HIV:
A trágica mas previsível crise mundial de recursos
O
título de uma publicação de 2014 do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre
HIV/AIDS (UNAIDS, sigla em inglês) — The
urgency of now: AIDS at a crossroads (A urgência do agora: a AIDS frente a uma
encruzilhada) — bem ilustra o momento que atravessam a pandemia de HIV e o
cenário global da saúde pública. Ele tornou-se ainda mais crítico a partir do
primeiro semestre de 2025, com a instalação do governo de Donald Trump nos
Estados Unidos (EUA). Trump assinou várias ordens executivas, que tiveram como consequência
o cancelamento de uma boa parte do apoio que os Estados Unidos — o maior
financiador da resposta global à pandemia de HIV — destinava a diversos países
e entidades, como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o UNAIDS. Ainda estão
sendo avaliadas as consequências plenas das ordens executivas, mas há um
consenso de que serão catastróficas para o futuro do enfrentamento da pandemia
de HIV e de outros agravos à saúde.
Dada
esta situação caótica, vale a pena refletir sobre o “edifício” – para usar uma
metáfora apropriada para a mentalidade do magnata imobiliário transformado no
homem mais poderoso do mundo – que Trump decidiu, aparentemente sem
preocupações sobre as consequências, destruir. Como foi que esse “edifício” foi
construído? Por quem e para quem? E o que restará dos escombros que surgirão
como consequência dessas decisões?
Pelo
menos alguns elementos que podem ajudar a oferecer respostas estão presentes em
um texto que recentemente escrevemos e será lançado pela Associação Brasileira
Interdisciplinar de Aids (ABIA) em breve: Uma Análise Crítica das Tendências de
Financiamento Internacional para Atividades em HIV e AIDS, 1981-2022. A partir
do próximo dia 3 de julho, a publicação estará disponível no site da ABIA para
download.
Nossa
análise — que tem como foco a relevância do contexto internacional para o
enfrentamento da AIDS no Brasil e que sumarizamos neste artigo — está dividida
em cinco períodos, abarcando os anos de 1981 até 2022. Destacamos, em cada
período, eventos, nacionais e internacionais, que avaliamos como marcantes;
exemplos de financiamentos; e os principais pontos que definem as mudanças de
prioridades dos doadores.
A
pesquisa utilizou fontes variadas que buscaram consolidar e examinar os
financiamentos destinados à AIDS e inclui análises acadêmicas, documentos
publicados por instituições doadoras, e materiais de organizações como o
Funders Concerned about AIDS (FCAA), a KFF, e o UNAIDS.
Um
conceito que usamos no texto — e que nos ajudou a estruturar os períodos
descritos abaixo — é o que autores, como Richard Parker, definem como as
diferentes “ondas” que marcam a resposta à pandemia de HIV, sendo que Parker
distingue cinco delas. Mas o que não poderíamos imaginar é que um “tsunami”
seria gerado pelas medidas anunciadas por Trump logo após a sua posse.
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1981-1990: Os primeiros anos da pandemia de HIV
Nessa
época, o apoio internacional — tal como o apoio de fontes nacionais — ainda
dependia, em grande medida, menos de políticas formais do que de ações baseadas
na solidariedade de pessoas-chave nas comunidades diretamente afetadas pelo
HIV. Um dos principais desafios para estes atores durante os últimos anos da
década de 1980 foi o de firmar políticas institucionais capazes de garantir a
continuidade programática do apoio — um objetivo importante que só seria
realizado, de forma mais consistente, no próximo período. Mas esse foi o
período em que doadores privados como fundações internacionais (como, por
exemplo no Brasil, a Fundação Ford) e apoio governamental internacional para
desenvolvimento (como, por exemplo, a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento
Internacional, USAID, na sigla em inglês) iniciaram os primeiros apoios
internacionais para o enfrentamento do HIV nos países do Sul Global.
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1991-2000: Novas prioridades, novas iniciativas
Esse
foi um período em que o compromisso para destinar mais recursos financeiros
para a pandemia cresceu significativamente, tornando a resposta ao HIV uma
questão importante no campo do desenvolvimento internacional. Inúmeras
fundações privadas entraram no campo da AIDS (e atuaram no Brasil ao longo
deste período, complementando o pioneirismo da Fundação Ford), e agências
bilaterais como a USAID expandiram as suas contribuições. As mais importantes
agências multilaterais de financiamento, a exemplo do Banco Mundial, entraram
com peso no campo, com consequências decisivas para a estruturação do
enfrentamento da epidemia de HIV no Brasil.
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2001-2010: Expansão das respostas globais
O
aumento significativo dos recursos disponíveis para o enfrentamento da pandemia
de HIV no período anterior pode ser visto como precursor do aumento ainda mais
expressivo que vai acontecer a partir de 2001, com a “ampliação” (“scale-up”)
da resposta global. Esse período foi marcado por três tendências:
1. A
expansão do campo da “saúde global”, tendo a resposta à pandemia de HIV como
seu grande motor;
2. Uma
intensificação da lógica do capitalismo neoliberal de investimento no campo,
com a criação de novas instituições e iniciativas (tanto públicas quanto
privadas) e modelos inovadores de grandes iniciativas de saúde global, além de
um novo conceito/estrutura híbrido de “parcerias públicas-privadas” (PPPs),
como no caso do Fundo Global de Luta contra a AIDS, Tuberculose e Malária;
3. O
surgimento de novos atores no campo da filantropia privada, buscando novos
modos de atuar para garantir maior impacto, com mais ênfase nos princípios de
setor privado/comercial e uma nova modalidade de filantrocapitalismo, como por
exemplo, a Fundação Bill & Melinda Gates. Até o final dos anos 2000, o
Banco Mundial e a Fundação Ford tinham perdido a influência e protagonismo no
enfrentamento da pandemia de HIV, e nos anos 2010 estavam planejando encerrar
as suas ações de maior destaque. O “novo mundo” da saúde global tinha
definitivamente chegado, e as suas principais tendências ficariam mais claras
na próxima fase, que apresentamos a seguir.
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2011-2019: O fim da AIDS?
O “fim
da AIDS” é um conceito que marca esse período. O que havia começado uma década
antes com a ênfase em “parcerias público-privadas” assumiu uma proeminência
ainda maior ao longo da década de 2010, com um foco mais amplo no que estava
sendo descrito como “financiamento misto” (blended financing), vinculando o
investimento público ao investimento privado para desenvolvimento
internacional. Mas, talvez porque o establishment da AIDS já tivesse declarado
vitória na luta contra a pandemia, essas novas abordagens pareciam contornar ou
ignorar o financiamento para HIV e AIDS, sendo priorizado o que era percebido
como novas emergências que passaram a ter prioridade, como a crise climática,
bem como para outras emergências globais de saúde no que que poderia ser visto
como um anúncio das mudanças que viriam a acontecer na última fase, que
mencionamos abaixo. Esse período termina com a notificação de casos de
pneumonia, causada por um novo coronavírus, no que viria a ser a pandemia de
COVID-19.
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2020-2022: Uma nova pandemia, crescimento das desigualdades, e uma resposta em
perigo
Trata-se
de um período marcado por profundas mudanças e crises (no que vem sendo chamado
polycrisis, multiple crises, ou overlapping crises), devido à interconexão de
catástrofes, conflitos e crises humanitárias com agravos à saúde. Uma época que
será lembrada pela pandemia de COVID-19.
Esse é
um período em que o montante total de financiamento se tornou altamente
concentrado, com 74% dos recursos do apoio de governos doadores para
desenvolvimento sendo fornecidos pelo governo dos EUA em 2022. Também ficou
mais dependente do filantrocapitalismo, com destaque para a indústria
farmacêutica: com 65% dos recursos da filantropia privada em 2022 sendo doados
por somente três fundações, ambas com sedes nos EUA: a Fundação Bill &
Melinda Gates (32%), a Fundação Gilead (26%), e ViiV Healthcare (7%). Somam-se
a esse ponto a geopolítica global, a emergência de novas crises de saúde (como
a COVID-19 e a real possibilidade de uma nova pandemia) e a crise climática,
que se tornou o principal foco da preocupação política global.
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Conclusão
Os
pontos para os quais chamamos a atenção ao analisar cada um dos cinco períodos,
sobretudo o período final (2020-2022), ficam ainda mais prementes após a
reeleição de Trump. As medidas anunciadas pela administração Trump estão
afetando a ciência e a saúde pública e criando as condições ideais para o que
chamamos, no quinto período, de “tempestade perfeita”. Tais medidas vão
transformar as “ondas” em um “tsunami”, levando a perdas irreparáveis do que
foi conseguido, com muito esforço, ao longo de mais de quatro décadas de
enfrentamento da pandemia de HIV, tanto local quanto globalmente, pela
comunidade de ativistas — incluindo as pessoas vivendo com HIV e AIDS —
pesquisadores, governos, agências de saúde global, e doadores.
Não
temos dúvida que os cortes radicais de recursos dos EUA terão consequências
para o futuro da resposta global à AIDS. A consequência mais radical, e mais
cruel, será o fim do acesso ao tratamento antirretroviral para milhões de
pessoas nos países mais pobres do mundo e um aumento assustador de mortes
evitáveis. Sem a USAID e o Plano de Emergência do Presidente dos Estados Unidos
para o Alívio da AIDS (PEPFAR, sigla em inglês) e com a capacidade reduzida dos
outros países doadores (forçados pelas políticas americanas de concentrar os
seus recursos em defesa e outras finalidades semelhantes), é possível esperar
uma redução drástica no apoio bilateral para outros elementos da resposta
global à pandemia (prevenção, vigilância etc.). Já estamos vendo a desestruturação
da arquitetura necessário para enfrentá-la: por exemplo, a reestruturação do
UNAIDS, com uma redução de 680 para 280 funcionários, e outros processos ainda
menos definidos, mas provavelmente semelhantes, no Fundo Global, na Unitaid e
em outras agências chaves para a resposta global ao HIV.
As
prováveis consequências imediatas destas mudanças para o Brasil podem ser menos
drásticas pois o Brasil depende muito menos de recursos internacionais e tem
mais capacidade de manter os elementos do seu programa nacional de AIDS. Aqui
destacamos o modelo de apoio que beneficiou o Brasil — como os empréstimos do
Banco Mundial, que foram reduzidos gradativamente ao longo de décadas antes de
serem finalizados.
Mas
seria ingênuo pensar que a desestruturação da resposta em nível global não será
sentida no Brasil. Acima de tudo, esta desestruturação pode aumentar ainda mais
o poder e a ganância da indústria farmacêutica internacional e reduzir a nossa
capacidade de resistir a outros danos de um sistema de saúde global cada vez
mais entregue às piores tendências do sistema capitalista. Desde meados dos
anos 2000, as diversas administrações do governo federal brasileiro têm
mostrado pouca vontade de defender o Sistema Único de Saúde (SUS) contra tais
ameaças.
A
perspectiva histórica que nosso estudo oferece sobre os modelos de
financiamento e apoio internacional sugere que estas pressões podem aumentar
significativamente no futuro. Por último, destacamos que nossa análise busca
contribuir para o melhor entendimento do financiamento não somente para a
sociedade civil, mas também visa chamar a atenção sobre a importância da
resposta intersetorial aos diferentes agravos à saúde pública, como a AIDS.
Fonte:
Por Jane Galvão, Veriano Terto Jr e Richard Parker, para a coluna Saúde não é
mercadoria, em Outra Saúde

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