Segurança
alimentar e um novo espaço para o agronegócio no desenvolvimentismo
Nos
próximos dias será lançado o Plano Safra 2025-2026, o grande sistema federal de
financiamento para a agropecuária brasileira, através do qual o BNDES
estabelece os valores com os quais irá incentivar o setor e os critérios que
exigirá dele, induzindo os padrões com que deseja que estas atividades cresçam.
Tanto por questões de concentração fundiária quanto por impasses ambientais e
pela dependência dos recursos naturais, geralmente a produção do campo foi
vista como sinônimo de atraso, responsável por nos colocar em uma condição
internacional de dependência. No presente artigo irei apresentar alguns pontos
que sinalizam uma atual mudança de posição, tanto dentro de setores da
esquerda, que governa o país, quanto no atual debate econômico do desenvolvimentismo
herdeiro do paradigma da CEPAL, que, em formatos diferentes, guiou nosso
crescimento econômico médio acima de 6% ao ano entre as décadas de 1930 e 1980.
Desde
março deste ano o engenheiro agrônomo Evaristo de Miranda, que trabalhou na
Embrapa desde os anos 1980 e possui forte aceitação nos setores
agroindustriais, escreveu mensalmente para o site da Fundação Maurício Grabois
– FMG, órgão de formação partidária do PCdoB, e este é um belo sinal desta
possível revisão. Em síntese, abordou temas fundamentais sobre a importância da
agropecuária, tanto na neoindustrialização quanto na garantia da segurança
alimentar, além do peso do protagonismo internacional brasileiro neste último
ponto. Já em novembro de 2024, em documento orientador do Observatório
Internacional (também na FMG) sobre a entrada do Brasil no principal projeto
internacional chinês, o Nova Rota da Seda, consta como um dos elementos chave a
parceria tecnológica na chamada “agricultura regenerativa”, opção para o
agronegócio focada na retenção de carbono e água no solo, que transforma o
setor de “vilão” a “solução” ambiental.
No Nova
Indústria Brasil, grande programa de transformação produtiva verde empreendido
pelo Governo Federal, em que o Ministério do Desenvolvimento, Indústria,
Comércio e Serviços articula as ações das demais áreas voltadas para
fortalecimento produtivo e inovação, dos seis eixos centrais, um deles
refere-se exclusivamente à produção rural, e outro, sobre bioeconomia e
transição energética; está altamente concentrado na produção de agroenergia e
também agroflorestas. Ou seja, pode-se dizer que praticamente mais de 25% do
empenho está voltado aos complexos agroindustriais, sem contar que indústria
farmacêutica, de caminhões, TI e construção estão razoavelmente ligados a eles.
De fato, em programas anteriores de retomada da indústria, a agropecuária
constava entre os itens dos eixos principais, mas não com tamanho protagonismo,
do grande agronegócio à agricultura familiar.
Esta
mudança na forma com que coalizões lideradas por partidos de esquerda
brasileiros se relacionam com o agro vem de mais de década, tanto que Lula já
teve Roberto Rodrigues como Ministro da Agricultura, e Dilma teve Kátia Abreu.
Nos estados do MATOPIBA estabeleceram-se relações muito produtivas entre
governos de esquerda e grandes produtores rurais.
Desde o
começo do atual milênio alguns economistas desenvolvimentistas amplamente
reconhecidos entenderam que a Revolução Verde, iniciada nos Estados Unidos
durante os anos 1950 e que chegou definitivamente aqui com a criação da Embrapa
nos anos 1970, fez com que as atuais lavouras tivessem perfis produtivo e de
inovação tecnológica mais semelhante à indústria do que em seus modos de
produção anteriores. Ricardo Carneiro, Luiz Gonzaga Belluzzo, Luis Antonio
Paulino, entre outros, forneceram publicações de rigor científico e
consistentes sobre esta mudança de paradigma, que permitem aproximação entre
suas trajetórias altamente influenciadas pelo desenvolvimentismo cepalino e a
conhecida economia agrícola pautada no impacto da inovação, de viés
schumpeteriano, e até mesmo com alguns neoclássicos. Um aprofundamento tanto
sobre esta nova compreensão por parte de governos de esquerda quanto da
economia do desenvolvimento consiste em um passo fundamental para que toda a
sociedade entenda a importância do setor como impulso à modernização produtiva
de uma forma geral, sobretudo nas grandes concentrações urbanas, onde mesmo sem
que haja percepção suficiente, boa parte da produção industrial é destinada à
agroindústria ou depende dela.
• A nova importância do agronegócio na
esquerda: caso da Fundação Maurício Grabois
Diante
do conjunto de instabilidades e polarizações políticas assistidas no Brasil
durante os últimos dez anos, termos recentemente na fundação partidária do
PCdoB a inclusão de Evaristo de Miranda entre seus colaboradores consiste em um
gigantesco sinal de maturidade e compromisso com os interesses nacionais,
interna e externamente. Principalmente ao considerarmos o protagonismo do
agronegócio em nossas relações com os principais países do BRICS, cujo
fortalecimento nos deixa cada vez menos dependente das potências do G7,
frequentemente comprometidas em criar restrições para nossas potencialidades,
como o próprio agrônomo da Embrapa ressalta em várias oportunidades. Dos quatro
textos dele na FMG, destaco o de abril, onde sintetiza em números a importância
destas atividades econômicas para o país e na relação com nossos parceiros
Sul-Sul, principalmente com China e Rússia.
No
importante documento lançado pelo Observatório Internacional da FMG no final do
ano passado reforça-se esta nova visão sobre o agro, com orientações sobre
alternativas vantajosas para o Brasil nas negociações para adesão à Nova Rota
da Seda, projeto chinês iniciado em 2015 para investimentos e conexão entre
seus parceiros prioritários. Após reafirmar que a adesão não acarretaria em
crise com os Estados Unidos, dado que muitos países da União Europeia integram,
além de outros parceiros norte-americanos na Ásia e América do Sul, o relatório
do “Observatório” aponta quatro áreas estratégicas a serem negociadas com a
China: cooperação em CT&I, investimentos prioritários nos eixos da NIB,
aumento de nossas exportações com maior valor agregado e financiamento de obras
que otimizem a integração latino-americana. Se as duas últimas podem ancorar
aumento das exportações da agroindústria e melhorias logísticas, a segunda
declaradamente incentiva também os tópicos da NIB voltadas para as atividades
rurais, e a primeira inclui textualmente parceria no desenvolvimento
tecnológico que incluí práticas de “agricultura regenerativa”. Ou seja,
reconhece a agropecuária como uma das indutoras do desenvolvimento, e não do
atraso.
Voltando
ao segundo artigo de Evaristo de Miranda, intitulado “Triângulo Rússia, Brasil
e China alimenta o mundo”, o autor ressalta que os 330 milhões de toneladas de
grãos da safra 2024-2025, atingidos com muita mecanização e inovação
tecnológica, são suficientes para alimentar 850 milhões de pessoas. Somam-se a
isso as 35 milhões de toneladas de tubérculos e raízes, os 120 milhões de
toneladas de frutas, 10 milhões de toneladas de toneladas de hortaliças, 10,6
milhões de toneladas de carne bovina e 35 bilhões de litros de leite, além de
dominarmos 35% do mercado mundial de frangos. Esta capacidade produtiva nos
colocou em uma posição em que exportamos para mais de 180 países, lugar
privilegiado enquanto “carta na manga” em nossas relações internacionais, e
isso com subsídios bem abaixo dos oferecidos pelos nossos principais
concorrentes na Europa, Ásia e América do Norte.
Outro
conjunto de dados apontados por Miranda, primordial para pensarmos a capacidade
do agronegócio em impulsionar nosso desenvolvimento, é relativo ao
processamento de alimentos: 58% do valor de nossa produção é agregado por
processos industriais e beneficiamento. Desde 2023, nos tornamos o maior
exportador de alimentos industrializados do mundo e, além disso, nossa
agropecuária recorre a uma enorme gama de cadeias de valor de produção de
insumos e equipamentos. Apenas para ilustrar este fato, segundo trabalho
publicado por José Roberto Mendonça de Barros para o IEDI, quase 30% dos
produtos cadastrados no INPI são voltados exclusivamente para a produção rural.
Evaristo
levanta estas informações para apontar o fato de que nosso maior importador do
setor é a China, e nosso maior fornecedor de insumos é a Rússia, tal que as
relações econômicas com estes dois parceiros impulsionam nosso poder no campo e
viabilizam também nossos negócios com praticamente todos os países do globo.
Este é um fator importante para o objeto de reflexões do Observatório
Internacional, e é salutar também quando ele supera pressupostos de alguns
setores da esquerda e passa a abordar o agronegócio como eixo prioritário em
nosso desenvolvimento, assim como o fez alguns de nossos principais economistas
desenvolvimentistas nas últimas duas décadas.
• Agro e a Industrialização: muito além da
“Doença Holandesa”
Para o
nacional-desenvolvimentismo tradicional, que ganhou forma na CEPAL marcadamente
durante os anos 1950 e 60, a principal causa da dependência econômica dos
países sul-americanos estava, a grosso modo, no fato de suas economias estarem
pautadas na exportação de commodities e importação de bens de consumo e fatores
de produção industrializados. Estes últimos teriam valor agregado muito maior,
e igualmente levariam a uma maior produtividade do trabalho, tornando as
sociedades que os produzissem economias muito mais complexas e adaptáveis, de
modo a dominar a Divisão Internacional do Trabalho. Chamado de “Paradoxo de
Prebisch”, tal fenômeno reprodutor das desigualdades regionais ganhou uma nova
interpretação no final dos anos 1970, a chamada “Doença Holandesa”, que incluiu
na análise problemas de câmbio causados pela dependência de commodities e suas
consequências para a atividade industrial dos países que a “contraísse”
Um
volume que pode ser considerado sintomático sobre a já mencionada mudança de
paradigma no desenvolvimentismo no que tange à produção no campo foi organizado
em 2014 por Luiz Gonzaga Belluzzo, Cláudio Frischtak e Mariano Laplane,
exclusivamente sobre como a predominância das commodities pode, tomados alguns
cuidados, ser um trunfo para o desenvolvimento. Em seu capítulo introdutório,
de Belluzzo e Frischtak, eles discorrem sobre como setores primários podem
incentivar indústrias de insumos e equipamentos, de modo que mineração e
agropecuária consistem em importantes alavancas para indústrias de maior valor
agregado, sobretudo de bens intermediários nas atualmente chamadas cadeias de
valor. Neste mesmo volume, vale muito também aprofundar na análise escrita por
Mariano Laplane, Ana Lucia Gonçalves da Silva e Maurício Serra, onde os autores
trazem apontamentos sobre como alguns arranjos institucionais podem impedir que
as riquezas provindas de commodities se transformem na chamada “maldição dos
recursos naturais”, evitando que um país fique preso à exploração destes, sem
adoção de novas tecnologias e problemas cambiais que inviabilizem o
fortalecimento da indústria de transformação.
Dois
anos antes, um relatório de Ricardo Carneiro para a CEPAL foi além, abordando a
agropecuária não apenas pela capacidade desta em impulsionar setores de alta
complexidade, mas em sua complexidade própria, imersa em intensa biotecnologia.
Neste trabalho sobre o papel das commodities para as economias
Latino-Americanas, o também representante da Escola Econômica de Campinas
observou que recentemente o nível de complexidade tecnológica – em inovação de
processo e produto – da agropecuária passou a apresentar uma curva muito mais
parecida com a da indústria que com a da mineração. Em outras palavras,
constatou que o nível de complexidade, agregação de valor e ganho de
competitividade dos complexos agroindustriais ultrapassa o da extração mineral,
cumprindo, mesmo que em menor medida, os requisitos atribuídos à indústria como
maior propulsora do desenvolvimento.
Aliás,
um ano após a organização do volume de 2014, Belluzzo publicou um capítulo em
coautoria com Júlio Gomes de Almeida, também professor do Instituto de Economia
da Unicamp e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, onde
colocam de forma precisa um papel protagonista da agropecuária em um Projeto
Nacional de Desenvolvimento. Reconhecendo os cuidados necessários em se abraçar
o setor como um dos alicerces deste projeto, entendem que em algumas situações
de crise foi ele quem garantiu nosso superávit comercial. Os esforços não se
resumiriam em concentrar atenção na subvalorização do câmbio, dada a tendência
à supervalorização causada pela entrada de capital oriunda das commodities – a
tal “Doença Holandesa” – e considerada uma restrição para a competitividade
industrial (pois torna os produtos de um país mais caros para os demais devido
ao alto custo de produção), mas também na expansão do mercado interno, de que
depende da entrada de volumes de capital também proporcionados pela política
agroexportadora (e que proporciona, antes de tudo, segurança alimentar). A
partir disso, os autores sistematizam quatro pontos fundamentais para uma
política de reindustrialização: i) o potencial do mercado interno, ii) as
vantagens competitivas do agronegócio (tanto demandando insumos e equipamentos
industrializados quanto para o equilíbrio do balanço de pagamentos), iii)
indústria de transformação e iv) fortalecimento do sistema público de
financiamento (como, por exemplo, é o Plano Safra).
A visão
de Belluzzo e Almeida está bastante alinhada a alguns textos de Luís Antônio
Paulino, outro economista que pauta seu trabalho na busca de um Projeto
Nacional de Desenvolvimento, professor da Unesp, com grande parte de sua
formação na Unicamp, e que também tomou parte em vários papéis dentro da
Administração Federal. Em artigo publicado em 2022, Paulino salienta que apesar
de o desequilíbrio entre atividade agropecuária e indústria de transformação
ser um problema, mesmo que os superávits da primeira muitas vezes compensem os
déficits da segunda, é um erro acreditar que o fortalecimento de uma consista
no declínio da outra (Estados Unidos são o melhor exemplo disso). Conforme
também pontuou em outro trabalho, já em 2011, o problema de sobrevalorização
cambial está entre as questões mais importantes a serem medidas, mas o
desenvolvimento depende igualmente de medidas microeconômicas, como gargalos de
infraestrutura, carga tributária elevada, defasagem educacional e dificuldades
no estabelecimento de um sistema de inovação mais abrangente e estável… talvez
o mais “abrangente e estável” que temos seja encontrado no agronegócio, sob
coordenação da Embrapa. O autor também inclui entre estes aspectos deficitários
a concentração de renda.
Somada
à evidente importância do setor na garantia da segurança alimentar para o
mercado interno e externo, dada sua alta capacidade de produção em escala, é
fundamental termos um norte em relação aos estudos de economistas
desenvolvimentistas, mais especificamente social-desenvolvimentistas,
consolidados nos meios administrativo e acadêmico, sobre como o agronegócio
pode ser reconhecido como alavanca para o desenvolvimento. Mesmo que de modo
mais cauteloso, existem alguns trabalhos do novo-desenvolvimentismo, ligado a
Luiz Carlos Bresser-Pereira, que igualmente apresentam uma revisão na forma com
que se pode conceber a agropecuária como um dos pilares do desenvolvimento,
conforme já escrevi em outras oportunidades. Também, como foi apresentado na
seção anterior, crucial termos espaços da esquerda olhando para a questão de
modo propositivo e otimista, tanto em relação à produtividade quanto às
possibilidades que a agroindústria abre em nossas relações internacionais, de
modo a compor de uma forma cada vez mais orgânica nossa agenda do Itamaraty
(inclusive no que tange à sustentabilidade socioambiental). Se o objetivo é
pensar o desenvolvimento econômico no longo prazo, nosso setor mais dinâmico
precisa ter espaço privilegiado nos seus principais paradigmas de planejamento.
• Conclusões
Como
afirmou Luís Antônio Paulino já em 2007 em estudo em que tenta conciliar os
argumentos que atentam para os riscos da primarização da economia e os dos que
ressaltam a importância do agronegócio no Brasil, não reconhecer o quanto este
último pode ser fundamental para nosso desenvolvimento, dado que já temos
vantagem competitiva nele e o mundo demanda cada vez mais seus produtos, é como
“ganhar na loteria e não ir buscar o prêmio”. Além das já tradicionais forças
de direita entendendo a importância do setor, ao também termos setores da
esquerda declaradamente com esta abertura, seremos capazes de tirar o debate
sobre produção rural das divergências ideológicas e situá-lo de forma
pragmática em nosso projeto de país. É sob esta ótica que devemos pensar os
números do Plano Safra, como algo que favorece a sociedade como um todo
(sobretudo em seus aglomerados urbanos), e não apenas para agradar um setor.
Para se
recorrer ao debate empreendido por Belluzzo, Frischtak e Almeida, sabe-se aqui
da necessidade de uma melhor compreensão de como os complexos agroindustriais
podem ser inseridos no debate sobre financeirização. Outros trabalhos do
primeiro, sozinho ou em coautoria com outros economistas, principalmente após
2015, podem dar luz a entendimentos mais acurados, necessários para o
aprimoramento das políticas de incentivo.
O mesmo
pode-se dizer a respeito de como Ricardo Carneiro postula a complexidade
diferenciada da agropecuária dentro do universo das commodities, e como
contextualiza isso dentro do debate desenvolvimentista. Uma imersão na
agroeconomia da inovação e, principalmente, o fato de contar em seu hall de
interlocutores com um agrônomo de carreira da Embrapa com ampla penetração no
agronegócio, como Evaristo de Macedo, definitivamente proporcionará um
aperfeiçoamento ainda maior sobre como tratar esta agenda. A importância da
inovação tecnológica não remete apenas aos grandes produtores, mas também é uma
das prioridades da atual política do MDA para a agricultura familiar, conforme
já abordei neste mesmo espaço.
Todos
estes economistas citados têm presença histórica dentro dos mais tradicionais
partidos da esquerda brasileira, legitimidade no meio sindical e canais de
diálogo com o empresariado. Costurar questões a partir de seus trabalhos e
chamá-los a construir respostas pode, e muito, ajudar a pensar o Brasil que
queremos.
Fonte:
Por Marcos Rehder Batista, no Opera Mundi

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