sábado, 29 de junho de 2024

Por que o suicídio causa debate 'acalorado' sobre ritual do candomblé

Plantar, cuidar, colher. Nascer, crescer, morrer. Aprender, ensinar e passar o bastão aos mais novos. Em religiões tão baseadas nos ciclos da natureza como a umbanda e o candomblé, como mostram seus mitos e rituais, a decisão de se romper a trajetória de vida com um suicídio é difícil de ser assimilada.

"Como tudo que nós fazemos é voltado para nossa ancestralidade, seja elas os orixás ou os nossos antepassados que se tornaram ancestrais, esse é um ato que eu não diria vergonhoso, mas é uma missão não cumprida dentro desse processo ancestral”, explica o pesquisador André Aluize, sacerdote de candomblé (função conhecida também como pai de santo ou babalorixá) em Monte Azul Paulista e em cujo terreiro há também práticas da umbanda.

Talvez o “maior problema” do suicídio para essas religiões seja justamente a interrupção da possibilidade de se tornar mais velho, aponta Aluize, criador e coordenador do Educaxé, um grupo de estudos na Universidade Estadual Paulista (Unesp) sobre cultura negra e religiões de matriz africana no Brasil.

Como vem mostrando a BBC News Brasil na série "Suicídio & Fé", diversas religiões rejeitam historicamente o ato de se matar, prevendo punições — em ritos funerários ou em planos espirituais — aos suicidas, o que traz dor a famílias enlutadas.

No candomblé, há um debate “acalorado”, nas palavras de André Aluize, neste sentido — sobre se o axexê, um ritual de transição entre o mundo terreno e o espiritual, deve ser realizado para pessoas que se mataram.

Na internet, inclusive, há várias postagens em redes sociais e textos em blogs discutindo essa questão.

•           O que é o axexê e por que alguns argumentam que suicidas não devem ter ritual

O axexê é um rito funerário destinado a pessoas iniciadas no candomblé, ou seja, que passaram por um processo de inserção na religião que leva anos e tem várias etapas.

“O axexê é um ato de desfazer os atos religiosos que foram feitos durante a vida. Se você não desfizer esses atos, fica preso à Terra e não consegue ir para o orum [o mundo espiritual]; e não indo para o orum, você não consegue renascer", explica o sociólogo Reginaldo Prandi, professor emérito da Universidade de São Paulo (USP), pesquisador e autor de diversos livros sobre o candomblé, como Mitologia dos Orixás.

Na prática, inclusive por ser considerado caro, o ritual costuma ser feito para as pessoas mais importantes das comunidades, como pais e mães de santo e ogãs (um cargo de prestígio que tem rituais e funções específicas, como tocar atabaques, e que não incorpora entidades).

Mas é importante destacar que, no candomblé — assim como na umbanda —, não há uma instituição que centralize decisões e normas como em outras religiões.

As regras também não costumam ser escritas: há uma forte tradição oral, em que as crenças e o conhecimento são repassados de geração em geração por meio de mitos e cantos, por exemplo.

Assim, as práticas variam muito a depender do terreiro, da região do país e da nação de candomblé (que corresponde à origem, na África, de certas práticas e orixás cultuados no Brasil).

Segundo os entrevistados pela BBC News Brasil, a nação ketu, de origem iorubá, é a maior e a mais influente no candomblé. É dela que vem o nome “axexê”.

Outras nações têm outros nomes para esse tipo de ritual, como sirrum para a nação jeje e ntambi para nação angola — mas é comum que também esses segmentos usem o termo “axexê”.

Resguardadas as diferenças, o axexê pode levar dias e inclui cantos, danças, sacrifícios, oferendas, comida e a destruição de objetos rituais do morto, como colares e roupas.

Várias decisões sobre esse ritual são tomadas a partir do jogo de búzios, um oráculo através do qual são feitas consultas aos orixás e ancestrais.

Pergunta-se, por exemplo, se objetos ritualísticos do morto devem ser destruídos ou repassados para outra pessoa da família ou comunidade.

"Quanto mais iniciado você for, quanto mais um sábio da religião você se tornar, quanto mais responsabilidades você adquiriu ritualmente falando, mais complexo é o seu axexê”, explica Prandi.

“Uma mãe de santo que tem muitas responsabilidades e laços com todos os filhos de santo do terreiro é a pessoa que tem mais laços religiosos a desfazer", exemplifica.

Mesmo que não seja uma situação frequente, o suicídio de alguém que teria direito a um axexê rompe com essa programação e traz controvérsias sobre a realização ou não do ritual.

O babalorixá Alcemir de Odé, da casa de candomblé Ile Ase Alaketu Ode Labure (nação ketu), em São José dos Pinhais, no Paraná, afirma categoricamente que “quem faz o suicídio não tem direito a axexê”.

"Porque orixá deu a vida, orixá leva a vida", argumenta. "Eu concordo porque são meus ancestrais que assim fizeram, assim tem seguido de gerações em gerações."

“Quando a pessoa tira a própria vida, ela já decidiu seu destino”, diz o babalorixá.

Ele afirma ter conhecimento de dois casos em sua região de pessoas que se suicidaram e que, de outra forma, teriam tido um axexê: um ogã, há cerca de um mês, e de um pai de santo, há cerca de oito anos.

Ele esclarece que, nesses e em outros casos de suicídio, rituais mínimos são feitos.

“A gente também não pode deixar a pessoa de qualquer jeito... A gente vai preparar o corpo, preparar o túmulo e acabou. A gente dá o que ela mereceu naquele momento que terminou a sua própria vida”, diz Odé.

O babalorixá Égbé Leandro, da Casa de Oxumarê, em Salvador, na Bahia, também afirma que não se faz axexê para pessoas que se suicidam. Segundo ele, a casa tem influência principalmente das nações ketu e jeje.

“O axexê é uma celebração da passagem da pessoa ao orum. É uma festa. Então, eu não tenho como fazer axexê para a pessoa [que se matou] porque não se tem como comemorar uma pessoa que tirou a própria vida. Mas o rito fúnebre, as liturgias são iguais para todos”, diz Égbé Leandro.

“É feito o enterro dentro dos moldes da nossa religião. A liturgia acontece. Ela tem que acontecer, porque ela é imprescindível. Na nossa filosofia, é necessário desligar o espírito do indivíduo” de instrumentos ritualísticos pertencentes a ele, explica.

O sacerdote André Aluize prefere não firmar uma orientação e diz que, caso uma notícia de suicídio em sua comunidade chegasse até ele, seguiria o que fosse determinado pelo jogo de búzios.

“Cada um acaba por fazer à sua maneira. É bem complexo, por conta disso existe um tabu muito grande", aponta o pesquisador e sacerdote, cujo terreiro também integra a nação ketu.

Ele conta ter ficado sabendo de um caso, por volta de 2019, em que foi preciso fazer uma espécie de concílio entre sacerdotes de candomblé para se decidir sobre o axexê de uma pessoa que se matou — e cuja identidade e detalhes ele prefere não compartilhar.

“Foi preciso envolver líderes de outras casas, de outras comunidades, para se discutir o oráculo", relata, afirmando que os sacerdotes jogaram búzios individualmente para depois se chegar a uma decisão coletiva.

"Como em um concílio religioso, chegou-se a uma jogada definitiva. Foi autorizado o procedimento da ritualística do axexê com ressalvas”, diz.

Por exemplo, pessoas importantes para a comunidade podem ser reverenciadas nos chamados assentamentos, locais no terreiro que reúnem inúmeros objetos sacralizados que pertenciam à pessoa e ficam na comunidade em sua memória. No caso relatado por André, a pessoa não pôde ser honrada com um assentamento.

Entretanto, o sociólogo Reginaldo Prandi diz que, nos itãs (mitos iorubás), não há “uma linha” que fale do suicídio.

Por isso, para ele, a rejeição ao suicídio nas religiões afrobrasileiras são resultado da influência do espiritismo e do catolicismo.

“A proibição não vem da origem africana”, afirma.

Na primeira reportagem da série “Suicídio & Fé”, a BBC News Brasil mostrou que, por séculos, o catolicismo proibiu a realização de ritos fúnebres para suicidas, como a missa de sétimo dia. A proibição foi derrubada na década de 1980.

Assim como nas igrejas evangélicas, também de origem cristã, o suicídio foi historicamente encarado no catolicismo como um pecado, por conta da interpretação do mandamento “Não matarás”.

Já no espiritismo, que também cresceu no Brasil sobre uma base cristã, o suicídio é visto como algo que trará consequências — frequentemente penalidades, segundo alguns livros espíritas famosos — no mundo espiritual e em futuras reencarnações.

As religiões afrobrasileiras não têm tantos adeptos no Brasil como as religiões citadas, mas a BBC News Brasil decidiu incluí-las na série de reportagens por sua importância cultural.

De acordo com o Censo 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o candomblé tem 167.363 adeptos no país (0,08% da população) e a umbanda, 407.331 (0,2%).

O candomblé e a umbanda têm várias semelhanças, mas também diferenças — o pesquisador André Aluize explica uma delas.

"O candomblé lida com deidades africanas e a umbanda lida com espíritos desencarnados. A principal divergência entre as duas seria essa: uma [candomblé] é voltada a todo um conhecimento ancestral ligado a pessoas que já existiram, a reis e rainhas, aos nossos ancestrais e antepassados, e a umbanda lidaria com os espíritos de uma forma geral", esclarece Aluize.

Assim, o candomblé tende a se manter mais próximo das práticas africanas, enquanto a umbanda, que inclusive se estruturou mais recentemente, tem mais presente a influência de crenças indígenas, do catolicismo e do espiritismo.

Entretanto, algumas linhas de umbanda se mantiveram mais próximas do candomblé e da matriz africana ou estão se esforçando para resgatar essa origem.

•           E como o suicídio é visto na umbanda?

Com mais adeptos que o candomblé e com uma variedade maior de vertentes, não há notícias de que a umbanda deixe de fazer rituais para pessoas que se matam, segundo entrevistados pela BBC News Brasil.

Mas ainda assim, esse ato é considerado “grave”, diz a mãe Flávia Pinto, matriarca da Casa do Perdão, um terreiro de umbanda em Seropédica, no Rio de Janeiro.

“Houve uma força divina que consagrou a vida. Portanto, não é você que tem o direito de ceifá-la”, diz a ialorixá, também socióloga e autora de vários livros, como Umbanda Religião Brasileira: Guia para leigos e iniciantes.

“Se algo não está indo bem a ponto de você se suicidar, é porque você não está conduzindo bem a sua vida. Então, você deve buscar ajuda.”

Ela conta que, frequentemente, recomenda ajuda psicológica e psiquiátrica às pessoas, embora acredite que nem sempre essa assistência “dá conta” sem um “reforço energético”.

Pinto conta que “inúmeras vezes” já sentiu a presença de espíritos de suicidas em consultas com entidades ou no jogo de búzios.

“Quando você tira o sopro divino por conta própria, você é um espírito condenado a vagar. Porque nós somos reencarnacionistas — tanto pela visão umbandista, quanto indígena e iorubá”, diz, destacando as raízes da umbanda.

"A gente consegue quase sempre detectar se tem um espírito ali perto, tamanho o peso que ele traz. Ele começa a ser um obsessor, um espírito vampirizador, um kiumba [termo da umbanda para um espírito sem luz, ruim] a perturbar aquela pessoa ou a família.”

Ela diz que há também relatos de que o espírito de um suicida acompanha a decomposição do próprio corpo.

Essa crença vai ao encontro de livros espíritas que colocam o suicídio como uma transgressão à lei divina e mencionam vários tipos de punição para os espíritos de pessoas que se mataram, como mostrou a BBC News Brasil em outra reportagem da série “Suicídio & Fé”.

Em O Céu e o Inferno, um dos livros organizados pelo fundador da religião, o francês Allan Kardec (1804-1869), um trecho diz ser comum que espíritos de suicidas sintam vermes corroendo o corpo, embora as consequências do ato variem de "duração e intensidade conforme as circunstâncias atenuantes ou agravantes da falta".

Em Memórias de um suicida, popular livro da médium Yvonne do Amaral Pereira (1900-1984), é detalhada a existência de um “Vale dos Suicidas”, um lugar de extremo sofrimento para os espíritos de quem se matou.

O livro traz também histórias de espíritos de suicidas que tiveram que observar, a partir do plano espiritual, o próprio corpo em decomposição, ou testemunhar parentes em sofrimento por conta da morte.

Segundo o sociólogo Reginaldo Prandi, a ideia de reencarnação na umbanda tem influência do espiritismo, enquanto no candomblé manteve-se mais próximo às origens africanas.

"A ideia do renascimento no candomblé é uma ideia não de que o indivíduo está nascendo [de novo], mas que a sociedade está se refazendo, se reproduzindo. A ideia do renascimento é mais coletivizada", explica o professor emérito da USP.

André Aluize, do grupo de estudos Educaxé, também destaca a influência do espiritismo na visão da umbanda sobre a reencarnação, como a ideia de que alguém reencarna em várias etapas ou vidas.

Há também a influência do catolicismo na ideia de castigo a um espírito que tenha se comportado mal em uma vida passada, diz o pesquisador e candomblecista.

No caso do suicídio, ele diz que a influência do espiritismo pode se manifestar com a crença umbandista em dois cenários diferentes.

"Uma delas seria que esse espírito vai para umbral, que é uma crença kardecista, e vai passar por um tempo lá até a remissão. Outra, é de que esse espírito vai se tornar um egum", aponta Aluize.

"É um espírito zombeteiro, sem orientação, um espírito que estaria entre nós sem a possibilidade de uma evolução — que é proposta dentro de uma visão kardecista."

Já a mãe Flávia Pinto defende que as origens da visão da umbanda sobre o suicídio são muito anteriores ao espiritismo, que ela destaca ter nascido no século 19 na França.

"A umbanda tem muito do kardecismo, mas ela tem uma origem africana e indígena”, argumenta, apontando que essas tradições são milenares.

•           Aumento de suicídios impõe debate para as religiões

O babalorixá Égbé Leandro afirma, no dia a dia, ser “perceptível” uma maior demanda por questões relativas à saúde mental.

"A doença do momento é a doença emocional. Quando eu vou jogar búzios, orientar as pessoas, muitas das vezes o problema está no emocional. E infelizmente as pessoas não têm a consciência da importância da saúde emocional”, diz, apontando que as pessoas têm “vergonha” de procurar ajuda de especialistas.

O babalorixá Alcemir de Odé também destaca a importância da orientação profissional.

“Nossa cabeça, nós chamamos de ori. A nossa ori nos faz muito forte, mas nossa ori faz de nós um fracassado também. Existem algumas cabeças que precisam de ajuda, com psicólogo, psiquiatra...”, afirma.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a ligação entre suicídio e distúrbios mentais — com destaque para a depressão e o alcoolismo — já foi comprovada, embora crises pontuais, como términos de relacionamentos e problemas financeiros, também possam levar a esse ato.

Taxas de suicídio tendem a ser maiores também em cenários de abuso, violência, desastres e vulnerabilidade social — como entre refugiados e migrantes, priosioneiros e pessoas LGBTQIA+.

No Brasil, um estudo publicado na revista científica The Lancet Regional Health Americas mostrou que a taxa anual de suicídios cresceu em média 3,7% ao ano de 2011 a 2022.

O número total de suicídios também cresceu continuamente de 2016 a 2022, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

A psicóloga Karen Scavacini, fundadora do Instituto Vita Alere de Prevenção e Posvenção do Suicídio, diz que, além dos dados, percebe claramente no dia a dia um aumento nas tentativas e mortes por suicídio, “especialmente no período pós-pandêmico”.

E as religiões podem ter um papel importante nesse contexto, para bem ou para mal, ela diz.

“Tem muita pesquisa mostrando como ela [a espiritualidade] é um fator de proteção, um fator forte de proteção. Acho que, quando a gente põe na balança, a espiritualidade tem um fator mais de proteção do que de risco”, afirma Scavacini, apontando que as religiões trazem benefícios como a vida comunitária e o reforço da esperança.

“Porém, e esse é o grande porém, quando ela se torna um fator de risco, também se torna um fator de risco forte", coloca a psicóloga.

Por exemplo, para pessoas que estão pensando em suicídio.

“Vai entrar as questões de pecado, de culpabilização, de falta de reza, de estar possuído... Isso vai ser um fator de risco: pode ser um gatilho, pode ocasionar uma expulsão, um isolamento dessa pessoa da comunidade religiosa", exemplifica.

“E para quem está há pouco tempo de luto [por ter perdido alguém que se matou], que está buscando respostas, uma fala de culpabilização ligada à religião tem um peso muito grande. É uma família que está tentando entender o que aconteceu, que está se culpando. E se ela pensa também que aquele que faleceu ainda está no lugar pior, isso é cruel”, conclui a psicóloga.

O sacerdote e pesquisador André Aluize diz que, justamente pela maior preocupação social com questões de saúde mental, as religiões precisam rediscutir suas tradições — como a orientação de não se fazer axexê para quem se mata, algo sobre o qual ele se mostra aberto a discutir mudanças.

“Por isso a dificuldade de os sacerdotes falarem sobre essas questões de morte, falarem sobre as questões de gênero, porque é como se de uma certa forma você virasse aos mais velhos e dissesse: eu vou fazer desta forma [diferente]. Como se você estivesse descumprindo algo”, diz o pesquisador.

“Não é de forma alguma apologia ao ato em si [suicídio], mas nós não podemos condenar, e nem cabe a nós condenar as pessoas e desconsiderar tudo que elas representaram enquanto estiveram conosco enquanto comunidade. Seria para nós algo muito triste que essa memória se perdesse, que essa contribuição se perdesse.”

 

Fonte: BBC News Brasil

 

Lula quer adidos agrícolas em todos os países do BRICS, diz secretário da Agricultura

Representantes do Ministério da Agricultura e Pecuária estão na Rússia para uma reunião do BRICS, na qual o Brasil quer consolidar as relações comerciais com os novos membros. A pedido de Lula, o Brasil enviará adidos agrícolas para todos os membros do grupo já em setembro, revelou o chefe da delegação brasileira à Sputnik Brasil.

Nesta sexta-feira (28), os ministros da Agricultura do BRICS se reúnem em Moscou, na Rússia, para debater o desenvolvimento do complexo agroindustrial e a segurança alimentar nos países do agrupamento. O Brasil estará representado por uma delegação chefiada pelo secretário adjunto de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura e Pecuária, Julio Ramos.

Durante o evento, as autoridades de países do BRICS estendido — compreendendo agora Brasil, China, Rússia, Índia, África do Sul, Emirados Árabes Unidos, Irã, Egito e Etiópia — debaterão os termos da Declaração Conjunta dos Ministros da Agricultura do BRICS de 2024.

A interação do Brasil com os novos membros é intensa, e, por orientação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, adidos agrícolas serão enviados às embaixadas brasileiras em todos os países-membros do BRICS, revelou Ramos à Sputnik Brasil.

"Em setembro, o Brasil aumentará as suas adidâncias agrícolas para contemplar todos os países-membros do BRICS […]", disse Ramos à Sputnik Brasil. "A pedido do presidente Lula, vamos também instalar uma adidância agrícola em Adis Abeba [capital da Etiópia]."

Os adidos agrícolas são representantes do Ministério da Agricultura ou de outras representações públicas do ramo, como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que trabalham nas embaixadas do Brasil ao redor do mundo para promover as exportações agrícolas brasileiras, fomentar a cooperação e atrair investimentos.

Segundo Ramos, a presença de adidos fortalecerá o empenho brasileiro em abrir novos mercados nos novos parceiros do BRICS, que são grandes consumidores de commodities agrícolas.

"Nestes 18 meses de gestão do presidente Lula e do ministro Carlos Fávaro [da Agricultura], nós já chegamos à abertura de 150 novos mercados, que é um recorde histórico", comemorou Ramos. "Já havíamos batido um recorde em 2023, com 78 novos mercados abertos. Em 2024, com praticamente sete meses de trabalho, já estamos em 72, então a expectativa é que vamos bater o nosso próprio recorde."

Entre os países do BRICS, o secretário adjunto nota a abertura do mercado de pescados brasileiros, para China, África do Sul e Egito. Apesar de a competitividade do agronegócio brasileiro ser conhecida, barreiras sanitárias e fitossanitárias normalmente impedem a livre exportação de alimentos do Brasil para o mercado internacional. Nesse sentido, o Brasil tem interesse em harmonizar padrões sanitários com suas partes no grupo, criando leis comuns que facilitem o comércio de bens agrícolas.

"Nós buscamos criar condições para que sejam feitos certificados [sanitários] únicos entre os países, e acho isso importantíssimo", disse Ramos. "Os países do BRICS não querem só olhar a questão do preço, mas também a qualidade e a segurança de tudo o que é comprado e vendido."

O Ministério da Agricultura e Pecuária trabalha para obter resultados concretos das atividades do BRICS, a exemplo dos financiamentos concedidos ao Brasil pelo Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), conhecido como banco do BRICS, atualmente presidido pela ex-presidenta brasileira Dilma Rousseff.

Em maio, o banco do BRICS aprovou um financiamento de US$ 100 milhões para a reconstrução da infraestrutura agrícola do estado do Rio Grande do Sul, em cerimônia que contou com a presença do ministro da Agricultura brasileiro, Carlos Fávaro.

"O trabalho de reconstrução do Rio Grande do Sul será holístico e passará por muitas áreas, com papel fundamental para a agricultura", acredita Ramos. "Nós levamos à presidenta Dilma o nosso programa de recuperação de pastagens, que visa recuperar 40 milhões de hectares, uma área que compreende o tamanho da França."

·        Relações com a Rússia

Durante sua estadia em Moscou, o secretário adjunto Julio Ramos também cumprirá agenda bilateral com membros do governo russo, para alavancar as trocas comerciais no setor agrícola.

"Tivemos hoje uma reunião com o vice-ministro [da Agricultura da Rússia, Sergei] Levin, que sempre tem atendido o Brasil com muito carinho", relatou Ramos. "O Brasil tem uma relação muito positiva com a administração da agricultura [russa]. O setor privado brasileiro também, a partir das associações criou uma relação muito forte de credibilidade com a Rússia."

O comércio entre Brasil e Rússia se encontra em tendência de alta, batendo recordes em volume e faturamento desde 2022. Por outro lado, o Brasil amarga déficits comerciais persistentes com a Rússia, em função do volume significativo nas importações brasileiras de fertilizantes.

"O Brasil é um grande comprador de fertilizantes da Rússia, com números expressivos", ratificou Ramos. "Não adianta só o Brasil querer vender, ele também tem que saber comprar."

Produtos tradicionais da pauta exportadora brasileira para a Rússia, como as carnes, perderam espaço no mercado local, em função de políticas de substituição de importações conduzidas por Moscou. Caso emblemático é o da carne suína: se, no passado, o Brasil exportava carne de porco para a Rússia, hoje os produtores russos não só atendem a sua demanda interna, como também exportam para outros países — inclusive competindo com o Brasil em terceiros mercados.

A reinserção do agronegócio brasileiro na economia local russa tem se mostrado um desafio. Nesse sentido, o Ministério da Agricultura e o escritório em Moscou da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) buscam identificar novos produtos para exportar para a Rússia.

"O Brasil está preparado para suprir demandas sazonais, como uma recente que a Rússia teve em relação a maçãs", disse Ramos. "Neste ano foi aberto o mercado para ovos brasileiros […], e temos 20 empresas dispostas a fornecer o produto à Rússia, assim que forem habilitadas. Então há diversificação."

Durante a reunião dos ministros da Agricultura do BRICS em Moscou, os representantes brasileiros devem acompanhar a agenda de olho na presidência brasileira do agrupamento, em 2025.

"Defendi nas reuniões aqui que exista o acesso a mercado entre todos os nossos países, que possamos dialogar mais, criar condições para negociar, para ampliar a balança comercial e criar empregos. Queremos debater no BRICS a agricultura como ferramenta de transformação social", concluiu o secretário adjunto Julio Ramos.

Ao final do encontro de ministros desta sexta-feira (28), os países do BRICS negociarão uma declaração conjunta para 2024, apontando os avanços realizados e compromissos assumidos durante a presidência russa do grupo.

¨      Tentativa de golpe na Bolívia escancara influências externas na América Latina, dizem especialistas

A recente tentativa de golpe contra o presidente da Bolívia, Luiz Arce, reacende questões profundas sobre a estabilidade na América Latina.

Analistas entrevistados pelos jornalistas Melina Saad e Marcelo Castilho, do podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, destacaram que o país tem desafios históricos no que tange manter a governança diante de tantas influências externas, que visam atingir seus objetivos na América Latina.

O professor Mário Tito Almeida, doutor em relações internacionais pela Universidade de Brasília (UnB), aponta a necessidade de uma análise que vá além do contexto imediato e que considere as disputas hegemônicas. "O nível de análise mais internacional, do ponto de vista do sistema internacional, passa necessariamente pela disputa de hegemonia no planeta."

Ele explica que a competição entre Estados Unidos e China, que também envolve os interesses do Sul Global e o BRICS, é crucial para compreender o cenário boliviano.

O analista ressalta o interesse dos EUA no lítio da Bolívia, vital para indústrias como a de carros elétricos. "Há um interesse estratégico claro na região, não apenas em termos de recursos naturais, mas também como um campo de influência política e econômica", explica.

Segundo o professor, a hegemonia norte-americana depende do controle de seus vizinhos, especialmente na América Latina. "Os Estados Unidos precisam ter essa dimensão do controle regional."

De acordo com ele, o fator essencial para entender a crise na Bolívia é o interesse pelos recursos naturais. "Pensar essa discussão da Bolívia a partir do interesse pelos recursos naturais, que passa não só pelo lítio, mas também pelo gás, recursos minerais e ambientais", enfatiza.

"A América Latina é laboratório de golpes, às vezes muito bem-sucedidos, outros que falham", afirma o professor.

Segundo Almeida, a reação estrangeira se torna mais forte quando governos de esquerda ou progressistas ameaçam os interesses das elites que tradicionalmente dominam o continente. "É uma elite que não percebe que continuar nessa perspectiva significa o atraso do próprio país", acrescenta.

Como está a situação da Bolívia hoje?

Após a mobilização ilegal do Exército Boliviano que ocupou a Praça Murillo, em La Paz, onde ficam os prédios do governo, Arce convocou a população para se mobilizar contra a tentativa de golpe de Estado.

O Exército chegou a invadir parcialmente o palácio governamental, quando o presidente se reuniu com o general Juan José Zúñiga, acusado de liderar a tentativa de golpe. Após a reunião com o presidente, os militares deixaram o prédio do governo.

Almeida considera que o presidente agiu de forma emblemática. "Tem uma foto que foi postada, tem um vídeo, onde ele se coloca de frente, claramente, ao general golpista", descreve.

Apesar de reconhecer que a resposta poderia ter sido mais enérgica, Almeida elogia a postura de Arce por evitar um banho de sangue e por aprisionar rapidamente o golpista, o que, segundo ele, envia uma mensagem clara sobre a importância de agir com firmeza na defesa da democracia.

O professor Guilherme Frizzera, coordenador de relações internacionais da Uninter, afirma que a Bolívia é historicamente o país mais instável em termos de presidência na América do Sul. "A história política da Bolívia é marcada por golpes, contragolpes, momentos até que o país ficou sem um presidente de tantos golpes sucessivos."

Portanto, segundo ele, a recente tentativa contra Arce não é um evento isolado, mas parte de um padrão recorrente no país. "Foi mais um caso onde a conjuntura partidária, econômica e principalmente de agentes militares contribuíram para mais um período de instabilidade."

Segundo ele, ainda assim, "a Bolívia demonstrou como se deve tratar quem almeja romper com a democracia, prender o agente causador de toda a instabilidade".

Ele também cita a Argentina como exemplo de um país que conseguiu limitar o papel das Forças Armadas após a ditadura militar, através de julgamentos de direitos humanos, em contraste com o Brasil, segundo ele, onde a anistia foi a resposta aos crimes cometidos durante o regime.

Frizzera enfatiza que a recente estatização da exploração de lítio pelo governo boliviano pode ter sido um fator na tentativa de golpe.

"Evidentemente, e há muito tempo, nós já temos por parte da inteligência militar, das Forças Armadas da América do Sul, uma noção muito clara de que se ocorresse alguma guerra, ela se daria por conta de recursos naturais."

Segundo ele, uma instabilidade política pode favorecer aqueles que desejam explorar essas reservas. Ele cita declarações passadas de figuras como Elon Musk sobre intervenções na Bolívia e a importância estratégica do lítio para grandes potências.

·        Reações internacionais

Quanto ao papel da comunidade internacional, Almeida ressalta a importância das manifestações de apoio à democracia. "É essencial que líderes regionais e globais se posicionem contra tentativas golpistas. O silêncio de certos atores internacionais pode ser interpretado como um apoio velado a tais movimentos", alerta, mencionando especificamente o impacto das ações dos Estados Unidos na região.

Frizzera destaca a importância da reação rápida da comunidade internacional, que condenou amplamente a tentativa. "Não é mais aceitável que se tome poder à força, seja por conta de princípios e valores democráticos, como também por normas e regras das instituições às quais a Bolívia participa."

O governo brasileiro e diversos países ao redor do planeta se manifestaram contrariamente à tentativa de golpe, o que inclui nações latino-americanas e a Rússia.

Internamente, segundo Almeida, é importante considerar que há ainda divisões nas Forças Armadas da Bolívia. Dessa forma, "a mudança de comando não garante a estabilidade interna".

"Há facções que buscam ultrapassar a regra do jogo democrático, o que representa um desafio significativo para o presidente."

¨      Moscou 'ajuda concretamente' a África a lutar contra o neocolonialismo, diz analista

O presidente congolês teve razão ao sublinhar que certos países ocidentais permaneceram na lógica colonial em relação à África. Nesse quesito, os Estados africanos podem contar com a Rússia na luta contra o neocolonialismo, explica Modeste Dossou à Sputnik.

"A Rússia está ajudando de forma concreta, espontânea e direta" os países africanos a lutar contra as tentativas dos países ocidentais de recolonizá-los, declarou nesta quinta-feira (27) Modeste Dossou, jornalista e analista beninês, reafirmando que o presidente congolês, Denis Sassou Nguesso, teve razão ao agradecer a Moscou por seus esforços na área.

"Na África, sentimos certa forma de 'recolonização' por parte de países que já perderam o seu território [no continente]. A Rússia está ajudando, sem liminares ou exigências, os países africanos a se emanciparem e a não dependerem mais da ajuda desses países que os colonizaram e que tentam recolonizá-los", explica o analista.

Moscou fornece ajuda concreta a países africanos, como o Mali e Burkina Faso, permitindo-lhes combater o terrorismo sem precisar que esses países esperem pelo apoio ocidental, especifica.

"Sem a Rússia, certos países como o Mali ou Burkina Faso não teriam hoje essa força de ataque, o que lhes permite deixar de depender da ajuda de um país ocidental. As sanções ocidentais teriam afundado esses países, que não poderiam ter se defendido contra o terrorismo e, ao mesmo tempo, ter garantido que o povo pudesse ter paz diária", afirma o analista.

Durante uma visita de Estado a Moscou, o presidente congolês Denis Sassou Nguesso declarou que o povo africano "ainda luta por sua libertação efetiva", agradecendo à Rússia por seu papel nesta batalha anticolonial.

 

Fonte: Sputnik Brasil

 

Para entender o ascenso de parlamentares antifeministas

Camila Galetti, doutora em sociologia pela Universidade de Brasília (UNB) e pesquisadora de antifeminismo e extrema direita, iniciou nas eleições de 2018 a análise do crescente discurso antifeminista entre parlamentares mulheres de direita e centro-direita. Naquele ano, a  significativa mudança na Câmara dos Deputados, que passou de uma representatividade feminina de 10% para 15%, impulsionada principalmente pela eleição de parlamentares de partidos de direita e extrema direita, chamou sua atenção e foi um dos pontos de partida de sua pesquisa.

Galetti investigou os afetos e motivações que permeiam a aversão à agenda feminista entre as parlamentares desse campo, considerando diversos recortes sociais, como classe, raça, grau de instrução e relação com a política. Seu objetivo era compreender como essas mulheres se apoiam em discursos que, paradoxalmente, prejudicam seus próprios direitos. No último pleito, o número de parlamentares mulheres também aumentou. Atualmente, a Câmara é composta por 90 deputadas e 423 deputados federais. O PL tem a maior bancada com 99 cadeiras, seguido da bancada PT-PV-PC do B com 81, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

<>< Confira a entrevista.

·        Como podemos definir o antifeminismo e quais as relações e interfaces que ele tem com a afirmação do machismo?

Ele é uma reação aos movimentos feministas. Ele tem como finalidade diluir, amenizar todas as pautas que perpassam as questões das mulheres, sobretudo por se compreender, a partir dessa perspectiva, que os feminismos são uma ameaça à categoria mulher, aos discursos essencialistas, a um projeto político de Estado, de cultura, que estão baseados nos papeis sociais de gênero. Sua finalidade é diluir a pauta das mulheres e fazer um contramovimento, fazer essa disputa de narrativas.

·        Ele pode ser considerado um movimento?

Eu não o considero um movimento social porque ele se apresenta como um contramovimento e ainda não tem características que o tornem um movimento social. Apesar de ter uma agenda em comum com movimentos masculinistas, que é a destruição das pautas e da visibilidade dos movimentos feministas, ele não está organizado a esse ponto. Os redpill, incels, por exemplo, têm organização, têm ação, enquanto o antifeminismo, no momento, é uma resposta. Ele é embrionário, tem suas figuras centrais, porém não é organizado ao ponto de ser considerado um movimento social. Ele está muito atrelado à ideologia da extrema direita, então ele é uma ramificação dessa extrema direita e vai se manifestar nesse espectro ideológico. É um dos fios condutores.

·        Você comentou sobre ele estar atrelado a essa questão da ideologia, ele é exclusivo da extrema direita? 

Ele é exclusivo de governos autoritários. A historiadora Charu Gupta fala que a primeira experiência de antifeminismo no mundo foi a do nazismo. Esses discursos essencialistas, as ideias do que é uma mulher, do que é um homem e quais as funções sociais que eles vão desempenhar. Então, percebemos que ele está atrelado ao autoritarismo e esse autoritarismo se manifesta na extrema direita.

·        Então, ele surge nesse período marcado por governos autoritários? 

Sim. Na experiência da Alemanha nazista, na experiência do fascismo na Itália. E aí tem algo que é fundamental quando falamos nesse assunto. Eu demorei bastante tempo para chegar até isso porque me perguntava “Como uma mulher tem esse discurso tão atrelado a um pensamento patriarcal?”.

Analisando as deputadas federais de extrema direita, percebi que elas são recompensadas por estarem naquela posição e falarem o que elas falam. Primeiro, porque majoritariamente são mulheres brancas, então há uma questão racial muito forte. Essas mulheres se atrelam a esses discursos porque, de fato, acreditam num discurso homogêneo, de limpeza mesmo. Elas acreditam numa categoria única de ser mulher e sabemos que não existe só um jeito de ser mulher porque há recortes de raça, etnia, de classe social.

O antifeminismo captura questões que são caras ao movimento feminista quando diz que as mulheres são guerreiras, que elas não precisaram do movimento feminista para terem direito ao voto, que não precisam deles para estarem na política institucional. Essa é a maior narrativa delas. E muitas vezes tiramos a agência e a autonomia dessas mulheres por acharmos que elas são cortinas de ferro. Mas elas possuem autonomia e são recompensadas por serem como elas são.

·        Pode comentar mais sobre essa relação entre o discurso antifeminista e o discurso fascista?  

O fascismo, seja ele Itália ou em outro lugar, promoveu a ideia de que as mulheres são desprovidas de racionalidade, são seres apenas emocionais e, portanto, incapazes de liderarem ou planejarem assassinatos em massa, por exemplo. Então, elas precisam ser mantidas nesse lugar de inferioridade porque são incapazes. Trata-se de um discurso essencialista. [Benito] Mussolini, por exemplo, tinha uma frente chamada “Deus, Pátria e Família” formada por mulheres católicas com quem ele negociou o direito ao voto em troca de apoio, contudo ele só as deixava votar com a permissão dos homens. Ou seja, ele entendeu que as mulheres eram importantes para o seu projeto político, mas existia uma hierarquia. Então, o fascismo vai se estabelecendo a partir dessa lógica patriarcal. Por isso é possível, sim, fazer essa associação, e, sobretudo, entendendo que o fascismo foi estruturado a partir das desigualdades e hierarquias sociais de gênero. Por ter se estabelecido assim, as mulheres têm um papel secundário na sociedade

As mulheres só têm visibilidade, como já mencionei, se elas estiverem reproduzindo o discurso patriarcal. O que é contraditório porque elas falam de família, de cuidado, mas elas estão lá no Planalto, na Câmara dos Deputados, 12 horas por dia, e não estão exercendo o cuidado, fugindo do papel destinado pela lógica que elas mesmas acreditam. Por isso que elas também resgatam o discurso de “Vou cuidar da nação”, “Vou cuidar do Brasil”, “Quem ama cuida”, “Eu tenho família, tenho filhos”.

Levam essa questão do cuidado para esse espaço sem realmente estarem preocupadas com ela, como a gente bem sabe.

·        Voltando ao que leva uma mulher a adotar o discurso antifeminista, seria a questão da recompensa?

Também. Mas há o sentimento de amparo que o patriarcado produz. Eu também pesquiso o fenômeno pela chave dos afetos e a nossa sociedade, da maneira como está estruturada, gera medo e insegurança para as mulheres. Seja na rua ou no ambiente de trabalho, existe o medo de sofrer assédio, a questão de decidir sobre o seu próprio corpo, etc. Então, se eu tiver um companheiro homem, um provedor do lar, eu vou me sentir segura. Se eu estou na política institucional, sou antifeminista, mas tenho um companheiro, eu tenho coisas que contribuem para que eu me sinta segura e validada na sociedade.

 

¨      CAROLLINE SARDÁ COMBATE ANTIFEMINISMO E DESINFORMAÇÃO

Ao observar jovens e adolescentes disseminando ideias antifeministas nas redes sociais, a publicitária e criadora de conteúdo digital Carolline Sardá decidiu investigar as fontes por trás desse discurso, que tem ganhado cada vez mais visibilidade na internet.  Desde então, ela se dedica a desmentir argumentos que visam bloquear a equidade de gênero e compartilha histórias e informações sobre o feminismo com o objetivo de fazer frente às desinformações espalhadas sobre o movimento.  Segundo Sardá, o antifeminismo é uma agenda engajada em restaurar padrões pré-estabelecidos do patriarcado e tem construído narrativas de ódio às mulheres e de ataque aos direitos conquistados por elas. Portanto, merece atenção e combate.  Algo que ela pretende fazer, inclusive, na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) caso ocupe a cadeira do deputado estadual Marcos José de Abreu, o Marquito (Psol), pré-candidato à prefeitura de Florianópolis, do qual é primeira suplente.  Questionada sobre o tipo de postura que pretende adotar caso assuma, Sardá se propõe a ser uma voz contrária ao antifeminismo e à extrema direita, defendendo uma abordagem mais ativa e crítica em relação às decisões e posicionamentos dos políticos que ocupam aquele espaço. Ao Catarinas, ela afirma que é necessário fazer os fascistas recuarem e voltarem a temer.

<><> Confira a entrevista. 

·        Como você começou a produzir conteúdo voltado a rebater argumentos antifeministas?

Eu comecei a observar meninas no TikTok e no Instagram falando sobre antifeminismo e querendo ensinar outras pessoas sobre o assunto. Então, decidi ir atrás das fontes dessas meninas e foi aí que eu descobri várias antifeministas e passei a consumir o conteúdo dessa bolha para ver o que elas estavam falando sobre o movimento do qual faço parte. Em 2020, com a Covid, o governo Bolsonaro e todos aqueles negacionismos, o feminismo também virou uma pauta muito forte de debate e vários jovens estavam no TikTok falando sobre negacionismo da vacina, feminismo, comunismo, marxismo cultural, doutrinação nas escolas, etc. Nós da militância começamos a observar esse fenômeno e tentar descobrir quais eram as fontes desses jovens para começar a desmenti-las.  Inclusive, há um argumento muito específico envolvendo César Zama, que segundo as antifeministas seria responsável por conceder o direito ao voto às mulheres.  Hoje em dia, elas mesmas não conseguem mais repetir isso de tanto que eu já bati nessa tecla na internet. Por eu ter uma audiência grande, as minhas seguidoras propagam o que eu explico. Então, quando explico “pessoal, o feminismo não é contra a maternidade” e apresento vários projetos de leis de deputadas feministas, essas jovens conseguem desmentir as antifeministas, tornando insustentável o argumento delas. O acesso à informação para desmentir o antifeminismo tem sido essencial para quebrar a narrativa delas. 

·        Como se dá essa propagação de desinformação na internet? 

O que as antifeministas fazem, hoje, na internet é o que Olavo de Carvalho chamava de guerra cultural. Elas estão criando uma guerra de narrativas. Então, além de propagarem muita desinformação online, publicarem vários livros, também estão investindo em cursos, e-books, aulas gratuitas no YouTube, oficinas e congressos de antifeminismo. Isso está crescendo cada vez mais. E em 2020, eu, junto com outras pessoas, comecei a debater com essa galera. Às vezes eu entrava em lives só para conversar com as meninas e perguntar: Por que você virou antifeminista? Você tem 16 anos, como você virou antifeminista? E a resposta geralmente era “Eu estudei sobre feminismo. Eu li todas as autoras”. Mas não era isso. Elas tinham lido o livro “Perversão e Subversão” da Ana Caroline Campagnolo (deputada estadual do PL) que resume tudo que você pode imaginar de absurdo que não existe no movimento feminista. 

Eu vejo as mentiras das antifeministas e levo a informação correta para a internet, pensando principalmente no público jovem, porque além dos debates que eles fazem no TikTok eles também discutem esses temas nas escolas. Então, ou essa galera vai chegar em mim para aprender ou vai chegar em alguma antifeminista. Daí a importância de levar a informação para a internet da maneira mais rápida e didática possível. É nesse caminho que surge a minha pesquisa e a minha divulgação de conteúdo. 

·        No Catarinas, assim como nos espaços feministas, temos uma questão que nos desafia: denunciar o antifeminismo, assim como o fascismo, sem dar palco às pessoas que compartilham desses ideários. Afinal, temos alguns exemplos, em SC mesmo, do quanto antifeministas se utilizaram dessas instâncias para se promoverem. Como fazer isso?

Foi exatamente por conta disso que a Karen nasceu (personagem criada e interpretada por Sardá nas redes sociais). Antes eu fazia reacts de vídeos de antifeministas e percebi que isso poderia estar apresentando essas pessoas para quem nem as conhecia. Então, conclui que não precisava combater a pessoa, mas o argumento, a narrativa, a desinformação. Ao invés de eu reagir a um vídeo específico, eu coloco uma peruca loira e escrevo um roteiro para desmentir os argumentos antifeministas. Os conteúdos de humor funcionam muito bem para contestar esse tipo de conteúdo. Me inspiro muito na Mari Kruger e na Lara Santana que fazem personagens baseados nesses arquétipos de homem tóxico e mulher negacionista.  Não faço mais react diretamente dos conteúdos delas. Não tenho nada contra quem faz. Só acho que hoje em dia, principalmente em ano de eleição, as pessoas estão esperando por isso. É uma estratégia fazer conteúdo chocante e que deixe as pessoas indignadas para que quem fez esse conteúdo consiga se eleger nas municipais deste ano. A Karen está sendo a minha ferramenta para desmentir as antifeministas sem dar visibilidade para elas. 

·        Qual a relação entre antifeminismo e fascismo? 

Essa visão de que as mulheres deveriam ficar em casa, cuidando dos filhos e gerando a prole já era uma visão da Alemanha nazista. Sob (Benito) Mussolini, na Itália fascista, também era propagado o formato da família tradicional, a hegemonia, a supremacia (masculina). O antifeminismo diz, claramente, que as evoluções que nós temos na legislação, no progressismo, são uma degradação moral, termo que era utilizado por Joseph Goebbels na propaganda nazista na Alemanha. Nós vemos antifeministas falando coisas que se assemelham perfeitamente ao fascismo, dando check na definição de fascismo. Elas são completamente anticomunistas, ultraconservadoras e tradicionalistas.  Elas têm um pensamento muito semelhante ao modelo de mulher da Alemanha nazista, que pode ser traduzido como “cozinhar, lavar e cuidar”. O modelo da mulher nazista é exatamente o modelo que as antifeministas querem. A mulher dona de casa, que não está no ambiente público, apenas no ambiente privado, que cuide dos filhos e que apenas gere. Cuide do marido, não seja ambiciosa, nem subversiva. 

Aqui no Brasil, na ditadura de 1964, nós recém tínhamos conquistado o direito ao voto em 1932. A luta pela redemocratização e todos os direitos das mulheres caíram por terra com o início da ditadura.As mulheres não podiam sequer se juntar para fazer reuniões, convenções, coletivos, porque existia novamente um novo modelo de mulher: submissa e da família tradicional. Podemos observar isso onde o fascismo cresce. Com a ascensão do bolsonarismo, por exemplo, vimos a ascensão do antifeminismo. Os pensamentos fascistas de Bolsonaro se entrelaçam perfeitamente com os pensamentos conservadores e misóginos das antifeministas que criam, de certa maneira, um ódio às mulheres subversivas, às mulheres que não querem seguir a norma padrão. E o fascismo tem essa característica de dominação do corpo da mulher. 

Quem em sã consciência faria uma CPI em cima de uma criança de 11 anos que sofreu uma violência? Apenas uma pessoa fascista. Por que essa mulher faria isso? Porque ela tem um modelo de vida, um modelo de família, no qual uma criança ter o direito de abortar é degradação da sociedade. O Estado tem que estar em cima dessa menina. O Estado tem que manipular o útero dessa menina. Entende? Para ela, essa menina faz parte do Estado, ela é uma incubadora do Estado. Quer pensamento mais fascista do que esse? Sabendo que na Alemanha nazista mulheres eram utilizadas para gerar mais e mais crianças. É um pensamento muito fascista. Não tem outra palavra. 

·        Você é a primeira suplente do deputado estadual Marcos José de Abreu, o Marquito (Psol), que é pré-candidato à prefeitura de Florianópolis. Portanto, você assume a cadeira na Assembleia Legislativa do Estado (Alesc) quando a campanha começar. Como será sua estratégia de enfrentamento ao fascismo e ao antifeminismo? Você vai assumir frontalmente o lugar de antagonista?

Sim, eu tenho muito interesse em assumir sendo essa pessoa bem posicionada em relação ao antifeminismo e à extrema direita em Santa Catarina. Tenho planos, inclusive, de conscientização sobre o feminismo, palestras, políticas públicas que envolvem o ensino sobre a história da mulher e direitos femininos no estado, porque há muitos casos de feminicídio, violência doméstica, abuso sexual e impunidade de agressores.  Se eu estivesse dentro da Alesc, eu seria a antagonista do antifeminismo e da extrema direita, principalmente do fascismo.

Um dos meus pilares durante a campanha, um dos lemas que eu tinha, é que não temos que ter medo do fascismo. Temos que fazer os fascistas voltarem a ter medo. Precisamos ser mais combatentes, menos submissos dentro da Alesc, principalmente quando eles têm posicionamentos extremistas no plenário, posicionamentos violentos em relação a minorias (maiorias minorizadas) e, às vezes, não tem ninguém ali para realmente bater de frente com essas pessoas.

Assumindo o meu mandato, eu seria essa pessoa posicionada, questionadora, provavelmente muito subversiva. Nós temos militantes de esquerda dentro da Alesc, mas sinto que ainda falta uma certa subversão às instituições. Ainda existe um pensamento muito pacífico em relação aos extremistas que estão lá dentro e que se sentem no poder, livres para falar as coisas mais absurdas.  É o caso da CPI do aborto que hoje é uma arma das antifeministas, mas nós não vimos o que se resolveu disso. Nós vimos a Ana Campagnolo vir na internet dizer que existia uma máfia abortista em Santa Catarina. Provas ela não trouxe. Relatórios ela não trouxe. E ninguém cobrou isso. Onde estão as pessoas posicionadas dentro da Alesc questionando sobre as conclusões da tal CPI do aborto que fez com que essa deputada fosse reeleita com recorde de votos? É isso que falta dentro da Alesc: gente questionadora, subversiva. Gente que olha as instituições e questiona. Vejo que as pessoas ali dentro simplesmente aceitam, estão submissas às instituições.

De que maneira as instituições podem contribuir para barrar ações antifeministas no parlamento e também em outros espaços institucionais, como o Congresso Antifeminista realizado na Alesc? 

No ano passado já tinha acontecido algo parecido no 8 de março.  Vejo que as instituições poderiam se antecipar, já sabendo que, no dia 8 de março, uma antifeminista ocupará a Alesc, deveriam promover uma ocupação feminista na Assembleia. Convocar coletivos feministas para participar. Ter Maria da Penha e Joanna Maranhão falando sobre as leis que levam seus nomes, por exemplo. Se espera muito que as antifeministas tomem uma atitude para que a gente tome uma atitude depois. Pode ter certeza de que ano que vem, no 8 de março, terá um segundo congresso antifeminista no auditório Antonieta de Barros, pois elas fazem questão de colocar nesse auditório para bater de frente com as feministas.

Então, o que a Alesc está fazendo para que em 2025 isso não aconteça? Já está montando uma estrutura para levar feministas para lá? Quando levamos coletivos feministas para dentro da casa do povo, também levamos políticas públicas, pois são essas mulheres que estão atuando na base, no front, e entendem o que precisa ser feito pelas catarinenses vítimas de violência de gênero, por exemplo.  Se eu assumisse enquanto deputada, eu levaria coletivos, movimentos, para a Assembleia e o que saísse desses encontros, de manifestos construídos coletivamente, seria transformado em políticas públicas. Até costumamos falar que o debate vem pingando de cima para baixo. Não é um diálogo feito da base para cima. Vem de quem acha que entende do assunto e não de quem realmente está na ponta. Durante a minha campanha eleitoral eu falei que uma das minhas metas era levar para dentro da Alesc o poder popular. Enquanto isso, as instituições não chamam a gente. Não nos dão espaço. Não convidam as feministas para ocupar a casa do povo. Santa Catarina está deixando lacunas para o antifeminismo crescer e não podemos deixar isso acontecer. Temos que ocupar todas as lacunas. Onde o antifeminismo está, o feminismo também tem que estar. 

E quais são os argumentos do discurso antifeminista? 

Eu tenho uma lista aqui. Vou citar alguns: O feminismo quer destruir a família; o feminismo é contra a dona de casa; o feminismo nunca conquistou nenhum direito para as mulheres; você não é uma verdadeira feminista se você não segue exatamente o que as teóricas escrevem em seus livros, principalmente teóricas dos anos 1950, 1960 e 1970, europeias e norte-americanas. Além disso, dizem que as feministas querem a superioridade da família; não existe feminista cristã; mulheres negras não podem ser feministas; os casos de violência doméstica são falsos; as feministas lutam por direitos iguais, mas não por deveres iguais, entre outros. 

Também existem alguns tópicos específicos relacionados ao direito ao voto. Por exemplo, “Getúlio Vargas concedeu direito ao voto de presente para as mulheres. Ele nunca conheceu as sufragistas”, mesmo tendo foto de Getúlio com as sufragistas. “Não existiram sufragistas negras”, mesmo Almerinda Farias Gama tendo sido uma das mais importantes do sufrágio no Brasil.  Além do tópico sobre a descriminalização do aborto, algo que o Catarinas sabe muito bem por conta, também, do que aconteceu na CPI do aborto. Elas acreditam que aborto não é uma questão de saúde pública, que as feministas são contra as pessoas terem filhos. Elas também são contra os tipos já legalizados de aborto e elas têm projetos dentro do Congresso Federal que tem o objetivo de revogar os direitos já conquistados em relação ao procedimento. Também acreditam que a educação sexual é o que sexualiza crianças e estimula a sexualidade das pessoas. 

·        Algo relacionado ao debate de gênero, à pauta trans, também aparece nesses supostos argumentos? 

Sim. Elas têm uma teoria que, ironicamente, se alinha muito com o que as feministas radicais, as TERF (abreviação para feminista radical trans-excludente), acreditam. Para elas, as pessoas trans são cavaleiras do patriarcado porque elas criariam estereótipos de gênero e performariam a feminilidade e a masculinidade que deveria ser do sexo feminino e sexo masculino, falando aqui do jeito que elas colocam.  Então, as antifeministas alegam que Judith Butler quer a subversão das identidades, ou seja, quer abolir a essência de homens e mulheres e que isso vai afetar as crianças e que isso é perigoso. Elas acreditam que isso vai ser uma mudança primeiro nas escolas, na linguagem, no esporte, nas prisões, por exemplo. É nesse tipo de pensamento que políticos como Nikolas Ferreira e outros tantos no Congresso Federal se baseiam porque eles leem a Campagnolo, eles consomem esse conteúdo. 

·        O que leva uma mulher a adotar esse tipo de discurso?

Vou citar o livro Amar para Sobreviver (Dee L. R. Graham) porque realmente acho que é uma síndrome de Estocolmo social uma mulher ser antifeminista. É quase se aliar com o seu abusador para não ser abusado. É estar do lado de quem bate para não apanhar. Essas mulheres acham que sendo ultraconservadoras vão ter espaço nas zonas de poder, nos espaços em que geralmente somos violentadas. Elas acham que, por serem antifeministas, os homens não vão machucá-las. Algumas defendem que não existe violência doméstica porque realmente acham que se elas falarem que a violência doméstica não existe elas não vão sofrer violência dos homens.  Mas elas também têm suas diferenças de perfis. Por exemplo, as que estão na política adotam esse discurso pela manutenção do poder. Elas não querem que o feminismo cresça, porque não querem que mais mulheres ocupem os espaços que elas ocupam. Existem as religiosas fundamentalistas que acreditam fielmente que o feminismo é o mal do século. É algo que vai destruir a família tradicional, a feminilidade, que é contra Deus. Para elas o feminismo é a personificação do diabo. Para elas não tem como existir feminista cristã. 

Tem também a empresária neoliberal. São antifeministas por conta do capital. Para elas, o feminismo vai afetar o acúmulo de capital que elas têm em razão dos direitos trabalhistas, licença maternidade, auxílio creche e vários outros direitos que são reivindicados por feministas.  Além de tudo isso, existe muita campanha antifeminista desde a época do sufragismo. As mulheres eram tratadas como se fossem bebês chorões por lutarem pelo direito ao voto. Eram vistas como fracassadas, frustradas, revoltadas, que não teriam marido e muitas mulheres não querem ser isso. Muitas têm medo de serem vistas assim. Não gostam de ser chamadas de feministas porque o termo, para muitas pessoas, é pejorativo. 

Esses tempos eu recebi uma mensagem de uma menina de 13 anos me dizendo que ela foi xingada na escola de feminista porque ajudou uma colega que estava sendo assediada. Eu falei “ser chamada de feminista não é xingamento”. E ela me respondeu que na escola dela é. São meninas de 12, 13 anos que escutam que ser feminista é algo ruim. É uma imagem que se cria em cima desse estereótipo pejorativo da feminista.

 

Fonte: Por Camila Galetti em entrevista Kelly Ribeiro, no Portal Catarinas