terça-feira, 30 de setembro de 2025

Performance de Lula na ONU em defesa do Brasil desarma o império e desorienta a direita

O discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Assembleia Geral da ONU e o subsequente encontro com o presidente norte-americano, Donald Trump, marcaram um episódio diplomático de profundo significado. Ficou evidente que autoridade internacional se conquista com altivez e não com submissão — uma lição que repercutiu tanto no cenário global quanto na política interna, onde as posturas antinacionais se tornaram ainda mais expostas.

Da tribuna das Nações Unidas, Lula fez uma defesa contundente da soberania brasileira, criticando as sanções unilaterais impostas pelos Estados Unidos e a interferência em assuntos internos de países soberanos. Ao se referir ao julgamento de Jair Bolsonaro, declarou que “a agressão contra a independência do Poder Judiciário é inaceitável” e enviou um recado claro: “nossa democracia e nossa soberania são inegociáveis”. Com a mesma firmeza, denunciou o genocídio em curso em Gaza, posicionando o Brasil de forma corajosa ao lado do direito internacional e dos direitos humanos. A imprensa internacional destacou que Lula figura entre os poucos líderes mundiais que não se curvaram às medidas unilaterais do governo Trump, ressaltando a força moral de sua postura.

A reação de Trump foi reveladora. Após assistir a trechos do discurso de Lula, o presidente norte-americano fez elogios públicos inesperados, chamando o brasileiro de “cara muito legal” e destacando uma “excelente química” de “39 segundos” entre ambos. Mais do que uma gentileza protocolar, o gesto foi interpretado como sinal à sua equipe para reabrir o diálogo com o Brasil — a primeira sinalização positiva desde o início da crise diplomática. O fato de essa abertura ocorrer logo após Lula reafirmar seus princípios demonstra que foi justamente a firmeza brasileira que arrancou respeito. Ainda assim, todo cuidado é pouco diante de um personagem tão nefasto. Os EUA, sob comando de Trump, estão prestes a atacar a Venezuela, e o aceno a Lula pode ter sido uma manobra para neutralizar uma eventual reação do Brasil.

Enquanto Lula representava o país com dignidade no palco mundial, o bolsonarismo atuava em sentido oposto. O deputado Eduardo Bolsonaro tornou-se alvo de acusações de “traição à pátria” por articular junto ao governo Trump a imposição de sanções contra o Brasil. A Polícia Federal abriu processo administrativo disciplinar para investigar sua conduta. A ministra Gleisi Hoffmann defendeu a cassação do mandato por traição, e o presidente da Câmara, Hugo Motta, reforçou que servidores públicos não podem apoiar sanções estrangeiras contra o país — recado direto ao filho de Bolsonaro. Suas ações, em contraste absoluto com a conduta de Lula, buscavam aprofundar a crise diplomática em benefício de interesses sectários, deixando-o politicamente isolado diante do “potencial radioativo” de sua traição.

A performance de Lula na ONU e seus efeitos imediatos representam um momento de virada na política externa brasileira. O equilíbrio entre discurso intransigente em defesa da soberania e a habilidade de dialogar até com adversários revela uma diplomacia madura e eficaz. A direita bolsonarista, desorientada e neutralizada, viu ruir sua estratégia. E o caso de Eduardo Bolsonaro, agora tratado como assunto de polícia e ética, ficará registrado como exemplo histórico do que significa conspirar contra os interesses nacionais.

¨      Lula defende diálogo com Trump: 'É bom, desde que na lógica do ganha-ganha'

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reafirmou, em entrevista coletiva concedida ao final de sua agenda oficial na ONU, nesta quarta-feira (24/9), que está disposto a retomar o diálogo com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A notícia foi publicada pela Agência Gov. Lula destacou que uma eventual aproximação atende à vontade de ambos os povos e que o relacionamento bilateral deve ser pautado pelo princípio do "ganha-ganha".

Segundo o presidente brasileiro, não há restrições para a conversa entre os dois países, exceto em relação a temas fundamentais: “Quando tiver eleição nos Estados Unidos, eu não me meto. E quando tiver eleição no Brasil, ele não se mete”. Lula frisou que democracia e soberania não estão em negociação.

<><> A lógica do "ganha-ganha"

Lula defendeu que o diálogo entre Brasil e Estados Unidos traga benefícios concretos às duas nações. “No caso do Brasil, a gente não tem que perder, a gente tem que ganhar e também os outros têm que ganhar, porque tem que ser um acordo de ganha-ganha. Essa é a minha disposição e eu espero que seja a disposição dos Estados Unidos também, porque será bom, será bom para a nossa economia, para a nossa indústria, para o nosso comércio, para a nossa agricultura e para a relação das duas democracias mais importantes da América”, afirmou.

Questionado sobre a possibilidade de discutir terras raras e minerais críticos, Lula ressaltou que o Brasil não pode repetir erros do passado: “O que a gente não quer é permitir que aconteça como aconteceu até agora com os minérios: a gente é só exportador, só exportador, só exportador e não faz o processo de industrialização dentro do Brasil”.

<><> O encontro inesperado e a “química”

Lula revelou ter sido surpreendido pelo encontro com Trump nos bastidores da Assembleia Geral da ONU, após seu discurso de abertura. O presidente norte-americano, que falou em seguida, afirmou que havia surgido uma “química” entre os dois. Lula respondeu com bom humor: “Eu fui surpreendido, porque eu já estive ali outras vezes e não encontrei sempre com o presidente [dos Estados Unidos]... E eu acho que pintou uma química mesmo, eu acho”.

Antes das perguntas dos jornalistas, Lula fez uma breve exposição sobre sua agenda na ONU e voltou a defender que os países concentrem esforços na luta contra a fome e a pobreza. “Se todos os governantes do mundo colocarem o pobre dentro do orçamento, a gente acaba com a pobreza muito rapidamente”, disse, lembrando que, segundo a FAO, mais de 670 milhões de pessoas passam fome.

Ele também criticou os gastos militares excessivos: “Quando você vê as pessoas gastarem trilhões em armas, trilhões em guerras, a gente não tem explicação do comportamento dos humanos em tratar a própria espécie humana”.

<><> Relações comerciais e expectativas

Lula sublinhou que a qualidade das informações é essencial para que Trump compreenda a realidade do comércio bilateral: “Eu não sei quem foi que disse para o presidente Trump que ele tinha um déficit comercial com o Brasil. Ele teve um superávit em 15 anos de 410 bilhões de dólares”.

Entre janeiro e agosto de 2025, o Brasil exportou US$ 26,6 bilhões para os Estados Unidos, um aumento de 1,66% em relação ao mesmo período do ano anterior, enquanto as importações chegaram a US$ 30 bilhões, alta de 11,44%. Somente em 2024, os EUA registraram superávit de quase US$ 30 bilhões no comércio com o Brasil.

O presidente concluiu a coletiva enfatizando a importância de um diálogo franco: “Estou muito otimista, porque eu acredito muito na relação humana. Acho que tudo pode ser resolvido quando duas pessoas conversam. Eu acredito muito no poder de convencimento das palavras”.

¨      “Entre China e Estados Unidos, Lula vai defender o interesse nacional", diz Walfrido Warde

Em entrevista ao jornalista Leonardo Attuch, editor da TV 247, o advogado Walfrido Warde, presidente do Instituto para Reforma das Relações entre Estado e Empresa (IREE), que é um dos principais think-tanks do Brasil, e integrante do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável do governo Lula, analisou o lugar do Brasil na disputa geopolítica entre as grandes potências, logo após a Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York.

Warde afirmou que o Brasil de Luiz Inácio Lula da Silva atua com pragmatismo entre os dois polos estratégicos, preservando sua autonomia decisória. Ao tratar do novo ambiente de diálogo com Washington e da centralidade de Pequim para a economia brasileira, ele foi taxativo: “No embate de interesses entre americanos e chineses, devem prevalecer o interesse brasileiro e eu tenho certeza absoluta de que o presidente Lula assim fará”.

O jurista contrastou as visões de mundo do presidente Lula e de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos. Segundo ele, Lula expressa a defesa do multilateralismo, da soberania dos povos e do respeito ao direito internacional, ao passo que Trump dá voz a segmentos que se ressentem da perda de protagonismo americano: “Trump não pode ser menosprezado na sua maneira de exprimir uma visão de mundo que tem aderência no coração de muita gente”. 

Ao descrever a estatura internacional do líder brasileiro, Warde destacou a sua capacidade de representar valores civilizatórios: “O presidente Lula é a quintessência, talvez o último bastião, o último político do Ocidente que empolga ao expressar essas ideias”.

Ao avaliar a recente reaproximação entre Brasília e Washington, após gestos de Trump em relação a Lula durante a Assembleia Geral da ONU, Warde sustentou que o eixo das relações deve ser de benefício mútuo, sem submissão, e que essa dinâmica também envia sinais claros a Pequim: “Se os americanos perseguem interesses americanos, nós, brasileiros, prosseguiremos interesses dos brasileiros”. Para ele, a disputa por influência na América Latina pode ser positiva se o Brasil souber negociar contrapartidas concretas em comércio, investimentos e tecnologia.

<>< Parcerias entre Brasil e China

O advogado também examinou as consequências econômicas da Operação Lava Jato, que desorganizou o setor de infraestrutura e abriu espaço a competidores estrangeiros. Na leitura de Warde, o episódio inseriu-se em uma lógica de guerra comercial que não produziu, para os Estados Unidos, os efeitos pretendidos: “Na verdade, como é de fato, o FCPA (legislação americana que investigou corrupção em outros países) já nasce como instrumento de guerra comercial”. Diante do estrago, ele vê nas parcerias entre construtoras brasileiras e grupos chineses uma ponte para a recuperação de competências e empregos.

Em temas estratégicos, Warde propôs que o país deixe de ser mero exportador de matérias-primas e passe a capturar valor em cadeias industriais de alta tecnologia. Ao falar de terras raras, defendeu política industrial e tecnológica consistente para verticalizar produção e inovação. E, sobre a corrida global por capacidade computacional, apontou que a instalação de data centers deve vir acompanhada de exigências: “Não podemos ser meros armazenadores de dados das potências. Precisamos exigir transferência de tecnologia”.

No setor automotivo, Warde ponderou que a transição tecnológica ainda está em disputa, com diferentes rotas energéticas em avaliação. Por isso, além de atrair fábricas e P&D, o Brasil deve condicionar acesso ao mercado a compromissos robustos de produção local e inovação, mantendo margem de manobra para decidir entre eletrificação por bateria, hidrogênio e biocombustíveis avançados, conforme maturidade tecnológica e custo ambiental.

<><> Cooperação no campo militar

Warde também abordou defesa e soberania em um contexto de rearmamento global, observando que parcerias, inclusive com a China, podem fortalecer a capacidade brasileira, desde que orientadas pelo interesse nacional. Para ele, treinar e equipar as Forças Armadas é função de Estado e precisa estar apartada de polarizações circunstanciais.

Ao destacar o papel do IREE, Warde lembrou que o think tank foi concebido para “pensar e defender políticas públicas”, promovendo debate plural sobre segurança, geopolítica e desenvolvimento, com participação de diplomatas, militares, juristas, economistas e lideranças civis. Sua atuação no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social do governo Lula reforça essa agenda: Warde foi reconduzido por decreto presidencial ao colegiado, com mandato até março de 2027, o que valoriza sua contribuição institucional e o papel do IREE no diálogo entre Estado e sociedade.

No plano político, Warde sugeriu que a superação das divisões internas é condição para um projeto nacional robusto. Em tom conciliador, destacou a liderança histórica de Lula e a importância de superar preconceitos e ressentimentos: “A fala do presidente Lula empolga e atinge o coração das pessoas no mundo todo, e esse homem é brasileiro e presidente do Brasil. Isso deve ser valorizado por todos”.

¨      Nesta semana, encontro com Trump favorece Lula, IR amplia ofensiva e Centrão fica no “cá te espero”

Nesta semana, as atenções se voltam para a conversa entre os presidentes brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, e o americano, Donald Trump. A expectativa é que, em algum momento, esse diálogo abra caminho para um novo acordo tarifário entre os dois países e para o relaxamento de sanções contra autoridades do Brasil. O formato remoto reduz o risco de um eventual constrangimento de Trump a Lula — e, caso ocorra, tende a favorecer o presidente brasileiro como parte desrespeitada. Entretanto, um mal-estar é considerado improvável se o lobby da empresa JBS foi mesmo determinante para o distensionamento entre Washington e Brasília.

Se algum alívio nas sanções ao Brasil for obtido já neste primeiro encontro, o Supremo Tribunal Federal (STF) pode se sentir confortável em adotar postura semelhante em relação ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Um relaxamento nas sobretaxas, por sua vez, deve beneficiar a valorização da Bolsa e do real frente ao dólar, criando condições para o crescimento de um clima mais otimista no país, em convergência com a — por ora — tendência baixista dos juros a partir do início do ano que vem, na esteira da recuperação estável da popularidade de Lula. Cientistas políticos, contudo, recomendam cautela quanto à expectativa de resultados imediatos.

COM IR, LULA DEVE AMPLIAR OFENSIVA

No cenário doméstico, o Palácio do Planalto e o PT vão mobilizar a opinião pública pela aprovação da reforma do Imposto de Renda (IR), agenda "picanha e cerveja" prioritária do governo Lula e apoiada por cerca de 70% da população. O zeitgeist no Executivo é de que “a dosimetria que interessa é a tributação dos super-ricos”, em sintonia com manifestações populares e pesquisas recentes. Esses levantamentos indicaram que o lulismo conseguiu se reapropriar do sentimento antissistema latente na sociedade e ampliar sua posição no eleitorado de centro e de classe média, explorando sua face outsider — ou de alternância efetiva de poder no país, ainda que no exercício do governo.

Para evitar novo desgaste, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, confirmou a votação da reforma do IR para quarta-feira, rejeitando qualquer vinculação com o “PL da Dosimetria”, rebranding da anistia. A ameaça do relator, deputado Paulo Pereira da Silva, de que, sem apoio do PT, a versão ampla pode conquistar o aval do Centrão soa como mais um pretexto para que o bloco compartilhe com o Planalto o ônus da dosimetria e o bônus político da reforma do IR, depois do revés da "PEC da Blindagem".

ANISTIA COM CENTRÃO ENFRAQUECIDO

Na atual correlação de forças — com o Centrão em xeque e poder restrito à Câmara — nem mesmo uma proposta de redução de penas que beneficie Bolsonaro teria vida fácil no Senado, o que tornaria qualquer tentativa de aprovar um texto mais radical apenas um gesto de demarcação política. No entanto, a combinação entre o aumento da faixa de isenção total do IR de R$ 5 mil para R$ 7 mil, proposto em emenda do relator de "Paulinho da Força", e um substitutivo do PL garantindo anistia ampla, capaz de agradar ao expressivo eleitorado de direita, é vista com potencial para tirar do corner a aliança Centrão-bolsonarismo — mesmo que a blitzkrieg não prospere no Senado nem no STF.

Paralelamente, cresce a pressão de setores de centro e direita para que o deputado Eduardo Bolsonaro aceite um pacto que manteria o pai inelegível, porém em prisão domiciliar — solução que o próprio ex-presidente estaria disposto a aceitar, ajudando a viabilizar a candidatura presidencial do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Nesse contexto se inserem a suposta desistência de Tarcísio de disputar a Presidência em 2026, as notícias que apontam Ratinho Jr. como plano B do Centrão, o possível adiamento da votação do “PL da Dosimetria” para depois desta semana e o avanço do processo que pode levar à cassação de Eduardo. Os movimentos do deputado, entretanto, indicam que ele está mirando o futuro da direita ideológica e cultural.

UM PALCO ARMADO

Uma eventual capitulação do clã Bolsonaro poderia ser interpretada como derrota por sua base mais fiel, abrindo espaço para novas lideranças. Essa mesma base foi a que manteve apoio irrestrito ao ex-presidente durante a pandemia de Covid-19, sendo vista como garantia de que um nome indicado por ele chegaria ao segundo turno.

Todavia, Tarcísio visitará Bolsonaro e, embora negue a intenção, o palco está preparado para um anúncio que pode reanimar o establishment político e econômico — mas também favorecer um ambiente mais positivo para a conversa Lula-Trump. Assim, a tendência neste início de semana é novamente favorável ao Planalto, que também vem acumulando os pontos das operações contra lavagem de dinheiro do crime organizado na economia formal — como na Faria Lima, que atingem o coração dessas máfias sem disparar tiros e martirizar comunidades.

 

Fonte: Brasil 247

 

A sedução da espoliação

Mesmo não sendo fenômeno raro, pelo contrário, ocorre numa frequência perturbadora, não deixa de causar algum espanto testemunhar grupos subalternizados aderindo a posições da direita radical. Afinal, é um tanto contraintuitivo o apoio a políticas que, ao fim, prejudicam a eles próprios. Escapando a uma lógica racional pragmática, parece haver algo como uma “sedução da espoliação”, onde mais do que alienar sobre os mecanismos de exploração, os atrai para uma mobilização política voluntária e ativa que, invariavelmente, acaba por conduzi-los a serem vítimas de novas (e velhas) formas de espoliação.

A metáfora da “sedução da espoliação” busca sintetizar o paradoxo central da adesão de setores populares a projetos neoliberais e de extrema direita que aprofundam a precarização material desses mesmos grupos. A compreensão dos processos e condições sociais que possibilitam a ocorrência de táticas políticas exitosas para a cooptação de apoio popular a projetos antipopulares é de importância estratégica. Partindo de uma análise histórica atenta ao fato de que novas condições de dominação emergem em uma dialética onde formas pretéritas podem persistir e concorrer ou ser ressignificadas e incorporadas.

Assim, podemos perceber melhor em quais aspectos a sujeição se sustenta sob bases historicamente desenvolvidas para a legitimação do sistema capitalista e quais são particulares desta fase do capitalismo tardio sob hegemonia neoliberal.

A “adesão” ao capitalismo, de forma geral, sempre buscou sua legitimidade discursiva – aqui indiferente se manifesta no âmbito da política, religião, etc. – amparada naquilo que Karl Marx apontava como ideologia, entendida como uma forma de consciência social que reflete, de maneira distorcida, as relações materiais da sociedade.

A ideologia surge como uma representação invertida da realidade, apresentando as relações sociais historicamente determinadas como se fossem naturais, universais e imutáveis. Para além da dominação política objetiva dos capitalistas, os processos de reificação obscurecem a percepção, o que torna esta sujeição ainda mais plena e indispensável para o sistema. Como apontava Theodor Adorno, “quanto mais completo o mundo como aparência, mais impenetrável a aparência como ideologia” (2001, p. 28). Esta estrutura ideológica de dominação tem mantido seus padrões básicos de funcionamento, de forma relativamente estável, nestes últimos dois séculos e meio, pelo menos.

As últimas quatro décadas foram marcadas pelo avanço e consolidação de uma hegemonia do neoliberalismo em boa parte do mundo. A ascensão do neoliberalismo não se deu pela persuasão democrática, mas pela exploração estratégica de crises, conforme Naomi Klein expõe em A doutrina do choque. Catástrofes naturais, conflitos bélicos ou instabilidades políticas são instrumentalizados para impor políticas de austeridade, privatizações e desregulamentação, sob o pretexto de “reconstrução” ou “modernização”.

Essas medidas, formuladas por ideólogos como Milton Friedman, aproveitam o estado de confusão e medo pós-traumático para implementar agendas que, em contextos estáveis, enfrentariam resistência popular massiva. O resultado é o “capitalismo de desastre”: um sistema que lucra com o caos, transferindo recursos públicos para corporações enquanto as populações vulneráveis, fragilizadas pela crise, veem direitos sociais e condições de vida serem drasticamente reduzidos.

Políticas como privatizações, desregulamentação laboral e cortes em direitos sociais transferem riqueza para elites econômicas, intensificando desigualdades. Essa espoliação é facilitada por crises (econômicas, políticas ou sanitárias), que desorientam as vítimas e neutralizam resistências.

A instabilidade das crises permanentes e variadas, turvam ou bloqueiam, para muitos, as possibilidades cognitivas de compreensão da sociedade que os cerca. Isso ajuda a explicar porque, mesmo ostentando resultados frágeis ou pífios quando implementadas, as ideias neoliberais ainda apresentam adesão. Isto ocorre, entre outros motivos, por operarem em um nível de sedução simbólica.

Para garantir adesão popular, o neoliberalismo alia-se a pautas da extrema direita que oferta compensações identitárias. A análise de Nancy Fraser sobre a tensão entre redistribuição e reconhecimento nos ajuda a elucidar este ponto. Em sua crítica ao “neoliberalismo progressista”, ela demonstra que setores populares são seduzidos por um “falso pacto”: enquanto minorias recebem um limitado “reconhecimento” identitário (como representação simbólica em discursos ou políticas superficiais de diversidade), a redistribuição de riqueza é sistematicamente negada.

A extrema direita, por sua vez, inverte essa lógica: oferece uma ilusão de restauração de status (via nacionalismo, moral religiosa ou supremacia racial) a grupos despossuídos pela globalização, sem questionar a concentração de capital. Nancy Fraser argumenta que ambas as estratégias fragmentam as lutas sociais: ao separar demandas por equidade econômica de pautas culturais, criam rivalidades entre vítimas do mesmo sistema – como trabalhadores brancos pobres e minorias racializadas –, desviando a atenção da verdadeira raiz da opressão.

Quando as vítimas desses modelos neoliberais passam a se reconhecer antes como “protetoras” de valores tradicionais do que como exploradas pelo sistema, abre-se uma cisão entre movimentos populares e seu próprio interesse material. Essa dinâmica fragmenta lutas sociais, convertendo o ressentimento em ódio contra bodes expiatórios (imigrantes, minorias, elites cosmopolitas, etc.) em vez do sistema econômico.

O resultado, como aponta Wendy Brown, é uma política do ressentimento nascida das “ruínas do neoliberalismo”: diante do fracasso do projeto neoliberal em garantir bem-estar, a extrema-direita oferece um passado mítico de ordem e segurança, que nada mais é que um simulacro de pertencimento que mascara a espoliação em curso.

Um exemplo concreto dessa dinâmica pode ser observado no Brasil recente. No país, essa sedução operou pela combinação entre o autoritarismo moral de Jair Bolsonaro e uma agenda econômica ultraliberal, demonstrando como a metáfora da sedução da espoliação é uma maneira de decifrar as alianças perversas do capitalismo contemporâneo.

Ao buscar debater aqui sobre as formas gerais do processo social da adesão popular aos ideários neoliberais e da extrema-direita, não poderia deixar de mencionar o papel desempenhado pelas chamadas Big Techs no século XXI. Talvez aqui seja interessante recorrer mais uma vez a Theodor Adorno, que junto com Max Horkheimer, cunharam o conceito de “indústria cultural”, onde alertavam como a cultura, sob o capitalismo avançado, transforma-se em instrumento de dominação ideológica. Banalizando a violência política, auxiliando na normalização da lógica mercantil e apresentando o capitalismo como força natural e inevitável, para Theodor Adorno e Max Horkheimer, essa máquina não apenas distrai, mas modela subjetividades.

Herdeiras da indústria cultural, as Big Techs não são apenas empresas, mas agentes que transformam dados e atenção em capital, enquanto moldam subjetividades. Elas aprimoraram a sedução simbólica ao colonizar a subjetividade: filtros bolha, microtargeting e agora Inteligências artificiais criam realidades paralelas que naturalizam a barbárie neoliberal, fazendo com que vítimas da espoliação defendam, como “liberdade”, a própria lógica que as destrói.

Ao monetizar o ressentimento e a polarização, plataformas como as da Meta ou do Google, convertem a sedução simbólica em um modelo de negócios. Algoritmos promovem conteúdos extremistas que mantêm usuários cativos, transformando o caos social em capital para acionistas – um processo onde a espoliação digital e a alienação ideológica reforçam-se mutuamente.

As Big Techs operam como arquitetas da sedução simbólica: ao transformar identidades e conflitos sociais em dados rentáveis, elas alimentam algoritmos que amplificam narrativas tóxicas (como o ódio a minorias ou o negacionismo), fragmentam a consciência coletiva e convertem o descontentamento popular em engajamento lucrativo; tudo enquanto ocultam sua própria espoliação via vigilância digital e precarização do trabalho. Em outras palavras, as redes sociais de massa não são apenas o “meio” onde discursos neofacistas ganham ressonância, elas são, em si, ferramentas políticas.

A regulação democrática das Big Techs revela-se, assim, uma trincheira decisiva contra o avanço do neofascismo e da espoliação neoliberal. Sem controle público sobre algoritmos que monetizam o ódio e fragmentam o tecido social – convertendo demandas por justiça em verdadeiras commodities digitais –, a sedução simbólica seguirá operando como máquina de dominação em escala industrial. Regular as Big Techs é desarmar esta engrenagem e iniciar uma recuperação democrática do discurso público em novas bases, passo fundamental, mas não o único.

Como se buscou demonstrar, a adesão popular a projetos que a destroem não é irracional: é fruto de uma guerra ideológica que instrumentaliza traumas, medos e esperanças. Reverter essa adesão exige mais que denúncias: é preciso construir contranarrativas que reconectem as diferentes lutas, sejam elas identitárias ou econômicas, e que seja capaz, como sugere Nancy Fraser, de desvelar as “moradas escondidas” do capital.

Indispensável para isto é avançarmos a organização popular, de uma forma que seja capaz de traduzir indignação em projeto coletivo e, principalmente, anticapitalista.

 

Fonte: Por Erick Kayser, em A Terra é Redonda

 

 

Consumo regular de chá-verde pode auxiliar metabolismo e reduzir inflamação

Bebida milenar conhecida por propriedades medicinais e antioxidantes, o chá-verde pode ajudar a melhorar a sensibilidade à insulina e modular o metabolismo muscular em condições de obesidade — mesmo quando eliminados fatores externos que interferem no gasto energético, como a exposição ao frio. Conduzido por pesquisadores da Universidade Cruzeiro do Sul (SP) com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), um estudo publicado na revista Cell Biochemistry and Function indica que os compostos bioativos da planta Camellia sinensis, em especial as catequinas, exercem efeitos benéficos no organismo para o controle da glicemia e o equilíbrio entre o ganho e a perda de energia.

O chá-verde é, tradicionalmente, associado à prevenção de doenças metabólicas e já havia demonstrado efeitos positivos sobre a resistência à insulina e a inflamação em modelos animais obesos. A novidade, agora, está no fato de os experimentos terem sido realizados em condições de termoneutralidade (28 °C) — temperatura na qual os animais não precisam gastar energia adicional para manter o calor corporal. Isso elimina um fator que costuma mascarar resultados de estudos metabólicos: o estresse térmico causado por ambientes frios.

“O frio excessivo ativa mecanismos regulatórios compensatórios no organismo dos animais, fazendo com que eles gastem mais energia para se manterem aquecidos. Isso pode mascarar os reais efeitos de qualquer substância”, explica a bióloga Rosemari Otton, autora sênior do trabalho. “Se os animais estiverem em um ambiente mais frio, o efeito do chá é potencializado pela ativação do gasto energético devido à baixa temperatura. Mas, ao manter a termoneutralidade, conseguimos observar os efeitos do chá-verde sem interferência ambiental”, explica.

<><> Extrato

Na pesquisa, camundongos machos foram alimentados com dieta rica em gordura durante quatro semanas, para induzir obesidade. Em seguida, parte dos animais recebeu diariamente extrato da bebida por 12 semanas, enquanto eram mantidos na temperatura neutra. No fim do experimento, os pesquisadores fizeram testes de tolerância à glicose e à insulina, além de análises detalhadas do tecido muscular.

Os animais tratados com chá-verde tiveram melhora significativa no controle da glicemia e na sensibilidade à insulina em comparação aos obesos que não receberam a substância. Os níveis de glicose em jejum dos primeiros foram semelhantes aos daqueles que receberam dieta-padrão. Além disso, os índices de resistência à insulina, medidos por testes específicos, também se aproximaram dos observados no grupo controle.

Segundo os autores, esse efeito está relacionado à modulação de genes envolvidos na captação e utilização da glicose pelo músculo esquelético, tecido responsável pela maioria dos movimentos do corpo, como a locomoção. “Cerca de 75% da glicose que retiramos do sangue após as refeições é captada pelo músculo esquelético”, lembra Rosemeri Otton. “Por isso, estratégias que melhoram a função desse tecido têm grande impacto na prevenção e no controle do diabetes tipo 2.”

<><> Eficiência

As alterações observadas pelos pesquisadores sugerem que o chá-verde favorece a eficiência energética do tecido muscular e pode contribuir para reduzir a inflamação sistêmica — processo associado ao desenvolvimento de doenças metabólicas. Outra descoberta destacada no artigo foi o aumento da atividade da enzima lactato desidrogenase (LDH) e da expressão de genes relacionados ao metabolismo do glicogênio. Isso indica que a bebida estimula o uso de glicose e a produção de lactato — um processo que, segundo estudos recentes, ajuda a combater a inflamação e melhorar a sensibilidade à insulina.

Embora os resultados sejam promissores, os testes foram realizados em camundongos e ainda precisam ser confirmados em estudos clínicos. Além disso, os pesquisadores destacam a necessidade de investigar possíveis diferenças entre os sexos — todos os animais usados no estudo eram machos — e de explorar mais a fundo o impacto do chá-verde sobre a inflamação no tecido muscular.

Rosemari Otton explica que ainda não há como determinar uma dose eficaz e segura de chá-verde para obter, em humanos, os efeitos observados nos animais, devido à variabilidade dos extratos e ao fato de cada um se comportar de forma diferente.  “O ideal é o consumo crônico, como vemos em países asiáticos. No Japão, por exemplo, as pessoas consomem a bebida todos os dias, ao longo da vida, e os índices de obesidade são baixos. Mas isso é diferente de tomar chá por cinco meses e esperar um efeito milagroso na perda de peso”, pondera.

“Beber chá-verde regularmente pode, sim, trazer benefícios para metabolismo da glicose, redução de inflamação e melhora da sensibilidade à insulina, mas em magnitude menor que no estudo, porque a dose equivalente seria muito alta para atingir apenas com infusão”, observa a nutricionista Rejane Souza, do Grupo Mantevida. “Os efeitos dependem de hábitos alimentares, prática de atividade física e quantidade e qualidade do chá (tempo de infusão, concentração de catequinas). Altas doses em forma de suplemento/extrato são estudadas, mas podem causar desconfortos gastrointestinais ou sobrecarga hepática se usadas em excesso”, observa.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

A economia da ditadura militar no Brasil

Mais do que uma análise econômica, o livro de Wilson do Nascimento Barbosa é um ato de desinfecção de uma ferida histórica mal cicatrizada, rasgando a névoa do esquecimento para expor as estruturas de poder que moldaram um Brasil cujas sequelas ainda carregamos...

A obra em questão insere-se no vasto e consistente percurso intelectual de Wilson do Nascimento Barbosa, cuja trajetória, por si só, confere densidade e legitimidade ao debate que propõe. Historiador, economista e estatístico, Wilson do Nascimento Barbosa alia a erudição acadêmica à experiência histórica vivida, sendo reconhecido também como combatente em duas guerras de libertação popular, o que o coloca em uma posição singular para analisar criticamente os vínculos entre economia, política e sociedade.

Nesse sentido, não se trata apenas de mais um livro em sua já significativa produção, mas de um trabalho que condensa maturidade intelectual, rigor metodológico e compromisso pedagógico com a memória histórica. Pela contundência da análise e pela forma como enfrenta temas ainda cercados de silêncio e distorções, pode-se afirmar que este talvez seja seu livro mais impactante até o momento, embora seja plausível esperar que novos projetos mantenham ou até ultrapassem esse nível de profundidade e ousadia crítica.

A economia da ditadura militar no Brasil (1964-1990) se apresenta como uma provocação direta a um impasse histórico que a sociedade brasileira insiste em contornar desde a Constituição de 1988. Estamos diante de uma encruzilhada: seguir em frente fingindo que nada aconteceu ou olhar em volta e para trás, reconhecendo o que se passou sob o regime militar. É precisamente nessa encruzilhada que Wilson do Nascimento Barbosa nos encontra e, ao contrário da lógica da conciliação que dominou a transição, nos convida a enfrentar a memória incômoda.

Ao estender o marco temporal até 1990, incorporando o governo de José Sarney – fruto da eleição indireta de Tancredo Neves – o autor sublinha que não se trata apenas de ajustar datas, mas de reconhecer a continuidade de um crime histórico que não se encerrou com a abertura política. Em nome da promessa de democracia, criminosos e vítimas foram colocados no mesmo plano, sob a retórica do esquecimento necessário.

Nesse ponto, Wilson Barbosa age como quem retira um curativo mal colocado sobre uma ferida profunda: expõe a chaga ainda infeccionada, mostra sua gravidade e nos convoca, como sociedade, a examiná-la e desinfetá-la, em vez de escondê-la sob bandagens ilusórias. Sua análise não admite neutralidade: a vergonha recai sobre cúmplices e coniventes, a honra cabe aos que resistiram, e aqueles que, em nome de uma pretensa “imparcialidade”, equiparam opressores e oprimidos, acabam inevitavelmente se alinhando ao lado errado da história.

Um aspecto de destaque é o próprio título da obra e, sobretudo, seu subtítulo: A Economia da Ditadura Militar no Brasil: uma abordagem pedagógica. A escolha não é meramente descritiva, mas orienta a leitura em direção a um horizonte formativo. Ao optar pelo termo “pedagógica”, o autor sinaliza que seu objetivo vai além da análise acadêmica ou da exposição crítica dos fatos; trata-se de construir um instrumento de ensino, que permita aos leitores compreenderem os nexos entre economia, política e sociedade durante o regime militar.

Nesse sentido, a pedagogia não se limita ao campo escolar, mas se projeta como prática de memória coletiva, capaz de iluminar as permanências e rupturas estruturais que o golpe de 1964 produziu no desenvolvimento brasileiro. Estudar a economia da ditadura, portanto, adquire valor didático no sentido mais amplo: formar uma consciência histórica crítica, capaz de identificar como as políticas autoritárias moldaram desigualdades, redefiniram prioridades do Estado e deixaram marcas institucionais que persistem até hoje.

Outra estratégia que contribuiu para a invisibilização crítica da economia da ditadura foi a criação de verdadeiras cortinas de fumaça em torno do próprio regime. Uma delas consiste na proliferação de hífens qualificativos – “ditadura civil-militar”, “empresarial-militar”, “midiática-militar” – que, embora revelem traços das articulações sociais do regime, acabam por diluir o núcleo central do poder, isto é, o predomínio político do aparelho repressivo, do comando das Forças Armadas e de sua máquina de coerção.

A mesma operação ocorre na divisão artificial em subperíodos de “abertura” ou “endurecimento”, como se o regime tivesse deixado de ser ditadura em determinados intervalos, quando na realidade se perpetuou como tal de 1964 a 1985. Abominações semânticas ainda mais graves surgiram em tempos recentes, como a invenção do termo “ditabranda”, não por acaso publicada em um veículo de imprensa que, no passado, deu suporte material e ideológico à repressão. Todas essas tentativas de relativização cumprem o objetivo de lançar névoa sobre um passado incômodo, que não interessa a certos setores deslindar.

O mérito de Wilson do Nascimento Barbosa, nesse contexto, é precisamente o de rasgar essa névoa, trazendo luz e definição às formas, ao insistir na materialidade dos processos econômicos e na centralidade da dominação política durante a ditadura.

O livro, assim, nos tira da indiferença e da apatia, resultantes dessa insuficiência de massa crítica qualificada sobre o tema. Ele oferece uma leitura que desafia quem minimiza ou tenta apagar os problemas do período militar, e suas sequelas. Em vez de adotar a retórica conciliatória ou a pusilanimidade que muitas vezes prevalece na oficialidade e na mídia cúmplice do golpe – seja daquele ou de outros mais recentes – a obra exige que enfrentemos os impactos do regime. Ao contrário da “imparcialidade” que coloca em um mesmo nível opressores e oprimidos, o livro estimula uma reflexão sobre as relações de poder, violência e resistência que marcaram não só o golpe de 1964, mas também os anos seguintes, quando as estruturas de dominação continuaram.

O autor destaca que a luta pela democracia no Brasil está ligada às tensões econômicas e sociais do período, cujos efeitos ainda são sentidos hoje. A obra não é apenas um relato ou análise histórica, mas um convite a reconsiderar a nossa trajetória como país, com foco nos que resistiram e naqueles que se acomodaram durante o regime.

Em sentido estrito, a obra é uma aula aplicada de metodologia em história econômica. O autor mobiliza, de modo extensivo e intensivo, praticamente todo tipo de fonte ao alcance do historiador econômico. A esse quadro soma-se o uso de uma variedade de exercícios quantitativos, próprios da chamada econometria histórica, isto é, da aplicação de métodos estatísticos e modelos quantitativos ao estudo de fenômenos econômicos do passado.

Diferentemente das abordagens que privilegiam apenas os gabinetes fechados e as decisões oficiais, Wilson do Nascimento Barbosa utiliza esses instrumentos para revelar problemas e contradições a partir da perspectiva do interesse popular, mostrando como políticas macroeconômicas afetaram diretamente o cotidiano da população. O mérito reside em sua capacidade de extrair das fontes mais reticentes – desde relatórios governamentais até notícias de jornal – informações essenciais que, embora inicialmente desconcertantes, despertam a curiosidade crítica do leitor.

Ao submeter todo material ao escrutínio máximo de sua finalidade, o professor Wilson do Nascimento Barbosa reafirma sua faceta de historiador econômico de rara riqueza e originalidade, contribuindo para uma historiografia que não se limita a repetir narrativas consagradas, mas busca iluminar dimensões esquecidas ou obscurecidas pela retórica oficial.

Como o uso é abundante, vamos citar alguns exemplos, sem o risco de atenuar o impacto aos leitores. A partir dos dados do IBGE, CEPAL e ONU, são construídas preciosidades como: um modelo empírico de crescimento da renda nacional (p. 48-51), um cálculo da tendência exponencial da dívida externa (p. 99-105), uma curva da remuneração dos empregados (conceituada como o montante de salários e vencimentos pagos, páginas 189 e 190), taxas de crescimento comparadas entre o mundo e a América Latina (p. 191), e um gráfico da evolução do produto interno a custo de fatores entre 1970 e 1990, mostrando os dois afundamentos de nosso desenvolvimento promovidos nos anos 1980 e 1990, o que transforma o conceito de “décadas perdidas” em um eufemismo para o que teria, com um pouco mais de sinceridade, tipificação no Código Penal.

Quando encontro um desses elementos em um texto de história econômica, sinto meu dia ganho. Um quentinho no coração. Pois o livro de Wilson do Nascimento Barbosa tem dezenas deles…

E quando o leitor se dá por satisfeito com a riqueza metodológica dos instrumentos de análise quantitativa, eis uma sólida análise do período sob a perspectiva materialista histórica das lutas de classe, fundamentada nas relações sociais produtivas. Não se trata de exercícios vazios, estéreis de propósito: eles caminham para a formação de uma consciência crítica baseada no conhecimento histórico. Wilson Barbosa usa a história econômica para denunciar não apenas a exploração de uma classe sobre outra, em um modo de produção. Ele também denuncia o racismo entranhado em nossa formação histórica, e a amálgama dessas duas substâncias que nos cabe cauterizar em nosso âmago como tarefa civilizacional.

Esses recursos metodológicos denunciam, também, outra encarnação de Wilson do Nascimento Barbosa: a de docente do Departamento de História da FFLCH-USP, onde, por mais de três décadas, consolidou-se como uma das maiores referências do Programa de Pós-Graduação em História Econômica, um dos primeiros criados no país. Sua atuação como professor não se limitou à transmissão de conteúdos, mas constituiu um verdadeiro espaço de formação intelectual e política, marcado pela exigência crítica, pelo rigor metodológico e pela abertura ao diálogo interdisciplinar.

Entre gerações de estudantes, Wilson do Nascimento Barbosa permanece como lembrança viva de uma prática pedagógica que unia erudição acadêmica e compromisso social, orientando trabalhos que ajudaram a dar densidade e legitimidade à historiografia econômica brasileira. Não é à toa que ele é celebrado por seus alunos sempre que abre um flanco, como este livro.

O livro também nos revela, de múltiplas maneiras, como a análise do contexto das chamadas “décadas perdidas” de 1980 e 1990 é imprescindível para compreendermos não apenas o Brasil do terceiro quartil do século XX, mas igualmente o Brasil contemporâneo. A obra evidencia a urgência de enfrentarmos o passivo histórico acumulado, cujo ponto de ruptura decisivo foi o golpe militar de 1964.

A raiz desse golpe, o conflito distributivo secular que atravessa a formação econômica e social brasileira, permanece viva e atuante, condicionando nossos limites e nossas contradições. Sem encarar de frente esse problema estrutural, o subdesenvolvimento seguirá sendo um fardo difícil de carregar. Não há atalhos, eis a lição fundamental transmitida por A Economia da Ditadura Militar no Brasil, uma história econômica do país recente que alcança a atualidade com potência crítica. Quem tiver a pretensão de compreender o Brasil de hoje precisa, inevitavelmente, passar por esse livro.

A leitura da obra também dialoga diretamente com os limites e contradições revelados pela Comissão Nacional da Verdade (2011–2014). Embora tenha cumprido um papel fundamental ao sistematizar informações, documentar violações e oferecer um retrato contundente da violência estatal, a Comissão deixou em aberto a dimensão econômica do regime militar, isto é, a rede de interesses empresariais, financeiros e políticos que sustentaram a ditadura. Ao não avançar suficientemente sobre esses aspectos, preservou-se, em grande medida, o silêncio em torno das estruturas de poder que se beneficiaram do autoritarismo.

É nesse ponto que o trabalho de Wilson do Nascimento Barbosa se destaca: ao expor a economia política da repressão e mostrar como o modelo de desenvolvimento imposto perpetuou desigualdades, sua análise complementa e aprofunda o que a Comissão deixou de evidenciar. Mais do que nunca, torna-se necessário que o Estado brasileiro retome os trabalhos da Comissão, reabra seus caminhos e, sobretudo, transforme suas deliberações em políticas públicas concretas – de reparação, de memória e de responsabilização – capazes de enfrentar a herança autoritária e de consolidar uma democracia fundada na verdade histórica e na justiça social.

Nessa trajetória interpretativa, o professor Wilson do Nascimento Barbosa transmite a integralidade de sua leitura da história, convocando as gerações posteriores – algumas delas suas próprias alunas – a engrossar o coro da necessidade de curarmos a ferida ainda aberta de nossa trajetória como sociedade. Sua obra se coloca como convite e desafio: não basta contemplar o passado, é preciso revisitar suas marcas, enfrentá-las e elaborar, coletivamente, uma resposta que rompa com a lógica de esquecimento que ainda predomina.

Estamos diante do melhor livro do professor Wilson até o momento. Mas esse reconhecimento não o isenta de continuar escrevendo: pelo contrário, reforça a expectativa de que prossiga, pois sua produção segue sendo necessária para iluminar os caminhos da historiografia econômica crítica. Esperamos os próximos, certos de que ainda há muito a receber de sua pena e de seu magistério.

 

Fonte: Por Luiz Eduardo Simões de Souza, em a Terra é Redonda

 

Na Venezuela, Trump está literalmente envolvido num assassinato

Em 15 de setembro de 2025, a Casa Branca de Trump anunciou, novamente, que havia realizado um ataque militar a um barco no Caribe. Segundo o governo, três pessoas foram mortas. Este é o segundo ataque desse tipo em duas semanas. Em 2 de setembro, onze pessoas estavam em uma pequena lancha em águas internacionais quando também foram mortas por um ataque militar dos EUA. As execuções sumárias foram registradas em vídeo e publicadas com alarde nas redes sociais pelo governo dos EUA.

O governo Trump justificou esses assassinatos alegando que os indivíduos faziam parte de um cartel venezuelano e estavam envolvidos no tráfico de drogas. Alegando que os cartéis de drogas são terroristas e que overdoses significam que os traficantes representam uma ameaça aos Estados Unidos, o governo alegou que essa ação militar letal era justificada. Apesar disso, não apresentou nenhuma evidência de que qualquer um dos indivíduos estivesse envolvido no tráfico de drogas ou fizesse parte de um cartel.

E o governo deu explicações inconsistentes sobre o que exatamente aconteceu. Após o primeiro ataque, o Secretário de Estado Marco Rubio inicialmente alegou que a embarcação não se dirigia aos EUA, mas sim a outra ilha no Caribe. O governo então mudou de tom, alegando que a lancha quadrimotora se dirigia da Venezuela para os Estados Unidos. Também foi revelado que a embarcação havia dado meia-volta após se assustar com uma aeronave militar estadunidense que voava à sua frente. Os militares estadunidenses dispararam repetidamente contra a embarcação para matar os sobreviventes do ataque inicial.

Esses ataques militares a pequenas embarcações representam duas tendências preocupantes na Casa Branca de Trump. Primeiro, há o crescente uso das Forças Armadas pelo governo para questões criminais de rotina ou para o controle de imigração. No início de seu mandato, Donald Trump invocou a Lei de Inimigos Estrangeiros. Essa medida de guerra permite ao presidente deter e deportar estrangeiros com base em sua origem nacional em caso de declaração de guerra ou invasão empreendida por outro país.

A Casa Branca alegou que o governo venezuelano controlava o Tren de Aragua, uma organização criminosa. Segundo a declaração, essa gangue estaria invadindo os Estados Unidos. Se essa lógica fosse seguida até o fim, os EUA estariam em estado de guerra com a Venezuela. Apesar das alegações de Trump ao invocar a medida de guerra, as agências de inteligência não acreditam que o Tren de Aragua seja controlado pelo governo venezuelano.

Rubio também classificou diversos outros cartéis latino-americanos como “Organizações Terroristas Estrangeiras” e “Terroristas Globais Especialmente Designados”. Após essa decisão, Trump assinou uma ordem secreta permitindo que seu Departamento de Guerra tomasse medidas militares contra cartéis da América Latina reconhecidos. Trump afirmou publicamente que os mortos eram membros do Tren de Aragua. No entanto, em um relatório ao Congresso exigido pela Resolução sobre Poderes de Guerra, Trump não especificou a qual grupo os indivíduos supostamente pertenciam.

Além de usar os militares para transformar a fracassada “guerra às drogas” em uma guerra literal, a Casa Branca vem aumentando as tensões com a Venezuela. Durante o primeiro mandato de Trump, seu governo apresentou uma acusação profundamente suspeita contra o presidente venezuelano Nicolás Maduro por tráfico de drogas. Em agosto, o governo Trump aumentou a recompensa por informações que levassem à prisão de Maduro para US$ 50 milhões. Isso é o dobro da recompensa anteriormente oferecida em relação a Osama bin Laden. Após essa ação, o governo Trump enviou 4.500 militares para o Caribe, acompanhados por sete navios de guerra e um submarino nuclear. Desde o primeiro bombardeio de barco, os Estados Unidos enviaram caças F-35 e drones ceifadores para Porto Rico. A Axios relatou : “Os EUA nunca estiveram tão perto de um conflito armado com a Venezuela”.

Trump não tem qualquer aprovação do Congresso para uma ação militar contra a Venezuela ou o Tren de Aragua. Trump está envolvido em assassinato, pura e simplesmente. O tráfico de drogas é um crime, não um ato de guerra. A Guarda Costeira possui protocolos para interceptar embarcações suspeitas de tráfico de drogas. A Guarda Costeira deve parar a embarcação, não matar primeiro e fazer perguntas depois. O presidente não pode simplesmente ordenar a morte de alguém porque alega que cometeu um crime. Tal medida viola não apenas as garantias constitucionais de devido processo legal, mas também a proibição do direito internacional de execuções extrajudiciais.

<><> Assassinatos, assassinatos seletivos e execuções extrajudiciais

Apolítica externa dos EUA tem um histórico sombrio de execuções extrajudiciais. Durante a Guerra Fria, a CIA inegavelmente conspirou para assassinar líderes estrangeiros. Durante a Guerra do Vietnã, a CIA administrou o Programa Fênix, um “programa antisubversão” que resultou na “neutralização” de mais de 20.000 supostos membros do Vietcong por meio de execuções extrajudiciais. A CIA também forneceu os nomes de supostos comunistas ao Partido Baath iraquiano e aos militares indonésios, sabendo que eles enfrentariam tortura ou morte.

Após revelações sobre assassinatos cometidos pela CIA, o presidente Gerald Ford promulgou uma ordem executiva proibindo a participação dos EUA em “assassinatos políticos”. Jimmy Carter expandiu a proibição para todos os assassinatos. Ronald Reagan fez campanha para o cargo com a promessa de liberar a CIA. Ele revogou a ordem executiva de Carter, projetada para limitar as agências de inteligência, e a substituiu por uma nova ordem que expandia seus poderes. No entanto, embora a ordem de Reagan fosse produto da raiva da “Nova Direita” contra os controles sobre abusos de segurança nacional, ele manteve a proibição de assassinatos em vigor. Até o momento, ela continua sendo a política oficial dos EUA. Todas as ordens falharam em definir assassinato e, com alguma advocacia criativa, o poder executivo conseguiu retomar e expandir o negócio de assassinatos.

A história de assassinatos extrajudiciais dos Estados Unidos está entrelaçada com sua aliança com Israel. Embora muitos Estados tenham usado assassinatos como ferramenta política, Israel foi verdadeiramente pioneiro nessa prática. Embora o assassinato de líderes palestinos por Israel não fosse segredo, no início dos anos 2000, o país tornou público o fato de ter um programa de “assassinatos seletivos”. Assassinatos seletivos não é um termo definido no direito internacional; é claramente um eufemismo criado para contornar a proibição de execuções extrajudiciais.

Inicialmente, o governo George W. Bush se opôs publicamente aos assassinatos seletivos cometidos por Israel. Enquanto o congressista democrata John Conyers apontava o uso de armas estadunidenses nos ataques, instando uma investigação, outros democratas adotaram uma abordagem diferente. Criticaram a oposição do governo Bush aos assassinatos israelenses. O futuro presidente Joe Biden foi um dos apoiadores no Congresso dos assassinatos seletivos cometidos por Israel. E dentro da Casa Branca de Bush, havia pelo menos um dissidente: o vice-presidente Dick Cheney deixou claro seu apoio à política israelense.

A disposição de Bush em armar os assassinatos seletivos de Israel sempre suscitou suspeitas na oposição pública ao seu governo. Mas ele também se animava claramente com a prática. Em 2008, a CIA trabalhou diretamente com o Mossad israelense para levar a cabo o assassinato de Imad Mughniyeh, do Hezbollah. O assassinato ocorreu com um carro-bomba dentro da Síria. Os Estados Unidos argumentaram que Mughniyeh era uma ameaça iminente e, portanto, seu assassinato não violava a proibição de assassinatos.

Mais importante ainda, após o 11 de Setembro, os EUA adotaram “assassinatos seletivos” como parte de sua “guerra ao terror”. Muitos desses assassinatos foram realizados por drones não tripulados. O governo Bush se baseou no conhecimento operacional de Israel sobre como realizar tais assassinatos. E buscou aconselhamento jurídico israelense sobre como justificar os assassinatos seletivos sob o direito internacional.

Bush pode ter iniciado esse programa, mas ele foi dramaticamente expandido por Barack Obama. Em um dos atos autoritários mais chocantes de qualquer presidente estadunidense, Obama ordenou a execução por drone de Anwar al-Awlaki, um cidadão estadunidense acusado de ser propagandista da Al-Qaeda. Segundo as leis de conflitos armados, um propagandista não é um alvo militar. O assassinato de um cidadão estadunidense por Obama gerou controvérsia pública. Como resultado, o governo divulgou um memorando jurídico altamente redigido justificando o assassinato. Uma das seções citava uma decisão judicial israelense que decretava que tais assassinatos seletivos eram permitidos pelo direito internacional.

O programa de assassinatos de Bush e Obama paira sobre o assassinato sumário de supostos membros de cartéis no Caribe, perpetrado por Trump. Embora não seja mencionado no frágil relatório de Trump ao Congresso, grande parte da lógica por trás do assassinato é que, durante a guerra global contra o terrorismo, presidentes anteriores ordenaram a execução de “terroristas”.

Trump rotulou as gangues venezuelanas de terroristas, o que justifica usar a força contra elas, assim como Obama realizou sua guerra de drones através das fronteiras. Embora não devamos encobrir o programa de drones — foi uma afronta assassina à Declaração de Direitos e ao direito internacional —, há uma diferença jurídica fundamental. Bush e Obama alegaram que os Estados Unidos estavam em um conflito armado internacional com o Talibã, a Al-Qaeda e “forças associadas”. Esse conflito foi produto de uma autorização do Congresso para o uso da força contra os indivíduos e nações que planejaram o ataque de 11 de setembro ou os abrigaram.

Não há conflito armado internacional entre os EUA e traficantes de drogas. E o Congresso não deu qualquer aprovação a tal campanha militar. A Autorização para Uso da Força Militar de 2001 foi excessivamente ampla, os presidentes a levaram muito além de qualquer interpretação lógica de seu escopo, e os assassinatos por drones foram assassinatos, não atos legais de legítima defesa. No entanto, a ação de Trump aqui é uma expansão de uma prática já perturbadora.

A designação de cartéis como terroristas por Trump baseia-se em duas leis: a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional e a Lei de Imigração e Nacionalidade. Desde uma ordem executiva de Bill Clinton em 1995, presidentes têm usado a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional para impor sanções e bloquear as transações financeiras de supostos terroristas. Clinton inicialmente aplicou essa designação a “terroristas” que “ameaçavam o processo de paz no Oriente Médio”. Embora sua ordem permaneça em vigor, Bush expandiu essa estrutura com sua própria ordem executiva contra terroristas de forma ampla. Foi sob essa ordem que o governo Trump designou os cartéis de drogas como Terroristas Globais Especialmente Designados.

Em 1997, a pedido de Clinton, o Congresso aprovou a Lei Antiterrorismo e Pena de Morte Efetiva, de autoria republicana. A lei alterou a Lei de Imigração e Nacionalidade para permitir que o Secretário de Estado designasse unilateralmente grupos estrangeiros como “Organizações Terroristas Estrangeiras”. A Lei Antiterrorismo e Pena de Morte Efetiva também tornou crime o fornecimento de “apoio material” a uma Organização Terrorista Estrangeira designada.

Embora seja crime, segundo ambos os estatutos, fornecer uma variedade de apoio ou serviços a um grupo terrorista incluído na lista negra, a designação em si não é resultado de um processo criminal. O rótulo de Organização Terrorista Estrangeira só pode ser aplicado a organizações estrangeiras. A designação, segundo a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional, pode ser aplicada a grupos ou mesmo a indivíduos estadunidenses. O primeiro cidadão dos EUA designado como terrorista pela lei só foi acusado de qualquer crime anos depois. E mesmo após ser absolvido de todas as acusações de crimes de terrorismo, ele permaneceu sancionado até que uma ação judicial fosse movida.

Segundo a lógica de Trump, alguém absolvido de acusações de terrorismo poderia ser assassinado pelo presidente apenas por causa de uma designação abusiva e ampla. No entanto, as leis não conferem tal poder. Elas foram uma resposta ao pânico de meados da década de 1990 de que as rígidas proteções da Primeira Emenda dos Estados Unidos o haviam transformado em um paraíso para a arrecadação de fundos para terroristas. As leis, embora amplas e abusivas, não eram autorizações de uso de força militar, mas proibições criminais ao apoio material a grupos incluídos na lista negra.

<><> Guerra às drogas ou mudança de regime?

Os assassinatos empreendidos por Trump ocorrem em um momento de crescentes tensões entre os Estados Unidos e a Venezuela, tensões pelas quais a Casa Branca é responsável. Tudo isso se baseia em alegações sobre o papel do governo venezuelano no tráfico internacional de drogas. O governo chegou a afirmar que Maduro é o chefe do Cartel de los Soles. Todas essas alegações são profundamente suspeitas, para dizer o mínimo. Especialistas não apenas afirmaram que a Venezuela não é um ator importante no tráfico de drogas, mas que o Cartel de los Soles nem sequer existe. Isso coloca em xeque os motivos do governo Trump para o aumento do contingente militar.

Por quase duas décadas, sucessivos governos estadunidenses buscaram minar ou derrubar os governos de esquerda de Hugo Chávez e Nicolás Maduro. Durante o primeiro mandato de Trump, ele aumentou as sanções ao país, o que, segundo o Centro de Pesquisa Econômica e Política, resultou na morte de 40.000 pessoas. As sanções também ajudaram a alimentar uma crise de refugiados, que Trump explorou cinicamente como parte de sua demonização xenófoba dos migrantes. Durante seu primeiro mandato, Trump também reconheceu um governo venezuelano alternativo que não tinha poder político real. Em seguida, tomou a embaixada da Venezuela em Washington, DC, do atual governo Maduro, entregando-a ao governo fictício apoiado por Washington.

Tudo isso não teve nada a ver com o combate às drogas; mas sim com as fantasias de mudança de regime de neoconservadores linha-dura do governo Trump, como John Bolton e Elliott Abrams. Trump teve um desentendimento dramático com Bolton, mas um dos maiores apoiadores dessa política era o então senador Marco Rubio. Rubio é agora secretário de Estado de Trump, e está claro que ele continua obstinado em sua tentativa de derrubar o governo da Venezuela.

O secretário de Guerra de Trump, Pete Hegseth, deixou claro que uma mudança de regime não está descartada. Se a suposta guerra às drogas de Trump resultar em um esforço em larga escala para remover um governo desfavorecido por Washington, dificilmente será a primeira guerra dos EUA a ser iniciada sob falsos pretextos. Mentiras sobre um ataque norte-vietnamita a um navio estadunidense no Golfo de Tonkin ou sobre as armas de destruição em massa do Iraque e seus laços com o 11 de setembro abriram caminho para duas das guerras mais desastrosas dos EUA no pós-Segunda Guerra Mundial. E foi com o propósito declarado de prender o ditador panamenho Manuel Noriega, um ex-agente da CIA cujas relações com os Estados Unidos azedaram, sob acusações de tráfico de drogas, que os EUA invadiram o Panamá. A invasão, apelidada pelo governo George H. W. Bush de “Operação Causa Justa”, deixou 3.500 panamenhos mortos. O esforço renovado para prender Maduro por acusações altamente questionáveis ​​de tráfico de drogas, acompanhado de um reforço militar, criou um medo justificável de que o governo Trump esteja revivendo um velho manual.

<><> Militarismo e a ameaça de Trump

Quer Trump leve os Estados Unidos a uma guerra mais ampla de mudança de regime com a Venezuela ou simplesmente faça da prática de assassinatos seletivos na guerra contra o terrorismo uma marca registrada da guerra às drogas, esses atos de militarismo representam alguns dos maiores perigos do segundo mandato de Trump. A ameaça de Trump é real, mas não é sui generis. Ela está enraizada no legado do militarismo estadunidense e de um Estado de segurança nacional que reivindica o direito de matar sem julgamento através das fronteiras.

No entanto, muitos dos oponentes liberais de Trump têm procurado resistir às suas tendências autoritárias enquanto fecham os olhos ao militarismo. Durante a eleição de 2024, Trump tentou se retratar falsamente para um público cauteloso como antiguerra. Em vez de apontar suas mentiras, seus oponentes nas campanhas de Biden e Kamala Harris se apresentaram como melhores administradores do leviatã da segurança nacional dos Estados Unidos. Eles veicularam anúncios promovendo como mantiveram o fluxo de armas para a guerra estagnada entre Ucrânia e Rússia, desfilaram com Liz Cheney, apregoaram o apoio de Dick Cheney, prometeram a força de combate mais letal do mundo e ignoraram a raiva justificada de sua própria base por seu papel em facilitar um genocídio em Gaza. E em nenhum momento durante os quatro anos de Biden eles procuraram desfazer suas sanções à Venezuela, que levaram a uma catástrofe humanitária.

Agora, Trump está de volta ao poder. E ele colocou os Estados Unidos à beira da guerra, expandindo os poderes de guerra já régios do presidente. Não há antídoto para sua ameaça autoritária que deixe o Estado de segurança nacional intocado.

 

Fonte: Por Chip Gibbons – Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil