Diante
do consumismo e do vazio, as aulas de Sociologia
Vivemos
em uma época em que consumir virou sinônimo de existir. O sociólogo Zygmunt
Bauman chama esse tempo de modernidade líquida, porque tudo escorre pelas mãos,
esvai-se — o trabalho, os afetos, os valores, as certezas. Nada permanece: tudo
é veloz, instável e descartável, inclusive as relações humanas.
Hoje,
não somos medidos pelo que somos, mas pelo que aparentamos ser ou ter. O brilho
das vitrines e das telas dita o valor das pessoas. A identidade tornou-se um
produto em constante promoção, moldado por curtidas, algoritmos e meras ilusões
de pertencimento.
O
consumo, que um dia foi meio de suprir necessidades, foi sequestrado pelo
consumismo — um modo de vida baseado em comprar para preencher vazios
existenciais. A publicidade e os influenciadores criam desejos que não nascem
de dentro, mas da comparação constante com o outro. Como alertam vários autores
e autoras contemporâneos, algoritmos e campanhas publicitárias não apenas criam
desejos, mas moldam subjetividades, reforçando padrões de consumo que
naturalizam a desigualdade social.
O
consumismo de hoje, não diz mais respeito à satisfação das necessidades — nem
mesmo as mais sublimes, distantes (alguns diriam, não muito corretamente,
“artificiais”, “inventadas”, “derivativas”) necessidades de identificação ou a
auto-segurança quanto à “adequação”. (Bauman, 2001, p. 73)
Portanto,
não é exagero dizer que vivemos a era da felicidade parcelada, de “momentos
felizes”, que é vendida em slogans e propagandas, mas devolvida em ansiedade,
insônia, insegurança e solidão. Como reflexo de um espelho rachado, a sociedade
de consumo reflete rostos cansados de perseguir o novo e corações exaustos de
nunca se bastar — na sociedade de consumidores, ninguém pode se tornar sujeito
sem primeiro virar mercadoria — como disse Bauman (2008). Ele ainda ressalta
que, nesse tipo de sociedade, o indivíduo só é reconhecido como sujeito quando
se converte em mercadoria — e precisa, continuamente, reafirmar esse valor para
manter sua própria identidade social.
É
justamente nesse contexto emblemático que se revela a urgência de uma leitura
crítica da sociedade. E a Sociologia torna-se uma ferramenta fundamental para
compreender e resistir a esse ciclo: analisar como as estruturas sociais, a
publicidade, os hábitos de consumo e as instituições moldam nossa identidade e
nossa percepção de valor e pertencimento.
O
trabalho, antes fonte de dignidade, virou apenas combustível do consumo.
Trabalha-se, cada vez mais e mais para poder comprar, ainda que não na mesma
proporção e, assim, sucessivamente. E nesse ciclo, o tempo — nossa maior
riqueza — se esvai. O ser humano passa a medir o próprio valor pela
produtividade e pelo poder de compra, não mais pela solidariedade, pela
sabedoria ou pelo amor. É o triunfo da máquina e do ter sobre o ser. Mas o
preço desse modelo não se limita ao indivíduo: a natureza paga a conta.
Quando
queimamos florestas para pasto ou transformamos rios em esgoto, não destruímos
apenas ambientes, destruímos partes de nós mesmos. O capitalismo global
transforma florestas em estoques, rios em esgoto, animais em mercadoria e
coloca a sobrevivência do ser humano em risco. É o que Ulrich Beck chamou
de sociedade de risco: um tempo em que o perigo é fabricado pelas
próprias mãos humanas. As conquistas que prometiam conforto nos trouxeram,
também, novas ameaças — guerras, poluição, pandemias e lixo eterno.
Nesse
cenário, autores(as) e pensadores(as) indígenas e ambientalistas se tornam
essenciais. Leonardo Boff, Ailton Krenak e Davi Kopenawa nos convidam a sonhar
outro mundo possível. Eles lembram que a Terra não é um recurso, é um ser vivo,
e que cada árvore caída é uma parte de nós que desaba junto. Krenak nos
provoca: É preciso adiar o fim do mundo. Mas talvez o fim do mundo
não seja uma data no futuro — talvez ele aconteça um pouco todos os dias, cada
vez que trocamos o cuidado pela pressa, o ser pelo ter, o encontro pela tela,
ao contrário de interação social real.
Por
isso, a Sociologia é tão urgente: porque nos ensina a ver o que o capitalismo e
nosso estilo de vida, forjado no consumismo, tentam esconder. Ela nos convida a
desacelerar, pensar e reconstruir o sentido de comunidade/sociedade; a
compreender que viver bem não é acumular, mas pertencer — a uma rede de vida
que nos inclui, e não nos separa. Assim, a Sociologia, tantas vezes atacada e
desacreditada por vários políticos de direita e, mais recentemente, pela ala da
extrema direita, tem sido injustamente acusada de doutrinar jovens
— quando, na realidade, o que ela faz é ensinar a refletir. E nesse tempo de
polarização e desinformação que vivemos, o desafio torna-se ainda maior para
professores e professoras de Humanas, já que até parte da juventude, que também
já se encontra bastante contaminada por notícias falsas (fake news) e discursos
de ódio, passa a ver a educação crítica como ameaça.
Apesar
disso, é justamente nessa juventude que deposito minha esperança. Pois é com
esses jovens — inquietos, criativos, potentes — que sigo unindo Sociologia e
Arte, como caminhos de libertação e consciência. Djamila Ribeiro enfatiza que a
educação crítica é forma de resistência às estruturas opressoras e bell hooks
lembra que a educação deve ser prática de liberdade, não instrumento de
dominação. Porque a arte pode tocar onde a teoria, sozinha, talvez não alcance
e a Sociologia ilumina o que a arte pressente. Juntas, elas podem romper o
silêncio, despertar perguntas e abrir espaço para um novo modo de existir, mais
livre, mais empático e mais humano.
Então,
é na sala de aula, como professora de História e Sociologia, que, ao lado dessa
juventude inquieta, encontro a força transformadora, unindo, em minha prática
pedagógica, conhecimento crítico e criação artística — dramatizações, oficinas
de poesia, vídeos ou mesmo atividades de análise de imagens — numa aposta
clara: educar para a sensibilidade crítica é formar cidadãos capazes de
questionarem as ordens naturais do capital. Essa prática exige planejamento
detalhado e reflexivo, inspirando-se em Florestan Fernandes, que entendeu a
escola como espaço de crítica e inclusão; em Darcy Ribeiro, que apontou a
educação como projeto de nação e valorização das diferenças culturais; em
Pierre Bourdieu, cujas categorias — habitus e capital cultural, social e simbólico
— ajudam a compreender porque a sociedade gera exclusões; em Jessé Souza, que
nos alerta para as armadilhas da meritocracia e da falsa neutralidade das
instituições.
Na
prática, isso significa elaborar aulas que ofereçam mais do que memorização de
conteúdos: faz-se necessário organizar atividades para ampliação de
conhecimento e trabalhos em grupo de: projetos sociais, oficinas de criação e
avaliações por projetos. Mas aqui vai um desabafo: esse planejamento implica
rever conteúdos impostos pela Secretaria de Educação (SEDUC-SP) que, muitas
vezes, exige o uso de slides desproporcionais ao tempo de aula, de forma que a
aula consiga perfurar a barreira superficial dos slides e realmente levar à
compreensão ampla e reflexões críticas. Obviamente, cada estudante responde de
modo distinto, conforme seu ritmo e estruturas cognitivas, mas minha intenção é
sempre gerar reflexão e construção ativa do conhecimento.
Portanto,
no lugar de provas exclusivamente memorísticas (as quais somos obrigados a
aplicar), procuro integrar tarefas que exigem do aluno reflexão sobre seus
próprios hábitos e os impactos sociais e ambientais, de forma com que a escola
deixe de ser somente reprodutora automática de conteúdos/informações e passe a
oferecer espaços de experimentação, nas aulas de Sociologia.
Politicamente,
essa prática é pedagogia de resistência, que contradiz os ataques ideológicos
de quem pretende transformar o ensino crítico em “doutrinação”, já que ensinar
Sociologia é ensinar a pensar — e pensar é condição de liberdade. É por isso
que, mesmo diante de pressões e acusações, invisto em estratégias que aproximem
teoria e reflexão verdadeiramente crítica, trazendo para a sala de aula
diversos pensadores como os já citados acima: Florestan Fernandes, Darcy
Ribeiro, Bourdieu, Jessé Souza e, além destes, vários outros autores e autoras
fora do eixo ocidental, que nos tragam visões expandidas, como Davi Kopenawa,
Ailton Krenak, Achille Mbembe, entre outros — para que os estudantes reconheçam
múltiplas fontes de conhecimento e percebam que a transformação social nasce da
articulação entre pensamento e prática coletiva.
Para
ilustrar a relação entre consumo e responsabilidade, faz-se necessário, também,
observar os impactos dos objetos que compramos (social, ambiental etc.), tendo
em vista que cada produto que adquirimos carrega cadeias de exploração, desde
extração de minerais, condições de trabalho precárias até descarte que
contamina ecossistemas inteiros. E a Sociologia tem por obrigação revelar essas
camadas invisíveis do consumo, mostrando interdependência entre sociedade e
natureza. Além disso, as redes sociais, criadas para conectar pessoas, muitas
vezes amplificam ainda mais a solidão e a comparação, a competição. Cada like,
curtida ou seguidor se torna um termômetro do valor pessoal, substituindo
relações humanas reais por métricas artificiais. Discutir isso em sala é ajudar
os jovens a refletirem sobre identidade, pertencimento e bem-estar.
Por
isso tudo, ratifico que refletir criticamente sobre consumo não é apenas
exercício intelectual, mas prática de cidadania que desperta transformação
social concreta.
Em
suma: ensinar Ciências Sociais hoje é preparar para resistir e reinventar. É
devolver sentido ao tempo dos alunos e alunas, é resgatar valores comunitários
e dar ferramentas para que a juventude possa atuar como sujeitos políticos —
não apenas como meros consumidores passivos, sem qualquer reflexão. Esse é o
lugar onde atuo, com esperança (do verbo esperançar). Avanço movida pela
inquietação diária que me acompanha toda vez que entro em sala e vejo rostos
inseguros, mas, ao mesmo tempo, cheios de potência. Sigo trabalhando para
transformar essa inquietação em práticas pedagógicas concretas. Embora,
confesso que, constantemente, me pergunte se, de fato, consigo atingir
plenamente todos(as) os alunos(as), dada a diversidade de personalidades, a
desmotivação típica da faixa etária do Ensino Médio e, até mesmo, a
descredibilização dos docentes. Mas, apoiada também em Piaget e Vygotsky,
procuro propor situações de reflexão e mediação que ofereçam oportunidades para
que cada um, no seu tempo, se aproprie do conhecimento de modo significativo.
Caminho com dúvidas, é verdade, mas também com a expectativa de que, como nos
lembra o educador Paulo Freire, a educação possa transformar pessoas — ao menos
algumas — e, por meio delas, transformar o mundo.
A
sociedade de consumo nos ensina a comprar coisas e esquecer pessoas. A
Sociologia nos ensina a lembrar que o mundo pode ser diferente — e que mudar o
mundo começa dentro de nós.
¨ Ricardo Antunes:
Trabalho e a linguagem da exploração
Da
fraude da “empregabilidade” ao contorcionismo do “empreendedorismo”, estamos
presenciando uma fase de profunda derrelição dos direitos e das condições de
trabalho no Brasil.
Podemos
recordar o engodo da falta de “empregabilidade” como pretexto para as demissões
no passado recente. Quem perdia seu emprego recebia esta justificativa: não
havia empregabilidade! Nem o dicionário do mestre Aurélio conhecia esta
inusitada palavra, inventada pelo ideário desprezível dos CEOs.
Para
eliminar trabalho, era preciso ter uma “explicação”. Esperar que as grandes
corporações exibissem coágulos de sinceridade é como imaginar que no deserto do
Saara se possa ter gelo o ano inteiro! É por isso que, mesmo quando
trabalhadores e trabalhadoras faziam cursos de todo tipo, das especializações
às pós-graduações, não tinha jeito: sem “empregabilidade”, uma hora vinha a
demissão!
Mas a
classe trabalhadora percebeu, algum tempo depois, que seu emprego estava de
fato sendo eliminado pelos novos inventos tecnológicos, que são
preferencialmente programados para eliminar trabalho vivo. Era preciso, então,
“culpar” a classe trabalhadora e responsabilizá-la pelo desemprego, na passagem
do taylorismo-fordismo para o toyotismo e sua empresa flexível e enxuta (lean
production).
Adentramos,
então, uma nova era de financeirização do capital (do arcabouço fiscal que tem
a face de calabouço social) impondo a demolição do trabalho regulamentado.
Fenômeno global, basta recordar o trabalho contingente e dos jovens que
compreendem os cyber-refugiados no Japão, sem esquecer os imigrantes nos
Estados Unidos, as maquiladoras no México, o “trabalho atípico” na Itália ou os
recibos verdes em Portugal, só para dar alguns exemplos.
No
Brasil, vimos esparramarem-se as “falsas” cooperativas, depois a terceirização,
inicialmente das atividades-meio e depois das atividades-fim. Todas concebidas,
moldadas e calibradas pelo mundo do capital, visando à sistemática corrosão dos
direitos do trabalho, que dilapidou ainda mais as condições de trabalho e de
remuneração da classe trabalhadora, intensificando os níveis de exploração e de
precarização da força de trabalho, da qual cerca de 40% trabalha na
informalidade.
Com o
neoliberalismo entrelaçado à financeirização, impôs-se também a privatização
dos serviços públicos, turbinada pelas novas tecnologias digitais. Os objetivos
e os resultados se evidenciam: quanto mais trabalho morto, com algoritmos e
inteligência artificial, melhor. Mas como é impossível a eliminação completa do
trabalho humano – e este é o calcanhar de Aquiles do capital – urge devastá-lo
e depauperá-lo ao limite, eliminando tudo que um dia significou algum direito
real.
Para
que tal empreitada fosse efetivada, o léxico do capital ganhou uma impulsão
frenética: era preciso adulterar profundamente o sentido etimológico original
das palavras pelo novo dicionário empresarial: trabalhadores(as) tornaram-se
“parceiros(as)”, “colaboradores(as)”; assalariados(as) converteram-se em
“empreendedores(as)”.
A cada
nova onda corporativa, a enxurrada de adulterações ganhava mais lustre
catártico: “líder”, “times”, “metas”, “gestão de pessoas”, “inovação”,
“sinergia”, “resiliência”.
Assim,
proliferou-se o “novo” palavrório obrigatório da desmedida empresarial. Tudo
cuidadosamente concebido para obliterar o assalariamento, como se vê na
pejotização e no trabalho uberizado, de modo a recuperar modalidades de
trabalhos vigentes nos séculos XVIII e XIX, agora recheadas com sabor
algorítmico e digital e, “coincidentemente”, cada vez mais com menos direitos
do trabalho.
O
resultado é explosivo: mais informalidade, precarização, subemprego,
desemprego, trabalho intermitente etc. A terceirização – que no fordismo se
restringia à setores como limpeza, segurança, transporte, alimentação –, de
exceção, vem se tornando regra (até mesmo no trabalho público) e se
amplificando na era da inteligência artificial, “abrindo a porteira” para
formas de contratação como PJ, MEI, microtrabalhos, crowdwork, à margem da
legislação protetora do trabalho.
Suas
consequências são profundas: como as “metas” são interiorizadas cotidianamente
na subjetividade da classe trabalhadora (em substituição ao também nefasto
cronômetro taylorista), aflora um resultado assustador: aproximadamente 30% da
força de trabalho ocupada no Brasil sofre de burnout, doença que se caracteriza
“pelo esgotamento físico e mental relacionado ao trabalho” (conforme dados da
Associação Nacional de Medicina do Trabalho – ANAMT), o que nos coloca em
segundo lugar no ranking mundial desta doença, que tristemente singulariza
nosso tempo.
Adoecimentos
mentais, assédios, depressões, suicídios, então, não podem ser efetivamente
compreendidos se não se considera a realidade do trabalho precarizado no Brasil
atual. O exemplo do trabalho em plataformas é também desolador: na cidade de
São Paulo, em média, mais de um entregador por aplicativo morre por dia por
acidente de trabalho. E a pesquisa recém-divulgada pelo IBGE (Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística) em 17 de outubro de 2025, mostra que a
jornada de trabalho realizada pelos trabalhadores de plataformas vem se
ampliando: em 2024 ela foi, em média, 5,5 h mais extensa que a dos demais
trabalhadores. É essa a dura realidade do trabalho “moderno” no Brasil.
É nesse
cipoal que o STF terá que refletir e decidir, seja ao tratar do Tema 1389,
sobre a pejotização, seja ao julgar as demandas do IFood e da Uber que
pretendem legitimar essa modalidade de trabalho uberizado e sem direitos no
Brasil, desconsiderando tanto as decisões do TST, como o princípio protetor do
trabalho que consta do artigo 7º da Constituição de 1988.
Como
procederá o Supremo? Será seu nome escrito em maiúsculo, como tem feito na luta
contra o golpismo em nosso país, ou será escrito em minúsculo, tornando-se
diretamente responsável por uma irreversível regressão na legislação protetora
do trabalho no Brasil?
Fonte:
Por Janethe Fontes, em Outras Palavras/Jornal da Unicamp

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