quarta-feira, 1 de abril de 2026

Paixão de Cristo: como foi a morte de Jesus, segundo a ciência

Religiosidade à parte, poucos duvidam que tenha vivido há 2 mil anos um homem chamado Jesus, em parte do que hoje é Israel.

E que ele foi um judeu dissidente que acabou liderando um grupo de seguidores. Sua atuação acabou incomodando o Império Romano. E, às vésperas da Páscoa judaica, ele acabou condenado, torturado e morto por crucificação — uma prática de pena capital comum na época.

Depois de sua morte, seguidores se encarregaram de espalhar seus ensinamentos. Terminava a história e começava o mito, a religião, a teologia.

Essa transição ocorreu principalmente graças a um profícuo escritor da época, pioneiro da Igreja Cristã e autor de muitos textos que hoje estão na Bíblia: Paulo de Tarso (c. 5-67). Na década de 50 do primeiro século da nossa era, cerca de 20 anos depois da morte de Jesus, ele produziu sete cartas cujos textos sobreviveram ao tempo.

"Nessas cartas reparamos que há uma mudança de enfoque. Paulo não mais trabalha com o Jesus histórico, ele trabalha com o Jesus da fé", explica o historiador André Leonardo Chevitarese, autor de, entre outros, Jesus de Nazaré: Uma Outra História, e professor do Programa de Pós-Graduação em História Comparada do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Diante disso, a primeira conclusão é que, desconsiderando a religiosidade decorrente da figura de Jesus, ele foi um condenado político.

"Jesus histórico conheceu uma morte política. Religião e política são coisas muito unidas, principalmente quando estamos tratando de uma liderança popular", acrescenta Chevitarese.

"Não há como separar as andanças [de Jesus] como algo só político ou só religioso. As fronteiras são muito fluidas. E isso acaba sendo chave para compreender o movimento de Jesus com Jesus [ainda vivo] e o movimento de Jesus sem Jesus [depois da morte dele, com as pregações dos primeiros seguidores]."

<><> Paixão e morte

A morte na cruz, cujo simbolismo acabou se confundindo com a própria religiosidade cristã, não era um acontecimento raro naquela época.

"A crucificação era a pena de morte usada pelos romanos desde o ano 217 a.C. para escravos e todos aqueles que não eram cidadãos do Império", explica o cientista político, historiador especializado em Oriente Médio e escritor italiano Gerardo Ferrara, da Pontifícia Universidade da Santa Cruz, de Roma.

"Era uma tortura tão cruel e humilhante que não era reservada a um cidadão romano. Era precedida pelo açoite, infligido com vários instrumentos, conforme a origem e a proveniência social dos condenados."

"A crucificação não foi invenção romana mas estava amplamente disseminada no Império Romano. Fazia parte de uma rotina dentro dos territórios que hoje chamamos de Israel", pontua Chevitarese. "Mais ou menos uns 40 anos depois da morte de Jesus, quando houve a tomada de Jerusalém, milhares de judeus foram crucificados."

Os Evangelhos dedicam-se também a narrar as últimas horas de Jesus, detalhando seu sofrimento. De acordo com as escrituras sagradas, ele teria sido levado de uma instância a outra nessas horas de julgamento, com certa hesitação entre as autoridades. Chevitarese diz que historicamente isso não pode ser verdade.

Isto porque, a julgar pelos relatos, Jesus foi morto na antevéspera da Páscoa judaica. "A festa da Páscoa é uma festa política, pois é quando se celebra a passagem da escravidão para a liberdade, a saída do povo hebreu do Egito para a 'terra onde corre o leite e o mel'", lembra o historiador.

"Então imaginemos: uma cidade abarrotada de judeus, como a autoridade romana vai botar um judeu para carregar uma cruz pela cidade, no meio de tantos judeus? Seria um convite à rebelião. Com uma pessoa como Jesus ninguém poderia perder tempo. Foi pego e imediatamente crucificado."

Para Chevitarese, os relatos que existem dando conta de acontecimentos entre a prisão de Jesus, na madrugada de quinta para sexta, e sua crucificação, horas mais tarde, não são históricos; são teologia.

Alguns dias antes, no que acabou se eternizando como Domingo de Ramos, Jesus tinha entrado em Jerusalém. Foi uma rara aparição dele em uma grande cidade, o que teria transformado-o em alvo fácil das autoridades.

Mas por que ele incomodava? Porque liderava um grupo justamente proclamando um novo reino, o Reino dos Céus, ou reino de seu pai. E seu discurso era de um reino diametralmente oposto ao Império Romano, segundo quatro pilares básicos. "Ele se torna messias por conta dessa ideia", defende Chevitarese.

O primeiro pilar do reino defendido por Jesus era a justiça. Não qualquer justiça, mas a justiça divina. "E ele se referia a Deus como papai, seu pai celestial. Essa justiça tão equilibrada, era claro, se opunha a outro reino, aquele que já estava instalado e que controlava a Judeia: o dos romanos", compara o historiador. "Ele está dizendo: aqui no meu reino tem justiça; o do César é o reino da injustiça."

O segundo ponto é que Jesus proclamava um reino de paz, também em oposição ao estado bélico do governo imposto pelos romanos, um império que avançava sobre outros povos.

O terceiro pilar é comensalidade: comida, bebida, fartura na mesa dos pobres, dos camponeses. "O grupo que acompanhava Jesus ouvia sua pregação e, de alguma maneira, achava interessante o que ele estava dizendo", diz Chevitarese. Por fim, Jesus falava de um reino de igualdade, com a coparticipação de todos. "O ministério de Jesus é de homens e mulheres, iguais", nota o historiador.

"O importante é que [nesses discursos] política, religião, economia, sociedade, tudo isso se inseria num programa messiânico. Não estava claro onde começava a política e terminava a religião, nem onde terminava a religião e começavam as questões sociais. Tudo estava interligado", completa.

"Jesus morre por causa de um reino, o reino de Deus. Esse é o movimento de Jesus com Jesus. A geração seguinte, o movimento de Jesus sem Jesus, ressignifica a morte dele como uma morte sacrificial, que ganha dimensão estritamente religiosa."

As autoridades romanas que serviam na região já estavam mapeando os movimentos de Jesus. E encontraram a oportunidade perfeita quando ele resolveu entrar em Jerusalém. "Viram-no criando confusão no templo, às vésperas da Páscoa, com a cidade cheia de judeus vindos das mais diferentes regiões e pensaram: rapidamente esse homem tem de ser preso, crucificado", diz o historiador.

"Todos os evangelistas concordam em situar a morte de Jesus em uma sexta-feira, dentro do feriado da Páscoa", comenta Ferrara. Autor do livro Vita di Gesù Cristo, o padre, biblista e arqueólogo italiano Giuseppe Ricciotti (1890-1964) reuniu várias informações históricas, cruzou-as e concluiu que o mais provável é que a execução tenha ocorrido no equivalente ao 7 de abril do ano 30.

<><> A morte na cruz

Eram três as maneiras de se executar um condenado na Roma antiga. Segundo explica Chevitarese, um objetivo as unia: não permitir a preservação de vestígios de memória — em outras palavras, impossibilitar que restos mortais fossem sepultados.

Geralmente aos circos romanos eram destinados os condenados por crimes como assassinato, parricídio, crimes contra o Estado e estupros. Na arena, esses criminosos enfrentavam feras até a morte — seus restos eram devorados pelos bichos. Uma segunda forma de execução era a fogueira, que também não deixava muitos resíduos do corpo.

A crucificação era a pena destinada a escravos que atentavam contra a vida dos seus senhores e aqueles que se envolviam em rebeliões. Além de todos os que não eram cidadãos romanos, caso de Jesus. "Ainda vivos, na cruz, aves de rapina já começavam a comer o condenado. Três ou quatro dias depois, a carne desse indivíduo, apodrecendo, caía da cruz e cães e outros animais terminavam de fazer o serviço", contextualiza Chevitarese.

No início dos anos 2000, o médico legista norte-americano Frederick Thomas Zugibe (1928-2013), professor da Universidade de Columbia e ex-patologista-chefe do Instituto Médico Legal, fez uma série de experimentos com voluntários para monitorar os efeitos que uma crucificação teria sobre o corpo humano. Os resultados foram publicados no livro The Crucifixion of Jesus: A Forensic Inquiry (A crucificação de Jesus: uma investigação forense, em tradução livre).

Para seus estudos, ele utilizou uma cruz de madeira com 2,34 metros na vertical e 2 metros na horizontal. Indivíduos — todos adultos jovens, na faixa dos 30 anos — foram suspensos nela e tiveram suas reações monitoradas eletronicamente, com eletrocardiograma, medição de pulsação e aferição de pressão sanguínea.

Atados assim, os voluntários não conseguiam encostar as costas na cruz e relataram fortes cãibras causadas pelo desconforto da posição, além de formigamentos constantes nas panturrilhas e nas coxas.

Na época de Jesus diferentes formas de cruz eram utilizadas nas execuções. As principais eram a em forma de T e a em forma de punhal. Não há consenso entre pesquisadores sobre qual teria sido a utilizada por Jesus. Ferrara acredita que teria sido a segunda.

Para o médico Zugibe, Jesus carregou, em seu caminho até o local da execução, apenas a parte horizontal. Ele escreveu que a estaca vertical costumava ser mantida no local das crucificações, fora da cidade.

E baseou-se no fato de que a parte horizontal pesava cerca de 22 quilos. A soma de ambas as partes tinha entre 80 e 90 quilos, o que tornaria impossível de ser carregada em uma longa caminhada — que, conforme seus estudos, teria sido de 8 quilômetros no caso de Jesus.

"Detalhes da punição são confirmados pelo uso romano e por documentos históricos: os condenados eram amarrados ou pregados no patíbulo com os braços estendidos e erguidos no mastro vertical já fixado", esclarece Ferrara.

"Os pés eram amarrados ou pregados, por outro lado, ao poste vertical, sobre o qual uma espécie de assento de apoio se projetava na altura das nádegas. A morte era lenta, muito lenta, e acompanhada por um sofrimento terrível. A vítima, levantada do solo a não mais de meio metro, estava completamente nua e podia ficar pendurada por horas, senão dias, sacudida por espasmos de dor, náuseas e a impossibilidade de respirar corretamente, já que o sangue nem sequer podia fluir para os membros que estavam tensos a ponto de exaustão."

O que é um entendimento quase unânime entre os pesquisadores é que as cravas eram pregadas nos pulsos, e não nas palmas das mãos — por conta da compleição óssea, as mãos "se rasgariam" com o peso do corpo. "A estrutura das mãos e a ausência de ossos importantes impediriam o suporte de um peso tão grande e a carne das mãos seria dilacerada", ressalta Ferrara.

O médico Zugibe concluiu que os pregos tinham 12,5 centímetros de comprimento. Ele defendia que Jesus tinha sido pregado, sim, nas mãos, mas não no centro da palma e sim pouco abaixo do polegar. Já suspenso na cruz, os pés de Jesus também foram fixados com cravas — segundo o médico, um ao lado do outro, e não sobrepostos como o imaginário consagrou. Essas perfurações, por atingirem nervos importantes, teriam sido causadoras de dores insuportáveis e contínuas.

"Quanto tempo um indivíduo leva para morrer assim? Morre-se de cãibra, que vai atrofiando seus músculos e levando-o a morrer por falta de ar, com muitas dores, dores gigantescas no corpo todo", narra Chevitarese. Ferrara, por sua vez, defende que Jesus tenha morrido por infarto do miocárdio, em decorrência do esforço exaustivo.

Por meio de seus experimentos, Zugibe analisou as três hipóteses mais aceitas para a morte de Jesus: asfixia, ataque cardíaco e choque hemorrágico. Sua conclusão é que Jesus teve parada cardíaca em virtude da hipovolemia, ou seja, a diminuição considerável do volume sanguíneo depois de toda a tortura e das horas pregado na cruz. Teria morrido, portanto, de choque hemorrágico.

"[A morte na cruz] é uma morte de violência física absurda. O tempo dependia das condições físicas em que se encontrava o crucificado. Se a tortura anterior tivesse sido muito intensa, isso de certa forma poderia fazer com que ele morresse mais rápido", diz Chevitarese. Ferrara acredita que "a agonia de Jesus não tenha durado mais do que algumas horas, talvez até menos do que duas, provavelmente devido à enorme perda de sangue devido à flagelação [anterior]".

<><> Torturas

Se o condenado à morte de cruz era visto pelos romanos como parte de uma "escória", um não cidadão considerado criminoso e oriundo dos estratos sociais mais baixos, é de se supor que os carrascos não poupassem esses indivíduos de toda sorte de agressões. Para tanto, o instrumento utilizado na tortura era um chicote específico chamado de azorrague.

No caso de Jesus, Ferrara acredita que tenha sido utilizado um com bolas de metal com pontas feitas de osso, capaz de rasgar a pele e arrancar pedaços de carne. "Justamente por ele ser um 'criminoso' de baixa classe social e de origem não nobre, no caso um judeu de pequena província oriental do império", justifica ele.

De acordo com as pesquisas realizadas pelo médico Zugibe, o modelo de chicote utilizado para o açoitamento de Jesus era feito com três tiras. Condenados assim costumavam receber 39 golpes com o instrumento — na prática, portanto, era como se fossem 117 chibatadas, já que essas pontas feitas de osso de carneiro funcionavam como objetos perfurocortantes.

Isso, segundo explicações do médico, resultaria em tremores e até desmaios, e um quadro de hemorragias intensas, danos no fígado e no baço e acúmulo de sangue e líquidos nos pulmões.

No caminho até o local de crucificação, não havia limites para as torturas. Eram espancados, ridicularizados, vítimas de intensa violência. Relatos bíblicos afirmam que, por sarcasmo, uma coroa de espinhos teria sido cravada na cabeça de Jesus.

Zugibe queria descobrir qual era a planta utilizada para a tal coroa. Depois de entrevistar botânicos e estudiosos de biomas do Oriente Médio, chegou a duas possíveis espécies que seriam capazes de fornecer espinhos grandes o suficiente. Conseguiu as sementes e cultivou ele próprio as árvores para, depois, analisá-las.

Acabou concluindo que foram utilizados ramos de uma árvore conhecida como espinheiro-de-cristo-sírio. Segundo o legista, os ferimentos causados por esse espinho na cabeça seriam capazes de, mais do que provocar intenso sangramento na face e no couro cabeludo, atingir nervos da cabeça — causando dores imensas.

<><> Sepultamento

Chevitarese defende que a crucificação de Jesus, ao contrário do que narra a Bíblia, tenha ocorrido longe de testemunhas oculares, justamente porque tudo teria sido feito rapidamente e de modo a não provocar uma revolta da população.

E que, também ao contrário do relato religioso, não houve sepultamento de Jesus, tampouco restos mortais preservados. "Crucificados não eram enterrados. Ficavam na cruz e, ainda vivos, aves de rapina já sabiam que eles não podiam se mexer. E comiam olhos, nariz, bochecha, aquilo ficava abarrotado de aves de rapina comendo o corpo ainda vivo", explica ele.

"[O corpo] passava alguns dias ali, quatro, cinco dias, pendurado. A carne começava a apodrecer. Caía. Despencava. Cães e outros animais se aproveitavam desses restos humanos para fazer seu banquete", relata.

Para ele, o que prova essa tese é que milhares de escravos foram crucificados no período e não há registros de cemitérios ou mesmo de ossadas descobertas dos mesmos. "Historicamente, crucificado não era enterrado", crava. "Teologicamente, é claro que Jesus precisava ser enterrado — para depois ressuscitar."

 

Fonte: BBC News Brasil

 

O país da Europa que promete milhares de empregos a brasileiros e vistos que saem em 2 semanas

Se todos os brasileiros que vivem na Finlândia se reunissem, não encheriam uma única arquibancada de um estádio de futebol — são, afinal, 2.611 pessoas, segundo o Ministério das Relações Exteriores. Mas, daqui a alguns anos, talvez lotem um estádio inteiro.

O governo finlandês diz que as empresas do país planejam contratar 140 mil trabalhadores até 2035 para a área de tecnologia, e os brasileiros estão entre os principais alvos dessas vagas, ao lado de indianos e vietnamitas.

Para isso, a Finlândia pretende agilizar a concessão de vistos, reduzindo o prazo de emissão para até duas semanas, caso o estrangeiro tenha uma proposta de trabalho, e negocia com o Brasil um acordo bilateral de previdência social.

Na prática, isso permitiria que os brasileiros que trabalharem na Finlândia, que lidera o ranking dos países mais felizes do mundo, mantenham o direito à aposentadoria no Brasil caso decidam retornar.

<><> Por que a Finlândia busca brasileiros

A expectativa de preencher 140 mil vagas, com brasileiros entre os profissionais visados, se ancora em duas mudanças profundas no mercado de trabalho finlandês.

A primeira é o crescimento do setor de tecnologia no país, com o surgimento de startups ligadas a pesquisadores recém-formados e também de empresas que buscam uma alternativa ao alto custo de operação em outras partes da Europa.

A segunda é a dificuldade de contratar e manter trabalhadores da Rússia e da Ucrânia, que eram parte importante da mão de obra estrangeira na Finlândia, em razão da guerra que já dura quatro anos e não tem previsão de término.

Quem diz isso é Laura Lindemann, diretora do Work in Finland, órgão governamental voltado à promoção do mercado finlandês e à atração de estrangeiros, ao explicar por que os brasileiros passaram a ser buscados.

"Avaliamos diferentes países sob a perspectiva das empresas finlandesas e da internacionalização — onde elas estão, para onde exportam ou querem exportar — e também onde há grande oferta de profissionais", afirma Lindemann.

"Também foi considerado o fato de a Finlândia já estar presente no país, com escritório da Business Finland, uma embaixada, ou seja, não é preciso começar tudo do zero. As conexões entre Finlândia e Brasil já existem."

Mas há ainda um terceiro fator — e, talvez, o mais importante: a Finlândia depende da imigração para evitar o encolhimento populacional, afirma a executiva, amparando-se em dados do Statistics Finland, órgão que tem como seu equivalente no Brasil, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Hoje, nove em cada dez municípios finlandeses registram mais mortes do que nascimentos. "A Finlândia está envelhecendo, e não pode haver um gargalo para o crescimento do país por falta de talentos", diz Lindemann.

"Estimamos que, nos próximos anos, 1 milhão de finlandeses vão se aposentar. É um número enorme para um país com pouco menos de 6 milhões de habitantes."

<><> As áreas e perfis mais buscados

Atualmente, há quase 800 vagas abertas, segundo o Work in Finland. A instituição reúne grande parte das oportunidades em seu portal, mas há posições oferecidas apenas nos sites das empresas — por isso, os interessados devem ampliar a busca.

As oportunidades envolvem formações em diversos campos, segundo Lindemann. "Todas as áreas das ciências naturais são necessárias — matemáticafísicaquímica —, porque são importantes para o setor de deep tech, que concentra os novos negócios na Finlândia."

"Deep tech significa que há pesquisa e, a partir dela, surgem inovações que são comercializadas. Inteligência artificialcomputação quântica, semicondutores, microchips, tecnologia voltada à saúde — estamos falando desse campo", diz a executiva.

"Empresas como a IQM, a Bluefors e a SemiQon trabalham com isso e estão se expandindo rapidamente."

É preciso, portanto, ter interesse em pesquisa. No país, aliás, pesquisadores que estão fazendo um doutorado são tratados como profissionais e, em sua maioria, são funcionários das universidades.

"Nossas universidades e empresas trabalham muito próximas, e o setor público também atua bastante com elas, financiando a pesquisa e o desenvolvimento desses ecossistemas", diz Lindemann.

Ela acrescenta que o setor de desenvolvimento de software, embora também seja valorizado, está em profunda transformação por causa do avanço da inteligência artificial.

"Então, nesta área, não basta ter apenas habilidades básicas. É preciso ter algo a mais."

Todas as posições requerem domínio do inglês. Para obter um visto de trabalho, não há exigência de um nível mínimo padronizado de proficiência, como ocorre no Reino Unido, por exemplo. Mas é preciso saber se comunicar com fluidez.

Lindemann diz que o finlandês e o sueco — línguas oficiais do país, a depender da região — são diferenciais importantes, mas não obrigatórios.

Espera-se, contudo, que o profissional tenha interesse em aprender ao menos o finlandês após se mudar, principalmente se tiver interesse em assumir posições de liderança no futuro.

<><> Mão de obra em falta, desemprego alto

Lindemann pontua que a Finlândia enfrenta uma taxa de desemprego de quase 11%, bem mais alta do que a do Brasil, por exemplo.

Mas afirma que trabalhadores estrangeiros, com competências diferentes das disponíveis localmente, podem ajudar o país a superar esses desafios.

"Especialmente em uma situação como esta, de alto desemprego, precisamos de crescimento — e é por isso que precisamos dos melhores talentos para gerá-lo", diz a executiva.

Ela acrescenta que muitas das pessoas hoje sem trabalho não podem ser contratadas para as vagas abertas porque não atendem aos requisitos.

Com o envelhecimento da população, muitos não têm formação em áreas mais contemporâneas, como computação quântica, hoje entre as mais aquecidas no país.

"Os empregadores precisam primeiro verificar se há talentos disponíveis na Finlândia ou na União Europeia. Somente se não encontrarem ninguém é que podem contratar fora", diz Lindemann.

"Mas, quando se trata de pesquisadores, não há esse tipo de restrição, porque essas empresas dependem essencialmente de talentos internacionais. Elas precisam dos melhores do mundo em suas áreas."

<>> Os benefícios de trabalhar na Finlândia

A Finlândia não espera que os brasileiros deixem seu país sem dar nada em troca, diz a diretora do Work in Finland.

Lindemann lista algumas diferenças entre os dois países no que diz respeito ao mercado de trabalho, que, em sua avaliação, proporcionam um equilíbrio mais saudável entre vida pessoal e profissional.

A começar pela jornada de trabalho, em geral de 37,5 horas semanais, contra as 44 do Brasil. Há ainda de 25 a 30 dias úteis de férias, e não 30 dias corridos — o que, na prática, significa mais descanso.

Mas talvez a maior diferença esteja na licença parental. Para as mães, é de cerca de dez meses e meio, contra quatro meses no Brasil; para os pais, são cerca de cinco meses, ante os atuais cinco dias úteis no Brasil (recentemente ampliados para 10 dias a partir do próximo ano e progressivamente ampliados até chegar a 20 dias a partir de 2029).

<><> Por que a Finlândia é o país mais feliz do mundo

Não é raro ver um brasileiro se surpreender ao descobrir que a Finlândia está no topo do ranking dos países mais felizes do mundo, enquanto o Brasil, tão associado à alegria, hoje ocupa a 32ª posição.

É importante, diz a diretora do Work in Finland, saber o que esperar do país antes de decidir se mudar para lá.

Trata-se de um lugar frio, onde as temperaturas podem chegar a -20°C, e, no inverno, a noite pode durar quase o dia todo.

Isso acontece porque o ranking da felicidade se baseia em uma única pergunta, em que os entrevistados avaliam suas vidas com notas de zero a dez.

Eles são instigados a imaginar uma escada, em que o topo representa a melhor vida possível, e a base, a pior. Então, respondem em que degrau consideram estar hoje.

São feitos ainda questionamentos sobre liberdade e emoções, que não são usados para ordenar os países, mas para entender por que cada um ocupa determinada posição e o que puxa sua nota para cima ou para baixo.

Não é, portanto, uma pesquisa que pergunta se alguém se sente alegre ou se sorri com frequência, mas algo que busca avaliar a qualidade de vida. Em geral, são entrevistadas cerca de mil pessoas por país a cada ano.

"Um dos motivos pelos quais os brasileiros deveriam se mudar para a Finlândia é a alegria que poderiam trazer, somada à felicidade finlandesa", diz Lindemann.

"Também temos alegria, mas seria positivo ter esse tipo de atitude diante da vida que os brasileiros têm. Seria uma combinação perfeita."

 

Fonte: BBC News Brasil

 

A insuficiente e errada expansão do ensino superior brasileiro

A evolução do ensino superior brasileiro nas últimas décadas configura um exercício de ilusionismo estatístico. No papel, o salto de cerca de 3,5 milhões de matrículas há pouco mais do que 20 anos para perto de 10 milhões em anos mais recentes sugere uma revolução educacional. Contudo, ao removermos a maquiagem do ensino a distância (EaD), o que resta é um cenário de estagnação e que, mesmo com o avanço do setor público, mal acompanhou o crescimento demográfico.

A expansão real, aquela que ocupa os campi, forma profissionais, oxigena o desenvolvimento social e cultural, o crescimento econômico e a pesquisa, estagnou. No setor privado, o crescimento presencial desde o início dos anos 2000 foi de irrisórios 3%, bem menos do que o crescimento populacional. A grande massa que antes buscava (iludidamente) a ascensão social nas salas de aula noturnas foi transferida para as telas. O campus físico tornou-se um produto restrito aos poucos cursos de elite.

O caso de São Paulo ilustra a gravidade dessa situação. O estado viu sua participação relativa nas matrículas ser reduzida ao longo do tempo. Enquanto o país tentava se mover, a locomotiva paulista parece ter puxado o freio de mão: as matrículas presenciais na rede pública estadual (USP, Unesp, Unicamp e Fatecs) estão consolidadas em um patamar pouco acima de 200 mil — um número que permanece aquém da explosão da demanda e da complexidade da economia paulista, mostrando sinais de estagnação frente à pressão por inovação.

A hegemonia do setor privado, que hoje abocanha 80% das matrículas, contra 70% há duas décadas, consolidou uma “financeirização” do diploma que sacrifica a qualidade no altar da quantidade. O Enade 2023 revelou um abismo: o desempenho dos alunos de EaD em licenciaturas beira o trágico. Esse estelionato educacional se estende até as áreas mais sensíveis: os resultados medíocres das instituições privadas no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica, Enamed, comprovam que a lógica da finança é incapaz de garantir a qualidade necessária, tornando a expansão do setor público uma questão de saúde pública. Estamos formando profissionais que mal dominam os conceitos básicos, alimentando um ciclo vicioso que mantém o sistema educacional brasileiro em uma situação entre os mais precários da América do Sul, fato ilustrado pela nossa taxa de analfabetismo, entre as cinco maiores da região.

Essa situação é causada por um financiamento insuficiente. Enquanto municípios e estados dividem a responsabilidade pela educação básica, o ensino superior é compartilhado na proporção de dois para um entre União e Estados. A responsabilidade é fatiada pelos três níveis governamentais, mas sufocada por investimentos públicos que não rompem a inércia institucional.

Nacionalmente, a rede pública foi o único motor de expansão física, quase dobrando suas matrículas presenciais, principalmente por meio das instituições federais. Mas é pouco. Em termos relativos, a participação do setor público no sistema encolheu de 30% para 20%. O resultado é um sistema de duas velocidades: uma rede pública que cresceu no absoluto, mas perdeu relevância, e um setor privado que desistiu da presencialidade para as massas. A “democratização” entregou o certificado, mas segregou o espaço e sonegou o conhecimento. Sem uma regulação do EaD, uma fiscalização rigorosa das instituições privadas e de seus cursos e um investimento robusto no setor público, continuaremos a solidificar o nosso atraso educacional.

Superar esse atraso histórico exige mais do que a entrega de diplomas de papel; demanda um investimento público robusto, capaz de resgatar o convívio acadêmico como espaço real de transformação. Sem isso, seguiremos apenas assistindo à institucionalização da mediocridade e à consolidação de uma nação educacionalmente estagnada e submissa.

•        Algumas coisas estão fora dos trilhos na educação superior

O ensino superior brasileiro tem uma série de características bastante estranhas. Vejamos inicialmente algumas normas legais.

Uma das normas diz respeito a exigências de pessoas tituladas no corpo docente de universidades. Segundo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a LDB, de 1996, para que uma instituição possa ser uma universidade e gozar da autonomia acadêmica prevista para esse tipo de instituição, ela precisa ter, pelo menos, “um terço do corpo docente com titulação acadêmica de mestrado ou doutorado”. Ora, para os fins legais, alguém que tenha o doutorado, sem ter obtido anteriormente o mestrado, terá todos os direitos correspondentes a este último título, como, por exemplo, fazer um concurso público para um cargo de mestre. Cabe, portanto, a pergunta: o que a palavra doutorado está fazendo na lei? Nada: colocá-la ou não em nada alteraria as exigências legais. Tal vez sirva apernas para enfeitar a lei.

Devemos notar também que essa redação faz referência a “um terço do corpo docente”, não das aulas ou das atividades de pesquisa. Essa terça parte de pessoas com titulação mínima de “mestrado ou doutorado”, de fato, apenas mestrado, pode ser responsável por uma proporção bem menor do que um terço das aulas ou das atividades de pesquisa.

Outra exigência com redação bastante estranha é a de que uma universidade deve ter “um terço do corpo docente em regime de tempo integral”. Pela lei, essa terça parte do corpo docente pode ser formada apenas por pessoas sem mestrado ou doutorado. Além disso, a carga horária de aulas pode ser bem inferior a um terço do total de aulas da instituição. O que aquela “exigência” exige?

Esses são alguns exemplos das muitas “pontas soltas” da legislação educacional brasileira, no caso, a LDB de 1996. Elas não ocorrem por descuido, pois uma lei, antes de votada, é lida por todos os grupos interessados e suas consequências são detalhadamente avaliadas. Se estão lá é porque alguém as colocou e, certamente, não surgiram das instituições públicas, de seus docentes e associações; elas estão claramente ligadas a interesses do setor privado.

<><> O caos em números

Não é surpreendente, portanto, a desorganização do sistema quanto aos indicadores quantitativos. A enorme tolerância para a obtenção de autorização para a criação de cursos e instituições privadas em nível superior leva a situações estranhas, como a relação entre número de vagas de ingresso no ensino superior e o número de conclusões do ensino médio. A cada ano, cerca de dois milhões de pessoas conclui o ensino médio no Brasil, enquanto são oferecidas uma quantidade de vagas de ingresso em cursos superiores na casa dos vinte milhões, entre presenciais e a distância. A enorme maioria dessas vagas está em instituições privadas.

Mesmo se considerarmos apenas a quantidade de vagas de ingresso oferecidas em cursos presenciais, vemos que elas são da ordem de seis milhões, número entre duas e três vezes maior do que o de concluintes no ensino médio.

Claro que não há vagas de fato. O que existe são instituições privadas que têm direito de oferecer vagas de ingresso sabendo que não serão ocupadas; é uma reserva estratégica disponível. Não existem vagas ociosas, ideia já usada no País para justificar certas leis e certos procedimentos.

Esse número de vagas oferecidas não apenas não tem relação com potencial demanda como são mal distribuídas pelas regiões e profissões. Não se oferecem vagas nas profissões que maiores contribuições poderiam dar ao desenvolvimento cultural e social do país ou a seu crescimento econômico; elas são oferecidas apenas em função da existência de clientela e pelo retorno financeiro que disso pode advir.

O desencontro dos números continua. A quantidade de ingressantes no ensino superior a cada ano é da ordem de cinco milhões, dois terços deles em cursos a distância. Esse número é mais do que o dobro do número de concluintes do ensino médio. Essa desproporção indica que as pessoas ingressam, em média, duas ou três vezes em um curso superior, muitas delas sem nenhum compromisso com o processo de aprendizado. Isso dá origem a outra face negativa do sistema, afetando o entendimento, por parte da população, e em especial dos estudantes, do que deve ser um curso superior.

Os concluintes do ensino superior a cada anos são da ordem de 800 mil nos cursos presenciais e perto de 500 mil nos cursos a distância. Se comparado com o número de ingressantes, de cinco milhões, poderíamos supor que a taxa de evasão seja da ordem de 75%. Entretanto, isso não é correto, pois muitos “ingressos” podem não ir além de um papel preenchido e do pagamento de uma taxa ou algumas mensalidades.

Essa situação é fruto da enorme taxa de privatização do ensino superior brasileiro, uma das maiores do mundo, combinada com as pontas soltas da legislação (apenas para comparação, nos EUA, três quartos dos estudantes do ensino superior estão em instituições públicas; no Brasil, é o inverso: três quartos estão em instituições privadas). Quando examinamos apenas o que ocorre com as vagas, ingressante e concluintes em instituições públicas, a situação é bem mais regular. As desproporções numéricas apontadas são provocadas basicamente pelo setor privado.

<><> Consequências

As consequências dessa situação são muito grandes e negativas: jovens perdem tempo (e dinheiro) se matriculando em cursos irrelevantes e que não levarão adiante; governos, em todos os níveis, desperdiçam dinheiro subsidiando muitos desses cursos na forma de recursos destinados diretamente aos interesses do setor privado, como isenções de impostos e de contribuições sociais, na forma de abatimento de parte das despesas do imposto de renda de pessoas físicas, entre outras.

Não podemos conviver com um sistema tão sem rumo. Isso precisa ser revisto e um caminho que leve a um sistema de ensino organizado e eficiente deve ser delineado. A expansão de setor público no ensino superior, respeitando as necessidades e possibilidades regionais e das diferentes profissões, é uma componente essencial desse processo de reorganização do sistema de ensino superior no País. Se o setor público dobrar suas matrículas e o setor privado for reduzido em igual quantidade, teríamos uma taxa de privatização igual àquela dos EUA, bem melhor do que a situação atual, mas ainda distante da realidade nos países com melhores sistemas educacionais.

Uma regulação do setor privado que leve em conta os interesses da sociedade – e não dos empresários do setor – também é essencial. Todos os subsídios governamentais, que deveriam, como regra, ser transitórios, precisam ser analisados, reservando-os para cursos que realmente contribuam para o desenvolvimento do País. Não podemos deixar que jovens percam tempo e dinheiro em atividades de retorno nulo ou até negativo.

 

Fonte: Por Otaviano Helene, no Jornal da USP

 

IA na saúde: sobre tecnologias e quem as controla

No fim do ano passado, tive a oportunidade de fazer de abertura, no IMS/UERJ, para uma oficina sobre “soberania popular em tecnologias em saúde” (uma realização do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), com apoio do Ministério da Saúde. Nela estavam inúmeras autoridades oficiais, acadêmicos e nomes históricos do movimento da reforma sanitária, mas sobretudo compareceram diversos representantes de movimentos sociais contemporâneos.

Na ocasião defendi três premissas. Tal como três passos atrás, o esforço foi de recuperar teoricamente conceitos fundamentais para os tempos de digitalização das práticas de cuidado e atenção à saúde.

A primeira premissa mencionada foi de que tecnologia não é sinônimo de instrumento ou ferramenta. A segunda de que não há – e nunca houve na história humana – práticas de cuidado e atenção à saúde que não tenham sido tecnológicas. E a terceira se referia à ideia de que não há possibilidades de efetivamente produzir saúde e bem-estar sem autodeterminação daqueles/as que praticam e recebem cuidado.

Nesta coluna, tomo a liberdade de reformular a fala daquela ocasião: neste mês resumo a primeira premissa, no mês que vêm, tratarei da segunda e, por fim, em maio, me dedicarei a terceira.

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De pronto, pode-se dizer: “Nunca antes na história…” se tornou tão importante lembrar que tecnologia não pode ser reduzida a uma simples “coisa” que seguramos na mão, manipulamos, implementamos etc.

Embora tendamos a – quase que por metonímia – chamar de tecnologia todos os instrumentos/ferramentas, para darmos conta do seu conceito, é preciso dar uma complicada na questão. Para começar, podemos relembrar o clássico Ricardo Bruno Mendes-Gonçalves. Dizia ele que, se não é totalmente errado chamarmos um estetoscópio, uma máquina de Raio-X ou um smartphone de tecnologias – porque de fato elas são ferramentas que pegamos nas mãos –, essa é só a forma com a qual a tecnologia nos aparece no aqui e agora, é tão somente a sua forma acabada como artefato técnico.

Quando suspendemos essa imediatez prática à qual o quotidiano insiste nos prender, diz Ricardo Bruno é preciso considerar, todavia, que esse artefato não tem sentido, função e utilidade – “valor de uso” – antes ou fora das relações com as demais coisas, formas de vida e, sobretudo, com os sujeitos humanos e com as distintas organizações sociais das quais participa.

A rigor, não há qualquer dose de realismo se considerarmos uma tecnologia tão somente como uma coisa – fantasmagoricamente – isolada do objeto que ela pretende manipular ou transformar e das pessoas que executam a atividade – e da qual ela é um meio. Se um profissional não retirar o estetoscópio do pescoço e utilizá-lo para auscultar, o artefato técnico pouco ou nada será diferente de um colar. A tecnologia é sempre algo processual, relacional.

É por isso que Ricardo Bruno insistia que é no interior de um determinado arranjo com os objetos sobre os quais realizamos as nossas intervenções e as atividades propriamente ditas que encontramos o conceito de tecnologia. Em saúde, isso significa por exemplo que embora possamos nos referir ao estetoscópio, à máquina de Raio-X, ao prontuário eletrônico ou a um chatbot, todos como tecnologia, se faz necessário considerá-los arranjos tecnológicos. Os artefatos são apenas partes – nunca isoláveis – dos modos como nós organizamos uma consulta, um acolhimento, um campanha ou programa de saúde pública… Como organizamos um (ou mais) sistema(s) de saúde.

Isso significa que os artefatos nunca são neutros, estão sempre arranjados com o modo como concebemos, organizamos e executamos nossas práticas de cuidado e atenção à saúde. Inclusive na maneira como hierarquizamos saberes, profissões e práticas, reproduzimos dominações, opressões e explorações. São processos guiados por saberes específicos, com fins econômicos particulares, reprodutores de normas institucionais próprias, vetores de relações de poder e de diferentes formas de produzir cuidado.

Um exemplo simples e caro ao pensamento crítico da saúde coletiva são os protocolos clínicos: de um lado, podem apoiar decisões e reduzir erros, mas também podem padronizar de tal forma a consulta que esvazia a escuta do usuário, restringe a autonomia da equipe e subordina o cuidado a indicadores gerenciais definidos por poderes estranhos, alienados dos territórios. O mesmo artefato técnico, portanto, pode operar como suporte de uma prática reflexiva e emancipadora, ou como instrumento de controle e dominação – do profissional e do paciente.

Isolar a tecnologia – como um mero artefato – do conjunto de relações que lhe dá sentido e significado, seja político e econômico, seja cultural, socioambiental ou ético, seja clínico ou sanitário, é um erro brutal e com consequências destrutivas.

Um velho movimento artístico como o construtivismo russo, com suas esquisitices e brilhantismo, defendiam obras de arte na quais os processos de criação e produção não ficassem apagados, omitidos no artefato final. Eles queriam que a obra de algum modo se mostrasse como um momento de um processo mais amplo e complexo. Os contra relevos de Vladimir Tatlin, por exemplo, a madeira, metal e vidro eram deixados à mostra, com encaixes, cortes e sistemas de suspensão aparentes, de modo que a obra “final” não fosse apresentada como uma simples coisa, fechada e estanque, mas como um resultado parcial de uma montagem em criação.

A proposta vanguardista, importante registrar, não visava apenas nos lembrar do processo que já havia acontecido antes do aqui e agora com que entramos em contato com a coisa, isto é, o passado do artefato disposto em nossas mãos ou de fronte ao nossos olhos. O conceito estético não era só um antídoto ao fetichismo das mercadorias que nos faz esquecer como, porque e por quem foi produzido a coisa que utilizamos.

Além de nos lembrar dos corações, mentes e braços que ficam cristalizados nos artefatos, a ideia dos revolucionários russos era nos interpelar sobre o futuro, sobre as aberturas inscritas nos artefatos e defender a sua contínua recriação. Segundo Boris Arvatov, ao defender que o artefato é um momento de um complexo processo, nunca uma coisa isolada do seu antes e depois, tratava de (re)educar as pessoas para o pertencimento ao processo criativo. Daí a máxima de que todos somos construtores e criadores em uma rede cooperativa de re-design, na qual as coisas estão sempre à espera de serem (re)definidas como novos valores de uso. Consequentemente, tudo em um fluxo de (re)construção de redes de saberes, habilidades e vínculos entre os construtores.e mais como um “agente” que acompanha o caso junto ao paciente. Ao fim, como lembra Christina Kiaer, segundo os construtivistas russos, os artefatos também deveriam ser “camaradas”.

Se isso já valia para artefatos mecânicos e analógicos, imagine agora com os artefatos digitais conectado com as redes globais de computadores como uma IA?

<><> A IA e a adaptabilidade

Emprestemos uma ideia do filósofo Luciano Floridi. Para ele, a IA tem um diferencial totalmente novo enquanto artefato: a adaptabilidade. Tais tecnologias emergentes não apenas reagem ao ambiente, mas se reorganizam em algum medida diante dele. As chamadas IAs “generativas” são um exemplo dessa condição.

Pensemos em chatbots como o ChatGPT ou no que a própria literatura médica já denomina “agentes conversacionais”. Esses sistemas ajustam seus serviços de acordo com os inputs que recebem. Em cada interação, uma camada de seu funcionamento interno se adequa ao usuário. Assim, um paciente que se relaciona com uma IA de monitoramento de diabetes, no primeiro mês, receberá uma assistência mais ou menos igual a todos os demais usuários com os mesmo problema de saúde. Com os dias, meses ou anos de interação, longitudinalmente, todavia, o que vemos é a IA incorporando nossos dados clínicos, comportamentais, ambientais e preferências etc.

Tudo de modo a se tornar cada vez mais adaptada, produzindo uma espécie de customização dinâmica. Funcionando menos como um glicosímetro tradicional e mais como um “agente” que acompanha o caso junto ao paciente. A cada conversa, a cada dado novo, ela vai se ajustando, “aprendendo” um pouco mais sobre aquela pessoa e mudando os serviços que oferece. Ofertando assistência digital que se adapta em tempo real em acordo com a interação e o histórico.

Essa adaptabilidade coloca em questão algo nada trivial na história humana: ao interagir com uma IA, não consumimos um artefato acabado como um medicamento ou equipamento médico tradicional. O momento de uso – consumo – do artefato é também um dos momentos em que ele está sendo produzido. Quando um usuário – profissional ou paciente – utiliza o artefato, alimentando-o com dados, ele participa de um processo no qual consumo e produção se confundem. O artefato é montado, desmontado e remontando continuamente com a participação do usuário. Embora tecnicamente há distintos níveis de atualização dos sistemas, o certo é que nunca há uma versão final da IA.

O segredo é que a interface com a qual interagimos, a coisa com que lidamos, é apenas um terminal: a ponta visível de uma imensa indústria em rede espalhada – desigualmente – pelo planeta Terra, disposta em uma complexa e gigantesca anatomia. Para que haja adaptabilidade, para que a IA alcance uma customização razoável e em tempo real na prestação de serviços, ela depende necessariamente do funcionamento dessa indústria global. Não há valor de uso possível de uma IA nas práticas de cuidado e atenção à saúde sem a relação que ela, enquanto mero artefato, estabelece ininterruptamente com outros artefatos e outros “construtores” – que, por sinal, nunca estão no aqui e agora que o usuário se vale do serviço.

Os serviços oferecidos por uma IA dependem de uma ampla infraestrutura que está operando em muitos lugares. Dependem de data centers que devoram água com impactos socioambientais e sanitários dramáticos, redes elétricas que colocam cidades e equipamentos de saúde em apagões, além de um exército global de trabalhadores fantasmas sem condições mínimas de trabalho – adoecendo.

Hoje, cada vez mais vemos profissionais da ponta sendo treinados para manusear IAs de modo eficaz, vemos cursos para introduzi-las nos processos formativos dos novos profissionais, vemos gestores correndo para incorporá-las nas performances administrativa, vemos recém-formados sonhando com um nova healthtech comprada por milhões de algum capital estrangeiro etc. (Afinal, como dizem, a roda não pode parar!)

Ao mesmo tempo, raros ou mesmo inexistentes têm sido os espaço onde nos perguntamos: tais arranjos tecnológicos envoltos na chamada “saúde digital” atual estão levando o SUS para onde? As novas tecnologias incorporadas ou implementadas como novos instrumentos estão (re)construindo arranjos com que(m) e para que(m)? As escolhas que tem sido feitas nos municípios, estados e união resultarão em qual SUS daqui 1, 5, 10… 40 anos? Ou ainda, envoltos numa acelerada e crescente indústria da IA, qual o processo de saúde-doença-cuidado que estamos decidindo hoje enfrentar amanhã?

Quando falamos nas novas tecnologias, portanto, estamos falando por definição de artefatos que são eles mesmos terminais de uma rede permanente de (re)construções. Certamente que não se trata das redes de construtores idealizadas pela vanguarda artística dos soviéticos, cujo horizonte era o da emancipação – em outras palavras, da “ponte para uma outra civilização”. Mas, talvez a Arte devolva o que o olhar cansado de anos de gerencialismo e tecnocracia esqueceu de refletir e sentir: para além das resoluções de problemas no aqui e agora, o movimento da reforma sanitária tem a responsabilidade com os antes e depois que os artefatos escondem, dissimulam e fetichizam.

 

Fonte: Por Leandro Modolo, em Outra Saúde

 

Como a mídia corporativa constrói narrativas e disputa poder no Brasil

Em meio à intensificação do debate político no Brasil, especialmente às vésperas de mais um processo eleitoral, volta ao centro da cena uma questão decisiva, ainda que muitas vezes naturalizada, como o papel da mídia corporativa na construção de narrativas que orientam a opinião pública. Longe de atuar apenas como mediadora dos fatos, parte significativa desses veículos tem operado por meio de seleções, enquadramentos e silêncios que revelam interesses e disputas de poder, influenciando não apenas o que se noticia, mas como e para quem se noticia.

Karl Marx compreendia a imprensa comercial do século XIX não como uma instância neutra de mediação da realidade, mas como um instrumento ideológico funcional aos interesses da classe que detinha o poder econômico. Em sua análise, os veículos financiados pelo capital não apenas informavam, mas manipulavam a consciência social de modo a legitimar e perpetuar as relações de dominação e exploração das classes subalternas. A imprensa, portanto, operava como parte da superestrutura, contribuindo para a manutenção da hegemonia burguesa ao difundir valores e argumentos alinhados à ordem vigente. 

Transpostos para o século XXI, esses mecanismos não apenas persistem, como se sofisticam sob as novas configurações do capitalismo financeiro, informacional e digital. A mídia corporativa contemporânea, embora revestida de um discurso de imparcialidade, equilíbrio e compromisso ético, frequentemente reproduz essa mesma lógica estrutural, atuando como porta-voz de sustentação dos interesses da classe dominante. É nessa perspectiva que se deve interpretar a reiteração de práticas jornalísticas que, sob a égide da neutralidade, operam por meio de seleções, omissões e expedientes argumentativos que falseiam a realidade.

O ex governador Leonel Brizola, um dos políticos mais relevantes do país, consolidou-se como uma das vozes mais incisivas contra o poder concentrado dos meios de comunicação no Brasil. Em diversas ocasiões, denunciou a Rede Globo como uma estrutura de influência desproporcional, caracterizando-se como um verdadeiro “monopólio de opinião” capaz de formar percepções coletivas e interferir no processo democrático. Para Brizola, a emissora não apenas informava, mas operava como um poder político, selecionando, enquadrando e, por vezes, distorcendo fatos de modo a favorecer projetos alinhados aos interesses das elites econômicas e à pauta liberal dominante.

Essas críticas não se restringiam a constatações sem comprovação. Brizola embasava suas denúncias em fatos concretos, como a cobertura controversa das eleições e o histórico alinhamento editorial da emissora com setores conservadores e liberais durante momentos decisivos da política nacional, incluindo o apoio à ditadura. 

Nesse sentido, essa prática do Grupo Globo tende a reduzir a pluralidade de vozes e a influenciar a formação da opinião pública, sobretudo em um país marcado por desigualdades de acesso à informação qualificada. 

A crítica de Brizola classificando a Rede Globo como “monstro” antecipou o debate sobre o papel da mídia corporativa na mediação da realidade social e política. Ao questionar a lisura ética dos veículos corporativos, Brizola chamava atenção para a necessidade de democratização da comunicação, transparência editorial e responsabilidade pública, princípios fundamentais para que a informação não seja instrumentalizada em favor de projetos de poder específicos, mas cumpra sua função social de informar com base na verdade, na diversidade e no compromisso com o interesse coletivo.

Entre o cálculo de custos e benefícios que orienta esse tipo de prática, observa-se que determinados conglomerados midiáticos optam reiteradamente pelo ganho político, ainda que à custa da verdade dos fatos. A atuação da Rede Globo revela esse padrão. Como venho sustentando em minhas análises sobre as mídias hegemônicas, há uma recorrência histórica de condutas que evidenciam essa lógica. 

Recentemente, no programa Estúdio i, da GloboNews, canal de televisão por assinatura que opera mediante autorização pública e, portanto, submetido a deveres legais e éticos, a exibição de um PowerPoint associando, sem a devida comprovação, o presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente do Banco Central do Brasil Gabriel Galípolo e o Partido dos Trabalhadores ao escândalo financeiro do Banco Master revelou não apenas uma falha grave, mas um padrão de edição que omitiu deliberadamente personagens centrais, cujas conexões ao banqueiro Daniel Vorcaro são sustentadas por evidências consistentes, tais como: Jair Bolsonaro (PL), o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), o do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB) e o ex governador do do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL). Podemos mencionar ainda, o ex presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, atualmente executivo no Nubank em que o Grupo Globo tem participação acionária, deputado Nikolas Ferreira (PL), João Carlos Bacelar (PL), Ciro Nogueira (PP), Antônio Rueda, presidente do União Brasil, entre outros do campo da direita e da extrema direita.  

A escolha editorial, nesse caso, não se mostrou fortuita, mas orientada por um cálculo que objetivou maximizar o impacto político da exposição, mesmo diante dos riscos reputacionais, jurídicos e institucionais inerentes à veiculação de conteúdo dessa natureza.

Em condições normais, a divulgação de informações dessa gravidade poderia ensejar sanções proporcionais, inclusive a revisão ou suspensão da autorização de funcionamento, uma vez que serviços de comunicação por assinatura não estão imunes ao ordenamento legal que as autoriza. Estão condicionados ao cumprimento de princípios como veracidade, responsabilidade editorial e interesse público. No entanto, a retratação posterior apresentada de forma visivelmente constrangida pela jornalista Andrea Sadi, âncora do programa, ao reconhecer os erros da arte exibida, mostrou-se insuficiente para reparar os danos causados. Isso porque, no plano digital contemporâneo, a desinformação, uma vez disseminada, ganha autonomia. O material indevido continuará a circular e a ser instrumentalizado de forma maliciosa nas redes sociais, perpetuando seus efeitos muito além da pseudo correção formal pelo canal.

Contudo, com a expansão das plataformas digitais e das redes sociais a arquitetura dos meios tradicionais de comunicação vem reduzindo a capacidade de influência unilateral historicamente exercida pela Rede Globo. Se, em décadas anteriores, a emissora operava em um ambiente de forte concentração midiática, na qual a difusão da informação era mais restrita, hoje esse cenário é tensionado por uma multiplicidade de publicações, canais e formatos que disputam a atenção pública em tempo real. O surgimento de aplicativos como WhatsApp, YouTube, Instagram e X ampliou o acesso à produção e circulação de conteúdo, permitindo que usuários e mídias independentes passem a interferir diretamente na formação da opinião pública. Esse processo contribuiu para a fragmentação da audiência e enfraqueceu, em alguma medida, a força do “monstro” Rede Globo.

Todavia, a atual descentralização não eliminou a influência da mídia tradicional, mas a reposicionou. A Globo ainda mantém uma efetiva repercussão entre o povo. Ainda define quais temas entram no debate público, especialmente por meio de seus telejornais e por meio de sua pseudo credibilidade há tempos questionada. 

O papel obscuro da Globo não se limita ao seu histórico deletério pelo apoio à ditadura militar. Ele também se manifesta em sua contrariedade recorrente com relação às pautas dos governos democráticos e progressistas, manifestada frequentemente por narrativas insidiosas, bem como pela prática reiterada de afastar jornalistas com viés ideológico progressista. Um exemplo recente desse postura foi marcado pela demissão da competente jornalista Daniela Lima, entre outros profissionais renomados que tiveram o mesmo destino e hoje seguem exercendo seus ofícios em veículos que respeitam a autonomia de pensamento, principalmente nas mídias independentes, democratas e progressistas transmitas pela plataforma do Youtube.

Desta vez, segundo informações do site “Notícia da TV”, a GloboNews está articulando a demissão de até três profissionais por terem elaborado o infográfico exibido, poupando a âncora Andréia Sadi, que o levou ao ar. A decisão levanta questionamentos e sugere possíveis critérios de seletividade na responsabilização. Convém destacar que Sadi, ao longo do tempo, tem apresentado comentários e ilações recorrentes de viés negativo sobre o governo e seu staff. 

Observa-se que a poucos meses do processo eleitoral, são intensificadas  críticas levianas e insinuações dirigidas ao governo Lula, lideradas pela Globo e por veículos alinhados, como Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo, financiados por setores da elite financeira. Esse movimento evidencia, de forma irrefutável, a inclinação política desses grupos.

Com o fracasso na viabilização de uma chamada “terceira via”, representada por nomes como Tarcísio de Freitas e Ratinho Junior preferidos da Faria Lima, o chamado Partido da Imprensa Golpista (PIG) parece redirecionar seu apoio para Flávio Bolsonaro. Em muitos casos, esse reposicionamento vem acompanhado de uma estratégia de suavização de sua imagem, ao destacá-lo apenas como “Flávio”, numa tentativa de dissociá-lo do peso funesto de seu sobrenome. Ainda assim, tal esforço não apaga sua irrisória trajetória parlamentar, marcada por limitações políticas e por sucessivas controvérsias envolvendo suspeitas de práticas de corrupção, amplamente noticiadas e investigadas.

Quanto aos demais nomes da direita e da extrema direita, como Ronaldo Caiado, Eduardo Leite e Romeu Zema, observa-se um tratamento complacente por parte desses mesmos veículos. Em nenhuma circunstância destacam, com o mesmo rigor, as limitações de suas gestões estaduais, frequentemente marcadas por resultados aquém do necessário em termos de desenvolvimento sustentável e inclusão social. 

Em contraste com essa cobertura enviesada, a realidade dos fatos sobre o governo demonstra o melhor momento da economia do país com crescimento sustentável, expressivas políticas de redistribuição de renda, com ampliação de programas sociais e redução de desigualdades. Destaca-se a adoção de medidas de isenção fiscal voltadas às camadas de menor renda, aliviando o peso tributário, além de um cenário de alta empregabilidade. Soma-se a esses êxitos, o fato dos índices de inflação mantidos dentro do teto da meta e a reestruturação de políticas públicas em áreas essenciais, como saúde e educação, com investimentos e iniciativas que buscam recompor estruturas e ampliar o acesso a direitos básicos, avanços que, embora relevantes e verificáveis, recebem visibilidade desproporcionalmente reduzida diante do destaque dado às narrativas críticas.

Diante dessa materialidade, torna-se evidente que a disputa política no Brasil não se dá apenas no campo institucional, mas também no terreno da comunicação. A persistência de práticas seletivas, omissões e análises tendenciosas reforça a necessidade de um olhar crítico por parte da sociedade e de um compromisso mais incisivo com a democratização e a ética da informação. Em um ambiente assinalado pela pluralidade de vozes, cabe ao cidadão discernir, questionar e confrontar as informações a que tem acesso, reconhecendo que a qualidade da democracia está diretamente vinculada à integridade e à responsabilidade dos meios de comunicação.

É justamente nesse cenário de disputa de versões, em que a informação se converte em instrumento de poder que os dados mais recentes da realidade eleitoral brasileira devem ser analisados. 

Segundo a pesquisa do Instituto Atlas Intel, publicada em 25/03, o candidato de extrema direita Flávio Bolsonaro aparece em uma simulação de segundo turno numericamente um pouco acima do candidato do presidente, Luís Inácio Lula da Silva. O dado, por si só, não pode ser lido de maneira isolada. Ele expõe uma fratura profunda entre projetos de país. De um lado, um programa marcado por traços autoritários e por um ultra neoliberalismo que tende a agravar a desigualdade social, de outro, um projeto democrático e progressista, orientado à redução dessas desigualdades e à reconstrução institucional após o período de desmonte conduzido por Jair Bolsonaro.

Diante dessa realidade, cabe questionar: até que ponto os resultados das pesquisas expressam escolhas realmente conscientes do eleitorado? E em que medida são influenciadas por perspectivas de uma realidade invertida imposta por narrativas enganosas da direita fisiológica e da extrema direita contra o atual governo progressista, somadas a um ambiente informacional marcado pela desinformação recorrente e por abordagens seletivas da mídia corporativa, especialmente do Grupo Globo?

Mais do que uma constatação numérica, os dados da Atlas Intel funcionam como um alerta indicador de que as forças democráticas e progressistas precisarão ir além da mera articulação institucional, consolidando maior coesão política e social, fortalecendo sua presença nos territórios e reativando sua capacidade de diálogo e mobilização junto à população.

Nesse horizonte, para reverter esse quadro e ampliar suas chances de reeleição, o governo Lula precisa combinar comunicação eficaz com resultados concretos percebidos no cotidiano. Isso implica melhorar a tradução das políticas públicas em linguagem acessível, disputar ativamente as narrativas nas redes digitais. Ao mesmo tempo, é fundamental reconstruir pontes com setores populares hoje permeáveis à desinformação, investindo em presença territorial, escuta ativa e campanhas que evidenciem, de forma clara, os contrastes entre projetos de país em disputa.

 

Fonte: Por Elisabeth Lopes, em Brasil 247