sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Carlos Alberto Soares de Freitas: a trajetória de um desaparecido político

Em 12 de agosto de 1939, nascia o guerrilheiro Carlos Alberto Soares de Freitas, integrante da luta armada contra a ditadura militar brasileira (1964-1985).

Estudante da UFMG, Carlos ajudou a organizar as Ligas Camponesas e a criar a primeira associação de favelas de Belo Horizonte. Ele foi fundador e dirigente de algumas das mais importantes organizações revolucionárias dos anos 60, incluindo a Política Operária (POLOP), o Comando de Libertação Nacional (COLINA) e a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares.

Carlos Alberto foi preso em fevereiro de 1971 por agentes do DOI-CODI. Testemunhas confirmaram que o militante foi torturado e assassinado na Casa da Morte de Petrópolis. Os restos mortais nunca foram encontrados e Carlos permanece até hoje como um dos desaparecidos políticos da ditadura.

<><> Juventude, formação e início da militância

Natural de Belo Horizonte, Carlos Alberto Soares de Freitas era o caçula dos oito filhos de Alice Soares e Jayme Martins de Freitas. Ainda pequeno, mudou-se com a família para Teófilo Otoni, onde estudou no Colégio São Francisco e no Grupo Escolar Manoel Esteves. Posteriormente, retornou à capital mineira, cursando o ensino secundário nos colégios Anchieta e Tristão de Ataíde.

“Beto”, como era conhecido por familiares e amigos, era um jovem carinhoso, generoso, divertido e imbuído de sensibilidade artística. Tocava violão e apreciava cinema, literatura e teatro. Em 1961, já com 21 anos, ele ingressou no curso de Sociologia e Política da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais (FACE-UFMG).

A entrada de Carlos na universidade ocorreu em um momento de intensa efervescência política no Brasil. O trabalhista João Goulart havia acabado de assumir a presidência, encontrando forte resistência dos militares e dos setores conservadores. Estudantes, sindicatos e movimentos sociais se engajavam na defesa das reformas de base e denunciavam a articulação golpista em curso.

Durante a graduação, Carlos se aproximou do movimento estudantil e se filiou ao Partido Socialista Brasileiro (PSB). Ele também foi um dos membros fundadores da Organização Revolucionária Marxista Política Operária (POLOP), agremiação que pretendia construir uma alternativa revolucionária ao reformismo do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e ao nacional-desenvolvimentismo predominante na esquerda trabalhista.

As atividades políticas se tornaram a grande prioridade de Carlos ao longo dos anos 60. Ele contribuiu para a implementação das Ligas Camponesas em Minas Gerais e ajudou a organizar a primeira associação de favelas de Belo Horizonte. Em 1962, como delegado da POLOP, viajou para Cuba a fim de participar das comemorações do terceiro aniversário da revolução. A capacidade de mobilização popular que observou na ilha o impressionou e reforçou sua convicção na luta revolucionária como instrumento de transformação da sociedade.

<><> Do golpe de 1964 à clandestinidade

As tensões políticas iniciadas desde a ascensão de João Goulart à presidência chegaram ao ápice em 1º de abril de 1964, quando um golpe de Estado pavimentou o caminho para a instauração da ditadura militar. O regime logo iniciou a repressão contra as organizações de esquerda, os sindicatos e o movimento estudantil.

Em 26 de julho de 1964, poucos meses depois do golpe, Carlos foi preso em Belo Horizonte, enquanto pichava muros em protesto contra o embargo imposto pelos Estados Unidos a Cuba. Inicialmente detido na sede do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), o jovem foi posteriormente transferido para a Penitenciária Agrícola de Ribeirão das Neves. Permaneceu encarcerado por 98 dias, sendo libertado em novembro de 1964 por força de habeas corpus.

Longe de intimidar o estudante, a prisão serviu apenas para reafirmar a crença de Carlos na necessidade de fomentar a luta popular. Em 1965, ele participou da reorganização do PSB em Minas Gerais, sendo indicado para o Comitê Executivo do partido. No mesmo ano, tornou-se integrante da direção nacional da POLOP. Em parceria com Inês Etienne Romeu, ele fundou o bar “Butcheco”, que se tornou um tradicional ponto de encontro de intelectuais e militantes de esquerda em Belo Horizonte.

Carlos também desenvolveu intensa atividade intelectual nos anos 60, escrevendo regularmente para o jornal operário “O Piquete” e para as revistas “Mosaico” e “América Latina”. Destacado por seu preparo teórico e conhecimento sobre o marxismo-leninismo, ele se dedicava à formação política dos militantes da POLOP. Entre seus “tutorados” esteve Dilma Rousseff, então uma estudante secundarista de Belo Horizonte. Foi Carlos quem orientou Dilma nos estudos das obras de Karl Marx, Lenin, Leon Trotsky e Rosa Luxemburgo.

A situação jurídica de Carlos se agravou em 1967, quando ele foi julgado pela Auditoria da 4ª Circunscrição Judiciária Militar, no processo referente à pichação. Sem comparecer em juízo para apresentar sua defesa, o jovem foi condenado à revelia, recebendo uma sentença de dois anos de prisão. Com seu nome incluído nas listas do regime, Carlos foi forçado a atuar na clandestinidade.

<><> COLINA e VAR-Palmares

Ainda em 1967, em meio aos debates sobre a estratégia revolucionária a ser adotada sob a ditadura militar, Carlos e outros militantes de Minas Gerais se desligaram da POLOP e fundaram o Comando de Libertação Nacional (COLINA). Em São Paulo, outro grupo de dissidentes da POLOP se fundiria com o Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), dando origem à Vanguarda Popular Revolucionária (VPR).

Na nova organização, Carlos defendeu a criação de ações que ajudassem a engajar os movimentos populares na luta contra o regime. Ele adotou o pseudônimo “Fernando Ferreira” e ajudou a elaborar vários documentos internos e análises políticas que serviam de lastro às ações da agremiação.

O COLINA teve papel central na articulação da célebre Greve de Contagem, a primeira grande paralisação operária contra o arrocho salarial imposto pela ditadura. O grupo também foi responsável pela execução do ex-oficial nazista Otto Maximilian von Westernhagen, morto por engano em uma operação que tinha como alvo o capitão Gary Prado, responsável pela captura de Che Guevara na Bolívia.

Respondendo à expansão da luta armada e à crescente agitação do movimento estudantil, o regime militar intensificou drasticamente a repressão. Em dezembro de 1968, o governo promulgou o Ato Institucional Nº 5 (AI-5), fechando o Congresso Nacional, cassando mandatos e suspendendo diversos direitos civis. A ditadura entrou então em sua fase mais violenta — os chamados “anos de chumbo”, marcados por prisões em massa, tortura e assassinato sistemático de opositores.

A repressão da ditadura atingiu fortemente as organizações ativas na luta armada, enfraquecidas pela prisão de vários militantes. Em julho de 1969, os representantes do COLINA e da VPR decidiram fundir as duas organizações, dando origem à Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares).

Carlos Alberto foi um dos membros fundadores da VAR-Palmares, adotando o codinome “Breno”. Ele integrava o Comando Nacional da organização, ao lado de nomes como Carlos Lamarca, Antonio Roberto Espinosa, Cláudio Ribeiro, Juarez Guimarães de Brito, Maria do Carmo Brito e Carlos Franklin Paixão de Araújo. Mudou-se para o Rio de Janeiro e atuou no recrutamento de militantes, na confecção de propaganda política e na organização de bolsões de resistência.

Apesar de sua existência relativamente curta, a VAR-Palmares organizou diversas operações de levantamento de fundos e de preparação para a guerrilha. A ação de maior repercussão foi, certamente, o assalto ao cofre onde o ex-governador de São Paulo, Ademar de Barros, guardava dinheiro de propinas e esquemas de corrupção. A ação rendeu US$ 2,5 milhões aos revolucionários, utilizados para a aquisição de uma base de treinamento no Vale do Ribeira.

O roubo ao cofre do Ademar colocou a VAR-Palmares na mira dos aparelhos repressivos da ditadura. Entre 1969 e 1970, o regime lançou uma série de ofensivas policiais para desarticular o grupo, resultando na prisão de dezenas de militantes — incluindo Dilma Rousseff, capturada em 1970. No início de 1971, Carlos Alberto era um dos poucos dirigentes da VAR-Palmares que ainda permanecia em liberdade. Seu rosto, no entanto, estava estampado em cartazes de “terroristas procurados” espalhados por todo o país.

<><> Desaparecimento

Carlos desapareceu no dia 15 de fevereiro de 1971. Ele havia deixado o “aparelho” da VAR-Palmares em Ipanema pela manhã, a fim de se encontrar com Sérgio Emanuel Dias Campos, outro membro da organização. Os dois conversaram sobre a permanência temporária de Sérgio no imóvel e combinaram um novo encontro para o mesmo dia. Carlos também instruiu o companheiro a destruir anotações contendo informações de outros integrantes da VAR-Palmares.

Depois da reunião, os dois militantes saíram juntos de ônibus. Carlos desceu na região de Copacabana e Sérgio seguiu viagem rumo ao centro. Às 18h, Sérgio se dirigiu até o Cinema Ópera em Botafogo, o local combinado para a próxima reunião. Carlos, no entanto, não apareceu.

Temendo que o colega tivesse sido capturado, Sérgio foi até o aparelho de Ipanema para destruir as anotações. Quando chegou ao local, encontrou agentes do governo ocupando o imóvel. Ele foi preso e levado para o DOI-CODI, onde foi submetido a um violento interrogatório.

Carlos Alberto nunca mais foi visto. A família soube da prisão por meio de uma carta premonitória escrita por ele mesmo. O documento orientava os pais a insistirem junto às autoridades para tentar obter informações: “No princípio eles negam a prisão. Dizem mesmo que a pessoa não foi presa. Insistam, voltem à carga. Tentem de novo, mais uma vez, outra, gritem, chorem, levem cartas, enfim, não lhes deem sossego.”

Durante meses, a família viveu uma rotina angustiante, mobilizando advogados, apelando às autoridades, realizando um verdadeiro périplo por hospitais, delegacias e unidades militares. Em junho de 1971, Eduardo, um dos irmãos de Carlos, viu a foto do guerrilheiro em um cartaz de “terroristas procurados” em uma delegacia, marcado com um “X”.

As primeiras informações sobre o que ocorreu com Carlos foram fornecidas por Inês Etienne Romeu, sua companheira de militância na VAR-Palmares. Inês era a única sobrevivente da Casa da Morte de Petrópolis, um aparelho clandestino de tortura e extermínio controlado por agentes do Exército.

Durante o período em que esteve na Casa da Morte, Inês ouviu dos carcereiros e torturadores a notícia de que “Breno” havia sido a primeira pessoa assassinada no local. O tenente-coronel Orlando de Souza Rangel, vulgo “Doutor Pepe”, disse a Inês que seu grupo havia sido responsável por prender e assassinar o militante. O sargento Ubirajara Ribeiro de Souza, que jogava basquete com Carlos nos anos 60, confirmou o fato: “Seu amigo esteve aqui. Ele me reconheceu”.

O desaparecimento de Carlos Alberto foi analisado pela Comissão Nacional da Verdade (CNV), que admitiu a responsabilidade do Estado brasileiro pela sua morte. A investigação apontou que Carlos teria sido torturado até abril de 1971 e assassinado com um tiro na cabeça. Um documento do Serviço Nacional de Informações (SNI) aponta 15 de abril de 1971 como a possível data da execução.

Dilma Rousseff citou Carlos Alberto em seu primeiro discurso como candidata à presidência da República em 2010. O guerrilheiro foi homenageado em um monumento às vítimas da ditadura concebido por Tiago Balem e instalado em Belo Horizonte em 2013. A história de Carlos Alberto foi retratada na biografia “Seu Amigo Esteve Aqui”, publicada por Cristina Chacel em 2012.

 

Fonte: Por Estevam Silva, em Opera Mundi

 

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