Valerio
Arcary: Uma guerra imprevisível
A
história ensina que nenhum Estado é invencível. Nunca se sabe como vai terminar
uma guerra quando ela começa. Ninguém pode antecipar o desenlace da guerra
iniciada por Israel contra Irã, apesar do ataque dos EUA, que abriu o caminho
para um comprometimento norte-americano irreversível.
Imprevisível,
porque o projeto do nacional-imperialismo de Tel Aviv nunca foi somente impedir
o Irã de ter uma bomba nuclear. Essa narrativa é meia verdade. Trata-se de
derrubar a República islâmica, um raro Estado independente na periferia do
mercado mundial, uma estratégia muito mais perigosa. Benjamin Netanyahu
arrastou Donald Trump, que improvisou um giro político provocando dissidências
até na extrema-direita que o apoia, para exame, avaliação, ou teste da reação
de Moscou e Beijing, ao exibir sua superioridade militar.
Evidentemente,
parece mais provável uma derrota militar iraniana, em função da enorme
disparidade de forças. A máquina militar sionista associada ao poderio dos EUA
é, esmagadoramente, maior. Não é possível para o Irã resistir sem apoios da
Rússia e da China, que parecem ser improváveis. Mas Benjamin Netanyahu e Donald
Trump podem estar subestimando o regime de Teerã, que parece ter ainda coesão
social interna, e bombardeou uma base norte-americana no Qatar.
Anunciou,
também, por enquanto, como ameaça o fechamento do estreito de Hormuz, o que
produziria uma onda de choque inflacionário sobre a economia mundial com a
redução vertiginosa da oferta de 20% do petróleo e gás.
Não
podemos, também, desconsiderar que há variados tipos de derrotas. Destruir a
infraestrutura militar do Irã em uma guerra aérea não é o mesmo que conquistar
o país, uma estratégia impossível sem uma invasão. A maior vitória de Benjamin
Netanyahu, até agora, foi política: a decisão de Donald Trump de iniciar
bombardeios “por prestações”, ainda que camuflando a decisão de declaração de
guerra.
A
destruição das centrífugas com o pretexto de que o Irã não pode ter armas
nucleares, tentando legitimar como defensiva uma brutal agressão, serve para
mascarar um plano imperialista. O desafio é a disputa contra a China pela
supremacia de poder no sistema mundial. O regime islâmico é o principal
obstáculo para um pleno domínio do Oriente Médio pela Tríade.
Desde
os anos cinquenta, quando o Reino Unido e os EUA apoiaram um golpe militar que
derrubou o governo eleito de Mosaddegh, e sustentaram a ditadura fantasiada de
monarquia do Xá Reza Pahlevi, foi assim. A vitória da revolução popular
liderada pelo clero xiita em 1979 foi um duro revés. Israel e EUA estão
aproveitando a oportunidade pela ofensiva contra os palestinos, a neutralização
do Hezbollah e a queda Assad na Síria para impor uma derrota histórica ao Irã.
Mas as
guerras não se lutam somente com armas. Toda guerra é uma luta político-social
em forma extrema, e a disputa pelas consciências é tão importante como as
bombas. Quase dois bilhões de pessoas no mundo são muçulmanas, se calcula que
algo em torno de 10% são xiitas, pelo menos duas centenas de milhões. O regime
de Teerã é uma teocracia ditatorial, ainda que haja eleições e pluralidade de
candidaturas, desde que aprovadas pelo conselho supremo dos aiatolás, e não
merece nenhuma confiança da esquerda mundial.
Ao
contrário, a violenta repressão ao movimento de mulheres é um ataque às
liberdades democráticas mais elementares. Mas ninguém na esquerda mundial pode
ficar indiferente diante de uma guerra imperialista contra uma nação periférica
que defende seu inalienável direito à soberania nacional. A defesa do
imediato cessar fogo e de uma solução pacífica deve ser o eixo da solidariedade
com o Irã.
Donald
Trump garantiu que o bombardeio foi um sucesso total. O regime de Teerã afirma
que seus estoques de urânio enriquecido permanecem intactos, assim como a
capacidade técnica nuclear. O mais provável é que ambos estejam mentindo. As
informações militares incontroversas disponíveis são poucas. É impossível ter
uma avaliação realista do contexto militar.
Mas é
evidente que o cenário político-militar da guerra mudou com o engajamento dos
EUA, ainda que tenha sido um improviso precipitado pela iniciativa
nacional-imperialista de Israel. O mínimo que se pode dizer é que a situação
militar é muito desfavorável para o Irã. A superioridade militar de Israel
parece ter se confirmado, deixando o espaço aéreo iraniano, nestes primeiros
dez dias muito mais vulnerável.
Mas as
defesas aéreas de Israel não são invioláveis, e não se sabe por quanto tempo o
volume de mísseis de Tel Aviv é suficiente diante do armazém de mísseis e
lançadores de Teerã, ainda que fragilizado. Benjamin Netanyahu tem apoio da
esmagadora maioria da população judia na agressão ao Irã, mas, por quanto
tempo, se a rotina de refúgio nos bunkers se prolongar?
A
dimensão da rede de alianças e a força das armas pode parecer o fator decisivo
em uma guerra, mas não são o bastante. Os EUA deveriam ter aprendido essa lição
no Vietnam, no Iraque e no Afeganistão. E o Irã é, comparativamente, uma
sociedade mais complexa. Um governo pode ser derrotado, mas a subjugação de uma
nação é algo muito mais complexo.
Israel
derrotou, militarmente, o Hamas, ao custo de um genocídio sem precedentes neste
século, mas o enfraquecimento da milícia não foi aniquilação da resistência
palestina. Israel liquidou a primeira linha do núcleo dirigente do Hezbollah,
mas a neutralização da milícia libanesa foi relativa. Os houthis no Yemen têm
sido bombardeados, mas mantém posições.
Apesar
destas indiscutíveis vitórias militares, o governo de Benjamin Netanyahu
vivenciou um isolamento internacional que Israel nunca conheceu. Não basta para
Tel Aviv destruir a infraestrutura militar e as instalações de enriquecimento
de urânio do Irã. Israel quer derrubar o regime de Teerã e consolidar o domínio
dobre o Oriente Médio. Mas o primeiro objetivo não parece possível somente com
uma guerra aérea.
Não é
possível por três razões:
(a)
primeiro porque os mísseis de Israel não são eficazes diante de instalações
subterrâneas;
(b)
segundo porque, mesmo com o engajamento dos EUA e seus super-bombardeiros e
suas superbombas, nunca se poderá saber em que medida o Irã poderá preservar
reservas de urânio enriquecido;
(c)
terceiro, por que, por mais que sejam eficientes as fontes de informação de
Israel, parece impossível evitar o perigo de um vazamento radioativo, ou seja,
um desastre ambiental apocalíptico indefensável.
Mas,
sem tropas no chão e uma invasão militar em toda a linha, como fazê-lo? Israel
tem condições de vencer o Irã sem a presença das Forças Armadas
norte-americanas? Até onde Donald Trump está disposto a ir? A hegemonia
conquistada pelo abuso de força militar é tirânico e insustentável.
Estamos
no alvorecer de uma Terceira Guerra Mundial? Não, ainda não. A perspectiva de
um confronto direto entre os EUA e China não está colocado. Mas nunca existiu
uma transição pacífica de supremacia no sistema internacional nos últimos
quatrocentos anos.
Londres
foi à guerra quatro vezes contra Amsterdam no século XVII, até derrotar a
Holanda. Inglaterra foi à guerra contra a França quatro vezes no século XVIII,
até a derrota de Napoleão em 1815. A Alemanha, com o apoio do Japão, empurrou o
mundo para duas guerras mundiais no século XX.
Não
podemos saber se diante da ascensão da China será possível uma passagem
concertada de incorporação pacífica aos centros de poder. Não parece, no
entanto, a hipótese mais provável. Nos países da Tríade, a começar pelos EUA, a
força política mais poderosa é a extrema direita neofascista. Na Europa, o
cerco à Rússia através da expansão da OTAN ofereceu a Putin a oportunidade de
legitimar, internamente, a invasão da Ucrânia. A China aposta em ganhar tempo.
Mas
Israel não hesitou no projeto de uma guerra de “recolonização” do Irã. Estamos
na iminência do uso de armas nucleares em guerras regionais? Não, só poderia
acontecer, se houvesse um total descontrole, uma situação caótica. Mas se
enganam aqueles que calculam que uma derrota do Irã iria diminuir o impulso
nacional-imperialista dos EUA. Se o regime de Teerã viesse a cair o mundo
ficará muito mais perigoso, não menos.
O Irã
não queria agora uma guerra com Israel, muito menos com os EUA. O regime da
igreja/partido/ exército persegue o cessar fogo, o que sinaliza a admissão de
uma condição de inferioridade. Não admitiu, entretanto, rendição. Israel violou
todas regras do direito internacional. Mas ninguém pode dizer que foi uma
surpresa. O genocídio em Gaza é um crime contra a humanidade, uma aberração
histórica.
¨
Israel, EUA e Irã afirmam ter vencido a guerra, mas quem
realmente ganhou? Por Julian Borger
Para
surpresa de quase ninguém, todos os lados declararam vitória ao aceitarem
formalmente o anúncio de cessar-fogo de Donald Trump na manhã de terça-feira,
mas os vencedores a longo prazo — se houver algum — e os perdedores levarão
algum tempo para surgir.
Ao
meio-dia, no Oriente Médio, a poeira ainda não havia baixado . Mais de duas
horas após o início do cessar-fogo, às 5h GMT, Israel afirmou ter interceptado
pelo menos dois mísseis vindos do Irã rumo ao norte do país. O Irã negou ter
lançado qualquer coisa, mas Israel prometeu retaliação devastadora.
Ao
acordar com a notícia, um Trump furioso culpou ambos os lados, mas reservou
uma fúria particular para Israel, dizendo-lhe para trazer seus pilotos para
casa e avisando que se eles lançassem suas bombas, seria uma "violação
grave".
O
primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, teria tentado acalmar o
presidente dos EUA. É politicamente prejudicial para ele estar do lado errado
de Trump, e a pressão sobre ele será intensa para que retorne ao cumprimento do
cessar-fogo.
Por sua
vez, o Irã apresentou a
trégua como algo que havia "imposto ao inimigo", uma avaliação
imediatamente suspeita, dado o número muito pequeno de mísseis que perfuraram o
escudo defensivo de seus inimigos e os danos muito limitados que conseguiram
infligir.
Mesmo
que Trump consiga recolocar o cessar-fogo nos trilhos, sua ousada afirmação de
ter garantido uma paz duradoura foi refutada com uma velocidade humilhante.
“Acho
que o cessar-fogo é ilimitado. Vai durar para sempre”, disse Trump à NBC News
na noite de segunda-feira. Ele havia previsto que Israel e Irã nunca mais
“voltariam a atirar um no outro”.
A outra
avaliação abrangente do presidente, de que o programa nuclear do Irã havia sido
"obliterado", para nunca mais ser reconstruído, foi repetida por
Netanyahu, embora com um pouco menos de ênfase.
Uma
imagem de satélite mostrando os danos causados pelos ataques dos EUA na instalação
nuclear de Fordow, no Irã
Reconhecendo
o cessar-fogo, o gabinete de Netanyahu emitiu uma declaração declarando que
havia removido “uma dupla ameaça existencial, tanto na questão nuclear quanto
em relação aos mísseis balísticos”.
Não há
dúvida de que os bombardeiros israelenses e americanos realizaram um enorme
trabalho de demolição. Imagens de satélite circularam mostrando instalações
nucleares iranianas em ruínas e crateras no solo onde se presume que estejam
localizadas instalações subterrâneas.
A
Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) confirmou danos significativos às câmaras
aéreas e subterrâneas da principal usina de enriquecimento de urânio do Irã, em
Natanz, e na usina mais bem protegida de Fordow, construída em uma montanha. O
diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi, destacou que, mesmo que as bombas antibunker
americanas não tenham penetrado até as salas de enriquecimento, espera-se que
tenham causado "danos muito significativos", dada a "extrema
sensibilidade das centrífugas à vibração".
Várias
outras instalações em um amplo complexo nuclear em Isfahan também ficaram em
ruínas, e outras ao redor do país foram severamente danificadas.
Mas uma
avaliação preliminar da inteligência dos EUA sobre os ataques aéreos concluiu
que eles provavelmente só atrasaram o programa
nuclear em alguns meses e descobriu que grande parte do estoque de urânio
altamente enriquecido do Irã pode ter sido transferido para outras instalações
nucleares secretas.
Grossi
também afirmou que a AIEA não poderia mais contabilizar o estoque iraniano de
400 kg de urânio enriquecido a 60% de pureza. Esse urânio altamente enriquecido
(HEU) é uma das joias da coroa do programa nuclear iraniano. Se enriquecido a
90%, seria suficiente para cerca de 10 ogivas.
Antes
do ataque surpresa de Israel, a AIEA mantinha o material sob vigilância remota
em um depósito nas profundezas do complexo de Isfahan. Desde o ataque, a
agência perdeu o controle do material.
Como o
HEU pode ser armazenado e transportado em contêineres do tamanho de tanques de
mergulho, ele pode ser facilmente transportado pelo país em carros de passeio
comuns.
Autoridades
iranianas sugeriram publicamente que o estoque de HEU havia sido movido antes
que o país fosse atacado.
Uma
imagem de satélite mostrando os danos causados pelos ataques dos EUA na instalação
nuclear de Natanz, no Irã
O
vice-presidente dos EUA, JD Vance, admitiu que Washington não sabia onde estava
o HEU, prometendo ao programa This Week da ABC: "trabalharemos nas
próximas semanas para garantir que faremos algo com esse combustível".
“Essa é
uma das coisas sobre as quais conversaremos com os iranianos”, disse ele.
Ian
Stewart, diretor executivo do escritório de Washington do Centro James Martin
para Estudos de Não Proliferação (CNS), escreveu no Bluesky: “Há material
equivalente a 10 armas nucleares (60% de HEU) fora de controle e a AIEA não
sabe onde ele está. Essa deveria ser a principal preocupação.”
James
Acton, codiretor do programa de política nuclear do Carnegie Endowment for
International Peace, disse: “É difícil exagerar o quão importante isso é...
esta guerra pode ser um desastre para a não proliferação.
“Deixe-me
colocar desta forma. Se um acordo nuclear tivesse permitido ao Irã manter
várias bombas de URÂNIO ALTAMENTE ENRIQUECIDO fora das salvaguardas da AIEA,
diríamos (corretamente) que foi um péssimo acordo”, escreveu ele no X. “No entanto,
esse é o resultado da força militar.”
Especialistas
nucleares disseram que o Irã poderia transformar seu estoque de 60% de HEU em
material para armas com relativa facilidade. Desde que Trump abandonou um
acordo nuclear multilateral em 2018, a AIEA não conseguiu contabilizar todos os
componentes de centrífugas do Irã.
O
estágio final do enriquecimento poderia ser realizado em um segundo local em
Natanz, que o Irã vem escavando sob uma montanha há alguns anos e que não foi
bombardeado, ou poderia ser feito em algum prédio industrial anônimo.
Jeffrey
Lewis, professor de CNS no Instituto Middlebury de Estudos Internacionais em
Monterey, disse que se o Irã decidisse fabricar uma bomba, levaria cerca de
cinco meses para produzir material físsil suficiente para um pequeno arsenal
nuclear.
As agências de inteligência dos EUA e
a AIEA concordam que, antes do ataque israelense, não havia indícios de que o
líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, tivesse ordenado a construção de uma
ogiva. O
risco representado pela campanha de bombardeios israelense e americana é que
agora ele pode mudar de ideia, finalmente convencendo-o de que somente uma arma
nuclear pode deter os inimigos do Irã.
Se essa
decisão fosse tomada, as outras peças do quebra-cabeça poderiam se encaixar. A
construção de uma ogiva nuclear viável provavelmente levaria vários meses
também, mas poderia ser feita em um espaço pequeno. Israel matou cerca de 15
cientistas nucleares iranianos, mas depois de mais de um quarto de século, o
estoque de conhecimento nuclear do país provavelmente é muito maior. Cerca de
metade do arsenal de mísseis balísticos do Irã, estimado em cerca de 2.500
ogivas, está desaparecido.
O
ex-secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, disse que o governo Biden
realizou simulações de um ataque ao programa nuclear do Irã, mas os exercícios
de guerra serviram para ressaltar o perigo de o regime se dispersar e esconder
seus ativos, e então decidir "correr em direção a uma bomba".
“Portanto,
o ataque do Sr. Trump corre o risco de precipitar o que queremos evitar”, escreveu ele no New York Times.
Israel
e os EUA podem estar contando com suas poderosas capacidades de inteligência e
domínio militar para destruir qualquer projeto nuclear que o Irã tente
reconstituir, com ataques repetidos nos próximos anos. Mas essa é uma forma de
não proliferação muito mais violenta e arriscada do que um acordo como o
firmado durante a presidência de Barack Obama, que foi verificado e monitorado
pela AIEA.
Haveria
maior certeza se o atual governo iraniano fosse substituído por uma alternativa
mais condescendente e alinhada ao Ocidente. A mudança de regime foi um objetivo
de guerra cada vez mais evidente, expresso pelos governos de Trump e Netanyahu
ao longo da guerra. Até o momento, o establishment teocrático iraniano está
ensanguentado, mas não mostra sinais de fraturas internas.
É
detestado por grande parte da população, mas mantém o monopólio da violência
que o manteve no poder até agora. Pelo menos por enquanto, a indignação popular
iraniana por ter sido bombardeada ofusca sua repulsa por seus governantes. De
fato, aqueles que se uniram ao grito de resistência "Mulher, vida,
liberdade" nos últimos anos podem estar entre os perdedores a curto prazo.
Com o
tempo, a impotência do regime diante de ataques externos pode se tornar uma
rachadura fatal em todo o edifício, mas não há sinal disso até agora.
“Deveríamos
julgar este ataque pelo seu propósito real, não pela camuflagem legal de
autodefesa preventiva”, disse Lewis no X. “Se o ataque
deixar o regime atual, ou algo muito parecido, no poder com uma opção nuclear,
então terá sido um fracasso estratégico.”
Fonte: A
Terra é Rednda/The Guardian

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