sábado, 31 de janeiro de 2026

“O que está em jogo é a nossa sobrevivência como povos”, afirma Raúl Zibechi

O ataque dos Estados Unidos à Venezuela e seu anúncio do controle político sobre o país, juntamente com a extração e venda de seu petróleo, “confirmam que na América Latina estamos em um momento de inflexão histórica, que não será de dois dias e que nos afetará como povos, não mais como governos”, afirmou Raúl Zibechi, em entrevista à Rádio Alas, na Argentina.

“Estamos diante de uma ofensiva sem precedentes. Declararam que estão dispostos a controlar a Venezuela até que o presidente ou a presidente seja quem eles quiserem. Nós, povos, precisamos de refúgios, de arcas capazes de navegar, de flutuar na tempestade, porque o que está em jogo é a nossa sobrevivência como povos”, acrescentou o jornalista e escritor uruguaio.

<<<< Eis a entrevista.

·        Estamos em diálogo com Raúl Zibechi, pois consideramos muito importante poder contar com sua análise. Como está, Raúl?

Olá, boa tarde! Como estão?

·        Preocupados, imagino que como todos, como toda a gente de bem.

Sim, a situação é muito complexa, muito dura, e não temos clareza do que vai acontecer, mesmo que tenhamos alguma ideia do que está acontecendo.

·        Você vem alertando, há muito tempo, sobre muitas dessas situações. Gostaríamos de poder contar com o seu modo de olhar os diferentes fatos que estão acontecendo no planeta.

Olha, eu, seguindo a orientação zapatista sempre, penso que estamos em meio a uma tempestade e que essa tempestade, nos próximos anos, meses, vai se agravar. A última fase da tempestade começou com o genocídio palestino, há três anos, com a situação que Gaza e o conjunto do povo palestino estão vivendo.

Há outras situações, e agora o ataque à Venezuela confirma o que estamos passando na América Latina, em um momento de inflexão histórica, de inflexão que não será de dois dias e nos afetará como povos, não mais como governos, mas como povos. Será um impacto duro, um impacto destrutivo, negativo, que não estamos em condições de enfrentar, porque a força imperial é muito poderosa, comparada com as capacidades de resistência dos nossos povos. É muito difícil dizer isso, mas penso que temos de olhar a realidade de frente e assumi-la tal como é.

·        Você sente que há formas de trabalharmos para que o impacto seja menor? Embora não possamos deter essa grande força imperial, sente que existem estratégias que podemos oferecer aos povos, para diminuir o impacto?

Primeiramente, é necessário ter clareza a respeito do volume do impacto. Depois da destruição de Gaza, dos ataques no Líbano, na Síria, no Irã, e que o Estado de Israel saiu praticamente impune desta situação, sim, há condenações, há manifestações, mas a União Europeia se propôs a se aproximar seriamente do Estado de Israel, também já firmou um pacto com o Egito pelo gás.

Agora, o governo de Trump não só ataca a Venezuela, mas destrói boa parte das instalações militares. A Venezuela tinha capacidades de defesa e sequestraram o presidente em uma operação sem perdas, de modo extraordinariamente fácil, eu diria. Algo aconteceu lá que ainda não sabemos, para que tenha sido assim. Além disso, ameaça a Petro, na Colômbia, ao México.

Estamos diante de uma ofensiva sem precedentes, desde que eu tenho memória. Declararam que estão dispostos a controlar a Venezuela até que o presidente ou a presidente seja quem eles quiserem. Nós, povos, precisamos de refúgios, de arcas, como gosto de sempre dizer, capazes de navegar, de flutuar na tempestade, porque o que está em jogo hoje é a nossa sobrevivência como povos. Para além de você, de mim, de pessoas, a sobrevivência de nossos povos.

E quando digo povos, quanto mais abaixo nos situamos: povos negros, povos indígenas, camponeses, periféricos urbanos, mais dura é a situação e menos capacidade de defesa temos, pois não possuem as mesmas capacidades das classes médias para enfrentar uma situação de tempestade sistêmica, generalizada, em que, além da tempestade política e militar, há uma tempestade ambiental que está nos afetando enormemente.

Diante disso, penso que é preciso muita clareza de que devemos ter territórios, espaços, lugares que nos referenciem como povos, lugares onde estejamos seguros, onde tenhamos as condições para sobreviver. A ofensiva só está começando e avalio que em determinado tempo, em não menos de 20, talvez 30 anos, independente de quem esteja na Casa Branca, pois se diz que Trump talvez tenha três anos de governo, a política não vai mudar, pois não depende de quem está na Casa Branca.

Temos de pensar em uma situação de longo prazo, de recolhimento. Os zapatistas falam de 120 anos, não é? Lutamos para que, dentro de 120 anos, uma menina que nascer possa escolher com liberdade o que quer ser. É disto que se trata. De pensar que estamos em um período de transição, de hegemonias, no qual os Estados Unidos decidiram se tornar fortes nesta parte do mundo, na América Latina, para manter o seu lugar imperial. Ou seja, o tema da Venezuela deve ser visto dentro do contexto dos lugares onde há ameaça, no Caribe, México, América Central, Groenlândia e Canadá. Este é todo o seu espectro.

Sendo assim, há uma necessidade das Forças Armadas, do Pentágono, da elite estadunidense, de se cercarem por uma zona segura. E essa zona segura implica o conjunto da América Latina, com seus recursos naturais, com seus povos etc., para enfrentar o crescimento da Ásia e da China, que em muitos campos superam os Estados Unidos.

Então, penso que a primeira coisa é uma compreensão mais ou menos serena, tranquila, do que está acontecendo. Hoje, nenhum Estado-nação, nenhum, nem os dois mais importantes da América Latina, o México e o Brasil, estão em condições de enfrentar a ofensiva. Nem é necessário falar de outros países, como na Argentina e no Equador, nos quais os presidentes festejam, certo? Isto nos dá a pauta de que feitos como a soberania nacional, a independência das nações, não são mais uma referência para a direita. Eles festejam uma invasão. Então, precisamos assumir, no lugar onde estamos, o que está acontecendo conosco e as forças que temos.

·        A que você atribui esse aumento da violência, esses ataques mais diretos? Antes havia mais mediação, hoje, digamos, escutando Donald Trump, apresenta-se como um delegado do mundo e diz estar disposto a tudo. Por que que está acontecendo este aumento da violência direta?

Porque há uma decadência dos Estados Unidos. Ele mesmo reconhece quando diz: “tornar a América grande de novo”. Está dizendo que já não é grande, não é verdade? Então, precisa recuperar o poder dos Estados Unidos. Percebe claramente que não pode mais com a China. A estratégia dos Estados Unidos tem sido dizer: “bom, que a Rússia fique com a parte da Ucrânia que quer ter, não vamos enfrentar a Rússia”. Vocês já viram que, de fato, os Estados Unidos retiram-se da Guerra da Ucrânia, retiram-se da Ásia, menos do Japão, e concentram forças no nosso continente.

Então, não vão lançar bombas na Rússia, não vão lançar bombas na China, nem na Índia, nem em ninguém. Vão concentrar as forças aqui. Este é o papel que decidiram, e isso é uma definição que vem de sua última estratégia nacional de defesa, aprovada em novembro. Nos Estados Unidos, cada presidente desenvolve uma estratégia de defesa que até agora, desde Obama, esteve concentrada em deter a China. Agora, não podem mais deter a China.

Estamos em uma situação de desigualdade tecnológica, econômica, militar - no militar equilibrada - a favor da China, mas há uma tendência muito clara que os leva a dizer: “não podemos mais combater, competir, então, vamos nos concentrar na região, que é o quintal, que nos permitiu chegar ao lugar de hegemonia onde estávamos. Então, vamos nos fazer fortes aí, vamos arrasar aí”. E isso explica o aumento da violência. Não vão aceitar governos dos quais não gostem.

O argumento deles é que Maduro é uma ditadura, que o narcotráfico, que não sei o quê..., mas sobre Petro, seu governo democraticamente eleito, não podem argumentar nada. No entanto, agora ameaçam a Petro. “Que se cuide”, disse Trump. Não pode dizer que se cuide para Xi Jinping ou para presidentes de qualquer outra parte do mundo, mas na América Latina, sim, pode dizer que se cuide. Então, essa é a situação em que estamos e não tenha dúvida que vão usar, agora, o argumento do narcotráfico, mas, no fundo, não é o narcotráfico, todos sabemos, caso contrário, muitos outros governos cairiam.

·        A sensação que tenho após ter escutado Trump, e a mesma coisa acontece quando escuto diferentes figuras, é que antes faziam esses discursos grandiloquentes. Hoje em dia, a sensação é de um discurso totalmente umbilical. Trump falava de quantas pessoas iriam comer no restaurante, ao mesmo tempo em que abordava o tema Maduro. Digo, não é mais o discurso sobre nós, os garantidores da liberdade. É algo totalmente umbilical.

Totalmente. Sim, sim, porque a situação mudou. Então, o discurso anterior era o de uma nação que se sentia e que era superior às outras. Agora, essa situação mudou. E, claro, a China e, de alguma forma, a Rússia vão fazer o seu próprio jogo. Para nenhum dos dois pegou bem a queda do governo de Maduro, nem para China, nem para a Rússia, porque são aliados, mas não vão fazer nada.

É muito difícil que façam alguma coisa, porque, além do mais, o objetivo deles é evitar que sejam invadidos e destruídos. Não esqueçamos que tanto a China quanto a Rússia, no último século, sofreram várias invasões do Ocidente, e o objetivo é evitar uma nova invasão. Então, não vão combater no Caribe, o que me parece muito razoável.

Parece-me que é preciso ter clareza de que esse novo posicionamento dos Estados Unidos tem um eixo central na América Latina. Além disso, é verdade que os cartéis estão inundando os Estados Unidos com drogas, de fentanil, disso não há nenhuma dúvida.

Por isso, digo que a primeira coisa é sentar e olhar a cara do monstro, ver o que está acontecendo, e depois pensar no que podemos fazer. Nos últimos meses, eu ouvi discursos muito triunfalistas, de que governos, como o de Maduro, vão resistir e não sei mais o quê, e que não iriam se atrever. Bem, aí estão os fatos.

Depois do que aconteceu em Gaza, no Líbano, em toda aquela região do Oriente Médio, não podemos duvidar de que estão decididos a tudo. Se destruíram o programa nuclear do Irã, com todas as defesas que o país tinha, o que não estariam dispostos a fazer em países muito mais frágeis do que o Irã?

·        Que aprendizado podemos tirar dos últimos anos, ou não tão últimos, dos povos, em função desta situação que temos agora? O que você acha que aconteceu conosco, como estamos? Que alianças tivemos, quais nos faltaram e como chegamos como povos, construção dos povos, a este momento?

Se olhamos a partir dos povos, eu diria que os governos progressistas foram um elemento central no enfraquecimento dos movimentos sociais, dos movimentos populares, com todas as políticas de programas sociais, a desmobilização etc. Com um imediatismo eleitoral muito forte, com um caudilhismo muito forte, abandonamos a análise. Seja porque surgiu Milei, seja porque surgiu o governo de Paz na direita boliviana, retiramos o que foi o progressismo da análise, como o progressismo boliviano se autodestruiu, como o progressismo argentino se autodestruiu e, além disso, as duras consequências sobre a população organizada, sobre os movimentos.

Sendo assim, conseguindo compreender que estamos em uma situação de fragilidade como movimento, como povos organizados, precisamos ver as causas, e eu considero que são essas. Penso que estamos em uma situação de dupla ofensiva, de tripla ofensiva. De ofensiva de governos locais, como o de Milei, de ofensiva de governos imperiais, como o de Trump, e de ofensivas pontuais em certos territórios, como a sofrida pelo povo mapuche, muito apoiada nestes dois elementos que eu disse: governo nacional e governo imperial.

Evidentemente, não há forças para resistir e é preciso se recolher. Recolher não quer dizer não fazer nada, quer dizer fazer aquelas coisas, aquelas mobilizações, que chamem a atenção para a situação como está sendo, como a estamos vivendo. Insisto em que é necessário um debate mais profundo sobre como chegamos aqui e por que chegamos aqui e quais erros cometemos para chegarmos aqui.

¨      América Latina: um continente nu e na defensiva, afirma Raul Zibechi

O ataque à Venezuela é um golpe em toda a região latino-americana, ocorrendo no momento de maior ascensão das direitas duras em várias décadas e da quase extinção de governos progressistas.

A forma como Nicolás Maduro e sua esposa foram sequestrados, sem oferecer resistência, evidencia a fragilidade do processo bolivariano que, em algum momento, pretendeu ser uma “revolução”. Embora seja difícil chegar ao fundo da questão, alguns fatos vieram à tona.

O primeiro é que a Força Armada Nacional Bolivariana (FANB) não combateu; alguns de seus comandantes — impossível saber quantos — foram comprados por agentes dos Estados Unidos e colaboraram com a invasão. O mais provável é que tenham isolado Maduro e o entregado.

A facilidade com que o fizeram, sem sequer um soldado americano ferido, é uma séria advertência para a liderança chavista que permanece no poder, mas não tem força para tomar decisões que não agradem a Trump e ao Pentágono. Tanto a nova presidente, Delcy Rodríguez, quanto seu gabinete, iniciaram uma limpeza nos comandos que não estão dispostos a se curvar a Washington e estão pedindo que a população não saia às ruas para protestar.

Para os países vizinhos, como a Colômbia, isso é mais do que uma advertência séria. Mas também o é para o México e a Groenlândia, que estão depois de Cuba na ordem de prioridades estratégicas da Casa Branca. Trump anunciou que não enviará soldados a Cuba, pois espera forçar Díaz-Canel a negociar quando a ilha ficar sem suprimento de petróleo, com um sistema elétrico colapsado e com a fome à porta.

No entanto, a possibilidade de uma intervenção na Colômbia, incluindo a inútil "decapitação" do presidente Petro, ao qual restam apenas seis meses de governo, soa como uma ameaça séria, especialmente para seu sucessor. Contra o esperado, grande parte das elites colombianas demonstrou desacordo com Trump. O jornal El Espectador intitulou seu editorial de 6 de janeiro: “Ameaçar o presidente Petro é agredir a Colômbia”. Isso é importante porque não é um meio afim ao presidente, mas opositor, e reflete a opinião de uma parte da poderosa burguesia colombiana.

O mais conservador El Tiempo desvinculou o presidente Petro do narcotráfico, apesar de manterem um longo contencioso político: “Diante das declarações do americano, que acusou o presidente colombiano de narcotraficante, é preciso ser taxativo: não existe qualquer indício que permita afirmar que o presidente Petro tenha vínculos com negócios ilícitos de drogas”.

<><> Um continente dividido

Há muitos anos a região não estava tão dividida e tão alinhada aos Estados Unidos. Argentina, Bolívia, Equador e Paraguai, apenas na América do Sul, apoiaram a violação da soberania venezuelana, aos quais se somará o Chile quando Kast assumir em março. O único governo firme é o de Petro. Os de Lula e Sheinbaum não podem sequer ser considerados progressistas, já que o primeiro governa em aliança com a direita e o governo mexicano é sumamente “tolerante” com os Estados Unidos, país do qual depende economicamente, para além das declarações soberanistas da presidenta. No México, especula-se sobre a entrada de agentes americanos para tarefas antinarcóticos e de controle da fronteira, algo que pode acontecer a qualquer momento.

O que aconteceu nas últimas eleições argentinas revela o estado da opinião pública na região. Um mês antes das legislativas de outubro, Milei perdeu de goleada na província de Buenos Aires. Mas Milei encenou um acordo com Trump que implica a concessão de empréstimos para equilibrar a combalida economia, o que levou boa parte dos eleitores a mudar seu voto. Em síntese, a aberta intromissão de Trump no cenário eleitoral conseguiu dobrar a vontade popular a favor de Milei, que vinha em franca decadência.

Este é o novo estilo nas relações internacionais na região: a intromissão aberta, encenada nos meios de comunicação, como forma de intimidar e forçar as pessoas a pensarem se vale a pena resistir ao império, mesmo que seja através das urnas.

Doze dias antes das votações, Trump disse: “Se ele perder, não seremos generosos com a Argentina”. O secretário do Tesouro foi ainda mais claro: “O sucesso da agenda de reformas da Argentina é de importância sistêmica... e redonda no interesse estratégico dos Estados Unidos”. Não foi preciso dar um único tiro.

<><> Movimentos desorientados e sem propostas

Após os governos progressistas e a onda de governos antipopulares — de Bolsonaro a Milei e Noboa —, os movimentos se enfraqueceram e alguns caíram diretamente na desorganização. Os progressismos implementaram programas sociais para assegurar a governabilidade, o que resultou em cooptação e na transferência de quadros dos movimentos para as instituições estatais. Os movimentos foram garantidores da governabilidade entre "os de baixo", mas o preço foi alto demais e só se tornaria visível com a chegada das direitas repressivas.

Em suma, quando a mobilização popular se fez mais necessária, foi impossível relançá-la, pois as bases estavam desgastadas e desorientadas. Imaginemos a realidade do povo na Venezuela, onde a ex-vice-presidente de Maduro passou para o lado vencedor sem qualquer pudor, assim como boa parte dos comandos militares e civis.

Agora estamos diante de um fenômeno novo. Entre o Caracazo de 1989 e o último levante indígena de 2022, houve dezenas de insurreições que derrubaram governos. Mas com a política de chantagem trumpista, pode acontecer que o Pentágono mobilize suas forças para dissuadir os povos insurretos. Esta é uma das lições mais tremendas do ataque à Venezuela. No dia 3 de janeiro, o presidente americano disparou: “O domínio dos Estados Unidos na América Latina não será questionado nunca mais”.em 

Parece evidente que nem as esquerdas nem os movimentos têm força suficiente para frear esta ofensiva brutal. Se o Pentágono atingir seus objetivos, a esquerda será um cadáver político se os "de baixo" não conseguirem escapar do controle e da chantagem militar. O que aconteceu nos últimos anos em um Equador militarizado é o espelho onde os movimentos podem se olhar.

 

Fonte: Desinformémonos/El Salto - tradução do Cepat, para IHU

 

“Fé e família”: entenda a conexão entre o bolsonarismo e a extrema-direita russa

No contexto russo, o “bolsonarismo” é frequentemente apresentado como uma vitrine de tradicionalismo e soberania por grupos específicos ligados à agenda da direita: enfatizam os seus valores conservadores, “patriotismo” e “ideais familiares”, enquanto a orientação econômica e a dependência externa ficam relegadas ao segundo plano. Esses grupos demonstram interesse pelo “estilo de vida” de Bolsonaro, ignorando as contradições entre seus slogans de valores e seu programa neoliberal. Antes de tudo, é preciso separar duas coisas que aparecem muitas vezes misturadas no debate público. Uma é a retórica midiática, saturada de referências a “valores tradicionais”, moral e família, amplificada por plataformas e comentaristas conservadores e ultradireitistas. Outra, bem diferente, são os mecanismos concretos de ação: a articulação política, o uso de recursos financeiros, a atuação de redes de influência e a produção de iniciativas legais voltadas a promover essas ideias na prática. Apesar de as palavras chamarem atenção e renderem manchetes, são as decisões institucionais e os fluxos de recursos que mostram o que, de fato, está sendo feito. Para fazer essa crítica, é necessário anunciar o nosso ponto de partida. Este artigo é escrito a partir das perspectivas do eurasianismo clássico de esquerda, no qual a ideia de soberania civilizacional é inseparável da justiça social, do anti-imperialismo e da prioridade dos interesses da maioria trabalhadora sobre grupos elitistas e corporativos.

Partimos da tese de que a versão contemporânea “duginiana” do neo-eurasianismo não representa um desenvolvimento, mas uma substituição da tradição eurasiana: o “eurasianismo” de Dugin toma emprestados elementos centrais de teorias ultradireitistas e do populismo de direita ocidentais, mascarando-os com uma retórica antiglobalista e “multipolar”. A partir dessa perspectiva, o nacionalismo russo contemporâneo não se apresenta como um projeto político autônomo, mas como uma versão local do populismo de direita global, inclusive do trumpismo, adaptada ao contexto russo e apoiada por parte das elites econômicas e ideológicas. É nessa lógica que as figuras de Donald Trump e Jair Bolsonaro adquirem um significado especial para os círculos conservadores de direita russos: são utilizadas como símbolos de “resistência de valores”, enquanto sua política socioeconômica real e sua dependência do capital global são completamente ignoradas. Analisamos o fenômeno do bolsonarismo como uma substituição esvaziadora de valores: ele explora a linguagem da tradição, da fé e da moral, transformando-as em instrumento de mobilização política e em disfarce para um discurso socialmente neoliberal, elitista e, em última instância, anti-soberano.

Nos últimos anos, o discurso conservador da extrema-direita russa usurpou e reduziu o termo “multipolaridade” a uma fórmula ideológica desprovida de conteúdo social e anti-imperialista. A “multipolaridade” serve cada vez mais não como instrumento de crítica ao capitalismo global e às hierarquias, mas como cobertura retórica para projetos elitistas e de populismo de direita. Em função disso, no âmbito deste artigo, o termo “multipolaridade”, ao analisar a retórica da direita russa e das estruturas estrangeiras a ela vinculadas, será conscientemente colocado entre aspas. Isso não é feito para negar o conceito em si, mas para distinguir sentidos fundamentalmente distintos: de um lado, a multipolaridade autêntica como projeto de esquerda anti-hegemônico, e de outro, a sua versão ideologizada e reduzida, utilizada no discurso midiático de direita. Nosso objetivo é descrever os nós de contato e as pontes ideológicas entre o campo da extrema-direita brasileira e correntes a ele próximas — incluindo a apropriação da imagem de Bolsonaro — e as estruturas ultradireitistas e conservadoras de direita russas. No centro da análise estão a recepção russa da imagem de Bolsonaro como “tradicionalista”, a linha duginiana e o papel da organização Nova Resistência como plataforma-chave para contatos transnacionais, bem como o vínculo “Tsargrad – Malofeev – movimento russófilo” como infraestrutura de coordenação internacional.

<><> O bolsonarismo na visão da direita russa: a suposta “tradição” no lugar da economia

É necessário esclarecer separadamente a diferença na compreensão do próprio termo “nacionalismo” nos contextos russo e brasileiro. Na Rússia, essa palavra é historicamente marcada por um trauma profundo ligado à experiência da Grande Guerra Patriótica, quando a Alemanha nazista e seus aliados, agindo sob slogans de superioridade nacional e racial, exterminaram cerca de 27 milhões de cidadãos soviéticos, incluindo eslavos e outros grupos étnicos. Como resultado, na cultura política russa, o termo “nacionalismo” foi, durante décadas, percebido como algo suspeito e perigoso, enquanto a noção mais aceitável e neutra de identidade coletiva passou a ser expressa pelo termo “patriotismo”. No Brasil, a situação é diferente. O nacionalismo ali não está historicamente associado à experiência de extermínio em massa e, por isso, pode ser entendido como uma forma de autoidentificação cultural ou política que não carrega automaticamente um sentido agressivo ou excludente.

Respeitando esse contexto, não se questiona o direito da sociedade brasileira de utilizar sua própria linguagem conceitual. No entanto, é justamente essa diferença de memória histórica e de semântica que torna particularmente problemático o transplante transnacional de ideologemas de direita: as mesmas palavras e símbolos passam a significar coisas distintas, mas são usados como se seu conteúdo fosse universal.

No discurso dos círculos da direita russa, Bolsonaro é mencionado principalmente no contexto dos “valores espirituais”. No encontro no Kremlin em 16 de fevereiro de 2022, Bolsonaro encerrou seu discurso com as palavras: “O mundo é a nossa casa, e Deus está acima de todos nós”, e em seguida destacou: “Compartilhamos valores comuns, como a crença em Deus e a defesa da família. Também somos solidários a todos aqueles países que querem e se empenham pela paz”. A fórmula “fé e família” funciona como marcador retórico mobilizado por círculos ultradireitistas russos ao interpretar, de maneira seletiva, a política brasileira. Esse marcador retórico é extremamente conveniente para a mobilização conservadora de direita na Rússia: diante dos problemas demográficos e espirituais, a problematização da economia parece secundária, e o “aliado mais próximo” é definido através do prisma dos valores tradicionais. Ao mesmo tempo, é importante enfatizar que, no nível da posição oficial da liderança russa, não existe uma identificação ideológica pessoal com o bolsonarismo. O presidente da Rússia evitou publicamente expressar simpatias pessoais por Bolsonaro como figura política e destacou de forma consistente o caráter pragmático das relações com o Brasil. Em suas declarações, ele falou sobre a necessidade de manter vínculos bons e respeitosos tanto com Bolsonaro quanto com Lula, partindo do princípio da não ingerência nos assuntos internos e da escolha soberana do povo brasileiro. Assim, as simpatias pelo bolsonarismo se formam principalmente no ambiente midiático conservador de direita e no campo pericial e ideológico, e não são impostas diretamente pela mais alta liderança política do país.

A mídia conservadora russa rapidamente explorou a imagem de Bolsonaro como um fenômeno da “onda de direita antiglobalista”. Assim, o portal russo de notícias online Tsargrad, de viés conservador, já em 2018 publicou o artigo “Putin precisa de um ‘Trump tropical’?”, no qual o novo presidente do Brasil foi chamado de “Trump tropical” e se discutia se ele se tornaria um “amigo de Moscou”. Conforme descrito aqui, o próprio site Tsargrad se posiciona como o “departamento ideológico” do grupo de mídia Tsargrad, ligado ao empresário Konstantin Malofeev:  A Rússia é uma grande potência ortodoxa com uma história milenar. A Igreja Russa é a base do nosso Estado… Moscou é a Terceira Roma. A família é a união entre um homem e uma mulher… A preservação do povo é a principal tarefa do Estado.Tsargrad – Ideologia Nesse pano de fundo ideológico, Bolsonaro se encaixa como um herói da resistência antiliberal ao Ocidente, o que permite ao Tsargrad apresentar uma pretensão de soberania econômica sob uma ótica antiliberal, embora, na prática, essas pretensões apenas reproduzam a retórica da elite russa, e não o programa econômico de Bolsonaro. Neste sentido, o Tsargrad criou uma moldura midiática em que Bolsonaro aparece como um representante marcante de uma tendência “tradicionalista” e “soberana”. Ao mesmo tempo, o foco nos “valores tradicionais” desvia convenientemente a atenção da agenda socioeconômica de Bolsonaro, que permanece como um “ponto cego”.

Nas análises pró-direita russas, raramente se levanta a questão de que, por trás dos atraentes slogans de familiaridade e patriotismo, há um curso radicalmente neoliberal: privatização em massa, desregulamentação e ampla dependência externa. Apenas comentaristas liberais ocasionalmente apontaram a combinação “valores tradicionalistas mais economia liberal”, mas na ótica conservadora de direita isso praticamente não se torna objeto de crítica. O baixo nível de sofisticação política da audiência, em termos gerais, também contribui para a formação dessa moldura midiática. Para uma parte significativa do cidadão comum russo, o Brasil continua sendo um país distante e pouco imaginável, localizado a milhares de quilômetros da Rússia, com uma estrutura social, uma história e uma dinâmica política diferentes.

Nessas condições, a mídia ultradireitista e conservadora de direita obtém a possibilidade de construir uma imagem simplificada e idealizada de um líder estrangeiro, sem enfrentar uma verificação crítica por parte do público. A política socioeconômica real de Bolsonaro, as especificidades do capitalismo brasileiro e o grau de dependência externa do país ficam fora do campo de visão, o que facilita a transformação do bolsonarismo em um símbolo abstrato de “tradição” e “antiglobalismo”, desligado do contexto concreto.

<><> Dugin e a Nova Resistência: ideias, traduções, plataformas

A Nova Resistência é um dos principais parceiros brasileiros da União da Juventude Eurasiana (UJE) de Dugin e da rede eurasianista mais ampla. As relações de aliança entre essa organização e as estruturas associadas a Aleksandr Dugin estão bem documentadas e têm caráter estável. Em particular, foi justamente por meio de projetos editoriais e intelectuais ligados à Editora Austral que se institucionalizou no Brasil a recepção do corpus de ideias duginianas, desde a “Quarta Teoria Política” até a concepção do neo-eurasianismo, acompanhada de contatos públicos regulares e da participação pessoal de Dugin em eventos voltados ao público brasileiro. Outro nó importante de contatos foram as conferências internacionais regulares. Por exemplo, a Nova Resistência, em conjunto com Dugin, o Movimento Eurasiano Internacional e o Thinkers’ Forum chinês, organizou a “Conferência Global sobre Multipolaridade” em 29 de abril de 2023. No site da Nova Resistência consta que o evento foi “executado em conjunto pela organização política brasileira Nova Resistência, pelo filósofo russo Aleksandr Dugin, pelo Movimento Internacional de Russófilos e o centro de estudos chinês Thinkers’ Forum”.

Na programação, como principais palestrantes, figuram Nikolay Malinov (presidente do Movimento Rusófilo Internacional e presidente do Movimento Rusófilo Nacional na Bulgária), Aleksandr Dugin (presidente do Movimento Eurasiano Internacional, diretor do Instituto Tsargrad) e Raphael Machado (diretor da Nova Resistência, idealizador da conferência). A conferência ocorreu de forma online, com mais de uma centena de participantes de mais de 60 países. Por fim, o próprio Dugin se dirige pessoalmente ao público brasileiro por meio desse tipo de evento. Assim, o portal Paideuma.tv publicou uma mensagem em vídeo de Dugin para a Conferência Ibero-Americana e Caribenha sobre Multipolaridade, realizada em 8 de julho de 2023 e co-organizada pela Nova Resistência e por movimentos parceiros da Plataforma Ibero-Americana do Centro Multipolar Internacional. Na saudação, Dugin analisa detalhadamente o “logos ibero-americano” e a “identidade” da região. No contexto russo, o principal elo entre a Nova Resistência e o meio eurasiano é a UEJ, uma estrutura com uma história complexa e turbulenta. O autor deste artigo teve a sorte de conhecer pessoalmente e manter relações amistosas com um dos líderes-chave do período inicial da UEJ, Pavel Zarifullin, que chefiou a organização até 2009.

Foi justamente Zarifullin um dos poucos que tentou combinar o eurasianismo com orientações de esquerda e sociais, e acabou deixando a UEJ por não aceitar o fortalecimento da guinada à direita e a retórica tradicionalista cada vez mais rígida. Hoje, Pavel Zarifullin continua sendo um eurasianista de esquerda coerente e honesto, o que por si só evidencia a diversidade interna de uma tradição que Dugin, na prática, usurpou. A UEJ passou por uma transformação curiosa: de uma organização juvenil combativa do início dos anos 2000, que realizava ações de rua, performances políticas e intervenções provocativas, para um clube elitista de jovens tradicionalistas de direita, especialmente a partir do início dos anos 2010. A atividade foi substituída por um fechamento intelectualizado e por certo esnobismo: a UEJ tornou-se mais um espaço de hierarquia simbólica e de demonstração de lealdade a determinados códigos da direita do que uma força política viva. Foi nessa forma tardia, como um círculo de “jovens de elite” com simbologia eurasiana, mas sem capacidade própria de mobilização, que a UEJ passou a manter vínculos estáveis com a Nova Resistência. A convergência aparece na retórica, no estilo visual e no papel de curadores e intermediários que operam num mesmo ecossistema. Isso já diz menos respeito a um movimento juvenil autônomo e mais a uma espécie de “arquitetura” ideológica transnacional: um conjunto de sinais, referências e canais que sincroniza discursos entre países.

Do ponto de vista da velha esquerda russa, o projeto Nova Resistência muitas vezes parece caricatural. Trata-se de uma imagem excessivamente idealizada, até vulgarmente romantizada da Rússia, que na realidade, com todo o respeito, simplesmente não existe. A imagem da Rússia ali é idealizada a partir de vídeos no YouTube, Instagram e afins, mas sem a essência principal. Isso não é russofilia, mas antes um desserviço à Rússia, pois o estrangeiro cria expectativas infladas e nem sempre consegue lidar com a realidade. Ainda assim, para os duginianos e para os nacionalistas de inclinação monárquica, essa construção é conveniente: ela acrescenta uma aparência de “globalidade”, cria a ilusão de apoio internacional e permite retransmitir suas ideias de volta à Rússia com o selo de “aprovação estrangeira”. Nesse sentido, a Nova Resistência é um espelho invertido dos nossos liberais eurocêntricos: ambos se pensam a partir de um “fora” idealizado. Uns importam a Europa como medida de distinção; outros importam a Rússia como reserva de sentido, autoridade e grandeza. Aqui, a Terceira Roma ocupa o lugar que, para os eurocêntricos, costuma ser do café vienense. Já no discurso ideológico, frequentemente veiculado em outras plataformas russas associadas ao círculo duginiano, Bolsonaro aparece como um dos elementos de uma onda global de populismo de direita que, até 2022, em grande medida simpatizava com Putin. Nesses materiais, utiliza-se o conceito de multipolaridade como a luta dos “grandes espaços” (Estados-civilização) contra a hegemonia ocidental.

Bolsonaro é mencionado nesse panorama como representante da “civilização cristã” ou de uma virada conservadora de direita, ao lado de Trump, Orbán e outros. Convém observar que o texto não discute o que o bolsonarismo significa para os brasileiros, nem o que ele representa para a própria Nova Resistência ou para Dugin, que em 2018 recusou apoiá-lo nas eleições. O foco recai sobre o modo como sua figura é apropriada no meio ultradireitista russo, frequentemente deslocada do seu contexto político. Ideologicamente, a linha duginiana e seus círculos de difusão concentram a atenção em “valores”, “ambições imperiais” e na “luta contra o globalismo”, nas quais Bolsonaro aparece como apenas um dos muitos fragmentos de uma narrativa geral. Na prática, observamos a incorporação de sua imagem em um modelo de populismo de direita russo, cujo centro de gravidade gira em torno da figura de Trump. É justamente diante dessa lógica antiliberal, mas ao mesmo tempo capitalista e elitista, que os ultradireitistas e nacionalistas russos se mostram solícitos, difundindo-a por meio das ideologemas da “multipolaridade” e dos “Estados-civilização”. E fazem isso com o apoio tácito de uma parte das elites, para as quais apostar no eixo trumpista continua sendo uma forma conveniente de se inserir em uma possível nova ordem mundial. Daí essa tentativa quase servil de correr para o último vagão do trem de Trump que parte, na esperança de serem reconhecidos como “um dos seus” no círculo de um globalismo alternativo, mas ainda assim ocidental. Tudo isso fala inevitavelmente também de um profundo desrespeito para com os próprios concidadãos. Em vez de formar uma subjetividade política madura e crítica dentro do país, as pessoas são alimentadas com mitos montados a partir dos moldes de cultos de personalidade alheios e de guerras ideológicas alheias.

Bolsonaro, Trump, Orbán transformam-se em ícones para consumo interno, desprovidos de contexto e de conteúdo. Isso não é apenas empréstimo de imagens, é uma substituição consciente da realidade por símbolos que são fáceis de vender e fáceis de controlar. E quanto mais esse jogo avança, maior se torna o abismo entre a Rússia real e aquela Rússia fantasmática criada pelos teóricos da direita, não para o futuro, mas para a imagem televisiva.

<><> Tsargrad, Malofeev, “movimentos”: a infraestrutura da coordenação internacional

O Tsargrad é a maior organização midiática conservadora de direita da Rússia. Em sua estrutura existe, de forma institucionalizada, o próprio “Instituto Tsargrad”, dirigido por Aleksandr Dugin. Isso significa que a linha duginiana não aparece ali de maneira episódica, mas está oficialmente integrada ao bloco midiático Malofeev–Tsargrad. Dugin não atua como comentarista convidado, mas ocupa o cargo de diretor do instituto, o que ressalta o caráter sistêmico dessa aliança. Como resultado, o conservadorismo monárquico-eclesiástico de Malofeev e a filosofia eurasiana de Dugin se fundem em um único projeto ideológico, voltado à produção e à difusão de uma visão de mundo coerente e coordenada. Um exemplo concreto do cruzamento entre as redes brasileira e russa são as próprias conferências internacionais. Na programação da Multipolarity Conference, Konstantin Malofeev é indicado explicitamente entre os participantes, como fundador da Tsargrad TV e presidente do Tsargrad. Os organizadores do evento (já mencionados neste texto anteriormente) mantêm com ele uma conexão institucional e ideológica direta. Isso permite afirmar que a participação da Nova Resistência não é um episódio marginal ou secundário, mas está inserida na construção geral: um dos principais organizadores dos congressos “rusófilos” de 2023–2024 é o próprio Malofeev. Trata-se de uma “coautoria” direta na coordenação, e não de contatos indiretos ou de interação por meio de terceiros. A figura de Konstantin Malofeev nesse contexto não é acidental. Ele pertence ao grupo dos oligarcas russos mais visíveis do final dos anos 2000, e não à época dos “anos 1990 turbulentos”, como muitas vezes se simplifica. Durante um longo período, Malofeev (ou estruturas ligadas ao seu fundo) deteve participação acionária na Rostelecom (provedora de serviços e produtos digitais na Rússia), e mais tarde tornou-se fundador do projeto midiático Tsargrad — canal criado com a participação direta do estrategista político americano Jack Hanick, ex-diretor da Fox News, o que demonstra claramente que o veículo, desde o início, não foi concebido como um projeto local ou “autêntico” russo, mas como uma máquina informativa de alta tecnologia, construída segundo os modelos mais avançados da mídia de direita ocidental.

Paralelamente ao componente midiático, formou-se também uma superestrutura intelectual, o Instituto Tsargrad, organizado segundo o modelo clássico de um think tank elitista. Tendo como diretor Aleksandr Dugin, o instituto passou a ter sua própria revista analítica, Katehon, além de uma presença estável em plataformas ideológicas internacionais. Por meio dessas estruturas, promove-se uma versão específica do “mundo tradicional” e da multipolaridade, que combina retórica de soberania com formatos políticos e midiáticos ocidentais emprestados. Por fim, a influência do tema brasileiro também se infiltra em um nível mais simples, o das mídias “de base”. A partir da década de 2010, na Rússia, primeiro na rede social nacional VKontakte (popularmente conhecida no Brasil como VK) e depois no Telegram, formou-se gradualmente uma rede estável de canais midiáticos de direita.

É fundamental notar que essas plataformas, desde o início, se posicionaram como conservadoras-monárquicas e “baseadas em valores”, distanciando-se deliberadamente da simbologia e da retórica neonazista explícita. Até o início da operação militar especial, ocupavam um nicho relativamente estreito, mais elitista, voltado a uma audiência ideologicamente motivada, porém numericamente limitada.

A partir de 2022, esse ambiente midiático ganhou um segundo fôlego. Canais antes dispersos passaram a se organizar em uma rede mais aberta e interconectada, trocando ativamente pautas, argumentos e referências simbólicas. Canais conservadores no Telegram, de orientação “monárquica”, utilizam regularmente argumentos da política brasileira para disputas internas. Por exemplo, o canal “Filhos da Monarquia” (criado por Roman Antonovsky, escritor e blogueiro russo controverso) repetidas vezes contrapôs Bolsonaro e Lula, marcando “os seus” e “os outros” de forma esquemática: o “Bolsonaro de direita” como “nosso aliado” e o “Lula de esquerda” como “estranho”, estigmatizando todos os apoiadores da esquerda como “liberais ou globalistas”. Trata-se simplesmente de radicais locais que usam casos brasileiros como rótulos ideológicos. De maneira semelhante, em segmentos desse ecossistema midiático, reaparecem periodicamente materiais de fontes brasileiras abertamente pró-bolsonaristas. Ou seja, o “bolsonarismo” funciona nos círculos de direita russos não apenas por meio de acordos institucionais ou de coordenação direta, mas também a partir de memes, retransmissões seletivas e uma “codificação” de valores. A política brasileira aparece como um recurso simbólico conveniente, utilizado para confirmar uma moldura ideológica previamente estabelecida, não como objeto de análise.

<><> Conclusão

Dessa forma, as conexões entre a extrema-direita russa e o meio de direita brasileiro se constroem em três níveis. O primeiro nível é simbólico. A imagem de Bolsonaro como tradicionalista se consolida no espaço midiático desses grupos por meio do destaque dado à religião, à família e à moral conservadora. Essa imagem é amplamente reproduzida e apresentada como um marcador universal de “antiliberalismo”, desligado de um contexto político concreto. O segundo nível é ideológico. Aqui, o papel central é desempenhado pela linha duginiana e por seus circuitos de tradução e difusão, mais visíveis nas atividades da Nova Resistência. A organização traduz textos de Dugin, promove a retórica do ‘mundo multipolar’ e realiza fóruns com participação dele, o que a posiciona como um canal de circulação dessas ideias no Brasil. O terceiro nível é infraestrutural. Ele se forma em torno do Tsargrad e de Konstantin Malofeev. Projetos midiáticos, o Instituto Tsargrad e os chamados congressos rusófilos de direita criam canais estáveis por meio dos quais conteúdos produzidos por esses grupos se conectam a parceiros estrangeiros.

No ecossistema midiático conservador de direita russo, constrói-se conscientemente uma imagem enganosa de Jair Bolsonaro. Fala-se de fé, família e tradição, mas evita-se cuidadosamente mencionar que sua política econômica é, na prática, uma cópia das reformas neoliberais dos anos 1990, exatamente aquelas que destruíram a economia russa, empobreceram milhões de pessoas e deixaram um trauma social profundo. Ao omitir esse fato, parte desses meios de comunicação acaba por transmitir uma imagem distorcida do Brasil e por deixar em segundo plano a própria experiência histórica da Rússia. Nesse mesmo espírito, a Nova Resistência aparece mais como um projeto encenado do que como um movimento político real. Seus membros acreditam e defendem uma imagem da Rússia construída por vídeos, símbolos e slogans, uma Rússia abstrata que para o russo médio soa estranha, distante e pouco reconhecível. Não se trata de interesse pelo país real, com seus problemas concretos e contradições internas, mas de uma adesão quase teatral a um mito confortável. Essa idealização não aproxima sociedades nem cria diálogo real; ela apenas reproduz ilusões, reforça fantasias ideológicas e presta um desserviço tanto à Rússia quanto ao Brasil. No fim das contas, estamos diante de um sistema relativamente estável de pontes formadas por ideias, plataformas e personagens bem concretos. O problema central é outro: apelos à “tradição” e à “soberania”, quando esvaziados de qualquer conteúdo social real, transformam-se facilmente em uma marca elitista conveniente, usada para justificar interesses políticos estreitos e cálculos oportunistas. Nesse sentido, a utilização da figura de Bolsonaro por grupos da extrema-direita russa não fortalece a soberania russa, além de ser, em sua essência, incompatível com os interesses soberanos reais do Estado russo. Sua orientação econômica neoliberal, sua dependência externa e, sobretudo, sua disposição para se alinhar à retórica pró-ocidental e abertamente russofóbica ficam evidentes no contexto da questão ucraniana. Bolsonaro e seu entorno demonstraram prontidão para se solidarizar com narrativas hostis à Rússia, o que desmonta por completo a imagem de “aliado natural” construída pela mídia conservadora russa. A comparação com a posição de Lula é reveladora. Foi Lula quem se recusou a fornecer armas à Ucrânia e participou das celebrações do 80º aniversário da vitória do Povo Soviético na Grande Guerra Patriótica. Esse contraste deixa claro o quanto a idealização de Bolsonaro, promovida por setores da direita russa, não se baseia em fatos ou interesses estratégicos reais, mas em símbolos convenientes, slogans vazios e uma leitura profundamente distorcida da política brasileira.

 

Fonte: Diálogos do Sul Global

 

Seria a decolonialidade “um grande FMI”?

Em seu artigo “O grande FMI universitário”, publicado na revista Piauí (232, janeiro de 2026), o professor Vladimir Safatle, deixando de lado a advertência de Bento Prado Júnior, seu antigo orientador, aborda o pensamento decolonial usando “luvas de boxe”, batendo sem piedade e rigor, o que sempre lhe é peculiar. Apresento, então, um diálogo com o referido artigo e o seu autor. Antecipo que o problema central da leitura de Safatle não reside na crítica ao pensamento decolonial em si, mas na redução conceitual do campo, ao desconsiderar suas distinções internas, diálogos críticos e densidade histórico-filosófica. Vamos a algumas contestações ao texto do professor Safatle:

Primeira, com o intuito de desqualificar o pensamento decolonial, Safatle afirma que “[…] é a partir principalmente de universidades americanas que professores expatriados pretendem definir para o resto do mundo qual o programa a seguir e que conceitos usar para fazer avançar a decolonização de nós mesmos”. Todavia, o fato é que a Rede Modernidade/Colonialidade foi formada por diversos intelectuais latino-americanos situados em diferentes universidades das Américas, com o desafio de produzir uma ruptura, um giro decolonial, com o capitalismo, o imperialismo, o eurocentrismo e a colonialidade/modernidade. Entre seus principais membros: Aníbal Quijano, no Peru; Enrique Dussel, no México; Santiago Castro-Gómez, na Colômbia; Catherine Walsh, no Equador; Zulma Palermo, na Argentina; Rita Segato, no Brasil/Argentina. Somente Walter Mignolo, Ramón Grosfoguel e Maldonado Torres são academicamente domiciliados nos Estados Unidos.

A partir de 1992, com Enrique Dussel e Aníbal Quijano, o pensamento decolonial vem reafirmando uma narrativa histórica que coloca a América Latina como lócus de enunciação ou geopolítica do saber, rompendo com a imagem e o lugar da América Latina, imposto pelo imaginário eurocêntrico, como o formulado por Hegel, no qual somos apresentados como povos sem história, e a Modernidade, apresentada como um ato histórico intra-europeu e não um fenômeno mundial.

Segunda, Safatle, ao evocar que os estudos decoloniais incorrem em um paradoxo: “um movimento teórico que insiste em dizer o processo de decolonização ainda não terminou, ao mesmo tempo que estabelece um novo paradigma crítico que repete dinâmicas do próprio colonialismo e da hegemonia cultural exercida pelos países centrais, sobretudo pelo Estados Unidos”, ignora a distinção entre colonialismo e colonialidade, realizada pelo pensamento decolonial, afirmando que decolonização se contrapõe à colonialidade. Por outro lado, ao afirmar que o pensamento decolonial estabelece, em simultâneo, um novo paradigma crítico que repete o próprio colonialismo e a hegemonia exercida pelos países centrais, sobretudo os Estados Unidos, ele desconsidera totalmente as críticas à epistemologia moderna e ao eurocentrismo descrito por Aníbal Quijano; a defesa de Walter Mignolo da desobediência epistêmica ao pensamento eurocêntrico e estadunidense, e a sua proposta de pensamento decolonial como um pensamento outro e; ainda, ignora a tese de Enrique Dussel da Filosofia da Libertação, como fundamento filosófico do pensamento decolonial.

Se a decolonialidade se contrapõe à colonialidade, um giro decolonial (ou uma ação decolonizadora) deve ser pensado como um processo de longo prazo; deve se dirigir contra as múltiplas relações de dominação, exploração e subalternização, ou seja, de relações raciais, étnicas, sexuais, de gênero, patriarcais, estéticas, de classes, políticas, jurídicas, econômicas e imperiais.

Terceira, Safatle, ao desconhecer a distinção entre colonialismo e colonialidade, trata o pensamento decolonial apenas como uma crítica ao colonialismo e não à colonialidade, como se fosse um pensamento pós-colonial e afirma que a crítica ao colonialismo tem “em larga medida, três momentos históricos bem claros”. Em contraste, os três momentos são apresentados de forma linear, a partir do qual o pensamento decolonial é o último na linha temporal, mas não são apresentadas as diferenças, as convergências, nem os vários diálogos abertos e possíveis entre eles.

É muito importante esclarecer a diferença realizada pelo denominado pensamento decolonial entre colonialismo e colonialidade para melhor entender o que se denomina de decolonial ou giro decolonial. A prática do colonialismo é antiga, e bem anterior à Modernidade. O colonialismo é o domínio territorial, político, administrativo e militar direto de um povo ou nação, por parte de um país estrangeiro (colonizador), com o objetivo de obter vantagens econômicas e rivalizar com a cultura local, tornando-a subalterna. Colonialismo, como afirma Maldonado-Torres, “denota uma relação política e econômica, na qual a soberania de um povo reside no poder de outro povo ou nação, o que constitui a tal nação em um império”.

A colonialidade e a modernidade, segundo Aníbal Quijano , “são duas faces da mesma moeda, duas dimensões inseparáveis de um mesmo processo histórico de formação do sistema-mundo moderno/colonial”. A colonialidade, para além do colonialismo, diz respeito à lógica epistêmica e eurocêntrica colonial que ganhou existência como parte constituinte e oculta da Modernidade. Daí a expressão Modernidade-colonialidade (com o tracinho no meio) para expressar que são inseparáveis, que não existe colonialidade sem Modernidade nem Modernidade sem colonialidade. Então, não há como impor um fim à colonialidade, sem superar a modernidade e o seu sistema econômico: o modo de produção capitalista.

Quarta, o professor Safatle, ao longo do seu artigo, afirma que o pensamento decolonial “defende que a crítica verdadeira à colonialidade deve entender a própria modernidade como um empreendimento colonial, eurocêntrico”, e, por outro lado, é “incapaz de produzir coordenadas para um pensamento crítico”. A primeira parte da afirmação é um dos argumentos fundamentais do pensamento decolonial, para o qual a modernidade é um projeto civilizador de morte e não um projeto emancipador; que a modernidade não pode cumprir a sua promessa de emancipação porque é constituída pela colonialidade do poder, do ser e do saber. A segunda parte, contrário daquilo que pensa Safatle, para o pensamento decolonial, se pode, sim, ser crítico sem ser adepto do pensamento decolonial, mas o pensamento crítico a partir da modernidade tem se demonstrado incapaz de desprendesse da racionalidade da modernidade com a colonialidade.

Quinta, diferentemente do que afirma o professor Safatle, a modernidade não é pensada de forma monolítica pelos estudos decoloniais, mas como um projeto civilizador composto por uma racionalidade particular com pretensões universais, constituída pela colonialidade do poder, do saber e do ser, bem como de um sistema econômico, o modo de produção capitalista, e de um sistema político e de um ordenamento jurídico fundamentados no jusnaturalismo. Portanto, a tese de Safatle de que a crítica decolonial à modernidade é marcadamente idealista, “pois ignora as condições materiais, de produção dos sistemas de ideias” é sem fundamento.

Para o pensamento decolonial, a retórica emancipatória da modernidade pressupõe uma lógica de domínio da natureza e esconde uma lógica opressiva da política (colonialidade do poder), uma epistemologia eurocêntrica/universal (colonialidade do saber) e uma ontologia da invenção do outro como inferior/sub-humano ou não humano (colonialidade do ser). A colonialidade, segundo Maldonado-Torres, “ao invés de estar limitado a uma relação formal de poder entre dois povos ou nações, refere-se antes à forma como o trabalho, o conhecimento, a autoridade e as relações intersubjetivas se articulam entre si, através do mercado capitalista mundial e da ideia de raça”.

Sexta, o pensamento decolonial não é um pensamento identitário e uma cultura do cancelamento; o assassinato de reputação; a execração de pessoas por meio de boatos sem provas; e as práticas autoritárias por parte de militantes de direita e de esquerda, bem como por indivíduos ou movimentos de explorados, oprimidos e subalternos, são marcadores de colonialidade das quais são hospedeiros por nascerem, viverem e serem sociabilizados num modo de ser e estar no mundo marcado pela herança da colonialidade do ser, do saber e do poder da modernidade.

Sétima, ao equiparar o pensamento decolonial a “um grande FMI universitário”, afirmando que ele oferece um mesmo receituário, normalmente errado, para toda e qualquer realidade social, repetindo limitações e problemas políticos próprios à acadêmica anglo-saxã, Safatle exagera no uso da “luva de boxe”, pois não percebe que a razão moderna, a quem ele encontra-se acorrentado, feito Prometeu, é quem se coloca, em sua diversidade epistêmica, como única razão do mundo. Além de não apontar qual é o receituário oferecido pela crítica decolonial para qualquer realidade social, Vladimir Safatle ignora as noções de transmodernidade e pluriversalidade, categorias constituintes do pensamento decolonial, formuladas por Enrique Dussel, para diferenciar as posições críticas do pensamento decolonial à modernidade das críticas contra modernidades realizadas pelo pensamento pós moderno e pelo pensamento pós-colonial.

Decolonizar, além de tornar visível que a colonialidade é parte integrante e constituinte da Modernidade, implica em uma ação de denegar a narrativa, segundo a qual a Modernidade é um ato intra-europeu, e que sua ação colonizadora foi um ato benevolente para nos tirar da condição de primitivos, atrasados, subdesenvolvidos, acelerando, assim, nosso processo de desenvolvimento civilizacional. Decolonizar implica afirmar a história a partir da visão dos dominados, explorados e subalternizados.

<><> O desafio de um pensamento outro

A colonialidade se refere aos dois processos históricos ou eixos de poderes que convergiram e se associaram para que a América se constituísse como o primeiro espaço/tempo do padrão mundial de poder moderno: i) a codificação das diferenças entre conquistadores e conquistados a partir da ideia de raça; ii) o processo de constituição de uma nova estrutura de controle do trabalho e de seus recursos pelo modo de produção capitalista.

Primeiro processo, a codificação das diferenças entre conquistadores (colonizadores) e conquistados (colonizados), com a ideia de raça, gera uma suposta distinção estrutural biológica, que situava uns em situação natural de inferioridade em relação aos outros. A ideia de raça e identidade racial foi estabelecida na América como instrumento de classificação social da população. Essa foi a primeira categoria conceitual de classificação social da Modernidade. A formação de relações sociais fundadas na ideia de raça e identidade racial produziu na América identidades historicamente novas: índios, negros, mestiços e brancos. Na medida em que as relações entre colonizadores e colonizados foram se configurando como relações de dominação e exploração, tais identidades foram sendo associadas às hierarquias, lugares e papéis sociais correspondentes, como constitutivas delas e do padrão de dominação imposto.

Na América, a ideia de raça, para o pensamento decolonial, foi uma maneira de outorgar legitimidade às relações de dominação ditadas pelos conquistadores aos povos originários. Tratou-se da manifestação ontológica, da colonialidade do ser, ou seja, da negação da condição de humanidade do outro, o não europeu, considerado sem alma, sem história, sem escrita, sem lei, um não humano.

Quanto ao segundo processo, o modo de produção capitalista, temos a constituição de uma nova estrutura de controle do trabalho e seus recursos. No processo de constituição histórica da América, todas as formas de controle e exploração do trabalho, de produção apropriação-distribuição de mercadorias, foram articuladas em torno da reprodução, acumulação de capital e do mercado mundial. Em primeiro lugar, porque foram deliberadamente estabelecidas e organizadas para produzir mercadorias para o mercado mundial. Ainda hoje, cabe à América Latina o papel de produtora de bens primários para o mercado mundial. Em segundo lugar, porque passaram a ser articuladas de maneira simultânea no mesmo espaço/tempo com o capital e com o seu mercado, em uma relação de dependência histórico-estrutural. Em terceiro lugar, para preencher as novas funções inerentes ao mercado mundial, cada uma delas desenvolveu novos traços e novas configurações histórico-estruturais.

Um pensamento outro compreende uma energia outra de descontentamento, desconfiança crítica e desprendimento do eurocentrismo como produção de saber, resistência à violência colonial e imperial do projeto civilizador moderno, o que implica na afirmação de um pensamento pluriversal e um mundo transmoderno. Uma ação decolonizadora, ou um giro decolonial, é uma tarefa epistêmica, econômica e política. A transmodernidade implica a ética dialógica e o cosmopolitismo decolonial. Como afirma Maldonado-Torres: “o fim da ética e do cosmopolitismo é fomentar a comunicação entre os condenados (da terra em referência a Fanon), ao mesmo tempo destruir as hierarquias entre os sujeitos considerados humanos e os sub-humanos”.

Decolonizar é afirmar uma ecologia de saberes e reafirmar a sociologia das ausências, rompendo com a monocultura da naturalização das diferenças, é romper com o imaginário colonial, imperial que oculta as hierarquias patriarcais, de gênero, de raça e de classes. Decolonizar é preciso, enquanto desprendimento da colonialidade do ser, do poder e do saber.

Assim, para além de uma crítica à modernidade, o pensamento decolonial afirma a possibilidade histórica de outros mundos, outras racionalidades e outras formas de vida. Que possamos imaginar e contar mais histórias de um mundo transmoderno e pluriversal. Acabei de escrever um livro sobre o pensamento decolonial produzido pela heterogênea rede de pensadores Modernidade/Colonialidade, espero encontrar um editor e ampliar o debate com outros interlocutores. Abraços decoloniais!

 

Fonte: Por Uribam Xavier, em Outras Palavras