quinta-feira, 2 de outubro de 2025


 

Por que o governo dos EUA foi paralisado e quem serão os mais afetados

Sem acordo entre republicanos e democratas sobre o projeto de lei orçamentária do presidente americano, Donald Trump, o governo dos Estados Unidos entrou nesta quarta-feira (1º/10) em paralisação administrativa (ou fechamento, do "shutdown" em inglês).

É a primeira paralisação administrativa em quase sete anos e pode interromper temporariamente parte dos serviços públicos, embora não todos. Serviços como programas de assistência alimentar e educação pré-escolar financiados pelo governo federal devem ser restritos ou interrompidos. O pagamento de parte dos servidores também deve sofrer restrições.

Confrontos em torno do Orçamento são comuns na política dos Estados Unidos, mas a atual disputa ganha tensão porque Trump passou os últimos nove meses reduzindo de forma drástica o tamanho do governo federal.

"Podemos fazer coisas durante o fechamento que são irreversíveis, ruins e irreversíveis para eles [os democratas], como deixar um grande número de pessoas sem emprego, cortar programas de que eles gostam", disse Trump ao ser questionado sobre a possibilidade de não haver acordo no Congresso.

Na manhã de terça-feira (30/09, data que marca o fim do ano fiscal), horas antes de o Senado iniciar a contagem regressiva para aprovar o projeto orçamentário, um repórter perguntou a Trump quantos funcionários federais ele pretendia demitir caso a paralisação do governo não fosse evitada.

"Bem, poderíamos fazer muita coisa", respondeu Trump.

O presidente dos EUA culpou os democratas, dizendo que eles querem a entrada de mais imigrantes ilegais nos EUA.

O chefe do Orçamento da Casa Branca, Russ Vought, divulgou recentemente um memorando em que detalha como o governo Trump pretende usar a paralisação para ampliar os cortes de longo prazo nos gastos federais e no número de funcionários.

Cargos e programas considerados como "não essenciais" durante o fechamento serão encerrados de forma permanente, em continuidade aos cortes promovidos no início do ano pelo Departamento de Eficiência Governamental (Doge, na sigla em inglês), então sob a administração de Elon Musk.

Líderes democratas, porém, avaliam que as ameaças funcionam como blefe ou tática de negociação.

O líder democrata do Senado, Chuck Schumer, chamou o memorando da Casa Branca de "tentativa de intimidação".

"Donald Trump vem demitindo funcionários federais desde o primeiro dia, não para governar, mas para assustar as pessoas", declarou Schumer. "Isso não é novidade e não tem relação com o orçamento do governo."

A Casa Branca havia lançado em seu site uma contagem regressiva para o fechamento, que, após o prazo expirar, foi substituída por um cronômetro que agora registra por quanto tempo o governo permanecerá fechado.

"Os democratas fecharam o governo", afirma o site da Casa Branca.

Em resposta, o congressista democrata Joe Morelle disse estar "profundamente frustrado" e afirmou que o fechamento é consequência direta de "uma administração brutal e incompetente".

O colega democrata Bill Foster ressaltou em um comunicado que a responsabilidade (do fechamento) é dos republicanos, que controlam a Câmara dos Representantes (equivalente à Câmara dos Deputados no Brasil), o Senado e a Casa Branca.

Foster acrescentou que as famílias em todo o país "continuarão pagando o preço" enquanto os republicanos não se sentarem para negociar.

A mesma linha foi defendida pelo lado republicano. "Os fechamentos de governo são estúpidos", disse o congressista Dusty Johnson (Partido Republicano), acrescentando que "colocam em risco os salários dos americanos".

Os republicanos controlam ambas as Casas do Congresso, mas no Senado são necessários 60 votos para aprovar o projeto de lei de financiamento. Em 2024, os republicanos consolidaram sua maioria no Senado, com 52 das 100 cadeiras.

Embora ninguém tenha clareza sobre as consequências de um fechamento temporário do governo federal, a dúvida é: quais efeitos terá para os funcionários públicos e quais serviços poderão ser afetados?

<><> Quais áreas do governo podem ser fechadas?

Anthony Zurcher e James FitzGerald, correspondentes da BBC, explicam que nem todo o governo será paralisado.

Espera-se que a patrulha de fronteira, o atendimento hospitalar, a aplicação da lei e o controle do tráfego aéreo continuem funcionando durante a paralisação.

Embora os repasses da Previdência Social e do Medicare (como é chamado o sistema de saúde dos Estados Unidos) sejam mantidos, a verificação de benefícios e a emissão de cartões podem ser suspensas.

Em geral, trabalhadores essenciais continuam em atividade — alguns sem receber salário por um tempo —, enquanto funcionários considerados não essenciais recebem licença temporária sem remuneração.

Em fechamentos anteriores, esses trabalhadores receberam o pagamento de forma retroativa.

Serviços como programas de assistência alimentar, educação pré-escolar financiada pelo governo federal, concessão de empréstimos estudantis, inspeções de alimentos e operações em parques nacionais devem ser restritos ou interrompidos.

Nadine Yousif, repórter da BBC News, participou de uma conversa com especialistas do Centro de Política Bipartidária (Bipartisan Policy Center), em Washington D.C., centro voltado à análise da política dos EUA, para detalhar como as principais agências funcionarão durante a paralisação.

Segundo os especialistas, algumas agências, como o Departamento de Energia, a Nasa, o Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano e a Fundação Nacional de Ciências, não apresentaram planos de contingência.

Eles afirmaram que haverá interrupção mínima nos programas de seguro saúde Medicare, para aposentados, e Medicaid, para pessoas de baixa renda, que dependem de financiamento próprio para pagar os benefícios.

Ainda assim, especialistas alertam que ambos os programas podem enfrentar dificuldades administrativas, assim como centros de saúde comunitários e serviços de atendimento domiciliar.

Os analistas também destacaram que os EUA entram em território inédito: com a força de trabalho federal já significativamente reduzida sob o governo Trump, a paralisação pode provocar novas interrupções e atrasos.

<><> O que cada partido exige na negociação?

Em relação às demandas de cada lado, os republicanos (do partido de Trump) defendem uma extensão até novembro dos níveis atuais de gastos para manter negociações.

Nesse último ano, o governo conseguiu aumentar gastos com defesa e controle de imigração e fez cortes em programas de energia sustentável e do Medicaid —esses, dirigidos à população de baixa renda e pessoas com deficiência — sem a participação dos legisladores no Congresso (algo que, aliás, está sendo analisado pela Justiça americana).

Os democratas, porém, exigem o fim dessa prática e questionam o sentido de negociar acordos de gastos se Trump simplesmente os ignora.

O Partido Democrata também quer um acordo definitivo para renovar os subsídios do seguro saúde federal para pessoas de baixa renda, que expiram no final do ano, uma exigência que os republicanos relutam em aceitar.

Os créditos fiscais que tornam o seguro de saúde mais acessível para milhões de americanos estão prestes a expirar.

Além disso, os democratas pedem a reversão dos cortes do Medicaid promovidos por Trump e se opõem aos cortes de gastos nos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) e nos Institutos Nacionais de Saúde (NIH).

Embora representem as posições de negociação de cada partido, as disputas sobre o fechamento do governo vão além de questões orçamentárias e se configuram como uma questão política.

Os republicanos afirmam ter vantagem e, junto com Trump, dizem ser a parte razoável na negociação, buscando apenas mais tempo para discutir sem enfrentar as consequências de um fechamento.

Os democratas, porém, não compartilham dessa visão.

A correspondente da BBC Ana Faguy relatou que, ao falar com autoridades do Congresso, suas equipes e outros jornalistas, ficou claro que democratas e republicanos não dialogam entre si, mas se confrontam diretamente.

A retórica permanece praticamente inalterada, com ambos os lados culpando o outro pelo impasse.

Desde 1980, o governo dos Estados Unidos registrou 15 fechamentos.

O presidente republicano Ronald Reagan (1911-2004) enfrentou oito paralisações durante a década de 1980, todas durando apenas alguns dias.

Com o tempo, os fechamentos se tornaram menos frequentes, mas mais prolongados, atingindo um recorde de 35 dias no final de 2018, a mais longa paralisação da história, ocorrida durante o primeiro mandato de Trump. Como resultado, 25% de todo o governo federal parou de funcionar e 800 mil servidores tiveram pagamentos atrasados.

Essa foi uma das três paralisações enfrentadas pelo presidente em seu primeiro mandato.

¨      Paralisação nos EUA atinge cerca de 750 mil pessoas e prejudica serviços essenciais

Os Estados Unidos entraram em uma paralisação das atividades do governo federal, o chamado shutdown, a meia noite desta quarta-feira (01/10). A medida ocorre após o impasse de democratas e republicanos na votação do novo plano orçamentário do país que prevê cortes na área da saúde, afetando programas sociais.

A medida provisória, apresentada pelos republicanos, previa a manutenção das operações até 21 de novembro, mas diante do entrave no Congresso, uma série de serviços públicos estão sendo interrompidos ou drasticamente reduzidos. Em casos de shutdown, agências e departamentos federais são obrigados a suspender todas as atividades consideradas “não essenciais”.

A medida poderá atingir cerca de 750 mil funcionários que se vem obrigados a entrar em “licença forçada” nesta quarta-feira. Historicamente, eles são reintegrados e recebem os salários retroativos, mas, desta vez, paira a ameaça de que o governo Trump efetue demissões permanentes. Segundo os republicanos, o governo vem criando um “caos deliberado” para se beneficiar politicamente.

Entre os setores mais afetados está a pasta de educação, que teve cerca de 87% de seus funcionários dispensados e investigações sobre violações de direitos civis em escolas e universidades paralisadas, além do congelando da emissão de novos subsídios federais. O setor já vinha enfraquecido após cortes que reduziram sua força de trabalho de 4.100 servidores para cerca de 2.500.

Outras pastas também sofrem a partir desta quarta (01/10) fortes reduções de pessoal: a Agência de Proteção Ambiental teve uma redução de 89% de seu quadro de funcionários, atingindo 13.432 pessoas num universo de 15.166. A pasta de Comércio sofreu redução de 81%, seguida do Trabalho em 76% e Habitação e Desenvolvimento Urbano em 71%, informa The New York Times.

<><> NASA está fechada

A NASA também anunciou a suspensão de suas operações normais. “A NASA está atualmente FECHADA devido a um lapso no financiamento do governo”, afirmou a agência em comunicado nas redes sociais. Segundo um plano de contingência enviado ao Escritório de Administração e Orçamento, a agência espacial dispensou 83% de sua força de trabalho, atingindo 15.094 de seus 18.218 funcionários. Apenas equipes responsáveis por proteger vidas e propriedades permanecem em atividade.

O Serviço Nacional de Parques também dispensou mais de 9.200 funcionários, mantendo abertos apenas alguns espaços em regime mínimo. Embaixadas e consulados no exterior informaram que continuarão a processar passaportes e vistos “conforme a situação permitir”, enquanto os serviços das Forças Armadas, Previdência Social e Medicare seguem em funcionamento.

<><> Acusações

Nas redes sociais, o governo Trump vem acusando a “extrema esquerda” de paralisar o país. No site do Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano (HUD) dos Estados Unidos, foi postado um banner culpando ‘a esquerda radical’ pela paralisação do país. “A esquerda radical no Congresso fechou o governo. O HUD usará os recursos disponíveis para ajudar os americanos necessitados”, diz a mensagem.

Na última segunda-feira (29/09), Trump se reuniu com líderes democratas e republicanos e afirmou, após a conversa que depois de “revisar as exigências ridículas e pouco sérias da minoria radical de esquerda” que “nenhuma reunião com seus líderes poderia ser produtiva”. Em entrevista à Fox News, o vice-presidente JD Vance novamente culpou os democratas pela paralisação. “Você não fecha o governo, não toma o governo como refém, porque quer se envolver em uma negociação sobre os custos de saúde”, disse.

Os democratas, por sua vez, acusam Trump e seu partido de transformar a governança em um jogo de chantagem calculado que ameaça diretamente a vida de milhões de americanos. Em comunicado conjunto, os líderes do partido no Senado, Chuck Schumer, e na Câmara, Hakeem Jeffries, afirmaram que “os democratas continuam prontos para encontrar um caminho bipartidário para reabrir o governo de uma forma que reduza os custos e aborde a crise de saúde republicana. Mas precisamos de um parceiro confiável”.

Eles também acusaram o líder norte-americano: “nos últimos dias, o comportamento do presidente Trump tornou-se mais errático e desequilibrado. Em vez de negociar um acordo de boa-fé, ele está postando obsessivamente vídeos deepfake enlouquecidos. O país precisa desesperadamente de uma intervenção para sair de mais uma paralisação de Trump”.

¨      Donald Trump, química e mudanças. Por Liszt Vieira

Não é comum o uso da psicologia nas análises políticas, mas, no caso de Donald Trump, a dimensão psicológica não pode ser descartada a priori, tendo em vista que estamos diante de personagem com traços psicóticos. Mediante o uso sistemático de mentiras e falcatruas, tornou-se um rico empresário e depois presidente dos EUA.

Como Presidente, suas ações têm mostrado certa lógica. Sempre ameaça ou aplica o pior, para depois ceder um pouco e conseguir o melhor para seu país, em sua visão pessoal. Donald Trump parece não ter estratégia ou projeto político, parece ter apenas táticas políticas de ocasião, que mudam conforme as circunstâncias ou seus interesses nas negociações.

Na realidade, porém, há uma característica constitutiva de seu governo: a destruição do equilíbrio dos poderes – condição sine qua non da democracia – em direção a um regime ditatorial, já que o governo dos EUA já pode ser considerado autoritário, pois o Executivo domina o Legislativo, a Suprema Corte e parte do Judiciário.

É muito difícil acreditar na “química” que rolou em poucos segundos entre Donald Trump e Lula. Donald Trump surpreende sempre, está sempre na mídia. Também rolou uma química entre Donald Trump e Vladimir Putin, e até agora não vimos resultados concretos na guerra da Ucrânia que essa química parecia anunciar.

O discurso de Lula na ONU foi magistral. A entrevista que deu em seguida também. Mas não deixa de ser estranho a projeção dessa “química” Trump-Lula para Vladimir Putin e Volodymyr Zelensky. Todos nós sabemos que a diplomacia muitas vezes usa uma linguagem retórica, diz o dito pelo não dito, ou o não dito pelo dito.

Mas confesso que fiquei em dúvida se Lula estava falando sério ou estava de gozação quando disse o seguinte: “Eu sei que ele (Donald Trump) é amigo do Vladimir Putin. Eu também sou. Então, se um amigo pode muita coisa, dois amigos podem muito mais. Quem sabe a nossa química pode ser levada para o Vladimir Putin e para o Volodymyr Zelensky [e] a gente construa aquela saída que parece inesperada? Eu acho que pode ter surpresa no mundo” (O Globo, 25/9/2025).

A questão de fundo é saber se Donald Trump foi sincero ao falar de química com Lula, ou se foi maquiavélico e anunciou com isso seu afastamento de posições anteriores, como o apoio a Jair Bolsonaro, por exemplo. Segundo a Folha de S. Paulo, “o empresário Joesley Batista, um dos donos da gigante de carnes JBS, foi recebido em audiência pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, semanas antes do aceno do republicano ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na Assembleia-Geral da ONU” (Folha, 25/9/2025).

Ou seja, a “química” teria sido o estratagema usado por Donald Trump para negociar com Lula e o Brasil, abandonando Jair Bolsonaro à sua própria sorte? Que ninguém vá esperar coerência e caráter desse pedófilo eleito presidente dos EUA, depois de apoiar a invasão do Capitólio em 6/1/2021, após perder a eleição

Também no Brasil temos visto mudanças rápidas. Ano passado, a bandeira do patriotismo e do combate à corrupção estava na mão da direita. Hoje, é parte constitutiva da esquerda depois que a direita levou a bandeira norte-americana para a manifestação de 7/9, defendeu Donald Trump e suas sanções comerciais contra o Brasil, e apoiou a PEC da Blindagem, enterrada depois das grandes manifestações de protestos em todo o Brasil no domingo 21/9.

Tudo indica que Donald Trump passou a considerar a condenação de Bolsonaro como fato consumado. Como americano, conhece bem o ditado “It’s no use crying over spilt milk” (não adianta chorar sobre leite derramado). Tem problemas enormes à sua frente para ficar defendendo uma causa perdida. Principalmente, porque sua popularidade começa a se enfraquecer. Afinal, seu objetivo explícito, anunciado a quatro ventos, a reindustrialização dos EUA, não tem possibilidades de dar certo.

Com a globalização econômica, as empresas americanas passaram a produzir na Ásia pelo preço barato da mão de obra, o que garante maior lucro. O capitalismo se globalizou, os Estados Nacionais se enfraqueceram, a maioria virou província. A China, por exemplo, se fortaleceu no sistema mundial de livre comércio porque a mão de obra é baratíssima, o que possibilita menores preços.

Os EUA consomem mais do que produzem, importam mais do que exportam, daí o déficit. O poder dos EUA se baseia, além da força militar, na dominação do dólar, moeda universal, emitida pelos EUA, e agora ameaçada, a médio prazo, pelo BRICS.

Donald Trump quer dar marcha a ré e reindustrializar os EUA, onde a mão de obra é mais cara, o que iria gerar elevada inflação. Ou seja, não vai dar certo. A hegemonia unilateral dos EUA acabou, ou está acabando, caminhamos para um mundo multipolar. Nessa transição para a multilateralidade, aumenta muito a possibilidade de guerra.

Diante desse quadro, negociar com Lula é mais vantajoso do que ficar defendendo seu aliado Jair Bolsonaro e família. Para Donald Trump, a negociação se dá basicamente em três pontos: (i) Defesa das big techs norte-americanas ameaçadas pela regulação de países, como o Brasil. (ii) Acesso aos minerais estratégicos das chamadas Terras Raras. (iii) Redução do papel pró ativo do Brasil no BRICS, visto como ameaça ao dólar.

Eis aí, a nosso ver, o segredo da química trumpiana, que não é orgânica nem inorgânica. É econômica e geopolítica.

 

Fonte: BBC News Mundo/Opera Mundi/Brasil 247


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