sexta-feira, 31 de março de 2023

Como comportamento sexual compulsivo descontrola quem sofre com o problema

Passamos anos ouvindo expressões como "ninfomania", "dependência de sexo" e "hipersexualidade".

Estas e outras expressões definem pessoas que sofrem de desejo sexual "excessivo ou exacerbado", ou não têm controle sobre seus comportamentos sexuais. Embora estes termos tenham cumprido sua função por certo tempo, atualmente são ultrapassados.

Depois de muitos estudos, a Organização Mundial da Saúde (OMS) incluiu em 2018 o rótulo "Transtorno do Comportamento Sexual Compulsivo (TCSC)" para denominar a doença que afeta os pacientes que procuram seus médicos devido a um descontrole na sua conduta sexual que não conseguem impedir.

•        Como são essas pessoas?

Os critérios de classificação incluem pessoas que:

- Perderam o controle das suas condutas.

- Esforçam-se para abandonar os comportamentos sexuais, mas não conseguem.

- Não têm prazer nessas experiências.

- Enfrentam consequências graves em diferentes áreas da vida por mais de seis meses.

A OMS indica que este problema não pode ser explicado por julgamento moral, ou seja, que o simples fato de que algo não pareça apropriado ou moralmente aceitável para uma pessoa não explicaria que existe uma patologia clínica, passível de diagnóstico.

"O sexo se tornou um ansiolítico para mim. Cada vez que sofro e não consigo mais, a sexualidade se converte no meu refúgio", comentou-me um paciente com 45 anos de idade.

É comum observar como os pacientes usam os comportamentos sexuais (como pornografia, prostituição, bate-papos ou webcams sexuais) para regular seu mundo afetivo. Quando os pacientes com dificuldades não conseguem gerenciar suas emoções, eles procuram o sexo para buscar serenidade.

Ainda são necessárias mais pesquisas, mas o TCSC afeta cerca de 10,3% dos homens e 7% das mulheres na população em geral, segundo o livro espanhol Conducta Sexual Compulsiva: una Mirada Integral - Guía para Profesionales ("Conduta sexual compulsiva: uma visão integral - guia para profissionais", em tradução livre), do psiquiatra Carlos Chiclana Actis e do psicólogo Alejandro Villena Moya.

Cerca de 87% dos pacientes têm dificuldades com o controle do uso de pornografia e 15-20% realizam práticas sexuais como prostituição e infidelidade.

•        Como as pessoas são afetadas?

As pessoas que sofrem essas dificuldades podem ser afetadas em diferentes setores da vida.

- Vida pessoal: o modo de pensar e entender a sexualidade é distorcido e surge a perda de autoestima e confiança em si próprio, além de sentimentos de incapacidade, alteração do bem-estar espiritual, mal-estar pessoal, humilhações ou desprezo, vergonha, culpa e falta de desenvolvimento da identidade pessoal.

- Vida econômica: perda de emprego, gastos excessivos ou desnecessários, chantagens e fraudes.

- Relações interpessoais: rupturas amorosas, perda de confiança das outras pessoas, alterações ou dificuldades nas relações interpessoais, danos emocionais a outras pessoas, isolamento social, falhas no cuidado de uma pessoa querida, rompimentos matrimoniais e perda de amizades.

- Questões médicas: doenças sexualmente transmissíveis, relações sexuais fisicamente não saudáveis, distúrbios cognitivos, psicopatologias, disfunções sexuais e piora da saúde.

- Outras questões: problemas legais (denúncias e detenções), comportamentos irresponsáveis, renúncia a metas ou objetivos importantes, expulsão de organizações, associações etc. e deterioração da imagem pública.

Os estudos neurobiológicos mais importantes concluíram que o transtorno por comportamento sexual compulsivo exibe alterações no cérebro, similares às que provocam dependência de substâncias e/ou outros comportamentos.

Os centros cerebrais relativos à recompensa e à dopamina podem deteriorar-se devido a este descontrole sexual. Além disso, as áreas do cérebro que regulam o autocontrole, o planejamento, a atenção e a empatia podem ser alteradas, segundo observado em estudos mais recentes.

•        Como reconhecer o transtorno

Alguns indícios que podem nos ajudar a suspeitar que uma pessoa sofre deste transtorno são os seguintes:

- Rasgos de impulsividade, incapacidade de retardar a gratificação ou falta de controle inibitório.

- Mudanças de estado de ânimo, como irritabilidade, sintomas depressivos, ansiedade ou instabilidade.

- Presença de doenças sexualmente transmissíveis.

- Dependência da tecnologia.

- Baixo rendimento acadêmico ou profissional e absenteísmo frequente.

- Consumo de drogas (álcool, fumo, maconha e outras substâncias).

- Dificuldade de regulação emocional.

- Forte inclinação a buscar novidades ou sensações novas.

- Dificuldade de expressão emocional.

- Linguagem excessivamente sexualizada.

- Problemas de estabilidade no relacionamento, infidelidade etc.

- Pouco interesse nas relações sexuais com o próprio parceiro.

- Baixa ou nenhuma formação sexual ou grande culpa com relação aos seus atos sexuais.

Mas existem soluções. O caminho é longo e exige consciência, motivação, força, apoio, paciência, carinho, ajuda e dedicação, mas a saída existe.

Nos últimos anos, surgiram diversos tratamentos eficazes para ajudar essas pessoas, incluindo a terapia individual (de diversas correntes, destacando-se a eficácia da terapia cognitivo-comportamental), terapia de grupo e, em alguns casos, a terapia farmacológica. Estes tratamentos ajudam a regular o comportamento, controlar os impulsos, reaprender a sexualidade sadia e viver uma vida mais livre.

E existem também cursos que podem ajudar a orientar sobre qual a abordagem adequada para esta condição, ainda uma grande desconhecida entre muitos profissionais da saúde.

 

Fonte: Por Alejandro Villena Moya, para The Conversation

 

Lucas Mesquita: Dino debochado fez bolsonaristas se arrependerem do convite para ele ir à CCJ

Quando li a notícia de que Flávio Dino iria à CCJ da Câmara para responder a questionamentos de deputados bolsonaristas, pensei: ele vai jogar xadrez com pombo. A oposição vai cagar no tabuleiro, derrubar as peças e sair voando de peito estufado cantando vitória.

Mas foi um passeio no parque para o ministro da Justiça. Com um pouco de deboche e muito de verdade, que é o que importa, Dino respondeu calmamente sobre cada questão, calando os bolsonaristas um a um, exceto um ou outro que gritava, mas ninguém ouvia.

Eu estava lá e vou contar minhas impressões sobre essa tarde que prometia entretenimento e entregou aulas de como tratar a extrema direita.

•        Invertida

Um dos lunáticos, o deputado cearense André Fernandes, repetiu a falsa ladainha dos supostos elos entre o PCC e o PT. Tomou uma lapada do ministro e foi dormir de couro quente. Dino lembrou que o parlamentar é investigado no STF pelos atos terroristas de 8 de janeiro. Ainda disse que vai usar a burrice do deputado bolsonarista como exemplo em sala de aula, se referindo a uma confusão que Fernandes fez com o site Jusbrasil. Com vergonha, o parlamentar não abriu mais a boca.

•        Tigrões na internet, tchutchucas na vida real

Os deputados Eduardo Bolsonaro e Deltan Dallagnol passaram a semana inteira instigando seus seguidores nas redes sociais para o grande embate com o ministro. O ex-procurador, ex-palestrante e parça de Sergio Moro chegou a pedir para as pessoas mandarem perguntas para ele fazer para Dino. Realidade: o fritador de hambúrguer entrou mudo e saiu calado e Deltan saiu de fininho, sem ninguém perceber.

•        Janonismo cultural

São mais de 10 anos apanhando da extrema direita nas redes sociais. Mas André Janones mostrou no ano passado que a solução é fazê-los provarem do próprio veneno. Ver esse craque em campo foi um dos pontos altos da tarde. Como dizem nas redes, ele entra na mente dos bolsonaristas, que ficam nervosos porque sabem que perderam a hegemonia das próprias práticas.

Um “Vai, chupetinha” ali, um “ladrão de Rolex” acolá, e o parlamentar mineiro deixa a todos os bolsonaristas histéricos. A frase que mais ouvi ontem foi “Quem falou isso?”. Quem diria que uma das melhores formas de combater os bolsonaristas na rede seria com a mesma tática de quinta-série deles?

No dia seguinte, quarta-feira 29, Janones voltou à carga, assumindo ter sido ele quem falou "vai, chupetinha" e chamando os bolsonaristas de "frouxos".

•        Conja

A deputada Rosângela Moro parece ter a mesma desenvoltura e capacidade cognitiva do marido – e uma voz tão irritante quanto, senão pior. É que o deputado Lindbergh Farias citou em sua fala o depoimento do advogado Tacla Duran, que acusou o advogado Carlos Zucolotto, padrinho do casal e ex-sócio de Rosângela, de cobrar propina pra ter vantagens em delação premiada no âmbito da Lava Jato. Ela se sentiu ofendida e pediu direito de resposta. O presidente da CCJ, Rui Falcão, com razão, indeferiu o pedido. Afinal, não houve ofensa alguma. Foi só ela acusando o golpe mesmo.

Em outro embate com Lindbergh, Rosângela, com aquele tom moralista no estilo “quem não te conhece que te compre”, interpelou o deputado, que havia dito que a Polícia Federal do governo Lula havia agido pra proteger um adversário político, se referindo a Sergio Moro. Rosângela então afirmou o óbvio, que a PF é uma instituição de Estado, não de governo, mas acabou levantando a bola para Lindbergh cortar: "Seu marido disse que foi [a PF] aparelhada no governo Bolsonaro. Foi seu marido que disse”.

•        Ramagem bolado

Falando em interferência na Polícia Federal, lembrei de Alexandre Ramagem. Ao responder ao agora deputado Ramagem, Flávio Dino disse que não lembrava o nome do parlamentar, e depois perguntou se era "aquele da polícia". Ao final da sessão, saindo da CCJ, vi que o deboche do ministro deu resultado. Flagrei Ramagem conversando com assessores, visivelmente chateado. “Ele sabia que era eu, sim. Fez de propósito”.

•        Repugnantes com orgulho

Um dos questionamentos da extrema direita foi uma reunião do ministro com líderes comunitários do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro. Dino bateu sem pena nos representantes da extrema direita: “Quando chega a época de campanha eleitoral todos lembram de ir às favelas e periferias, e ninguém pergunta se ali tem crime organizado ou não. É uma tentativa vil de criminalizar não o ministro da Justiça, mas aquela população. Com isso, não posso concordar, é como se fossem todos criminosos, mas não são. É um preconceito contra pessoas pobres, contra quem mora em bairro popular”.

Mas, como era de se esperar, alguns deputados, com orgulho de ser repugnantes, continuaram a destilar seus preconceitos, dando a entender que, para eles, na favela só tem bandido. Não faltaram acusações de que Dino fez acordo com o Comando Vermelho para poder entrar na comunidade. Serão todos processados, como deve ser.

A imunidade parlamentar é constantemente usada para cometer crimes e isso deve ser combatido.

 

       Veja os melhores momentos doe Dino na audiência da CCJ da Câmara

 

Nesta terça-feira (28), o ministro da Justiça Flávio Dino (PSB-MA) prestou depoimento à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados.

Dino foi convocado para a comissão para esclarecer os novos decretos do governo sobre armas, sua visita ao Complexo da Maré, no Rio de Janeiro e o combate aos golpistas do 8 de janeiro.

A visita tornou-se um embate entre "governo e oposição", como definiu o próprio ministro. A eloquência de Dino surpreendeu e viralizou nas redes sociais.

<<<< Confira os melhores momentos:

1. Dino: "Horda de alimárias"

Em uma das primeiras falas de Flávio Dino ao longo da sessão da CCJ, que durou mais de 4 horas, Dino surpreendeu os ouvintes com o termo "horda de alimárias" para se referir aos atos golpistas de 8 de janeiro.

“É minha obrigação como brasileiro, e com tantos policiais sérios que enfrentaram aquelas hordas de alimárias, era enfrentar aquilo e fisicamente se necessário”, afirmou o ministro.

Alimária significa "animal irracional", ou seja, ele chamou os golpistas de estúpidos.

2. "Acaba de entrar para o meu livro de memórias"

Acusado de ter mais de 277 processos na justiça, Dino afirmou que ia tratar o questionamento do deputado André Fernandes (PL-CE) como piada.

"Eu vou contar, sou professor de direito e vou contar para os meus alunos como anedota, como piada. O senhor acaba de entrar no meu livro de memórias. Quando bota o nome, não aparece o nome de quem responde ao processo, mas de quem pediu direito de resposta, quem foi requerido, quem registrou a candidatura, quem prestou contas à Justiça Eleitoral, testemunha de processo. A essas alturas, dizer com base no Jusbrasil que respondo a 277 processos, se insere no mesmo continente mental de quem acha que a terra é plana, mais ou menos. E eu sei que você não acredita que a Terra e plana"

3. Ministro faz convite à Maré

Um dos temas do embate entre oposição e Dino foi a visita do ministro e ex-governador ao Complexo da Maré. Em uma fala eloquente, o ministro relembrou que políticos só visitam as comunidades e favelas em períodos eleitorais.

“Recebi o convite, já recebi outro e espero outros similares. Sempre irei, porque não é favor, é dever. Não sou traidor dos meus compromissos com a sociedade e farei audiências públicas similares nas comunidades mais pobres e simples do Brasil, porque, afinal, são os destinatários da Segurança Pública”, disse o ministro, que participou como convidado de audiência pública na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania.

“Na próxima, vou convidar os deputados federais para irem comigo, porque não é todo mundo que tem medo das comunidades mais pobres do Brasil”, completou.

4. Dino vs. Rosângela Moro

A deputada federal Rosângela Moro (UB-SP) questionou Flávio Dino acerca das declarações de Lula sobre a Operação Sequaz e abaixou os ânimos da morista sobre um conflito no seio do governo.

"À senhora Rosângela Moro, é um projeto que não conheço, espero que a senhora envie, mas quero dizer algo muito importante, falando no seu coração: Tudo o que eu faço no governo tem a concordância do presidente Lula, absolutamente tudo. Afirmo à senhora, por uma razão simples, eu exerço um cargo de confiança de meu chefe, e todas as ações que adoto, eu comunico ou consulto naquilo que me encaixa. E há uma prova indeclinável disso que estou dizendo: ele não me demitiu ainda. É a prova de que ele confia no meu trabalho. E eu tenho confiança no que o presidente Lula representa ao Brasil", disparou o ministro, arrancando aplausos dos deputados presentes na sessão.

5. "Não estou interessado"

Ele foi questionado por Alfredo Gaspar (UB-AL) sobre sua "macheza", ao citar o fato de que os golpistas do dia 8 de janeiro terem sido presos após o ato.

“Eu acho engraçado a indústria das fake news na política. Fizeram essa ideia de que não tinha escolta policial, o que é mentira. O senhor me pergunta se eu tenho muita macheza. Se o senhor está interessado nesse assunto, eu informo que não estou interessado nesse assunto. Sobre esse aspecto informo ao senhor: eu não tenho medo de ninguém e nem de nada”, disse o ministro.

6. "Não quebre o microfone"

Também durante o questionamento de André Fernandes (PL-CE), Dino relembrou o ataque de fúria do parlamentar contra o microfone da Câmara.

"O senhor, inclusive, é investigado no Supremo. Não quebre o microfone, por favor", disse.

7. "Eu sou obrigado a ler a Folha?"

A deputada Carolina de Toli questionou por que a Dino não processou a Folha de São Paulo. “Quero saber se o senhor já processou a Folha de S.Paulo por fake news?”, quis saber a deputada Carolina de Toli (PL-SC). “Li aqui a matéria e a Folha não afirma que eu recebi. Então não posso processar a Folha. Eu sei ler”, respondeu Dino

 

       Flávio Dino se pronuncia após deixar bolsonaristas desorientados na CCJ da Câmara

 

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino, foi às redes sociais na manhã de quarta-feira (29) e se pronunciou sobre sua participação na audiência na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), na Câmara Federal, nesta terça-feira (28), quando foi convidado a falar sobre os atos terroristas de 8 de janeiro e também sobre sua visita ao Complexo da Maré, usado pela extrema-direita para criminalizar a população da comunidade na periferia do Rio de Janeiro.

Sereno e com pitadas de ironia, Dino deixou bolsonaristas desorientados ao responder argumentos rasos de deputados da extrema-direita, como André Fernandes (PL-CE), que falou como líder do partido e usou dados do site JusBrasil para fazer acusações levianas contra o ministro, que desmontou em resposta certeira todos os argumentos.

Em publicação no Twitter, Dino compartilhou uma foto em que levanta a Constituição Federal para agradecer à oportunidade de prestar os devidos esclarecimentos.

"Estive ontem na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. Agradeço pela oportunidade de expor as ações do Ministério da Justiça e Segurança Pública, sob comando do presidente @LulaOficial. Muito obrigado àqueles deputados que agiram com respeito à Constituição e ao Regimento", escreveu Dino, demonstrando mais uma vez lealdade ao presidente Lula, como fez na resposta à deputada Rosângela Moro (União-PR).

Dino também agradeceu aos seguidores nas redes sociais e as mensagens de solidariedade. "Em tempos e territórios áridos, agradeço às milhares de mensagens e postagens de solidariedade, que me alegraram muito. Estamos juntos e de mãos dadas. O sorriso é uma arma fundamental em defesa da democracia e contra as bizarrices fascistas".

 

Fonte: Socialista Morena/Fórum

 

Donald Trump responderá criminalmente a processo que envolve atriz pornô

O ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump se tornou réu pela acusação de suborno supostamente feito a uma atriz pornô pouco antes das eleições presidenciais de 2016.

Os detalhes das acusações que ele enfrentará na Justiça ainda não foram divulgados.

Um grande júri votou para que ele responda formalmente por acusações criminais, depois de uma investigação sobre o pagamento de US$ 130.000 para Stormy Daniels — o que seria uma tentativa de comprar o silêncio dela sobre um suposto caso sexual entre os dois.

Trump nega as acusações.

Ele é o primeiro ex-presidente dos Estados Unidos a enfrentar acusações criminais.

O promotor distrital de Manhattan, Alvin Bragg, que vem participando das investigações, confirmou que já entrou em contato com a defesa de Trump para negociar os próximos passos.

O ex-presidente mora na Flórida e deve viajar para a cidade de Nova York para sua primeira audiência. Ele também deve ter suas impressões digitais coletadas e uma foto tirada, como todos os réus em processos criminais.

Em um comunicado, Trump atacou o promotor de Manhattan, chamando-o de "desgraça" e acusando-o de "fazer o trabalho sujo de Joe Biden [o atual presidente, democrata]".

"Os democratas mentiram, trapacearam e roubaram em sua obsessão de tentar 'pegar Trump', mas agora eles fizeram o impensável — acusar uma pessoa completamente inocente em um ato de flagrante interferência eleitoral", disse o ex-presidente.

A advogada de Trump, Susan Necheles, acrescentou em um comunicado: "Ele não cometeu nenhum crime. Lutaremos vigorosamente contra esse processo político no tribunal".

Atualmente, no Partido Republicano, Trump é o claro favorito entre os candidatos declarados e potenciais para a indicação à corrida pela Casa Branca em 2024.

De todo modo, não há nada na lei americana que impeça um candidato considerado culpado de um crime de fazer campanha e servir como presidente — mesmo da prisão.

O promotor Bragg, que é registrado como democrata, negou buscar uma vingança política contra Trump.

“Avaliamos os casos em nossa jurisdição com base nos fatos, na lei e nas evidências”, tuitou ele no início deste mês.

Trump está sendo investigado em vários outros casos, como sobre seu papel no ataque ao Capitólio dos Estados Unidos em janeiro de 2021, seus esforços para reverter sua derrota no Estado da Geórgia na eleição de 2020 e o manuseio de documentos confidenciais.

·         O caso Stormy Daniels

A acusação formal decorre da alegação de que Trump orientou seu então advogado Michael Cohen a subornar Stormy Daniels duas semanas antes da eleição presidencial de 2016.

Daniels disse que teve um encontro sexual com Trump em um hotel de Lake Tahoe em 2006 — um ano depois que ele se casou com sua atual esposa, Melania.

Cohen disse no tribunal que fez o acordo de US$ 130.000 "em coordenação e sob a direção" do ex-presidente. Cohen foi preso de 2018 a 2020 por várias acusações.

Após a notícia desta quinta-feira, Daniels agradeceu a seus apoiadores.

"Tenho tantas mensagens chegando que não posso responder... também não quero derramar meu champanhe", tuitou ela.

 

Ø  Trump diz que acusação contra ele é “perseguição política”

 

Após ser formalmente acusado de ter cometido crime no caso do suposto pagamento de suborno a uma atriz pornô, o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump se manifestou e chamou a decisão judicial de “perseguição política e interferência eleitoral no nível mais alto da história”.

Trump acusou os democratas –seus rivais na política norte-americana– de estarem por trás de decisão de um grande júri de Manhattan, em Nova York, que aceitou a abertura do processo contra o republicano.

“Os democratas mentiram, trapacearam e roubaram em sua obsessão em tentar ‘pegar Trump’, mas agora eles fizeram o impensável –indiciar uma pessoa completamente inocente em um ato de flagrante interferência eleitoral”, afirmou o ex-presidente em uma nota publicada em suas redes sociais.

Ainda de acordo com Trump, “nunca antes na história de nossa nação isso foi feito”. “Os democratas trapacearam inúmeras vezes ao longo das décadas, inclusive espionando minha campanha, mas armar nosso sistema de Justiça para punir um oponente político, que por acaso é [ex] presidente dos Estados Unidos e, de longe, o principal candidato republicano à presidência, nunca aconteceu antes”, acrescentou.

O ex-presidente disse ainda que o promotor distrital de Manhattan, Alvin Bragg, que coordena a investigação contra ele, foi “escolhido a dedo e financiado por George Soros”, em referência ao bilionário de origem húngara.

“Em vez de impedir a onda de crimes sem precedentes que toma conta da cidade de Nova York, ele [Bragg] está fazendo o trabalho sujo de Joe Biden [atual presidente dos EUA], ignorando os assassinatos, roubos e agressões nos quais ele deveria se concentrar. É assim que Bragg passa seu tempo!”

Por fim, Trump disse acreditar que “esta caça às bruxas vai sair pela culatra” e atingir Joe Biden. “O povo americano percebe exatamente o que os democratas de esquerda radical estão fazendo aqui. Todos podem ver.”

“Derrotaremos Joe Biden e expulsaremos cada um desses democratas desonestos do cargo para que possamos FAZER A AMÉRICA GRANDE NOVAMENTE!”, finalizou.

·         Entenda o caso

Stephanie Clifford, estrela de cinema adulto conhecida como Stormy Daniels, é uma das figuras centrais no processo contra Donald Trump. O republicano está sob investigação por seu papel em um esquema de suborno para Daniels.

No fim de outubro de 2016, dias antes da eleição presidencial daquele ano, o então advogado pessoal de Trump, Michael Cohen, fez um pagamento de US$ 130 mil a Daniels para supostamente impedi-la de tornar público um suposto caso com o ex-presidente uma década antes. Trump negou o caso.

O advogado efetuou o pagamento com recursos próprios e posteriormente recebeu um reembolso que Donald Trump alegou ser de seu dinheiro e não da campanha presidencial.

Em 2018, ela publicou um livro no qual descrevia explicitamente o suposto caso com Trump.

O então advogado da estrela do cinema adulto disse que o livro pretendia provar que sua história sobre fazer sexo com Trump é verdadeira.

 

Ø  Entenda sequência de eventos que levou ao indiciamento de Donald Trump

 

O ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foi indiciado nesta terça-feira (21) no caso envolvendo a atriz pornô Stormy Daniels. A decisão deve ser anunciada pela promotoria nos próximos dias.

Esta é a primeira vez na história dos EUA que um ex-presidente é acusado formalmente.

Abaixo está uma linha do tempo dos eventos que levaram às acusações:

JANEIRO DE 2018

O "Wall Street Journal" relata que Trump arranjou um pagamento de U$ 130.000 para a estrela pornô Stormy Daniels em outubro de 2016 para impedi-la de discutir um encontro sexual que ela disse ter tido com Trump em 2006.

Trump sempre negou ter um caso com Daniels, cujo nome verdadeiro é Stephanie Clifford.

FEVEREIRO DE 2018

Michael Cohen, ex-advogado particular e assessor de Trump, diz que pagou Daniels usando seu próprio dinheiro e não foi orientado pela empresa ou campanha de Trump para fazer o pagamento. Ele disse que Trump nunca o reembolsou.

Cohen mais tarde contradizia ambas as declarações sob juramento, afirmando que Trump de fato o orientou a fazer o pagamento e o reembolsou.

FEVEREIRO DE 2018

A revista "New Yorker" relata que Trump teve um caso com a modelo da Playboy Karen McDougal de 2006 a 2007. A revista disse que a American Media Inc, editora do tablóide "National Enquirer", pagou a McDougal U$ 150.000 logo depois que Trump se tornou o candidato republicano à presidência em 2016 por exclusividade direitos sobre sua história.

O "National Enquirer" nunca publicou a história.

ABRIL 2018

Trump, quando questionado por repórteres se sabia sobre o pagamento a Daniels, respondeu: "Não". Questionado sobre por que Cohen fez o pagamento, Trump disse: "Você terá que perguntar a Michael Cohen".

MAIO 2018

Em uma divulgação ética, Trump reconhece ter reembolsado Cohen pelos U$ 130.000 pagos por Daniels.

JULHO DE 2018

Rudy Giuliani, um dos advogados pessoais de Trump na época, diz que Cohen gravou uma conversa com Trump dois meses antes da eleição de 2016, na qual os dois discutiram um possível pagamento a McDougal. Trump nega irregularidades e chama a fita de Cohen de "talvez ilegal".

AGOSTO DE 2018

Cohen se declara culpado de acusações criminais no tribunal federal de Manhattan, incluindo violações de financiamento de campanha sobre os pagamentos de dinheiro secreto. Ele testemunhou que Trump o instruiu a fazer os pagamentos "com o objetivo principal de influenciar a eleição".

No indiciamento de Cohen, os promotores dizem que um candidato a um cargo federal conhecido como "Indivíduo-1" providenciou os pagamentos. Trump não foi acusado de um crime. Geoffrey Berman, o principal promotor federal de Manhattan na época, confirmou mais tarde que Trump era o Indivíduo-1.

DEZEMBRO DE 2018

Trump, no Twitter, chama os pagamentos de suborno de "simples transação privada". Em entrevista à Reuters, ele disse que o pagamento a Daniels "não foi uma contribuição de campanha" e "não houve violação com base no que fizemos".

AGOSTO DE 2019

Cyrus Vance, o promotor distrital de Manhattan na época, emite uma intimação à Organização Trump — a empresa imobiliária da família de Trump — para registros de pagamentos de dinheiro secreto.

JULHO 2021

O escritório de Vance indicia a Organização Trump e seu principal executivo financeiro por acusações de fraude fiscal. O próprio Trump não é acusado de nenhum crime, e a acusação não contém referências a pagamentos clandestinos.

FEVEREIRO DE 2022

Dois dos principais promotores que lideram a investigação sobre as práticas comerciais de Trump renunciam. Um dos promotores, Mark Pomerantz, disse mais tarde que sua renúncia ocorreu depois que Alvin Bragg — que substituiu Vance como promotor distrital — indicou a ele que tinha dúvidas sobre prosseguir com um caso contra Trump.

O escritório de Bragg diz que a investigação está em andamento.

DEZEMBRO 2022

A Organização Trump é considerada culpada de fraude fiscal após um julgamento no tribunal do estado de Nova York em Manhattan.

JANEIRO DE 2023

O escritório de Bragg começa a apresentar evidências sobre o suposto papel de Trump nos pagamentos de dinheiro secreto de 2016 a um grande júri.

MARÇO 2023

Os promotores de Manhattan convidam Trump para testemunhar perante o grande júri, o que especialistas jurídicos dizem ser um sinal de que o indiciamento pode ocorrer em breve. Cohen testemunha perante o grande júri.

18 DE MARÇO DE 2023

Trump diz em sua plataforma de mídia social Truth Social que espera ser preso na terça-feira (21 de março) e pede a seus apoiadores que protestem. Um porta-voz de Trump disse que o ex-presidente não foi notificado de nenhuma prisão.

 

Ø  Quem é Stormy Daniels e por que ela é a figura-chave em processo judicial contra Donald Trump

 

Stephanie Clifford, estrela de cinema adulto conhecida como Stormy Daniels, é uma das figuras centrais em um processo judicial em que o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, acabou indiciado. O republicano está sob investigação por seu papel em um esquema de suborno para Daniels.

No final de outubro de 2016, dias antes da eleição presidencial daquele ano, o então advogado pessoal de Trump, Michael Cohen, fez um pagamento de US$ 130 mil a Daniels para impedi-la de tornar público um suposto caso com o ex-presidente uma década antes. Trump negou o caso.

Em 2018, ela publicou um livro no qual descrevia explicitamente o suposto caso com Trump.

O então advogado da estrela do cinema adulto disse que o livro pretendia provar que sua história sobre fazer sexo com Trump é verdadeira.

No entanto, a publicação também deu detalhes sobre sua vida. Veja abaixo.

·         Quem é Stormy Daniels?

Stephanie Clifford nasceu em Louisiana, estado do sul dos Estados Unidos.

Em seu livro, ela revelou que teve uma difícil infância em meio à pobreza e constante abuso sexual.

Quando adolescente, ela se mudou para a Califórnia por se interessar por entretenimento adulto. Nessa indústria, onde ficou conhecida como Stormy Daniels, Clifford trabalhou como dançarina exótica, atriz, diretora e produtora de filmes pornográficos.

Clifford conta que em 2006 conheceu Donald Trump em um torneio de golfe em Lake Tahoe, Nevada.

Segundo ela, o guarda-costas de Trump a levou para o quarto dele, onde ela esperava jantar com ele, mas depois houve uma relação íntima.

Stormy Daniels garantiu que Trump prometeu incluí-la em seu programa de televisão “O Aprendiz” e por isso ela aceitou ter relações com ele, até que o então empresário lhe confirmou em 2018 que não poderia participar.

Em entrevista à CBS, Daniels revelou que em 2011 negociou para contar à revista In Touch sobre seu relacionamento com Trump em troca de US$ 15.000, mas que o negócio não deu certo porque Michael Cohen ameaçou processar a publicação.

·         O pagamento a Stormy Daniels

Em 2016, em plena campanha presidencial, Cohen negociou um acordo que previa o pagamento de US$ 130 mil para garantir o silêncio de Daniels.

O advogado efetuou o pagamento com recursos próprios e posteriormente recebeu um reembolso que Donald Trump alegou ser de seu dinheiro e não da campanha presidencial.

Stormy Daniels quebrou o acordo de silêncio em 2018 com uma entrevista para o “60 Minutes”, onde afirmou ter recebido ameaças para não comentar sobre o relacionamento.

Daniels processou Trump buscando anular o acordo de silêncio, mas o processo foi arquivado e o juiz ordenou que ela pagasse quase US$ 300.000 em custos legais incorridos por Trump.

 

Fonte: BBC News Brasil/CNN Brasil/g1

 

Sealand, a plataforma de guerra que virou o 'menor país do mundo'

Esta história começa com um e-mail que eu nunca vou esquecer.

Numa manhã de primavera no final de maio, o príncipe Michael de Sealand, líder de uma micronação chamada Principado de Sealand, me enviou uma mensagem com cinco palavras bem claras: “Você pode falar comigo”.

Foi um prólogo particularmente curto para uma história quase inacreditável que me levaria a uma jornada por reinos de monarcas autoproclamados, reivindicações territoriais, anomalias históricas e grandes guerras.

E, por mais improvável que pareça, pela história de estações de rádio piratas e pesca de mariscos.

Outro dado importante sobre essa troca é que me ela me empolgou. Eu nunca tinha recebido um e-mail de um príncipe antes e era improvável que acontecesse novamente.

·         Terra do Mar

Claro, eu conhecia a história de Sealand (ou terra do mar, em tradução livre) - um minúsculo principado na costa inglesa de Suffolk que afirma ser o menor país do mundo. A micronação, na verdade uma solitária plataforma de defesa antiaérea da Segunda Guerra Mundial, foi erguida em 1942 como HM Fort Roughs, nome dado ao forte marítimo armado situado fora do então limite territorial da Grã-Bretanha no Mar do Norte.

Depois de reunir até 300 membros da Marinha Real no auge da guerra e ser completamente evacuado após 1956, o posto de armas foi abandonado e ficou em ruínas.

Foi assim até 1966, quando um ex-major do Exército britânico ocupou o espaço, dando origem a uma nação minúscula.

Hoje, o território permanece a 12 km da costa inglesa e é visível apenas de barco. A vista não é nada especial: uma plataforma de aparência semidestruída com um punhado de estruturas semelhantes a contêineres no topo. Para desembarcar, é preciso ser içado por um guindaste em meio a ventos fortes e muitas ondas.

Mas havia muito mais que eu não sabia.

Histórias sobre ataques de helicópteros ao amanhecer, por exemplo. Outras sobre gângsters e uma tentativa de golpe por obscuros empresários europeus. Ou mesmo uma revelação de um documento que perdeu o status de secreto do governo do Reino Unido descrevendo a fronteira como uma “Cuba ao largo da costa leste da Inglaterra”.

Tudo parecia o enredo de um filme nascido da caneta de um roteirista de Hollywood: da determinação de uma família trabalhadora de Essex que transformou este posto avançado em uma micronação à concretização de um sonho.

Aqui, neste local solitário no Mar do Norte, eles conquistaram a liberdade e fizeram reinar a excentricidade britânica - com toda a sua pompa e ostentação.

·         ’Não esperamos nada’

Quatro dias depois do e-mail, o príncipe Michael de Sealand atendeu minha ligação. O líder da micronação estava munido de histórias fascinantes, muitas dos quais aparecem em seu livro de memórias. Ele estava pronto para divulgar a história de Sealand, que em grande parte permanece desconhecida pelo resto do mundo.

“Eu tinha só 14 anos quando vim para cá pela primeira vez em minhas férias escolares de verão para ajudar meu pai. Eu achava aquela seria apenas uma aventura de seis semanas”, afirmou, falando de sua casa principal, um bangalô na costa de Essex.

“Certamente não pensei que seria uma história que se prolongaria por mais de 50 anos. Foi uma criação estranha, pois às vezes ficávamos meses a fio esperando o barco trazer suprimentos do continente. Eu olhava para o horizonte e tudo que eu conseguia ver desde a manhã até a noite era o Mar do Norte.”

Essa nostalgia não deve ofuscar as complexidades geopolíticas que contestam a existência de Sealand. Nenhum país do mundo reconhece formalmente Sealand.

O Príncipe Michael, por sua vez, diz que a micronação nunca pediu reconhecimento.

 “Também não esperamos nada”, disse ele, sem rodeios. “Lembre-se que a plataforma foi construída ilegalmente fora das águas territoriais britânicas durante um tempo de guerra - mas todos estavam ocupados demais para se importar com isso. Os britânicos deveriam tê-la destruído quando eles tiveram chance, mas nunca chegaram a tal. Hoje, décadas depois, Sealand ainda está aqui.”

·         Comunidade de micronações

Em virtude de seu tamanho - apenas 0,004 km2 no caso de Sealand - as micronações exigem que uma redefinição em nosso senso de escala.

Mas o que atrai as pessoas a criarem seus próprios países? Para George Dunford, coautor de um guia sobre “nações feitas em casa” (Micronations: The Lonely Planet Guide to Home-Made Nations), trata-se de uma combinação entre insatisfação com governos e vontade de ”querer fazer as coisas à sua maneira".

“Sealand é um caso especial porque se safou por muito tempo e conseguiu evitar o cumprimento das leis”, disse Dunford.

“Nos Estados Unidos, a família seria vista como dissidente, mas o Reino Unido era um lugar mais tolerante na década de 1960 - e os burocratas provavelmente pensaram que seria mais problemático do que positivo atacar o problema. Eles fizeram algumas tentativas e houve empreitadas de resgate, mas o território sobreviveu. Sealand é um verdadeiro sobrevivente da comunidade de micronações.”

Como regra, a maioria das micronações teve seu reconhecimento legal em 1933, quando a Convenção de Montevidéu sobre os Direitos e Deveres dos Estados foi assinada por líderes internacionais, incluindo o então presidente dos Estados Unidos, Franklin D Roosevelt. Nela, a legislação estabelece quatro critérios principais para a condição de Estado.

 “A Convenção de Montevidéu é comumente usada para definir uma micronação, que requer uma população, território, governo e relações com outros Estados”, explicou Dunford.

“É o último que torna as micronações mais eufóricas, porque elas muitas vezes tentam fazer com que outros Estados as reconheçam. Sealand, por sua vez, evita isso dizendo que é um Estado soberano com seu próprio governante. ”

·         História

Cada nação tem sua complicada história de origem, e a de Sealand é mais kafkiana do que a maioria.

Tudo começa em 1965 quando o pai do príncipe Michael, Paddy Roy Bates, um ex-major do Exército britânico que se tornou pescador, começou a Radio Essex. Essa estação de rádio pirata estava localizada ao largo da costa em Knock John, outro forte naval abandonado perto de HM Fort Roughs.

A popularidade das estações offshore ilegais na época era tamanha que o governo do Reino Unido lançou a Lei de Crimes de Transmissão Marítima de 1967. O propósito era encerrar todas as rádios.

Nesse contexto, Bates decidiu mudar sua operação para o HM Fort Roughs - mais distante da costa e, o que é mais importante, em um local de águas internacionais disputadas. Como Knock John, a plataforma não tinha inquilinos e estava em estado de total abandono.

Legalmente ou não, Bates assumiu o controle do posto avançado na véspera de Natal de 1966. Nove meses depois, em 2 de setembro de 1967, ele o declarou Principado de Sealand - um gesto romântico no aniversário de sua esposa Joan. Pouco depois, toda a família se mudou para lá.

Em seu auge, no início da década de 1970, Sealand tinha 50 pessoas morando na plataforma, incluindo parentes, amigos e pessoal de manutenção.

Ao mesmo tempo, tornou-se um símbolo improvável de protestos anti-autoridades no Reino Unido - mas, nos bastidores, a operação era executada de maneira boêmia e em um nível político bem mais básico.

·         E Mare, Libertas

“Nada funcionou”, disse o príncipe Michael. “Começamos com velas e depois atualizamos para lâmpadas e geradores de bombeamento. O bom é que o lugar é seco como um barco; se você não soubesse que estava suspenso no mar, nunca suspeitaria. Passei anos e anos lá - você sabe, era meu lar. ”

De lá para cá, o Estado artificial abraçou a ideia de nação. Introduziu seu próprio brasão e constituição. Tem bandeira, time de futebol e hino. A moeda traz o retrato da “Princesa Joana” e cerca de 500 passaportes foram emitidos. O lema da micronação, sobre o qual o príncipe Michael e seus três filhos (James, Liam e Charlotte) e a segunda esposa (Mei Shi, uma ex-major do Exército de Libertação do Povo Chinês) continuam a dinastia Sealand, reflete o amor pela independência.

“E Mare, Libertas” está escrito. Ou “Do mar, liberdade”.

“Meu pai nunca planejou abrir seu próprio país”, explicou o príncipe Michael, que também é dono de uma empresa de pesca de mariscos que exporta frutos do mar para a Espanha.

“Ele ficou principalmente ofendido com o governo do Reino Unido, que queria fechar sua estação de rádio pirata. E desde então, lutamos contra o governo britânico - e vencemos. Sealand ainda mantém sua independência. ”

·         Mercenários

O episódio mais polêmico da história de Sealand aconteceu em 1978, quando um grupo de mercenários alemães e holandeses invadiu Sealand em uma noite de agosto. Os invasores foram capturados e mantidos presos sob a mira de armas pela família Bates.

“Isso fez com que o embaixador alemão e uma delegação oficial viessem de helicóptero da embaixada em Londres para negociar a libertação”, disse o príncipe Michael com indiferença, minimizando o incidente.

“Então, ao negociar, eles acabaram nos dando o reconhecimento de fato.”

Mas a independência custa caro. Para financiar os custos operacionais de Sealand - incluindo os dois seguranças em tempo integral que vivem na micronação o ano todo - a loja online de Sealand vende camisetas, selos e títulos reais. Um título de nobreza de Lorde, Lady, Barão ou Baronesa custa 29,99 libras (ou aproximadamente R$ 210).

As normas usuais de alfândega e imigração também não se aplicam, é claro. Só é possível fazer uma visita com um convite oficial do príncipe, que vai até lá três vezes por ano.

Além do pequeno contingente, ninguém mora em Sealand atualmente.

“Sealand sempre lidou com a precariedade mas o príncipe atual administra o lugar com mais equilíbrio hoje em dia”, disse Dunford. “É isso que adoro nas micronações. A forma como eles parodiam a pompa do nacionalismo real é fabulosa.”

Por exemplo, Sealand recebe mais de 100 e-mails por dia com pedidos de aspirantes a cidadãos vindo de Nova Déli a Tóquio para jurar fidelidade à bandeira.

“Nossa história ainda estimula as pessoas”, concluiu Michael. “Não vivemos em uma sociedade onde as pessoas gostam de ouvir o que fazer. Todo mundo adora a ideia de liberdade e autonomia do governo. O mundo precisa de territórios inspiradores como o nosso - e não existem muitos lugares como este.”

 

Ø  Ilha de Lamb: os mistérios que deram origem à mais nova candidata a micronação

 

Conta-se que, quando Robert Louis Stevenson escreveu o clássico livro de aventuras A Ilha do Tesouro, ele se inspirou nas visitas que fez quando criança à ilha de Fidra, que faz parte de um conjunto de três afloramentos rochosos no estuário do rio Forth, no litoral da Escócia.

Mas o jovem Stevenson não conhecia os mitos, lendas e mistérios atribuídos a uma outra ilha do estuário perto da cidade de North Berwick.

Localizada a apenas 1,9 km a leste de Fidra, a ilha conhecida como Lamb ("Cordeiro") sempre atraiu pouca atenção, exceto pelos canoístas, observadores de pássaros ocasionais e voluntários da vida selvagem.

Mas pode vir a tornar-se uma ilha do tesouro da vida real. Pelo menos, é o que indica seu exótico dono - o lendário, carismático e controverso místico Uri Geller, famoso por dobrar colheres na televisão, nos anos 1970.

Treze anos após a compra da ilha, Geller - mestre dos gestos grandiosos - decidiu elevar o status de Lamb de ilha particular na Escócia para país independente, com bandeira, constituição e hino.

Enquanto a Escócia segue ocupada debatendo seu próprio caminho para uma possível independência do Reino Unido, o surgimento da "República de Lamb", com o tamanho de um campo de futebol, significa que seu gigante vizinho, em tese, ficou um pouco menor.

"Lamb é um lugar único", afirma Geller, na sua casa na Cidade Velha de Jaffa, em Israel, "e merece ter sua própria identidade. Esta é uma forma adequada de fazê-lo."

A ilha de Lamb não é a primeira micronação do mundo, como são chamados esses países minúsculos. Já houve dezenas delas com independência declarada desde o século 19. Algumas delas são sérias, mas muitas não são.

Algumas chegaram a criar seus próprios selos, moedas e cidadanias. Um exemplo foi o Reino de Lovely, inspirado em um programa de TV e com sede em um apartamento no leste de Londres. Ele teve vida curta, mas pode reivindicar o título de micronação com o maior número de cidadãos, com mais de 58 mil pessoas inscritas online.

Geller também oferece cidadania da ilha de Lamb a quem se interessar. Toda a renda será doada para a organização israelense Save a Child's Heart, que cuida de crianças com problemas cardíacos em todo o mundo.

Ele afirma que Lamb deve ser um símbolo de paz, e a única exigência para a cidadania é a "disposição de viver em harmonia com os compatriotas de Lamb".

Mas não é permitido morar na ilha. Seus únicos habitantes são os papagaios-do-mar, airos e outras aves marítimas. E, até recentemente, um rato solitário.

"Sempre quis ter minha ilha, ser como James Bond", afirma Uri Geller, agora com 75 anos de idade. Ele ouviu falar de Lamb pela primeira vez quando soube que a ilha estava à venda pelo jornal.

Mas foi a curiosa - alguns diriam duvidosa - afirmação de um pesquisador de história amador que capturou a imaginação de Geller e o convenceu a comprar a ilha. Segundo o escocês Jeff Nisbet, Lamb apresenta semelhanças inexplicáveis com as pirâmides de Gizé, no Egito.

Na verdade, Nisbet não foi o primeiro a defender possíveis ligações entre a Escócia e o antigo Egito. Uma crônica escocesa do século 15, descrita pela Biblioteca Nacional da Escócia como "provavelmente o mais importante relato medieval do início da história escocesa", afirma que o Egito foi responsável pela criação do país.

A crônica - chamada Scotichronicon - afirma que a Escócia, na verdade, foi fundada pela princesa Scota, filha exilada do faraó cujo exército, no relato bíblico, afundou ao perseguir Moisés e os israelitas através do Mar Vermelho.

Um personagem notável que considera essa história muito importante é o magnata Mohamed Al Fayed, nascido no Egito, que mora no Reino Unido desde meados dos anos 1960. Al Fayed é um apoiador fervoroso da independência escocesa e já se ofereceu para ser o primeiro presidente de uma possível Escócia independente.

Antigo dono da loja de departamentos de luxo Harrods, em Londres, Al Fayed guardava uma cópia da Scotichronicon no seu escritório. Quando conheceu Geller, perto de 2010, contou a ele entusiasticamente tudo sobre a crônica - e depois presenteou Geller com outra cópia.

Uri Geller afirma que, até onde se lembra, Al Fayed contou a ele a história de que Scota ancorou seu navio na costa de Lamb e ali enterrou um tesouro. Não há evidências que documentem esta história, mas Geller, que supostamente fez fortuna com prospecção para companhias petrolíferas e mineradoras usando a antiga prática da radiestesia, afirma que empregará o mesmo método para procurar o tesouro.

Como Lamb faz parte de uma Área de Proteção Especial, escavar está fora de questão - mas uma equipe de arqueólogos de campo se voluntariou para explorar a ilha.

O tesouro não é a única coisa que Lamb tem a oferecer. Geller, que se autodescreve como místico, acredita que os ossos das vítimas dos infames julgamentos de bruxaria de North Berwick nos anos 1590 podem também ter acabado ali, transportados do continente por autoridades supersticiosas. Mas especialistas afirmam que todas as evidências conhecidas apontam para o enterro dos restos mortais perto do local onde as vítimas foram queimadas.

Um dos objetos preferidos de Geller no seu museu em Jaffa é um antigo conjunto de seis esferas de vidro fino pintadas de verde, prata e ouro, conhecidas como as bolas das bruxas. Esse tipo de objeto era pendurado nas casas das ilhas britânicas no século 17 para afastar espíritos malignos.

·         'Sincronicidade'

A ideia de tornar Lamb uma micronação ocorreu para Uri Geller depois de estudar a possibilidade de comprar o título de barão que vem com o território que, historicamente, incluía a ilha.

Mas Lamb foi excluída do baronato quando foi vendida para Geller pelo atual Barão de Dirleton - Camilo Agasim-Pereira, um empresário luso-brasileiro judeu ortodoxo - a quem o título havia sido transferido pelo dono anterior.

"Eu não consegui o título, então decidi fazer melhor e criar meu próprio país", afirma Geller. "Mas o que faz [Lamb ser] particularmente especial são todas essas poderosas e significativas conexões espirituais. Não é um lugar comum."

Algumas dessas conexões foram identificadas por Nisbet, que afirma que Lamb fica em uma confluência de linhas de Ley - supostos caminhos de energia que ligam locais com significado histórico. Uma dessas linhas segue direto através de Lamb desde a ilha de May - o local onde supostamente está enterrado o lendário rei Artur - até a colina de Tara, na Irlanda, considerada um antigo local de coroação de monarcas, repleto de mitologia.

A tradição irlandesa afirma que a famosa Pedra do Destino, ou Pedra da Coroação, foi trazida de Jerusalém para Tara no século 6° a.C. pelo profeta Jeremias e pela filha do último rei de Judá. Esta história foi contada em um discurso na Câmara dos Lordes do Reino Unido por Lorde Brabazon de Tara, em 1951.

Afirma-se que a pedra foi usada como travesseiro por Jacó no relato bíblico e depois guardada no templo do rei Salomão.

Afirma-se que a pedra foi levada da Irlanda por invasores escoceses, antes de ser roubada e trazida para a Inglaterra por ordem do rei inglês Eduardo 1° em 8 de agosto de 1296. Esta foi a data escolhida por Uri Geller "em reconhecimento da gloriosa história da Escócia" para declarar a independência de Lamb.

Geller também acredita que há um sinal na curiosa descoberta feita pelos arqueólogos embaixo da construção da era otomana que agora abriga o seu museu, na Cidade Velha de Jaffa.

Entre centenas de artefatos, eles desenterraram um tijolo escocês de Forth, produzido no litoral da ilha de Lamb, depois que ele afirmou ter sentido algo enterrado no local, usando suas declaradas capacidades de radiestesia. Geller chama a descoberta do tijolo de "sincronicidade".

É possível afirmar que a sincronicidade também fez parte da busca de Uri Geller por um hino para seu Estado "semi-independente" (ele afirma que não se trata de um ato político e que as leis do seu novo país serão as mesmas já em vigor antes da sua criação).

Em 2021, o telepata escocês Drew McAdam, amigo de Geller - do condado escocês de East Lothian, que inclui a ilha de Lamb - fez a primeira gravação de uma música chamada Our Land ("Nossa terra", em tradução livre). Ela foi composta pelo seu bisavô James Russel em 1909 e agora tinha uma nova letra.

"Cerca de dois dias depois, Uri perguntou se eu conhecia algum compositor, pois ele estava procurando um hino para sua ilha... e ele [o hino] estava ali, apenas esperando", afirma McAdam, que ofereceu a música para Geller. "Estava feliz apenas por ouvir a melodia depois de todos esses anos e adoro [saber] que ela está sendo usada neste tremendo projeto perto de casa."

Desde então, McAdam descobriu que seu bisavô, que morreu em 1928, está enterrado no cemitério Larkhall, no sudeste de Glasgow, na Escócia. E, por sugestão de Geller, ele planeja tocar o hino (agora com o nome My Island, "Minha ilha") no túmulo de Russell.

Uri Geller ficou em Lamb por uma noite em 2010 com seu cunhado Shipi Shtrang e com o aventureiro Andy Strangeway, conhecido por ter dormido em todas as 162 ilhas da Escócia. Geller descreveu aquele pedaço de rocha basáltica como "duro, congelante e desconfortável - mas [a experiência] valeu todas as dores".

Os navios não conseguem ancorar em Lamb, o que lhe valeu o apelido macabro de "ilha do suicídio", já que todos os que se aventuram por ali acabam encalhando. O trio foi recolhido no dia seguinte. Geller deixou na ilha um cristal que pertenceu a Einstein, como marca da sua visita.

Lamb não é a única ilha particular do estuário do rio Forth. A ilha de Fidra pertence à Sociedade Real de Proteção das Aves, enquanto Craigleith e Bass Rock pertencem à família aristocrática Dalrymple há séculos.

"Quando levo as pessoas a passeio, o fato de que Uri Geller é o dono de Lamb é sempre o que causa maiores reações", diz o veterano comandante local Dougie Ferguson, que passou décadas cruzando as ilhas e trabalhando nas águas do estuário com seu barco, o Braveheart.

"Conheci todos os donos anteriores e nunca havia ouvido falar da ligação com as pirâmides de Gizé. Mas são áreas importantes para a vida selvagem e, se isso traz as pessoas para ver, só pode ser bom", afirma ele.

 

Fonte: Por Mike MacEacheran, para BBC Travel/BBC News