quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Como o partido da esquerda socialista mudou seu rumo na Alemanha

Quando anunciamos nossa candidatura à presidência do partido Die Linke no último verão, a situação parecia desafiadora: a Aliança Sahra Wagenknecht (BSW) havia se separado do partido, e nós caminhávamos mancando para as eleições estaduais no leste da Alemanha. No último domingo, apenas seis meses depois, conquistamos quase 8,8% dos votos nas eleições federais. Isso não foi coincidência.

O congresso do partido em Halle já sinalizava o início de uma transformação. O clima estava ótimo e se vislumbrava um novo começo, ainda que tímido e, inicialmente, apenas em nível local. Com o fim do governo de coalizão e o anúncio de eleições antecipadas, nos vimos repentinamente em plena campanha eleitoral. Encontramos um partido mais unido e disciplinado do que havia sido há muito tempo. A “amizade revolucionária” se espalhou, acompanhada de bom humor e muita energia.

Não há dúvida de que as circunstâncias favoráveis desempenharam um papel na recuperação do partido Die Linke, mas, acima de tudo, esse resultado foi fruto de um processo estratégico bem pensado dentro do partido, um processo que começou muito antes de nossa chegada à presidência e que nos deu a capacidade de responder com flexibilidade à constante mudança do cenário social. Gostaríamos de destacar os fatores que consideramos decisivos nesse contexto.

Em outubro, fomos eleitos líderes do partido Die Linke. Naquele momento, o mesmo mal chegava a 3% nas pesquisas. Duas semanas e meia depois, a “coalizão semáforo” desmoronou, e as eleições gerais, previstas para ocorrer em menos de um ano, foram repentinamente antecipadas para apenas quatro meses.

A princípio, a mudança parecia impossível. Mas enquanto a mídia já nos dava como mortos, em nossas conversas com as seções locais de toda a Alemanha percebemos que o partido havia recuperado a vida. No início, quase ninguém acreditava quando dizíamos que Die Linke estava vivo. No entanto, foram feitos alguns ajustes cruciais e lançadas as bases para um novo começo.

O contexto social dessa campanha eleitoral naturalmente desempenhou um papel: muitas pessoas, especialmente jovens, estavam frustradas e desiludidas após três anos de governo de coalizão. O pacto de Friedrich Merz com a Alternative für Deutschland (AfD) revitalizou o movimento contra a direita, e Die Linke foi a única força que se manteve firme. Como resultado, passamos a representar a esperança de uma alternativa solidária para muitos. No entanto, isso só foi possível porque, como partido, tomamos as decisões corretas nos meses anteriores.

·       A receita para a revitalização

Afórmula para o bem-sucedido ressurgimento do partido Die Linke nos últimos meses pode ser resumida da seguinte forma: como partido, conseguimos chegar a um consenso sobre um plano estratégico comum e demos passos importantes na reconstrução do partido e no trabalho organizacional em um curto período de tempo. Com um projeto conjunto (a campanha pré-eleitoral), conseguimos, por um lado, estabelecer estruturas eficazes para maximizar nossa atividade nos poucos meses disponíveis. Por outro lado, conseguimos um verdadeiro contato com nossos (potenciais) eleitores. Ao focarmos em reivindicações muito concretas e realistas, como o controle do aluguel, a eliminação do imposto sobre vendas de alimentos básicos e um imposto sobre fortunas, conseguimos reconstruir nosso perfil como oposição social.

Por meio de uma estratégia de comunicação com mensagens claras de “nós contra eles”, colocamos em evidência o que une a classe trabalhadora e deixamos claro o que defendemos e para quem fazemos política como Die Linke. Além disso, demonstramos que não apenas falamos, mas agimos, com ferramentas concretas como a calculadora de alugueis abusivos ou nossa comparação dos custos de aquecimento. E, por fim, mas não menos importante, pela primeira vez em anos, apresentamos uma frente unida ao público e estávamos nos divertindo!

·       Dez ingredientes para o sucesso

1.    Recrutamento de novos ativistas e fortalecimento das seções locais. 

- Após anos de disputas entre facções, nossas estruturas estavam esgotadas. Uma campanha no outono de 2023 recrutou milhares de novos membros, que reorganizaram suas seções e se tornaram ativistas de base. O fator decisivo foi a colaboração entre veteranos e novos membros.

2.    A maior campanha de organização da história do partido.

- A “Roteiro25” guiou a pré-campanha eleitoral, incluindo uma massiva pesquisa porta a porta. Visitamos 638.123 casas no dia das eleições, a maior mobilização de Die Linke até hoje.

3.    Gerar impacto concreto. 

- Iniciativas como a calculadora de aluguel abusivo e reuniões de inquilinos trouxeram benefícios reais e ajudaram a conectar o partido com as pessoas.

4.    Foco nos temas centrais. 

- Priorizar questões como controle de aluguel, preços altos e impostos sobre grandes fortunas ajudou a reconstruir um perfil claro para o partido.

5.    “Nós aqui embaixo contra eles lá em cima.” Colocamos a luta de classes no centro da campanha, deixando claro quem são nossos aliados e nossos adversários.

6.    Comunicação clara e acessível. 

- Desenvolvemos uma narrativa comum e eliminamos discursos excessivamente complexos e moralistas.

7.    Presença forte nas redes sociais. 

- Profissionalizamos nossa atuação digital, com mensagens segmentadas que ampliaram nossa visibilidade, especialmente entre os jovens.

8.    Adaptabilidade. 

- Mantivemos objetivos claros, mas testamos abordagens e seguimos com as que davam certo, permitindo flexibilidade na campanha.

9.    Postura firme. 

- Mantivemos nossos princípios mesmo diante do avanço da direita, tornando-nos um ponto de esperança para muitos.

10. Nova coesão interna. 

- O partido voltou a se comportar como um time, substituindo frustrações e disputas pelo espírito de cooperação e engajamento.

·       Seguimos em frente

Claro, o partido ainda precisa de muito trabalho. Claro, também cometemos erros e, claro, há grandes tarefas pela frente. Mas nós, como partido, alcançamos muito nos últimos meses — e estamos incrivelmente orgulhosos disso. Estamos orgulhosos dos passos que demos juntos e de cada camarada — e aqueles que poderiam se tornar camaradas — que contribuíram. Este é apenas o começo.

O partido Die Linke não entrou na eleição federal simplesmente para obter um bom resultado — queremos mudar esta sociedade. Muitas pessoas depositaram suas esperanças em nós novamente nas últimas semanas e deram ao Die Linke uma segunda chance. Estamos determinados a não decepcioná-los. Isso significa continuar no caminho que tomamos, reconstruir o Die Linke e transformá-lo em uma força que pode mudar as coisas para melhor. Vemos isso como nossa missão, e é uma que não trocaríamos por nada.

¨      Merz e Scholz se reúnem para negociar coalizão

O bloco conservador de Friedrich Merz, CDU/CSU, vencedor das eleições gerais do último domingo na Alemanha, e os social-democratas do chanceler federal alemão, Olaf Scholz (SPD), iniciaram nesta terça-feira (25/02) as primeiras conversas formar uma possível "grande coalizão".

Os partidos começaram a apresentar as primeiras exigências para fechar um acordo capaz de dar maioria a Merz no Bundestag e confirmar sua nomeação a chanceler federal. Combinados, SPD e CDU/CSU poderiam contar com 328 dos 630 assentoss no parlamento alemão (Bundestag), um pouco mais do que o necessário para assegurar maioria.

As negociações acontecem após uma ferrenha campanha eleitoral, com acusações mútuas entre as duas siglas. 

"Parto do princípio de que podemos chegar a um bom acordo de coalizão com o Partido Social-Democrata", disse Merz em uma coletiva de imprensa antes de uma reunião do novo grupo parlamentar conjunto da União Democrata Cristã (CDU) e da União Social Cristã da Baviera (CSU). Antes, Merz teve um encontro de uma hora e meia na com Scholz, cujo partido ficou em terceiro lugar no último pleito, atrás da ultradireitista Alternativa para a Alemanha (AfD).

Merz afirmou que tanto ele quanto Markus Söder, líder da CSU, assumirão a liderança da equipe negociadora e reiterou que seu objetivo é formar um governo antes da Páscoa.

¨      Memorando de Merz

Antes da reunião com o chanceler, Merz já havia enviado um memorando pedindo que, enquanto permanecer no comando do governo, Scholz não promova funcionários alinhados politicamente e que, em assuntos internacionais, adote uma postura de reserva e remeta as decisões ao próximo Executivo.

O líder conservador afirmou que ainda é cedo para discutir o conteúdo das conversas, mas ressaltou que prioriza três temas de máxima urgência: política externa e de segurança, migração e economia, que, segundo ele, se encontra em uma situação "crítica".

No entanto, estas políticas estiveram justamente no centro dos embates entre Scholz e Merz durante a campanha eleitoral, diferenciando os planos de governo dos dois candidatos.

Todos esses temas exigem decisões "rápidas" e "inevitáveis" e um governo capaz de agir, afirmou Merz, acrescentando que, em sua opinião, o SPD – que ainda não definiu quem assumirá a negociação, após a derrota de Scholz – já reconhece que são necessárias "mudanças fundamentais" na política migratória.

Ele também confirmou que as negociações incluem a possibilidade de abrir um orçamento extraordinário para financiar o aumento dos gastos com defesa na Alemanha sem incorrer tecnicamente no aumento da dívida.

 

¨      Fascismo: até tu, Alemanha? Por André Barroso

O partido de centro-direita União Democrata-Cristã (CDU) venceu as eleições parlamentares da Alemanha. Esse é o sinal vermelho apitando no mundo. Se não bastasse o partido conservador cristão vencer, o partido de extrema direita Alternativa para Alemanha (AFD) ficou em segundo lugar, com 20,8%. Logo a Alemanha, que deveria ser um exemplo de banimento do fascismo no mundo, apresenta sua líder Alice Weidel, recheada de incoerências. Lésbica casada com uma imigrante. Dois filhos adotados, apesar de o seu partido ser contra a adoção por casais homossexuais. É patriota alemã, mas vive na Suíça e está em um partido que é considerado extremo ao cubo até por outras legendas extremistas radicais na Europa. Devemos entender que o fascismo, que é um movimento popular, consegue abarcar as frustrações de uma população deprimida com uma crise financeira do país. A direita se agarra ao movimento, que consegue vencer as eleições da esquerda.

Fascismo é um movimento político e cultural. Umberto Eco, no seu livro ‘O fascismo eterno’, listou 14 pontos que definem se a gente está ou não entrando no fascismo. Senão vejamos alguns desses pontos para averiguar se estamos ou não migrando para isso no mundo. Culto à tradição, culto às tecnologias, a ação é bela em si, portanto, deve ser realizada antes de e sem nenhuma reflexão. Pensar é uma forma de castração, fascismo provém da frustração individual ou social, nacionalismo, privilégios aos nascidos em um mesmo país, elitismo, culto ao herói, machismo, populismo, sempre tendo conotações sexuais e sempre colocando as minorias sem assistência.

O que surpreende é a Alemanha embarcar, mesmo com sua história com o nazismo. Sempre foi um exemplo. Mas o crescimento do fascismo no mundo é uma realidade. E agora, sem pudor em se mostrarem fascistas. Haja vista personalidades fazendo a saudação Hitlergruß ou sieg heil, como Elon Musk (que participou do comício da extrema direita AFD) e Steve Banon (queridinho de Bolsonaro). O próprio Trump, colocando em suas primeiras ações expulsando imigrantes. O mapa da eleição mostra que o CDU ganhou na Alemanha ocidental e o CDU na Alemanha Oriental. O desconforto é saber que a Alemanha como um todo votou nos conservadores, o que não adiantou a manifestação de 1,4 milhão de pessoas nas ruas contra o avanço da extrema-direita. O que seria um ponto de inflexão junto com a França na Europa, encontra eco crescente avançando pelo mundo.

A pressão para conter o avanço foi exaustiva. No jogo de futebol no dia da eleição, a camisa do time do Schalke vinha com a inscrição: "votar pela democracia! Contra racismo e discriminação!". Lembrando que durante o nazismo, todos os clubes alemães se submeteram ao novo regime, como todas as instituições da sociedade alemã. A última vez que um partido de extrema-direita ficou em segundo lugar foi nas eleições alemãs de 1930. E na eleição seguinte, deu Hitler na cabeça. Quais as semelhanças? O enfraquecimento alemão dos últimos anos, com crise econômica e o crescimento da xenofobia por conta disso. Hitler cresceu focando na recuperação econômica do país, com o plano Quadrienal, usando até mão de obra escrava, teve apoio de empresários e assim, conseguiu implementar a ideologia nazista.

A Campanha Eleitoral da Alemanha, o partido da AfD distribuiu panfletos na forma de passagens aéreas, uma alusão para que os IMIGRANTES usassem para voltar aos seus respectivos países. A coincidência é que foi a mesma estratégia que os NAZISTAS fizeram, anos atrás. Onde estava o Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária Alemã nesse caso? Não existe. Apenas o Bundesgerichtshof, correspondente ao nosso STF. Que os Deuses olhem para nós.

 

¨      Reino Unido cortará 40% em gastos humanitários para investir na defesa nacional

O primeiro-ministro britânico Keir Starmer anunciou nesta terça-feira (25/02) um grande aumento dos gastos em defesa que será financiado com o corte de 40% nas ajudas humanitárias internacionais feitas pelo Reino Unido. Com isso, o orçamento em defesa aumentará em 6 bilhões de libras esterlinas (43,6 bilhões de reais, pela cotação atual) ao ano. Será o maior incremento de gastos militares do país desde a Guerra Fria, destinando à defesa 2,5% do PIB até 2027 (três anos antes do previsto), com a meta de atingir 3%.

Organizações humanitárias e políticos, alguns do próprio governo, criticaram a decisão. Inclusive, o secretário de Relações Exteriores do Reino Unido, David Lammy, no início de fevereiro, criticou os Estados Unidos quando o presidente Donald Trump anunciou o corte das ajudas internacionais. Na sua opinião, a decisão era um “grande erro estratégico” que permitiria à China preencher o vazio aberto e ampliar sua influência global.

Agora, Lammy diz que a decisão britânica foi “extremamente difícil”, mas que o governo tem que “equilibrar a compaixão com as necessidades da segurança nacional”.

“Sei do impacto da decisão que tive que tomar hoje e não a levo de ânimo leve (…), mas é uma decisão que devo tomar para garantir a segurança e a defesa do nosso país”, disse o primeiro-ministro trabalhista.

A medida, tomada dois dias antes do encontro de Starmer com o presidente Trump, foi interpretada com uma bajulação ao norte-americano. O premiê britânico negou que tenha sido levado pelo republicano a aumentar os gastos em defesa, mas justificou a urgência europeia em ampliar os gastos na área decorrente da redução da ajuda dos Estados Unidos na guerra da Ucrânia e de sua ameaça de abandonar a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

<><> Decisão impopular no governo

“Todos nós sabíamos que essa decisão estava chegando há três anos, desde o início do conflito na Ucrânia”, argumentou Starmer. Logo após a decisão, um membro de seu governo ligou para o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, para comunicar sobre: “Um passo forte de um parceiro duradouro”, comentou.

O governo britânico tomou a decisão depois de discuti-la com seu gabinete, mas houve polêmica. Todos os membros concordaram em aumentar o gasto em defesa, mas vários manifestaram preocupação com as consequências dos cortes na ajuda humanitária. Muitos avaliam que haverá prejuízos para a reputação do país e que há o risco de o governo perder o apoio.

 “A decisão (…) é um golpe para a reputação britânica de líder global em ajuda humanitária e desenvolvimento”, disse David Miliband ao jornal britânico The Guardian. Ele é ex-secretário de Relações Exteriores do Partido Trabalhista e atual líder do Comitê Internacional de Resgate.

Sarah Chimpion, presidente do comitê de desenvolvimento internacional e também trabalhista, avaliou que o corte tornará o mundo menos estável porque aumentará a desigualdade.

Os ministros de Defesa de toda a Europa se reunirão neste domingo (02/03) em Londres. Será mais uma reunião de emergência para debater como aumentar a autossuficiência do continente na área de defesa, depois de anos em que a região dependeu em grande parte dos Estados Unidos. Vale lembrar que os gastos mundiais em defesa vem se incrementando há alguns anos. 

<><> Reconstrução da Ucrânia

O mesmo ministro das Relações Exteriores britânico também defendeu no Parlamento de seu país, na terça-feira, que a Europa deveria passar do congelamento dos ativos russos para a sua apreensão. O objetivo seria usar esses recursos para a reconstrução da Ucrânia.

Desde a invasão russa da Ucrânia, em 2022, os Estados Unidos e seus aliados proibiram transações com o Banco Central e o Ministério das Finanças da Rússia, bloqueando entre US$ 300 bilhões e US$ 350 bilhões em ativos soberanos russos. Desse total, a União Europeia calcula que cerca de US$ 210 bilhões estariam dentro do bloco.

A ideia de usar esses recursos para reconstruir a Ucrânia não é nova, mas não há consenso sobre a legalidade disso ou se não se acabaria criando um precedente internacional perigoso. E Lammy não detalhou como se concretizaria sua proposta.

 

Fonte: Por Ines Schwerdtner e Jan van Aken – Tradução da Fundação Rosa Luxemburgo, em Jacobin Brasil/DW Brasil/Brasil 247/Opera Mundi

 

 A fórmula do fracasso – a democracia sem povo

Nas universidades brasileiras e de vários países chamados “ocidentais”, tornou-se moda falar em um “reducionismo de classe” do marxismo. A ideia básica é que o marxismo reduziria todos os fenômenos sociais ao pertencimento de classe – e às contradições entre as classes –, desconsiderando outros fenômenos e relações do tecido social. De fato, alguns marxistas já incorreram bastante em um reducionismo de classe e em uma relação mecânica entre classe e consciência de classe – como se cada trabalhador, tomado individualmente, fosse um bolchevique em potencial, com a consciência revolucionária pronta a despertar a qualquer momento, dado seu pertencimento de classe. Contudo, no Brasil de hoje, neste 2025 que começa, o nosso problema central nos debates teóricos e políticos não é um suposto reducionismo de classe do marxismo, mas o esquecimento total de que existem classes sociais no Brasil. Um trágico exemplo disso são os debates sobre democracia, defesa das “instituições” e frente ampla. Tudo começa com um engano autoimposto. O candidato Lula, em 2022, não aglutinou em torno de si milhões de votos de trabalhadores que ganham até dois salários mínimos (especialmente na região Nordeste, mas não só) por causa da defesa da democracia contra o autoritarismo de Jair Bolsonaro. O apelo de Lula foi a lembrança de um período econômico em que os salários, o poder de compra e o consumo das famílias eram melhores do que no governo Bolsonaro, e o custo de vida, como o preço da gasolina, do gás de cozinha, dos alimentos e afins, era bem menor.

É óbvio que, para amplos setores da sociedade, frente ao genocídio cometido na pandemia, a questão democrática e o horror ao bolsonarismo foram fatores de atração de votos em Lula. Mas engana-se quem coloca esse fator como elemento central do potencial de votos da Frente Ampla liderada por Lula. Com o governo empossado, a aposta foi simples: isolar o bolsonarismo, mostrando para os diversos setores da burguesia que não era necessário um movimento/governo de extrema-direita para entregar seu programa econômico. Vastos setores do progressismo, inclusive a tendência majoritária do PSOL, liderada por Guilherme Boulos, concordaram com essa premissa: ser funcional para a classe dominante, tornando o bolsonarismo uma força política e eleitoral desnecessária.

Dessa premissa, adotada por praticamente todos os progressistas, embora não dita abertamente, decorrem consequências básicas. Esquecer todas as promessas de campanha de 2022: revogar as contrarreformas trabalhista, previdenciária e do ensino médio, acabar com o teto de gastos, abrasileirar o preço dos combustíveis e retomar as refinarias privatizadas etc. A segunda consequência é continuar, ainda que com um ritmo menos violento, a Ponte para o Futuro, apresentada e posta em prática por Michel Temer no contexto do golpe de 2016 e, a partir de 2019, gerida por Paulo Guedes/Jair Bolsonaro.

Neste quadro, além de tratar números tímidos de melhora como uma espécie de paraíso na Terra, temos cada vez mais uma cortina de mentiras e enganos autoimpostos sobre a forma de tocar a “questão democrática” no âmbito da Frente Ampla. Primeiro, como já falamos, a estória de que, em 2022, a unidade contra o autoritarismo é que foi o fundamental. Em segundo lugar, a tese de que “a economia” não importa mais na definição da avaliação de um governo ou no ânimo do povo trabalhador, e que agora o centro da questão é a “guerra cultural” e as “fake news”. E, por fim, a nova moda da praça: a “tese” de que o governo Lula vai muito bem na economia, mas o povo não o percebe por problemas na comunicação.

Aqui, senhoras e senhores, permitam-me uma consideração que alguns podem achar um “reducionismo de classe”. Todos esses mitos têm uma função teórica clara (além dos objetivos eleitorais de blindar o governo): reforçar um programa pequeno-burguês de orientação sobre a classe trabalhadora. Um programa no qual nossa classe deve abrir mão de defender seus interesses econômicos imediatos (salário, direitos trabalhistas e sociais, condições de trabalho etc.) e subordinar-se a uma tática em que a “defesa da democracia” é feita às suas custas, unindo, com bênçãos liberais, a grande burguesia brasileira, os monopólios estrangeiros, os setores das camadas médias e os grupos sociais de maior renda que, desfrutando de várias franquias do Estado Democrático de Direito, têm interesse objetivo imediato em defendê-lo.

É uma noção de democracia sem povo, sem conflito capital/trabalho, sem luta de classes. Com esse horizonte de mundo, é totalmente coerente tratar o Supremo Tribunal Federal (STF) e Alexandre de Moraes (“Xandão”) como heróis da democracia, ao mesmo tempo em que o STF e “Xandão” estão numa saga para destruir todos os direitos trabalhistas do País (e a Justiça do Trabalho). O Supremo, a maioria dos democratas e defensores da democracia e a extrema-direita concordam com os pontos centrais do programa neoliberal em curso – incluso, é claro, a destruição dos direitos trabalhistas. É a democracia sem povo. Um museu de grandes novidades. De forma que em breve algum grande frasista – Alexandre de Moraes, Fernando Haddad ou Bolsonaro – poderá dizer: “a questão social é caso de polícia” e terminar com um “viva a democracia”. 

 

¨      Que democracia? Por Emir Sader

Assim que Carlos Nelson Coutinho publicou sua obra clássica “A democracia como valor universal”, a esquerda foi obrigada a acertar contas com a democracia. Que democracia? O que é democracia?

Na visão tradicional, classista, a democracia seria a democracia burguesa. Uma concepção formal que afirma a igualdade diante da lei – em todas as suas constituições -, mas contrapõe a isso as profundas desigualdades na realidade concreta.

O Brasil foi sempre o melhor exemplo do paradoxo. Desde que terminou a ditadura, passou a ser considerado uma democracia. Mas que convivia com as maiores desigualdades conhecidas.

Não havia dúvida que o Brasil havia deixado de ser uma ditadura. Os militares haviam ocupado totalmente o Estado, militarizado a instituição. Decidiam, entre eles, quem seria o novo presidente do país, que depois era aprovado pelo Congresso, completamente subordinado às FFAA.

Mas a democratização do Estado e da vida política conviviam com as maiores desigualdades sociais, econômicas e até mesmo políticas. Os que conseguiam ser eleitos para cargos importantes, provinham, praticamente sempre, das elites dominantes.

De onde vem então a concepção de “democracia como valor universal”? Da ideia de que devemos lutar para estender a igualdade jurídica para a igualdade real. De construir um Estado que não apenas afirme a igualdade formal, mas que seja um instrumento para a realização da igualdade real entre as pessoas.

Os governos do PT avançaram no processo de construção da igualdade econômica, social e política entre todos. A própria eleição do Lula e sua reeleição, foi um avanço na democratização do Estado. Pela primeira vez um líder sindical, um operário, um nordestino de origem pobre, chegava à presidência do Brasil.

Mas isso, por si só, não muda a natureza de classe do Estado brasileiro. Isso permitiu a implementação de políticas na contramão dos interesses dominantes. O modelo predominante até ali era o de concentração de renda, de exclusão social, de favorecimento dos interesses do grande capital e, especialmente, do capital financeiro, que se alimenta da mercantilização das relações sociais, da financeirização da economia e da elevada taxa de juros.

A priorização das políticas sociais está na contramão dos interesses e do modelo dominante de hegemonia do capital financeiro. Mas, implementada por apenas alguns anos, com interrupção, não consegue reverter a estrutura econômica e social predominante, que tem o capital especulativo ainda como seu eixo vertebral.

Convivem um governo democrático e anti-neoliberal, com essa estrutura econômica. Por isso é um período contraditório.

Além disso, o governo tem que ter lugar contra o poder conservador nos meios de comunicação, que se opõem fortemente ao Lula, a partir de aspectos absolutamente secundários, sem se enfrentar ao caráter social progressista do governo.

O governo tem que enfrentar a falta de uma maioria no Congresso. O que o obriga a uma política de alianças com setores do centrão, até mesmo da direita, dificultando a implementação de uma política coerentemente democrática e anti-neoliberal.

A democracia é um valor universal hoje no Brasil, E’, como afirmação ideológica do governo do PT. Nesse sentido, Carlos Nelson Coutinho estaria contente, se ainda estivesse entre nós. Mas sua prática se enfrenta tanto a uma estrutura estatal e do próprio sistema político, não democratizada ainda, como a uma estrutura econômica centralizada ainda em torno do capital especulativo, e à ação efetiva dos meios de comunicação.

A democracia vai se tornando um valor universal, conforme os setores predominantes na esquerda brasileira lhe dão a importância que a concepção original de Carlos Nelson Coutinho merece. Mas sua implementação requer uma maioria da esquerda dentro do Estado e a hegemonia da concepção democrática e anti-neoliberal que o PT representa, como hegemônica no conjunto da sociedade.

 

¨      O momento é governista. Por Oliveiros Marques

A luta política é feita de oportunidades. Em um ambiente polarizado, ela funciona como um pêndulo: ora para um lado, ora para o outro, com intervalos que não seguem necessariamente um ritmo cadenciado e compassado. Por isso, aproveitar os momentos é fundamental para construir um posicionamento positivo.

Assim como a oposição já teve seus períodos de oportunidade, alguns bastante recentes, penso que agora se abre uma janela importante de luta para a situação, para os governistas que apoiam Lula. A pauta está repleta de boas notícias que podem ser exploradas e que servem de contraponto, especialmente às fragilidades conjunturais provocadas pela alta dos preços dos alimentos. Claro que não com força suficiente para enterrar esse problema, pois ele está na vida real das pessoas, e só a mudança objetiva e concreta dessa realidade pode reverter essa percepção. Mas há pautas capazes de disputar a atenção dos debates.

São temas que dialogam positivamente com a base social governista, assim como o preço dos alimentos impacta negativamente. O próprio Lula, em pronunciamento em cadeia nacional esta semana, já deu a senha: a poupança para garantir que jovens de famílias inscritas no CadÚnico, matriculados no ensino médio, sigam seus estudos com o Pé-de-Meia, e a gratuidade de 41 medicamentos e outros produtos no Farmácia Popular.

Mas os conteúdos positivos que podem potencializar o discurso governista ganharam novos elementos esta semana. A liberação dos recursos do FGTS para trabalhadores que tiveram seu dinheiro bloqueado pelo saque-aniversário por medidas do governo anterior, a ampliação do crédito consignado para trabalhadores e trabalhadoras, reduzindo o endividamento das camadas mais pobres da população, os dados do Caged mostrando crescimento do emprego na indústria, e o balanço do BNDES, que revela que os financiamentos à indústria superam os concedidos ao agronegócio, evidenciando o dinamismo da economia e o aumento do valor agregado no PIB.

O momento, portanto, é extremamente positivo para quem se dispõe a defender o governo Lula. Além de haver pautas concretas para sustentar esse discurso, a oposição se encontra fragilizada, em grande parte pela denúncia oferecida pela PGR contra Jair Bolsonaro e pela sua inelegibilidade, que gera confusão em suas bases. O enfrentamento do debate é um dos caminhos para reverter a fotografia das pesquisas neste momento. Talvez o melhor caminho.

 

Fonte: Jones Manuel, em Opera Mundi/Brasil 247

 

Crônica sobre alienação e autoengano na esquerda

Ao conversar com um trabalhador terceirizado da zeladoria do prédio onde trabalho, fui confrontado com uma realidade que muitos preferem ignorar: o abismo entre os números da economia e a vida real dos trabalhadores.

Nesses papos informais em que não ultrapassamos os limites do senso comum, a conversa chegou a uma conclusão unânime: como os preços dos alimentos estavam altos no supermercado. Neste momento, um dos terceirizados mencionou que recebe algo em torno de R$ 1.200 mensais e relatou a dificuldade em fazer esse valor durar até o fim do mês. A conversa acabou, cada um seguiu seu caminho.

No entanto, fiquei refletindo sobre aquela troca de palavras. Toda vez que passo por um ponto de ônibus lotado ou vejo longas filas de espera em hospitais públicos, aquele breve bate-papo retorna à minha memória. Essa realidade me fez refletir sobre uma aparente contradição: os números positivos da economia apresentados pelo governo contrastam com a queda de popularidade do presidente Lula.

Quando aquele trabalhador terceirizado recebe seu contracheque no fim do mês, com um valor abaixo do salário-mínimo, ele realmente sente os efeitos do crescimento do PIB? Ou do suposto aumento do emprego? Para ele, o que pesa é o preço do arroz, do aluguel e da conta de luz – e não as estatísticas oficiais. Será que, em 2026, ele se sentirá motivado a votar pensando na defesa da democracia contra a extrema direita, ou sua escolha será guiada pela frustração cotidiana?

Os números oficiais mostram um desemprego baixo, mas escondem um mercado de trabalho precário. O CAGED revela alta rotatividade e salários iniciais baixos, o que significa que muitos trabalhadores não conseguem estabilidade financeira. Além disso, é necessário considerar a alta informalidade e a preocupante taxa de desemprego entre jovens de 18 a 24 anos, que gira em torno de 15%. A informalidade, por sua vez, fomenta a ilusão do empreendedorismo, que, na prática, muitas vezes se traduz em precarização e superexploração do trabalho.

Nos dois primeiros anos do governo Lula 3, algumas categorias de trabalhadores obtiveram ganhos reais em seus salários. No entanto, a inflação dos combustíveis, dos planos de saúde, do aluguel e, principalmente, dos alimentos corrói esse aumento, tornando-o quase imperceptível para a população.

Outro fator alarmante, que contrasta com os indicadores positivos do governo, é o grau de endividamento das famílias. Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 2024 terminou com 77% das famílias brasileiras endividadas. Esse cenário de endividamento é acompanhado pelos sucessivos recordes de lucro dos bancos, que continuam drenando a renda dos trabalhadores.

Diante desse cenário, percebe-se uma sociedade dividida, tomada por um certo ar de desconfiança e desalento. Mesmo com os esforços do governo para melhorar sua comunicação, quem convive com o “chão de fábrica” nota a ausência de entusiasmo em relação à atual gestão. No fim das contas, para se comunicar melhor, é preciso ter o que comunicar.

Lula venceu em 2022 ao unir diferentes forças políticas contra a extrema direita. Agora, essa mesma aliança limita suas ações, pois depende de um Congresso majoritariamente conservador e de um setor financeiro que pressiona por austeridade. Ainda assim, há espaço para medidas progressistas que não dependem exclusivamente do Legislativo, como o fortalecimento de bancos públicos, Petrobras e políticas de valorização salarial.

Essa insatisfação difusa na sociedade pode ser explicada apenas como um problema de comunicação ou pelos limites da governabilidade? Ou há algo mais profundo?

Desde 2003, os governos petistas não romperam com os dogmas neoliberais do Consenso de Washington – câmbio flutuante, meta de inflação e superávit primário. Pelo contrário, a gestão petista reafirma sua fé na sustentabilidade do Novo Arcabouço Fiscal (NAF) e na manutenção da independência do Banco Central. Em quase quinze anos de governo, o Partido dos Trabalhadores não alterou as estruturas do capitalismo rentista brasileiro e o nosso papel na divisão internacional do trabalho.

A austeridade imposta pelo NAF, sob a gestão do ministro Fernando Haddad, impede investimentos na melhoria e expansão dos serviços públicos. Em contrapartida, a lógica neoliberal viabiliza a transferência desses serviços ao setor privado. O BNDES do governo Lula 3 dá continuidade ao programa “Ponte para o Futuro” inaugurado no governo Michel Temer. Uma das políticas desse programa são as Parcerias Público-Privadas (PPPs), que destinam dinheiro público para concessões de estradas, portos, parques, escolas e creches. Assim, o grande capital ganha duplamente: primeiro, pela captura de recursos do orçamento público por meio da dívida pública; segundo, pela apropriação de bens e serviços estatais via concessões e privatizações.

Apesar do discurso progressista, não houve, por parte do atual governo, esforços para reverter o avanço da terceirização no serviço público e privado. Pelo contrário, a precarização do trabalho tem se intensificado dia após dia. Um agravante: a terceirização no serviço público não garante, necessariamente, a redução dos gastos do governo. Em muitos casos, o custo com contratos de empresas terceirizadas pode ser até maior do que a manutenção de servidores efetivos, sem contar a perda de qualidade e estabilidade nos serviços prestados.

Não há qualquer sinal de que privatizações de empresas estratégicas serão revertidas para que estas atuem no desenvolvimento do país. Em vez disso, o governo segue apresentando pacotes de ajuste fiscal que impactam diretamente as camadas mais vulneráveis da população, beneficiários de programas como Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada (BPC). São as eternas “reformas” neoliberais.

Pois bem, um espectro ronda a política brasileira: o espectro das jornadas de junho de 2013. Naquele momento, as lideranças petistas falharam em perceber que, mais do que um reflexo do patrimonialismo ou da influência das redes sociais, o que levou milhares de manifestantes às ruas foi a insatisfação com a baixa qualidade dos serviços públicos. Os grandes centros urbanos eram verdadeiros barris de pólvora prestes a explodir.

Apesar dos avanços sociais como políticas de combate à fome, a expansão da rede federal de ensino e um período de crescimento econômico em decorrência do boom de comodities que possibilitou a ampliação do investimento público, existia uma crescente insatisfação entre diferentes extratos da população.

Embora o país tenha experimentado um sentimento de euforia e otimismo ao longo do segundo mandato do presidente Lula, existia um déficit de políticas urbanas de transporte, segurança, educação e saúde públicas. Esse conjunto de insatisfações veio à tona em junho de 2013. O então prefeito da capital paulista, Fernado Haddad, anunciara um reajuste nas tarifas de ônibus. Tal medida era considerada importantíssima para o equilíbrio das contas da prefeitura, porém serviu como estopim para a eclosão de grandes manifestações que, em menos de vinte dias, se expandiram pelas cidades do país e tomando a Esplanada dos Ministérios em Brasília.

Como explicar que avanços econômicos e sociais “nunca antes vistos na história desse país“ se desmancharam pelo ar em questão de meses? Ou num arco temporal mais amplo, até o golpe de 2016? Existe uma visão míope que atribui os acontecimentos de 2013 e 2016 a uma revolta da classe média e ao fenômeno das redes sociais. São explicações que buscam um fator externo para ofuscar as críticas ao modelo econômico do lulopetismo, que manteve intactas as estruturas de dominação, acumulação do capital e superexploração da força de trabalho.

O trabalhador sabe fazer contas. O trabalhador não precisa ser tutelado. Explicações do tipo “pobre de direita” depositam nos ombros do trabalhador a responsabilidade por suas mazelas. Criam uma espécie de vínculo moral ou um certo ar de ingratidão por parte do eleitor que não vota no Partido dos Trabalhadores – ou nos partidos progressistas. É certo que o mundo do século XXI tem se mostrado complexo e é notável o avanço da extrema direita, embalado pela ideologia do empreendedorismo e pela fé da teologia da prosperidade. Por outro lado, também é certo que a extrema direita encontrou terreno fértil nas últimas quatro décadas de consolidação do neoliberalismo.

Se há algo que os governos petistas deveriam ter aprendido com as manifestações de 2013 é que promessas de crescimento econômico não são suficientes para garantir apoio popular. O trabalhador comum não vive de indicadores, mas da realidade concreta do seu cotidiano. Esse erro se repetiu em 2015, quando a então presidente Dilma Rousseff, sob forte pressão do mercado, nomeou Joaquim Levy como ministro da Fazenda.

Com um viés ortodoxo, Levy adotou uma agenda de austeridade que incluiu cortes em investimentos públicos e restrições orçamentárias, resultando em uma queda brusca da economia. O desemprego disparou, o consumo despencou e o governo perdeu apoio popular, criando um cenário de insatisfação que facilitou o processo de impeachment em 2016. Estes episódios reforçam a lição de que números positivos na economia não bastam—é preciso que o crescimento se traduza em melhorias concretas na vida das pessoas.

Se o governo Lula 3 deseja reverter o cenário de apatia e desconfiança, precisará ir além da comunicação e enfrentar, de fato, os entraves estruturais do país. Para isso, é fundamental romper com o Arcabouço Fiscal, que impõe uma lógica de “austeridade” permanente e sufoca a capacidade do Estado de investir em infraestrutura, serviços públicos e geração de empregos. O crescimento econômico sustentável depende de um Estado forte, capaz de impulsionar a indústria nacional, reduzir desigualdades e garantir que o desenvolvimento chegue a todos.

A ampliação da CONAB e de políticas de reforma agrária poderiam contribuir para a estabilidade dos preços dos alimentos, enquanto o fortalecimento dos bancos públicos e a ampliação do crédito produtivo permitiriam que pequenos e médios empresários não ficassem reféns das altas taxas de juros do setor financeiro privado. Acabar com o Arcabouço Fiscal não significa irresponsabilidade fiscal, mas sim a substituição de um modelo que estrangula o investimento público por uma política econômica que priorize o bem-estar social e o fortalecimento do setor produtivo.

Além disso, é essencial que o governo reconstrua seu vínculo com as bases populares e escute aqueles que vivenciam diariamente os impactos da política econômica. O distanciamento entre a gestão federal e o povo trabalhador gera um vácuo que pode ser explorado por discursos oportunistas da extrema direita.

Se a insatisfação cresce mesmo diante de indicadores positivos, é porque esses números não se traduzem em melhorias concretas no cotidiano da maioria. O governo precisa abrir canais reais de participação popular, fortalecer conselhos e movimentos sociais, e garantir que suas decisões sejam moldadas pelas necessidades da população. Mais do que anunciar medidas, é preciso que as pessoas se sintam parte do projeto de reconstrução do país. Caso contrário, o descontentamento continuará crescendo – e poderá ser capturado por forças políticas que oferecem respostas ainda mais regressivas.