segunda-feira, 30 de junho de 2025

Gilberto Menezes Côrtes: Se não é bom pros EUA, por que serve ao Brasil?

Imagina se fosse o presidente Lula que dissesse essa frase: "Estamos pagando 900 bilhões a mais por ano [de juros] por causa desse cara. Acho ele estúpido. Ele é uma pessoa mentalmente muito mediana", disparou o presidente. Lula esteve perto de dizer coisas desse tipo para o ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. O setor público brasileiro pagou R$ 950,4 bilhões em juros no ano passado, o último da gestão Campos Neto. Lula recebia pedradas do mercado financeiro quando só criticava a demora do Banco Central em baixar os juros para animar o consumo e a economia. Jamais cogitou de abreviar o mandato do neto do ex-ministro do Planejamento Roberto de Oliveira Campos, nem mexer na independência do banco. Quando o mandato expirou em 31 de dezembro de 2024, o ex-diretor de Política Monetária, Gabriel Galípolo, indicado por Lula, foi escolhido para suceder a Campos Neto, em 1º de janeiro, com seu nome aprovado pelo Senado Federal. [Dia 30 acaba a quarentena (bancada pelo Tesouro) e Campos Neto já pode assumir um alto cargo no Nubank, que não é banco e deve perder o nome fantasia e adotar só o "Nu", mas com um ex-presidente do BC na diretoria].

Mas quem disse essa frase, como afronta ao Federal Reserve Bank, e em ameaça ao cumprimento do mandato de seu presidente, Jerome Powell, foi o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Os EUA estão com uma dívida pública de US$ 36 bilhões e os juros da dívida (4,25% a 4,50% ao ano) custam US$ 900 bilhões anualmente. Mas se houve estranhamento em Wall Street contra a interferência de Trump nas decisões do Fed e em abreviar o mandato de Jerome Powell, que vence em maio de 2026, nada se ouviu na Faria Lima, sempre diligente em defender a ortodoxia dos bancos centrais, e que se insurgiu contra a cobrança de IOF para compensar os ônus ao Tesouro Nacional causado pela escalada de juros concentradora de renda.

Com a Selic em 15% ao ano, para uma dívida pública líquida em títulos de R$ 7,361 trilhões em abril (os dados de maio sairão dia 30), cada aumento de um ponto na Selic custa R$ 55,6 bilhões ao fim de 12 meses. Desde junho de 2024, a Selic subiu de 10,50% para 15%, com uma transferência de renda contratada de mais de R$ 230 bilhões para o sistema financeiro e os rentistas. Em maio, os bancos e instituições financeiras, incluindo “fintechs”, detinham 30,14% dos papéis da dívida, os fundos de pensão e de previdência privada controlavam 23,60% da dívida, os fundos de investimentos tinham 22,40%, atendendo aos rentistas, e os não residentes (estrangeiros e brasileiros com “off-shore” em paraísos fiscais) bancavam 9,88% da dívida. Por isso, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, quer buscar uma parte do ganho extra com IOF e IR sobre papéis até aqui isentos (Letras de Crédito Agropecuário e Letras de Crédito Imobiliário). E o governo resolveu recorrer ao Supremo Tribunal Federal para manter a medida derrubada pelo Congresso.
Nos EUA, Trump, além do seu interesse particular em baixar os juros para reativar seu patrimônio imobiliário, a bazuca contra Jerome Powell visa tirar de suas costas, pelo impacto do tarifaço nas importações (tantas vezes recuado), a responsabilidade pela forte desaceleração da economia americana. Assim como despejou superbombas sobre as instalações nucleares do Irã, Trump mirou seu arsenal verborrágico contra Powell. O mandato de cada presidente do Fed é de quatro anos, mas essa função é exercida dentro de um cargo maior: o de membro do Conselho de governadores do Fed, cuja duração é de 14 anos. Jerome Powell foi nomeado membro do Conselho em 2012, por Barack Obama, e depois promovido a presidente do Fed por Trump em 2017. Em 2022, foi reconduzido ao cargo por Joe Biden. Seu mandato presidencial termina em maio de 2026, mas ele poderia continuar no Conselho até 2028, salvo renúncia ou remoção por justa causa.

<><> O que é bom para os EUA...

Ficou famosa no primeiro governo militar (marechal Castelo Branco) a frase do então embaixador do Brasil nos Estados Unidos, Juracy Magalhães, que viria a ser nomeado ministro das Relações Exteriores: “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. Foi largamente explorada pelos nacionalistas e opositores do regime militar como o máximo do servilismo entreguista. Mas a frase é uma cópia do que disse, em meados dos anos 50, o ex-presidente da General Motors (GM), Charles Wilson, ao ser nomeado pelo presidente Eisenhower como secretário da Defesa. Disse Wilson: "O que é bom para a América é bom para a General Motors e vice-versa". Na época, a GM era a maior empresa americana e a maior fabricante mundial de automóveis.

Na guerra de nervos contra Jerome Powell, que tem adotado um tom cauteloso à frente do Fed, justamente devido às incertezas causadas pelo tarifaço no aumento da inflação doméstica, Trump já teria nomes ventilados para o cargo, segundo o “Wall Street Journal”. O secretário do Tesouro, Scott Benset, encabeça a lista. Outro nome seria o do diretor do Fed, Christopher Waller, da ala mais moderada do banco central americano. Semana passada, Waller defendeu a possibilidade de o Fed já discutir a redução das taxas de juros na reunião de 30 de julho. Outra possível indicação seria de Kevin Hassett, diretor do Conselho Econômico Nacional. Corre por fora, segundo a agência Dow Jones, o ex-governador do Fed e membro da Hoover Institution, Kevin Warsh.

<><> Os paradoxos da Câmara dos deputados

Tão diligentes e servis na defesa da austeridade fiscal, que veta qualquer aumento de impostos mesmo concentrado nos ganhadores da alta dos juros da dívida pública e dos papéis privados – os bancos e fundos de investimentos das instituições financeiras representam mais de 52,5% dos rentistas –, e insistentes em cortes de programas sociais do governo (o Orçamento Secreto e as verbas parlamentares são intocáveis), na mesma semana em que infligiram uma dura derrota ao governo - 383 votos a 98 contra os aumentos de impostos sobre operações financeiras -, os (as) senhores (as) parlamentares aprovaram o aumento do número de assentos na Câmara dos Deputados dos atuais 513 para 531, a partir de 2027. Na eleição de outubro de 2026, serão criados mais 18 cargos de deputados com todas as mordomias já conhecidas: casa, verbas para gasolina dos carros oficiais e passagens aéreas à vontade para ida aos estados, além de cotas para nomear mais de uma dúzia de assessores parlamentares. Alguns deles, a exemplo dos chefes, nem batem ponto.

Quando votaram a maior derrota do governo Lula, já de olho nas eleições de 2026, com a tática mais comum da política – a tocaia - mais da metade dos 398 deputados que aprovaram o Projeto de Lei do Legislativo para derrubar o IOF e outras propostas de taxação (IR de 5% para 2026 sobre LCAs e LCIs) nem estava no plenário ou até mesmo em Brasília. Desde que, na pandemia da Covid-19, o então presidente da Câmara dos Deputados Arthur Lira (PP-AL), reeleito em 2023 para mais dois anos até 1ºde fevereiro de 2025, quando foi sucedido por Hugo Motta (Republicanos-PB), adotou a aprovação de matérias pelo Sistema Remoto de Votação, passada a pandemia o hábito fez o monge. Em vez do voto declarado e assumido no plenário ou nas mesas e cabines de votação da Câmara (que impedia que terceiros votassem pelo parlamentar), agora é possível votar remotamente pelo telefone celular até de locais menos ortodoxos. Na semana de São João, a maioria dos parlamentares estava em campanha nas festas juninas em seus estados. Um assessor pode, perfeitamente, ter votado pelo chefe. Circula no plenário, em forma de piada, a informação de que alguns votos contrariaram a orientação da bancada porque o parlamentar (ou seu assessor) abusou do quentão durante o forró.

Mas a questão é que o mesmo Congresso Nacional que barra impostos sobre os rendimentos dos ricos ou reluta em cortar parte dos R$ 800 bilhões em subsídios e incentivos fiscais que causam um rombo no Tesouro Nacional, não mostra coerência quando aprova (na Câmara e no Senado) o aumento das bancadas federais dos estados, de acordo com o crescimento da população apontado pelo IBGE no Censo 2022. O aumento de 18 vagas vai implicar, de imediato, gastos anuais de mais R$ 64,6 milhões. A Câmara jura que ficará só nisso. Você acredita, caro leitor?

Desde a Constituição de 1988 as bancadas não aumentavam: o teto é dos 70 representantes de São Paulo (estado mais populoso). Minas Gerais vai aumentar de 53 para 54 deputados. Pará e Santa Catarina ganharão mais quatro cadeiras. Aumentam duas Amazonas, Mato Grosso e Rio Grande do Norte. Ganham uma cadeira, Ceará, Goiás e Paraná, cuja população supera a do Rio Grande do Sul e agora os dois estados terão 31 representantes. O RS estava, ao lado de Alagoas (9) e do Rio de Janeiro (46), entre os três estados que perderam população. Mas o Congresso só quer saber de salvar a própria pele (alguns estão sendo presos por falcatruas na distribuição de verbas do Orçamento Secreto) e de propor cortes nos programas sociais. Imagina fazer na própria carne? A bancada mínima é de 8 deputados. O Senado manterá as 81 vagas, mas o Congresso incha de 594 para 612 parlamentares com as suas mordomias. Aliás, 65 anos após a criação de Brasília, com a capital federal sendo a terceira metrópole do país, faz sentido sustentar as idas e vindas semanais dos parlamentares a seus estados e o expediente de três dias no Congresso (terça, quarta e quinta-feira)? Nos EUA e Europa não há isso.

¨      Há muito de Maria Antonieta no Congresso. Por Adhemar Bahadian

O jabuti, como a jaboticaba, são particularidades nossas. Tente explicar a um suíço que uma lei brasileira foi vetada pelo presidente da República porque o Congresso enfiou nela na última hora uma jaboticaba ou um jabuti.

Talvez o suíço até compreenderia se explicássemos que o jabuti é uma espécie de “mão de gato”, imagem com alguma quilometragem e passaporte carimbado.

Mas, nós sabemos como ninguém que o jabuti é bem mais astuto e audacioso que uma felpuda mão de gato. Mais temível. Mais ardiloso. Às vezes, o jabuti é enviado como um míssil com o objetivo claro e insofismável de implodir um projeto de lei que teria levado meses para ser negociado e na última hora surge, como nas noites do Oriente Médio, um clarão que a tudo destrói e a tudo dizima. Tristes tempos.

Mas há jabutis e associados. Há o jabuti-preguiça, que se instala cedo nas negociações e fica ali pendendo ameaçador enquanto não vê satisfeitas alguma esmolinha ali outra aqui. Há o jabuti-pátria-amada que se reveste de verde-amarelo como se fosse de imperiosa necessidade para a sorte da nação, e não passa de um reles busca-pé, geralmente lançado pela indústria armamentista revestida de princesa Isabel.

E há os grandes jabutis, gigantes pela própria natureza, arquitetados nos porões sinistros da cobiça, fervidos nos panelões da astúcia libidinosamente monetária, mas recobertos de uma cínica música de fundo patriótica.

Esses, é bom que se diga, muito se beneficiam da assessoria qualificada de luminares da pirataria e pululam em textos internacionais muito “respeitados”.

Um bom exemplo, sempre recordo, é o Acordo TRIPS na OMC, reverenciado marco do comércio livre, e não passa de um desaforado instrumento de proteção da Big-Pharma, com uma abusiva regulamentação sobre as patentes farmacêuticas.

O impacto de TRIPS na pandemia do COVID é mais do que sabido. Vergonhoso. Desumano na exploração dos países pobres sem recursos para pagar os “royalties” de vacinas e outros medicamentos.

Mas o que impressiona é a arquitetura de mentiras e falsidades que fazem de TRIPS uma conquista dos séculos, ainda que tornando mais rígido e discriminatório o comércio internacional.

Para melhor compreender este fenômeno teríamos que levantar o tapete dos salões dos passos perdidos, onde se acumula o lixo não digerido da ordem internacional predatória a fazer água nos dias que correm, quando as locomotivas das ilusões perdidas descarrilam nas curvas do neoliberalismo antropofágico.

E os índices de desníveis sociais empurram as massas e as elites na mesma conversa fiada de extremismo autoritário, rebento bastardo do nazismo, e sua apologia do nacionalismo trumpista que, dentre outras coisas mais, empurra os Estados Unidos da América para a categoria de um Estado-Pária.
Temido por sua cegueira diante dos males que salpica diariamente nas vidas dos cidadãos deste planeta, principalmente dos que se dedicam a aprender e a ensinar o caminho da liberdade e da real autonomia humana.

Nunca jamais em tempo algum, talvez só nos miseráveis tempos da Inquisição religiosa medieval, se viu tantos ataques à ciência e às universidades como agora se constata nas melhores cidades dos Estados Unidos.

Mas esta digressão não deve nos afastar do tema central desta nossa conversa de hoje neste Brasil que recebe um respiro de alívio com o sucesso de nossos clubes diante dos Europeus. Fazia muito que não via o Botafogo com tanta garra. Pareceu que Newton Santos e Didi baixaram no campo. Um refrigério.

Mas nada nos deve desviar a atenção do jabuti-caviar que se instalou no Congresso Nacional. O fenômeno se assemelha, pela forma e pelo conteúdo, com o acordo TRIPS que acima recordei. Com um agravante: nenhum Congresso de país algum do mundo tem a percentagem equivalente do Orçamento Nacional para distribuição enigmática e não-transparente. É jabuti-caviar na veia.

Hoje as emendas parlamentares chegam a 50 bilhões de reais anuais e se pretende ir além.

As perguntas que nós fazemos todos a deputados e senadores são simples e diretas? Por que essas emendas são na sua maioria secretas?

Por que tanta relutância em permitir o acesso do eleitorado ao quadro geral das distribuições das emendas?

Estarão elas escondendo algo de antidemocrático quanto parece? Por que elas são intocáveis no esforço do equilíbrio fiscal?

O maior equívoco que existe neste episódio todo é a atitude do Congresso de abespinhar-se com as mais do que pertinentes explicações que legitimamente fazemos.

Ou será que nós, eleitores, estamos errados?

Há muito de Maria Antonieta e “se não tem pão comam brioches” nesta atitude do Congresso. Sabemos o fim de Maria Antonieta. Não é o que o povo brasileiro deseja imitar.

A Democracia é transparente e o voto é o único instrumento de defesa da sociedade. O resto é maquiavelismo de botequim. Milagre de São Balalão.

 

Fonte: JB

 


 

8 curiosidades que você provavelmente não sabe sobre Raul Seixas

Neste sábado (28/6), o cantor e compositor Raul Seixas (1945-1989) completaria 80 anos.

Autor de Ouro de Tolo, Metamorfose Ambulante e Mosca na Sopa, o baiano de Salvador, vítima do alcoolismo aos 44 anos, viveu pouco e intensamente.

Abaixo, oito curiosidades que provavelmente você não sabia sobre um dos maiores nomes do rock brasileiro — incluindo as alfinetadas que trocou com Belchior, um suposto encontro com John Lennon, as composições de música brega, o sonho da Cidade das Estrelas e um velório tumultuado.

>>> 1. O segurança faixa preta

Raul vivia tendo crises de paranoia, surtos que passaram a ser frequentes no fim dos anos 1970, fase em que o cantor mergulhou fundo no uso de cocaína.

Em visita ao apartamento do roqueiro, no bairro carioca de Copacabana, Caetano Veloso foi recebido por um Raul armado com dois revólveres calibre 38 na cintura, ao melhor estilo Cowboy Fora da Lei, pronto para um duelo imaginário.

Veloso já contou essa história em algumas ocasiões, inclusive em seu livro Verdade Tropical.

Neste mesmo apartamento de Raul moravam dois argentinos: Oscar Rasmussen e Hugo Amorrortu.

O primeiro virou parceiro de Raul no disco Por quem os sinos dobram, considerado o pior álbum da discografia do roqueiro — havia uma suspeita, jamais confirmada, de que Rasmussen fornecia cocaína em troca de parceria nas composições, o que poderia explicar a baixa qualidade do disco.

O segundo argentino, Hugo Amorrortu, faixa preta de caratê, virou segurança de Raul.

Em dezembro de 1979, de acordo com uma matéria do jornal O Globo, o próprio Amorrortu acabaria assassinado dentro do apartamento de Raul ao perceber que traficantes estariam lhe vendendo açúcar em vez de cocaína. Ao reagir, o argentino trocou tiros com os traficantes e acabou morto.

>>> 2. O falso encontro com John

Em 1989, em entrevista ao programa Jô Soares Onze e Meia, do SBT, Raul falou sobre os quatro dias em que ele e Paulo Coelho, amigo e escritor, tornaram-se hóspedes de ninguém menos do que o cantor e ex-Beatle John Lennon. Tudo mentira.

"Conversamos sobre as pessoas que fizeram a cabeça do planeta Terra, e aí ele me perguntou qual a grande figura do Brasil. Eu não tinha ninguém para citar, falei Café Filho [presidente do Brasil entre 1954 e 1955]. Ele perguntou: 'Quem?' Aí eu disse: 'Nada...'"

Segundo Raul, ele e John teriam trocado cartas por muito tempo — o que explicaria o convite para hospedá-lo em Nova York.

"A gente já se comunicava sobre a Sociedade Alternativa [filosofia propagada por Raul]. Ficamos amigos", disse o cantor em entrevista ao jornalista Pedro Bial em 1983.

Ele e Paulo Coelho estiveram sim no edifício Dakota, em Nova York, mas só conseguiram trocar meia dúzia de palavras com Yoko Ono, esposa de Lennon que os recebeu na portaria e os despachou sem cerimônia.

Isso foi em 1974.

Seis anos depois, exatamente no mesmo lugar, John Lennon foi assassinado por Mark Chapman, que estava longe de ser um maluco beleza.

>>> 3. Raul x Belchior

Mas é que se agora para fazer sucesso/ Para vender disco de protesto/ Todo mundo tem que reclamar/ Eu vou tirar meu pé da estrada/ E vou entrar também nessa jogada/ E vamos ver agora quem é que vai aguentar.

Numa de suas melhores e mais sarcásticas canções, Eu também vou reclamar, gravada no disco Há dez mil anos atrás, de 1976, Raul ironizava os compositores que insistiam em choramingar, falando dos mesmos temas de sempre.

Era uma indireta a Belchior, o compositor cearense que cantava as agruras do nordeste, seguindo, para Raul, a velha receita de fazer música de protesto para vender discos.

Raul não cita Belchior nominalmente na letra de Eu também vou reclamar, mas é fácil identificar as provocações.

O verso Não há galinha em meu quintal é uma alusão à canção de Belchior Galos, Noites e Quintais.

O trecho Agora sou apenas um latino-americano/ Que não tem cheiro nem sabor faz referência a um dos clássicos do compositor cearense, Apenas um rapaz latino-americano.

Belchior respondeu na mesma moeda. Em Alucinação, o recado é para Raul e seus romances astrais citados em Trem da Sete:

Eu não estou interessado em nenhuma teoria/ Nem nessas coisas do oriente, romances astrais/ A minha alucinação é suportar o dia a dia/ E meu delírio é a experiência com coisas reais

>>> 4. Fome e amor no Rio de Janeiro

Em Ouro de tolo, Raul canta: Eu devia estar alegre e satisfeito/ Por morar em Ipanema/ Depois de ter passado fome por dois anos/ Aqui na Cidade Maravilhosa.

Na sua temporada carioca, vivida no fim dos anos 1960, Raul não comeu o pão que o diabo amassou porque não havia nem pão.

O rock, depois do estouro da Jovem Guarda, havia perdido espaço para as canções de protesto, sintonizadas com o momento do país.

Raul, ex-vocalista dos Panteras, estava sem trabalho algum.

O jeito foi recorrer ao talento como compositor e abraçar um gênero que jamais saiu de moda: a música brega.

Durante um bom tempo, Raul encheu a barriga e pagou as contas compondo para intérpretes românticos, como Jerry Adriani (Doce, Doce Amor), Diana (Ainda Queima a Esperança) e Márcio Greyck (Foi Você).

Esta última seria gravada por Roberto Carlos, que na última hora desistiu. Raul teria garantido a janta por pelo menos uma década.

>>> 5. Caetano, o inimigo íntimo

Caetano e Raul pertenciam a turmas distintas.

Enquanto o autor de Coração Vagabundo tinha como ídolo João Gilberto, o roqueiro venerava Elvis Presley e Jerry Lee Lewis.

Na música Rock n Roll, Raul tira sarro do pessoal do Teatro Vila Velha, berço do tropicalismo em Salvador, de onde saíram Caetano, Gil, Gal e Tom Zé.

No Teatro Vila Velha, velho conceito de moral/ Bosta Nova pra universitário/ Gente fina, intelectual/ Oxalá, oxum dendê oxossi de não sei o quê/ de não sei o quê.

Caetano respondeu anos depois com Rock'n'Raul uma "homenagem" ao roqueiro, em que ele elogia o sarcasmo do compositor: Minha ironia/ É bem maior do que essa porcaria.

O baiano, entretanto, também cutuca a implicância do cantor com as coisas brasileiras e a veneração a tudo que é americano: Nada de axé, Dodô e Curuzu/ A verdadeira Bahia é o Rio Grande do Sul.

Provocações à parte, os dois se davam e se admiravam. Caetano visitou Raul no momento mais difícil da sua carreira, na fase de vacas magras em Copacabana, além de citar Ouro de Tolo como uma das dez melhores canções já feitas no Brasil.

Por sua vez, Raul cita versos de Tropicália, canção de Caetano, nos momentos finais de Eu sou Egoísta.

>>> 6. Parceiro das parceiras

Raul foi casado cinco vezes. Com exceção da primeira esposa, a americana Edith Wisner, compôs com todas as outras.

Um caso inédito na música brasileira — e curioso, levando-se em conta que nenhuma das quatro mulheres jamais havia feito uma música antes do casamento com Raul.

Ele pelo jeito as estimulava.

Com a também americana Glória Vaquer , compôs Love is Magick e Sunseed, ambas em inglês.

Já a terceira mulher, Tania Barreto, virou parceira em Mata Virgem e Pagando Brabo.

O casamento mais duradouro e também mais produtivo musicalmente foi com Kika Seixas. Foram cinco anos juntos e quatro canções: Geração da Luz, Coisas do Coração, Quero Mais e DDI.

Para Kika, Raul compôs Angela (seu nome de batismo), uma de suas mais belas canções de amor: Rouba do meu leite agora/ O gosto da minha vitória/ Do meu amor, do meu amor por mim.

>>> 7. A cidade que nunca existiu

Na teoria, tudo lindo e maravilhoso. Um lugar sem lei, sem regras, para tomar banho de chapéu e escutar Carlos Gardel.

Raul e Paulo Coelho sonhavam com uma sociedade alternativa, que funcionaria na Cidade das Estrelas, atraindo hippies e malucos de todos os tipos.

Vivia-se uma ditadura militar e qualquer lugar que reunisse uma dúzia de cabeludos já era considerado suspeito. Raul foi interrogado no Dops (órgão de repressão da ditadura); Paulo Coelho, preso e torturado.

Raul ainda teve que se explicar com os seus discípulos. Em 1973, ele havia assinado o manifesto de criação da Sociedade Alternativa: "Estamos começando um grande empreendimento e nossas portas estão abertas para qualquer ser humano que deseje unir-se a nós, não importando a sua nacionalidade, religião, raça, bandeira ou cargo. Para isso foi comprado um terreno pela Sociedade Alternativa em Paraíba do Sul, onde construiremos A Cidade das Estrelas, cuja lei será Faz o que tu queres".

O problema é que Raul não havia comprado terreno nenhum.

Em Paraíba do Sul, interior do Rio, não havia casa, não havia teto, não havia nada.

>>> 8. O Morto Vivo

O sepultamento de Raul Seixas, morto em 21 de agosto de 1989, parou Salvador.

Nem o enterro de Mãe Menininha do Gantois, falecida três anos antes, atraiu tanta gente ao Cemitério da Saudade, no bairro de Brotas.

Os fãs, em transe, invadiram a missa realizada antes do enterro ao gritos de "Viva! Viva! Viva a Sociedade Alternativa". O grupo entrou correndo e foi direto para cima do corpo de Raul.

A ideia dos fãs era tirá-lo do caixão e levá-lo para passear, beber e fumar. O ato de loucura só não foi adiante porque Marcelo Nova, amigo e parceiro de Raul, colocou-se em frente ao corpo e passou uma descompostura nos fãs.

Marcelo não evitou que o vidro do caixão fosse quebrado, mas impediu que Raul, mortinho da silva, saísse carregado até o bar mais próximo.

¨      Maluco Beleza, Raul Seixas atravessa gerações com temas da juventude

Pioneiro do rock brasileiro e “maluco beleza”, Raul Seixas deixou, com seu trabalho múltiplo, mensagens de contestação e liberdade, transmitidas nas músicas e em seu modo de viver, que influenciaram admiradores e atravessaram gerações. O cantor e compositor, nascido em Salvador, completaria 80 anos neste sábado (28).

Sylvio Passos, amigo e fundador do fã clube oficial reconhecido pelo próprio Raul, explica a renovação de gerações de admiradores de Raul Seixas pela identificação da juventude com sua mensagem.

“Raul fala para várias gerações. Por que isso? Porque a linguagem do Raul trata de temas não tão comuns de maneira mais acessível. Ele falava diretamente para os jovens, e os jovens estão se renovando, de geração em geração. Por isso, os temas do Raul ainda mexem muito com essa geração mais jovem. Os velhos morrem e os jovens estão sempre se renovando, se renovando e se renovando. Os temas que o Raul aborda nas suas músicas são de muito interesse dos jovens”.

“Para a música brasileira, o Raul é um artista único que tratava de temas não tão simples, temas complexos como metafísica, filosofia, enfim, tratava de amor de maneira diferenciada e de questões políticas. A obra do Raul é muito ampla, pluralidade total”, completou.

Foi quando era jovem, em 1981, que o caso de admiração de Sylvio Passos por seu ídolo se transformou em amizade. Naquele ano, Passos se aproximou de Raul Seixas porque queria fundar um fã clube em sua homenagem. Ele não apenas conseguiu como garantiu uma feliz coincidência: a inauguração ocorreu na data do 36º aniversário de Raul.

Um anúncio em jornal, no qual Sylvio buscava referências de Raul, teve resultado quando o presidente do Beatles Cavern Club, Luis Antônio, entregou para Sylvio o telefone e endereço do artista, no bairro do Brooklin, na capital paulista, e aproximou os dois.

“Descobri que o Raul estava vindo morar em São Paulo, tinha saído do Rio, e consegui o telefone da casa dele. Liguei para ele, dizendo que estava fundando um fã clube para homenageá-lo, e ele me convidou para um almoço. Esse almoço virou um jantar, que virou se tornou frequente por aproximadamente dez anos. Nunca mais a gente deixou de se falar. Raul me levava para todos os lugares”, disse Sylvio Passos à Agência Brasil, acrescentando que a amizade, no primeiro momento, era uma relação de fã e ídolo mas, em pouquíssimo tempo, passou a ser uma relação de amigos comuns.

“Duas pessoas que se conheciam, apesar da diferença de idade. Raul era 18 anos mais velho que eu, mas tínhamos gostos em comum, muitas coisas em comum. Não sei como traduzir muito bem isso, mas era legal”, relatou. “Eu tive o privilégio de compartilhar da amizade e da confiança dele, que eu classificava inclusive como meu segundo pai. Tive meu pai biológico e o Raul era meu pai intelectual”.

Na escola, Sylvio Passos já tinha criado, com amigos, fãs clubes e fanzines das bandas inglesas Led Zeppelin, Jethro Tull e King Crimson. Mas, na época, surgiu a vontade de prestar homenagem a um “cidadão do rock brasileiro” ─ e a imagem que veio foi a de Raul Seixas, contou ele.

“O próprio Raul tornou o fã clube oficial. O nome do fã clube era Raul Rock Club, e o Raul botou Raul Seixas Oficial Fã Clube, o primeiro e único fã clube oficial do Raul”, disse orgulhoso.

<><> Raul e a Sociedade Alternativa

Um outro marco da trajetória de Raul foi o lançamento da Sociedade Alternativa, fruto da parceria com Paulo Coelho que vai além da música de mesmo nome e aprofundou os estudos esotéricos da dupla. Segundo Sylvio Passos, para Raul, era momento de provocar mudanças no mundo. Nos shows, ele distribuiu um gibi/manifesto chamado A Fundação de Krig-ha, que tinha ilustração da mulher de Paulo na época, Adalgisa Rios.

A Sociedade Alternativa chegou a ter uma sede alugada e papel timbrado. Com o tempo, houve a compra de um terreno em Minas Gerais, para a construção da Cidade das Estrelas, uma comunidade onde a lei única era “Faze o que tu queres, há de ser tudo da lei”.

A iniciativa não foi bem recebida, e Raul foi preso e torturado pelo Departamento de Ordem Política e Social (Dops), sendo obrigado a deixar o país. Raul, Paulo, Edith e Adalgisa se mudaram para os Estados Unidos, onde fizeram contato com algumas personalidades, recordou Sylvio Passos, em texto publicado no site do Raul Seixas Oficial Fã Clube.

<><> Memória

Vivian Seixas, uma das três filhas de Raul, disse que preservar a memória do pai tem sido um ato de amor e de responsabilidade. “Eu faço isso com muita entrega, porque sei o quanto ele foi e ainda é importante. Cada projeto, cada homenagem é pensado com cuidado, com respeito à obra e à essência dele. Não é só sobre manter vivo o nome ‘Raul Seixas’, mas tudo o que meu pai representava: liberdade, questionamento, autenticidade”, revelou Vivi à Agência Brasil. Ela considera lindo ver a renovação de gerações no envolvimento com o trabalho do Raul.

“Muita gente que nem era nascida quando meu pai morreu hoje canta as músicas, se emociona com as letras, se identifica com as mensagens. Isso mostra que a obra dele é atemporal. Meu pai falava com o coração, com a mente aberta, e com coragem, isso atravessa o tempo. Ele não era só um cantor, era um pensador”, observou.

A DJ e produtora musical vê na coragem de ser o que se é, sem máscaras, o maior legado do pai. “Ele nunca se curvou ao sistema, nunca teve medo de mudar, de provocar. Meu pai abriu caminhos, artísticos, filosóficos e até espirituais pra muita gente. E isso se mantém vivo, principalmente entre quem sente que não se encaixa nas caixinhas da sociedade”, apontou.

Vivi era bem pequena quando o pai faleceu, mas guarda algumas lembranças marcantes. “Eu lembro da barba dele, da voz… e a voz eu posso ouvir sempre que quiser, né? Isso é muito forte, porque me mantém próxima, me mantém conectada a ele. A voz dele está ali, viva, cantando. E ele era muito divertido, cheio de brincadeiras comigo. Tenho também as cartinhas que ele me escrevia, coisas simples, mas carregadas de afeto. É assim que eu guardo meu pai em mim”, afirmou.

<><> Cowboy fora-da-lei

De acordo com o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad), responsável no Brasil pela arrecadação e distribuição dos direitos autorais das músicas aos seus autores, Raul deixou um legado de 324 obras musicais e 409 gravações cadastradas no banco de dados da gestão coletiva da música no Brasil.

“As obras musicais são as suas composições, com letra e/ou melodia e em parceria ou não. Já as gravações são registros de obras musicais disponibilizadas em forma digital (como no streaming) ou em suporte físico (como um DVD). Com isso, uma mesma obra musical pode ter diferentes gravações, como, por exemplo, a original, uma versão acústica ou um show gravado para um DVD”, explicou.

O ranking das mais executadas no último ano é liderado pela música Cowboy fora-da-lei, composta em parceria com Cláudio Roberto. O maior destaque entre as regravações é Medo da chuva, que compôs com Paulo Coelho, que aparece com 72 fonogramas cadastrados.

Mais uma vez, uma das comemorações na data de nascimento será no show Baú do Raul, no Circo Voador, centro do Rio de Janeiro. Criado em 1992 por Kika Seixas, uma das ex-mulheres do pioneiro do rock brasileiro.

A lista de artistas que participarão do show do Circo Voador representa bem essa mescla de idades de admiradores e seguidores. Estão previstos se apresentar Frejat, Paulinho Moska, Rick Ferreira, Arnaldo Brandão, Baia, Ana Cañas, Clariana, André Prando, BNegão, Emílio Dantas e Vivi Seixas.

 

Fonte: BBC News Brasil/Agencia Brasil


Fui diagnosticada com SOP – e logo estava me afogando em desinformação

Suspeitei que tinha síndrome dos ovários policísticos (SOP) muito antes de ser confirmada. Os sinais estavam lá: as cicatrizes de acne que cobriam minhas costas, as menstruações irregulares, os pelos em lugares do corpo que eu não via em muitas das minhas amigas. Suspeitei desde o momento em que uma das minhas melhores amigas, que quando menina me ensinou a descolorir os pelos do corpo e a depilar as pernas, foi diagnosticada com a síndrome na adolescência.

Admitir tudo isso publicamente parece um alívio, mas também um convite a mais vergonha. Mas escrevo isso porque minha experiência está longe de ser única. Cerca de uma em cada 10 mulheres tem SOP, uma condição associada a distúrbios hormonais que podem variar de ganho de peso, pelos corporais "indesejados" e queda de cabelo, a menstruações irregulares e dificuldades para engravidar (incluindo um risco aumentado de aborto espontâneo ). Pode deixar as mulheres mais propensas a desenvolver pressão alta, colesterol alto, diabetes e doenças cardíacas. Não está claro o que causa a SOP, mas sabe-se que ela é transmitida de geração em geração e pode ser influenciada pelo estilo de vida.

Finalmente recebi o diagnóstico de SOP no ano passado, aos 30 anos, e desde então tenho me dedicado a entender o que isso significa. O que me chamou a atenção logo no início (e que a BBC já revelou ) é a quantidade de informação, e desinformação, que existe sobre a doença. Meu feed do Instagram está cheio de influenciadores sem qualificação médica. Analisar tudo isso para descobrir em quais nutricionistas e profissionais de saúde prestar atenção, na ausência de apoio adequado dos médicos e enfermeiros que me deram a avaliação e o diagnóstico inicial, tem sido uma batalha.

Fui incentivada a adotar dietas irrealistas (os chamados "nutricionistas da SOP" frequentemente sugerem cortar glúten, laticínios e carboidratos, apesar da falta de evidências que demonstrem que isso seja sustentável ou benéfico para a condição); tomar suplementos não regulamentados que podem ter efeitos colaterais significativos; e assinar planos de saúde e aplicativos caros. Disseram-me para parar de fazer exercícios aeróbicos e me concentrar em levantamento de peso e caminhada, devido à ideia equivocada de que exercícios de alta intensidade farão meus níveis de cortisol subirem a ponto de piorar meus sintomas. Na realidade, todos os tipos de exercícios podem ser benéficos.

A misoginia médica é bem documentada , e a saúde da mulher raramente é levada a sério. Perguntei ao meu médico sobre os sintomas pela primeira vez durante a pandemia, quando, após um exame de sangue, me disseram que meus níveis hormonais estavam normais e que eu não tinha a condição. Mais tarde, ao fazer um ultrassom para um assunto não relacionado, me disseram, sem cerimônia, que eu tinha muitos folículos nos ovários e provavelmente tinha SOP. Quando mencionei o exame de sangue anterior, o ultrassonografista me disse que essa não é uma boa maneira de diagnosticar a condição, especialmente se você estiver usando anticoncepcionais hormonais.

Surpreendentemente, a SOP não causa cistos nos ovários. "Eles não são cistos de verdade", diz Helena Teede, endocrinologista australiana e especialista em SOP na Universidade Monash, em Melbourne. "São folículos ou óvulos que estão apenas se desenvolvendo ao longo de um caminho, mas param de se desenvolver normalmente porque não gostam dos hormônios em que circulam."

Há muito tempo se discute a possibilidade de renomear a SOP para algo mais representativo da amplitude dos sintomas que ela causa. O nome atual, diz Teede, "ignora completamente o fato de que se trata de uma condição hormonal; que tem impactos a longo prazo; que é psicológica, dermatológica, metabólica, reprodutiva e, além da fertilidade, afeta muitas outras características reprodutivas. E realmente tem um impacto na qualidade de vida". Ela afirma que é provável que o processo para dar um novo nome à doença seja concluído este ano – sua organização abriu uma pesquisa para quem quiser contribuir.

Outro mito é que mulheres com a condição têm um "excesso" significativo de testosterona. E a SOP abre algumas questões interessantes sobre gênero . Mas, diz Teede, a ideia de que a testosterona é um hormônio exclusivamente masculino é falsa. Além disso, mulheres com SOP normalmente não têm níveis elevados de testosterona; é mais que nossos corpos não são muito bons em lidar com isso. Temos muito menos do hormônio do que a maioria dos homens.

Após meu diagnóstico no ultrassom, tive uma ligação de acompanhamento com uma enfermeira, onde me disseram simplesmente que eu deveria tolerar meus sintomas, mas voltar quando quisesse engravidar; porque, claro, essa é a única coisa que as mulheres jovens aspiram. Quando insisti, me ofereceram um medicamento chamado metformina , que é usado para tratar resistência à insulina e diabetes.

Não me explicaram como esse medicamento funciona e por que seria útil para o meu caso específico. Mas, desde então, aprendi que a resistência à insulina – quando o corpo tem dificuldade para regular os níveis de açúcar no sangue – é um dos sintomas característicos da SOP e desencadeia muitos dos outros problemas que as pessoas com a doença enfrentam. Teede, no entanto, ressalta que "cada mulher tem um problema diferente e uma fase da vida diferente que é mais importante para elas, e a interpretação depende disso". Os médicos devem pensar holisticamente sobre os planos de tratamento para mulheres com SOP e ouvir suas preocupações.

Minha própria experiência contrastante, porém, é muito mais comum, diz Rachel Morman, presidente da Verity, organização beneficente britânica para SOP : “Depois de 20 anos fazendo esse trabalho, eu me pergunto: 'Por que isso ainda acontece?'” Ela teve uma conversa semelhante com médicos após receber o diagnóstico no início dos anos 2000, com o choque adicional de ser informada de que não poderia ter filhos. Embora seja verdade que cerca de 70% das mulheres com SOP enfrentam dificuldades de fertilidade, após a intervenção esse número cai significativamente; a grande maioria das mulheres com a doença consegue engravidar. Morman tem três filhos agora.

Também é importante que as mulheres saibam que muitos dos riscos associados à SOP na gravidez (como aborto espontâneo, diabetes gestacional e pré-eclâmpsia) são preveníveis. Antes de começarem a tentar engravidar, as mulheres com a doença devem fazer um exame completo de diabetes e verificar a pressão arterial, além de buscar uma dieta saudável e um estilo de vida ativo.

Mas quando os médicos nos dizem que a SOP é algo com que devemos nos preocupar apenas se quisermos engravidar, isso é extremamente frustrante, considerando a ampla gama de efeitos que ela tem em nossos corpos.

Morman afirma que, embora haja muito mais informações disponíveis agora do que quando ela recebeu o diagnóstico, algumas opções de tratamento pioraram: tratamentos de depilação costumavam ser oferecidos pelo NHS para mulheres diagnosticadas com SOP, mas não mais. Como Teede reconhece: "Um dos motivos pelos quais as pessoas recorrem a fontes alternativas de informação é porque não estão satisfeitas com o que recebem dos profissionais de saúde."

A desinformação sobre a SOP é abundante, e grande parte dela é repetida por profissionais médicos. Para ajudar a combater isso, Teede ajudou a desenvolver as diretrizes internacionais baseadas em evidências para a SOP em 2023, amplamente pesquisadas e que agora considero o Santo Graal da informação sobre a condição. Sua equipe também criou um aplicativo chamado AskPCOS , que pode ajudar as mulheres a encontrar os caminhos de tratamento certos. Ele não abrange tudo, mas é completo, utiliza pesquisas atualizadas e não faz afirmações ousadas sobre a "cura" da SOP, como algumas pessoas fazem nas redes sociais.

“Há muitos profissionais, a maioria dos quais não são realmente profissionais, que estão lá para obter ganhos financeiros”, diz Teede. “O maior desafio que enfrento é a desinformação e, associado a isso, o dano causado pela desvalorização de estratégias baseadas em evidências. O que, no final, prejudica as mulheres com a doença.”

Ela não é totalmente contra o que chama de "terapias complementares" (ou seja, suplementos e dietas), desde que as mulheres as realizem com lucidez e sem se deixarem influenciar por falsas alegações. Mas ela não acredita que as pessoas deixarão de recorrer a esses profissionais em busca de apoio até que haja repositórios médicos mais confiáveis, além da responsabilização legal para quem fornecer informações falsas.

Tendo pesquisado sobre SOP no ano passado (embora ainda haja muito a aprender), aqui está o que tentei: em termos de monitoramento dos sintomas metabólicos, verifiquei minha pressão arterial e fiz exames para diabetes e colesterol alto. Meus níveis estavam bons. Parei de tomar meu anticoncepcional (alguns tipos de pílula podem ajudar com os sintomas da SOP; este não) e comecei a tomar um suplemento bem pesquisado chamado mio-inositol , que pode ajudar com a resistência à insulina. Mas parei de tomá-lo desde então porque me causava tontura, um efeito colateral conhecido para algumas pessoas. Tenho períodos menstruais na maioria dos meses, embora isso acontecesse antes de começar a tomar a pílula na adolescência, então isso pode não ter afetado minha ovulação.

Em termos de tratamentos estéticos, abandonei a depilação a laser, que pode fazer com que mulheres com SOP apresentem hipertricose paradoxal – o crescimento de pelos mais escuros, aparentemente estimulado pelo laser. Em vez disso, comecei a eletrólise, a única maneira de remover os pelos permanentemente. Estou em pausa, pois o tratamento tem sido lento e moderadamente doloroso, causando erupções que levam semanas para cicatrizar.

Felizmente, a acne no meu rosto nunca foi grave, mas fiz tratamento tópico com um dermatologista online e peróxido de benzoíla com meu clínico geral. Minha acne corporal demorou mais para ser controlada; fiz uma consulta online particular com um dermatologista, que me custou £ 100, e encontrei produtos de cuidados com a pele com preços razoáveis que, na maioria das vezes, funcionam para mim.

O motivo pelo qual estou compartilhando isso não é para que outras pessoas com SOP tentem imitar a minha jornada. Cada pessoa é diferente. Por exemplo, algumas mulheres se sentem confortáveis com pelos faciais visíveis . Não é inerentemente vergonhoso e eu odeio que seja considerado assim. Em vez disso, estou compartilhando porque mostra quanto tempo e energia eu tive que investir lidando com a SOP. Do jeito que está, todas as mulheres com a condição precisam passar por uma jornada de autoeducação baseada em evidências , porque é improvável que seus médicos de atenção primária sejam capazes de orientá-las adequadamente, e há muito poucos especialistas acessíveis. Temos que testar tratamentos e procedimentos estéticos – muitos não regulamentados – por nós mesmas, trabalhando por tentativa e erro.

Talvez um dos maiores aprendizados que tirei deste ano tenha sido em relação ao gasto mental. Embora, sem dúvida, tenhamos que exigir um tratamento melhor dos nossos médicos e pedir que busquem pesquisas, nós, com condições crônicas, temos escolhas pessoais a fazer. Mesmo em um sistema ideal, onde eu pudesse receber apoio durante e após a medicação, com todos os exames necessários, eu ainda teria que decidir quanto tempo e energia investir no "controle" da minha SOP.

É uma doença crônica e incurável, e, pelo menos para mim, aprender a conviver com ela se tornou tão importante quanto lidar com alguns dos problemas que ela causa. Isso não quer dizer que as pessoas com SOP devam desistir – aprender a aceitar os pelos faciais ou a acne desconfortável, ou as dificuldades mais sérias relacionadas à saúde cardíaca ou ao diabetes – mas isso me faz passar de um estado de desesperança para um estado de pragmatismo. E me permitiu dar a mim mesma um descanso mental.

“Você precisa ter pelo menos quatro menstruações por ano, porque, caso contrário, o risco de desenvolver câncer de útero é maior, por exemplo”, diz Teede. Ela afirma que pessoas com SOP devem fazer um check-up anual, incluindo aferição de pressão arterial. “Mas você não precisa carregar isso para sempre”, acrescenta.

Outra notícia brilhante é que, nos bastidores, as coisas estão mudando. Um novo estudo mostra que a conscientização sobre a síndrome cresceu enormemente nos últimos oito anos. No Reino Unido, há um trabalho colaborativo em andamento para garantir que a síndrome se torne uma prioridade de pesquisa, incluindo um grupo parlamentar multipartidário. "Na verdade, teremos caminhos adequados para o tratamento da SOP, então esperamos que isso melhore o padrão de atendimento", diz Morman.

No meu caso, tive minha incursão no mundo da desinformação e lutei para sair dela. Busquei contato com outras mulheres que têm a mesma condição e estou tomando medidas para mitigar seu potencial impacto na minha fertilidade no futuro.

Acima de tudo, sinto-me incrivelmente grata por ter sido diagnosticada numa época em que há mulheres como Teede e Morman que lutam pelo reconhecimento e pelo tratamento comprovado da SOP. Não estamos perdidas. Estamos num começo brilhante.

 

Fonte: Por Charlie Brinkhurst-Cuff, em The Guardian

 

Crise de hegemonia do governo vai além do Congresso

O veterano deputado Rui Falcão (PT-SP) defende a tese de que o governo Lula está em disputa, porém, os aliados do Centrão não fazem questão de cargos e verbas — eles querem o poder. O sinal veio logo depois das eleições municipais, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ensaiou atrair para o governo os ex-presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), que declinaram.

As eleições municipais revelaram que o governo perdera a hegemonia política. Hegemonia, a palavra-chave por trás da afirmação "governo em disputa",  fora entendida de cabeça para baixo. O conceito é associado ao controle do poder e exercício da força. Entretanto, não se tratava de cargos e verbas da Esplanada, mas da conquista de corações e mentes dos eleitores. Hegemonia depende do consentimento, é fruto da satisfação popular, de consensos sociais e requer liderança moral.

O campo de alianças do PT na Câmara está restrito a uns 130 deputados. A "cultura do rechaço" com que hegemonizou a esquerda deveria ter sido deixada de lado na chegada ao poder. A atuação petista na Câmara, em oposição ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad, talvez seja o melhor exemplo.

No poder, Lula consolidou sua liderança popular com base na "economia do afeto",  a essência do "lulismo", ao promover expressiva transferência de renda para a população de baixa renda. Para isso, escalou os programas de "focalização" do gasto público nos mais pobres, com destaque para o Bolsa Família, que hoje beneficia 53,8 milhões de pessoas. Entretanto, as políticas públicas são insuficientes na saúde, na educação e na segurança. E o identitarismo, muitas vezes, pauta prioridades.

Historicamente, o "capitalismo do compadrio" e o velho patrimonialismo caminham de mãos dadas, com transferência de renda do Estado para setores empresariais e corporações privilegiadas: 1% da população concentra renda superior à soma dos 50% mais pobres. Após 2002, para redistribuir renda, Lula havia se beneficiado da expansão da economia mundial; do impacto do Plano Real no consumo da população e do chamado "bônus demográfico"; o aumento da renda média das famílias, em decorrência da redução do número de filhos e das aposentadorias, pensões e benefícios de prestação continuada (BPCs).

Em resposta à crise mundial de 2008, porém, houve uma mudança de orientação econômica, calcada na forte expansão do gasto público e do crédito popular. A chamada "nova matriz econômica" viria a se consolidar no primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff. No segundo, porém, entrou em colapso, o que provocou inflação e impopularidade. Essa foi a causa de seu impeachment, ao lado da perda da bandeira da ética para a oposição.

<><> Governabilidade

Não se fala de corda em casa de enforcado, mas vamos lá. O PT optou pela narrativa do golpe para lidar com esse fracasso, em vez de refletir sobre suas verdadeiras causas e encarar de frente a crise de imagem, decorrente do escândalo de Petrobras. Dilma tentou resgatá-la com a famosa "faxina", mas teve que enfiar a viola no saco. E a Operação Lava-Jato desconstruiu a identidade parlamentar tecida no combate à corrupção, sobretudo no impeachment de Fernando Collor de Mello, e que já havia sido abalada no Escândalo do Mensalão.

Sem subestimar a decisiva força eleitoral de Lula, bem como o enraizamento e a resiliência do PT, a vitória eleitoral de 2022 foi possível por causa da alta rejeição do ex-presidente Jair Bolsonaro, em grande parte decorrente do negacionismo na pandemia. Os votos das mulheres e dos nordestinos, e, no segundo turno, a reação dos setores centristas que viam a democracia ameaçada, trouxeram Lula de volta ao poder. Entretanto, isso não lhe deu a liderança moral da sociedade. Por quê?

Essa é a pergunta que desafia o governo Lula. A bandeira da ética permanece nas mãos da oposição. Esse resgate depende da realização de um governo sem escândalos. Por essa razão, as fraudes nos descontos de aposentados do INSS abalaram a popularidade do presidente, apesar de os indicadores de emprego e renda da economia serem positivos.

O Centrão farejou o animal ferido na floresta. A oposição bolsonarista foi para cima. O mercado não aceita financiar a "economia do afeto". Lula ainda disputa a liderança moral com seu humanismo, porém, sua empatia com os mais pobres depende de resultados, da picanha e da cervejinha. O desequilibro fiscal embaralha tudo. A opção preferencial pelos mais pobres depende da econometria e não da narrativa classista. Ideologia não enche a barriga. Patrimonialista, o Congresso pode colapsar a governabilidade. Lula está numa sinuca de bico e depende de um freio de arrumação do Supremo Tribunal Federal (STF) para evitar uma grave crise institucional. Resultado: sua reeleição subiu no telhado.

¨      Articulação emperra sem a liberação de emendas

As duras derrotas do governo no Congresso, na semana passada, demonstraram que os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), impuseram um limite à articulação política do Palácio do Planalto. Sem o pagamento das emendas bilionárias, não haverá cargo na Esplanada — no primeiro ou segundo escalão de ministério nem estatais e autarquias — que garantirá o apoio dos líderes partidários em ambas as casas do Legislativo. A situação é crítica, segundo parlamentares ouvidos pelo Correio ao longo da semana, especialmente porque o apoio a um governo em franca queda de popularidade custa caro, ainda mais em véspera de ano eleitoral.

Até o último dia 23, dois dias antes da derrubada do decreto que aumentou o Imposto sobre Operações Financeiras, o governo havia pago apenas R$ 7,52 bilhões em emendas, sendo que mais de 99% desse valor é referente a anos anteriores. O valor em emendas deste ano é considerado ínfimo pelos deputados e senadores: R$ 408 milhões — menos de 1% do total.

Na sexta-feira, Motta e Alcolumbre não compareceram à audiência convocada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), para tratar das emendas — e não se justificaram. A representá-los, os advogados Jules Michelet Queiroz (pela Câmara) e Gabrielle Tatith Pereira (pelo Senado). A ausência dos presidentes da Câmara e do Senado foram entendidas, nos bastidores do STF, como um protesto pela retenção dos recursos.

Os alertas da ministra Gleisi Hoffmann, da Secretaria de Relações Institucionais, sobre a derrubada do decreto do IOF impactar diretamente na liberação de emendas, soaram como ameaça. Agora, com ou sem espaço orçamentário, o governo só conseguirá melhorar a relação com o Congresso se abrir o cofre. Para o deputado Danilo Forte (União Brasil-CE), o Executivo precisa repensar a negociação de políticas públicas com o Parlamento e ouvir mais.

"As relações mudaram. A forma de o Executivo conversar com o Legislativo é diferente. É preciso ter um diálogo na formatação de projetos de políticas públicas. É preciso um diálogo permanente. O mundo todo mudou com relação a isso, com o advento das redes sociais. A presença constante das cobranças e do diálogo é uma realidade. E isso também se reflete na vida política. Então, não é mais aquela imposição do tipo 'quero desse jeito e vai ser desse jeito'", advertiu, em conversa com o Correio.

O aumento de impostos para bancar a subida dos gastos obrigatórios, frisou Danilo Forte, não será mais aceito pelo Parlamento, que há anos tenta emplacar o discurso de que não quer onerar mais o contribuinte — apesar de, na mesma noite em que derrubou o decreto do IOF baixado pelo governo, aumento o número de deputados de 513 para 531. Agora, os partidos com cargos na Esplanada também aderiram ao coro.

"Os partidos que mais votaram contra são os que tinham, inclusive, ministros nas bancadas. E o que falta é um diálogo na construção da política pública. Acho que o Lula, pelo momento que está vivendo, está sem aptidão para esse diálogo. Ele é bom nisso, mas está preferindo fazer de uma forma diferente e isso está criando dificuldades", analisou.

Para o deputado Coronel Chrisóstomo (PL-RO), que relatou o Projeto de Decreto Legislativo (PDL) do IOF, a postura do Executivo dificulta qualquer diálogo. "O governo do presidente atual está se mostrando para que veio: um governo que desrespeita a questão do Congresso, se alia a outros poderes, toma decisões totalmente contrárias ao que o povo brasileiro quer. O povo brasileiro quer um governo que gaste menos, que gaste tudo pautado dentro do planejado, dentro do orçamento. E esse governo não faz isso", disse o bolsonarista ao Correio.

O líder da oposição na Câmara, deputado Zucco (PL-RS), diz que o Congresso deve ajudar a apontar soluções para o equilíbrio fiscal, mas as saídas apresentadas pela gestão Lula, em sua análise, não resolvem o problema do crescimento dos gastos. "O problema é que o governo Lula não aponta nenhum caminho real de corte de despesas. É uma máquina inchada, com quase 40 ministérios, gastos abusivos com viagens, passagens e estrutura. Não há disposição para cortar na própria carne", criticou o bolsonarista. "Em vez disso, (o governo) segue insistindo no aumento de impostos e, agora, ameaça judicializar uma decisão legítima e soberana do Congresso, como no caso do IOF. A única saída do governo tem sido jogar a conta no colo da população. O Congresso está dando um recado claro: basta de aumento de carga tributária. O Brasil precisa de responsabilidade com o dinheiro público, não de mais confisco disfarçado de gestão", acrescentou.

<><> Apetite

Se, de um lado, os parlamentares dizem que o Executivo perdeu a capacidade de articular, de outro, os governistas culpam o apetite dos deputados do Centrão pela dificuldade de construir acordos. Para o deputado federal Rui Falcão (PT-SP), candidato à presidência do partido, o atual momento do governo com o Congresso é fruto da pressão de legendas que querem romper com o Palácio do Planalto.

"Atualmente, estamos cercados por fora e minados por dentro. Pode ser alguém que quer dar recado, (fazer) represália. Mas, por outro lado, já há uma articulação em andamento com duplo sentido: ou para nos derrotar, fazendo com que a gente adote um programa que não é o nosso — é o da classe dominante —, ou é uma articulação em andamento também para criar uma candidatura, provavelmente do governador de São Paulo (Tarcísio de Freitas, do Republicanos), para aglutinar forças que estão no governo contra nós", explicou, em conversa com o Correio.

Rui Falcão acrescenta: "Em alguns casos, não estão fazendo segredo. Estão anunciando o desembarque, só analisando qual é o melhor momento. Então, é preciso romper essa dependência, ter um outro tipo de articulação que envolva a população. Acho que é o momento, também, de o nosso partido começar a dialogar mais com a população para pressionar, no sentido democrático, os parlamentares. Não tem explicação para essas votações", avalia.

Na votação da derrubada do decreto do IOF, na quarta-feira passada, parlamentares da base governista acusaram o Parlamento de ter realizado a votação às pressas e sem diálogo com a liderança. O líder do PT na Casa, deputado Lindbergh Farias (RJ), chegou a classificar como "estranha" a forma como Hugo Motta decidiu pautar o tema. No plenário, disse que a derrubada era inconstitucional.

Segundo ele, os líderes governistas só foram informados da inclusão do projeto na pauta por meio de uma publicação que Motta fez no X (antigo Twitter), por volta das 23h35 da terça-feira passada.  "Fomos pegos de surpresa por um tuíte. Um tema dessa gravidade precisava ter sido discutido no Colégio de Líderes. A maior parte dos deputados sequer está em Brasília", criticou.

Erika Kokay (PT-DF), por sua vez, não vê uma fraqueza do governo. Para ela, o que parte do Congresso faz são "imposições contra o povo brasileiro", protegendo os interesses da parcela mais rica da população e rejeitando qualquer tentativa de reforma tributária progressiva.

"Eles têm uma resistência imensa de colocar o rico no orçamento. Eles são contra taxar as grandes fortunas. Quando dizem 'nenhum imposto a mais', é nenhum imposto para quem tem muito dinheiro", ironizou.

Para a parlamentar, há compromisso do governo Lula com o equilíbrio fiscal, mas isso, em sua avaliação, deve estar atrelado à justiça social. O que a oposição propõe, segundo Kokay, é cortar em benefícios sociais e punir os mais pobres. "É preciso colocar o pobre no orçamento e o rico no imposto de renda. Eles (a oposição) miram seus canhões cruéis contra a população mais pobre deste país. Enquanto isso, constroem um cordão de proteção às grandes fortunas", acusa.

<><> "Ajuste geral"

Na tentativa de amenizar a relação entre os poderes, o líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), defendeu, em entrevista concedida logo depois da derrubada do decreto que aumentava o IOF, a elaboração de um "ajuste geral" na articulação política e a recomposição da base no Congresso. Segundo ele, o desgaste atinge tanto a Câmara quanto o Senado.

Guimarães afirmou que a ministra Gleisi deverá chamar todos os partidos para o diálogo. Apesar da crise, ele negou rompimento com o Congresso e destacou que, no mesmo dia da derrota, o governo teve vitórias importantes, como a aprovação de quatro medidas econômicas.

Questionado sobre o papel de Hugo Motta e Davi Alcolumbre, Guimarães criticou a falta de transparência na sessão que derrubou o decreto do governo de aumento do IOF. Conforme avaliou, a votação foi acelerada sem aviso antecipado ao governo e, pior, decidida por um grupo restrito de líderes. "Na relação institucional, tem que haver lealdade e compromisso com a verdade. Quando isso falha, complica", lamenta.

O líder também minimizou o impacto da derrota, reforçando que é hora de deixar "baixar a poeira" e discutir os próximos passos. Guimarães ressaltou que a articulação política deve ser reforçada, mas que a responsabilidade pela relação com o Congresso não recai apenas sobre Lula: "O presidente tem feito sua parte institucional. A articulação é minha, da Gleisi e do (senador) Jaques Wagner".

Guimarães acusou, ainda, a influência do mercado financeiro sobre deputados como um dos fatores da crise, criticando a atuação de setores que, segundo ele, se calam diante de isenções bilionárias enquanto atacam medidas progressivas. "O discurso deve ser a defesa dos pobres e a cobrança dos super-ricos, que precisam pagar a conta", cobrou.

¨      Chico Alencar acusa Hugo Motta de ter feito "manobra nociva"

O deputado federal Chico Alencar (PSOL-RJ) criticou o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), pela condução da votação que resultou na derrubada do decreto presidencial que reequilibrava as alíquotas do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Segundo o parlamentar, a forma como a pauta foi inserida na agenda da Casa representou uma “manobra nociva” e um desrespeito aos princípios da transparência legislativa.

“Protocolamos, para nós é claro e o nosso arrazoado de 16 páginas prova isso, que o PDL é inconstitucional, é uma prerrogativa do Executivo, artigo 153 da Constituição mostra. Reequilibrar o IOF, estabelecer lá alíquotas dentro de certos limites e assim foi feito. Portanto, foi uma provocação do Congresso para mostrar que tem uma maioria com claro intuito de fustigar o governo Lula”, afirmou Chico Alencar, referindo-se ao Projeto de Decreto Legislativo que anulou a decisão do Executivo.

O deputado também questionou o processo de tramitação da proposta e o que classificou como “falta de diálogo” por parte da presidência da Câmara. “Foi pautado às pressas de surpresa, anunciado rigorosamente na calada da noite, uma postura do Hugo Mota que vai contra tudo que ele sempre proclamou, de previsibilidade da pauta, transparência, não conversou no colégio de líderes sobre isso, tudo errado, tudo errado”, criticou.

Chico Alencar relatou ainda o clima de surpresa e perplexidade entre os parlamentares da oposição, afirmando estar decepcionado com a postura de Motta. “Para nós, para os parlamentares dos partidos de esquerda, do campo progressista, foi sim uma surpresa, ele pautar às 23h35, pelas suas redes pessoais, o PDL para derrubar o IOF, foi um espanto, algo que a gente não esperava, eu particularmente confesso que fiquei muito decepcionado, não me parecia que o Hugo Mota fosse capaz desse tipo de manobra nociva, ruim”, afirmou.

O deputado ressaltou que, além da falta de aviso formal, houve recusa por parte do presidente da Câmara em atender telefonemas de lideranças políticas ao longo do dia. “Ele ficar sem atender, durante toda a quarta-feira, telefonemas da Gleisi, do Haddad, é muito feio uma coisa de quem não assume o que fez porque sabe que fez errado, erradíssimo”, afirmou.

O PSOL protocolou nesta sexta-feira (27/6) uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) no Supremo Tribunal Federal, contestando a validade jurídica da decisão da Câmara. O partido sustenta que, de acordo com a Constituição, a prerrogativa de alterar as alíquotas do IOF é exclusiva do Poder Executivo, cabendo ao Legislativo apenas fiscalizar e legislar sobre temas de competência própria.

 

Fonte: Por Luiz Carlos Azedo no Correio Braziliense