguns marcadores que acreditam conseguir diferenciar de forma confiável casos de endometriose de casos saudáveis em mulheres com infertilidade.

Um estudo nos Estados Unidos, envolvendo centenas de mulheres com endometriose, está em andamento para confirmar esses achados, diz Tariyal. Em maio de 2025, a NextGen Jane recebeu um financiamento de US$ 2,2 milhões (£1,62 milhão) para validar clinicamente um teste menstrual para endometriose em pacientes com infertilidade.

<><> Não apenas saúde reprodutiva

Mas o sangue menstrual pode ser útil para além da endometriose. O trabalho da NextGen Jane, por exemplo, já apontou possíveis ligações entre a saúde do útero e o envelhecimento.

"São dados iniciais", diz Tariyal, mas há "claramente uma tendência" entre a queda dos níveis de estrogênio no corpo — que define o envelhecimento — e a menstruação.

As observações da equipe também sugerem que o sangue menstrual pode, no futuro, ajudar a identificar doenças do sistema imunológico, como hipo ou hipertireoidismo, em que a glândula tireoide libera quantidades insuficientes ou excessivas dos hormônios que regulam o metabolismo, a tiroxina e a triiodotironina.

"Acontece que pessoas com endometriose frequentemente também têm alguma condição autoimune", afirma Tariyal.

Como o corpo passa de um estado de inflamação para um processo de cicatrização sem formação de cicatriz ao longo do ciclo menstrual, estudar o sangue menstrual pode oferecer um novo modelo para compreender doenças inflamatórias e mediadas pelo sistema imunológico, como artrite reumatoide, lúpus e esclerose múltipla, acrescenta Tariyal.

O sangue menstrual também tem se mostrado útil para detectar diabetes. Em estudos de 2021 e 2024, pesquisadores da startup Qvin, sediada na Califórnia, descobriram que a média de glicose medida no sangue menstrual refletia de forma confiável os níveis de açúcar no sangue no corpo como um todo.

Esses resultados abriram caminho para o primeiro — e até agora único — teste de glicemia com sangue menstrual aprovado pela FDA, lançado em 2024: um absorvente higiênico chamado Q-Pad, que possui uma tira removível para coletar o sangue e que as usuárias enviam pelo correio para os laboratórios da Qvin para análise.

A Qvin também demonstrou, em um estudo de 2022 realizado na Tailândia, que amostras coletadas com seu absorvente patenteado foram mais eficazes na detecção de cepas de alto risco do papilomavírus humano (HPV) — que podem aumentar o risco de câncer do colo do útero — em comparação com o exame de Papanicolau tradicional. Um estudo mais amplo para validar esses resultados está em andamento nos Estados Unidos.

A partir deste ano, esse ensaio também vai investigar se o Q-Pad pode ser usado para rastrear infecções sexualmente transmissíveis, como clamídia e gonorreia, diz Mads Lillelund, co-CEO da Qvin.

Na sequência, Lillelund espera avançar para a análise de outros marcadores de saúde, como hormônios da tireoide e reprodutivos, marcadores inflamatórios e até anticorpos que indicam resposta imunológica ao SARS-CoV-2.

De forma semelhante, a startup theblood, com sede em Berlim, está atualmente validando um kit de testes para ajudar a prever endometriose, menopausa precoce, síndrome dos ovários policísticos (SOP) e problemas de fertilidade.

<><> A revolução menstrual

Apesar desses avanços, muito sobre o sangue menstrual ainda permanece um mistério. O principal deles, segundo muitos pesquisadores, é que ainda não foram identificados todos os seus componentes — nem como eles podem mudar rapidamente ao longo da menstruação.

A pesquisa ainda está em estágio inicial, em grande parte por causa dos estigmas culturais que cercam o tema.

"Fomos todos ensinados a tratar isso como um tabu, algo sobre o qual nem se deve falar", diz Metz.

A situação é agravada pelo histórico viés em favor de homens na pesquisa médica e pela relativa falta de financiamento para estudos sobre saúde feminina. Globalmente, pesquisas nessa área representaram apenas 5% do financiamento mundial de pesquisa e desenvolvimento em 2020.

"A maior parte da descoberta de medicamentos foi feita principalmente com homens, possivelmente homens brancos, com pouca diversidade étnica ou de gênero", afirma Lillelund. "Gasta-se mais dinheiro com calvície masculina do que com endometriose."

Muitas mulheres, incluindo Backlund, que convivem com a realidade dolorosa da endometriose e de outras condições uterinas, dizem que esse tipo de pesquisa já deveria ter avançado há muito tempo.

Crescer com menstruações dolorosas e sem entender o que estava acontecendo "foi muito solitário e isolador", diz Backlund.

Mas, se os pesquisadores conseguirem desenvolver um teste diagnóstico não invasivo com base no sangue menstrual, ela espera que a próxima geração de meninas receba tratamento mais rapidamente — e evite o sofrimento físico e emocional que ela enfrentou ao longo da vida.

 

Fonte: BBC Future

 

Ângela Carrato: JN/Globo insiste em mentiras para acusar Lulinha, mas o alvo é sempre Lula

Independente do teor do relatório final da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, o Centrão e a extrema-direita que tentaram usar o espaço para atacar o presidente Lula, através do seu filho, se deram mal.

E a mídia corporativa, hereditária e subimperialista, Jornal Nacional à frente, também.

Não é a primeira vez e nem será a última, que a oposição cria factoides contra Fábio Luiz, que nunca teve o apelido de “Lulinha”.

Ele só é chamado assim pelo JN e nos demais veículos desta velha mídia.

Fábio Luiz é o filho mais velho do presidente Lula.

Lula tem cinco filhos e nove netos. Todos discretos e nenhum na carreira política ao contrário, por exemplo, dos quatro filhos de Jair Bolsonaro, todos na vida pública e envolvidos em trapalhadas e denúncias variadas, inclusive grossa corrupção, como é o caso do senador Flávio. A única exceção é Laura, a filha mais nova dele com Michele.

O objetivo alegado pela oposição para que a CPMI do INSS fosse instalada era investigar um esquema bilionário de fraudes e descontos indevidos nos benefícios de aposentados e pensionistas.

Os prejuízos, segundo o governo, totalizavam cerca de R$ 6,5 bilhões. Com razão, os governistas argumentavam que a CMPI era desnecessária, pois as fraudes e seus responsáveis já estavam identificados.

As fraudes começaram no governo do golpista Michel Temer, ampliaram-se no desgoverno Bolsonaro e foram identificadas e coibidas a partir do segundo ano do governo Lula.

Além da saída do ministro da Previdência Social, Carlos Luppi, foram demitidos dirigentes e assessores do INSS. Ou seja: o governo passou pente fino em toda a estrutura.

A preocupação de Lula com estes descontos nos já magros recebimentos de aposentados e pensionistas é tamanha, que ele determinou que os ressarcimentos fossem feitos imediatamente. Toda uma estrutura foi criada para tanto, inclusive com atendimento telefônico e pela internet.

A rigor não havia mais o que apurar, mas a oposição insistiu, acreditando que poderia transformar a CPMI em palco para ataques a Lula em ano eleitoral.

Ao contrário de mirar nos efetivos fraudadores, o presidente da CPMI, senador Carlos Viana (Podemos-MG) passou a barrar a convocação destas pessoas e a apoiar apenas as daqueles que, supostamente, poderíamos trazer algum dano para o governo.

Em vários momentos, o espaço da CPMI transformou-se em campo de batalha, como no dia em que foram aprovadas, de uma única vez, a quebra de sigilo bancário de 84 pessoas, entre elas a de Fábio Luiz, o filho de Lula.

A aprovação em si se mostrou ilegal, como denunciaram os governistas, pois 14 parlamentares presentes votaram contra e apenas 7 a favor. Como a sessão foi tumultuada, Carlos Viana referendou o resultado errado e não aceitou voltar atrás.

Também o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União), mesmo diante de um erro que a simples observação do vídeo da sessão restauraria a verdade, também manteve o resultado.

Diante do absurdo e por solicitação dos governistas, o ministro do STF, Flávio Dino, analisou o assunto e concluiu que a quebra de sigilo não só de Fábio Luiz como das outras 83 pessoas era ilegal, pois a votação não poderia ter sido em bloco. Deveria ter sido feita caso a caso e com exposição de motivos que as justificassem.

A determinação de Dino acabou não surtindo efeito. Fábio Luiz, por decisão própria, abriu seus sigilos bancário, telefônico e telemático.

O ministro do STF, André Mendonça, o “terrivelmente evangélico” indicado por Bolsonaro, já havia aceitado o pedido que o presidente da CPMI havia lhe encaminhado.

André Mendonça é o relator no STF do processo do INSS e agora também do Banco Master.

Foi a conta para que os oposicionistas começassem a fazer um verdadeiro carnaval, procurando com lupa qualquer indício de irregularidade nas movimentações bancárias, em ligações telefônicas ou mensagens de Fábio Luiz.

Como não acharam nada, inventaram.

A invenção foi com relação à suposta movimentação de R$ 19,5 milhões por parte de Fábio Luiz.

Se o número à primeira vista pode impressionar, ele simplesmente não é real. Para se chegar a tanto, os oposicionistas somaram entrada e saída de recursos ao longo de cinco anos.

Portanto não se tratava de R$ 19,5 milhões, mas de menos de R$10 milhões. Valor que, dividido por cinco anos, dá um total mensal em torno de R$ 200 mil. Valor compatível com os de um empresário de porte pequeno a médio, como é o caso.

Em 5/3, no entanto, o portal G1, do Grupo Globo manchetava: “Filho de Lula fez 1,5 mil transações bancárias e movimentou R$ 19,5 milhões entre 2022 e 2026, revela quebra de sigilo”.

Mesmo não havendo qualquer movimentação suspeita, o G1 insinuava uma grande corrupção, encontrada a partir da quebra do sigilo!

O G1 não informou, por exemplo, que boa parte da movimentação veio de resgates de fundos de investimentos devidamente declarados à Receita Federal e incluía até antecipação de herança, devido à morte de dona Marisa Letícia.

Como o objetivo era criar confusão junto à opinião pública, os oposicionistas passaram a se referir a uma viagem feita por Fábio Luiz com o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes a Portugal, anos atrás, quando ele era apenas um bem sucedido empresário da área farmacêutica, como a viagem com o “lobista do INSS”. O objetivo era visitar um empreendimento sobre canabiol, então do interesse empresarial de Fábio Luiz.

Ninguém pode ser responsabilizado pelas ações que uma determinada pessoa veio a fazer, como aconteceu com Fábio Luiz em se tratando do empresário, agora transformado pela mídia em “Careca do INSS”.

Se o critério fosse esse, todas as pessoas que tiveram contato com um criminoso ou corrupto em algum momento pregresso de suas vidas passariam a ser também consideradas suspeitas.

É preciso ter critérios e provas antes de se fazer acusações.

O JN, claro, que não se preocupou com nada disso. Passou a abrir generosos espaços em seu noticiário para o caso “Lulinha-INSS”.

Em 5/3, por exemplo, o colunista de O Globo, Lauro Jardim, em seu blog escrevia: “Caso Master e Lulinha fazem menções negativas a Lula explodirem nas redes sociais”.

A nova campanha contra “Lulinha” implementada pela mídia corporativa e pelas redes sociais de extrema-direita estava apenas começando.

Na semana de 15 a 20/3, o jornal Estado de S. Paulo publicou, com enorme destaque, que “PF investiga se dinheiro desviado do INSS ajudou a pagar viagens do filho do presidente Lula”.

Imediatamente, na edição de 18/3, o JN “confirmou” e repercutiu a informação com o maior alarde. A reportagem durou 5 minutos, uma eternidade para os padrões do telejornal da família Marinho.

Toda a reportagem, como anteriormente, foi montada em cima de suposições. Nenhuma prova.

A campanha contra “Lulinha” não parou aí.

Gravações de um dos celulares do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, vazadas por um setor da Polícia Federal, davam conta de um pagamento para “o filho do rapaz”.

Como nos tempos da Operação Lava Jato, imediatamente os novos Deltans Dallagnols entraram em campo: “não temos prova, temos convicção”. O “filho do rapaz” só podia ser “Lulinha”.

Foi por pura “convicção” que a Lava Jato revirou a vida de Lula e de seus familiares. Até um netinho seu de 7 anos teve o tablete apreendido pela Polícia Federal durante mandado de busca e apreensão.

Foi novamente a partir de “convicção” que a mídia corporativa fez outro Carnaval contra o filho de presidente Lula, divulgando a absurda informação de que a prisão dele iria ser pedida e que ele não poderia deixar o país.

Detalhe: mesmo morando na Espanha, Fábio Luiz se colocou à disposição das autoridades para quaisquer esclarecimentos e voluntariamente abriu seus segredos bancários, telefônicos e telemáticos.

Informação que a mídia corporativa simplesmente sonegou do seu respeitável público.

Mas a coisa não parou aí.

Veículos de extrema-direita como os portais Metrópoles e Revista Oeste entraram no assunto.

A Revista Oeste buscou, em 27/3, dar novo impulso à campanha com o absurdo título: “Caso Lulinha ganha repercussão internacional”. A matéria nada mais faz do que requentar informações antigas e já superadas.

A grande novidade que mereceria manchete foi escondida pela mídia corporativa e portais de extrema-direita: O “filho do rapaz” não é Fábio Luiz e, sim, o do ministro do STF, Kássio Nunes Marques.

Kevin Marques, um advogado de 25 anos, com apenas um ano de OAB, recebeu R$ 18 milhões da JBS e Banco Master. Os pagamentos coincidiram com as decisões do ministro Nunes Marques sobre o futuro da Eldorado Celulose.

O ministro Nunes Marques declarou apenas que o filho não atua no STF ou TSE.

Os irmãos Marinho e demais proprietários da mídia corporativa devem ter ficado decepcionados, pois “Lulinha” não tinha nada a ver com a denúncia.

Mas decepção não pode justificar que abafem o caso envolvendo o filho do ministro Nunes Marques, como está sendo feito.

Ao contrário de Bolsonaro, que afirmou que mudaria o diretor da Polícia Federal e até o Ministro da Justiça para defender um filho, Lula, quando essa nova campanha contra Fábio Luiz teve início foi certeiro: “vai pagar o preço”, se tiver envolvido em fraudes do INSS.

Em entrevista exclusiva para a jornalista Daniela Lima, do portal UOL, foi além. Ele relatou ter dito ao filho: “Olha, só você sabe a verdade, se você tiver alguma coisa, você vai pagar o preço”.

Até agora, como em campanhas eleitorais anteriores, os que acusam “Lulinha” não conseguiram provar nada.

Quem se recorda que Fábio Luiz já foi acusado de ser proprietário de bens valiosíssimos, de ser um verdadeiro marajá?

Em 2017, vídeos falsos circularam na internet dando conta que ele tinha uma Ferrari de ouro. O vídeo era montagem a partir de um carro de um bilionário saudita que residia em Mônaco.

A fake news sobre a tal fazenda cinematográfica era um pouco mais bem feita. Porém, bastava dar um clique no Google para descobrir que a tal propriedade era na verdade o campus da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, localizada em Piracicaba (SP).

É interessante observar como a mídia corporativa tem obsessão por “Lulinha” e faz vista grossa para os filhos de Bolsonaro.

Está em curso uma operação para “lavar” a imagem do senador Flávio Bolsonaro, o filho 01, pré-candidato à presidência da República nas eleições de outubro, ao mesmo tempo em que se tenta enlamear o “Lulinha”.

O objetivo é óbvio: transformar Flávio num político limpo, sem passado e jogar sobre Lula/“Lulinha” o peso de uma trajetória supostamente marcada por corrupções.

O caro (a) leitor (a) percebe a manipulação?

O filho de Lula é “Lulinha”, já o filho de Bolsonaro é Flávio, sem sobrenome e sem passado. E o passado de Flávio é complicado.

Ele já foi denunciado por organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro e apropriação indébita no caso das “rachadinhas”.

Os processos foram anulados e arquivados com o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro rejeitando as denúncias.

Mais recentemente, Flávio Bolsonaro, um admirador de Trump, pediu que ele bombardeasse a baía da Guanabara, porque “tinha ouvido falar” que por lá havia tráfico de drogas.

Assim, uma CPI que prometia “detonar” com o governo Lula terminou de forma melancólica.

O ministro Flávio Dino deu parecer contrário para que os trabalhos fossem prorrogados por mais 60 dias.

Na sessão plenária do STF para ratificar ou não o voto de Dino, o placar foi de 8×2. A turma lavajatista perdeu feio. Os únicos votos contrários foram os de André Mendonça e Nunes Marques.

O próprio Carlos Viana, que acusava “Lulinha”, acabou obrigado a se explicar a respeito de emenda parlamentar no valor de R$ 3,6 milhões, que enviou para a Igreja da Lagoinha, aquela toda enrolada em corrupção do Banco Master e que ele procurou blindar durante a CPMI.

Quanto ao relatório final da CPMI, trata-se de mais uma peça de campanha da oposição contra Lula sempre com muita “convicção”, mas sem nenhuma prova.

A oposição perdeu de novo.

¨      Editores demitidos ameaçam denunciar que ordem do PowerPoint veio da direção da Globo. Por Mario Vitor Santos

Demorou um pouco, mas afinal foram demitidos os dois editores escolhidos para pagar o pato pelo PowerPoint exibido na Globonews. A demora se deu também porque havia uma ameaça de que os que tiveram as cabeças iriam denunciar que o PowerPoint foi o resultado de uma encomenda da direção. O presidente da Globo é Paulo Marinho.

O aviso dos editores, ao lado das restrições ao PowerPoint levantadas por raros jornalistas da redação, causaram a vacilação no cumprimento da ordem de demissão dos bodes expiatórios. O sentimento de injustiça cresceu com as alegações de que a arte que foi levada ao ar foi aprovada previamente pela direção, que agora tira o corpo fora e aponta para os que apenas a confeccionaram e levaram ao ar da maneira como foram orientados.

Todos sabem que o PowerPoint expressa com sinceridade o sentido e a letra do jornalismo da Globo: na dúvida, tudo contra Lula, PT e o STF. Houve reuniões tensas, exibiram-se mensagens comprovadoras da linha de hierarquia que levou ao suposto erro, mensagens devidamente desconsideradas.

De lá pra cá, a Globo tenta abafar o caso, ganhar tempo antes de voltar ao viés original.

O comunicado a respeito do erro é intencionalmente genérico e dissimulado. Não se apontam quais foram as incorreções cometidas no PowerPoint nem que pessoas tiveram suas imagens enxovalhadas sem razão nem provas.

Uma correção sincera deveria buscar reparar por inteiro os danos causados à imagem dos que foram criminosamente acusados naquela imagem. Uma ação honesta deveria explicitar sem ambiguidade a inocência dos que foram erroneamente apontados e reafirmar a responsabilidade dos que seguem sendo os verdadeiros culpados.

Em vez disso, a mensagem de Sadi é intencionalmente genérica. Uma suposta correção que não corrige nada e na verdade reafirma dessa maneira o vício original. Faltou coragem para assumir os erros, faltou respeito à seriedade do fazer jornalístico e transparência na descrição do que ocorreu. Um ofício exercido com seriedade deveria se preocupar antes de tudo com a imagem dos inocentes afetados em lugar de ocultar-se, como forma de se evadir e salvar a própria face. Esperar, porém, uma correção honesta, que implicasse, dizer que Lula e outros foram injustiçados pela Globo, é uma ilusão. A este ponto, só mesmo com uma decisão da Justiça, outra inimiga da mídia, no modelo celebrizado por Leonel Brizola.

É notável ainda o silêncio cúmplice de quase todos os outros veículos e jornalistas a respeito do caso, bem como de quase todas as entidades profissionais, reafirmando a justa dúvida, neste episódio lapidar, sobre afinal quais são os valores que comandam de fato o exercício do jornalismo dito profissional.

 

Fonte: Viomundo/Brasil 247

 

Nick Turse: Trump mira na América Latina e os ataques estão só começando

Enquanto o governo Trump continua a bombardear o Irã, um alto funcionário do Pentágono revelou que as guerras dos EUA no hemisfério ocidental também estão se expandindo, e revelou a existência de um projeto chamado “Operação Extermínio Total“.

Os ataques contra os cartéis de drogas latino-americanos são “só o começo”, segundo afirmou à Comissão de Serviços Armados da Câmara dos EUA o subsecretário interino de guerra para defesa nacional e questões de segurança das Américas, Joseph Humire.

Humire sinalizou que estão em vista muitos outros ataques contra a América Latina. Os comentários foram feitos no dia seguinte a mais uma insinuação do presidente Donald Trump sobre a possível anexação de Cuba aos Estados Unidos. “Acredito que serei a honra de – terei a honra de tomar Cuba”, disse Trump, na semana passada. “Se eu libertá-la, ou tomá-la, acho que posso fazer o que quiser com ela.”

Humire anunciou que o Departamento de Guerra apoiou “ações cinéticas contra alvos de cartéis ao longo da fronteira entre Colômbia e Equador” – o que é jargão do Pentágono para se referir aos ataques de 3 de março contra “organizações classificadas como terroristas”, que o Intercept dos EUA já noticiou. “O esforço conjunto, denominado ‘Operação Extermínio Total’, é o início de uma ofensiva militar do Equador contra organizações criminosas transnacionais com o apoio dos EUA”, ele afirmou.

A campanha dos EUA e do Equador já resvalou na Colômbia, depois que uma plantação foi atingida por “efeito ricochete” em 3 de março, o que deixou uma bomba não detonada de 230kg na região da fronteira colombiana. Em resposta a um pedido de comentários, o Comando Sul (SOUTHCOM), das forças armadas dos EUA, encaminhou ao Intercept um comunicado do Ministério da Defesa do Equador na rede X, confirmando que a bomba caiu na Colômbia.

Humire se referiu aos ataques como “ataques terrestres conjuntos”, e afirmou que os EUA estavam fornecendo ao Equador “recursos que eles não teriam de outra forma”. Desde então, os EUA já realizaram pelo menos mais um ataque em parceria com o Equador. “Sim – como o @POTUS [presidente dos EUA] afirmou – também estamos bombardeando Narco Terroristas (sic) em terra”, escreveu na rede X em 6 de março o autodenominado secretário da Guerra, Pete Hegseth, anunciando o novo ataque. Dias depois, em um relatório dos poderes de guerra que anunciou a entrada das forças armadas dos EUA em “hostilidades” naquele país, a Casa Branca informou ao Congresso sobre “ação militar praticada em 6 de março de 2026 contra instalações de narcoterroristas afiliados com uma organização classificada como terrorista”. 

Os ataques no Equador também integram e ampliam a Operação Lança do Sul: a campanha ilegal de ataques das forças armadas dos EUA contra barcos no Mar do Caribe no no leste do Oceano Pacífico. Os EUA realizaram 46 ataques desde setembro de 2025, destruindo 48 embarcações e matando quase 160 civis. O ataque mais recente, em 19 de março, no Pacífico, matou mais duas pessoas e deixou um sobrevivente. O governo Trump afirma que suas vítimas são integrantes de pelo menos um dos 24 ou mais cartéis e facções criminosas com as quais afirma estar em guerra, mas que se recusa a nomear.

“Esse governo mal fala do direito constitucional ou internacional que rege o uso da força. Mas essas regras existem por um motivo”, diz Rebecca Ingber, ex-advogada do Departamento de Estado dos EUA, atualmente professora na faculdade de direito Cardozo Law School, em Nova York. “Nos precipitarmos na guerra pelos caprichos de um homem é o exato oposto do que a Constituição exige.”

O general Francis Donovan, comandante do SOUTHCOM, disse aos parlamentares na semana passada que “os ataques aos barcos não são a solução”, mas sinalizou a possibilidade de uma campanha ainda maior. “O que estamos buscando agora pode ser uma extensão da Lança do Sul, mas realmente um processo de campanha contra os cartéis, que coloque total atrito sistêmico em toda essa rede”, disse ele aos integrantes da Comissão de Serviços Armados do Senado dos EUA. “Acho que esses ataques cinéticos [aos barcos] são apenas uma pequena parte disso.”

Humire não soube dizer quantos ataques terrestres estavam sendo realizados em quase 20 países da América Latina e do Caribe. “Não tenho o número exato”, ele respondeu, quando perguntado. Mas quando o deputado Adam Smith, do Partido Democrata de Washington, líder da minoria na Comissão de Serviços Armados da Câmara, perguntou se o Departamento de Guerra “estaria se mobilizando para muito mais ataques terrestres”, Humire respondeu: “sim, deputado”.

O gabinete do secretário da Guerra não respondeu a um pedido para esclarecer o tamanho provável desse aumento.

Humire afirmou que a campanha dos EUA e do Equador está “ditando o ritmo para as operações regionais com foco em dissuasão contra a infraestrutura dos cartéis em toda a América Latina e no Caribe”. A palavra “dissuasão” se tornou um eufemismo popular no Pentágono para o uso de ataques letais, em contraste com as iniciativas anteriores do governo dos EUA para mobilizar meios econômicos, diplomáticos e militares para convencer os adversários a abandonar um curso de ação específico. “A dissuasão tem um efeito de sinalização sobre os narcoterroristas, e aumenta os ricos de seus movimentos”, alegou Humire.

Em janeiro, os EUA atacaram a Venezuela e sequestraram o presidente do país, Nicolás Maduro. Eles agora controlam o país por meio de um governo fantoche. Os procuradores federais teriam elaborado uma denúncia criminal contra a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, ameaçando acusá-la de corrupção e lavagem de dinheiro caso se recuse a cumprir os desmandos do governo Trump. Trump também insinuou recentemente a possibilidade de transformar a Venezuela no 51º estado dos EUA.

O governo Trump estaria supostamente realizando uma operação de mudança de regime em Cuba, tentando derrubar o presidente Miguel Díaz-Canel como requisito para as negociações entre os EUA e o país insular. Dizem que as autoridades dos EUA preferem Raúl Guillermo Rodríguez Castro, neto de Raúl Castro, de 94 anos, ex-presidente cubano e irmão de Fidel, que governou Cuba de 1959 a 2008. Na semana passada, no X, Díaz-Canel mencionou os planos dos Estados Unidos para “tomar o país”, e disse que seriam recebidos com “resistência inexpugnável”.

“Estou segurando Cuba”, disse Trump recentemente, comentando que sua dispendiosa guerra de mudança de regime no Oriente Médio é a prioridade no momento. “Vamos resolver o Irã antes de Cuba.” Trump impôs um bloqueio de petróleo a Cuba em janeiro, mergulhando o país em uma crise humanitária. A rede elétrica da ilha já entrou em colapso três vezes este mês, e um dos apagões durou mais de 29 horas. Especialistas em direitos humanos da ONU repudiam o bloqueio imposto por Trump a Cuba como “uma violação grave ao direito internacional e uma séria ameaça a uma ordem internacional democrática e igualitária”.

Trump, que vem falando reiteradamente em “tomar” Cuba, é o mais recente de uma longa série de presidentes dos EUA que tentaram derrubar o governo cubano. Durante a Guerra Fria, a CIA lançou a desastrosa invasão da Baía dos Porcos, em 1961. A agência também tentou assassinar Fidel Castro pelo menos oito vezes. Os EUA também realizaram uma campanha secreta para bombardear usinas de açúcar e incendiar canaviais em Cuba, entre outros atos de sabotagem.

Após o desastre da Baía dos Porcos, o Pentágono preparou planos ultrassecretos para abrir terreno para um ataque contra a ilha. No final de 1962, o Estado-Maior Conjunto fez circular um memorando ultrassecreto intitulado “Justificativa para a intervenção militar dos EUA em Cuba”. Ele descrevia operações de bandeira falsa que poderiam ser usadas para justificar uma invasão dos EUA, como um plano para “afundar um barco cheio de refugiados cubanos (reais ou simulados)” e até encenar um incidente semelhante ao que desencadeou a guerra hispano-americana – afundar um navio próprio em águas cubanas e atribuir a culpa a Cuba. Outros planos de ações secretas dos EUA na ilha priorizavam especificamente os ataques contra a rede elétrica de Cuba.

Em resposta a uma pergunta sobre o possível envolvimento do Estado-Maior Conjunto em ações semelhantes atualmente, a porta-voz, major Annabel Monroe, encaminhou o Intercept ao Comando Sul, que por sua vez encaminhou ao Departamento de Estado, que não quis se manifestar.

Humire disse que o Departamento de Guerra “atualmente está focado em operações de dissuasão conduzidas por parceiros”, mas não descartaria ataques unilaterais dos EUA na América Latina. Segundo ele, além do Equador, os EUA firmaram acordos com outros 17 países parceiros no hemisfério ocidental, como parte da chamada Aliança das Américas contra os Cartéis. Esse órgão internacional, formalmente anunciado por Trump em sua cúpula do Escudo das Américas, no início do mês, terá como foco “operações bilaterais e multilaterais contra cartéis e organizações terroristas”.

Perguntaram a Humire se algum dos 18 países estava preocupado com questões de soberania em relação à possibilidade de que os EUA realizem ataques em seu território. “Os integrantes da aliança assinaram especificamente uma declaração conjunta de segurança, mencionando que querem esse apoio e a maioria deles está procurando por isso”, ele respondeu. Mas a declaração enxuta que eles assinaram é espantosamente vaga, e oferece poucos elementos substanciais sobre o tema.

Humire indicou que os EUA haviam se valido da diplomacia das canhoneiras na Venezuela para ameaçar Cuba e ajudar a “obter conformidade na Nicarágua”, além de “conduzir o Caribe a uma direção favorável aos interesses estadunidenses”.

Vazamentos oficiais recentes sobre a possível apresentação de denúncia pelos EUA contra o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, por tráfico de drogas – a justificativa oficial para o sequestro de Maduro, e supostamente o meio usado para manter na linha sua sucessora, Rodríguez – dão a entender que os Estados Unidos podem empregar essa tática para serem favorecidos, ou como pretexto para uma ação militar. (Petro nega qualquer vínculo com o tráfico de drogas.)

“Parece que a cabeça de Petro está a prêmio”, disse ao Intercept um ex-funcionário de alto escalão da defesa, que falou sob condição de anonimato em razão de seu atual emprego. A fonte diz que vazamentos sobre a possível denúncia de Petro, somados ao ataque conjunto entre EUA e Equador, que causou tensões na fronteira entre os países, parecem indicar cada vez mais uma campanha coordenada para semar “discórdia”, e talvez, conflito. Em janeiro, questionado sobre a possibilidade de atacar a Colômbia, Trump respondeu: “parece bom para mim”.

Os ataques dos EUA na fronteira entre Colômbia e Equador aconteceram logo na sequência da criação de uma presença permanente do FBI no Equador, unindo-se a agentes da Agência Antidrogas e ao Departamento de Segurança Nacional. Logo antes dos ataques, Donovan viajou para Quito, capital do Equador, para se reunir com o presidente, Daniel Noboa, e oficiais equatorianos de defesa de alto escalão. 

Em agosto do ano passado, o tenente-coronel Phillip Vaughn – comandante de uma Força-Tarefa Expedicionária que supervisionava Operações Especiais da Força Aérea no Caribe e na América do Sul – coordenou encontros para aumentar a “interoperabilidade entre as forças dos EUA e do Equador” para “combater agentes ilícitos atuando na fronteira norte do Equador” com a Colômbia, incluindo “planejamento de cenários operacionais, execução de procedimentos de apoio aéreo aproximado” e “tópicos diversos sobre o apoio ao Controle Aéreo da Linha de Frente”, o que se relaciona com a definição de alvos e os ataques aéreos.

A mobilização dos Estados Unidos no hemisfério ocidental faz parte do que Trump e outros vêm chamando de “Doutrina Donroe“, uma corruptela da Doutrina Monroe, de 1823. Enquanto a política do presidente estadunidense James Monroe tentava supostamente impedir que a Europa colonizasse e interferisse no hemisfério ocidental, Trump vem usando sua variante como uma licença para que os Estados Unidos façam exatamente isso.

A Estratégia de Segurança Nacional, divulgada no final do ano passado, decreta o “Corolário Trump” à Doutrina Monroe, uma “potente restauração do poder e das prioridades americanas”, fundado no “reajuste de nossa presença militar global para enfrentar ameaças urgentes em nosso hemisfério”. Humire definiu o “perímetro de segurança imediato dos Estados Unidos” como “do Alasca à Groenlândia no Ártico ao Golfo da América e Canal do Panamá e países vizinhos”. Trump também já ameaçou anexar a Groenlândia (e possivelmente a Islândia), transformar o Canadá em um estado, e realizar ataques militares no México. Humire detalhou ainda os esforços para pressionar o Panamá a cortar os laços com a China para garantir acesso ao canal, de propriedade do Panamá, mas que mesmo assim ele chamou de “ativo nacional” dos EUA.

Durante o segundo mandato, além de suas guerras no hemisfério ocidental, Trump também lançou ataques contra o Irã, o Iraque, a Nigéria, a Somália, a Síria e o Iêmen – na maioria, locais de conflito dos EUA durante a guerra ao terror.

Smith, o líder da minoria na Comissão de Serviços Armados da Câmara, disse a Humire que as guerras de Trump nas Américas também pareciam estar se transformando em um novo “conflito eterno”, sem objetivo claro, nem “ponto de chegada”. Questionado sobre o “nível de realização” que seria necessário para “interromper a ação cinética”, Humire respondeu com um jorro de palavras sobre segurança de fronteira, terrorismo e cartéis. Quando Smith interrompeu para esclarecer se os ataques aos barcos continuariam intocados, Humire respondeu, confusamente: “não, correto”.

¨      Algoritmo de guerra: Como IA e big techs inauguram uma nova era em conflito no Oriente Médio. Por Andressa Michelotti

Com as atenções voltadas para o eixo Estados Unidos-Israel, Irã e Golfo Pérsico, a mídia internacional tem chamado o conflito de primeira guerra de inteligência artificial, a IA. Enquanto o Brasil observa com certa distância o que se desenrola no Oriente Médio,  a guerra não tem fronteiras quando se trata das infraestruturas de inteligência artificial.

O confronto que vemos hoje no Oriente Médio não é só entre estados. No cerne da violência que se desencadeia na região estão as empresas que detêm dados, informação, conhecimento e infraestruturas cruciais para a guerra contemporânea. Na linha de frente estão as big techs — aqui incluem-se também empresas de inteligência artificial — fornecendo tecnologias e infraestruturas e fazendo da guerra um palco de demonstração de eficiência, produtividade e acuracidade. 

Por muito tempo, alguns especialistas de relações internacionais ignoraram o papel das grandes corporações na política internacional. Para estes, o mundo digital não caberia na dinâmica geopolítica, já que o Estado é o principal ator na disputa de poderes. Tal visão é um tanto conservadora e desatualizada.

Estados e tecnologia sempre andaram juntos — sendo codependentes e compartilhando interesses mútuos. Basta lembrar do papel da IBM na Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Já nos anos 1950, a Agência de Projetos de Pesquisa Avançada, Arpa, na sigla em inglês, do Departamento de Defesa dos Estados Unidos desempenhou um papel crucial no financiamento de pesquisas e altos investimentos em empresas privadas de tecnologia para o desenvolvimento da precursora da internet (Arpanet) durante a Guerra Fria. 

<><> Big techs e governos: relação de longa data

A relação entre Vale do Silício, Pentágono e o Departamento de Segurança dos Estados Unidos vem de longa data. Os EUA têm mantido contratos bilionários desde 2004 com as big techs. As big techs fornecem armazenamento em nuvem, planos de serviços como Google Workspace, visores de realidade aumentada e drones como a parceria Anduril e Microsoft, além de sistemas de operações em tanques.

Só em 2024, Anthropic, Google, OpenAI e xAI receberam 200 milhões de dólares do Departamento de Defesa para projetos de IA. Até o meio de 2025 mais de 20 mil militares já utilizavam ferramentas de IA como o Maven Smart System da Palantir para auxiliar com alvos, rastrear logística e fornecer resumos de inteligência militar em conflitos. Em junho de 2025, executivos de Meta, Palantir, OpenAI e Thinking Machines Lab foram promovidos a tenentes-coronéis da reserva do Exército dos Estados Unidos, fazendo parte de uma unidade militar chamada Destacamento 201, também conhecida como Corpo Executivo de Inovação. Embora a medida tenha sido subestimada por muitos, ela demonstra não só um simbolismo digno de propaganda de guerra, mas também uma conexão direta entre governo e o setor privado de tecnologia. 

<><> Protagonismo das big techs

No ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irã, observamos o campo de batalha algorítmico, no qual as big techs assumem um protagonismo como nunca visto antes. O modelo Claude, de propriedade da Anthropic, tornou-se crucial para a identificação de alvos e prioridades, simular cenários de batalha, analisar imagens de satélite e detectar ameaças cibernéticas. Porém o Claude não opera sozinho. 

Desde 2017, a Palantir é a principal empresa por trás do Projeto Maven, uma iniciativa do Departamento de Defesa dos Estados Unidos voltada para o uso de IA em contextos de guerra, conduzida pelo Time Multifuncional de Guerra Algorítmica [Algorithmic Warfare Cross-Functional Team, ou AWCFT, na sigla em inglês]. 

Nesse contexto, o Sistema Inteligente Maven (Maven Smart System), alimentado pelo Claude, gera análise a partir de dados classificados de satélites, sistemas de vigilância e outras fontes de inteligência como também sugere alvos, emite coordenadas e fornece direcionamento e priorização de alvos em tempo real. Por fim, os dados rodam na Amazon Web Services, aAWS.

Com a ajuda dessas ferramentas, os Estados Unidos dizem ter atingido mil alvos no Irã nas primeiras 24 horas da guerra. Em 100 horas de guerra, mais alvos foram atingidos do que nos primeiros seis meses do conflitocontra o Estado Islâmico. 

Em busca por rapidez, escala e economia humana, a guerra alimentada por dados e algoritmos não é isenta de erros, alucinações, falta de transparência e vácuos regulatórios — e, como sempre, civis são “danos colaterais” nessa batalha.
No dia 28 de fevereiro ao menos 175 pessoas, muitas delas crianças, foram mortas quando uma escola feminina iraniana foi bombardeada. Enquanto os Estados Unidos nega participação nesse ataque, 
existem indícios de que Oficiais do Comando Central dos Estados Unidos usaram dados desatualizados para definir as coordenadas do alvo. 

<><> Irã tem como alvo as infraestruturas de IAs

Se de um lado os Estados Unidos e Israel utilizam uma estratégia público-privada de ataque, de outro o Irã faz da infraestrutura de IA o seu alvo prioritário. 

No dia 1º de março, o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã atacou três instalações da Amazon Web Services nos Emirados Árabes Unidos e no Bahrein. De acordo com pronunciamento oficial, o ataque ocorreu “para identificar o papel dessas instalações no apoio às atividades militares e de inteligência do inimigo”.
O ataque resultou na interrupção de serviços na região, com milhões de pessoas sem poder fazer pagamentos e acessar suas contas bancárias. Em 11 de março, a Guarda Revolucionária emitiu um comunicado ampliando o escopo das ameaças. Na 
lista de alvos estão centros econômicos e bancos ligados aos Estados Unidos e a Israel na região, além de escritórios e infraestruturas de empresas como Google, Microsoft, Palantir, IBM, Nvidia e Oracle em Israel e nos países do Golfo.

Há algum tempo, os países do Golfo e os Estados Unidos vivem uma aliança na fronteira de IA. Na corrida tecnológica entre China e Estados Unidos, países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Qatar não apenas fornecem energia abundante e barata necessária para alimentar data centers de inteligência artificial — instalações que abrigam servidores interconectados e formam a base das operações de IA — como também têm a capacidade de fornecer talentos para o desenvolvimento dessas tecnologias. 

Em maio de 2025, Donald Trump anunciou mais de 200 bilhões de dólares em acordos comerciais com os Emirados Árabes Unidos, elevando o total de investimentos na região do Golfo para mais de 2 trilhões de dólares, incluindo acordos anteriores. No centro dessas negociações estão OpenAI, Oracle, Nvidia e Cisco Systems. Intitulado Stargate UAE, o acordo entre Emirados Árabes Unidos e os Estados Unidos tem como objetivo construir o maior campus de inteligência artificial fora dos Estados Unidos. De acordo com a OpenAI, o projeto pretende criar um polo de 5 gigawatts capaz de fornecer capacidades de IA em tempo real para metade da população mundial. Até o  final de 2026 a previsão é que chegue a 200 megawatts.

<><> Impacto global

Ataques à infraestrutura não são novidade. Em um mundo interligado e regrado por algoritmos e dados, os data centers tornaram-se alvos prioritários de guerra. Isso se deve tanto ao baixo custo dessas operações como ao efeito em cascata que pode causar.  Um ataque a esses sistemas pode rapidamente desestabilizar operações civis e militares em larga escala e ter um impacto global.

Não é possível dizer que estes data centers da Amazon estavam sendo utilizados para a ação militar no Irã. Assim, é preciso avaliar a licitude de ataques nesses alvos. Objetos civis, como é o caso de muitos data centers, não poderiam estar sujeitos a tais ataques. Porém, a política de Donald Trump tem seguido a Armadilha de Tucídides: “Os fortes fazem o que podem, e os fracos sofrem o que devem.” Ou seja, se os Estados Unidos e Israel não seguem as regras internacionais, não é de se esperar que outros também seguirão.

O desenrolar da guerra tem gerado incertezas para o capital estrangeiro quanto aos seus investimentos em IA na região. Existem de fato elementos de preocupação. Para quem está longe da região é preciso perguntar: qual o efeito dominó que isso pode desencadear? 

Primeiro, há uma dependência tecnológica e regional dessas empresas em uma região vulnerável a conflitos. Ou seja, se metade da população mundial que utiliza uma tecnologia estadunidense tem seus dados em data centers na região, quais são os riscos econômicos, sociais e políticos em caso de ataque a uma dessas infraestruturas? Em um mundo tão interconectado, a dependência tecnológica se torna ainda mais crítica — especialmente em meio à guerra.

Segundo, no caso do Brasil, se a estratégia de data centers muda na região, como o país é afetado? A abundância de energia limpa e renovável torna o Brasil um polo estratégico para empresas de tecnologia que buscam expandir suas infraestruturas. O país desponta como referência regional e tem uma posição relevante. Porém, a instalação de data centers é uma política pública sem foco na soberania digital e nacional. A guerra atual deixa claro que os riscos dessa expansão não são apenas ambientais. Com ela vêm também conflitos geopolíticos, múltiplos interesses políticos e econômicos e as tensões que inevitavelmente emergem com esses eventos.

 

Fonte: The Intercept