quinta-feira, 26 de junho de 2025

Valerio Arcary: Uma guerra imprevisível

A história ensina que nenhum Estado é invencível. Nunca se sabe como vai terminar uma guerra quando ela começa. Ninguém pode antecipar o desenlace da guerra iniciada por Israel contra Irã, apesar do ataque dos EUA, que abriu o caminho para um comprometimento norte-americano irreversível.

Imprevisível, porque o projeto do nacional-imperialismo de Tel Aviv nunca foi somente impedir o Irã de ter uma bomba nuclear. Essa narrativa é meia verdade. Trata-se de derrubar a República islâmica, um raro Estado independente na periferia do mercado mundial, uma estratégia muito mais perigosa. Benjamin Netanyahu arrastou Donald Trump, que improvisou um giro político provocando dissidências até na extrema-direita que o apoia, para exame, avaliação, ou teste da reação de Moscou e Beijing, ao exibir sua superioridade militar.

Evidentemente, parece mais provável uma derrota militar iraniana, em função da enorme disparidade de forças. A máquina militar sionista associada ao poderio dos EUA é, esmagadoramente, maior. Não é possível para o Irã resistir sem apoios da Rússia e da China, que parecem ser improváveis. Mas Benjamin Netanyahu e Donald Trump podem estar subestimando o regime de Teerã, que parece ter ainda coesão social interna, e bombardeou uma base norte-americana no Qatar.

Anunciou, também, por enquanto, como ameaça o fechamento do estreito de Hormuz, o que produziria uma onda de choque inflacionário sobre a economia mundial com a redução vertiginosa da oferta de 20% do petróleo e gás.

Não podemos, também, desconsiderar que há variados tipos de derrotas. Destruir a infraestrutura militar do Irã em uma guerra aérea não é o mesmo que conquistar o país, uma estratégia impossível sem uma invasão. A maior vitória de Benjamin Netanyahu, até agora, foi política: a decisão de Donald Trump de iniciar bombardeios “por prestações”, ainda que camuflando a decisão de declaração de guerra.

A destruição das centrífugas com o pretexto de que o Irã não pode ter armas nucleares, tentando legitimar como defensiva uma brutal agressão, serve para mascarar um plano imperialista. O desafio é a disputa contra a China pela supremacia de poder no sistema mundial. O regime islâmico é o principal obstáculo para um pleno domínio do Oriente Médio pela Tríade.

Desde os anos cinquenta, quando o Reino Unido e os EUA apoiaram um golpe militar que derrubou o governo eleito de Mosaddegh, e sustentaram a ditadura fantasiada de monarquia do Xá Reza Pahlevi, foi assim. A vitória da revolução popular liderada pelo clero xiita em 1979 foi um duro revés. Israel e EUA estão aproveitando a oportunidade pela ofensiva contra os palestinos, a neutralização do Hezbollah e a queda Assad na Síria para impor uma derrota histórica ao Irã.

Mas as guerras não se lutam somente com armas. Toda guerra é uma luta político-social em forma extrema, e a disputa pelas consciências é tão importante como as bombas. Quase dois bilhões de pessoas no mundo são muçulmanas, se calcula que algo em torno de 10% são xiitas, pelo menos duas centenas de milhões. O regime de Teerã é uma teocracia ditatorial, ainda que haja eleições e pluralidade de candidaturas, desde que aprovadas pelo conselho supremo dos aiatolás, e não merece nenhuma confiança da esquerda mundial.

Ao contrário, a violenta repressão ao movimento de mulheres é um ataque às liberdades democráticas mais elementares. Mas ninguém na esquerda mundial pode ficar indiferente diante de uma guerra imperialista contra uma nação periférica que defende seu inalienável direito à soberania nacional.  A defesa do imediato cessar fogo e de uma solução pacífica deve ser o eixo da solidariedade com o Irã.

Donald Trump garantiu que o bombardeio foi um sucesso total. O regime de Teerã afirma que seus estoques de urânio enriquecido permanecem intactos, assim como a capacidade técnica nuclear. O mais provável é que ambos estejam mentindo. As informações militares incontroversas disponíveis são poucas. É impossível ter uma avaliação realista do contexto militar.

Mas é evidente que o cenário político-militar da guerra mudou com o engajamento dos EUA, ainda que tenha sido um improviso precipitado pela iniciativa nacional-imperialista de Israel. O mínimo que se pode dizer é que a situação militar é muito desfavorável para o Irã. A superioridade militar de Israel parece ter se confirmado, deixando o espaço aéreo iraniano, nestes primeiros dez dias muito mais vulnerável.

Mas as defesas aéreas de Israel não são invioláveis, e não se sabe por quanto tempo o volume de mísseis de Tel Aviv é suficiente diante do armazém de mísseis e lançadores de Teerã, ainda que fragilizado. Benjamin Netanyahu tem apoio da esmagadora maioria da população judia na agressão ao Irã, mas, por quanto tempo, se a rotina de refúgio nos bunkers se prolongar?

A dimensão da rede de alianças e a força das armas pode parecer o fator decisivo em uma guerra, mas não são o bastante. Os EUA deveriam ter aprendido essa lição no Vietnam, no Iraque e no Afeganistão. E o Irã é, comparativamente, uma sociedade mais complexa. Um governo pode ser derrotado, mas a subjugação de uma nação é algo muito mais complexo.

Israel derrotou, militarmente, o Hamas, ao custo de um genocídio sem precedentes neste século, mas o enfraquecimento da milícia não foi aniquilação da resistência palestina. Israel liquidou a primeira linha do núcleo dirigente do Hezbollah, mas a neutralização da milícia libanesa foi relativa. Os houthis no Yemen têm sido bombardeados, mas mantém posições.

Apesar destas indiscutíveis vitórias militares, o governo de Benjamin Netanyahu vivenciou um isolamento internacional que Israel nunca conheceu. Não basta para Tel Aviv destruir a infraestrutura militar e as instalações de enriquecimento de urânio do Irã. Israel quer derrubar o regime de Teerã e consolidar o domínio dobre o Oriente Médio. Mas o primeiro objetivo não parece possível somente com uma guerra aérea.

Não é possível por três razões:

(a) primeiro porque os mísseis de Israel não são eficazes diante de instalações subterrâneas;

(b) segundo porque, mesmo com o engajamento dos EUA e seus super-bombardeiros e suas superbombas, nunca se poderá saber em que medida o Irã poderá preservar reservas de urânio enriquecido;

(c) terceiro, por que, por mais que sejam eficientes as fontes de informação de Israel, parece impossível evitar o perigo de um vazamento radioativo, ou seja, um desastre ambiental apocalíptico indefensável.

Mas, sem tropas no chão e uma invasão militar em toda a linha, como fazê-lo? Israel tem condições de vencer o Irã sem a presença das Forças Armadas norte-americanas? Até onde Donald Trump está disposto a ir? A hegemonia conquistada pelo abuso de força militar é tirânico e insustentável.

Estamos no alvorecer de uma Terceira Guerra Mundial? Não, ainda não. A perspectiva de um confronto direto entre os EUA e China não está colocado. Mas nunca existiu uma transição pacífica de supremacia no sistema internacional nos últimos quatrocentos anos.

Londres foi à guerra quatro vezes contra Amsterdam no século XVII, até derrotar a Holanda. Inglaterra foi à guerra contra a França quatro vezes no século XVIII, até a derrota de Napoleão em 1815. A Alemanha, com o apoio do Japão, empurrou o mundo para duas guerras mundiais no século XX.

Não podemos saber se diante da ascensão da China será possível uma passagem concertada de incorporação pacífica aos centros de poder. Não parece, no entanto, a hipótese mais provável. Nos países da Tríade, a começar pelos EUA, a força política mais poderosa é a extrema direita neofascista. Na Europa, o cerco à Rússia através da expansão da OTAN ofereceu a Putin a oportunidade de legitimar, internamente, a invasão da Ucrânia. A China aposta em ganhar tempo.

Mas Israel não hesitou no projeto de uma guerra de “recolonização” do Irã. Estamos na iminência do uso de armas nucleares em guerras regionais? Não, só poderia acontecer, se houvesse um total descontrole, uma situação caótica. Mas se enganam aqueles que calculam que uma derrota do Irã iria diminuir o impulso nacional-imperialista dos EUA. Se o regime de Teerã viesse a cair o mundo ficará muito mais perigoso, não menos.

O Irã não queria agora uma guerra com Israel, muito menos com os EUA. O regime da igreja/partido/ exército persegue o cessar fogo, o que sinaliza a admissão de uma condição de inferioridade. Não admitiu, entretanto, rendição. Israel violou todas regras do direito internacional. Mas ninguém pode dizer que foi uma surpresa. O genocídio em Gaza é um crime contra a humanidade, uma aberração histórica.

¨      Israel, EUA e Irã afirmam ter vencido a guerra, mas quem realmente ganhou? Por Julian Borger

Para surpresa de quase ninguém, todos os lados declararam vitória ao aceitarem formalmente o anúncio de cessar-fogo de Donald Trump na manhã de terça-feira, mas os vencedores a longo prazo — se houver algum — e os perdedores levarão algum tempo para surgir.

Ao meio-dia, no Oriente Médio, a poeira ainda não havia baixado . Mais de duas horas após o início do cessar-fogo, às 5h GMT, Israel afirmou ter interceptado pelo menos dois mísseis vindos do Irã rumo ao norte do país. O Irã negou ter lançado qualquer coisa, mas Israel prometeu retaliação devastadora.

Ao acordar com a notícia, um Trump furioso culpou ambos os lados, mas reservou uma fúria particular para Israel, dizendo-lhe para trazer seus pilotos para casa e avisando que se eles lançassem suas bombas, seria uma "violação grave".

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, teria tentado acalmar o presidente dos EUA. É politicamente prejudicial para ele estar do lado errado de Trump, e a pressão sobre ele será intensa para que retorne ao cumprimento do cessar-fogo.

Por sua vez, o Irã apresentou a trégua como algo que havia "imposto ao inimigo", uma avaliação imediatamente suspeita, dado o número muito pequeno de mísseis que perfuraram o escudo defensivo de seus inimigos e os danos muito limitados que conseguiram infligir.

Mesmo que Trump consiga recolocar o cessar-fogo nos trilhos, sua ousada afirmação de ter garantido uma paz duradoura foi refutada com uma velocidade humilhante.

“Acho que o cessar-fogo é ilimitado. Vai durar para sempre”, disse Trump à NBC News na noite de segunda-feira. Ele havia previsto que Israel e Irã nunca mais “voltariam a atirar um no outro”.

A outra avaliação abrangente do presidente, de que o programa nuclear do Irã havia sido "obliterado", para nunca mais ser reconstruído, foi repetida por Netanyahu, embora com um pouco menos de ênfase.

Uma imagem de satélite mostrando os danos causados ​​pelos ataques dos EUA na instalação nuclear de Fordow, no Irã

Reconhecendo o cessar-fogo, o gabinete de Netanyahu emitiu uma declaração declarando que havia removido “uma dupla ameaça existencial, tanto na questão nuclear quanto em relação aos mísseis balísticos”.

Não há dúvida de que os bombardeiros israelenses e americanos realizaram um enorme trabalho de demolição. Imagens de satélite circularam mostrando instalações nucleares iranianas em ruínas e crateras no solo onde se presume que estejam localizadas instalações subterrâneas.

A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) confirmou danos significativos às câmaras aéreas e subterrâneas da principal usina de enriquecimento de urânio do Irã, em Natanz, e na usina mais bem protegida de Fordow, construída em uma montanha. O diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi, destacou que, mesmo que as bombas antibunker americanas não tenham penetrado até as salas de enriquecimento, espera-se que tenham causado "danos muito significativos", dada a "extrema sensibilidade das centrífugas à vibração".

Várias outras instalações em um amplo complexo nuclear em Isfahan também ficaram em ruínas, e outras ao redor do país foram severamente danificadas.

Mas uma avaliação preliminar da inteligência dos EUA sobre os ataques aéreos concluiu que eles provavelmente só atrasaram o programa nuclear em alguns meses e descobriu que grande parte do estoque de urânio altamente enriquecido do Irã pode ter sido transferido para outras instalações nucleares secretas.

Grossi também afirmou que a AIEA não poderia mais contabilizar o estoque iraniano de 400 kg de urânio enriquecido a 60% de pureza. Esse urânio altamente enriquecido (HEU) é uma das joias da coroa do programa nuclear iraniano. Se enriquecido a 90%, seria suficiente para cerca de 10 ogivas.

Antes do ataque surpresa de Israel, a AIEA mantinha o material sob vigilância remota em um depósito nas profundezas do complexo de Isfahan. Desde o ataque, a agência perdeu o controle do material.

Como o HEU pode ser armazenado e transportado em contêineres do tamanho de tanques de mergulho, ele pode ser facilmente transportado pelo país em carros de passeio comuns.

Autoridades iranianas sugeriram publicamente que o estoque de HEU havia sido movido antes que o país fosse atacado.

Uma imagem de satélite mostrando os danos causados ​​pelos ataques dos EUA na instalação nuclear de Natanz, no Irã

O vice-presidente dos EUA, JD Vance, admitiu que Washington não sabia onde estava o HEU, prometendo ao programa This Week da ABC: "trabalharemos nas próximas semanas para garantir que faremos algo com esse combustível".

“Essa é uma das coisas sobre as quais conversaremos com os iranianos”, disse ele.

Ian Stewart, diretor executivo do escritório de Washington do Centro James Martin para Estudos de Não Proliferação (CNS), escreveu no Bluesky: “Há material equivalente a 10 armas nucleares (60% de HEU) fora de controle e a AIEA não sabe onde ele está. Essa deveria ser a principal preocupação.”

James Acton, codiretor do programa de política nuclear do Carnegie Endowment for International Peace, disse: “É difícil exagerar o quão importante isso é... esta guerra pode ser um desastre para a não proliferação.

“Deixe-me colocar desta forma. Se um acordo nuclear tivesse permitido ao Irã manter várias bombas de URÂNIO ALTAMENTE ENRIQUECIDO fora das salvaguardas da AIEA, diríamos (corretamente) que foi um péssimo acordo”, escreveu ele no X. “No entanto, esse é o resultado da força militar.”

Especialistas nucleares disseram que o Irã poderia transformar seu estoque de 60% de HEU em material para armas com relativa facilidade. Desde que Trump abandonou um acordo nuclear multilateral em 2018, a AIEA não conseguiu contabilizar todos os componentes de centrífugas do Irã.

O estágio final do enriquecimento poderia ser realizado em um segundo local em Natanz, que o Irã vem escavando sob uma montanha há alguns anos e que não foi bombardeado, ou poderia ser feito em algum prédio industrial anônimo.

Jeffrey Lewis, professor de CNS no Instituto Middlebury de Estudos Internacionais em Monterey, disse que se o Irã decidisse fabricar uma bomba, levaria cerca de cinco meses para produzir material físsil suficiente para um pequeno arsenal nuclear.

As agências de inteligência dos EUA e a AIEA concordam que, antes do ataque israelense, não havia indícios de que o líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, tivesse ordenado a construção de uma ogiva. O risco representado pela campanha de bombardeios israelense e americana é que agora ele pode mudar de ideia, finalmente convencendo-o de que somente uma arma nuclear pode deter os inimigos do Irã.

Se essa decisão fosse tomada, as outras peças do quebra-cabeça poderiam se encaixar. A construção de uma ogiva nuclear viável provavelmente levaria vários meses também, mas poderia ser feita em um espaço pequeno. Israel matou cerca de 15 cientistas nucleares iranianos, mas depois de mais de um quarto de século, o estoque de conhecimento nuclear do país provavelmente é muito maior. Cerca de metade do arsenal de mísseis balísticos do Irã, estimado em cerca de 2.500 ogivas, está desaparecido.

O ex-secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, disse que o governo Biden realizou simulações de um ataque ao programa nuclear do Irã, mas os exercícios de guerra serviram para ressaltar o perigo de o regime se dispersar e esconder seus ativos, e então decidir "correr em direção a uma bomba".

“Portanto, o ataque do Sr. Trump corre o risco de precipitar o que queremos evitar”, escreveu ele no New York Times.

Israel e os EUA podem estar contando com suas poderosas capacidades de inteligência e domínio militar para destruir qualquer projeto nuclear que o Irã tente reconstituir, com ataques repetidos nos próximos anos. Mas essa é uma forma de não proliferação muito mais violenta e arriscada do que um acordo como o firmado durante a presidência de Barack Obama, que foi verificado e monitorado pela AIEA.

Haveria maior certeza se o atual governo iraniano fosse substituído por uma alternativa mais condescendente e alinhada ao Ocidente. A mudança de regime foi um objetivo de guerra cada vez mais evidente, expresso pelos governos de Trump e Netanyahu ao longo da guerra. Até o momento, o establishment teocrático iraniano está ensanguentado, mas não mostra sinais de fraturas internas.

É detestado por grande parte da população, mas mantém o monopólio da violência que o manteve no poder até agora. Pelo menos por enquanto, a indignação popular iraniana por ter sido bombardeada ofusca sua repulsa por seus governantes. De fato, aqueles que se uniram ao grito de resistência "Mulher, vida, liberdade" nos últimos anos podem estar entre os perdedores a curto prazo.

Com o tempo, a impotência do regime diante de ataques externos pode se tornar uma rachadura fatal em todo o edifício, mas não há sinal disso até agora.

“Deveríamos julgar este ataque pelo seu propósito real, não pela camuflagem legal de autodefesa preventiva”, disse Lewis no X. “Se o ataque deixar o regime atual, ou algo muito parecido, no poder com uma opção nuclear, então terá sido um fracasso estratégico.”

 

Fonte: A Terra é Rednda/The Guardian

 

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