sábado, 30 de setembro de 2023

Garimpo ilegal perde R$ 1 bilhão em máquinas com operações na Amazônia, diz Ibama

Cerca de R$ 1,1 bilhão em bens e maquinários foram apreendidos ou destruídos nas sete maiores operações contra o garimpo ilegal deflagradas em 2023, segundo cálculos do Ibama obtidos com exclusividade pela Repórter Brasil.

Desse total, mais de R$ 1 bilhão corresponde a equipamentos apreendidos, enquanto R$ 82 milhões se referem a peças efetivamente destruídas. A lista é vasta e inclui tratores, escavadeiras, balsas, dragas, aviões e helicópteros, além de motores, barcos, motos, caminhonetes e material de acampamento.

Segundo o diretor de Proteção Ambiental do Ibama, Jair Schmitt, o valor e a quantidade dos aparelhos encontrados contradizem a ideia de que o garimpo seria uma técnica artesanal de exploração mineral.

“Há frotas de equipamentos de transporte aéreo ou fluvial, motores hidráulicos, geradores de energia e toda uma infraestrutura associada que forma o contexto de planta industrial ou produtiva de valor considerável”, explica Schmitt.

 “Quem botou esse R$ 1 bilhão lá?”, provoca o coordenador de pesquisas em mineração do MapBiomas, Pedro Walfir. Segundo ele, o investimento não é feito pelos garimpeiros em campo, mas sim por empresários que aportam recursos nessas estruturas.

“Quem tem milhões para investir em uma atividade como essa, que é rentável mesmo sendo descoberta, destruída e queimada, e que no ano seguinte está de volta funcionando?”, acrescenta.

A destruição de equipamentos utilizados em crimes ambientais é uma prerrogativa legal do Ibama. Os agentes do órgão podem recorrer a essa alternativa quando a remoção do maquinário não é possível ou quando o transporte pode gerar riscos aos fiscais ou à população.

Contudo, essa medida foi desestimulada durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), principalmente pelo ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles – cuja gestão ficou marcada por tentativas de afrouxar regras ambientais para “passar a boiada”, conforme ele mesmo afirmou em reunião ministerial em 2020.

A destruição de equipamentos também vem sendo questionada por leis estaduais, como em Roraima e Rondônia. Porém, os textos têm sido anulados quando analisados pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

·         Helicóptero de R$ 10 milhões

As sete principais operações antigarimpo deste ano – Cayaripellos, Xapiri, Harpia, Ferro e Fogo III, Joker III, Acupary e Inopinus Flora – atuaram no rio Madeira, na bacia do rio Tapajós e nas Terras Indígenas (TIs) Vale do Javari e Yanomami. Esta última, palco de um dos piores desastres sanitários e socioambientais da história recente do país.

Juntas, essas fiscalizações apreenderam ou destruíram 262 balsas e dragas, que revolvem o leito dos rios para filtrá-lo na busca por minério. Cada máquina custa, em média, R$ 2,8 milhões, segundo o relatório “Abrindo o livro caixa do garimpo”, lançado em junho pelo Instituto Escolhas. Nos últimos anos, a organização vem realizando diversos estudos sobre a cadeia de produção mineral.

Também foram apreendidos ou destruídos 29 aviões e 2 helicópteros. Ao menos 20 aeronaves eram do modelo Cessna 182 Skylane, cujo preço médio gira em torno de R$ 1 milhão. Já entre os helicópteros havia um Sikorsky S-76, modelo utilizado por Donald Trump e vendido em média por R$ 10 milhões.

A lista de bens apreendidos ou destruídos pelo Ibama inclui ainda 105 retroescavadeiras ou tratores de esteira, um equipamento central na expansão do garimpo em terra firme na última década. Essa máquina pode custar mais de R$ 1 milhão quando nova, segundo Suely Araújo, especialista em políticas públicas do Observatório do Clima e ex-presidenta do Ibama.

“O alto investimento não é da população local, que trabalha nos garimpos, mas vive em uma região muito pobre, com o mais baixo IDH do país e dependente de apoio governamental”, reforça Araújo.

Nas operações, também chamou atenção dos fiscais a quantidade de aparelhos de comunicação via satélite apreendida – especificamente o Starlink, fabricado por empresa do bilionário Elon Musk e usado em larga escala na Amazônia.

“Apreendemos mais de 30 antenas que fazem com que os garimpeiros tenham uma comunicação melhor do que os fiscais em campo”, diz Schmitt.

·         Triplica destruição de equipamentos

O levantamento do Ibama indica uma retomada das fiscalizações ambientais na Amazônia neste ano e um aumento do número de equipamentos destruídos, após recuo ao longo do governo Bolsonaro.

Considerando todas as operações do órgão federal – incluindo as realizadas contra garimpo ilegal, pesca ilegal, exploração ilegal de madeira, entre outras –, o órgão assinou 422 termos de destruição de janeiro a agosto deste ano. Isso é quase o triplo do ocorrido nos quatro anos anteriores, quando a média foi de 148 nos oito primeiros meses do ano. Cada termo pode incluir uma ou mais máquinas afetadas.

Schmitt, do Ibama, defende a legitimidade do órgão em destruir os equipamentos e diz que é uma forma de descapitalizar os suspeitos rapidamente. “Quando um infrator é confrontado com a perda imediata de seus bens, isso tem um efeito muito mais poderoso no seu comportamento do que a ameaça de uma multa futura”, compara.

Com relação às apreensões, foram lavrados 1.660 termos de janeiro a agosto deste ano. Durante o governo Bolsonaro, a média foi de 894 nos oito primeiros meses de cada ano.

·         Do artesanal ao industrial

Historicamente, a prática de garimpo é vista no país como uma atividade individual e de pequena escala. Por essa razão, houve um afrouxamento da legislação para facilitar a extração de minério por meio desse sistema, segundo o recente estudo do Instituto Escolhas.

Uma das medidas mais criticadas foi a implementação da “presunção de boa fé”, aprovada por lei em 2013. Derrubada pelo STF em abril deste ano, a medida era vista como um estímulo ao mercado ilegal. Agora, quem compra ouro ilegal não poderá alegar desconhecimento sobre a origem do minério e passará a ser responsabilizado judicialmente, mesmo alegando “boa fé” na transação.

“Toda essa construção de garantias legais e facilidades permitiu que as atividades garimpeiras se estruturassem e capitalizassem”, diz o relatório do Escolhas.

O documento estima investimentos vultosos para explorar uma lavra. Para iniciar as operações de uma balsa de garimpo, por exemplo, o desembolso médio em máquinas, equipamentos e infraestrutura é de R$ 3,3 milhões.

As balsas nos rios da Amazônia podem gerar uma receita mensal estimada de R$ 1,1 milhão, segundo o estudo, com lucro de R$ 632 mil por mês. Ou seja, em seis meses, é possível recuperar o investimento inicial – considerando balsas grandes, com 18 garimpeiros e produção média de 3,75 kg de ouro por mês.

Já para a abertura de um garimpo de ouro em terra firme – o mais comum na bacia do Tapajós –, o investimento é de R$ 1,3 milhão, com uma estimativa de receita mensal de R$ 930 mil. Com escavadeira própria, o lucro por mês chega a R$ 343 mil por equipamento, considerando uma operação com 18 garimpeiros e produção mensal de 3 kg de ouro.

Graças às escavadeiras, popularizadas na última década, áreas antes garimpadas em um mês passaram a ser abertas em apenas uma semana, segundo o relatório do Escolhas.

A partir daí, a expansão dos garimpos foi rápida. Entre 2012 e 2022, a área total dos garimpos mais que dobrou, passando de 107 mil hectares para 263 mil ha, segundo estudo publicado este mês pelo MapBiomas. Desde 2020, a área de garimpos é maior que a da mineração industrial no país. Esta última é executada por grandes empresas e tem uma legislação mais rígida.

O avanço dos garimpos foi mais intenso sobre territórios indígenas e unidades de conservação. De 2018 a 2022, a área de garimpo ilegal nas TIs cresceu 265%, enquanto a área garimpada em áreas protegidas foi 190% maior.

A expansão do garimpo ilegal e o enfraquecimento da fiscalização nos últimos anos coincidiu com a maior presença do narcotráfico na Amazônia, afirma Roberto Magno, pesquisador do Laboratório de Geografia, Violência e Crime da Universidade Estadual do Pará (UEPA). Ao compartilhar aeronaves, pilotos e pistas de pouso, o tráfico de drogas e a exploração ilegal de ouro deram impulso aos chamados “narcogarimpos”, tema de investigação da Repórter Brasil.

“Nos últimos quatro anos houve um descontrole total dos órgãos de fiscalização na região”, avalia o pesquisador. “Nessa história de passar a boiada pela Amazônia, não passou só boiada, mas passou o PCC (Primeiro Comando da Capital, facção criminosa paulista), passou cocaína, passou skunk colombiano”, completa.

Apesar da retomada das ações contra o garimpo ilegal, a reestruturação do Estado na Amazônia será um processo lento, avalia o pesquisador Magno, da UEPA, pois os recursos de fiscalização são limitados frente a uma indústria bilionária.

 

Ø  Cortes da fiscalização ambiental estimularam explosão de narcogarimpos na Amazônia

 

Nas mãos do perito da Polícia Federal, uma barra de ouro de 1 quilo tem o tamanho de um telefone celular. “São mais de R$ 300 mil que cabem no bolso”, ilustra o especialista do Instituto de Criminalística da PF, em Brasília, que prefere não ser identificado.

A facilidade para vender ouro em qualquer parte do mundo, somada ao frágil controle desse mercado no Brasil, explica por que o minério é cada vez mais visado por organizações criminosas para a lavagem de dinheiro, principalmente do tráfico de drogas.

Na Amazônia, os cartéis aproveitaram as vistas grossas do governo de Jair Bolsonaro (PL) para o garimpo ilegal e investiram nos chamados “narcogarimpos” – modelo em que traficantes usam o dinheiro do comércio de drogas para financiar a extração de ouro e lavar milhões de reais.

A união do ouro com o pó estimula ainda outros crimes ambientais, como a extração ilegal de madeira e a grilagem (roubo) de terras públicas, atividades que também recebem recursos do tráfico. Essa associação acaba acelerando a destruição da floresta, como afirma recente relatório do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC).

“Uma das tendências que estamos observando é um aumento não apenas dos crimes que afetam o meio ambiente, mas também da convergência de diversas atividades criminosas”, diz Hanny Cueva Beteta, chefe do programa global de crimes que afetam o meio ambiente da UNODC.

Na avaliação de Melina Risso, diretora de pesquisa do Instituto Igarapé, há um agravante: os órgãos de Estado de combate à lavagem de dinheiro ainda não têm os crimes ambientais como foco. “E isso se reflete na [devastação da] Amazônia”, complementa.

Entre 2018 e 2022, o desmatamento cresceu 53% na Amazônia, segundo o sistema Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O período mais crítico se deu entre agosto de 2020 e julho de 2021, quando o bioma perdeu mais de 13 mil quilômetros quadrados de mata nativa, quase nove vezes a área da cidade de São Paulo.

Quem também sofre são as populações da região, já que o coquetel de crimes fortalece as facções criminosas e incrementa os índices de violência, segundo o UNODC. O relatório da organização cita que os municípios da Amazônia Legal registraram 29,6 homicídios por 100 mil habitantes em 2021, número superior à média do país: 23,9 homicídios.

·         Ouro e lavagem de dinheiro

O ouro se encaixa nessa rede de atividades ilegais pela dificuldade de rastrear a sua origem, afirma Hanny Beteta. É comum que o minério extraído de forma irregular se misture com o ouro legal nas refinarias. Assim, ele ganha o mercado internacional e pode ser adquirido por grandes marcas, como Google, Microsoft, Apple e Amazon, conforme revelou a Repórter Brasil em julho de 2022.

“O controle sobre a madeira e a carne é muito maior hoje do que sobre o ouro”, compara Marivaldo Pereira, secretário de Acesso à Justiça do Ministério da Justiça.

Essa facilidade com que criminosos usam o ouro como “meio de troca” foi abordada em um estudo recente do Instituto Igarapé sobre lavagem de dinheiro na Amazônia. “Basta informar um grau de pureza diferente no minério e já é possível esconder [lavar] recursos com ouro”, explica Melina Risso.

Isso acontece porque, após extrair o minério do solo, o garimpeiro deve fazer um registro da produção na Agência Nacional de Mineração, recolher o imposto devido e informar o teor de ouro contido na amostra. Por ser comum a presença de outras substâncias junto com o ouro, o valor real de uma pepita é variável – o que abre brechas para a lavagem de dinheiro.

Em uma operação de exportação, por exemplo, se o dono de uma barra de 1 quilo de ouro comunicar à alfândega um índice de 99,9% de pureza, o produto pode ser comercializado por cerca de R$ 300 mil. Mas, se o teor de fato for de 66%, seu valor real não passa de R$ 200 mil.

Para rastrear a origem do ouro no Brasil, a Polícia Federal desenvolve há quatro anos um programa de coleta de amostras de diversas minas pelo país. O objetivo é comparar as características físico-químicas de cargas apreendidas com o banco de dados e, assim, identificar a origem do minério. A Ouroteca da PF já conta com mais de 400 amostras de pontos de exploração, seja industriais ou garimpeiros.

Essa técnica é utilizada pela PF em investigações de comércio de ouro ilegal, a exemplo da carga de 35 kg de ouro amazônico impedida de sair do Brasil rumo aos Estados Unidos em 2020, que até hoje é alvo de disputa judicial entre a União e uma empresa de Nova York, como revelou a Repórter Brasil.

Mesmo com esses avanços, ainda há gargalos na identificação da origem do ouro, especialmente se o material já tiver passado pela fase de refino, quando uma barra chega a 99,9% de pureza. Especialistas explicam que isso dificulta a análise de substâncias agregadas ao minério principal – são justamente essas substâncias que ajudam os peritos a identificar o local de extração do ouro.

·         Do desmonte ao controle

O fortalecimento do crime organizado na Amazônia é apontado como um legado da gestão Bolsonaro, que teria deixado a “porteira aberta” para a atuação desses grupos, opina Marivaldo Pereira, do Ministério da Justiça.

“Houve um desmonte dos órgãos de fiscalização em toda a estrutura do Estado”, diz Pereira, referindo-se ao corte de verbas para operações da Polícia Federal (PF), do Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente) e da Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas), ao longo da gestão do ex-presidente.

Desde 2014, o Ministério do Meio Ambiente e suas entidades vinculadas têm enfrentado constantes cortes orçamentários, e no governo Bolsonaro isso ficou ainda pior, segundo levantamento do Observatório do Clima. Em 2021, o governo reservou R$ 127 milhões para fiscalização ambiental e combate a incêndios, uma redução de 35% em relação ao gasto autorizado para essa finalidade em 2019.

Outro erro teria sido a aposta de Bolsonaro nas Forças Armadas para controlar a devastação da Amazônia. Com as operações Verde Brasil I e II, sob o comando do então vice-presidente Hamilton Mourão, o governo inflou gastos com o aparato militar, embora tenha reduzido as despesas com fiscalização ambiental. O resultado foi a queda nas autuações ambientais e recordes de desmatamento e queimadas. Mourão, que é atualmente senador (Republicanos/RS), foi procurado para comentar, mas não respondeu.

Para reverter o cenário, a PF criou em janeiro uma divisão focada em crimes ambientais, sobretudo para os ocorridos na Amazônia. De lá para cá, foram realizadas operações em terras indígenas em três estados da região.

“A mesma logística do narcotráfico é utilizada para o ouro, e o avião que leva o dinheiro de lavagem também pode trazer armas. Todos esses crimes têm um impacto no meio ambiente e também nas comunidades indígenas”, explica Humberto Freire, delegado responsável pelo novo departamento da PF.

Segundo Freire, a PF trabalha para montar ainda em 2023 um acordo de cooperação com oito países que fazem parte da Amazônia internacional. O objetivo é compartilhar informações sobre crimes ambientais, aos moldes do que a PF já faz com outras nações em relação a lavagem de dinheiro e tráfico internacional de drogas.

Já no Congresso, um projeto de lei apresentado pelo governo federal pretende diminuir os gargalos do controle do minério no país. A proposta prevê a criação de uma Guia de Transporte e Custódia de Ouro, documento similar ao que já existe para regular o transporte de gado.

O PL em tramitação na Câmara quer também acabar definitivamente com a chamada “presunção de boa-fé”. Na prática, se a lei for aprovada, quem compra ouro ilegal não poderá alegar desconhecimento sobre a origem do minério e passará a ser responsabilizado judicialmente. Em abril deste ano, o Supremo Tribunal Federal (STF) já havia suspendido a boa-fé na aquisição de ouro.

Um dos autores do PL é Marivaldo Pereira. “Tem muita gente que ganha dinheiro em razão da facilidade que você tem hoje de atribuir origem lícita ao ouro que é extraído de forma ilícita. Isso é um ponto central do nosso trabalho”, diz o secretário.

 

Fonte: Repórter Brasil

 

Luiz Marques: Caleidoscópio do capitalismo

Ernest Mandel interpretou três fases do capitalismo. A primeira é a do mercado (1700-1850) com o capital circunscrito às nações. A segunda é a monopolista até a década de 1960, em que o boom da reconstrução pós-guerra é marcado pelo imperialismo dos mercados transnacionais e da exploração colonialista. A terceira carimba um “capitalismo tardio”. Alude às corporações multinacionais, à globalização dos mercados e ao consumo de massa. A reprodução do capital arruína os recursos naturais. A sociedade de consumo esgota a lógica produtivista. A superprodução transfere postos de trabalho (“desindustrialização”) ao setor de serviços e precariza os empregos. Acendia-se o alerta.

A catástrofe se armava. Capitalismo tardio (1972), o livro do prócer belga da IV Internacional, “é dos poucos que se pode dizer que ganham atualidade à medida que o tempo passa”, escreve Paul Singer. Mas o modo de produção não colapsara. O ator histórico da emancipação mantinha-se na coxia. Aguardava a hora de entrar em cena para enfrentar os desafios que vinham à consciência.

Atendo-se ao século XX, no prefácio à edição de Ciências humanas e filosofia (1952), Lucien Goldmann classifica de “capitalismo em crise” o período dos movimentos revolucionários de 1917-1923, a hecatombe de 1929-1933, as duas guerras mundiais e o fascismo italiano e espanhol na periferia do centro industrial europeu. A crise evidencia a desorganização do mercado liberal em função do desenvolvimento dos monopólios.

No pós-guerra, advém o “capitalismo de organização” com mecanismos reguladores e intervenções estatais em um contexto de crescimento econômico contínuo, que tem como símbolo maior a construção do Estado de bem-estar social. As categorias do pensador romeno-francês sobre as etapas das estruturas hegemônicas repercutem na academia. As imagens no caleidoscópio ainda não mostravam a forma do terror que, agora, abraça o caos.

·         A cortina do nonsense

Filosoficamente, a transição do capitalismo em crise para o capitalismo de organização substitui a angústia e a morte pela confiança no futuro cientificista, racionalista. A diferença com o Iluminismo clássico é que, em vez dos valores individualistas, a coletividade adquire a primazia pelo cuidado institucional com a dimensão social dos direitos da população (educação, saúde, trabalho, etc). As conquistas sociais reanimam a esperança. Confrontado com a influência da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (ex-URSS), o capitalismo se obriga a encenar um rosto mais humano.

A literatura desiludida com as carnificinas bélicas (F. Scott Fitzgerald, em Este lado do paraíso) dá lugar à literatura ligada à ficção científica dos avanços tecnológicos, da robótica e do conhecimento alienígena (Erich von Däniken, em Eram os deuses astronautas?). A juventude troca de medos. Durante o Maio de 1968, época de pleno emprego na Europa, estudantes temem perder os sonhos profissionais para os robôs invasores que ameaçam a sua empregabilidade, na próxima quadra. Os hippies, em comunidades alternativas, mapeiam a geopolítica do temor na sociedade. O filme de Dennis Hopper, Easy rider (1969), traduzido como Sem destino, retrata o sentimento em voga.

A ideologia neoliberal torna a “desigualdade” o novo ideal dos Estados. O “desemprego” vira um instrumento para debilitar os sindicatos e a resistência popular. A democracia distancia-se da justiça social. As lutas do trabalho são sufocadas. O cavalo louco do “capitalismo da desregulamentação” ataca as relações socialdemocratas. A violência destrutiva assalta o povo e o meio ambiente com a “biopolítica” e “a nova razão do mundo”. Analistas políticos enfatizam as tecnologias cibernéticas: o “capitalismo de vigilância”, a “sociedade da informação”, o “poder do Big Data”, a” infocracia”, a “inteligência artificial”, os “algoritmos”, a “manipulação da vontade”. Poucos olham para cima e reparam no divórcio litigioso do Homo sapiens com Gaia. Desce a cortina do teatro nonsense.

·         O futuro que queremos

A Conferência de Estocolmo, no longínquo 1972, foi a primeira realizada sobre o homem e o meio ambiente. Admite os problemas desencadeados pelo processo de industrialização, a poluição e o escoamento dos recursos naturais. A Conferência de Nairóbi, em 1982, acena com a necessidade de recuperação das áreas degradadas e a criação de unidades de conservação ambiental. O Protocolo de Montreal, em 1987, bane os gases nocivos da camada de ozônio. A Conferência do Rio de Janeiro, em 1992, prega a indispensável conciliação do desenvolvimento socioeconômico e a proteção dos ecossistemas. Pinta o precioso conceito de “desenvolvimento sustentável”, esboço da Agenda 21.

O Protocolo de Kioto, em 1997, se compromete em reduzir a emissão de gases poluentes advindos em grande escala dos combustíveis fósseis. Em Johanesburgo, na África do Sul, em 2002, se faz o balanço da Eco-92 com um plano de ação que destaca os recursos naturais e sua utilização racional, a globalização, a miséria, a pobreza e o respeito aos direitos humanos. A Rio+20, em 2012, faz outro balanço das propostas assumidas, sem explicitar “o futuro que queremos”. Compreende-se.

Também em 2012, o Fórum Social Mundial (FSM, Porto Alegre) abre espaços para discussão dos movimentos sociais sobre contrapartidas à metamorfose do planeta. Condena as “elites” econômicas e reivindica mudanças no modelo de desenvolvimento da sociedade, que amplia as desigualdades e destrói a natureza. Propõe o uso de energias renováveis, a utilização dos resíduos orgânicos e a limitação ao consumismo predatório e à opressão dos indígenas. O desmonte absurdo dos órgãos de controle aprofunda as mudanças climáticas, que ora incendeiam e ora inundam as manchetes.

·         Não a todo fatalismo

A ideia de que o “progresso inevitável” é um trem desgovernado, sem ninguém para puxar o freio de emergência é denunciada com o lançamento do Manifesto Ecossocialista Internacional (2001), assinado pelo intelectual brasileiro radicado na França, Michael Löwy, e um dos ícones do Partido Verde nos Estados Unidos, Joel Kovel. Grupos esparsos nos hemisférios Norte e Sul sinalizam para o perigo que se avizinha, e esbarram em um muro sólido de silêncios sob a batuta das finanças. Para não mencionar o negacionismo sobre o “efeito estufa” que – se queria provas empíricas – já as têm.

Michael Löwy e Joel Kovel alertam para o terrível desastre ambiental que nos espreita e para a consequente recessão ou a depressão mundial. Mais: acusam “o fatalismo internalizado que afirma não existir outra possibilidade de ordem mundial que não seja a do capital”. O Manifesto Ecossocialista é publicado no editorial da revista Capitalism, Nature, Socialism (2002). Passados vinte anos, o muro mostra rachaduras importantes, de alto a baixo.

A última Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), através do discurso histórico do presidente Lula da Silva, estampa a urgência em encontrar soluções para as desigualdades provocadas pelo neoliberalismo e em conter o aquecimento global. Não obstante, os países desenvolvidos relutam em arcar com as despesas para reverter a tendência.

Um consenso forma-se sobre a porta do inferno. Qualquer resposta se coloca entre dois campos. De um lado, a extrema direita que resgata as tendências reacionárias do nazifascismo, no decênio de 1930; de outro, as forças democráticas e socialistas que põem a démarche capitalista em xeque. Trata-se de uma questão de sobrevivência para a espécie humana diante de um espectro devastador.

A jovem sueca, Greta Thunberg, sabe que a briga não é contra “quem tem mais de trinta anos”. A briga tem caráter antissistêmico, mira o estilo de vida regido pelo método de produção e consumo perdulários, insustentáveis. É preciso cobrar atitudes das instituições de governança. A disciplina científica sugerida pelo biólogo Ernest Haeckel, em 1866, a “Ecologia”, contém na nomenclatura Logos (ciência) e o derivativo da palavra grega Oikos (casa, ambiente habitado) – deve integrar o currículo das escolas de Ensino Médio, como a Filosofia e a Sociologia. Antes tarde do que nunca.

·         Botar o bloco na rua

O grito de socorro foi ouvido por um notável pioneiro do ambientalismo na Terra brasilis, José Lutzenberger, fundador da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (AGAPAN, 1971), autor do Manual de Ecologia (1974) e do Manifesto Ecológico Brasileiro: O Fim do Futuro? (1976). “É possível que já estejamos presenciando o começo da inversão climática global, afetando seriamente a condição da atmosfera. O homem moderno estraga cada uma das peças da engrenagem – e joga areia no mecanismo, preparando o colapso. Chegará o dia em que os flagelados e os mortos totalizarão milhões. Se destruirmos os oceanos, teremos destruído a nós mesmos”, avisou o mestre.

Lutz, como era chamado com afeto, foi ministro do Meio Ambiente do triste governo Collor de Melo. Em conflito aberto com o Comando Militar da Amazônia e o governador do Amazonas, logo é exonerado do cargo (1990-1992). Promove a demarcação das terras Yanomami com 9.664.975 hectares, tamanho superior às dimensões de Portugal. Derrota os inimigos na trincheira, defensores do desmembramento territorial em dezenove condomínios, e aqueles que se julgam donos do Jardim do Éden: o agronegócio, os madeireiros e os garimpeiros com a sua necropolítica étnico-ambiental.

Urge uma decisão radical contrária à cosmovisão guiada pelos interesses imediatistas do capital. Sob diversos e tenebrosos aspectos, atingimos o ponto da irreversibilidade. Degelo dos polos, elevação dos mares, desertificação de terras agricultáveis, calamidades em série já fazem parte da nossa paisagem. É hora de tirar do armário a noção de “revolução”, para botar o bloco na rua. Se o sujeito da história foi o operário de macacão azul, em priscas eras, hoje é 99% da humanidade.

 

Ø  Do caos à lama. Por Carlos Carvalho

 

Quando o golpe de 2016 contra a presidenta Dilma Rousseff se concretizou, resultando na sua deposição, sabia-se que a partir dali o Brasil mergulharia em um caos só visto quando do golpe de 1964, pois é sabido que nunca acabam bem a abolição violenta do Estado Democrático de Direito e seus famigerados golpes de Estado. Esse tipo de violência, planejada por incendiários intelectuais dentro das quatro linhas, digo, das quatro paredes dos gabinetes, palácios, igrejas e quartéis tem como objetivo cooptar imbecis e idiotas úteis, emporcalhando o ar com sua retórica tacanha, reacionária e criminosa na tentativa torpe de desacreditar a democracia e as Instituições. Essa foi exatamente a estratégia de sustentação do regime nazista, e foi o que tentaram colocar em prática no Brasil, aqueles que apoiaram e se beneficiaram do golpe de 2016.

Não por outra razão, mas pelo ódio ao pobre, é que as elites do atraso deste país lançaram mão de toda sua irresponsabilidade política e decidiram afundar o “Titanic Brasil”, para que apenas elas continuassem a manter seus privilégios, sua empáfia cafona, seus lucros indecentes e seu afrontoso estilo de vida em um país onde crianças gemem de fome, idosos morrem nas calçadas e adultos mendigam um emprego. Para muitas dessas pessoas é preciso, como recentemente defendeu o bilionário australiano Tim Gurner, CEO do Gurner Group: “lembrar as pessoas que elas trabalham para o empregador, não o contrário”. É necessário, continuou ele, “que haja dor na economia e que as pessoas ganham muito para fazer pouco”.  

Na opinião deste senhor acima de qualquer suspeita, é preciso aumentar as taxas de desemprego para que os arrogantes trabalhadores voltem ao seu lugar (que lugar seria esse, hein?), com o rabinho entre as pernas. E se tais trabalhadores ousarem resistir a ponto de eleger um político que os represente e os defenda, que os eleitores e as eleitoras de tal “comunista” sejam impedidos de chegar às sessões de votação! E se mesmo assim não funcionar, nada mais a fazer se não derrubar o eleito com um golpe militar, civil-militar ou parlamentar, com tudo. Como é comum aos “cidadãos de bem”, não é que o senhor Gurner, rápido como quem rouba, se desculpou e disse que não tinha dito o que tinha dito! Na verdade, o bilionário australiano apenas externalizou o que os ricos pensam e defendem, mas que não têm coragem de falar em público. Não é difícil imaginar que no Brasil, sua fala deve ter causado arrepios e orgasmos múltiplos em muitos senhores e senhoras que pensam tal e qual e que chafurdam no caos em que transformaram o país.

O alento que se tem, enquanto ainda tentamos sair de tal caos, é que a maioria daqueles que articularam e executaram a canalhice que tomou conta do Brasil começam a ser desmascarados, expostos e chamados às responsabilidades perante a Justiça. Ainda é muito pouco, mas já bom ver o Aécio (por enquanto ainda não é aquele) condenado a puxar uma cana de dezessete anos. Melhor ainda, é ver “general com G, letra garrafal, general escrito com letras garrafais”, filhote da ditadura, esperneando e surtando numa CPMI, aprendendo de vez que o Haiti não é aqui. Os canalhas responsáveis pelo caos que arruinou o país por quatro anos caminham agora a passos largos à lama que os espera, pois como bem diz o poeta: “o beijo, amigo, é a véspera do escarro”. Enquanto isso, o Brasil, altivo, assiste ao formidável enterro dos crápulas que o vilipendiaram ainda ontem.  

 

Fonte: A Terra é Redonda/Brasil 247

 

Orçamento da Bahia para 2024: Governo projeta 72% dos recursos para a área social

A proposta orçamentária entregue, na tarde desta quinta-feira (28), pelo secretário estadual do Planejamento, Cláudio Peixoto, ao presidente da Comissão de Finanças, Orçamento, Fiscalização e Controle da Assembleia Legislativa, deputado estadual Vitor Bonfim, prevê R$ 62,6 bilhões para o ano de 2024. No ato de entrega da proposta, esteve presente, também, o secretário da Casa Civil, Afonso Florence.

Do valor total, o Governo da Bahia destinou R$ 44,1 bilhões para a área social, que inclui educação, saúde e segurança. O valor supera em 10% o recurso destinado pela gestão estadual para o social no Orçamento 2023. O maior volume de recursos orçamentários está concentrado na educação, totalizando R$ 12,1 bilhões, cujo destaque fica por conta do valor de R$ 1,7 bilhão para a infraestrutura e aparelhamento da rede pública. A gestão estadual consolida um aumento de quase 7% em relação ao orçamento de 2023 (R$ 11,3 bilhões), impulsionando o esforço para ampliação do ensino em tempo integral.

Para a área da saúde, a soma prevista na proposta orçamentária é de R$ 9,6 bilhões, que corresponde a um aumento ainda maior (8,8%), quando comparada à proposta programada para esse ano. No entanto, proporcionalmente, o maior incremento fica com a área da segurança pública, quase 12% a mais que em 2023. Do total previsto de R$ 6,6 bilhões para a segurança no ano que vem, destaca-se o valor que será disponibilizado para as ações de videomonitoramento e comunicação (R$ 495 milhões).

O secretário Cláudio Peixoto destaca que o Projeto da Lei Orçamentária Anual (PLOA) submetido à Assembleia Legislativa, o primeiro elaborado na gestão do governador Jerônimo Rodrigues, reflete o direcionamento do Governo da Bahia diante das necessidades do estado, em sintonia com o diálogo realizado com os 27 Territórios de Identidade, durante a elaboração do Plano Plurianual Participativo – PPA 2024-2027.

De acordo com Peixoto, a entrega da proposta orçamentária encerra o ciclo de elaboração dos três principais instrumentos do planejamento na área pública – Plano Plurianual (PPA), Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e Lei Orçamentária Anual (LOA), “que estão conectados, revelando a visão estratégica de médio prazo, as prioridades da gestão e a distribuição dos recursos financeiros entre as áreas”. O secretário do Planejamento lembra, ainda, que, desde a sua posse, o governador deixou claro o foco na área social, visando ampliar os avanços na saúde e na educação, reduzir as desigualdades e tirar a Bahia do mapa da fome, além de diminuir os índices da violência no estado.

“Todos os esforços estão sendo realizados, com a ampliação do volume de recursos, não só para a valorização dos servidores do sistema de segurança, os serviços de inteligência e os sistemas de tecnologia e informação, como, também, com programas especiais e ações transversais que têm como objetivo promover a paz”, sinalizou o secretário do Planejamento.

O presidente da Comissão de Finanças, Orçamento, Fiscalização e Controle da Assembleia Legislativa, deputado Vitor Bonfim, explica que o próximo passo será designar um relator que irá emitir o seu parecer e também abrir o prazo para que os deputados possam apresentar as suas emendas. “Os 63 deputados terão a oportunidade de direcionar os seus recursos de maneira impositiva para os municípios que ele representa aqui na Assembleia. Então, depois desse prazo, nós vamos levar o orçamento para votação no plenário”, detalhou.

•        Área econômica e de infraestrutura

Quando considerados os valores destinados à área econômica e de infraestrutura na proposta orçamentária elaborada pela Secretaria do Planejamento (Seplan), por meio da Superintendência de Orçamento Público (SPO), o total previsto é de R$ 3,8 bilhões, contemplando transportes (R$ 1,9 bilhão), agricultura (R$ 664 milhões), comércio e serviços (R$ 377 milhões), ciência e tecnologia (R$ 217 milhões), gestão ambiental (R$ 212 milhões), indústria (R$ 207 milhões), comunicações (R$ 170 milhões) e organização agrária (R$ 7 milhões).

Entre as intervenções na infraestrutura viária, que absorvem o maior volume de recursos, estão os serviços de duplicação, implantação, restauração e conservação de rodovias (R$ 773 milhões), incluindo diversos trechos, entre eles, a implantação da BA-649 (Itabuna-Ilhéus). Já a implantação e recuperação de 165 km de acessos rodoviários contará com um recurso R$ 225 milhões, enquanto que R$ 197 milhões foram programados para a execução das obras de conservação, construção, ampliação ou recuperação de terminais de transporte aeroviário, hidroviário e rodoviário. Outra intervenção que merece destaque é a implantação do Complexo Águas Claras na capital baiana (R$ 258 milhões), com impacto significativo na mobilidade urbana.

Ainda na área da infraestrutura, vale registrar as intervenções com grande potencial de melhoria dos índices de desenvolvimento humano, especialmente os relacionados à saúde, como a implantação de 27 sistemas de esgotamento sanitário e a ampliação de outros 27 (R$ 745 milhões), além da implantação de sistemas de abastecimento de água e de redes de distribuição (R$ 485 milhões), contemplando as zonas urbanas e rurais dos municípios. Esses recursos, somados com os previstos para o desenvolvimento rural sustentável, que promovem o fortalecimento da assistência técnica e extensão rural (R$ 203 milhões), irão dinamizar a produção e comercialização dos produtos da agricultura familiar na Bahia.

Outras áreas que complementam os recursos orçamentários previstos no orçamento para o ano de 2024, submetido à apreciação dos deputados estaduais, conforme previsto na Constituição Estadual, são a gestão pública (R$ 1,8 bilhão), com foco principal na inserção de jovens no mundo do trabalho, principalmente, as ações vinculadas às iniciativas do Primeiro Emprego, Partiu Estágio e Mais Futuro (R$ 280 milhões) e de transformação digital, com destaque para a criação de uma plataforma de serviços digitais.

•        Operações de crédito

Com o intuito de ampliar os investimentos em programas e projetos estratégicos, a Secretaria do Planejamento também atua, através da Superintendência de Cooperação Técnica e Financeira para o Desenvolvimento (SPF), com a captação de recursos vinculados à operações de crédito, transferências de recursos da União e celebração de parcerias financeiras com bancos, agências e organismos nacionais e internacionais.

A programação orçamentária consolidada no projeto de lei da LOA 2024 contempla recursos da ordem de R$ 1.45 bilhão, captados de diversas fontes extras ao tesouro, que corresponde a R$ 796 milhões de operação de crédito interno e R$ 654 milhões de crédito externo, com destaque para os seguintes valores: R$ 636 milhões do Programa Integrado de Infraestrutura Governamental (Proinfra III – 2ª Etapa), R$ 221 milhões do Programa de Manutenção Proativa e Resiliência das Rodovias (Pró-Rodovias) e R$ 110 milhões do Programa de Desenvolvimento Rural Sustentável (PDRS II).

•        Conjuntura econômica

O crescimento econômico mundial para 2024, de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), deve alcançar um resultado de 3,0%, mesmo patamar estimado para 2023. Essa previsão retrata um cenário em que a inflação segue em níveis considerados elevados, com efeitos no poder de compra das famílias. Além disso, eventuais políticas de aperto monetário dos bancos centrais, tendo como objetivo combater a inflação, elevam os custos de financiamento e pesam sobre a atividade econômica.

Diante dessa conjuntura internacional, espera-se que os avanços institucionais como o novo arcabouço fiscal e a reforma tributária apontem para mudanças estruturais, com efeitos sobre o equilíbrio fiscal, melhorando os fundamentos da economia nacional, de modo a aumentar a confiança dos agentes econômicos e a induzir novos investimentos como grandes impulsionadores do desenvolvimento, com impactos no curto, médio e longo prazos.

O novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) deve ganhar um cronograma focado em áreas estratégicas e na transformação energética, o que irá provocar o aumento dos investimentos públicos, com reflexos positivos na economia baiana, como sinaliza o secretário Cláudio Peixoto: “além dessa perspectiva do PAC, a manutenção dos investimentos pelo Governo do Estado, ao longo dos anos, assumiu uma posição fundamental na viabilização do desenvolvimento econômico e social. A expectativa é de que os investimentos em áreas estratégicas e a continuidade dos projetos já iniciados, principalmente em infraestrutura, contribua para a geração de novos empregos e do crescimento da renda nos próximos anos”.

 

Fonte: Tribuna da Bahia

 

Moisés Mendes: A sobrevivência do bolsonarismo depende do fim de Bolsonaro

Pretendentes a herdeiros do acervo político de Bolsonaro têm pela frente o desafio de ajustar os movimentos que os afastem um pouco do indivíduo, sem que pareça desprezo ou fuga e sem se distanciar do que ainda é o bolsonarismo. Parece contraditório, mas não é.

Bolsonaro conseguiu em 2018 um feito subestimado até pela ciência política mais cautelosa. Deslocou centro e direita para a extrema direita, elegeu-se presidente e teria hoje, mesmo derrotado, uma base expandida de até 25% dos eleitores brasileiros.

É assim que um quarto do eleitorado se define em pesquisas do Datafolha, como bolsonarista. Mas a persistente fidelidade leva hoje a alguns paradoxos aparentes da base e dos políticos profissionais.

O principal, o mais visível no momento, é este: é arriscado para alguns agrupamentos de direita manter ou estreitar laços com a imagem de Bolsonaro, considerando-se quem tem projetos eleitorais para o ano que vem e faz carreira para o futuro de médio prazo.

É complicado estreitar conexões entre ambições políticas e Bolsonaro, no momento em que o sujeito é cercado pelo sistema de Justiça e se fragiliza politicamente, já com um pé na cadeia.

O resumo possível desse cenário lida com deduções oferecidas por fatos e circunstâncias pós-eleição. O eleitor que se diz bolsonarista se mantém fiel a uma ideia de vida, a um conceito, e não mais apenas a uma figura. O político bolsonarista percebe esses movimentos.

Os números explicam. As mesmas pesquisas que citam a fidelidade de 25% ao bolsonarismo mostram que em São Paulo 68% dos eleitores não votariam em candidato indicado por Bolsonaro à prefeitura. Os que votariam são apenas 13%.

A conclusão parece fácil, mesmo que possa ser traiçoeira: o eleitor da base expandida, que se diz bolsonarista, é na verdade o que se acomodou onde já estava como alguém com ideias ultraconservadoras ou de extrema direita, e não só antilulistas.

Mas ele não continua sendo necessariamente alguém com fé incondicional em Bolsonaro. O bolsonarismo, numa simplificação, poderia ser percebido genericamente num quadrado onde cabem ultraconservadorismo, extremismo, fascismo ou algo assemelhado, capaz de acolher esse eleitor negacionista, antiaborto, antigay, antidemarcação de terras indígenas, antimaconha, anticotas, muitas vezes antivacina e tantas outras vezes terraplanista e racista.

A simplificação é dada pelo próprio eleitor e pelos movimentos de quem, em posição de protagonismo ou liderança, percebe que já não é tão vantajoso estar próximo de Bolsonaro hoje.

Tarcísio de Freitas, Romeu Zema e Ratinho Júnior não precisam explicar, porque nem devem, essa tentativa de calibrar a proximidade e o distanciamento com um quase cadáver da política.

 Bolsonaro pode ser, em pouco tempo, apenas o dono do ponto, o cara que criou o mercado, tem clientela e consolidou uma marca. Mas sujou o nome.

Bolsonaro é o criador do mercado a ser comprado por Zema, Tarcísio, Eduardo Leite e outros postados ao lado da extrema direita e que tentam herdar a base extremada porque desistiram de se colocar como de direita ou de centro-direita. Que foi de onde muitos saíram em 2018 para cortejar e pegar carona com Bolsonaro.

O bolsonarismo será, talvez logo depois das eleições municipais do ano que vem, esse fenômeno jovem que exigirá outras abordagens. Porque Bolsonaro poderá estar morto como figura pública, sem partido, sem turma, sem militares, sem milicianos e sem expectativas pessoais. Mas o bolsonarismo do interiorzão estará latejando.

Um bolsonarismo que, mesmo no auge e no poder, nunca foi parente do que já se chamou de getulismo, brizolismo, peronismo ou chavismo, porque não tem base social de massa ativa e relevante entre os mais pobres e sobrevive como alguma coisa que poderá ou não se liquidificar e escorrer pelos ralos da política.

Ser bolsonarista é um esforço de sobrevivência de ricos, classe média e evangélicos, que ficaram órfãos com a derrota na eleição, o fracasso do golpe, a inelegibilidade, a depreciação dos generais e das Forças Armadas e a possibilidade real de ver o líder encarcerado.

O bolsonarista carrega a incerteza de que poderá se manter agarrado à fé conquistada em 2018. Até porque precisa confiar nos inconfiáveis Tarcísio e Zema para continuar sendo bolsonarista.

O mundo da direita antiLula, mesmo a não extremada, vai deixando de girar só em torno de Bolsonaro. O antilulismo e antitudo precisa sobreviver em outro corpo, mantendo a certeza de que continua sendo bolsonarista.

O eleitor que se diz bolsonarista terá de se afastar da figura de um Bolsonaro moribundo para continuar sendo bolsonarista e sobreviver como tal com outro nome que incorpore o que ele representa. Além da direita, agora também a extrema direita depende do fim de Bolsonaro.

Os políticos que pretendem ser herdeiros do espólio já estão fazendo essa caminhada. Para ficar com o que um dia foi de Bolsonaro, é preciso afastar-se de Bolsonaro e, às escondidas ou não, contribuir para vê-lo destruído e politicamente morto.

 

Ø  Investigado e inelegível, Bolsonaro exige validar até chapa de vereadores do PL no Rio

 

Jair Bolsonaro mostrou sua influência na cúpula do PL, deixando claro que será o protagonista nas próximas eleições municipais no Rio de Janeiro, sua base política. de acordo com a coluna da jornalista Bela Megale, do jornal O Globo, o ex-mandatário  - que foi declarado inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e é alvo de diversos inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF) - “exigiu de membros do PL aprovar previamente todos os nomes que vão concorrer ao cargo de vereador pelo seu partido da capital fluminense”.

Ainda de acordo com a reportagem, a expectativa é que seu filho, o vereador Carlos Bolsonaro migre do Republicanos, seu partido atual, para o PL, visando disputar a reeleição. A chapa definitiva, porém, deverá ser conhecida no início do próximo ano. 

“O ex-presidente já deixou claro que não abrirá mão de ter um candidato de seu partido na cidade para enfrentar o prefeito Eduardo Paes (PSD). O nome defendido por Valdemar Costa Neto, presidente do PL, é o do general da reserva Walter Braga Netto”, ressalta a colunista. 

 

Ø  Cassação de Moro já é dada como certa e extrema direita quer Michelle Bolsonaro no seu lugar no Senado

 

Depois da petição protocolada por Tony Garcia no STF, em que ele apresenta provas contra Sergio Moro, ganharam força nos bastidores da política em Brasília e no Paraná as discussões sobre as candidaturas ao Senado para preencher a vaga que será aberta com a já dada como certa cassação do ex-juiz. E um nome surgiu entre os pré-candidatos: Michelle Bolsonaro.

Com isso, a eleição suplementar no Paraná poderia ficar polarizada entre a deputada federal Gleisi Hoffmann, presidente do PT, e Michelle Bolsonaro. A eleição poderia ter também as candidaturas de Roberto Requião, caso ele deixe o PT e vá para o Solidariedade, e Álvaro Dias, do Podemos. 

Já os demais pré-candidatos identificados com o bolsonarismo, Paulo Martins (PL)  e Ricardo Barros (PP), deixariam a disputa por não terem chances contra MIchelle, sobretudo porque a articulação em torno do nome dela teria o apoio do governador Ratinho Júnior, do PSD.

Como na política as discussões começam muito antes do que o eleitor imagina, ao abraçar a candidatura de Michelle, Ratinho Júnior espera abrir uma porta com Bolsonaro, para que seja o candidato a presidente da direita e extrema direita em 2026. 

A pelo menos dois interlocutores, Ricardo Barros confirmou que há tratativas para que Michelle Bolsonaro transfira o domicílio eleitoral para o Paraná e fique em condições de disputar as eleições para o Senado, que poderá ser realizada simultaneamente à de prefeitos e vereadores, no ano que vem.

Publicamente, Ricardo Barros não confirma. "Nao tenho essa informação. Mas (ela) poderia (ser candidata) no Paraná, Santa Catarina e Rondônia, onde devem ser cassados senadores. Eu disputarei para o Senado no Paraná, o candidato do PL aqui é Paulo Martins", disse ao 247.

Ricardo Barros, que foi líder do governo Bolsonaro na Câmara dos Deputados entre 2020 e 2022, atualmente é secretário da Indústria, Comércio e Serviços do governo de Ratinho Júnior. Ele não quis responder se manteria a candidatura ao Senado na hipótese de Michelle se candidatar.

Mas deu uma pista de que as conversas estão ocorrendo. Na semana que vem, ele terá uma reunião com Jair Bolsonaro, e não quis dizer qual será a pauta do encontro.

Moro já é um cadáver político, e sua presença no Senado exala mau cheiro. Com fama de traíra, nenhuma liderança política relevante se apresentou para defendê-lo, e agora até os cúmplices de 2018, como os Bolsonaros, têm pressa na remoção da carniça.

·         "Moro nega o inegável e será preso", diz Tony Garcia

O empresário Tony Garcia, delator do ex-juiz suspeito e hoje senador, Sergio Moro, prevê que o mandato do parlamentar está com os dias contados diante das crescentes denúncias de irregularidades cometidas pelo ex-magistrado antes mesmo da Operação Lava Jato. Em entrevista ao jornalista Joaquim de Carvalho, da TV 247, Garcia afirmou que agora "ninguém segura mais" as consequências de seus depoimentos. 

Em depoimentos prestados por Tony Garcia, ele cita uma série de altas autoridades, como ministros, desembargadores, secretários. Moro não podia investigar nenhum deles, mas insistiu e usou, inclusive, métodos ilegais para espioná-los. 

Segundo Garcia, a atuação de Moro foi criminosa e reveladora dos abusos que ele viria a cometer na Operação Lava Jato. Agora Moro se desespera, tentando negar o que ele mesmo assinou, pondera o delator. 

"As pessoas que assinaram o meu acordo de colaboração premiada com as 'tarefas' vão para a cadeia, é um crime. Injustiça para obter informações privilegiadas de gente que não poderia ser investigada por eles. Usar uma pessoa que tinha e tem trânsito como eu para buscar essas informações e chantagear as pessoas. Foi isso que Moro e Lava Jato fizeram Eu fui um laboratório dessa turma 10 anos antes de botarem em prática tudo o que fizeram comigo", disse Garcia.

Garcia prevê que o Supremo Tribunal Federal (STF) não aliviará a barra de Moro e que ele perderá o mandato de senador, o qual usa para se "esconder" das denúncias. A Corte está em posse do documento de colaboração, que previa, entre outras coisas, que o réu usasse escutas ambientais em encontros e conversas com políticos e juristas para obter informações sobre desembargadores do Paraná e ministros do Superior Tribunal de Justiça.

"Moro é tão covarde e tão patético que não tem a honradez e a hombridade. A hora que ele cair ele está desmentirá o que ele mesmo colocou no papel e assinou. O cara é pego em flagrante e fala, 'não sou eu que estou aqui'. Não é igual a Vaza Jato, em que se pode dizer que não se reconhece a voz. As 30 tarefas que hoje ele está negando ele homologou. Todos estão em posse disso e ele não tem como negar. Ele é um criminoso, covarde e vai ficar o tempo inteiro escondido nesse mandato que ele tem de senador. Mas vai ficar por pouco tempo. Ele não tem como se sustentar muito tempo nessa posição", acrescentou.

 

Ø  Jurista Marcelo Uchôa cita o empresário Tony Garcia e manda recado a Moro: 'seu destino está selado'

 

O jurista Marcelo Uchôa mandou nesta quinta-feira (28) um recado ao senador Sergio Moro (União Brasil-PR) ao afirmar que o ex-juiz da Operação Lava Jato será preso. O estudioso fez o comentário após o parlamentar desejar sucesso ao novo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Luís Roberto Barroso. "Belas palavras, Sérgio Moro. Pena que o seu destino já está selado e tem nome: Tony Garcia. É só aguardar", escreveu Uchôa no Twitter. 

O empresário Tony Garcia enviou ao STF documentos para comprovar as irregularidades cometidas por Moro quando o parlamentar julgava os processos da Lava Jato em primeira instância, no Paraná. Neste ano, o delator denunciou ilegalidades do ex-juiz. 

Durante entrevista ao 247 em junho, o empresário disse ter sido instruído na Lava Jato a dar uma entrevista à Veja e fornecer à revista informações que pudessem comprometer a carreira do ex-ministro José Dirceu (PT). O delator afirmou que, a mando de Sergio Moro, gravou de forma ilegal o ex-governador do Paraná Beto Richa (PSDB) em 2018. Garcia afirmou que Moro transformou "Curitiba na Guantánamo brasileira".

 

Fonte: Brasil 247