sábado, 30 de novembro de 2024

Do globalismo ao neofascismo

Com o advento da globalização neoliberal, a democracia como meio de intervenção política igualitária na economia caiu em descrédito. As elites de ambos os lados do Atlântico lideraram esse processo. Elas viam a democracia como tecnocraticamente “pouco complexa” diante da “complexidade exacerbada” do mundo; propensa a sobrecarregar o Estado e a economia; e politicamente corrupta devido à sua falta de vontade de ensinar aos cidadãos “as leis da economia”.

De acordo com essa linha de raciocínio, o crescimento não vem da redistribuição de cima para baixo, mas de baixo para cima: na extremidade inferior da distribuição de renda, por meio da abolição do salário mínimo e da redução dos benefícios da seguridade social; e na extremidade superior, ao contrário, por meio de melhores oportunidades de lucro e salário, apoiadas por impostos mais baixos. O processo subjacente foi uma transição para um novo modelo de crescimento hayekiano, destinado a substituir seu antecessor keynesiano como parte da revolução neoliberal.

Como em qualquer doutrina econômica, essas ideias devem ser entendidas como representações camufladas de restrições e oportunidades políticas decorrentes de uma distribuição de poder historicamente contingente, disfarçadas como manifestações de leis “naturais”. A diferença é que, no mundo hayekiano, a democracia não aparece mais como uma força produtiva, mas como uma pedra de moinho em volta do pescoço do progresso econômico. Por esse motivo, a atividade distributiva espontânea do mercado deve ser protegida da interferência democrática por muros chineses de todos os tipos ou, melhor ainda, pela substituição da democracia pela “governança global”.

A desintegração do modelo padrão de capitalismo democrático em meio ao avanço da globalização foi muito analisada. No decorrer de cerca de duas décadas, desde o desaparecimento do comunismo soviético, o neoliberalismo teve um retorno surpreendente: Hayek, que por muito tempo foi ridicularizado como líder de um culto sectário, eclipsou figuras importantes dos assuntos mundiais como Keynes e Lênin. As ideias de Hayek penetraram profundamente no pensamento não apenas de economistas e instituições internacionais, mas também de governos nacionais e partidos políticos. Isso incluiu seus apelos por um sistema no qual a propriedade privada seria protegida internacionalmente e a liberdade do mercado global prevaleceria sobre a política nacional; pela liberalização por meio de sistemas jurídicos idênticos em Estados formalmente soberanos (“isonomia”); pela liberalização econômica em federações internacionais heterogêneas; pela proibição do intervencionismo estatal por meio da lei de concorrência internacional; e, não menos importante, pela livre circulação de mercadorias, serviços, capital e pessoas como meio de neutralizar economicamente o Estado-nação. Os governos nacionais e os partidos políticos começaram a compartilhar as suspeitas da teoria da escolha pública em relação a eles mesmos.

Até ser desmistificado pela Grande Recessão, o neoliberalismo se tornou a doutrina político-econômica dominante do capitalismo moderno: a utopia de uma economia de mercado capitalista global autorregulável, na qual as políticas nacionais se limitavam ao estabelecimento e ao apoio dessa economia, à promoção de uma adaptação flexível a ela e, talvez, à preservação folclórica das tradições culturais e políticas locais para que as pessoas se sentissem em casa em uma sociedade cada vez mais sem teto.

O avanço do modelo de crescimento globalizante-neoliberal foi acompanhado por uma erosão gradual do modelo padrão de democracia do pós-guerra. Desde o final da década de 1970, houve um declínio notável na participação em eleições de todos os tipos em todas as democracias capitalistas. Isso tem sido especialmente verdadeiro entre aqueles que estão na base da distribuição de renda e de oportunidades de vida, que são os que mais precisam de proteção social e redistribuição. Ao mesmo tempo, os partidos políticos, independentemente das diferenças institucionais nacionais, sofreram um declínio drástico no número de membros. O mesmo ocorreu com os sindicatos, que, desde o final da década de 1980, raramente conseguiram exercer seu direito de greve com alguma perspectiva de sucesso. Quanto ao sistema partidário, conforme demonstrado por Peter Mair, os partidos estabelecidos do centro se distanciaram cada vez mais da sociedade e de seus eleitores, indo para o aparato do Estado, e sua crescente estatização teve sua contrapartida na privatização da sociedade civil.

A principal força motriz desse processo foi a compulsão por governar “com responsabilidade”, como diz Mair, derivada da própria globalização – em outras palavras, da real ou suposta falta de alternativas políticas ao pensamento neoliberal único do Consenso de Washington que se espalha. Assim como os sindicatos que querem preservar os empregos de seus membros só podem fazer exigências salariais moderadas, os partidos políticos que querem governar seus Estados, agora inseridos no mercado global, não podem se deixar influenciar demais por seus membros. Para usar os termos de Mair: a responsabilidade veio com o preço da capacidade de resposta.

O colapso final do modelo padrão coincidiu com a globalização acelerada da década de 1990. Quatro aspectos desse processo são característicos da involução liberal da democracia capitalista. O que está envolvido aqui é uma mudança específica nos interesses e atitudes representados pelo centro do sistema político democrático, a formação de um padrão correspondente de oferta e demanda política e o aumento dos conflitos sobre o status do Estado-nação em face dos interesses crescentes na restauração de uma política de proteção e redistribuição.

Em primeiro lugar, nos sistemas políticos padrão do pós-guerra, os partidos conservadores de centro-direita – que na Europa Continental geralmente tinham uma orientação democrata-cristã – haviam assumido a tarefa de conciliar o tradicionalismo social com a modernização capitalista. Isso se tornou cada vez mais difícil sob a pressão da globalização. O fim do socialismo de fato existente não significava apenas o desaparecimento da antítese do conservadorismo burguês, cuja existência havia facilitado a reconciliação do tradicionalismo com o capitalismo. Havia também novas pressões competitivas sobre os partidos de centro-direita para que abandonassem seu equilíbrio entre progresso e preservação e ficassem do lado dos destruidores criativos e dos modernizadores culturais em nome da competitividade econômica nacional. (Um exemplo entre muitos outros é a transição politicamente promovida para uma estrutura social de participação universal no mercado de trabalho, que enfraqueceu muito a receptividade da sociedade às políticas familiares conservadoras). Segmentos cada vez maiores do eleitorado culturalmente conservador ficaram politicamente desamparados.

Em segundo lugar, ocorreu um desenvolvimento correspondente dentro dos partidos, principalmente social-democratas, na outra metade esquerda do centro político. A abertura acelerada das economias nacionais os privou do instrumento mais importante de sua caixa de ferramentas políticas: a política econômica keynesiana em sua versão pós-guerra. O mesmo pode ser dito sobre o rápido aumento da dívida pública após a década de 1970 e o fato de que, em mercados internacionais abertos, os custos de uma política social nacional e descomodificadora ameaçavam se tornar uma desvantagem competitiva. Se os partidos conservadores do centro se tornaram os gerentes do progresso capitalista, seus colegas social-democratas se tornaram seus facilitadores, garantidores e propagandistas, falando com entusiasmo a seus eleitores sobre a luz da prosperidade renovada no fim do túnel da globalização.

Na Alemanha, por exemplo, os eleitores sociais-democratas tradicionais foram informados de que era melhor se reinventarem como empreendedores individuais – como a Egos Inc. – com o apoio do Estado, se necessário. Também lhes foi dito que a época moderna exigia uma política social voltada para o investimento, em vez de uma política voltada para o consumo; que a adaptação flexível era preferível à aposentadoria precoce; e que a solidariedade internacional agora significava submeter-se à concorrência nos mercados internacionais. Isso também não foi bem aceito. Enquanto os vitoriosos entre seus apoiadores se sentiam parcialmente representados – mas apenas parcialmente, já que boa parte deles se mudou para os novos partidos verdes de centro-esquerda – os perdedores da globalização, achando que tudo isso era demais para suportar, abandonaram a bandeira da modernização social-democrata, primeiro não comparecendo às urnas, depois se voltando para uma nova direita, longe do caminho democrático-capitalista.

Em terceiro lugar, ao se unirem à frente unida da globalização, tanto a centro-direita quanto a centro-esquerda perderam suas identidades políticas, por mais vagamente definidas que tenham sido no início. No processo de adaptação ao mercado mundial, a política democrática do pós-guerra deixou de ser a busca de longo prazo de diferentes modelos de uma sociedade ideal – um modelo paternalista-hierárquico, por um lado, e um modelo igualitário e sem classes, por outro – e passou a ser uma série de reações pragmáticas e de curto prazo às condições do mercado mundial em constante e imprevisível mudança. Os políticos e a política se tornaram menos ideológicos do que nunca, sem perspectiva e, portanto, indistinguíveis uns dos outros. Dessa forma, a democracia poderia se transformar em pós-democracia, entretendo os eleitores como espectadores passivos, ao mesmo tempo em que trazia spin doctors e técnicos de relações públicas para elaborar políticas.

O comportamento do voto – tanto as intenções contadas pelos estrategistas eleitorais quanto as escolhas dos próprios eleitores – mudou de acordo com isso: não mais orientado para um ideal social coletivo, um futuro comum pelo qual lutar como cidadãos, mas dissociado de posições de classe e ideologias, reagindo ao momento, em vez de a um futuro ideal. Como resultado, a rotatividade de eleitores entre os partidos aumentou, enquanto os antigos partidos do modelo padrão podiam contar cada vez menos com o apoio estável de uma base estabelecida.

Em quarto lugar, a despolitização pragmática da política provocada pela globalização, especialmente na esfera da economia política, juntamente com o surgimento de uma política econômica uniforme e de acordo com o mercado, acabou com a estruturação do conflito político-partidário ao longo do eixo capital-trabalho, como havia moldado a diferenciação e a integração política no modelo padrão. Ele foi substituído por uma nova clivagem que atravessou a estrutura de patrocínio do antigo sistema, entre uma maioria cada vez menor que se sentia amplamente representada na política pós-democrática e uma minoria cada vez maior que se sentia excluída. Isso se refletiu, entre outras coisas, em um declínio na participação dos eleitores e em um alto grau de volatilidade eleitoral, bem como em um declínio dramático na confiança e nas expectativas dos cidadãos em relação à política e aos partidos em todos os grupos.

Nos anos de internacionalismo e suas crises, outra clivagem se cristalizou entre uma orientação nacional e uma orientação internacional dos interesses políticos. Aqueles que sentiam que haviam se beneficiado da globalização de uma forma ou de outra se encontravam na estreita faixa da política da Terceira Via. Por outro lado, entre os perdedores econômicos e culturais da globalização, aqueles que não se viam representados pelo centro político reorganizado, desenvolveu-se uma preferência há muito não articulada e politicamente submersa por uma restauração da autonomia política e da capacidade do Estado-nação. Essa preferência podia ser cada vez mais mobilizada por partidos e movimentos orientados para um nacionalismo de direita ou de esquerda – e, por esse motivo, excluídos como “populistas” do espectro dominante.

A crise de 2008 marcou o fim do auge do neoliberalismo. Muito havia sido prometido e muito pouco foi cumprido. As dúvidas sobre a democracia, se não sobre o capitalismo, começaram a crescer entre as pessoas comuns, que se redescobriram e se reconstituíram politicamente de várias formas e cores, tanto como manifestantes quanto como eleitores. A perda da estabilidade e da confiança, a distribuição cada vez mais desigual da riqueza, que cresce cada vez menos, e a estagnação econômica, apesar das demandas por mudanças estruturais, juntamente com a crescente insegurança cultural e o desprezo da elite pelos que foram deixados para trás, deram origem a contra-movimentos populares plebeus vindos de baixo. O regime neoliberal pós-democrático reagiu a esses movimentos com horror.

Independentemente de terem surgido da experiência da vida cotidiana globalizada ou de terem sido oportunisticamente fomentados por novos atores políticos, o que eles tinham em comum era e é uma profunda desconfiança de qualquer tipo de “abertura” com eventos incertos, do livre comércio à migração, acompanhados por uma redescoberta da solidariedade local e da justiça local, em nível regional, nacional e de classe, em todas as combinações imagináveis. Já nos anos anteriores à crise, a globalização havia sido objeto de protestos; depois, por meio de uma infinidade de desvios, ela provocou uma repolitização de uma vida política que estava paralisada há algum tempo, culminando em uma disputa fundamental, mais ou menos articulada, sobre o lugar correto e legítimo da política, da democracia e da solidariedade na sociedade.

Hoje, em todos os países do capitalismo da OCDE, alguns dos remanescentes do modelo padrão de democracia do pós-guerra estão sendo redescobertos e utilizados como recursos institucionais para a resistência popular contra a modernização capitalista e cultural acelerada e a mudança estrutural politicamente desempoderadora impulsionada pela globalização. O que isso significa é uma luta amarga sobre o futuro caráter do Estado, tanto nacional quanto internacional: centralizado e integrado para proteger a globalização, ou descentralizado e subdividido para impedir seu avanço; elitista ou igualitário; (pequeno) burguês ou plebeu; tecnocrático ou democrático? Nos anos anteriores à Covid, começaram a surgir os contornos de uma reversão da tendência de queda na participação política, com um aumento nos protestos e greves mais frequentes. Os partidos de modelo padrão abandonados e seus aliados na mídia tiveram pouco a ver com isso. Na verdade, eles combateram a nova onda de politização com todo o arsenal de armas de que dispunham – propagandísticas, culturais, legais, institucionais – muitas vezes, sem querer, soprando vento nas velas daqueles que eles haviam enquadrado como inimigos não apenas da democracia, mas também do Estado.

Três décadas de centralização e unificação político-econômica neoliberal mudaram as democracias ocidentais em seu cerne: partidos políticos centristas declinaram conforme a participação eleitoral se recuperou, sindicatos perderam membros e status político, e novos partidos de direita, ou correntes populistas dentro dos partidos existentes, corroeram o conservadorismo centrista, incluindo a social-democracia tradicional. Em 2023, a nova oposição havia se transformado em uma força política mais ou menos influente a ser considerada em todos os países ocidentais, em alguns se tornando um parceiro informal ou formal no governo, às vezes até mesmo como sua força política dominante.

Isso vale para os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, bem como para a Itália, França, Áustria e toda a Escandinávia, sem falar na Polônia, Hungria e Europa Central e Oriental de forma mais ampla. O que quer que possa dividir os novos nacionalistas de direita, o que eles têm em comum é a oposição à internacionalização e à centralização e integração da governança que vêm com ela, trazendo à tona e politizando uma linha de conflito nas democracias capitalistas inerente à Nova Ordem Mundial pós-1990 do neoliberalismo global.

Hoje, as pressões por autogoverno local — por descentralização da governança por meio da restauração da soberania nacional — e a questão de como responder a elas são uma questão central de políticos e da política em contextos políticos e econômicos nacionais e internacionais. Forças políticas que insistem na soberania de seus Estados-nação — em relação a outros Estados imperiais, bem como a organizações internacionais dominadas por estes últimos, ou a mercados livres globais ou continentais — podem alegar que estão defendendo uma condição indispensável da democracia nacional, mesmo que a queiram apenas para si, e não também para seus oponentes. Aqueles que tentam preservar a democracia liberal do período neoliberal tendem a subestimar o poder da oposição a ela, enquanto superestimam a capacidade de governar, política e tecnicamente, de organizações supranacionais e países hegemônicos imperiais. A democracia neoliberal foi incapaz de evitar uma profunda perda de confiança em suas instituições por parte dos cidadãos, o que é outro resultado dramático de longo prazo das três décadas neoliberais desde o início dos anos 1990. Nem o centralismo neoliberal foi capaz de sustentar instituições nacionais ou internacionais capazes de estabilizar uma economia de mercado global; como os mercados falharam, a política neoliberal, que havia apostado em sua infalibilidade, estava fadada a falhar também.

A revolução neoliberal havia destruído completamente a ordem política e social do compromisso do pós-guerra, descartando um simples retorno a ele. Isso torna ainda mais necessário entender as causas precisas do fracasso do centralismo supranacional para entender os possíveis contornos da democracia pós-globalista e pós-neoliberal. Somente dessa forma podemos esperar preencher o vazio político deixado pelo neoliberalismo com um equivalente funcional do modelo padrão do pós-guerra. Como seu predecessor, um modelo pós-globalização de democracia — descentralizada — teria que ser incorporado em uma ordem internacional acomodatícia que respeitasse a autonomia política local e a soberania do Estado nacional como condições fundamentais para a democracia na sociedade e na economia.

A este respeito, o destino da União Europeia oferece lições sobre a fragilidade do internacionalismo estatista, os limites da governança supranacionalmente centralizada, da integração como unificação — em suma, sobre a futilidade de tentativas mais ou menos bem-intencionadas de consignar o Estado-nação como o local da soberania distribuída para a lata de lixo da história. Olhando em particular para o estado da União Europeia no final do neoliberalismo e no início da pós-globalização, pode-se aprender sobre as forças de resistência a uma ampliação supranacional hierárquica-tecnológica da política, como aquelas que afastaram os Estados-membros da UE que deveriam crescer para se tornarem os Estados Unidos da Europa.

Além disso, a maneira como as rédeas foram apertadas novamente e a centralização restaurada no curso da guerra na Ucrânia sugere que a unificação supranacional de Estados-nação soberanos é melhor perseguida com a ajuda de um inimigo ou aliado comum — um Estado imperial agindo como um unificador externo ao definir ou mesmo criar um problema de segurança internacional comum a ser tratado supranacionalmente sob liderança imperial: uma questão de vida ou morte, bem diferente de uma rendição voluntária da soberania nacional em prol da prosperidade econômica e do conforto cosmopolita, e extremamente perigosa para começar.

 

Fonte: Por Wolfgang Streeck, em Compact. - Tradução de Glauco Faria, em Outras Palavras

 

A democracia não é uma empresa

A suposição da democracia liberal de que os partidos políticos devem competir por votos da mesma forma que as empresas competem por clientes é uma armadilha perigosa. Ela reduz a votação a uma mera escolha transacional e apaga a visão participativa da autogovernança.

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A maioria de nós tem um partido político preferido. Mesmo que não gostemos de muitas de suas políticas, sua retórica ou seu líder, e vejamos nossa preferência como um compromisso, esse partido é o mais próximo de nossos valores e é a alternativa que preferiríamos ter no governo.

Ao mesmo tempo, pode parecer que não temos nenhuma escolha real na prática. Se apenas um partido é tolerável, ou todos os outros são totalmente intoleráveis, pode parecer que estamos apenas votando contra partidos ruins, em vez de votar em um bom.

Se essa opção menos ruim se afastar o suficiente dos nossos valores, podemos decidir parar de votar no mal menor até que alguém ofereça uma visão que valha a pena apoiar. Ou seja, podemos decidir que nenhum partido pode contar com nosso apoio incondicional — se os partidos querem nossos votos, eles terão que conquistá-los.

Mas deveríamos ter essa expectativa? Os partidos políticos deveriam ganhar nossos votos? Com ​​base na visão de senso comum da democracia liberal, parece que a resposta é obviamente sim — a única alternativa seria a lealdade partidária incondicional. No entanto, se entendermos o que essa expectativa implica em relação à política, e o que a democracia real exige, então veremos que a resposta é não.

Para responder a essa pergunta, precisamos primeiro entender o que é democracia. As definições de democracia destacam que é uma palavra grega antiga que significa “o governo pelo povo” ou citam frases como “governo do povo, pelo povo, para o povo” ou “o consentimento dos governados”. Muitas vezes tratamos essas descrições como intercambiáveis, mas elas derivam de duas filosofias políticas distintas com visões radicalmente diferentes da política democrática. A conexão com “governo” vem da antiga tradição republicana, enquanto o foco em “consentimento” foi introduzido pelo liberalismo moderno. Essas duas teorias da democracia levam a conclusões opostas sobre se os partidos devem ganhar nossos votos.

·        A analogia da escolha do consumidor

Se a democracia é sobre consentimento, como na visão liberal, então a expectativa de que os partidos devem ganhar nossos votos se encaixa na forma como pensamos sobre a maioria das escolhas consensuais.

A escolha consensual por excelência é a do consumidor. Por exemplo, consumidores que procuram café podem esperar encontrar dezenas de cafés competindo para oferecer um bom café a preços baixos em lojas legais, talvez até inovando. Nenhum café pode contar com lucro incondicional: sempre podemos ir a outro lugar, fazer café em casa, trocá-lo por chá ou ficar sem cafeína. Se os cafés querem nosso dinheiro, eles precisam conquista-lo.

A dependência das empresas por essas escolhas consensuais dá aos consumidores muita vantagem. Se nosso café favorito aumentar os preços, iremos com menos frequência; se a equipe for rude, pararemos de ir; se o proprietário doar para uma instituição de caridade antiética, podemos organizar um boicote. Se outros consumidores se juntarem a nós em número suficiente na retenção de seus lucros, o café terá que melhorar ou sair do mercado. Coletivamente, essas escolhas individuais constituem a “mão invisível” do mercado: o sistema de incentivos de mercado que explora o desejo do café por lucro para impulsionar a concorrência e garantir uma ampla seleção de bons cafés.

Essa analogia da escolha do consumidor foi aplicada de forma influente à política em 1942 pelo economista e teórico político Joseph Schumpeter. Schumpeter descreveu a democracia como um método pelo qual “indivíduos adquirem o poder de decidir por meio de uma luta competitiva pelo voto do povo”. Ele via a competição eleitoral como análoga à competição de mercado: partidos (empresas) oferecem políticas (produtos) aos eleitores (consumidores), cujos votos individuais (compras) se combinam para criar incentivos que exploram o desejo dos partidos por poder (lucro), impulsionando assim a competição e garantindo uma boa governança (produção eficiente). Essa teoria “competitiva” da democracia (e outros modelos econômicos de política) influenciou muito o liberalismo do século XX e ainda baseia a visão sobre democracia do senso comum atual.

Se perguntado, “Os partidos devem ganhar nossos votos?” Schumpeter (e a maioria dos teóricos políticos liberais) diria que sim. Essa expectativa é essencial para a operação da mão invisível do mercado político, o que significa que a boa governança depende dos eleitores insistirem que os partidos ganhem seus votos. Se continuássemos comprando de cafés ruins, eles não teriam incentivo para fazer um bom café. Da mesma forma, se continuarmos votando em partidos ruins, eles não terão incentivo para oferecer políticas populares.

“Falar de partidos que conquistam nossos votos significa aceitar que nosso único papel é votar, enquanto as elites políticas decidem como governar.”

Isso pode parecer um modelo eficiente de política. Os partidos oferecem políticas concorrentes, os eleitores escolhem o partido que preferem, e o vencedor governa até ser julgado por seu desempenho na próxima eleição. Se um partido tem más ideias ou governa mal, ele não ganhará votos suficientes e terá que mudar de rumo ou ser substituído. Essa competição garantirá uma boa governança, e os eleitores só precisarão fazer pesquisas básicas e opinar periodicamente, deixando-os livres para se concentrar em suas vidas privadas.

Claramente, a política real não funciona assim. Os mercados podem ser decentes para entregar café, mas quantos partidos políticos desfrutam das classificações de aprovação até mesmo dos piores cafés? Com ​​que frequência os partidos “saem do mercado” e são substituídos? Se aceitarmos a teoria competitiva, então talvez precisemos apenas aumentar a competição por meio de melhor regulamentação do mercado político ou mais insistência para que os partidos ganhem nossos votos. Mas antes de dobrar a aposta neste modelo de política baseado no mercado, devemos considerar suas implicações de maneira mais ampla.

·        As premissas da democracia competitiva

Primeiro, a teoria competitiva é altamente desigualitária, daí seu nome alternativo: a “teoria da democracia da elite”. Ela sustenta que os políticos eleitos devem “fazer política e lei com pouca consideração pelas demandas inconstantes e difusas feitas por cidadãos comuns” (Schumpeter também achava que os políticos deveriam ser retirados de uma aristocracia hereditária). A competição eleitoral ocorre inteiramente entre essa pequena elite, explorando seu desejo de poder para incentivá-los a governar bem.

Em contraste, à maioria das pessoas é negado qualquer papel na política além de escolher seus líderes (Schumpeter também achava que era perfeitamente legítimo restringir o direito de voto com base em sexo, raça, riqueza ou religião). Assim como os consumidores deixam as decisões sobre como o café é feito para os cafés, os eleitores deixam as decisões sobre o que está na cédula para os partidos.

A exclusão da maioria das pessoas da tomada de decisões políticas não é um efeito colateral da teoria competitiva, mas um de seus objetivos principais. Schumpeter acreditava que “a massa de eleitores é incapaz de ação que não seja uma debandada”, e, portanto, argumentava que as instituições políticas devem garantir que os eleitores “não controlem seus líderes políticos de forma alguma, exceto recusando-se a elegê-los”.

Para evitar quaisquer “repulsões espontâneas” que possam impor a vontade do povo ao governo, Schumpeter também instou as elites políticas a “fabricar” a vontade pública por meios “exatamente análogos aos métodos da propaganda comercial”. Idealmente, o argumento político deveria ser “a tentativa de distorcer premissas volitivas existentes em uma forma particular e não meramente a tentativa de implementá-las ou ajudar o cidadão a se decidir”.

Segundo, a teoria competitiva implica uma visão hiperprivatizada da sociedade. Quando a democracia é tratada meramente como um meio para agregar escolhas privadas, a sociedade é reduzida a meramente um instrumento para promover fins privados. Assim como a sociedade de mercado transforma “pessoas” em “consumidores”, a democracia competitiva transforma “cidadãos” em “eleitores” (ou combina ambas as formas degradadas em “contribuintes”).

Esta é a diferença mais gritante entre os modelos liberal e republicano de política. A privatização liberal da participação política degrada o caráter da cidadania e destrói a solidariedade social que costumava ser chamada de patriotismo. Ao eleitor liberal é negada a capacidade de participar de assuntos públicos, outrora considerada a essência da liberdade; é negada a oportunidade de se destacar na vida pública, outrora considerada o propósito da política; e negada a felicidade pública e a liberdade pública que antes eram buscadas pelo cidadão republicano.

A desconexão da democracia da participação da maioria das pessoas na vida pública também deixa a teoria liberal cega à corrosão cívica causada pela extrema desigualdade, pela dominação no local de trabalho, o colapso do engajamento político ativo e a negação da segurança republicana a imigrantes sem documentos. Esse apagamento daqueles que não têm status legal formal nega a eles os direitos e responsabilidades da cidadania por completo, ressaltando ainda mais como o modelo liberal abandona tanto a solidariedade quanto a justiça.

No final, a teoria competitiva produz a sociedade que ela imagina. A ampla deliberação pública é substituída pela competição eleitoral de elite; a busca por propósito coletivo é substituída pela busca por crescimento econômico; e a preocupação com o bem comum é substituída pelo equilíbrio de interesses privados.

Por que os partidos não devem ganhar seu voto

Aexpectativa de que os partidos devem ganhar nossos votos se origina e reproduz esse modelo de política mercantilizado, elitista e privatizado. Quando esperamos que as empresas ganhem nossos dólares, aceitamos que nosso único papel é pagar, enquanto elas decidem como produzir. Falar de partidos ganhando nossos votos é aplicar essa mesma ideia à política: significa aceitar que nosso único papel é votar, enquanto as elites políticas decidem como governar.

No entanto, o consentimento envolvido na democracia competitiva é ainda mais limitado do que a escolha do consumidor. A exclusão das pessoas de qualquer papel na tomada de decisões significa que seu consentimento não é buscado para se ou como as elites governarão, apenas quais elites governarão — os eleitores não escolhem o produto, apenas o produtor. Como nosso único papel é votar, não decidir, uma vez que é determinado que consentimos com o governo (mesmo que tacitamente), todas as decisões sobre o que consentimos não dependem mais de nós.

“Partidos genuinamente democráticos não são marcas, empresas ou facções de elite que buscam ganhar votos, mas instituições por meio das quais os membros cooperam para moldar a sociedade em que vivem.”

Em última análise, esse modelo de política desempoderador deriva do coração da filosofia política liberal: a ideia de que democracia é consentimento ao governo. Não podemos consentir com nossas próprias ações, apenas com o que é feito a nós por outros, então todas as discussões sobre consentimento pressupõem que um lado age e o outro é passivo dessa ação. Assim, a ideia liberal de consentimento ao governo descarta a ideia republicana de autogoverno pelo povo e implica, em vez disso, que um povo passivo é governado por uma elite ativa.

Esperar que os partidos ganhem nossos votos aceita e reforça nossa degradação, de cidadãos autogovernados, que participam da vida pública, para eleitores consentidos, que autorizam o governo da elite. Abandonar essa expectativa é o primeiro passo para garantir que os partidos políticos cumpram sua única função legítima em uma sociedade democrática: como instituições para as pessoas desenvolverem, discutirem e defenderem suas próprias ideias e, assim, moldarem a sociedade em que vivem.

·        Uma nova cidadania democrática

Enquanto a passividade do eleitor liberal concede o luxo vazio de um foco limitado na vida privada, o direito do cidadão republicano ao autogoverno traz tanto o poder quanto a responsabilidade da participação ativa na vida pública. Os partidos políticos, por mais falhos que sejam, são os principais veículos para tal participação. Como tal, o autogoverno hoje requer filiação a um partido; e como a política democrática requer amplo engajamento, é mais eficaz filiar-se a um partido grande, diverso e popular.

Se nenhum partido reflete seus valores, isso não é uma falha das elites em ganhar seu voto, mas um sinal de que você não está suficientemente incluído na tomada de decisões públicas. A solução não é lançar um boicote eleitoral até que a mão invisível da competição eleitoral ofereça melhores opções, mas buscar uma redistribuição de poder. Alcançar isso exigirá democratizar nossos partidos, mas tais reformas não serão paternalisticamente concedidas de cima: o controle dos membros deve ser promulgado por eles mesmos.

Não muito tempo atrás, os esforços de democratização enfrentavam difíceis compensações entre participação e justiça: maximizar o controle dos membros arriscava empoderar aqueles com tempo livre para participar, enquanto deixava de lado aqueles com trabalho oneroso ou responsabilidades familiares. No entanto, novas e emergentes ferramentas de e-democracia, técnicas de processamento de linguagem natural e outros métodos computacionais permitem que a deliberação ocorra em escalas massivas sem se tornar proibitivamente demorada, possibilitando que pessoas com limitações de tempo participem significativamente. Os defensores da democracia de hoje estão mais bem equipados do que em qualquer outro momento em pelo menos 250 anos para substituir a antiquada tecnologia social de representação eleitoral por um verdadeiro autogoverno.

Partidos genuinamente democráticos não são marcas, empresas ou facções de elite buscando ganhar votos, mas instituições por meio das quais os membros cooperam para moldar sua sociedade. Alguns compromissos difíceis ainda serão necessários — a participação democrática garante apenas uma audiência justa e uma parte igual na tomada de decisão coletiva — mas o caráter desses compromissos será fundamentalmente alterado. Enquanto os partidos liberais oferecem compromissos que esperam que os membros aceitem, os partidos democráticos chegam a compromissos por meio da deliberação dos membros — os membros dos partidos democráticos não apoiam as políticas, mas as decidem.

A democratização começa não mais falando do “partido” ganhando nossos votos, mas do “nosso partido” promulgando nossas decisões conjuntas. A visão do cidadão-membro democrático é “Este é meu partido, junto com meus amigos e aliados, que usamos para governar nossa sociedade; sua equipe são nossos funcionários, seus membros eleitos são nossos porta-vozes, suas políticas são nossas decisões e suas vitórias são nossas vitórias.” Na medida em que isso ainda não for uma realidade, o trabalho de democratização ainda não terminou.

Tudo isso requer uma nova compreensão da democracia. Quando esperamos que os partidos ganhem nossos votos, nós preventivamente renunciamos ao nosso direito de participar do autogoverno. Abandonar essa expectativa, filiar-se a um partido e assumir nossa parcela de poder e responsabilidade é o primeiro passo em direção à nova democracia e à verdadeira liberdade.

 

Fonte: PorJoseph Gubbels, com tradução de Pedro Silva, para Jacobin Brasil

 

Lira e Pacheco devem travar debate sobre isenção do IR

Os presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), reafirmaram o compromisso com a votação rápida das medidas de contenção de gastos enviadas pelo governo, priorizando o ajuste fiscal, mas sem incluir a ampliação da isenção do Imposto de Renda (IR) para quem ganha até R$ 5.000, tema que deve ficar para 2025, informou o UOL nesta sexta-feira (29).

Lira destacou a necessidade de responsabilidade fiscal e Pacheco condicionou a discussão do IR ao crescimento econômico e sustentabilidade das contas públicas, segundo a reportagem.

Segundo agentes do mercado financeiro citados pela Reuters, o anúncio das medidas fiscais junto da reforma do IR levanta "dúvidas" sobre o compromisso do governo com o equilíbrio das contas.

No entanto, segundo o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, a compensação para o aumento da faixa de isenção do IR, uma promessa de campanha do presidente Lula, virá pelo aumento da taxação para quem ganha acima de 50 mil reais por mês e pela limitação da isenção por razões de saúde a quem ganha até 20 mil reais. O pacote fiscal prevê economizar R$ 70 bilhões até 2026.

<><> Pacheco diz que isenção de IR para quem ganha até R$ 5 mil não é prioridade

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), disse nesta sexta-feira que sua posição em relação ao pacote de corte de gastos anunciado nesta semana pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é de "apoio com restrições e possibilidade de incremento".

Em entrevista à CNN Brasil, Pacheco afirmou que a proposta também apresentada pelo governo de isentar de imposto de renda quem ganha até 5 mil reais mensais será analisada "mais à frente" e sob condição de haver espaço fiscal para adoção da medida.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirma que a isenção será fiscalmente neutra, pois será compensada com a taxação daqueles que tem renda mensal superior a 50 mil reais e outras medidas.

<><> Lira promete celeridade da Câmara para aprovar medidas de corte de gastos, mas não para reforma do IR

O presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), afirmou nesta sexta-feira (29) que a Casa dará "todo esforço, celeridade e boa vontade" para aprovar as medidas de corte de gastos propostas pelo governo federal. Em uma publicação nas redes sociais, Lira reafirmou o compromisso da Câmara com o arcabouço fiscal, garantindo que a Casa estará disposta a contribuir para o ajuste das contas públicas, com a devida celeridade.

"Reafirmo o compromisso inabalável da Câmara dos Deputados com o arcabouço fiscal. Toda medida de corte de gastos que se faça necessária para o ajuste das contas públicas contará com todo esforço, celeridade e boa vontade da Casa, que está disposta a contribuir e aprimorar", escreveu Lira.

Contudo, o presidente da Câmara fez uma ressalva importante em relação a outra proposta do governo: a reforma da tabela do Imposto de Renda. O governo anunciou um aumento da faixa de isenção do tributo para R$ 5 mil, o que foi criticado por Lira, que indicou que qualquer iniciativa que implique renúncia de receitas só será discutida no ano que vem, após uma análise cuidadosa das fontes de financiamento e seu impacto nas contas públicas.

 "Qualquer outra iniciativa governamental que implique em renúncia de receitas será enfrentada apenas no ano que vem, e após análise cuidadosa e sobretudo realista de suas fontes de financiamento e efetivo impacto nas contas públicas. Uma coisa de cada vez. Responsabilidade fiscal é inegociável", postou.

O pacote de ajuste fiscal, anunciado pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, na quinta-feira (28), inclui medidas como a limitação do ganho real do salário mínimo, revisão do abono salarial, corte de supersalários, e alterações nas aposentadorias dos militares, além de uma revisão do Benefício de Prestação Continuada (BPC). As medidas devem chegar ao Congresso em breve por meio de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) e um projeto de lei complementar (PLP).

Haddad expressou a expectativa de que essas propostas sejam analisadas e aprovadas ainda em 2024, antes do recesso parlamentar, que começa em 23 de dezembro, para que as novas regras já possam ser aplicadas ao orçamento de 2025.

•                        Câmara e Senado devem votar corte de gastos antes do recesso, diz Pacheco

O pacote de corte de gastos proposto pelo Poder Executivo deve ser votado pelas duas casas do Congresso Nacional antes do recesso parlamentar, previsto para 22 de dezembro. A expectativa é do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, que coordenou uma reunião entre os líderes partidários e os ministros da Fazenda, Fernando Haddad, e da Secretaria de Relações Institucionais, Alexandre Padilha, nesta quinta-feira (28).

“Pude externar ao ministro Haddad a minha particular boa impressão em relação às medidas. Nosso compromisso é que, tão logo a Câmara dos Deputados aprecie, o Senado submeta diretamente ao Plenário. Para que até o final do ano, antes do recesso, possamos ver apreciadas essas medidas da equipe econômica”, disse Pacheco após o encontro.

O pacote de corte de gastos foi anunciado na noite de quarta-feira (27) por Fernando Haddad, durante um pronunciamento em rede nacional. Segundo o ministro, as medidas devem gerar uma economia de R$ 70 bilhões nos próximos dois anos (leia mais abaixo).

A expectativa é de que o pacote seja encaminhado ao Congresso Nacional em uma proposta de emenda à Constituição e um projeto de lei complementar, que começam a tramitar na Câmara dos Deputados. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, disse que as próximas três semanas vão exigir “trabalho muito intenso” dos parlamentares.

“Temos pouco tempo e um grande desafio. São 24 dias de trabalho. Fiz um apelo aos líderes para termos um esforço concentrado e fazermos as entregas necessárias. Estimo que a Câmara dos “Deputados possa fazer essa apreciação nas próximas duas semanas. E talvez se reserve a última semana útil antes do recesso para que o Senado possa apreciar”, afirmou.

<><> Marco fiscal

Após a reunião com os líderes partidários na Presidência do Senado, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse ter sentido “um clima muito receptivo” ao pacote de corte de gastos.

“Senti uma grande boa vontade daqueles que se manifestaram nesta reunião. A reação foi bastante favorável, um espírito de abertura muito grande para o diálogo. Saímos daqui com a esperança de que vamos construir um bom arranjo até o final do ano para termos um Orçamento de execução mais tranquilo no ano que vem”, afirmou.

O ministro-chefe da Secretaria de Relações Institucionais, Alexandre Padilha, também demonstrou otimismo.

“Raríssimas vezes senti um grau de compromisso tão grande e uma disposição tão grande de se conseguir a aprovação de uma proposta anunciada pelo governo. O centro da proposta, que vamos trabalhar para concluir a aprovação ainda este ano, é a consolidação do marco fiscal aprovado pelo Congresso Nacional”, disse, referindo-se ao novo arcabouço fiscal (Lei Complementar 200, de 2023).

<><> Pacote

Segundo Fernando Haddad, o pacote deve gerar uma economia de R$ 70 bilhões nos próximos dois anos. Seriam R$ 30 bilhões em 2025 e R$ 40 bilhões em 2026. O plano prevê, entre outras, as seguintes medidas:

•                        O salário-mínimo continua tendo um ganho real acima da inflação, mas o crescimento fica limitado ao novo arcabouço fiscal: entre 0,6% e 2,5% a ano.

•                        O abono salarial fica mantido para quem recebe até R$ 2.640 por mês, o equivalente a dois salários-mínimos. Mas o Poder Executivo quer limitar a correção do benefício à inflação. Como o salário-mínimo deve crescer acima do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o novo sistema de correção do abono deve ser mantido até que o benefício atinja o valor de um salário-mínimo e meio.

•                        O Benefício de Prestação Continuada (BPC) também deve passar por mudanças. Segundo Fernando Haddad, o objetivo é evitar uma “indústria de liminares” que assegura o repasse do dinheiro a pessoas que não teriam direito ao BCP.

•                        Os cadastros dos programas sociais devem passar por biometria. O Poder Executivo também quer reduzir os prazos de recadastramento para evitar fraudes.

•                        Um conjunto de medidas alcança as Forças Armadas. O governo quer acabar com a chamada “morte ficta”, quando a remuneração de um militar condenado por crime ou expulso do serviço é repassada à família em forma de pensão.

•                        Outras medidas ligadas às Forças Armadas são o estabelecimento de uma idade mínima de passagem para a reserva e uma contribuição de 3,5% dos militares para os respectivos fundos de saúde.

•                        O Poder Executivo quer retomar o debate sobre o Projeto de Lei (PL) 2.721/2021, que restringe o pagamento de supersalários a agentes públicos. A matéria foi aprovada pela Câmara dos Deputados e aguarda deliberação do Senado.

•                        Outra medida será a de expandir a implantação de escolas em tempo integral. O Poder Executivo quer destinar a essa finalidade 20% do aporte da União ao Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb).

•                        O programa Pé de Meia, hoje mantido com recursos do Fundo Garantidor de Operações (FGO), passa a ser financiado pelo orçamento da Educação em 2026.

•                        O pagamento de subsídios e subvenções — como o Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro) — passa a depender de previsão orçamentária.

<><> Repercussão

O pacote de corte de gastos dividiu a opinião de parlamentares governistas e da oposição. O senador Rogério Carvalho (PT-SE) defendeu as medidas. Para ele, o pacote “orienta o gasto atual para ser mais eficiente e melhora a vida das pessoas”.

“São medidas muito racionais de contensão e qualificação do gasto público. Temos um arcabouço fiscal que precisa ser consolidado como o limite de gastos do governo, e isso tudo sem romper com o aumento real do salário-mínimo acima da inflação e com a vinculação do gasto da saúde e da educação”, afirmou, relembrando que o governo Lula retomou a política de aumento real do salário mínimo.

Para o senador Wellington Fagundes (PL-MT), as medidas anunciadas pelo Poder Executivo vão prejudicar os mais pobres.

“Em relação ao salário-mínimo, o governo quer segurar. Portanto, quem ganha menos vai ter mais dificuldade. E o mais importante: a inflação está aí batendo. E a inflação é a mais perniciosa, principalmente para quem ganha menos. A proposta do governo é aumentar impostos e continuar a gastança”, criticou.

<><> Imposto de Renda

Após a reunião de líderes, Fernando Haddad comentou outra proposta anunciada durante o pronunciamento em rede nacional: a isenção de Imposto de Renda (IR) para quem ganha até R$ 5 mil por mês. Segundo o ministro da Fazenda, a medida deve resultar em uma renúncia de R$ 35 bilhões, que seria neutralizada por uma taxação maior para quem tem rendimentos acima de R$ 50 mil mensais.

A expectativa do Poder Executivo é de que a reforma tributária sobre a renda seja votada pelo Congresso Nacional apenas em 2025.

“É uma matéria que precisa contar com debate da opinião pública. Não é um assunto que vai ser resolvido em três semanas. Como não vamos ter eleições no ano que vem, vamos ter tempo para discutir, abrir os números e fazer com que as pessoas se defrontem com a realidade tributária do Brasil e tomem a melhor decisão”, disse Fernando Haddad.

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, também confirmou que as mudanças nas regras do IR não serão votadas neste ano.

“Isso será objeto de uma ampla discussão ao longo de 2025, como foi a reforma tributária do consumo. Isso não é para hoje”, afirmou.

O líder do governo em exercício, senador Otto Alencar (PSD-BA), elogiou a proposta de isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil.

“É uma coisa muito justa. Quem ganha mais paga mais, e quem ganha menos não paga até R$ 5 mil mensais. O governo tem que tomar decisões sintonizadas com aquilo que é importante para o conjunto do povo brasileiro. O mercado se restringe a duas ou três avenidas no Brasil. O mercado precisa se acalmar, até porque nenhum gestor vai apresentar projetos para atender ou obedecer ao que o mercado quer. O governo fez aquilo que é correto fazer”, disse.

A oposição criticou a proposta. Para o senador Marcos Rogério (PL-RO), a medida é “uma cortina de fumaça”.

“O governo tenta oferecer uma medida que vai na direção de corte de gastos, mas representa um rombo nas contas públicas superior a R$ 90 bilhões. Porque o mercado age de forma desconfiada, desconfortável e negativa? Porque o governo tira com uma mão e dá com a outra. É um governo que não tem compromisso com a agenda fiscal e com a pauta do controle de gastos”, disse.

•                        Pacheco sai em defesa de Haddad e critica 'reação exagerada' do mercado ao pacote fiscal

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), saiu em defesa do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, após o anúncio do pacote de corte de gastos federais nesta quinta-feira (28). Pacheco criticou a reação negativa do mercado, considerando-a exagerada e precipitada.

"O ministro Haddad fez um esforço danado, propôs reduções de despesas importantes, que não foram enfrentadas pelos últimos governos. E o mercado não reconhece isso", afirmou Pacheco, de acordo com a coluna do jornalista Valdo Cruz, do g1.

O presidente do Senado sugeriu que, em vez de criticar as medidas de imediato, o mercado deveria analisar melhor as propostas e contribuir com sugestões construtivas. "Agora, é importante que o mercado ajude o governo a aprovar as medidas ainda neste ano. Sem isso, o cenário será péssimo", alertou.

Pacheco também garantiu que o Congresso dará sua contribuição para a aprovação das medidas, com os dois projetos de cortes já prontos para tramitar na Câmara dos Deputados. Segundo ele, será necessário um esforço conjunto de todos os setores, incluindo o privado, para garantir que a votação seja priorizada.

O líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues (PT-AP), seguiu a mesma linha, afirmando que a reação do mercado foi exagerada e que o governo está aberto a ajustes nas medidas durante a tramitação.

"Ninguém quis esperar a divulgação das medidas, já especulou apenas com o vazamento da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil", disse Randolfe.

Ele lembrou ainda que o governo adotará compensações para mitigar o impacto da isenção, que tem um custo de R$ 35 bilhões por ano, e anunciou a criação de um imposto mínimo para quem ganha mais de R$ 50 mil mensais, a fim de garantir a neutralidade fiscal das medidas.

•                        Problema fiscal precisa ser enfrentado por todos os Poderes, diz Haddad

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse nesta sexta-feira (29) que o pacote fiscal detalhado pelo governo na véspera não é o "gran finale" do esforço do governo para o ajuste das contas públicas.

Em evento anual da Febraban, ele afirmou que, caso haja desconforto em tono do cálculo do impacto das medidas, "vamos voltar para mesa de discussão", acrescentando que não há a intenção de "vender fantasia" e que o governo está comprometido em derrubar o déficit e reestruturar as finanças públicas.

"Caixa de ferramentas é infinita", afirmou, segundo a Reuters.

Questionado se ele precisa convencer o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a importância dos esforços dessa agenda, o ministro disse que em certos momentos sim, ponderando que, como presidente da República, Lula é sensível a vários temas, e frisando que a relação dos dois é "transparente, tranquila e informal".

Haddad reiterou que o problema fiscal é questão que precisa ser enfrentada por todos os Poderes, e citou manifestações de apoio às medidas pelos presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), destacando o bom alinhamento com o governo.

Lira e Pacheco reafirmaram o compromisso com a votação rápida das medidas de contenção de gastos enviadas pelo governo, priorizando o ajuste fiscal, mas sem incluir a ampliação da isenção do Imposto de Renda (IR) para quem ganha até R$ 5.000.

 

Fonte: Brasil 247/Reuters