Raphael
Fagundes e Danilo Sorato: A disputa pelo lucro – futebol e o mundial de
empresas
“Ídolo
máximo do Liverpool, o atacante Mohamed Salah criticou o comportamento da
torcida com o lateral-direito Alexander-Arnold. De saída dos Reds após 20 anos,
o defensor inglês foi vaiado ao substituir Conor Bradley no empate por 2 a 2
contra o Arsenal, pela 36ª rodada da Premier League”.1
O mesmo
aconteceu com Gerson, com venda encaminhada para o Zenit da Rússia, no Mundial
de Clubes da FIFA. “O meio-campo Gerson, do Flamengo, foi vaiado pelos
rubro-negros presentes no estádio Lincoln Financial Field, antes de a bola
rolar para o jogo contra o Esperánce, nesta segunda-feira, na estreia do time
na Copa do Mundo da Fifa”.2
Embora
a mentalidade neoliberal esteja entranhada na sociedade, alimentada por um
discurso que exalta “a promoção de uma visão empreendedora e puramente
econômica da vida e de todas as atividades humanas”3, elementos simbólicos
ligados à questão da identidade, do sentimento de pertencimento, da emoção etc.
permanecem fortes, porém são sustentados por interesses diferentes dos quais,
outrora, impulsionaram a disseminação do futebol pelo mundo.
O
futebol não saiu da Inglaterra sob o comando de uma vocação econômica. Não se
tratava de uma commodity cultural inglesa. Não foi a economia que se apropriou
do futebol nos primeiros anos da prática esportiva, mas a política.
Criado
pela classe média como um elemento de distinção, Eric Hobsbawm explica que, nos
primórdios de sua profissionalização, o esporte bretão mais parecia “uma
curiosa caricatura das relações entre classes do capitalismo industrial, como
empregadores de uma força de trabalho predominantemente operária, atraída para
a indústria pelos altos salários, pela oportunidade de ganhos extras antes da
aposentadoria (partidas beneficentes), mas, acima de tudo, pela oportunidade de
adquirir prestígio”.4 Neste momento, os trabalhadores jogavam para complementar
a renda.
De
acordo com o historiador Renato Soares Coutinho, a pretensão popular do
Flamengo, por exemplo, só veio na década de 1930, quando surge um projeto de
Estado nacionalista. A cultura popular passa a ser valorizada. A capoeira, os
blocos carnavalescos, o samba etc., passam a ser símbolos da nação. “Estado e
trabalhador haviam encontrado um vocabulário adequado para o reconhecimento
mútuo: o nacionalismo”, destaca Coutinho. “O Flamengo foi o primeiro clube de
futebol no Brasil que se apropriou do bem-sucedido discurso nacionalista
estatal”. Ou seja, o Flamengo começou a investir em sua imagem popular se
aproveitando do discurso político da época.
No
período entreguerras, “o Estado-nação totalitário ‘descobre’ o futebol e
procura colocá-lo a serviço do interesse nacional”.5 Hitler promovia partidas
internacionais para divulgar a imagem do regime nazista. E para a Copa de 1934,
na Itália, “um dos cartazes promocionais do Mundial apresentava um jogador, com
a bola no pé, fazendo a clássica saudação fascista com o braço estendido”.6
Mas,
após a Segunda Guerra Mundial, o Estado de bem-estar social aumentou a renda do
trabalhador, ao mesmo tempo em que ampliou o período de ócio. As tecnologias de
comunicação também foram aprimoradas, principalmente com a invenção e
popularização da televisão. Tanto as Olimpíadas quanto as Copas “eram limitadas
a poucos países, a poucos trechos das competições e com atraso de alguns dias.
Contudo, na década de 1950, os russos lançaram o satélite Sputnik e 18 países
europeus – e, com algumas horas de defasagem, EUA, Canadá e Japão – assistiram
as Olimpíadas de 1960 pela televisão”.7 Esses elementos foram levando o futebol
a se encaminhar diretamente para a cultura de massas e a transmissão televisiva
torna-se a principal fonte de faturamento dos eventos.
Assim,
quando o capitalismo entra em crise nos anos 1970, a forma encontrada pelos
capitalistas para manter os lucros “foi a subsunção de setores que até então
também não estavam totalmente integrados à lógica do valor”.8 De acordo com o
professor Wagner Barbosa Matias, o futebol foi um desses setores.
“Até a
reestruturação do modo capitalista ocorrida em meados da década de 1970, apesar
de já existirem competições e campeonatos futebolísticos em todo o mundo,
inclusive com grandes eventos internacionais, por exemplo, a Copa do Mundo
FIFA, as receitas dos clubes e das federações eram basicamente a partir das
bilheterias […] No entanto, isso ganha novos contornos com a substituição da
bilheteria pela comercialização dos direitos de difusão das imagens produzidas
pelos atletas como principal fonte de receita”, explica Matias.9
Hilário
Franco Júnior diz que regras como a do impedimento, a que regula o tempo que o
goleiro pode permanecer com a bola na mão após ser recuada e os três pontos
pela vitória nos campeonatos foram mudanças para aumentar a possibilidade de
gols e de dinamizar o jogo para agradar ao público que assiste ao espetáculo.10
Segundo o historiador, “hoje, quase todo equipamento de jogadores e árbitros
está disponível para o marketing, bem como os espaços dos estádios, salvo as
traves e as redes, pelo caráter religioso inerente a tais locais”.11
Jacques
Attali foi perspicaz em sua observação, como cita Gilberto Agostinho em livro
clássico: “Segundo o autor, o esporte vai perder sua identificação com o
sentimento nacional ou regional, sendo completamente controlado não só pelas
grandes corporações econômicas, como também pela mídia, com sua dinâmica
vinculada às exigências de uma programação televisiva intensa, capaz de
potencializar toda a emoção e a violência do jogo em um espaço como concentrado
entre um comercial e outro”.12 Esse momento chegou, e os clubes já podem ser
chamados de empresas.
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Operários milionários
Hoje, a
concentração de capital é tão alta que é possível pagar milhões em um
funcionário quando o retorno é mensurado em bilhões. É curioso que “a
desigualdade dos patrimônios, que diminuirá até 1970, parece ter retomado uma
curva ascendente”13 a partir de tal década, a mesma em que, por sua vez, tem
início a “indústria do futebol”.14 Thomas Piketty mostra que “a teoria mais
simples para explicar a desigualdade dos salários sustenta que diferentes
salários aportam diferentes contribuições à produção de uma empresa”.15 O
salário aumenta de acordo com a qualificação e, no caso do futebol, o capital
humano está relacionado ao jogador que mais se adequa aos padrões do espetáculo
midiático. Como explica Wagner Matias, “o clube investe em capital constante –
como centros de treinamento, academias e estádios – e capital variável para
produzir em quantidade e qualidade de forma ininterrupta a mercadoria jogadores
profissionais […] Portanto, os clubes de posse dos meios de produção e de força
de trabalho se apropriam de jovens com potencial e no seu interior lapida […]
neles os signos do futebol espetáculo”.16
As
competições internacionais, principais fonte de renda da FIFA, funcionam como
uma vitrine. A FIFA vende o insumo “futebol” para a fabricação de outras
mercadorias (roupas, desodorantes, shampoos etc.). Diferente do
‘tecnofeudalismo’, em que as Big Techs exploram o trabalho não assalariado dos
usuários que cedem seus dados para tais corporações, os clubes-empresas
exploram os operários da bola pagando imensos salários, já que o retorno não é
apenas alto, mas porque o giro do próprio capital torna-se extremamente rápido.
“Afinal, diferentemente de um bem, os espetáculos são consumidos
rapidamente”.17
Embora
muitos destaquem a atuação dos países árabes para o fortalecimento da sua
imagem no cenário geopolítico, jamais podemos comparar tal utilização do
futebol com a promovida pelos regimes que o usaram para redefinir a identidade
nacional. Os que assistem ao Mundial de Clubes até se emocionam ao ver os times
latino-americanos vencerem os europeus, mas tudo se trata de um espetáculo que
comercializa – assim como grande parte da indústria do entretenimento — a
emoção. Os jogadores são funcionários, operários milionários, que são expostos
nos campos para vender marcas. O sentimento dos torcedores, a emoção de herdar
o time do pai, de chorar e gritar palavrões enquanto os jogos são assistidos
são genuínas. O que mudou é que, enquanto antes o que alimentava essas emoções
eram propósitos políticos, hoje são puramente econômicos. E se antes se dizia
que o futebol era usado para alienar as massas enquanto os políticos faziam o
que queriam, hoje ele é usado para enriquecer empresas.
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Mundial de Clubes: uma oportunidade de negócio
Ao ser
entrevistado pelo The Atlantic, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, soltou
uma frase que buscava tocar o coração dos adeptos do esporte bretão: “Já era
hora de alguém inventar uma Copa do Mundo para clubes. Há 100 anos, sabemos
qual é o melhor país do mundo, mas, até hoje, não sabemos realmente qual é o
melhor time do mundo. Então, pensamos que talvez não fosse uma ideia ruim criar
uma Copa do Mundo para as equipes decidirem.”18 Era uma frase para agitar e
influenciar os principais consumidores do produto futebol. Infantino, capo da
FIFA, queria os olhos do planeta focados na principal competição de clubes. Mas
o que estava por trás dessas declarações?
A FIFA
é a principal entidade que comanda o futebol do planeta. Segundo último balanço
de contas apresentado pela entidade, espera-se que ela alcance um orçamento de
US$ 11 bilhões entre os anos de 2023-202619. Um aumento significativo de
aproximadamente US$ 4 bilhões em relação ao ciclo anterior entre 2019-2023.
Esses números mostram o poder econômico e financeiro que a entidade máxima do
esporte bretão tem arrecadado nos últimos anos sob a gestão de Infantino.
Diante
dos números, e com o objetivo de ampliar o capital, a FIFA resolveu criar um
torneio de clubes que englobe todos os continentes. Dentre as finalidades
estava certamente a intenção de abocanhar o mercado europeu, o mais potente
economicamente do mundo. Por exemplo, na última temporada 2023/2024, o futebol
europeu arrecadou cerca de 38 bilhões de euros, com um crescimento de 8% em
relação a temporada anterior20. Se olharmos para as cinco grandes ligas do
planeta (Espanha, Inglaterra, Itália, França e Alemanha), o valor gerado foi de
aproximadamente 20 bilhões de euros. Há uma oportunidade de ganhar dinheiro
para a FIFA, e ela não desperdiçou ao colocar representantes das 5 grandes
ligas no torneio, bem como colocar os europeus com o número maior de vagas.
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FIFA x UEFA: a disputa pelo monopólio do futebol
É claro
que a criação de um novo torneio provocaria conflitos. E o principal deles é
pela disputa do monopólio do produto Futebol. A FIFA, ao reivindicar para si um
torneio com 32 clubes, procurou diminuir a influência da segunda maior entidade
do futebol, a UEFA. Não é novidade no meio do futebol que o presidente da FIFA,
Gianni Infantino, e o presidente da UEFA, Alexander Ceferin, são rivais quando
o assunto é disputar a gestão do futebol mundial.
A UEFA,
com um orçamento de 6, 777 bilhões de euros na temporada 2023/202421, tem se
notabilizado com o slogan de a “maior organizadora de eventos de futebol”. Seus
produtos destacam-se, tais como, a Champions League e a Eurocopa. Entretanto,
nos últimos anos, Ceferin entrou em um lugar perigoso: o futebol de seleções.
Ao criar um novo torneio de seleções com apenas os europeus, a Nations League,
Ceferin começou a estratégia de ampliar o mercado comandado pela Europa. Essa
estratégia não caiu bem na FIFA, que costuma divulgar possuir o “maior torneio
do planeta”. A estratégia se ampliou na temporada passada, quando a Champions
League foi reformulada, aumentando o número de clubes e jogos, com a finalidade
de gerar mais receitas para a instituição.
Sem
perder tempo, e observando o movimento dos rivais, a FIFA colocou seu projeto
de mundial de clubes para rodar. Apesar da pressão da UEFA e das ligas
nacionais, os gigantes europeus decidiram participar do torneio após observarem
qual seria a premiação. A FIFA desembolsou US$1 bilhão como premiação para
todos os participantes, valor que é dividido por cada fase e também existem
valores para vitória, empate e derrota. Um exemplo da importância financeira do
evento, é que caso o Real Madri chegue até a final conseguirá desembolsar
aproximadamente US$125 milhões. E é nesse ponto que chegamos a mais uma
disputa: o modelo de clubes.
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Clubes-Sócios x Clubes-Estados: a disputa pelo modelo de gestão e pelo capital
O Real
Madri, maior clube de futebol do mundo, orgulha-se de possuir um modelo de
gestão no qual os sócios do clube votam para escolher um presidente. O atual,
Florentino Peréz, é considerado um dos grandes gestores de futebol do século
XXI em virtude da revolução que criou ao juntar jogadores de futebol e direitos
de imagem, criando verdadeiros pop-stars do futebol. Esse modelo iniciou com a
1ª geração dos galáticos entre 2001 e 2006, com jogadores como Roberto Carlos,
Beckham, Zidane, Figo, etc. Depois foi aperfeiçoado com a introdução das redes
sociais e a expansão da imagem, com a 2ª geração entre 2008 e 2018, e jogadores
como Cristiano Ronaldo, Benzema, Di Maria, Modric, dentre outros.
Esse
modelo que foi herdado do século XX, com algumas atualizações, vem sendo
ameaçado na Europa pelos chamados, clubes-Estado. São aqueles clubes que
possuem a administração sendo feita por um grupo de pessoas que são ligadas a
países, especificamente, aos países do Oriente Médio. Dentre os clubes que
estão nesse modelo aparecem o Paris Saint- Germain, o Manchester City, dentre
outros. A disputa entre os dois modelos é uma briga por quem comanda mais
capital do futebol advindos das receitas ligadas a patrocínios, ingressos,
premiações, etc.
É
interessante comparar os orçamentos desses dois modelos de gestão para entender
que apesar das diferenças de donos, eles possuem a mesma finalidade: lucrar e
alcançar o máximo de capital. Por exemplo, na temporada 2023/2024, o Real Madri
conseguiu atingir 1 bilhão de euros, tornando-se o primeiro clube da história a
alcançar esse valor. Seu adversário na gestão, os clube-Estados, Manchester
City e o PSG, atingiu o valor de 838 e 806 milhões de euros na mesma temporada,
respectivamente22.
O Real
Madri, interessado em conseguir mais dinheiro para financiar seus projetos
esportivos, durante a pandemia lançou uma iniciativa que criou um problema
político com a UEFA: a Superliga. O torneio, encampado por Real Madri e
Barcelona, buscava ser um competidor da Champions League. O projeto foi lançado
e apoiado pelos dois gigantes espanhóis, mas sofreu represálias de Ceferin que
ameaçou punir esportivamente ambos, caso seguissem com essa ideia.
Em
paralelo, o PSG articulou nos bastidores apoio a Ceferin e a UEFA, juntando um
grupo de times que fossem favoráveis a manter a Champions League, como
principal torneio de clubes do planeta. Estava formada as alianças políticas
pela disputa do capital do futebol: UEFA-PSG x Real Madri-Barcelona. Faltava um
último ator para compor essa disputa. Pois não falta, a FIFA com a criação do
mundial de clubes, indiretamente entrou nessa peleia ao trazer para seu torneio
a benção do maior clube do planeta, o Real Madri.
No
fundo, o que se percebe da disputa acima é uma briga pelo acesso ao capital que
o futebol gera no mundo. As federações disputam quem vai gerir as competições
esportivas, e a consequente mais valia advinda dessas competições. Do outro
lado, os clubes não apenas disputam troféus, mas querem lucrar ao máximo com
valores de competição, ingressos, publicidade e transferências. E a disputa se
intercruza quando federações e clubes se aliam para alcançar o monopólio do
futebol. Melhor dizendo, do Soccer.
Com
esse projeto neoliberal de transformar tudo em empresa, o sentimento de
torcedor está sendo manipulado por meio de um cimento ideológico que permite a
reprodução dessa estrutura. Assim, o jogador é um símbolo de “mérito;
individualismo; capacidade de superação e de lutar por novas conquistas; também
são fundamentais para induzir os indivíduos a comprarem os produtos e
serviços”.23 Não que o projeto ideológico nacionalista anterior era mais
emancipatório para a humanidade, mas, no que a sua substituição nos enriquece
socialmente para a construção de uma vida harmoniosa? Embora sejamos
torcedores, precisamos refletir sobre tal situação.
• ‘Futebol não é só europeu’: Mundial de
Clubes mostra qualidade brasileira e equilíbrio entre países, avalia jornalista
O novo
formato da Copa do Mundo de Clubes da Federação Internacional de Futebol (Fifa)
surpreendeu torcedores brasileiros e já mudou o clima em torno da competição.
Se no início parecia uma disputa protocolar, com vitória anunciada dos
europeus, agora é vista com mais entusiasmo, principalmente depois que
Botafogo, Flamengo e Fluminense mostraram força contra gigantes do Velho
Continente. Para o jornalista esportivo Luiz Ferreira, trata-se de um “acerto
da Fifa”.
Em
entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, Ferreira avalia que o
campeonato internacional revela que “a distância [entre os clubes] não é tão
grande” quanto se pensava, e “escancara ainda mais a falta de vontade que
alguns clubes europeus têm de dividir o futebol com outras partes do mundo”.
“Ao contrário do que muita gente pensa, o futebol não é apenas europeu. Existe
futebol no Brasil, na Argentina, na África do Sul, na Arábia Saudita, no Catar,
na Palestina”, ressalta.
“Agora
os europeus estão lidando com problemas que nós, sul-americanos, lidávamos no
formato antigo. Eles estão sofrendo com o calor, com o fim da temporada e
utilizando isso como desculpa para atuações ruins”, observa Ferreira. Ele
lembra que, historicamente, o Mundial acontecia em dezembro, em plena forma
física dos europeus. Com a mudança no calendário, o cenário se inverteu.
Boa
parte da resistência em valorizar o torneio, segundo Ferreira, vem da imprensa
europeia, e não dos atletas. “O jogador quer ganhar, o técnico quer fazer o
time vencer. A imprensa é que trata com desdém”, analisa. Para ele, os bons
jogos dos clubes brasileiros contra Chelsea, PSG e Borussia fizeram os europeus
“abrirem os olhos”. “Não estamos falando de times que chegaram lá por acaso,
mas que mereceram estar no Campeonato Mundial.”
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“Aqui não é um deserto”
A
vitória do Botafogo sobre o Paris Saint-Germain, que quebrou um jejum de 13
anos sem vitórias de clubes brasileiros sobre europeus no Mundial, foi um
marco, na visão do jornalista. “Criou-se muito essa mística por conta do 7×1
[placar da derrota devastadora do Brasil contra a Alemanha, na Copa do Mundo de
2014], por conta da má fase da seleção. Mas […] os jogadores brasileiros e
argentinos estão na Europa porque lá tem mais dinheiro. Nós temos qualidade,
mostramos isso. O futebol brasileiro está mostrando que aqui não é um deserto,
nunca foi um deserto e nunca será um deserto”, destaca.
Ferreira
cita as conquistas recentes do Flamengo na Libertadores e o desempenho do
Fluminense contra o Borussia como exemplos da força do futebol brasileiro. Ele
projeta um futuro animador também para o futebol feminino, com a possível
criação de um Mundial de Clubes para mulheres. “Imaginem que legal vermos o
Corinthians jogando com o Barcelona, um Lyon da Tainara enfrentando um São
Paulo”, diz. “A Fifa tem na mão um
grande produto, fazendo aquilo que sempre pedimos, que é levar o futebol para
as mais diferentes partes do mundo e proporcionar que consigam participar dessa
festa”, comemora.
Com a
fase de grupos encerrada, o chaveamento promete confrontos acirrados. Um dos
destaques é o embate entre Palmeiras e Botafogo, que se enfrentam nas oitavas
de final. “O Palmeiras do [treinador] Abel [Ferreira] é aquele time que quando
você acha que está morto, está vivo realmente”, comenta o jornalista. Já o
Botafogo, mesmo com o desfalque de Gregore, que levou um cartão amarelo, “está
entendendo como jogar essa competição” e soube aproveitar o calor e a maratona
de jogos a seu favor.
Ferreira
acredita que ao menos um dos dois clubes brasileiros chegará à semifinal,
enfrentando o Benfica e o Chelsea. “Flamengo e Botafogo já mostraram que o
bicho não é tão feio assim. Dá para chegar”, afirma.
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Racismo ainda mancha o futebol mundial
Apesar
do bom nível técnico, o Mundial de Clubes também escancarou outro problema
estrutural do futebol: o racismo. Pela primeira vez, um árbitro relatou
oficialmente um caso durante o torneio. Foi o brasileiro Ramon Abate Abel, em
partida entre Real Madrid e Pachuca. O zagueiro alemão Antonio Rüdiger
denunciou insultos racistas de um jogador mexicano.
“O
futebol, o esporte no geral, é reflexo da sociedade”, lamenta Luiz Ferreira.
Ele critica a postura hesitante da Fifa em enfrentar o problema. “Se nem a Fifa
colabora direito e dança conforme a música, dependendo de onde estão sendo
feitas as suas competições, o que podemos esperar do jogador, da torcida? O
exemplo tem que vir de cima. Se a Fifa realmente quiser punir o racismo, o
racismo vai ser punido”, defende.
“Racismo
não tem mais espaço. […] O futebol é tratado como esse espaço para as pessoas
colocarem todas as suas frustrações, mas não é assim”, conclui.
• Inovações do Mundial de Clubes da Fifa
foram boas ou ruins?
Quer
você goste ou não, há várias novidades na Copa do Mundo de Clubes Fifa.
Desde a
forma como os jogadores entram em campo até a regra dos oitos segundos para os
goleiros, o novo formato com 32 times já está dando o que falar.
Mas,
afinal, quais são essas novas ideias que a Fifa colocou em prática? Elas estão
funcionando?
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Entrada dos jogadores
No
Mundial de Clubes da Fifa, os jogadores titulares entram em campo um a um, com
uma apresentação individual antes de cada jogo.
O
repórter Shamoon Hafez, que está cobrindo o campeonato, disse que essa é a
inovação mais notada até agora, principalmente por causa do tempo que leva.
O
meio-campista do Chelsea, Romeo Lavia, gostou da ideia. "Acho que é algo
especial e novo para a gente. Eu curti. Por que não levar isso para a Premier
League? Tem um quê de show, né? Eu curto bastante. A única diferença é que [se
fosse na Premier League] a gente ia acabar sentindo um pouco de frio, porque
depois que você entra, tem que esperar os outros jogadores."
A
novidade tem sido criticada por torcedores, já que acaba deixando a cerimônia
pré-jogo mais longa, e várias partidas do Mundial de Clubes têm começado com
atraso por isso.
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Câmera do árbitro
A
câmera do árbitro, que fica presa ao corpo dele, mostra imagens ao vivo antes
do jogo, no túnel, durante o aquecimento e no cara ou coroa.
Diferente
do que acontece no rúgbi, nada é mostrado ao vivo durante o jogo — embora os
lances do gol ou jogadas bonitas possam ser exibidas depois, com um pequeno
atraso — e qualquer polêmica ou uma lesão, por exemplo, não é exibida.
As
imagens ficam disponíveis para o assistente de vídeo do árbitro (VAR), mas esse
não é o objetivo principal da inovação.
A
filmagem do lance que levou o zagueiro do Manchester City, Rico Lewis, a ser
expulso durante a partida de estreia contra o Wydad Casablanca foi transmitida,
mas o cartão vermelho já havia sido mostrado.
O
ex-árbitro internacional Pierluigi Collina disse que a tecnologia tem mais um
propósito de entretenimento do que arbitragem.
Segundo
ele, a ideia da Fifa é mostra o jogo por um ângulo único e "melhorar a
narrativa" da transmissão.
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Regra de oito segundos para os goleiros
"É
muito drama", disse o comentarista da DAZN Michael Brown quando o goleiro
do Al Hilal, Yassine Bounou, se tornou o segundo goleiro a conceder um
escanteio por segurar a bola por mais de oito segundos.
O lance
aconteceu nos 96 minutos do empate em 1 a 1 entre o clube saudita e o Real
Madrid — e poderia ter custado caro.
O
Mundial de Clubes está entre os campeonatos de verão em que a nova regra dos
outos segundos para goleiros está sendo testada pela primeira vez.
Segundo
as regras do Conselho da Associação Internacional de Futebol (Ifab, na sigla em
inglês), "um escanteio será concedido se o goleiro, dentro da área de
pênalti, controlar a bola com as mãos/braços por mais de oito segundos antes de
soltá-la. O árbitro decide quanto o goleiro tem o controle da bola e começa a
contar os oito segundos, sinalizando com a mão levantada os últimos cinco
segundos".
O
goleiro do Mamelodi Sundowns, Ronwen Williams, foi o primeiro a ser penalizado
com essa nova regra, nos 10 minutos finais da vitória por 1 a 0 sobre o Ulsan
Hyundai.
A regra
também está em vigor no Campeonato Europeu Sub-21, mas, por enquanto, ninguém
foi punido.
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Replays do VAR exibidos no estádio
Assim
como em campeonatos anteriores da Fifa, o árbitro em campo comunicará as
decisões do VAR — e os motivos delas — para os torcedores no estádio.
Mas,
pela primeira vez, torcedores que estão no estádio podem ver os mesmos replays
que os árbitros usam para fazer as análises.
Contudo,
as conversas entre o árbitro e a cabine do VAR não são mostradas.
Collina
pediu paciência para aqueles que não conseguem entender por que o futebol ainda
não implementou de forma mais ampla algo que já ocorre no rúgbi ou em todos os
principais esportes americanos.
"Eu
não posso dizer se algo a mais vai ser incorporado no futuro. Mas nós
precisamos fazer isso quando tivermos certeza que não afetará o processo de
decisão."
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Impedimento semiautomático aprimorado
Os
árbitros estão usando uma tecnologia de impedimento semiautomático acelerada
que os avisa para interromper o jogo imediatamente quando um jogador que está a
mais de 10 centímetros na posição de impedimento toca na bola.
O
objetivo é reduzir atrasos desnecessários.
Os
assistentes do árbitro receberão uma notificação na hora sem precisar esperar
pela tecnologia checar as posições e distâncias — como no caso dos sistemas de
impedimento semiautomáticos usados na maioria das competições de futebol.
Essa
versão começou a ser usada na Premier League em 12 de abril.
A
introdução de um sistema de impedimento semiautomático aprimorado aconteceu
após o atacante do Nottingham Forest, Taiwo Awoniyi, sofrer uma grave lesão
abdominal contra o Leicester City.
O
nigeriano bateu na trave após o jogo ter sido autorizado a prosseguir, apesar
da posição de impedimento de um jogador.
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Prêmio 'craque do jogo'
O
prêmio Superior Player of the Match, ou "craque do jogo" em
português, é dado ao melhor jogador de cada partida e é decidido por meio do
voto popular.
A
votação fica aberta entre os minutos 60 e 88 do jogo, por meio do aplicativo
FIFA+.
Até
agora, alguns dos vencedores do prêmio foram Estevão (Palmeiras) Igor Jesus
(Botafogo), Michael Olise (Bayern Munich), Vitinha (Paris Saint-Germain), Pedro
Neto (Chelsea) e Phil Foden (Manchester City).
O termo
Man of the Match (Homem da partida, na tradução livre para o português) foi
substituído por Player of the Match (Jogador da partida) na Copa do Mundo de
2022.
No
primeiro jogo do Mundial, entre Inter Miami e Al Ahly, que terminou em 0 a 0, o
goleiro do Inter Miami, Oscar Ustari, foi o primeiro a receber o prêmio de
melhor da partida.
Fonte:
Le Monde/Brasil de Fato/BBC Esporte

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