quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Eduardo Vasco: ‘Lula vai aguentar dois anos mais em cima da corda bamba?’

O Brasil não precisava ter vetado a entrada da Venezuela como parceiro do BRICS. É sabido que essa decisão foi tomada para não ficar mal com os Estados Unidos. Mas poderia muito bem ter se abstido e justificado que seria errado ir contra a vontade de todos os outros membros. Não era difícil ter deixado passar a decisão da maioria. Lula demonstrou fraqueza e isso é o pior que um chefe de Estado pode fazer. O inimigo viu que Lula fraquejou e isso vai animá-lo a aumentar as pressões. Essa é uma síndrome da esquerda nacionalista e reformista. Só que a fraqueza que Lula demonstrou foi muita – foi uma capitulação totalmente desnecessária.

Ao lado da Fazenda e Defesa, o Itamaraty é um dos três principais ministérios do governo brasileiro. Como tratam o Brasil como uma colônia, os EUA precisam ter o controle sobre esses três ministérios-chave. É inadmissível que algum deles seja independente do controle imperialista. A composição social do Itamaraty é perfeita para a penetração da influência imperialista: uma casta burocrática e familiar formada pela burguesia e os extratos superiores da pequena burguesia. Sempre foi assim. Como uma entidade extremamente tradicional e de elite, ela é inerentemente conservadora, mesmo reacionária, que visa manter o status quo e seus privilégios absolutamente inalterados. O imperialismo americano se aproveita disso e já há mais de cem anos, quando começou a dominar a política brasileira, cooptou e colocou em sua folha de pagamentos senão toda a estrutura desse ministério, ao menos uma parte importante dos seus integrantes.

Como em tudo, o PT não conseguiu (se é que tentou) mudar o quadro da instituição. Os embaixadores e diplomatas de primeiro escalão colocados por Lula e Dilma foram rifados logo quando Bolsonaro assumiu o governo. Trocou muitos “petistas” por olavistas ou semi-olavistas. Dividiram o controle com os burocratas tradicionais da corporação, deixando os poucos “esquerdistas” de canto. Agora que Lula voltou, ao invés de fazer a mesma limpeza que Bolsonaro fez e retirar os bolsonaristas e direitistas de cena, praticamente não mexeu no Itamaraty. O Itamaraty não está sob o controle do presidente da República – como deveria estar, sendo um dos principais ministérios e, portanto, devendo obedecer fielmente o presidente.

•        O esgotamento da política de conciliação

A vida política institucional de Lula já está indo para o seu desfecho e ele tem a chance de deixar um legado positivo histórico, conduzindo o Brasil para um caminho soberano em relação ao jugo imperialista. Não há sucessor na esquerda e, se Lula falhar na tarefa (que ele talvez almeje e a qual seus apoiadores acreditam que ele é capaz de realizar) de abrir as portas do Brasil para a nossa soberania, a esquerda pagará um preço enorme. Haverá uma crise histórica de lideranças absolutamente adaptadas à submissão imperial, que só não se abateu com toda a força porque Lula ainda existe.

O veto do Brasil à Venezuela no BRICS é consequência da insistência da esquerda em manter a política não apenas de conciliação, mas de colaboração com a direita tradicional, vendida como a “menos pior” – que se expressa, novamente, no apoio aos candidatos dessa direita contra os “mais piores” bolsonaristas no segundo turno das eleições municipais.

As eleições municipais consolidaram a ressurreição dessa direita (o centrão). Depois da débâcle histórica de 2018, a direita conseguiu se recuperar aos poucos, graças ao resgate proporcionado pela esquerda. As eleições de 2022, com a formação de uma frente ampla desnecessária para eleger Lula levaram este à presidência, mas ao custo de que essa direita tradicional se apoderasse do governo.

Na verdade, o centrão nunca saiu do poder. É a grande chaga que mantém o Brasil como uma semicolônia do imperialismo desde a proclamação da república. Nenhuma revolução ou contrarrevolução o tirou do poder – no máximo reduziu ou fortaleceu o seu domínio, mas nunca o erradicou. A maior parte do tempo do governo Bolsonaro já havia sido, de fato, de um governo do centrão. A direita tradicional conseguiu neutralizar a força avassaladora da extrema-direita ao longo da primeira metade do governo Bolsonaro, e foi ainda mais rápida em neutralizar o governo Lula. Há mais de um ano o presidente não passa de um refém do centrão, da direita oligárquica e dependente do imperialismo americano.

O último bastião da resistência de Lula dentro do governo – a política externa – já está sendo conquistado pela direita. O imperialismo não pode tolerar uma política brasileira na cena mundial que apoie a resistência palestina e tampouco o fortalecimento de Rússia, China e do enfrentamento ao seu domínio, representado pelo BRICS. As engrenagens pró-imperialistas do Itamaraty já foram ativadas a fim de completar o cerco do próprio aparelho do Estado brasileiro ao presidente Lula e àquilo que ele representa.

Há, ainda, um problema crucial: a extrema-direita, apesar de suas contradições internas, está com sua força e popularidade praticamente intactas já há uma década. E, como sempre, é favorecida pela sabotagem e propaganda da direita tradicional (centrão, imprensa, bancos e grandes capitalistas) contra Lula. Além do mais, a forte presença da extrema-direita influenciou a política da própria direita tradicional, agora ainda mais reacionária.

•        A política de não-alinhamento é inviável para o Brasil

O presidente, assim, vive uma situação muito delicada. Há quem acredite que ele está certo em buscar uma suposta equidistância tanto dos Estados Unidos quanto da China. Mas um país como o Brasil, uma semicolônia do imperialismo americano submetida atualmente a uma crescente pressão de Washington, não pode se dar ao luxo de buscar uma pretensa neutralidade, ao contrário de outros, como Índia ou Turquia, que são geograficamente distantes dos EUA e vizinhas de China e Rússia e cuja dependência política e econômica do imperialismo americano (embora ainda seja grande) não é tanta quanto a nossa.

Mesmo países fronteiriços com a Rússia não suportaram as pressões contra a aplicação de uma política não-alinhada e tiveram seus governos derrubados por golpes de Estado promovidos pelo imperialismo. Foi o caso da Ucrânia, em 2014, e é o que tende a ocorrer na Geórgia novamente. Essa também é a tendência do Brasil, se Lula continuar cedendo e não tomar um rumo verdadeiramente soberano, o que significa se aliar com China e Rússia e deixar de depender dos Estados Unidos.

O imperialismo americano tem o controle do Brasil. Tanto o centrão quanto a extrema-direita são seus aliados contra Lula. Ainda que tenham desavenças (às vezes encarniçadas), na hora H eles deixarão essas discordâncias de lado e lutarão juntos contra o inimigo comum, como a história já demonstrou em incontáveis ocasiões. E os aparelhos burocráticos do Estado, como o Judiciário – principal ferramenta do imperialismo no Brasil, junto com a grande imprensa burguesa –, marcharão ao seu lado.

Aparece com crescente saliência, novamente, a falência histórica da política de colaboração de classes. Sua estabilização já não é mais viável desde que foi rompida com o golpe de 2016 e a ascensão da extrema-direita por obra da burguesia e do imperialismo. O que temos hoje é um monstrengo: a ala pretensamente nacionalista da burguesia, a quem Lula e o PT insistem em se apegar, sente-se ainda mais pressionada pelo imperialismo do que Lula – e cede muito mais facilmente e com muito menos hesitação do que o presidente. Quaisquer coincidências de interesses com a classe operária e as demais classes populares que ainda possam existir se esvaem em uma situação de polarização política continuada e que volta a crescer, elevando particularmente as contradições das camadas populares com o imperialismo americano.

A burguesia “nacional”, os aliados civilizados, democráticos e progressistas de Lula vão pular fora do barco (mesmo que não o façam abertamente) porque sabem que não há futuro nenhum dentro dessa aliança anti-histórica, na expressão usada por Mário Pedrosa ao analisar um cenário parecido, a crise do PTB de Jango com o PSD poucos anos antes do golpe de 1964.

Lula também vai ter de abandonar essa ambivalência na política externa e escolher um lado. Se não fizer, não vai durar. E se capitular definitivamente para o imperialismo, tampouco terá algum sucesso. O problema é que não dá para adotar uma política externa e uma política interna antagônicas. Para adotar uma política externa independente e, portanto, oposta ao controle do imperialismo, ele vai ter de se voltar contra os agentes do imperialismo dentro do próprio país, começando por aqueles que infestam o governo mesmo.

Mas, se na política externa Lula sofre a pressão positiva do BRICS ampliado em contraposição à pressão negativa dos Estados Unidos, no cenário interno a pressão popular – a única que poderia contrapor a pressão da direita – quase não existe, ao menos de forma organizada. Daí também a parcela de culpa da esquerda, dos partidos (a começar pelo próprio PT), dos sindicatos e da imprensa progressista na política capituladora de Lula com relação ao BRICS e à América Latina. Na realidade, as posições de Lula, em geral, ainda são mais acertadas do que as da maioria da esquerda.

Não é Lula, somente, quem está na corda bamba. É toda a direção da esquerda brasileira. Sua política medíocre e rebaixada é a grande responsável pelos erros cometidos por Lula e pelo governo. Os movimentos populares precisam dar um giro de 180 graus em sua política e começar a combater de fato os inimigos de Lula, ou seja, os agentes do imperialismo no Brasil, pressionando o presidente e as suas próprias direções. Porque as pressões do outro lado da corda são cada vez mais fortes e Lula não vai conseguir se equilibrar por muito tempo.

 

•        Crescimento, apesar da esgotosfera. Por Pedro Benedito Maciel Neto

A primeira vez que li o termo “esgotosfera” foi num artigo do Augusto Nunes, um ex-jornalista e hoje militante da extrema-direita, sob o título: “Novilíngua da esgotosfera”; lembro que procurei o significado “dando um google” e encontrei: “Termo pejorativo para se referir ao conjunto de mídias explicitamente alinhados à esquerda política, pró-PT ou/e supostamente financiados pelo governo Lula-Dilma”.

De lá para cá uso o termo para designar todo o tipo de mentiras produzidas capazes de causar pânico ou para sustentar artificialmente um posicionamento, quando não há sustentação substantiva.

Alguns conhecidos meus, todos de direita ou de extrema-direita, pessoas com quem me relacionei social ou profissionalmente, pelo menos, nos últimos quarenta anos, seguem consumindo as mentiras e versões produzidas na “esgotosfera” e difundindo.

Dois conhecidos, cujos nomes omito para preservá-los do constrangimento público, vivem em estado de cegueira absoluta e, como zumbis, compartilham toda sorte de bobagens sobre economia, politica, geopolítica, costumes, etc., e não adianta debater, pois além de cegos são surdos e analfabetos.

Diariamente recebo de um conhecido - pessoa boníssima, que foi diretor de um banco privado e que tem um belo trabalho social -, uma infinidade de “memes”, vídeos, textos e reportagens, com conteúdo evidentemente falso.Hoje ele enviou umas trinta mensagens de WhatsApp, todas na perspectiva do consumidor de conteúdos da esgotosfera da extrema-direita o Brasil está falido e vivemos numa ditadura; alguns conteúdos dão conta que Lula morreu e que sósias ocupam seu lugar, sob orientação e comando de uma central do mal, a “central globalista de extrema-esquerda”.

Hoje vou tratar de economia, os demais temas podem ser melhor comentados por humoristas.

Vamos lá.

Está tudo uma maravilha? Evidentemente não, mas o país vem muito bem na quadra da economia, o que tristemente não refletiu nas urnas.

Há boas notícias que a “esgotosfera” omite ou distorce: 1ª - queda no desemprego; 2º - crescimento econômico sustentado; 3ª - aumento do investimento público e privado; 4ª - superávit comercial robusto e 5º - expansão do mercado de capitais. Estes 5 elementos mostram que a fase mais aguda da crise econômica foi ultrapassada,

Só esses pontos já mereceriam comemoração de quem é de fato patriota, pois, a despeito das altas taxas de juros praticadas pelo Banco Central (a segunda mais alta do mundo, conforme mostra levantamento compilado pelo MoneYou, que os juros reais do país estão agora 7%, sendo que o líder é a Rússia, com taxa real de 7,79%) a economia é resiliente sob Lula e Haddad e cresce.

Contudo, se quisermos ser honestos, temos que frisar: essas boas notícias dependem da manutenção do arcabouço fiscal e de política monetária eficaz por parte do Banco Central para controlar a inflação (que já caiu de 12% no pico da pandemia para 4% atualmente); tem-se que reconhecer também que com o crescimento contínuo e política fiscal responsável, o Brasil mantém cenário econômico positivo, favorecido por políticas de transferência de renda e estímulos ao investimento.

Segundo o IBGE, o Brasil registra a menor taxa de desemprego dos últimos 10 anos, que atingiu 6,8%. Desde a pandemia, o desemprego caiu de 14,5% para 6,8%, com a criação de mais de 7 milhões de empregos, tanto formais quanto informais, isso não e pouco; e o país deve criar, quase 2 milhões de empregos formais apenas neste 2024, que reflete o mercado de trabalho na melhor situação da década. Agora é necessário melhorar a qualidade desses e o salário, cuja média gira em torno de R$ 3.222, ainda muito baixo.

Estimativas mensais mostram que o rendimento habitual médio real em abril de 2024 (R$ 3.222) foi 3,1% maior que o observado no mês anterior (R$ 3.124) e 6,8% superior ao valor de abril do ano anterior, além de 2,6% maior que o valor registrado em dezembro de 2023 (R$ 3.141), conforme o próprio IBGE.

O mercado estima que o Brasil deve crescer, novamente, cerca de 3% em 2024, pelo terceiro ano consecutivo, acumulando crescimento de mais de 10% desde o início da pandemia, desempenho que coloca o Brasil entre os países com maior intensidade econômica, inclusive superando os Estados Unidos e Europa.

Segundo levantamento da Austin Rating, com o resultado do PIB (Produto Interno Bruno) do segundo trimestre, o Brasil chegou ao 2º lugar no ranking de países com maior taxa de crescimento econômico, respectivamente: Peru (2,4%), Brasil (1,4%), Arábia Saudita (1,4%), Noruega (1,4%) e Japão (0,8%).

Por que isso não é comemorado? Por que isso não fez a menor diferença nas eleições municipais?

Outro elemento econômico positivo é a taxa de investimento no Brasil, que está em aceleração, e atingiu algo em torno de 18% do PIB, a maior em 10 anos (embora esteja abaixo do ideal de 20%, o crescimento nos investimentos em bens de capital, máquinas, equipamentos e construção civil são indicativos positivos, e mostram que a produção se aproxima da capacidade instalada).

O superávit da balança comercial brasileira permanece forte, e ultrapassa US$ 80 bilhões em 2024, após atingir US$ 90 bilhões no ano anterior; o país continua exportando vigorosamente, especialmente petróleo, produtos de mineração e produtos agrícolas, apesar dos desafios como a queda nos preços do minério de ferro e os impactos climáticos no agronegócio. Lembrando: “superávit na balança comercial” corre quando o valor das exportações do país é maior que o valor das importações. Isso significa que, no período de apuração, entrou mais dinheiro no País do que saiu.

E o mercado de capitais?

O mercado de capitais brasileiro está em expansão, com o crédito que tem crescido 10% ao ano — 11% para famílias e 8% para empresas. O mercado de dívida também está em alta, com o estoque de debêntures — títulos de dívida emitidos por empresas para captar recursos e que dão direito de crédito aos investidores —, que atingiu R$ 1 trilhão, CRI (Certificado de Recebíveis Imobiliários), que superou R$ 200 bilhões, CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio), que chegou a R$ 100 bilhões e FDIC que ultrapassou R$ 400 bilhões.

Este crescimento poderia ser grandemente impulsionado pela queda da Selic, pelo incremento de políticas de transferência de renda e pelo aumento de investimentos.

Pergunto aos economistas: onde o tal do superávit primário importa nesse cenário? Pois, ao que me parece é uma lógica mentiroso, que surgiu nos anos 1980, segundo a qual o mais importante, na gestão das contas públicas, é garantir o pagamento de juros aos barões do capitalismo financeiro e “dane-se o povo, o país e o desenvolvimento”. É isso mesmo? Pedro Benedito Maciel Neto, pai, avô, advogado e pontepretano, sócio da www.macielneto.adv.br – pedromaciel@macielneto.adv.br – autor de “Reflexões sobre o estudo do Direito, ed. Komedi, 2007; “Tensão entre os poderes”, ed. Apparte, 2024, dentro outros.

 

•        Empreendedorismo para garantir reeleição em 2026 pede juro baixo. Por César Fonseca

O ministro Paulo Pimenta, ao dizer que o presidente Lula é vitorioso nas eleições municipais, por ser expressão do centro político nacional, na sua condição essencial de um político conciliador, ressaltou que o PT tem que defender, a partir de agora, o empreendedorismo, alternativa às classes sociais sucateadas pelo neoliberalismo.

Como se sabe, a onda empreendedora, que tomou conta dos trabalhadores socialmente precarizados, depois da reforma trabalhista neoliberal imposta pelo bolsonarismo fascista, dificilmente emplaca diante da atual política monetária ortodoxa, cuja marca registrada é o juro alto, extorsivo, anti-desenvolvimento.

Os que optaram pelo empreendedorismo, depois do golpe na CLT getulista, estão fazendo reavaliações críticas, por estarem pagando juros muito altos sobre os bens e serviços que adquiriram para se tornarem novos empreendedores.

A taxa de lucro muito baixa dos novos empreendedores, na fase pós reforma, produz incertezas e precariedades que, caso continue a política monetária fiscal e ortodoxa, aumenta a incerteza, que pode aumentar se o governo aprofundar o corte nos gastos sociais, como defende a Faria Lima.

Os custos para ser empreendedor, conforme a legislação, transforma o micro e pequeno empresário escravo do negócio que empreende, levando-o, no ritmo das incertezas capitalistas crescentes, ao constante perigo de falência.

Desse modo, somente com política monetária pró-desenvolvimento, em que a oferta de dinheiro barato seja capaz de jogar o juro para baixo e, assim, tornar-se atrativo ao candidato ao empreendedorismo, à transformação do trabalhador, antes assalariado, à condição de empresário, micro ou médio, ele ousará dar o passo nesse sentido, ainda assim cheio de temor e insegurança.

INCERTEZAS ESPANTAM EMPREENDEDORES

Como as expectativas não são as de que os juros cairão nos próximos tempos, diante das pressões do mercado, dizendo que a taxa de inflação ascendente reclama juro mais alto, para evitar estouro da meta inflacionária prevista pela política monetária ortodoxa, a decisão de virar empreendedor constitui sempre passo no escuro.

A pressão das forças liberais, dentro do governo, nos ministérios do Planejamento e da Fazenda, por exemplo, é a de que é necessário aprofundar cortes nos setores sociais – saúde, educação, programas e benefícios aos mais pobres e desvinculação do reajuste do salário-mínimo para os aposentados – em nome do ajuste fiscal.

A prioridade da ala progressista governamental é dar força ao empreendedorismo, mas, contrariamente, as forças conservadoras pró-mercado pregam austeridade, cujos efeitos são redução da renda disponível para o consumo, configurada nas despesas sociais que são sinônimos de investimentos.

O discurso favorável ao empreendedorismo, como defende o ministro Paulo Pimenta, portanto, entra em choque com a austeridade fiscal e monetária pregada pela ministra do Planejamento, Simone Tebet, e pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, sintonizados com a tendência pró-mercado.

Ademais, antes do final do ano, na última reunião do Conselho de Política Monetária (Copom), do Banco Central, a expectativa é de mais uma puxada na taxa básica selic, porque a Faria Lima diz ser necessária para conter a inflação que saiu da meta prevista de 4,5% para 2024 etc.

A taxa Selic alcançaria, como prevê o mercado especulativo, a casa dos 12%, entrando, em 2025, com sinalizações contrárias às expectativas desenvolvimentistas que teoricamente favorecem o discurso pro-empreendedorismo.

As divisões dentro do governo, por isso, são evidentes: de um lado, as forças pró-austeridade, puxadas pelos neoliberais, e, de outro, as defensoras do desenvolvimentismo lulista, capaz de dar força à industrialização, somente possível, se os juros sinalizam queda na nova fase do BC sob comando de Gabriel Galípolo, depois da saída do neoliberal bolsonarista Roberto Campos Neto.

Portanto, o empreendedorismo, do qual se espera motivação ao neo-desenvolvimentismo, alternativo ao neoliberalismo que deu golpe na política trabalhista nacionalista, ficará em compasso de espera sobre o rumo que o presidente Lula irá tomar, depois do crash eleitoral municipal, com vista a sua reeleição em 2026.

 

Fonte Brasil 247

 

Eleições na América do Sul: qual o recado das urnas no Uruguai e no Chile?

O 2º turno das eleições presidenciais no Uruguai e o resultado das eleições locais no Chile foram tema do podcast Mundioka da Sputnik Brasil desta terça-feira (29), que ouviu a professora de relações internacionais da Universidade Veiga de Almeida Mayra Coan e o historiador uruguaio Daniel Osowicki.

·        Uruguai

Esquerda e centro-direita vão disputar o segundo turno das eleições presidenciais no Uruguai, marcado para 24 de novembro, quando cerca de 2,7 milhões de eleitores uruguaios estão habilitados a eleger o futuro presidente, que tomará posse em 1º de março de 2025 por um período de cinco anos.

Estão na disputa o candidato da da coalizão Frente Amplia, de esquerda, Yamandú Orsi, que conjuga 35 partidos, e o atual vice-presidente, Álvaro Delgado, do Partido de centro-direita, o Nacional.

Independentemente de quem ganhe, do ponto de vista da política externa, o xadrez geopolítico da América Latina não deve ser alterado, opinaram analistas consultados pelo Mundioka.

Doutora em história social e mestre em ciências da integração da América Latina pela Universidade de São Paulo (USP), Coan comentou que esta eleição tem sido chamada de "atípica" e "apática" por especialistas e políticos uruguaios por contrastar com campanhas sem grandes contrastes entre a esquerda e a direita.

“[Há] a questão de um excesso de prudência dos candidatos, de não procurar realizar grandes transformações, sobretudo, no âmbito econômico social. Além de também haver certa identificação de um despertar da despartidarização e desinteresse de parte da sociedade, sobretudo de jovens", comentou ela.

Osowicki, que é mestre em história pela Universidade Bar-Ilan, de Israel, lembrou que após interromper décadas de hegemonia de governos de direita e centro-direita, a Frente Amplia esteve no poder por 15 anos. até as últimas eleições, quando o atual mandatário Luis Lacalle Pou saiu vencedor. De lá para cá, o contexto político e econômico mudou muito.

"Os resultados desta eleição foram menores que os resultados da eleição do ano 2004, onde o governo de Tabaré Vázquez, o Frente Amplia, ganhou na primeira volta", acrescentou o professor.

Outro ponto levantado por ambos os entrevistados é a falta de carisma de ambos os candidatos, sem personalidades fortes como as do ex-presidente Pepe Mujica, Tabaré Vázquez e o próprio Lacalle Pou.

"Realmente, vai ser uma segunda volta muito pareja [disputada]. Vai ser uma briga muito forte, no sentido de voto por voto", acrescentou o historiador.

Por outro lado, a Frente Amplia conseguiu maioria no Senado e boa quantidade de cadeiras na Câmara, o que é positivo na questão da governabilidade caso a coalizão vença, salientaram.

·        Uruguai e o Mercosul

Historicamente muito dependente dos vizinhos, sobretudo Argentina e Brasil, o Uruguai tem buscado outros mercados e atraído inversões internacionais por sua estabilidade e crescimento econômico, de acordo com o historiador uruguaio.

As tensões dentro do bloco do Mercosul são reflexo desse movimento impulsionado pelo governo atual.

"A política do partido nacional, o partido de Álvaro Delgado, continua nessa linha de atrair inversões para o Uruguai de qualquer fonte, e também procurar, por que não, tratados de livre comércio, por exemplo, com a China", comentou Osowicki.

Já Yamandú Orsi, opinou Coan, olha para o Mercosul como um bloco regional que precisa ser revisitado, mas acredita que o Uruguai precisa seguir o que foi proposto pelo bloco e o acordo com a China deve ocorrer em conjunto.

"[...] Em termos de integração regional, nas propostas do Orsi, há uma maior aproximação com essa perspectiva de que é importante a gente se integrar regionalmente", comentou.

O candidato Andrés Ojeda, do Partido Colorado, que ficou em terceiro lugar, com 16%, segue a lógica liberal e seu apoio a Delgado pode ser parte fundamental na nova balança do segundo turno, pontuou o analista:

"Andrés Ojeda é parte fundamental dessa coalizão, mas obviamente não alcança, os votos não alcançam. Entre Álvaro Delgado e Andrés Ojeda, eles estariam com quase 43%. Há também um 4% de votos anulados, o que é bastante".

A professora lembrou que o governo Lacalle Pou teve uma boa atuação perante à população durante a pandemia de COVID-19, assim como o vice, Delgado, e realizou grandes obras de infraestrutura e empregabilidade. Por outro lado, escândalos de corrupção recentes e cortes de auxílios sociais impactaram negativamente a campanha do partido de centro-direita.

Um dos principais desafios do próximo governo será igualar o custo de vida à renda do trabalhador, que hoje tem dificuldade de arcar com gastos básicos como moradia, saúde e alimentação, frisou o entrevistado.

Coan também acrescentou o aumento da pobreza infantil, cujos números apontam que entre 20% a 30% das crianças estão em situação de pobreza muito preocupante.

O aumento da violência foi outro ponto destacado por ambos os entrevistados.

"A questão da segurança pública é uma das que mais aparece nas pesquisas de opinião [...]. O Uruguai está enfrentando um problema muito sério com o narcotráfico. Só para a gente ter uma ideia com relação às taxas de homicídio, cerca de 10 em 100 mil habitantes estão sendo comprometidos por essa questão", apontou Coan.

Osovicki acrescentou que acadêmicos no Uruguai têm falado de uma "latino-americanização" do Uruguai em temas de segurança.

"Antes, o Uruguai era somente um ponto de passagem da droga entre a América e a Europa. Hoje, o Uruguai não é somente um ponto de passagem, mas também um lugar onde grandes narcotraficantes têm negócio."

·        Chile

As eleições locais no Chile também foram tema do Mundioka. A coalizão de esquerda do presidente Gabriel Boric sofreu uma derrota contundente ao perder 40 prefeituras, inclusive a capital, Santiago, enquanto a direita somou 36.

Nas eleições regionais para governadores, 11 das 16 províncias serão definidas em um segundo turno no próximo dia 24 de novembro.

O fenômeno do empoderamento da direita e da extrema direita no Chile não é pontual, ressaltou a professora, ao citar a Argentina com o atual governo de Javier Milei.

"A gente vê isso em vários lugares aqui da América Latina. Acho interessante a gente observar e acompanhar esses movimentos, porque eles são transnacionais [...] Também observar os outsiders, que se colocam como se fossem fora da política, que se utilizam das redes sociais que procuram captar jovens com mensagens um pouco mais simplificadas justamente para conseguir tornar problemas complexos como se tivessem soluções simples. E não é isso", diz Coan.

Ela lembrou que a Constituição chilena é a mesma da época do ditador Augusto Pinochet. A partir dos movimentos de 2019, com grandes manifestações de rua, foi criada uma Assembleia Constituinte.

O presidente Boric tinha como uma das suas grandes apostas de governo aprovar uma nova Constituição, destacou ela, que foi rechaçada por plebiscito duas vezes.

"Quase tudo no Chile é privatizado e muito caro. No caso das universidades, isso não é diferente. Então os jovens têm se endividado cada vez mais para conseguir realizar um curso de graduação. Somado a isso, há também os idosos, que foram para as ruas também agora dizendo um pouco dessa dificuldade na previdência social."

 

¨      Escorregão nacional, por Eduardo Costa

Na semana que se encerrou no domingo eleitoral municipal de 27 de outubro do ano em curso, escrevemos um dos piores capítulos da história da diplomacia brasileira.

O legado varguista de uma carreira diplomática voltada para os interesses nacionais sempre teve um caráter inclusivo e até simpático no universo das nações. E isto começou cedo, quando a Liga das Nações deu lugar à Organização das Nações Unidas.

A habilidade de um revolucionário de 30 conquistou que o Brasil sempre abriria as Assembleias permanentes da ONU, ele, afinal, uma ex-colônia europeia, que agora se envolvia com a descolonização europeia do mundo todo.

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Quando da constituição das mais importantes organizações internacionais voltadas aos objetivos do desenvolvimento e solidariedade internacional, lá estaria um brasileiro a, de maneira influente, ajudar a construi-la. Assim aconteceu na FAO, UNESCO, UNICEF e OMS.

Essa última, que me é familiar, forneceu uma lição que merece ser lembrada. Em crise com o macarthismo americano que queria nominar todos os seus quadros funcionais, seu primeiro presidente canadense se retira das eleições e um brasileiro é seu candidato. Marcolino Candau é aprovado na Assembleia Geral por pouco mais de 40 países, já que a União Soviética e outros países socialistas tinham se retirado da OMS. Mas, com ele, vinha a garantia que a guerra-fria não podia contaminar a saúde. E logo mais 30 países voltaram a ser membros, número que se ampliou até que, quando deixou a OMS, 20 anos depois, mais de 140 membros estavam afiliados.

Essa história pouco conhecida dos brasileiros, aqui serve para atestar o papel e o caráter do Brasil no panorama internacional.

De fato, nunca fomos boicoteiros, nem mesmo no campo esportivo. Vimos com tristeza extremismos deslocados do espaço da confraternização internacional dos povos sem a eles nos associar.

Mas, apesar de ter sido um dos membros fundadores dos BRICS, que afinal se uniram para socorrer os boicotados economicamente pela ordem norte-americana e europeia-ocidental, o Brasil promove o fiasco do veto à entrada da Venezuela.

Fica maior e mais sensível o desatino se o principal instrumento dos BRICS é seu banco e, exatamente uma brasileira, Dilma Rousseff, é sua presidente. Quer dizer, queremos enfraquecer o Brasil ou fazer pensar que viramos quintas-colunas?

Não há em qualquer perspectiva qualquer sentido nesta decisão. Nos constrange e nos força a contestá-la.

Nunca um argumento foi tão ridiculamente utilizado como “por que Lula teria ficado descontente com comportamento de Maduro sobre a divulgação eleitoral venezuelana”!

Primeiro, a Venezuela é um país soberano que faz sua revolução antiimperialista, sendo explorado e boicotado pelos Estados Unidos de maneira vergonhosa. Segundo, porque o Brasil, e, particularmente Lula, não têm que ser fiador de nada do que lá se passa. Precisa, isso sim, considerar um assunto interno da Venezuela e por isso defendêla da ingerência externa americana e dos novos fascistas do mundo.

Sinceramente, creio que a Venezuela não está certa ao desconfiar que Lula se acidentou, mas, até como profissional da área médica, posso achar que teve um grau de apagão em seu costumeiro discernimento político cognitivo.

Aí, o que surpreende são seus ministros do Itamaraty não terem, ao menos, pedido um tempo para o pronunciamento brasileiro sobre a entrada dos novos membros.

E quanto mais cedo nos desculparmos melhor. Como nós todos devemos fazer quando nos dermos conta de nossos erros.

¨      Amorim defende manutenção de diálogo com Venezuela para evitar interferências externas

Em audiência na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados, Celso Amorim afirmou que o Brasil necessita manter o canal aberto com a Venezuela para evitar que o país se torne palco de "uma nova Guerra Fria".

O assessor especial da presidência para assuntos internacionais, embaixador Celso Amorim, foi convidado para questionamentos pela Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados. Em resposta aos parlamentares nesta terça-feira (29), Amorim defendeu a manutenção do diálogo com a Venezuela, apesar do "mal-estar" que há.

Nos últimos meses, as relações diplomáticas entre os dois países sul-americanos se tornaram tensas. Após uma eleição conturbada na Venezuela no final de julho, o Brasil — junto da Colômbia e do México — assumiram o papel de mediadores entre as partes.

Na época, o presidente Nicolás Maduro, prometeu aos seus interlocutores brasileiros apresentar as atas que comprovariam sua vitória eleitoral. "Algo nos foi dito e não foi cumprido", comentou Amorim.

Desde então, Amorim relata que o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva não conversa diretamente com Maduro, apenas com interlocutores. Ainda assim, pedidos como de deputados da oposição para a quebra de relações diplomáticas não devem ser ouvidos, explicitou o assessor.

"O mal-estar existe, mas se quisermos alguma influência num processo de democratização, precisaremos de interlocução."

Segundo o embaixador, ano que vem estão previstas eleições regionais e parlamentares. "É um risco, mas também é uma oportunidade". "Se um pais quer ter importância positiva, não pode se desqualificar como interlocutor."

Amorim destacou ainda que a importância de manter os canais abertos não se encontra só na influência do processo democrático venezuelano, mas também para impedir que algum outro poder entre no vácuo deixado.

"Se não, vem outros. Você tem de um lado os Estados Unidos e, do outro lado, tem países distantes. Não queremos que a Venezuela seja palco de uma Guerra Fria ou de um conflito na Amazônia."

<><> Venezuela no BRICS

Após ambos participarem da 16ª Cúpula do BRICS em Kazan, na Rússia, o Brasil foi acusado pela Venezuela de entrar sua entrada no grupo de países.

Como resposta, a chancelaria venezuelana acusou o Itamaraty de conspirar contra o país e classificou o gesto como uma "agressão".

Para Amorim, de fato a Venezuela neste momento não contribuiria para um "melhor funcionamento do BRICS".

¨      Brasil, te enxerga! Por Manuel Domingos Neto

Brasil, não terás futuro promissor sem a integração sul-americana. Sem contar com teus vizinhos, terás retórica débil.

Na arena internacional, vale a força e tua força não basta para endossar tua vontade.

Distanciada dos sul-americanos tua Defesa Nacional será inconvincente. Parcerias subcontinentais formam condição básica para produzires em escala viável armas e equipamentos próprios.

Somando esforços, a América do Sul poderia fabricar barcos, aeronaves, satélites, radares, mísseis, drones, sistemas cibernéticos e veículos de combate rompendo os grilhões dos que mandam no mundo há quinhentos anos.

Por que não abraças teus vizinhos? No sufoco, eles são fundamentais. Se teus filhos ficam sem energia e oxigênio no Amapá, quem os salvaria?

Vai que sejas objeto de sanções ou que impiedosos bloqueiem tua navegação… Quem te socorrerá?

Sem parcerias com a vizinhança, teu empenho na proteção ambiental fica inconsistente: biomas, bacias e aquíferos compartilhados não serão efetivamente protegidos. A Amazônia não é só tua!

O planejamento de tua segurança pública à revelia de países limítrofes será dispendioso e furado. Vigilância unilateral de extensas fronteiras terrestres e da costa marítima é inexequível.

Sem a cooperação dos vizinhos, teus cuidados sanitários serão limitados. Vírus e bactérias ignoram fronteiras arbitradas pelos humanos. A saúde dos teus estará permanentemente exposta.

É doideira imaginar-te industrializado, desenvolvido, democrático e soberano arrodeado de pobres, infelizes e dependentes de potências extracontinentais. Serás percebido como imperialista.

Precisas da América do Sul tanto quanto a América do Sul precisa de ti.

O que te digo agora consta do planejamento estratégico de potências ocidentais desde o século XIX. Os hegemônicos contam que para onde penderes, penderá nuestra América. Por que tua cultura política nunca absorveu esta noção?

Por que rejeitas a inclusão da Venezuela nos BRICS?

Podes não gostar do bolivarianismo, mas deixem nossos irmãos seguirem seu rumo!

Considere a dificuldade de um país carimbado pelos Estados Unidos de integrante do “eixo do mal” existir com sólida institucionalidade democrática.

A Venezuela, fortemente sancionada e permanentemente sabotada, pode viver em plácida tranquilidade?

Se exiges democracia dos outros, demonstre o valor da tua!

Prove ser falso que general brasileiro intimida a Justiça. Diga que nenhum tribunal põe na cadeia candidato favorito para que um capitão com maus instintos seja eleito!

Mostre seres capaz de prender genocidas, torturadores e juízes vendidos.

Exiba a respeitabilidade de teu parlamento! Assegure que seus integrantes não se elegem usando o orçamento público; que milicianos, neopentecostais e bandidos não controlam territórios; que tua imprensa não é facciosa e que as mentiras da internet não enganam o povo.

Mostre que teus partidos políticos pulsam com a dinâmica social e ensejam a renovação permanente de quadros, ideais e valores.

E que abominas a concentração da riqueza inviabilizadora da democracia.

Mostre que sempre derrotas os inimigos da liberdade; que promotores do ódio e da violência formam minorias rejeitadas nas urnas!

Por que fragilizas a Venezuela neste momento de reordenamento mundial?

Por tabela, debilitas os Brics. Impedes esse grupo, que desperta esperanças entre os oprimidos, de deter a maior parte da produção mundial de petróleo.

Isso te beneficia? O que é bom para Washington é bom para ti?

 

¨      Maduro pede à Colômbia acesso aos resultados de investigação sobre software israelense espião

O presidente venezuelano Nicolás Maduro pediu nesta segunda-feira (28) que a Colômbia conceda acesso aos resultados das investigações sobre o software espião israelense. Conforme Maduro, o programa foi usado para conspirar contra Caracas.

"Estamos muito interessados. Dei instruções aos órgãos competentes para coordenarem com a inteligência da Colômbia, e possamos ter acesso aos resultados das investigações que estão sendo realizadas sobre essa denúncia do Pegasus", declarou Maduro.

O presidente venezuelano afirmou ainda que o software faz parte do legado do ex-presidente Iván Duque (2018-2022).

"É apenas um dos elementos deixados pelo nefasto legado de Iván Duque, nefasto para a Colômbia e para a Venezuela, que tentou invadir o país com mercenários e nos assassinar. O Pegasus faz parte do legado nefasto da ultradireita paramilitar e narcotraficante representada por Iván Duque", comentou.

No início de setembro, a Procuradoria colombiana anunciou que investigaria a denúncia feita pelo presidente Gustavo Petro sobre a compra de um software espião israelense, que na época custou US$ 11 milhões (R$ 62,8 milhões).

Segundo o presidente colombiano, o software foi utilizado para espionar opositores do governo de Iván Duque com fins políticos, durante os protestos ocorridos na Colômbia em 2021 contra o governo e suas decisões fiscais e tributárias.

¨      Governo da Bolívia acusa ex-presidente Evo Morales de forjar atentado contra si

O governo boliviano acusou nesta segunda-feira (28) o ex-presidente Evo Morales de furar um posto de controle no domingo (27), na região de Villa Tunari, no departamento de Cochabamba, e disparar contra policiais, após denunciar um atentado contra sua vida.

"Foi o senhor Evo Morales e as pessoas que estavam no automóvel que dispararam contra a polícia", denunciou o ministro de Governo, Eduardo Del Castillo, em conferência de imprensa.

Morales postou um vídeo no Facebook feito de dentro de um carro em movimento com pelo menos dois buracos de bala no para-brisa. O boliviano é visto no banco do passageiro da frente, e o motorista parece ferido.

Em entrevista à rádio boliviana Kawsachun Coca, ele afirmou que foi seguido por outros dois veículos, onde estavam os autores do ataque, que dispararam 14 vezes contra seu carro. Ele culpou o atual governo pelo episódio.

Logo depois, o presidente da Bolívia, Luis Arce, anunciou a abertura de uma investigação para apurar o ataque contra Morales.

Morales e Arce estão em uma disputa política que rachou a esquerda na Bolívia. Ambos tentam ser o candidato do partido Movimento ao Socialismo (MAS) nas eleições de 2025.

Nas últimas semanas, bloqueios de estradas, principalmente no departamento de Cochabamba, têm ocorrido em apoio ao ex-presidente (2006–2019), cuja detenção foi ordenada pelo Ministério Público, por suposto abuso sexual de uma menor de idade quando ainda era presidente.

Morales rejeita a acusação, dizendo ser "mais uma mentira" orquestrada pelo governo de Arce para tirá-lo da disputa presidencial, já que o caso foi encerrado em 2020.

 

Fonte: Sputnik Brasil/Outras Palavras/Jornal GGN

 

Eleições 2024: o buraco é mais fundo do que parece

“E, para investigar aquilo que respeita a esta ciência [política] com a mesma liberdade de ânimo que é costume nas coisas matemáticas, procurei escrupulosamente não rir, não chorar nem detestar as ações humanas, mas entendê-las”, Baruch de Espinoza, filósofo racionalista

A derrota sofrida pela esquerda nessas eleições fez todos pensarem. O que aconteceu? O PT conquistou 248 prefeituras. Mais do que as 182 de 2020, mas muito longe das 624 de 2012. No outro extremo, o PL venceu em 512 municípios. Além disso, houve um avanço significativo do PSD de Gilberto Kassab e outros partidos que, apesar de serem classificados como “centrão”, pressionam o governo e a realidade à direita. O PSOL perdeu 8 vereadores e a única capital que governava, ficando em terceiro lugar em Belém. Boulos chegou ao 2º turno em São Paulo, mas não sem antes passar por um angustiante empate triplo no 1º turno, onde o fascista Marçal foi o fator imponderável e uma enorme frente antiesquerda se formou ao redor de Ricardo Nunes, que do alto de toda sua mediocridade foi eleito neste domingo, em margem de votos semelhante à de seu padrinho Bruno Covas. Há muitos outros dados e, de qualquer ângulo que se analise, a derrota foi grande. O 1º turno, com algumas importantes exceções, revelou uma conjuntura pior do que há dois anos.

Diante de tudo isso, abriu-se na esquerda brasileira um debate sobre o balanço das eleições. Deixemos de lado as avaliações autoindulgentes que afirmam que houve um avanço da esquerda simplesmente porque o PT ampliou o número de prefeituras. São cidades menores, em geral fora do eixo que define a dinâmica geral da política brasileira. Dialoguemos com aqueles que aceitam que houve uma derrota. A questão é: por quê?

As derrotas desorientam, são mais difíceis de serem assimiladas e, portanto, explicadas. Uma parte importante da esquerda se apega exclusivamente a elementos endógenos, se conecta a uma ilusão infantil de que poderíamos ter evitado tudo. Bastava seguir as ideias corretas de um ou outro setor, aplicar esta ou aquela tática. Ou, quem sabe, a culpa foi do candidato? No twitter, o meme do humorista Daniel Duncan resume bem: “calma gente, falem devagar, não to conseguindo anotar tudo que a esquerda precisa fazer para ganhar as eleições”.

No polo oposto estão os que querem interditar qualquer debate, como se toda e qualquer crítica tivesse como consequência prática o fortalecimento da extrema-direita. Nos parece que é preciso evitar os dois erros e analisar os fatores exógenos, que independem das escolhas táticas da esquerda e também os endógenos, sempre lembrando que existem várias esquerdas, com atuações diferentes e alcances muito diferentes também. Vejamos.

•        O cenário internacional

A derrota brasileira não é um raio em céu azul. Ela acontece num contexto. Vivemos uma situação mundial de avanço da extrema-direita. Na Europa, as forças do atraso seguem sua marcha rumo à conquista de vários governos importantes. Já têm a Itália, a Hungria e mais recentemente conquistaram a Áustria. O Chega em Portugal e o Vox na Espanha ameaçam a Península Ibérica. A AfD avança do leste para o oeste da Alemanha. Na França, conseguiu-se evitar uma vitória imediata de Le Pen, mas a situação segue tão ruim que Macron deu um golpe de direita, roubou da Nova Frente Popular a prerrogativa de formação de governo e nada aconteceu. Nos EUA, Trump avança perigosamente sobre os estados-pêndulo.

Na América Latina, foi possível evitar um golpe na Bolívia, mas não uma divisão autofágica no interior da esquerda. Milei segue firme em sua ofensiva na Argentina e não está dado que a resistência que surgiu lá até agora seja capaz de frear seu ímpeto destruidor. Na Colômbia, um novo ensaio de golpe de Estado contra Gustavo Petro, também com a participação do judiciário, como foi no Brasil. Em El Salvador, Nayib Bukele transforma o país em uma distopia político-social que é referência para o todo o fascismo latino-americano.

A situação de maior gravidade e urgência internacional, no entanto, segue sendo o genocídio do povo palestino, que avança numa escala sem precedentes porque dessa vez é um massacre televisionado, com cobertura em tempo real pelas redes no mundo inteiro, sem que isso, ao menos até o momento, tenha feito o governo de Netanyahu parar. Ao contrário, Israel progride para transformar o Líbano numa nova Gaza.

No Brasil, além da derrota eleitoral, as queimadas criminosas, o avanço do neopentecostalismo fundamentalista, das milícias, da precarização da vida, das privatizações, do clientelismo e da violência política, tudo isso temperado com o cerco e o boicote ao governo por parte da Faria Lima e da grande imprensa corporativa.

•        "Ocupar o espaço antissistema"?

É fato que existe cansaço, desgaste ou mesmo ódio ao atual regime político e social? Sim. Na verdade, o brasileiro médio sempre amaldiçoou o sistema, xingou os políticos e praguejou “contra tudo o que está aí”. E hoje faz isso mais do que nunca. Mas há um problema.

Historicamente, essa rejeição ao “sistema” costumava vir acompanhada de uma visão mais ou menos progressista sobre as saídas para os problemas. As pessoas xingavam os políticos exatamente porque achavam que a educação e a saúde deveriam ser considerados direitos sociais, que os trabalhadores deveriam ser protegidos frente à ganância dos patrões, que mulheres, negros e LGBT’s deveriam ser defendidos contra a violência e a injustiça. A Constituição de 1988 é uma espécie de “fotografia” dessa consciência média que se estabeleceu no Brasil após o fim da ditadura militar. Foi sobre essa consciência média que se construiu o PT e mesmo a esquerda mais radical.

Ao contrário, as visões de mundo que pregavam o fim de quaisquer direitos, o ódio, o fanatismo religioso e a violência sempre foram vistos como algo fora da curva. Bolsonaro era uma piada durante os anos 1990 e 2000. Antes dele, Enéas Carneiro ficou famoso mais por seu bordão característico e seu colorido pessoal do que por suas ideias, que ninguém conhecia nem entendia direito.

O que temos hoje em termos de consciência média na base do bolsonarismo, movimento que constitui cerca de um terço da população? Uma massa política e economicamente reacionária, com elementos de fanatismo religioso, extremamente misógina e altamente racista e LGBTfóbica. A defesa da infância, dos direitos reprodutivos, da natureza, dos direitos trabalhistas, da igualdade e justiça social, da laicidade do Estado não constitui mais os grandes consensos nacionais que constituíam há poucos anos. As saídas que predominam são o empreendedorismo, a mistura de religião com política, o punitivismo, a ditadura militar, o fechamento do STF, a queima e venda da Amazônia e todo o tipo de barbaridade que antes não passava de piada de mal gosto.

Ou seja, a primeira coisa a se estabelecer com firmeza é que não existe um “espaço antissistema” abstrato, virtualmente “vazio” e que pode ser “preenchido” com este ou aquele conteúdo, de direita ou de esquerda. O que existe na verdade é um forte deslocamento da consciência média à direita. Cerca de um terço da população, com mais ou menos mediações, adotou a posição da guerra civil contra a esquerda, o “comunismo” e os direitos sociais. E a guerra civil contra o comunismo é exatamente a essência do fascismo.

Enfim, se quisermos falar de um “espaço antissistema”, precisamos qualificar esses termos. O “sistema” que se quer combater é a própria civilização. Para quase metade da população, o “sistema” não é o policial, o político ou o patrão como sempre frisaram nossos primos anarquistas, mas o fiscal do Ibama, o sindicalista, o professor de história, a mulher negra, o cotista, as LGBTs, o assistente social, o cientista, o padre que distribui quentinhas aos moradores de rua.

Assim, não é possível “ocupar o espaço antissistema” porque ele não é um espaço vazio a ser ocupado e preenchido com um conteúdo diferente. Esse “espaço” já está preenchido, já tem conteúdo, já tem uma localização na luta política entre a civilização e a barbárie. Ele é o próprio fascismo.

Além disso, não é verdade que nenhuma força de esquerda tentou ocupar esse “espaço” com um conteúdo próprio. Nessas eleições, houve sim candidaturas da esquerda radical antissistema que criticavam “tudo o que está aí”, o “poder”, que defendiam uma localização de oposição de esquerda ao governo. E qual o seu resultado? Desprezível. Injustiças do sistema eleitoral que beneficia os grandes partidos? Esse elemento existe, mas não é absoluto. A profunda decadência e virtual desaparecimento da esquerda sectária é um fenômeno que já dura vários anos e vai muito além das barreiras eleitorais. Tem a ver com a inadequação e descolamento da realidade política nacional e sua completa dissonância cognitiva.

Isso não significa que temos de nos comportar como uma esquerda institucional e defensora do que existe de pior no sistema: a corrupção, os privilégios, os desmandos, o clientelismo. A crítica ao sistema deve estar presente em nosso discurso, mas deixando muito claro que somos, ao mesmo tempo, defensores das conquistas civilizacionais incorporadas com muita luta por esse sistema: os direitos sociais, os mecanismos de diminuição da desigualdade, a proteção dos mais vulneráveis, a defesa do meio ambiente, da ciência e da cultura. Temos que combater o discurso de que esses mecanismos existem para “segurar o trabalhador embaixo”, como disse Marçal na campanha. Ao contrário, somos a esquerda da ampliação desses mecanismos e sua incorporação como conquistas civilizacionais que são.

Além disso, no âmbito da propaganda, é preciso recolocar a luta pelo socialismo como horizonte. Hoje o fato é que não só as massas, mas a própria vanguarda das lutas e o ativismo de esquerda não estão convencidos dessa perspectiva. O socialismo não pode ser um tema para ser lembrado “nos dias de festa”, como fazia a social-democracia histórica, mas parte permanente de nossa luta ideológica, formação e propaganda.

•        Os limites do governo Lula e das alianças com o centrão

Nunca foi tão importante defender enfaticamente que o governo Lula implemente medidas de combate à pobreza; defenda as funções sociais do Estado; questione a agenda de privatizações dos governos estaduais, que, na sua maioria, são de direita; implemente um giro na política ambiental, com mais regulação, proteção e uma atualização programática de fundo sobre o papel do Brasil na transição energética e no combate à crise climática.

Muitos ativistas e correntes de esquerda se queixam do fato de que algumas ações do governo Lula acabam fortalecendo a direita, como o arcabouço fiscal, as concessões ao centrão, o recuo nas pautas ideológicas, certas nomeações e outros. É verdade. O governo Lula tem vacilado na luta contra a extrema-direita e no simples cumprimento das promessas de campanha feitas pelo próprio Lula. Seria um equívoco negar essa realidade.

O problema é que, se com o governo Lula já é difícil, sem ele é impossível. É isso que está em jogo. Sem Lula, teria sido impossível vencer a máquina governamental nas eleições de 2022. O voto em Lula não foi um voto programático, na esquerda. Foi um voto estritamente pessoal. Graças a isso, o monstro foi temporariamente derrotado.

Outra verdade difícil de engolir: sem a ampla aliança com setores da burguesia que romperam com o law fare lavajatista e o bolsonarismo, também não haveria vitória em 2022 e Bolsonaro seria hoje governo. Teria sido melhor? Com certeza, não.

Assim, na luta contra o fascismo, o governo Lula se mostra um aliado instável e vacilante, mas ao mesmo tempo imprescindível, absolutamente inescapável, dadas as atuais condições de temperatura e pressão (nível de consciência, organização e disposição de luta da classe trabalhadora). O problema é que Lula aposta numa grande unidade para derrotar a extrema-direita, mas os interlocutores de direita e de centro não estão dispostos a se comprometer com os pontos mínimos da agenda que elegeu o presidente. Então temos um paradoxo: a aliança que foi condição da vitória pode se transformar, no curso do mandato, em preparação da derrota.

Mas isso não quer dizer que não há o que fazer. Ao contrário, nunca foi tão importante a luta política, nunca foi tão importante defender enfaticamente que o governo Lula implemente medidas de combate à pobreza; defenda as funções sociais do Estado; questione a agenda de privatizações dos governos estaduais, que, na sua maioria, são de direita; implemente um giro na política ambiental, com mais regulação, proteção e uma atualização programática de fundo sobre o papel do Brasil na transição energética e no combate à crise climática.

É urgente também superar a separação entre a classe trabalhadora e as pautas erroneamente chamadas de “identitárias”. O balanço de intelectuais que buscam aprofundar essa divisão parte de uma incompreensão programática de um dos elementos mais progressivos da realidade política do século 21. Existem milhares de jovens que despertaram para a vida política através da agenda antirracista, feminista e antilgbtfóbica, através de batalhas que apenas parecem “identitárias”, mas que estão profundamente conectadas à vida da classe trabalhadora. Quem morre pelas mãos da violência policial nas periferias são trabalhadores; quem paga com a vida o preconceito contra pessoas trans e LGBT’s são trabalhadores; as mulheres vítimas do feminicídio e da violência doméstica são, na sua imensa maioria, trabalhadoras. As demandas da classe não são apenas as da agenda econômica ou puramente sindical, e desse ponto de vista essa sequer é uma lição nova. Lênin já apontava, há mais de cem anos, para a importância das batalhas políticas e para os limites de uma visão puramente econômica das pautas e demandas do povo. A luta pelo socialismo é uma luta total.

O problema tem sido, de fato, que o governo tem invariavelmente recuado diante da ofensiva do centrão, da Faria Lima, da Rede Globo e da própria direita. Mas isso não quer dizer que o governo não seja um instrumento útil e absolutamente necessário na atual etapa. Tal é a dialética do processo: um aliado vacilante e instável, mas o sem o qual a vitória é impossível.

•        A derrota de 2024: faltou algo, mas o que exatamente?

Muitos ativistas e correntes, na ânsia de praticamente igualar lulismo e bolsonarismo, citam o fato de que o PT saiu aliado ao PL em 85 cidades no país. Realmente, esse foi um erro importante do PT e o criticamos desde o início. Desde que começamos a discutir as eleições de 2024, o PSOL defendeu uma política de unidade da esquerda em todo o país. Em nossa opinião, o resultado mostra que essa era a política correta. Os lugares em que a esquerda se saiu melhor foram exatamente os lugares onde houve uma verdadeira unidade de esquerda e democrática: São Paulo, Porto Alegre, Fortaleza, Natal. Onde o PT preferiu sair aliado com os partidos da direita tradicional, o resultado foi muito pior, como em Curitiba, onde o 2º turno acabou sendo disputado entre dois candidatos bolsonaristas. Mesmo onde o PT “venceu” (por exemplo, no Rio), não foi exatamente uma vitória sua, mas daqueles que estão apenas tática e provisoriamente aliados ao governo.

Assim, não concordamos com aqueles que dizem que o grande problema dessas eleições foi o tom moderado de um ou outro candidato. Evidentemente ocorreram erros, mas eles não são o fator determinante da nossa defensiva. Quem critica o resultado do Boulos no 1º turno acaba criticando os melhores resultados da esquerda, quando na verdade já ficou evidente o erro nos casos em que a esquerda sequer conseguiu se unir ou optou por nem se apresentar, deixando o espaço da luta política totalmente vazio numa eleição em que isso foi determinante. Esse foi o grande erro e o grande problema.

Em São Paulo, o PSOL avançou em regiões importantes, graças exatamente ao fato de que buscamos dialogar com as questões reais colocadas pela população: creche, postos de saúde, escolas, urbanização, cultura negra, violência doméstica etc. Ao mesmo tempo, não se pode dizer que a campanha não foi politizada. Ninguém é bobo. O povo entendeu exatamente o que estava em jogo. Em certa medida, foi um plebiscito entre esquerda e direita. E saímos do primeiro turno com uma derrota nacional e com um resultado preocupante em São Paulo. Esse é o fato que é preciso encarar.

Assim, ao criticar as tentativas de Boulos de dialogar com os sentimentos mais fundamentais da população, uma parte da esquerda o critica pelos motivos errados. A campanha em São Paulo enfrentou uma poderosa frente única de direita, que junta toda a mídia tradicional, o governador Tarcísio e as alas mais radicalizadas da extrema direita. Nesse contexto, é correto fazer uma campanha que tente “furar a bolha” do eleitorado que já é de esquerda desde sempre.

•        Luta política e ideológica até 2026: o papel do governo Lula

A principal conclusão dessas eleições não é, portanto, de que “não ocupamos o espaço antissistema que era nosso”. A conclusão é muito mais sombria: perdemos a luta política e ideológica porque as pessoas não concordam com nossas ideias. É preciso, portanto, além das medidas econômicas e sociais relacionadas ao cumprimento do programa de 2022, uma forte luta ideológica que tenha o governo à frente.

É preciso não ter receio. O peso de Lula é tão grande que é capaz de virar ideologicamente o jogo. Quando Lula faz luta política a fundo, a realidade muda. Foi assim nas próprias eleições de 2022, mas não só. Lula mostrou sua capacidade de influenciar o pensamento das grandes massas nos vários episódios envolvendo o boicote do Banco Central contra a economia brasileira, nas inúmeras vezes que denunciou o genocídio em Gaza. Mas é preciso e possível muito mais.

É preciso e possível lutar pela recomposição da nossa capacidade de mobilização. E isso também é uma escolha política. Qualquer aprovação de pautas progressistas no Congresso Nacional dependerá muito mais da luta fora do congresso do que dentro. Se está no nosso horizonte restabelecer direitos sociais perdidos, ampliar o papel social do Estado, melhorar as condições de vida da população e ter um balanço categórico para apresentar em 2026, a aposta estratégica do governo precisa mudar porque nada disso será possível no marco dos acordos com o centrão e dos limites da Faria Lima. Mas para isso, Lula e o PT precisam ir a campo porque são eles que têm a maior articulação com os movimentos sociais e compõem a imensa maioria das forças organizadas da classe trabalhadora.

É preciso fazer a classe trabalhadora e a esquerda voltarem às ruas, à cena política nacional, se apresentarem como candidatos à conquista da hegemonia política, ideológica e social, monopolizada hoje pela extrema-direita.

 

Fonte: Por Glória Trogo e Henrique Canary, em Correio da Cidadania