sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Ignacio Álvarez-Ossorio: A vitória eleitoral de Netanyahu condena Israel a um beco sem saída

Mais uma vez, Benjamin Netanyahu desafiou as pesquisas e venceu as eleições parlamentares israelenses, levando o Likud ao topo com uma ampla vantagem sobre seu principal rival, o partido Yashar do General Gadi Eisenkot. Embora sua coalizão não tenha alcançado as 61 cadeiras necessárias para governar, seu desempenho foi significativamente melhor do que o da frente anti-Netanyahu, condenando Israel a um estado de paralisia política.

O maior perdedor, sem dúvida, foi Eisenkot, que, segundo todas as pesquisas, seria o vencedor incontestável. Seu principal erro foi enquadrar as eleições como um referendo sobre a gestão de Netanyahu em relação aos ataques de 7 de outubro, visto que uma esmagadora maioria da sociedade israelense apoia a destruição sistemática da Faixa de Gaza e a intensa colonização da Cisjordânia, bem como a guerra total contra o regime iraniano e seus aliados no Eixo da Resistência: Hamas, Hezbollah e Houthis. Os resultados demonstram que o eleitorado acreditou na narrativa de que Israel trava uma guerra existencial em múltiplas frentes, na qual sua própria sobrevivência está em jogo, o que exigiria dar a Netanyahu carta branca e militarizar a sociedade para transformá-la em uma nova Esparta.

O principal sucesso do Likud foi atrair votos estratégicos, o que penalizou os partidos supremacistas Poder Judaico e Sionismo Religioso, que conquistaram apenas 13 cadeiras, muito menos do que o previsto pelas pesquisas. Não se trata de o eleitorado ter decidido punir a retórica genocida e os apelos à limpeza étnica de seus líderes, Itamar Ben Gvir e Bezalel Smotrich, mas sim de ter preferido concentrar seus votos em Netanyahu, que adotou muitas de suas posições. Com os resultados em mãos, parece claro que existe um amplo consenso sionista sobre a necessidade de aprofundar a política de fato consumado e a colonização dos territórios palestinos para impor, pela força das armas, um Grande Israel entre o Rio Jordão e o Mar Mediterrâneo. 

<><> A resiliência de Netanyahu

Os resultados demonstram que o bloco anti-Netanyahu subestimou a resiliência do líder do Likud, o presidente que há mais tempo governa na história de Israel, que conseguiu governar contra todas as probabilidades por mais de 20 anos em um cenário internacional extremamente complexo. As eleições deixaram claro que nunca se deve cantar vitória antes da hora. A única chance de Eisenkot formar um governo reside em uma aliança com os partidos árabes, cuja ascensão meteórica foi a maior surpresa das eleições. A Lista Conjunta — composta por Hadash, Taal e Balad — tornou-se o terceiro maior partido, depois do Likud e do Yashar, conquistando 12 das 120 cadeiras no Knesset, enquanto o partido islâmico Raam garantiu seis cadeiras.

A mobilização maciça de palestinos em Israel levou os partidos árabes a alcançarem seus melhores resultados de sempre, tornando-os um elemento-chave para garantir a governabilidade de Israel. A alta participação eleitoral entre as comunidades árabes deve ser interpretada não apenas como um protesto contra o genocídio em Gaza e o apartheid na Cisjordânia, mas também como um alerta sobre a negligência com as áreas árabes, onde o crime organizado prolifera. Embora os palestinos em Israel tenham sido tradicionalmente considerados cidadãos de segunda classe e excluídos das coligações governamentais, o fato de ocuparem 18 das 120 cadeiras no Knesset os torna um ator fundamental, embora ainda seja incerto se Eisenkot estará disposto a pagar o preço que a adesão ao governo de coligação implicaria. 

Embora o Likud tenha recebido a maioria dos votos e o bloco pró-Netanyahu tenha prevalecido sobre a oposição, não conseguiu os 61 assentos necessários para a maioria no Knesset. Portanto, suas remotas chances de manter a coalizão governista dependem de garantir o apoio de um dos partidos da oposição.

É importante notar que os partidos árabes têm sido tradicionalmente excluídos das coligações governamentais, que incluem apenas partidos judeus de orientação sionista. De fato, durante a campanha eleitoral, o Likud tentou impedir a sua candidatura, embora o Supremo Tribunal tenha, em última instância, permitido. A Lei do Estado-Nação de 2018 consagrou Israel como um Estado etnocêntrico judeu, no qual os dois milhões de palestinos encontraram dificuldades de integração, dada a sua falta de adesão ao projeto sionista. No dia das eleições, Netanyahu voltou a atacar a população árabe, afirmando: “Os apoiantes da Irmandade Muçulmana estão a invadir as assembleias de voto e a roubar as eleições”. Após a divulgação dos resultados, o primeiro-ministro advertiu Eisenkot de que “é proibido pôr em risco Israel e formar um governo que dependa de partidos árabes antissionistas”.

<><> Bloqueio

Assim, a atual conjuntura eleitoral torna a formação de uma coligação governamental uma missão praticamente impossível e condena Israel a um impasse político. Embora o Likud tenha recebido a maioria dos votos e o bloco pró-Netanyahu tenha prevalecido sobre a oposição, não alcançou os 61 assentos necessários para a maioria no Knesset. Portanto, suas remotas chances de manter a coligação governamental dependem de garantir o apoio de um dos partidos da oposição: Yisrael Beiteinu, liderado por Avigdor Lieberman, ou Beyahad, liderado por Yair Lapid e Naftali Bennett. Netanyahu tem 42 dias para conseguir isso. 

Se fracassar, ele ainda pode jogar com a carta de um governo de coalizão entre o Likud e o Yashar, no qual seus principais líderes se alternariam no cargo de primeiro-ministro. Essa fórmula permitiria que ele enfrentasse um contexto internacional adverso, no qual Israel parece cada vez mais isolado devido às suas políticas genocidas, e também reduziria sua dependência de grupos supremacistas brancos. Se bem-sucedida, essa estratégia representaria uma tábua de salvação para Netanyahu, assolado por seus problemas legais, e seria um golpe duro para Eisenkot, que concorreu às eleições como um candidato honesto que veio para pôr fim às maquinações do atual primeiro-ministro. 

¨      Sem maioria necessária para formar um governo

A lenta contagem dos votos, que ainda está em andamento após 12 horas, confirma a apertada vitória de Netanyahu. Com mais de 70% dos votos apurados, o partido Likud de Netanyahu lidera com 20% dos votos e 27 cadeiras, em comparação com os 16% e 20 cadeiras do partido Yashar! de Eisenkot. Os partidos de extrema-direita que formaram a coligação governamental de Netanyahu detêm 54 cadeiras, enquanto o bloco de oposição ou anti-Netanyahu possui 47 cadeiras, bem aquém da maioria de 61 cadeiras no Parlamento de 120 assentos.

A grande surpresa das eleições foram os partidos compostos principalmente por palestinos-israelenses, que conquistaram 19 cadeiras e podem ser fundamentais para a formação de qualquer governo, mas ambos os blocos de partidos judaicos prometeram não formar uma coalizão com eles durante a campanha.

<><> Netanyahu surpreende mais uma vez

Após o encerramento das urnas às 22h, horário local (21h na Espanha), diversas pesquisas indicavam que o partido do primeiro-ministro, Likud, obteria 25 cadeiras, enquanto o partido de Eisenkot, Yashar!, ficaria com 23. Mas algumas horas depois, as principais pesquisas indicavam que o Likud poderia conquistar 27 cadeiras, contra 21 ou 22 para o segundo partido mais votado.

O Yashar! é o principal partido do chamado bloco anti-Netanyahu, que assumiu a liderança na noite de terça-feira, mas, na manhã de quarta-feira, as pesquisas previam um empate entre os dois blocos, com 51 cadeiras cada. Nenhum dos dois conseguiria maioria no Parlamento (61 cadeiras) e teriam poucas chances de formar um governo sem o apoio dos partidos palestino-israelenses.

Os dois partidos, compostos principalmente por cidadãos palestinos de Israel, obteriam 18 ou 19 cadeiras, de acordo com as pesquisas, mas todos os partidos judaicos, incluindo os da oposição, prometeram durante a campanha que não fariam um pacto com eles, seja para formar parte de uma coalizão governista ou para obter seu apoio para um voto de confiança.

Em suas primeiras declarações após as eleições, Netanyahu afirmou que seria uma “vergonha” se a oposição cooperasse com esses partidos. Falando da sede do Likud em Jerusalém, ele também afirmou que o bloco de direita havia conquistado uma “maioria decisiva” entre o “público sionista” de Israel e, portanto, esperava formar um “governo de direita forte”.

Por sua vez, Eisenkot declarou prematuramente no canal X que os resultados preliminares indicavam “uma total falta de confiança em Netanyahu” por parte da maioria dos cidadãos israelenses. Na sede de seu partido, por volta da meia-noite, afirmou que faria “todo o possível para formar um governo sionista” que representasse “todos os cidadãos de Israel igualmente”. O general aposentado obteve um bom desempenho com seu partido recém-fundado, conquistando uma parcela significativa dos votos de protesto contra Netanyahu, mas, com o passar das horas, suas chances de substituir o primeiro-ministro e pôr fim ao seu domínio quase absoluto da política israelense nas últimas duas décadas foram diminuindo.

A Lista Conjunta (composta por três partidos seculares palestino-israelenses) é um dos partidos que mais aumentou sua representação parlamentar, conquistando 13 cadeiras, o que a coloca como a terceira força mais votada, atrás do Likud e do Yashar!, enquanto o Juntos (formado pelos ex-primeiros-ministros Naftali Bennett e Yair Lapid) permanece na quarta posição. O líder da Lista Conjunta afirmou em um comunicado que terça-feira foi “um dia histórico”. “O povo falou e compareceu em massa às urnas, dando-nos sua confiança inequívoca. Provamos ser uma força política que não pode ser ignorada e que é impossível construir um futuro aqui sem a nossa voz”, afirmou Yousef Jabarin.

O partido islâmico moderado Ra'am, liderado por Mansour Abbas, deverá conquistar 7 cadeiras, segundo todas as pesquisas, e poderá desempenhar um papel fundamental, visto que já fez acordos com partidos judaicos no passado — o segundo colocado na lista é judeu — e não defende posições inaceitáveis ​​para as forças sionistas, como as defendidas pela Lista Conjunta — por exemplo, o fim da ocupação israelense dos territórios palestinos.

¨      Partidos palestinos em Israel alcançam um resultado histórico

Benjamin Netanyahu voltou a vencer uma eleição em Israel, depois de ter sido primeiro-ministro do país por quase 19 anos, à frente de diferentes governos, desde 1996. “Bibi” voltou a ser o líder político mais votado, à frente de seu partido, o Likud, que obteve mais de 20% dos votos e 26 cadeiras no Parlamento, segundo os resultados preliminares. O mandatário não foi duramente castigado depois de três anos de guerras abertas em várias frentes e de um genocídio em Gaza, e parece que uma parte do eleitorado quer que Israel continue por esse caminho e o apoia em uma nova rodada de bombardeios contra o Irã, uma “missão” que Netanyahu prometeu completar.

No entanto, tudo indica que ele não poderá reeditar a coalizão com a qual governou entre 2022 e 2026, a mais à direita da história do Estado hebreu, que não soma as 61 cadeiras que representam a maioria simples no Knesset. Seus sócios de governo mais radicais, que impulsionaram a colonização selvagem e a limpeza étnica na Cisjordânia, assim como a desumanização absoluta dos palestinos, obtiveram praticamente as mesmas cadeiras que na eleição anterior.

Com mais de 85% dos votos apurados, o partido Poder Judaico, do ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, conseguiu uma cadeira a mais (7), embora as pesquisas previssem um crescimento maior nas semanas anteriores à votação. O partido Sionismo Religioso, do ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, mantém suas 6 cadeiras. Os que mais perderam apoio foram os sócios ultraortodoxos de Netanyahu: o partido Shas passa de 11 para 7 cadeiras, enquanto o Judaísmo Unido da Torá continua ocupando 7 cadeiras.

Segundo o historiador e político argentino-israelense Meir Margalit, houve um voto de castigo contra Netanyahu, que nas eleições gerais anteriores obteve mais de 23% dos votos e 32 cadeiras. “Há eleitores do Likud que quiseram castigar Netanyahu e votaram na extrema direita de Ben Gvir e Smotrich”, afirma ao elDiario.es. Dessa forma, os votos que o Likud perdeu ficaram no bloco de direita que o primeiro-ministro interino encabeça e que soma 53 cadeiras, à espera dos resultados definitivos.

No entanto, Margalit considera que existe a possibilidade de que membros do bloco anti-Netanyahu, liderado pelo ex-general Gadi Eisenkot, possam desertar e apoiar o bloco pró-Netanyahu, em particular deputados de extrema direita que concorreram à eleição pelo partido de Eisenkot, o Yashar!, e pelo heterogêneo partido Juntos, sob a batuta do ex-primeiro-ministro Naftali Bennett, também de direita.

O bloco da oposição só tem em comum o desejo de tirar Netanyahu do poder, mas as legendas que o integram são de diferentes orientações políticas e têm programas muito diferentes, embora nenhuma apoie um Estado palestino independente ou o fim da ocupação israelense. As pesquisas de boca de urna alimentaram, na noite de terça-feira, as esperanças de um governo alternativo ao de Netanyahu, encabeçado por Eisenkot, mas o bloco conseguiu apenas 48 cadeiras. O Yashar! é o segundo partido mais votado, com pouco mais de 16% dos votos e 21 cadeiras, seguido de longe pelo Juntos, com pouco mais de 9% e 12 cadeiras. A legenda mais moderada do bloco, os Democratas, obteve 6,5% dos votos e 8 cadeiras.

<><> Um veto “racista”

No meio dos dois grandes blocos, encontra-se um bloco “dobradiça” que emergiu com força na eleição geral de terça-feira: os partidos integrados majoritariamente por palestino-israelenses, que conseguiram 19 cadeiras, aumentando sua representação parlamentar. A Lista Conjunta (formada pelos partidos Hadash, Balad e Ta’al) conquistou o quarto lugar, com 9% dos votos e 12 cadeiras, um recorde para essas legendas de perfil esquerdista, com o programa mais abertamente pró-palestino. Enquanto isso, o partido islamista moderado Ra’am conseguiu duas cadeiras a mais que nas eleições passadas.

Tanto a Lista Conjunta quanto o Ra’am teriam a chave do próximo governo, se não fosse o boicote de todos os partidos judeus, incluídos os da oposição, que durante a campanha rejeitaram a possibilidade de fazer acordo com os partidos árabes, tanto para formar uma coalizão de governo quanto para obter seu apoio numa votação de investidura. “O fato de nenhum bloco querer esses partidos significa que Israel é um país racista; estão discriminando mais de 20% da população”, lamenta Margalit, ativista veterano dos direitos humanos e da paz entre palestinos e israelenses.

Os cidadãos palestinos de Israel são cerca de 2 milhões, e sua participação na eleição do dia 27 bateu recordes. Esse eleitorado habitualmente apático quis que sua voz fosse ouvida depois de ver seus direitos cortados nos últimos três anos, desde o ataque do Hamas de 7 de outubro de 2023, e sob o governo de Netanyahu, que fez suas condições de vida piorarem, tanto dentro de Israel como nos territórios ocupados. A polícia israelense, sob o comando de Ben Gvir, permitiu que o crime organizado e a violência proliferassem nas localidades de população palestina, onde os assassinatos dispararam desde 2025.

Margalit acredita que Eisenkot poderia estar aberto a negociar com os partidos palestinos, mas, se chegasse a fazê-lo, vários membros de direita de seu bloco iriam para o lado de Netanyahu: “Seria a desculpa definitiva para desertar”. Por enquanto, só o líder dos Democratas, o centrista Yair Golan, se mostrou favorável a contar com os partidos palestino-israelenses para tirar o poder de Netanyahu e instou os demais membros do chamado “bloco da mudança” a se abrirem para conversar com a Lista Conjunta e o Ra’am.

O líder da Lista Conjunta, Yousef Jabareen, disse no X que uma mudança passa por “uma associação judaico-árabe”, uma associação que deve ser “real e igualitária”. “Estamos prontos e preparados para abrir caminho para a derrubada do governo de Netanyahu. Diante de um governo de sangue, diante de uma política de supremacia, racismo e exclusão, oferecemos uma alternativa completamente diferente”.

O movimento Standing Together, que reúne israelenses judeus e palestinos e que mobilizou o voto a favor dos partidos palestinos, celebrou os resultados e pediu aos líderes políticos que tomem decisões corajosas. “Há uma vitória judaico-árabe sobre o governo de extrema direita. A única pergunta é se os líderes do bloco da mudança têm a coragem de formar um governo judaico-árabe”, perguntava no X Alon-Lee Green, cofundador do partido Um Lugar para Todos, surgido do Standing Together, mas que não se apresentou na eleição de 27 de outubro.

<><> Instabilidade e incerteza

Por sua vez, o historiador e professor argentino-israelense não se mostra muito otimista porque, mesmo que Eisenkot conseguisse formar governo com o apoio externo dos partidos palestinos, “não duraria muito tempo, porque os palestinos exigiriam algumas medidas que Eisenkot não poderia cumprir, e o governo cairia muito rápido”. Nesse caso, se abriria um período de instabilidade política.

Ofer Cassif, candidato judeu israelense da Lista Conjunta, explicou em uma entrevista ao elDiario.es que estariam dispostos a apoiar a investidura de Eisenkot, mas poriam condições ao novo governo, como parar as demolições das casas palestinas ou desmantelar os assentamentos que são ilegais também segundo a lei israelense (os chamados postos avançados, que proliferaram na Cisjordânia ocupada sob o governo que está saindo, que financiou e apoiou os colonos).

Diante dos resultados históricos dos partidos palestinos, o Likud pediu nesta quarta-feira à Polícia e ao Shin Bet (agência de segurança e inteligência interna de Israel) que investiguem como eles conseguiram esses resultados. “As eleições em Israel foram roubadas por partidos árabes que apoiam o terrorismo e a eliminação do Estado judeu, mediante crimes graves como o suborno, as ameaças, a violência, a fraude e o uso de um programa de computador ilegal para mobilizar os eleitores”, denunciou o partido em um comunicado. Também apresentou uma queixa ao Comitê Eleitoral Central, o órgão que supervisiona o processo democrático e certifica os resultados, que disse que vai examiná-la.

Margalit acredita que, se os palestinos não forem levados em conta pelos demais partidos, perderão a confiança em um sistema político que os marginaliza. “Creio que vai ser a última vez que os partidos árabes conseguem atrair tantos eleitores às urnas, se virem que não vale a pena e que não serve para nada votar porque, mesmo quando conseguem tantas cadeiras, ninguém os leva em conta”. Calcula-se que a participação dos eleitores palestino-israelenses ficou inclusive acima da média nacional de 77%.

O historiador e pesquisador do Instituto Van Leer de Jerusalém acredita que os partidos palestinos não poderão mudar o governo e o rumo de Israel, porque tanto Netanyahu quanto Eisenkot compartilham as mesmas políticas e ideias belicistas. “De dentro não vai haver mudança. É preciso haver pressão concreta, não simbólica, contra Israel por parte da Europa e dos Estados Unidos. Precisamos que façam com Israel o que o mundo fez com a África do Sul anos atrás”, na época do apartheid, afirma Margalit.

O especialista não descarta que Netanyahu lance um novo ataque contra o Irã enquanto permanece como primeiro-ministro interino, em meio às negociações para a formação de um novo governo ou ao bloqueio político que poderia ocorrer e que pode se prolongar por semanas. Ele afirma que o mandatário queria fazê-lo antes da eleição desta terça-feira, mas o chefe do Estado-Maior do Exército o freou, e agora ele poderia pensar que recebeu o mandato das urnas para levar a cabo uma ofensiva contra Teerã, que provavelmente contaria com o apoio de Donald Trump.

 

Fonte: El Diário

 

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

O voto não encerra a tarefa

A virada de 25 de outubro foi obra de grande mobilização. Se essa mobilização recuar e se recolher à passividade, o que se ganhou na urna se perde no dia a dia. Com a extrema-direita à frente da maior bancada do Congresso e, somada à direita tradicional, em maioria, a disputa não será vencida nos gabinetes. Ela terá de ser travada em todo lugar: na fábrica, no comércio, nos escritórios, nos aplicativos de entrega, nos bairros e nos pontos de ônibus.

No primeiro turno, em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro terminou à frente, com 47,03% dos votos válidos contra 45,16% de Lula. Foram 2,2 milhões de votos de diferença, e a abstenção chegou a 21,08%, a maior numa eleição presidencial desde 1998.

Três semanas depois, o quadro se inverteu. Lula venceu com 51,79% e 64,3 milhões de votos, contra 48,21% e 59,8 milhões de Flávio. A abstenção caiu para 19,22%. Lula somou mais de 10 milhões de votos entre um turno e outro, e cerca de três milhões de eleitores que tinham ficado em casa foram votar.

Voto não cai do céu nem sai pronto do horário eleitoral. Esses milhões foram buscados em portas de fábrica, escritórios, pontos de ônibus, filas de posto de saúde, grupos de família e conversas de vizinho. A virada teve o rosto de quem fez campanha sem cargo, sem salário de assessor e sem promessa de nomeação.

O cientista político André Singer atribuiu a virada às mobilizações populares que tomaram as ruas de várias cidades entre os dois turnos. Para ele, o desafio do quarto mandato é isolar a extrema direita e unir o país. A pergunta é onde essa unidade será construída: nos acordos de cúpula do Congresso ou nas mobilizações que fizeram a virada.

O risco agora é conhecido. Passada a apuração, essa energia se dispersa, a militância volta à rotina e a política retorna aos gabinetes. É contra essa dispersão que vale reler um livro de Mauricio Tragtenberg.

<><> O voto como terreno, não como procuração

A falência da política reúne artigos que Tragtenberg escreveu sobretudo para jornais, a maior parte nos anos 1980. Neles, ele desconfia do eleitoralismo, mas nunca do voto como tal. O que recusava era a delegação: a ideia de que, eleito o candidato certo, a luta passa a ser dele.

Em “O voto e as ilusões”, escrito para as eleições de 1982, ele diz que a ilusão eleitoral leva o povo a esperar “que alguém lute por ele”. E dá a frase que serve de eixo a este artigo: “Vença quem vencer as eleições, nada muda no interior das fábricas, nos campos e nas oficinas”. As relações hierárquicas de mando e exploração continuam as mesmas. Muda apenas quem as administra.

No mesmo texto, ele separa duas coisas que costumam ser confundidas: a “mobilização popular real”, que parte dos próprios interessados, e a arregimentação de gente para ouvir alguém falar em seu nome no comício. A virada de outubro teve muito da primeira. É ela que precisa sobreviver à apuração.

O mesmo autor, em 1990, pediu voto. Em “Barre a escalada fascista de Maluf”, chamou os trabalhadores a impedir a vitória malufista no segundo turno paulista e lembrou que, para o povo, “não haverá Papai Noel”. Mas não confundiu o voto com o fim da tarefa. Mesmo com a vitória do adversário de Maluf, escreveu, “para os assalariados a luta continuará”, só que em condições menos fascistas.

É a chave para ler 2026. A eleição de Lula não resolve a vida de quem trabalha. Decide em que terreno essa vida será disputada: com liberdade de organização e de greve, ou sob um governo empenhado em fechá-las. Tragtenberg resumia o princípio numa frase: “não há luta por procuração”.

<><> O fim da 6×1 está na lei. Falta chegar ao turno

O melhor exemplo do que está em jogo veio no meio da campanha. Em 14 de outubro, o Senado aprovou por 75 votos a 1 a emenda que acaba com a escala 6×1 e reduz a jornada de 44 para 40 horas semanais, sem redução de salário. O Congresso a promulgou dois dias depois, como Emenda Constitucional 141. Pelo texto, as empresas têm 60 dias para adotar a escala 5×2 com limite de 42 horas, e mais doze meses para chegar às 40.

A conquista não nasceu no Congresso, nem num sindicato, nem num partido. Começou em 2023 com o vídeo de um balconista de farmácia, Rick Azevedo, contando a própria rotina. Milhares de trabalhadores do comércio e dos serviços se reconheceram, e o desabafo virou o movimento Vida Além do Trabalho, um abaixo-assinado com mais de 3 milhões de assinaturas e manifestações de rua. Só depois os partidos e as centrais incorporaram a pauta. Tragtenberg reconheceria o caminho. Num artigo sobre a Constituinte e os turnos de trabalho, notou que, enquanto parlamentares e ministros discutiam o assunto, o trabalhador, “o diretamente interessado”, ainda não tinha sido ouvido.

Agora começa a parte que não sai no Diário Oficial. Em cada loja, galpão e escritório, a nova jornada será traduzida em escalas, bancos de horas, folgas que caem ou não no fim de semana, metas redistribuídas em menos dias. Num texto sobre a comissão de fábrica da Ford, Tragtenberg formulou uma lei que vale para esse momento: “quanto mais regulamentado é um direito, mais perde quem deveria gozá-lo”. O direito escrito só se torna direito vivido onde há gente organizada para cobrá-lo.

<><> Uma maioria de direita no Congresso

Depois da urna, continuar a luta significa enfrentar uma extrema-direita que saiu das eleições mais forte no Parlamento do que no Palácio do Planalto. O PL elegeu 121 deputados, a maior bancada de um só partido na Câmara desde a Constituição de 1988. Com o Novo (10), a federação União-PP (87) e o Republicanos (41), a direita soma 259 das 513 cadeiras, acima da maioria absoluta de 257. As bancadas de esquerda, a federação PT-PCdoB-PV (88), o PSB (15), o PSOL-Rede (15) e o PDT (6), somam 124, menos de um quarto da Casa.

No Senado, o PL terá 28 dos 81 senadores a partir de 2027, a maior bancada; o PT terá 9. Uma emenda constitucional exige 308 votos na Câmara e 49 no Senado. Nenhuma pauta dos trabalhadores passa ali apenas com os votos da base do governo.

O fim da 6×1 mostra o caminho. A emenda foi aprovada por 75 votos a 1 num Senado em que a esquerda é minoria. Os votos não vieram da conversão dos senadores, mas do custo de votar contra uma pauta que milhões levaram às redes e às ruas. Tragtenberg advertia, em “O voto e as ilusões”, contra o hábito de atribuir aos parlamentos o que é devido à ação popular.

Singer tem razão ao dizer que o desafio é isolar a extrema-direita. Mas no Congresso ela não se isola com acordos de cúpula, que costumam custar caro justamente a quem trabalha. Ela se isola quando cada voto contra os trabalhadores passa a ter preço nas bases eleitorais de quem o dá. Essa pressão só existe se a mobilização que virou a eleição continuar de pé.

<><> Onde se trabalha no Brasil

Se a luta se desdobra onde o trabalho acontece, vale mapear esse terreno. Os dados mais recentes do Cadastro Central de Empresas do IBGE mostram a dimensão desse mapa: em dezembro de 2024, o país contava com 10,6 milhões de empresas e 11,9 milhões de unidades locais — de fábricas e galpões a lojas, escritórios e agências. Nesses espaços concentravam-se 68 milhões de trabalhadores, divididos entre 54,2 milhões de assalariados (incluindo o funcionalismo público) e 13,8 milhões de sócios e proprietários.

A geografia dessa estrutura reflete as desigualdades históricas do país. O Sudeste concentra metade dos estabelecimentos e abocanha a maior fatia da massa salarial. Já o Norte e o Nordeste abrigam uma proporção de trabalhadores assalariados superior à sua participação no número de empresas, registrando os salários médios mais baixos do Brasil.

Em números absolutos, a edição de 2022 do cadastro, a última que os divulga por região, contava 5,5 milhões de unidades locais no Sudeste, 2,1 milhões no Sul, 1,7 milhão no Nordeste, 897 mil no Centro-Oeste e 496 mil no Norte.

Dois números importam mais do que o mapa. Primeiro, a maioria dos estabelecimentos não tem nenhum empregado: em 2022, eram cerca de 7,3 milhões de unidades sem assalariados, contra 3,2 milhões com. Segundo, o emprego formal é concentrado. As empresas com 250 pessoas ou mais são só 0,2% do total, mas empregam 55,7% dos assalariados e pagam 69% dos salários.

Para quem pensa organização, isso tem duas consequências. Há um núcleo de grandes locais de trabalho, uma fração mínima das empresas, onde está a maioria dos trabalhadores com carteira. E há uma imensa periferia de pequenos negócios, conta própria e trabalho por aplicativo, onde não há portão de fábrica, escritório onde distribuir boletim. As duas pedem formas diferentes de presença.

<><> Fora da catraca: informais e trabalhadores por aplicativo

O cadastro de empresas só enxerga quem trabalha em organização formal. Fora dele está quase quatro em cada dez ocupados. No segundo trimestre de 2026, a taxa de informalidade foi de 37,4%, sobre 103,1 milhões de ocupados, o que dá perto de 38,6 milhões de pessoas. Os empregados do setor privado sem carteira somavam 13,6 milhões, e os trabalhadores por conta própria eram 25,3% de todos os ocupados.

A informalidade tem endereço. No Maranhão, ela atinge 56,9% dos ocupados; no Pará, 55,9%; no Amazonas, 51,7%. Em Santa Catarina, 25,4%. Mesmo entre os empregados do setor privado, só 74,4% têm carteira no país, e no Maranhão a proporção cai para 53,6%. O mapa da informalidade é quase o inverso do mapa dos estabelecimentos formais: onde há menos empresas registradas, há mais trabalho sem proteção.

Os trabalhadores por aplicativo são a face mais visível desse mundo. Eram 1,7 milhão no terceiro trimestre de 2024, 25,4% a mais que em 2022. Quase 1 milhão trabalhava em transporte de passageiros e 485 mil em entregas. Mais da metade estava no Sudeste.

O IBGE mostra o que a palavra “autônomo” esconde. Sete em cada dez plataformizados são informais, e só 35,9% contribuem para a previdência. Trabalham 5,5 horas por semana a mais que os demais e ganham menos por hora: R$ 15,4, ante R$ 16,8. Mais da metade dos motoristas e entregadores diz que bônus, incentivos e promoções que mudam o preço influenciam sua jornada, e mais de 30% relatam ameaças de punição ou bloqueio. O patrão não aparece, mas manda.

Para essa gente, a 5×2 não chega por decreto, porque não há jornada legal a reduzir. Vale para eles o que Tragtenberg escreveu sobre os trabalhadores poloneses e brasileiros: sem Papai Noel, “só pela auto-organização de base terá voz para se fazer ouvir”. As greves e paralisações de entregadores dos últimos anos mostram que essa organização é possível, mesmo sem portão de fábrica.

<><> Para além do portão: a luta no território e na reprodução da vida

Se a disciplina do capital nasce no local de trabalho, a reprodução e a sobrevivência da classe trabalhadora dependem do território. A jornada de trabalho de uma operária, de um entregador ou de um atendente de telemarketing não termina ao passar pelo ponto digital: ela se estende nas duas horas de condução lotada, na espera pela vaga na creche, na falta de água na periferia, na luta por moradia digna e na batalha pelo lazer.

A própria força do movimento pelo fim da escala 6×1 demonstrou que a disputa pelo tempo de trabalho é, acima de tudo, uma disputa pelo direito à vida no território — pelo tempo de convivência comunitária, familiar e pessoal. Tomar a fábrica ou o local de trabalho como único polo de organização ignora a realidade de milhões de informais, autônomos e desempregados que constroem a vida nos bairros.

A resistência que nasce no chão da fábrica ou do comércio precisa se desdobrar nos locais onde o trabalhador habita, transita e se articula:

  • Nos bairros e periferias: impulsionando associações de moradores, coletivos culturais, cursinhos populares e redes de apoio solidário.
  • No transporte e nos serviços públicos: organizando a pressão comunitária por tarifas acessíveis, postos de saúde estruturados, saneamento e creches públicas.
  • Nas redes e pontos de vivência: criando laços de acolhimento e organização onde trabalhadores sem patrão fixo (entregadores, vendedores ambulantes, prestadores de serviços) possam se reunir e definir suas pautas.

<><> Organizar onde o conflito nasce

Em “Questão social: ainda caso de polícia?”, Tragtenberg observa que o capitalismo organiza a mão de obra em seus locais de trabalho e que, por isso, o local de trabalho “aparece como local de origem do conflito social”. É também ali que a organização dos trabalhadores está mais fraca.

As grandes viradas do trabalho no Brasil começaram assim, de baixo. Em 12 de maio de 1978, os operários da Scania, em São Bernardo, entraram na fábrica e cruzaram os braços diante das máquinas desligadas. A parada foi combinada por operários da própria fábrica e não foi assumida oficialmente pela direção do sindicato. Em 1º de julho de 2020, entregadores de aplicativo pararam em várias cidades no Breque dos Apps, organizado em grupos de WhatsApp, sem comando centralizado. Em 2023, um vídeo bastou para pôr a 6×1 na agenda do país.

Nenhum desses movimentos esperou que o sindicato chegasse. Em 2025, só 8,8% dos ocupados eram sindicalizados, pouco acima do piso de 8,4% registrado em 2023 e cerca de metade dos 16,1% de 2012. Na construção civil, a taxa é de 3,6%. A organização que existe nos locais de trabalho hoje é, na maior parte, informal: o grupo de mensagens da equipe, a conversa no refeitório, a combinação de não aceitar a hora extra.

Tragtenberg confiava mais nessa auto-organização do que nos aparelhos. Ao contar a história da Ford de São Bernardo, destacou que, nas greves de 1978, surgiu uma comissão de trabalhadores que a empresa reconhecia de fato, embora não de direito. E advertiu que as comissões de fábrica degeneram quando viram “correias de transmissão de diretorias sindicais”. Por isso preferia a comissão da metalúrgica Asama, onde o sindicato era só um “órgão consultivo” e a comissão pertencia “aos trabalhadores que nela trabalham”.

No mesmo texto, criticou as organizações que se dizem vanguarda e, a pretexto da “falta de consciência” do trabalhador, pretendem falar por ele e dirigir sua luta. O local de trabalho, escreveu, deve ser entendido “como o local de luta”. Na mesma chave, via no Solidariedade polonês, nascido de greves com ocupação dos estaleiros, a prova de que a libertação dos trabalhadores passa pela “auto-organização, nos locais de trabalho”.

Traduzido para o presente, isso significa que a energia que fez a virada não precisa de uma nova diretiva de topo, mas de presença na vida cotidiana. O mesmo grupo de mensagens que fez circular panfletos e esclareceu dúvidas sobre o voto pode virar o espaço onde se comparam escalas, denunciam-se abusos e se combinam respostas à pressão do dia a dia.

A batalha pela jornada 5×2, por exemplo, não se resolve com a promulgação da lei: ela ganha corpo quando os próprios trabalhadores se reúnem nas pausas e nos refeitórios para expor quem tenta burlar as folgas ou sobrecarregar as metas. Onde houver espaço — inclusive usando o instrumento de comissões de representação previsto na lei —, essa organização pode ganhar forma própria, desde que responda à base que a elegeu e não vire apêndice burocrático de quem quer que seja.

Para os milhões que trabalham sem portão de fábrica nem chão de loja — os entregadores nos pontos de apoio, os motoristas nas esquinas, a turma do pequeno comércio e dos serviços —, a organização se faz no próprio território, onde a rotina se cruza e a conversa acontece.

Sindicatos e partidos podem somar a essa força, mas não têm como inventá-la de fora. Quando a pressão nasce da base, quem senta à mesa de negociação fala com a força de quem tem gente disposta a cruzar os braços. Sem essa presença viva nas ruas, nas empresas e nos bairros, qualquer governo eleito fica refém de um Congresso e de um empresariado que não perderam um milímetro de poder no dia da eleição.

<><> A urna fechou. O turno não

A vitória de 25 de outubro tem dono, e não é só o candidato. É de quem trocou dias de descanso por uma tarde de panfletagem, de quem convenceu o tio, de quem arrastou o vizinho até a seção. Essa capacidade de mobilizar é o único patrimônio que a classe trabalhadora leva da eleição para os próximos quatro anos.

Tragtenberg escreveu, em 1982, que a união das lutas organizadas nos locais de trabalho valeria mais do que qualquer resultado eleitoral Em 1990, pediu voto e avisou que a luta continuaria no dia seguinte.6 As duas posições não se contradizem. Juntas, dizem o que fazer agora: não desmobilizar, não entregar a iniciativa a uma Brasília onde a direita tem maioria e levar para dentro das 11,9 milhões de unidades produtivas do país a energia que virou a eleição.

A 5×2 começa a valer em dezembro. Se vai valer de verdade, depende menos do Diário Oficial do que de quem estiver organizado no turno da manhã.

 

Fonte: Por Marcelo Phintener, em Outras Palavras

 

Maurício Alfredo: Economia da atenção - como transformar engajamento político em participação duradoura

Desde 2024, venho discutindo, em diferentes artigos, como a economia da atenção¹ ultrapassou o campo das transformações tecnológicas para se tornar uma dimensão estrutural da política contemporânea. 

O que inicialmente se apresentava como uma transformação nas formas de circulação da informação passou a revelar uma dimensão mais ampla: a consolidação da atenção como recurso estratégico para a formação de identidades, a construção de pertencimentos e a disputa pela hegemonia política.

O que parecia um alerta teórico ganhou expressão simbólica na posse de Donald Trump para seu segundo mandato, quando executivos de grandes empresas de tecnologia ocuparam posições de destaque na cerimônia. A cena tornou visível a aproximação entre o poder político institucional e o controle das infraestruturas digitais por onde circulam informações, afetos e atenção pública.

No Brasil, essa lógica encontrou condições favoráveis de expansão. O clã Bolsonaro e setores da nova extrema-direita passaram a explorar a controvérsia, a exposição permanente e a transformação da punição em espetáculo. Nesse processo, acontecimentos potencialmente desfavoráveis puderam ser incorporados a narrativas de perseguição e vitimização, alimentando o engajamento e contribuindo para a manutenção da centralidade política.

O processo eleitoral brasileiro de 2026 acrescenta uma dimensão decisiva a essa investigação. Com o segundo turno concluído, já não se trata apenas de perguntar como determinados atores capturam a atenção ou permanecem em evidência, mas de compreender como essa presença contínua pode se converter em força eleitoral ao alimentar identidades políticas e produzir vínculos duradouros de pertencimento.

A hipótese que orienta esta análise é que a economia da atenção se tornou uma das infraestruturas centrais da disputa política contemporânea. Ao organizar a visibilidade dos acontecimentos e favorecer determinadas narrativas, ela participa da construção do imaginário social, da formação de identidades e de laços de pertencimento e, consequentemente, da disputa pela hegemonia na sociedade brasileira.

<><> Do espetáculo ao pertencimento: o elo entre atenção e voto

O mecanismo que pode converter a captura da atenção em força eleitoral não depende apenas do convencimento programático, mas também da mobilização de afetos e da construção de identidades. A política continua sendo uma disputa entre projetos de governo e resultados materiais. Contudo, para parcelas expressivas do eleitorado, ela envolve também pertencimento, reconhecimento, comunidade e afirmação do próprio modo de vida.

Essa lógica é favorecida pelos ambientes digitais, nos quais conteúdos curtos e provocativos costumam atrair atenção e circular com rapidez. Estudos indicam que notícias falsas se espalham até 70% mais rápido do que as verdadeiras (TSE, 2022). Na política, a desinformação e a espetacularização exploram sentimentos como raiva, medo e indignação. Enquanto isso, temas essenciais, como saúde, educação, segurança e transporte, disputam espaço com vídeos de agressões, insultos e cenas grotescas, cujo impacto imediato favorece a circulação e o engajamento.

É nesse terreno de conflito contínuo que os atores políticos podem converter a espetacularização em vínculo comunitário. A eleição para a Câmara dos Deputados, realizada no primeiro turno de 2026, oferece um exemplo expressivo dessa dinâmica: Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato e Erika Hilton foram os três candidatos a deputado federal mais votados do país, atuando em campos ideológicos distintos.

Suas trajetórias permitem observar como pautas identitárias, conflitos culturais e estratégias de exposição pública podem alimentar o engajamento eleitoral. Independentemente do espectro político, a capacidade de mobilizar atenção e construir identificação pode ampliar o alcance de uma candidatura, transformando a visibilidade em reconhecimento e, potencialmente, em votos.

Essa dinâmica se insere em uma transformação mais ampla: a política institucional e os grandes veículos de imprensa já não detêm o monopólio da mediação pública da realidade. A disputa política não se limita à apresentação de projetos para o país; envolve também a capacidade de atrair atenção, permanecer em evidência e influenciar a interpretação dos acontecimentos. Mais do que defender propostas, muitos atores procuram manter o público ligado a narrativas que oferecem referências para compreender o mundo, identificar adversários e reconhecer seus semelhantes.

Por isso, a disputa pela atenção ultrapassa o período das campanhas eleitorais e se torna parte permanente da atuação política. Governar, fazer oposição e preservar a relevância pública exigem também a capacidade de pautar acontecimentos e disputar seus significados. 

A visibilidade, por si só, não garante votos. Mas, quando alimenta o reconhecimento e o sentimento de pertencimento, pode contribuir para transformar a presença contínua nas redes em mobilização política. É nessa passagem que a economia da atenção se conecta à disputa eleitoral e à formação do imaginário social.

<><> A eleição brasileira como expressão da disputa pelo imaginário

A eleição brasileira de 2026 permite examinar como a economia da atenção participa de uma dimensão decisiva da disputa política: a formação de identidades e a construção de visões de mundo que orientam a percepção dos acontecimentos e dos adversários. Nesse processo, a polarização afetiva² ganha importância.

Ao favorecer a circulação de conteúdos que mobilizam medo, indignação e hostilidade, a disputa pela atenção pode reforçar a identificação com o próprio grupo e a rejeição ao adversário. Mais do que divergências ideológicas, estão em jogo vínculos emocionais que influenciam a maneira como os acontecimentos são interpretados e como os diferentes campos políticos são percebidos.

 Assim, a disputa eleitoral não se limita à avaliação de propostas e resultados de governo, mas envolve também a construção de pertencimentos e a definição de quem representa uma ameaça ou encarna os valores do próprio grupo.

Esse processo vai muito além da discordância ideológica tradicional. Vivemos em um contexto no qual a política coloniza o cotidiano: a cor de uma camisa torna-se senha de pertencimento, e os espaços de convivência convertem-se em arenas de disputa (CUGLER, 2025). Pesquisas recentes indicam que petistas e bolsonaristas depositam em seus respectivos grupos políticos níveis de confiança próximos aos que dedicam às próprias famílias (GALF, 2025). 

A polarização afetiva altera, assim, a maneira como as pessoas percebem e julgam umas às outras. A discordância deixa de ser apenas uma divergência sobre os rumos do país e pode ser interpretada como ameaça aos valores e ao modo de vida do próprio grupo. Com isso, o adversário passa a ser visto não apenas como alguém que pensa diferente, mas como alguém de quem é preciso desconfiar ou contra quem é preciso se defender. 

O diálogo se torna mais difícil quando a divergência política é interpretada como ameaça e os afetos passam a orientar a relação com o adversário. Nesse contexto, a afirmação das identidades e a rejeição do outro ganham espaço, enfraquecendo as condições necessárias à deliberação pública.

É nesse contexto que a disputa política se transforma também em uma disputa sobre quem tem o direito de definir o “povo brasileiro”: suas virtudes, seus medos, seus valores e seus inimigos. Diferentes narrativas procuram estabelecer o que significa pertencer à nação e quais interesses devem orientar seu futuro. 

De um lado, discursos que enfatizam a atuação do Estado, a proteção social e a redução das desigualdades; de outro, narrativas que mobilizam a autodefesa moral, referências religiosas, a valorização da ordem e o ressentimento contra as instituições. Essas referências não esgotam a diversidade de cada campo político, mas ajudam a compreender como projetos de sociedade disputam legitimidade e adesão para além de seus programas eleitorais.

O resultado do segundo turno, com a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) diante da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), delimita o desfecho institucional da disputa presidencial de 2026. Esse resultado, por si só, não permite atribuir os votos a um mecanismo específico, mas oferece um marco concreto para investigar como atenção, identificação política e pertencimento se articulam no ambiente eleitoral brasileiro.

Sem atribuir os resultados das urnas a uma causa única, a eleição de 2026 permite examinar como a economia da atenção participa dessa disputa. Ao favorecer a circulação de narrativas que mobilizam afetos, reforçam identidades e demarcam fronteiras entre grupos, ela pode contribuir para consolidar determinadas interpretações da realidade. A disputa não se restringe, portanto, a quem governará o Estado, mas envolve também quais valores, identidades e visões de país conquistarão maior legitimidade social. É nesse terreno que a competição eleitoral se conecta à disputa pela hegemonia e pelo imaginário nacional.

<><> O desafio democrático: disputar a hegemonia sem reproduzir a lógica do espetáculo

Diante desse cenário, coloca-se um desafio estrutural para o campo democrático e progressista. Suas análises de conjuntura procuram compreender a realidade articulando história, economia, sociologia e geografia, relacionando fenômenos imediatos a processos mais amplos. Trata-se de enxergar a floresta sem perder de vista as árvores. 

Na economia da atenção, porém, essa abordagem enfrenta uma dificuldade: a disputa pela visibilidade favorece mensagens capazes de provocar reações imediatas, enquanto análises estruturais exigem tempo, contexto e reflexão. 

A extrema-direita tem explorado essa dinâmica ao oferecer explicações simplificadoras e respostas moralizantes para problemas complexos, identificando culpados e mobilizando sentimentos de ameaça e indignação.

Essa assimetria alimenta uma tentação permanente. De um lado, o mimetismo: reproduzir a estética do choque, os bordões e a agressividade verbal para conquistar engajamento. De outro, o refúgio em uma linguagem estritamente tecnocrática ou acadêmica, que pressupõe um interlocutor interessado em argumentos abstratos, mas nem sempre consegue estabelecer conexões com sua experiência cotidiana. 

A primeira estratégia corre o risco de reproduzir a lógica de antagonismo que se pretende combater; a segunda, de restringir a circulação de ideias relevantes a públicos já familiarizados com esse repertório. Nenhuma delas, isoladamente, responde ao desafio de disputar a atenção e construir vínculos políticos duradouros.

O desafio, portanto, não consiste em escolher entre a razão analítica e a mobilização dos afetos, mas em aproximar essas dimensões. Propostas de país e análises estruturais precisam adquirir significado concreto na vida da população, relacionando questões como emprego, renda, moradia, segurança e serviços públicos aos processos que as produzem. 

Traduzir a complexidade sem vulgarizá-la significa tornar compreensíveis as relações entre os problemas cotidianos e suas causas estruturais, sem reduzir a realidade a explicações fáceis ou a inimigos convenientes. É também mostrar como essas questões afetam a vida das pessoas e o futuro que podem construir coletivamente.

Disputar a hegemonia na economia da atenção exige conquistar mais do que visibilidade: requer construir formas de comunicação e espaços de sociabilidade capazes de transformar identificação momentânea em participação e pertencimento duradouro. 

Isso pressupõe associar narrativas mobilizadoras a experiências concretas de solidariedade, proteção social e ação coletiva. A resposta democrática não pode se limitar a denunciar a espetacularização do ressentimento; precisa demonstrar, na prática, que o fortalecimento dos vínculos comunitários e do bem comum oferece caminhos para enfrentar as incertezas do presente. Afinal, a disputa não é apenas por quem consegue capturar a atenção, mas por quais valores, interpretações e projetos de sociedade serão capazes de conquistar legitimidade e orientar a vida coletiva.

¨      Frei Betto: vitória de Lula derrota projeto autoritário, mas exige mobilização popular

A vitória de Lula nas eleições de 2026, eleito presidente pela quarta vez, representa um ponto de inflexão na história recente do Brasil. O resultado das urnas simboliza a derrota de um projeto autoritário e a reafirmação do compromisso com a democracia e a justiça social.

A derrota de Jair Bolsonaro em 2022, primeiro presidente a perder uma reeleição desde a instituição desse mecanismo eleitoral, foi um golpe significativo para a extrema-direita brasileira. Contudo, é crucial distinguir a derrota eleitoral de Bolsonaro do fim do bolsonarismo como força política.

O movimento permanece influente e exige vigilância constante das forças democráticas. A vitória de Lula, obtida por uma margem estreita (51,9% a 49,1%), impõe a necessidade de restaurar a plena vida democrática e a harmonia entre os poderes.

O terceiro mandato de Lula foi marcado por uma agenda robusta de políticas sociais que resgataram conquistas históricas. O Brasil voltou a sair do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU), e a pobreza extrema caiu para níveis históricos, com a retirada de milhões de pessoas dessa condição. A taxa de pobreza geral recuou de 31,6% em 2022 para 23,1% em 2024, enquanto a renda per capita dos mais pobres cresceu 13,2%.

A valorização real do salário mínimo, com ganhos acima da inflação, e a ampliação da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil injetaram poder de compra na economia. Além disso, políticas como a Lei de Igualdade Salarial entre gêneros e o programa Pé-de-Meia, que incentiva a permanência de jovens na escola, demonstram um compromisso com a redução das desigualdades estruturais.

Acrescem-se a isso o programa Desenrola, de alívio para os endividados, e o fim da escala de trabalho 6×1. Na Amazônia, houve significativa redução do desmatamento.

Faltaram, porém, à gestão que finda duas propostas que fiz a Lula na noite de sua posse, em 1º de janeiro de 2023: incentivo aos movimentos populares por meio de intenso trabalho de educação popular e investimento nas redes digitais. A Secretaria-Geral, que deveria fazer a articulação com os movimentos sociais, não conseguiu levar o povo às ruas e contou com escassos recursos para a educação popular.

E a Secretaria de Comunicação Social (Secom) teve que aprender agora, no segundo turno da campanha eleitoral, o que é atuar pelas redes digitais, graças ao comando do deputado André Janones. Espero que ele ocupe posição de destaque na comunicação da gestão que se inicia em 2027.

Como há tempos não se via no Brasil, a juventude voltou às ruas! Fenômeno que se repete em Portugal, Espanha, França e Bélgica. Os partidos progressistas estão, agora, desafiados a dar consistência política a essa maré juvenil. Não podem repetir o erro de 2013, quando os jovens saíram às ruas para protestar contra o aumento das tarifas de ônibus. Nenhum setor progressista soube canalizar politicamente aquelas manifestações que, manipuladas pela direita, desembocaram no impeachment de Dilma.

A vitória de Lula tem impacto imediato na geopolítica regional. Em um continente que testemunha uma nova onda de governos de direita, o Brasil se consolida como um contraponto e um freio a projetos alinhados a Washington. A liderança brasileira é fundamental para reativar a integração regional do Mercado Comum do Sul (Mercosul), fortalecer a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) e fragilizar o bloqueio da Casa Branca a Cuba.

No cenário global, o Brasil retoma um protagonismo perdido. A política externa de Lula prioriza a reforma da governança global e a cooperação Sul-Sul. A presidência do G20 em 2024 lançou a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, reunindo mais de 200 membros. A presidência do Brics, em 2025, reforçou a articulação por um mundo multipolar e menos assimétrico e a defesa de reformas em instituições como a Organização das Nações Unidas (ONU) e o Fundo Monetário Internacional (FMI).

O país também atua como mediador em conflitos e defende a criação de um grupo de países neutros para promover negociações de paz, consolidando, assim, sua credibilidade internacional.

Em suma, a vitória de Lula representa a derrota do autoritarismo, a retomada de conquistas sociais que colocam o Brasil novamente no caminho da redução das desigualdades e a reinserção do país como um ator central e soberano no cenário internacional, com um projeto de desenvolvimento que prioriza a justiça social e a cooperação multilateral.

 

Fonte: Diálogos do Sul Global