quinta-feira, 26 de junho de 2025

Raphael Fagundes e Danilo Sorato: A disputa pelo lucro – futebol e o mundial de empresas

“Ídolo máximo do Liverpool, o atacante Mohamed Salah criticou o comportamento da torcida com o lateral-direito Alexander-Arnold. De saída dos Reds após 20 anos, o defensor inglês foi vaiado ao substituir Conor Bradley no empate por 2 a 2 contra o Arsenal, pela 36ª rodada da Premier League”.1

O mesmo aconteceu com Gerson, com venda encaminhada para o Zenit da Rússia, no Mundial de Clubes da FIFA. “O meio-campo Gerson, do Flamengo, foi vaiado pelos rubro-negros presentes no estádio Lincoln Financial Field, antes de a bola rolar para o jogo contra o Esperánce, nesta segunda-feira, na estreia do time na Copa do Mundo da Fifa”.2

Embora a mentalidade neoliberal esteja entranhada na sociedade, alimentada por um discurso que exalta “a promoção de uma visão empreendedora e puramente econômica da vida e de todas as atividades humanas”3, elementos simbólicos ligados à questão da identidade, do sentimento de pertencimento, da emoção etc. permanecem fortes, porém são sustentados por interesses diferentes dos quais, outrora, impulsionaram a disseminação do futebol pelo mundo.

O futebol não saiu da Inglaterra sob o comando de uma vocação econômica. Não se tratava de uma commodity cultural inglesa. Não foi a economia que se apropriou do futebol nos primeiros anos da prática esportiva, mas a política. 

Criado pela classe média como um elemento de distinção, Eric Hobsbawm explica que, nos primórdios de sua profissionalização, o esporte bretão mais parecia “uma curiosa caricatura das relações entre classes do capitalismo industrial, como empregadores de uma força de trabalho predominantemente operária, atraída para a indústria pelos altos salários, pela oportunidade de ganhos extras antes da aposentadoria (partidas beneficentes), mas, acima de tudo, pela oportunidade de adquirir prestígio”.4 Neste momento, os trabalhadores jogavam para complementar a renda.

De acordo com o historiador Renato Soares Coutinho, a pretensão popular do Flamengo, por exemplo, só veio na década de 1930, quando surge um projeto de Estado nacionalista. A cultura popular passa a ser valorizada. A capoeira, os blocos carnavalescos, o samba etc., passam a ser símbolos da nação. “Estado e trabalhador haviam encontrado um vocabulário adequado para o reconhecimento mútuo: o nacionalismo”, destaca Coutinho. “O Flamengo foi o primeiro clube de futebol no Brasil que se apropriou do bem-sucedido discurso nacionalista estatal”. Ou seja, o Flamengo começou a investir em sua imagem popular se aproveitando do discurso político da época.

No período entreguerras, “o Estado-nação totalitário ‘descobre’ o futebol e procura colocá-lo a serviço do interesse nacional”.5 Hitler promovia partidas internacionais para divulgar a imagem do regime nazista. E para a Copa de 1934, na Itália, “um dos cartazes promocionais do Mundial apresentava um jogador, com a bola no pé, fazendo a clássica saudação fascista com o braço estendido”.6

Mas, após a Segunda Guerra Mundial, o Estado de bem-estar social aumentou a renda do trabalhador, ao mesmo tempo em que ampliou o período de ócio. As tecnologias de comunicação também foram aprimoradas, principalmente com a invenção e popularização da televisão. Tanto as Olimpíadas quanto as Copas “eram limitadas a poucos países, a poucos trechos das competições e com atraso de alguns dias. Contudo, na década de 1950, os russos lançaram o satélite Sputnik e 18 países europeus – e, com algumas horas de defasagem, EUA, Canadá e Japão – assistiram as Olimpíadas de 1960 pela televisão”.7 Esses elementos foram levando o futebol a se encaminhar diretamente para a cultura de massas e a transmissão televisiva torna-se a principal fonte de faturamento dos eventos. 

Assim, quando o capitalismo entra em crise nos anos 1970, a forma encontrada pelos capitalistas para manter os lucros “foi a subsunção de setores que até então também não estavam totalmente integrados à lógica do valor”.8 De acordo com o professor Wagner Barbosa Matias, o futebol foi um desses setores.

“Até a reestruturação do modo capitalista ocorrida em meados da década de 1970, apesar de já existirem competições e campeonatos futebolísticos em todo o mundo, inclusive com grandes eventos internacionais, por exemplo, a Copa do Mundo FIFA, as receitas dos clubes e das federações eram basicamente a partir das bilheterias […] No entanto, isso ganha novos contornos com a substituição da bilheteria pela comercialização dos direitos de difusão das imagens produzidas pelos atletas como principal fonte de receita”, explica Matias.9

Hilário Franco Júnior diz que regras como a do impedimento, a que regula o tempo que o goleiro pode permanecer com a bola na mão após ser recuada e os três pontos pela vitória nos campeonatos foram mudanças para aumentar a possibilidade de gols e de dinamizar o jogo para agradar ao público que assiste ao espetáculo.10 Segundo o historiador, “hoje, quase todo equipamento de jogadores e árbitros está disponível para o marketing, bem como os espaços dos estádios, salvo as traves e as redes, pelo caráter religioso inerente a tais locais”.11

Jacques Attali foi perspicaz em sua observação, como cita Gilberto Agostinho em livro clássico: “Segundo o autor, o esporte vai perder sua identificação com o sentimento nacional ou regional, sendo completamente controlado não só pelas grandes corporações econômicas, como também pela mídia, com sua dinâmica vinculada às exigências de uma programação televisiva intensa, capaz de potencializar toda a emoção e a violência do jogo em um espaço como concentrado entre um comercial e outro”.12 Esse momento chegou, e os clubes já podem ser chamados de empresas.

<><> Operários milionários 

Hoje, a concentração de capital é tão alta que é possível pagar milhões em um funcionário quando o retorno é mensurado em bilhões. É curioso que “a desigualdade dos patrimônios, que diminuirá até 1970, parece ter retomado uma curva ascendente”13 a partir de tal década, a mesma em que, por sua vez, tem início a “indústria do futebol”.14 Thomas Piketty mostra que “a teoria mais simples para explicar a desigualdade dos salários sustenta que diferentes salários aportam diferentes contribuições à produção de uma empresa”.15 O salário aumenta de acordo com a qualificação e, no caso do futebol, o capital humano está relacionado ao jogador que mais se adequa aos padrões do espetáculo midiático. Como explica Wagner Matias, “o clube investe em capital constante – como centros de treinamento, academias e estádios – e capital variável para produzir em quantidade e qualidade de forma ininterrupta a mercadoria jogadores profissionais […] Portanto, os clubes de posse dos meios de produção e de força de trabalho se apropriam de jovens com potencial e no seu interior lapida […] neles os signos do futebol espetáculo”.16

As competições internacionais, principais fonte de renda da FIFA, funcionam como uma vitrine. A FIFA vende o insumo “futebol” para a fabricação de outras mercadorias (roupas, desodorantes, shampoos etc.). Diferente do ‘tecnofeudalismo’, em que as Big Techs exploram o trabalho não assalariado dos usuários que cedem seus dados para tais corporações, os clubes-empresas exploram os operários da bola pagando imensos salários, já que o retorno não é apenas alto, mas porque o giro do próprio capital torna-se extremamente rápido. “Afinal, diferentemente de um bem, os espetáculos são consumidos rapidamente”.17

Embora muitos destaquem a atuação dos países árabes para o fortalecimento da sua imagem no cenário geopolítico, jamais podemos comparar tal utilização do futebol com a promovida pelos regimes que o usaram para redefinir a identidade nacional. Os que assistem ao Mundial de Clubes até se emocionam ao ver os times latino-americanos vencerem os europeus, mas tudo se trata de um espetáculo que comercializa – assim como grande parte da indústria do entretenimento — a emoção. Os jogadores são funcionários, operários milionários, que são expostos nos campos para vender marcas. O sentimento dos torcedores, a emoção de herdar o time do pai, de chorar e gritar palavrões enquanto os jogos são assistidos são genuínas. O que mudou é que, enquanto antes o que alimentava essas emoções eram propósitos políticos, hoje são puramente econômicos. E se antes se dizia que o futebol era usado para alienar as massas enquanto os políticos faziam o que queriam, hoje ele é usado para enriquecer empresas.

<><> Mundial de Clubes: uma oportunidade de negócio

Ao ser entrevistado pelo The Atlantic, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, soltou uma frase que buscava tocar o coração dos adeptos do esporte bretão: “Já era hora de alguém inventar uma Copa do Mundo para clubes. Há 100 anos, sabemos qual é o melhor país do mundo, mas, até hoje, não sabemos realmente qual é o melhor time do mundo. Então, pensamos que talvez não fosse uma ideia ruim criar uma Copa do Mundo para as equipes decidirem.”18 Era uma frase para agitar e influenciar os principais consumidores do produto futebol. Infantino, capo da FIFA, queria os olhos do planeta focados na principal competição de clubes. Mas o que estava por trás dessas declarações? 

A FIFA é a principal entidade que comanda o futebol do planeta. Segundo último balanço de contas apresentado pela entidade, espera-se que ela alcance um orçamento de US$ 11 bilhões entre os anos de 2023-202619. Um aumento significativo de aproximadamente US$ 4 bilhões em relação ao ciclo anterior entre 2019-2023. Esses números mostram o poder econômico e financeiro que a entidade máxima do esporte bretão tem arrecadado nos últimos anos sob a gestão de Infantino. 

Diante dos números, e com o objetivo de ampliar o capital, a FIFA resolveu criar um torneio de clubes que englobe todos os continentes. Dentre as finalidades estava certamente a intenção de abocanhar o mercado europeu, o mais potente economicamente do mundo. Por exemplo, na última temporada 2023/2024, o futebol europeu arrecadou cerca de 38 bilhões de euros, com um crescimento de 8% em relação a temporada anterior20. Se olharmos para as cinco grandes ligas do planeta (Espanha, Inglaterra, Itália, França e Alemanha), o valor gerado foi de aproximadamente 20 bilhões de euros. Há uma oportunidade de ganhar dinheiro para a FIFA, e ela não desperdiçou ao colocar representantes das 5 grandes ligas no torneio, bem como colocar os europeus com o número maior de vagas. 

<><> FIFA x UEFA: a disputa pelo monopólio do futebol

É claro que a criação de um novo torneio provocaria conflitos. E o principal deles é pela disputa do monopólio do produto Futebol. A FIFA, ao reivindicar para si um torneio com 32 clubes, procurou diminuir a influência da segunda maior entidade do futebol, a UEFA. Não é novidade no meio do futebol que o presidente da FIFA, Gianni Infantino, e o presidente da UEFA, Alexander Ceferin, são rivais quando o assunto é disputar a gestão do futebol mundial.

A UEFA, com um orçamento de 6, 777 bilhões de euros na temporada 2023/202421, tem se notabilizado com o slogan de a “maior organizadora de eventos de futebol”. Seus produtos destacam-se, tais como, a Champions League e a Eurocopa. Entretanto, nos últimos anos, Ceferin entrou em um lugar perigoso: o futebol de seleções. Ao criar um novo torneio de seleções com apenas os europeus, a Nations League, Ceferin começou a estratégia de ampliar o mercado comandado pela Europa. Essa estratégia não caiu bem na FIFA, que costuma divulgar possuir o “maior torneio do planeta”. A estratégia se ampliou na temporada passada, quando a Champions League foi reformulada, aumentando o número de clubes e jogos, com a finalidade de gerar mais receitas para a instituição.  

Sem perder tempo, e observando o movimento dos rivais, a FIFA colocou seu projeto de mundial de clubes para rodar. Apesar da pressão da UEFA e das ligas nacionais, os gigantes europeus decidiram participar do torneio após observarem qual seria a premiação. A FIFA desembolsou US$1 bilhão como premiação para todos os participantes, valor que é dividido por cada fase e também existem valores para vitória, empate e derrota. Um exemplo da importância financeira do evento, é que caso o Real Madri chegue até a final conseguirá desembolsar aproximadamente US$125 milhões. E é nesse ponto que chegamos a mais uma disputa: o modelo de clubes.

<><> Clubes-Sócios x Clubes-Estados: a disputa pelo modelo de gestão e pelo capital

O Real Madri, maior clube de futebol do mundo, orgulha-se de possuir um modelo de gestão no qual os sócios do clube votam para escolher um presidente. O atual, Florentino Peréz, é considerado um dos grandes gestores de futebol do século XXI em virtude da revolução que criou ao juntar jogadores de futebol e direitos de imagem, criando verdadeiros pop-stars do futebol. Esse modelo iniciou com a 1ª geração dos galáticos entre 2001 e 2006, com jogadores como Roberto Carlos, Beckham, Zidane, Figo, etc. Depois foi aperfeiçoado com a introdução das redes sociais e a expansão da imagem, com a 2ª geração entre 2008 e 2018, e jogadores como Cristiano Ronaldo, Benzema, Di Maria, Modric, dentre outros. 

Esse modelo que foi herdado do século XX, com algumas atualizações, vem sendo ameaçado na Europa pelos chamados, clubes-Estado. São aqueles clubes que possuem a administração sendo feita por um grupo de pessoas que são ligadas a países, especificamente, aos países do Oriente Médio. Dentre os clubes que estão nesse modelo aparecem o Paris Saint- Germain, o Manchester City, dentre outros. A disputa entre os dois modelos é uma briga por quem comanda mais capital do futebol advindos das receitas ligadas a patrocínios, ingressos, premiações, etc. 

É interessante comparar os orçamentos desses dois modelos de gestão para entender que apesar das diferenças de donos, eles possuem a mesma finalidade: lucrar e alcançar o máximo de capital. Por exemplo, na temporada 2023/2024, o Real Madri conseguiu atingir 1 bilhão de euros, tornando-se o primeiro clube da história a alcançar esse valor. Seu adversário na gestão, os clube-Estados, Manchester City e o PSG, atingiu o valor de 838 e 806 milhões de euros na mesma temporada, respectivamente22. 

O Real Madri, interessado em conseguir mais dinheiro para financiar seus projetos esportivos, durante a pandemia lançou uma iniciativa que criou um problema político com a UEFA: a Superliga. O torneio, encampado por Real Madri e Barcelona, buscava ser um competidor da Champions League. O projeto foi lançado e apoiado pelos dois gigantes espanhóis, mas sofreu represálias de Ceferin que ameaçou punir esportivamente ambos, caso seguissem com essa ideia. 

Em paralelo, o PSG articulou nos bastidores apoio a Ceferin e a UEFA, juntando um grupo de times que fossem favoráveis a manter a Champions League, como principal torneio de clubes do planeta. Estava formada as alianças políticas pela disputa do capital do futebol: UEFA-PSG x Real Madri-Barcelona. Faltava um último ator para compor essa disputa. Pois não falta, a FIFA com a criação do mundial de clubes, indiretamente entrou nessa peleia ao trazer para seu torneio a benção do maior clube do planeta, o Real Madri. 

No fundo, o que se percebe da disputa acima é uma briga pelo acesso ao capital que o futebol gera no mundo. As federações disputam quem vai gerir as competições esportivas, e a consequente mais valia advinda dessas competições. Do outro lado, os clubes não apenas disputam troféus, mas querem lucrar ao máximo com valores de competição, ingressos, publicidade e transferências. E a disputa se intercruza quando federações e clubes se aliam para alcançar o monopólio do futebol. Melhor dizendo, do Soccer. 

Com esse projeto neoliberal de transformar tudo em empresa, o sentimento de torcedor está sendo manipulado por meio de um cimento ideológico que permite a reprodução dessa estrutura. Assim, o jogador é um símbolo de “mérito; individualismo; capacidade de superação e de lutar por novas conquistas; também são fundamentais para induzir os indivíduos a comprarem os produtos e serviços”.23 Não que o projeto ideológico nacionalista anterior era mais emancipatório para a humanidade, mas, no que a sua substituição nos enriquece socialmente para a construção de uma vida harmoniosa? Embora sejamos torcedores, precisamos refletir sobre tal situação.

•        ‘Futebol não é só europeu’: Mundial de Clubes mostra qualidade brasileira e equilíbrio entre países, avalia jornalista

O novo formato da Copa do Mundo de Clubes da Federação Internacional de Futebol (Fifa) surpreendeu torcedores brasileiros e já mudou o clima em torno da competição. Se no início parecia uma disputa protocolar, com vitória anunciada dos europeus, agora é vista com mais entusiasmo, principalmente depois que Botafogo, Flamengo e Fluminense mostraram força contra gigantes do Velho Continente. Para o jornalista esportivo Luiz Ferreira, trata-se de um “acerto da Fifa”.

Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, Ferreira avalia que o campeonato internacional revela que “a distância [entre os clubes] não é tão grande” quanto se pensava, e “escancara ainda mais a falta de vontade que alguns clubes europeus têm de dividir o futebol com outras partes do mundo”. “Ao contrário do que muita gente pensa, o futebol não é apenas europeu. Existe futebol no Brasil, na Argentina, na África do Sul, na Arábia Saudita, no Catar, na Palestina”, ressalta.

“Agora os europeus estão lidando com problemas que nós, sul-americanos, lidávamos no formato antigo. Eles estão sofrendo com o calor, com o fim da temporada e utilizando isso como desculpa para atuações ruins”, observa Ferreira. Ele lembra que, historicamente, o Mundial acontecia em dezembro, em plena forma física dos europeus. Com a mudança no calendário, o cenário se inverteu.

Boa parte da resistência em valorizar o torneio, segundo Ferreira, vem da imprensa europeia, e não dos atletas. “O jogador quer ganhar, o técnico quer fazer o time vencer. A imprensa é que trata com desdém”, analisa. Para ele, os bons jogos dos clubes brasileiros contra Chelsea, PSG e Borussia fizeram os europeus “abrirem os olhos”. “Não estamos falando de times que chegaram lá por acaso, mas que mereceram estar no Campeonato Mundial.”

<><> “Aqui não é um deserto”

A vitória do Botafogo sobre o Paris Saint-Germain, que quebrou um jejum de 13 anos sem vitórias de clubes brasileiros sobre europeus no Mundial, foi um marco, na visão do jornalista. “Criou-se muito essa mística por conta do 7×1 [placar da derrota devastadora do Brasil contra a Alemanha, na Copa do Mundo de 2014], por conta da má fase da seleção. Mas […] os jogadores brasileiros e argentinos estão na Europa porque lá tem mais dinheiro. Nós temos qualidade, mostramos isso. O futebol brasileiro está mostrando que aqui não é um deserto, nunca foi um deserto e nunca será um deserto”, destaca.

Ferreira cita as conquistas recentes do Flamengo na Libertadores e o desempenho do Fluminense contra o Borussia como exemplos da força do futebol brasileiro. Ele projeta um futuro animador também para o futebol feminino, com a possível criação de um Mundial de Clubes para mulheres. “Imaginem que legal vermos o Corinthians jogando com o Barcelona, um Lyon da Tainara enfrentando um São Paulo”, diz.  “A Fifa tem na mão um grande produto, fazendo aquilo que sempre pedimos, que é levar o futebol para as mais diferentes partes do mundo e proporcionar que consigam participar dessa festa”, comemora.

Com a fase de grupos encerrada, o chaveamento promete confrontos acirrados. Um dos destaques é o embate entre Palmeiras e Botafogo, que se enfrentam nas oitavas de final. “O Palmeiras do [treinador] Abel [Ferreira] é aquele time que quando você acha que está morto, está vivo realmente”, comenta o jornalista. Já o Botafogo, mesmo com o desfalque de Gregore, que levou um cartão amarelo, “está entendendo como jogar essa competição” e soube aproveitar o calor e a maratona de jogos a seu favor.

Ferreira acredita que ao menos um dos dois clubes brasileiros chegará à semifinal, enfrentando o Benfica e o Chelsea. “Flamengo e Botafogo já mostraram que o bicho não é tão feio assim. Dá para chegar”, afirma.

<><> Racismo ainda mancha o futebol mundial

Apesar do bom nível técnico, o Mundial de Clubes também escancarou outro problema estrutural do futebol: o racismo. Pela primeira vez, um árbitro relatou oficialmente um caso durante o torneio. Foi o brasileiro Ramon Abate Abel, em partida entre Real Madrid e Pachuca. O zagueiro alemão Antonio Rüdiger denunciou insultos racistas de um jogador mexicano.

“O futebol, o esporte no geral, é reflexo da sociedade”, lamenta Luiz Ferreira. Ele critica a postura hesitante da Fifa em enfrentar o problema. “Se nem a Fifa colabora direito e dança conforme a música, dependendo de onde estão sendo feitas as suas competições, o que podemos esperar do jogador, da torcida? O exemplo tem que vir de cima. Se a Fifa realmente quiser punir o racismo, o racismo vai ser punido”, defende.

“Racismo não tem mais espaço. […] O futebol é tratado como esse espaço para as pessoas colocarem todas as suas frustrações, mas não é assim”, conclui.

•        Inovações do Mundial de Clubes da Fifa foram boas ou ruins?

Quer você goste ou não, há várias novidades na Copa do Mundo de Clubes Fifa.

Desde a forma como os jogadores entram em campo até a regra dos oitos segundos para os goleiros, o novo formato com 32 times já está dando o que falar.

Mas, afinal, quais são essas novas ideias que a Fifa colocou em prática? Elas estão funcionando?

<><> Entrada dos jogadores

No Mundial de Clubes da Fifa, os jogadores titulares entram em campo um a um, com uma apresentação individual antes de cada jogo.

O repórter Shamoon Hafez, que está cobrindo o campeonato, disse que essa é a inovação mais notada até agora, principalmente por causa do tempo que leva.

O meio-campista do Chelsea, Romeo Lavia, gostou da ideia. "Acho que é algo especial e novo para a gente. Eu curti. Por que não levar isso para a Premier League? Tem um quê de show, né? Eu curto bastante. A única diferença é que [se fosse na Premier League] a gente ia acabar sentindo um pouco de frio, porque depois que você entra, tem que esperar os outros jogadores."

A novidade tem sido criticada por torcedores, já que acaba deixando a cerimônia pré-jogo mais longa, e várias partidas do Mundial de Clubes têm começado com atraso por isso.

<><> Câmera do árbitro

A câmera do árbitro, que fica presa ao corpo dele, mostra imagens ao vivo antes do jogo, no túnel, durante o aquecimento e no cara ou coroa.

Diferente do que acontece no rúgbi, nada é mostrado ao vivo durante o jogo — embora os lances do gol ou jogadas bonitas possam ser exibidas depois, com um pequeno atraso — e qualquer polêmica ou uma lesão, por exemplo, não é exibida.

As imagens ficam disponíveis para o assistente de vídeo do árbitro (VAR), mas esse não é o objetivo principal da inovação.

A filmagem do lance que levou o zagueiro do Manchester City, Rico Lewis, a ser expulso durante a partida de estreia contra o Wydad Casablanca foi transmitida, mas o cartão vermelho já havia sido mostrado.

O ex-árbitro internacional Pierluigi Collina disse que a tecnologia tem mais um propósito de entretenimento do que arbitragem.

Segundo ele, a ideia da Fifa é mostra o jogo por um ângulo único e "melhorar a narrativa" da transmissão.

<><> Regra de oito segundos para os goleiros

"É muito drama", disse o comentarista da DAZN Michael Brown quando o goleiro do Al Hilal, Yassine Bounou, se tornou o segundo goleiro a conceder um escanteio por segurar a bola por mais de oito segundos.

O lance aconteceu nos 96 minutos do empate em 1 a 1 entre o clube saudita e o Real Madrid — e poderia ter custado caro.

O Mundial de Clubes está entre os campeonatos de verão em que a nova regra dos outos segundos para goleiros está sendo testada pela primeira vez.

Segundo as regras do Conselho da Associação Internacional de Futebol (Ifab, na sigla em inglês), "um escanteio será concedido se o goleiro, dentro da área de pênalti, controlar a bola com as mãos/braços por mais de oito segundos antes de soltá-la. O árbitro decide quanto o goleiro tem o controle da bola e começa a contar os oito segundos, sinalizando com a mão levantada os últimos cinco segundos".

O goleiro do Mamelodi Sundowns, Ronwen Williams, foi o primeiro a ser penalizado com essa nova regra, nos 10 minutos finais da vitória por 1 a 0 sobre o Ulsan Hyundai.

A regra também está em vigor no Campeonato Europeu Sub-21, mas, por enquanto, ninguém foi punido.

<><> Replays do VAR exibidos no estádio

Assim como em campeonatos anteriores da Fifa, o árbitro em campo comunicará as decisões do VAR — e os motivos delas — para os torcedores no estádio.

Mas, pela primeira vez, torcedores que estão no estádio podem ver os mesmos replays que os árbitros usam para fazer as análises.

Contudo, as conversas entre o árbitro e a cabine do VAR não são mostradas.

Collina pediu paciência para aqueles que não conseguem entender por que o futebol ainda não implementou de forma mais ampla algo que já ocorre no rúgbi ou em todos os principais esportes americanos.

"Eu não posso dizer se algo a mais vai ser incorporado no futuro. Mas nós precisamos fazer isso quando tivermos certeza que não afetará o processo de decisão."

<><> Impedimento semiautomático aprimorado

Os árbitros estão usando uma tecnologia de impedimento semiautomático acelerada que os avisa para interromper o jogo imediatamente quando um jogador que está a mais de 10 centímetros na posição de impedimento toca na bola.

O objetivo é reduzir atrasos desnecessários.

Os assistentes do árbitro receberão uma notificação na hora sem precisar esperar pela tecnologia checar as posições e distâncias — como no caso dos sistemas de impedimento semiautomáticos usados na maioria das competições de futebol.

Essa versão começou a ser usada na Premier League em 12 de abril.

A introdução de um sistema de impedimento semiautomático aprimorado aconteceu após o atacante do Nottingham Forest, Taiwo Awoniyi, sofrer uma grave lesão abdominal contra o Leicester City.

O nigeriano bateu na trave após o jogo ter sido autorizado a prosseguir, apesar da posição de impedimento de um jogador.

<><> Prêmio 'craque do jogo'

O prêmio Superior Player of the Match, ou "craque do jogo" em português, é dado ao melhor jogador de cada partida e é decidido por meio do voto popular.

A votação fica aberta entre os minutos 60 e 88 do jogo, por meio do aplicativo FIFA+.

Até agora, alguns dos vencedores do prêmio foram Estevão (Palmeiras) Igor Jesus (Botafogo), Michael Olise (Bayern Munich), Vitinha (Paris Saint-Germain), Pedro Neto (Chelsea) e Phil Foden (Manchester City).

O termo Man of the Match (Homem da partida, na tradução livre para o português) foi substituído por Player of the Match (Jogador da partida) na Copa do Mundo de 2022.

No primeiro jogo do Mundial, entre Inter Miami e Al Ahly, que terminou em 0 a 0, o goleiro do Inter Miami, Oscar Ustari, foi o primeiro a receber o prêmio de melhor da partida.

 

Fonte: Le Monde/Brasil de Fato/BBC Esporte

 

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