segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Diante do consumismo e do vazio, as aulas de Sociologia

Vivemos em uma época em que consumir virou sinônimo de existir. O sociólogo Zygmunt Bauman chama esse tempo de modernidade líquida, porque tudo escorre pelas mãos, esvai-se — o trabalho, os afetos, os valores, as certezas. Nada permanece: tudo é veloz, instável e descartável, inclusive as relações humanas.

Hoje, não somos medidos pelo que somos, mas pelo que aparentamos ser ou ter. O brilho das vitrines e das telas dita o valor das pessoas. A identidade tornou-se um produto em constante promoção, moldado por curtidas, algoritmos e meras ilusões de pertencimento.

O consumo, que um dia foi meio de suprir necessidades, foi sequestrado pelo consumismo — um modo de vida baseado em comprar para preencher vazios existenciais. A publicidade e os influenciadores criam desejos que não nascem de dentro, mas da comparação constante com o outro. Como alertam vários autores e autoras contemporâneos, algoritmos e campanhas publicitárias não apenas criam desejos, mas moldam subjetividades, reforçando padrões de consumo que naturalizam a desigualdade social.

O consumismo de hoje, não diz mais respeito à satisfação das necessidades — nem mesmo as mais sublimes, distantes (alguns diriam, não muito corretamente, “artificiais”, “inventadas”, “derivativas”) necessidades de identificação ou a auto-segurança quanto à “adequação”. (Bauman, 2001, p. 73)

Portanto, não é exagero dizer que vivemos a era da felicidade parcelada, de “momentos felizes”, que é vendida em slogans e propagandas, mas devolvida em ansiedade, insônia, insegurança e solidão. Como reflexo de um espelho rachado, a sociedade de consumo reflete rostos cansados de perseguir o novo e corações exaustos de nunca se bastar — na sociedade de consumidores, ninguém pode se tornar sujeito sem primeiro virar mercadoria — como disse Bauman (2008). Ele ainda ressalta que, nesse tipo de sociedade, o indivíduo só é reconhecido como sujeito quando se converte em mercadoria — e precisa, continuamente, reafirmar esse valor para manter sua própria identidade social.

É justamente nesse contexto emblemático que se revela a urgência de uma leitura crítica da sociedade. E a Sociologia torna-se uma ferramenta fundamental para compreender e resistir a esse ciclo: analisar como as estruturas sociais, a publicidade, os hábitos de consumo e as instituições moldam nossa identidade e nossa percepção de valor e pertencimento.

O trabalho, antes fonte de dignidade, virou apenas combustível do consumo. Trabalha-se, cada vez mais e mais para poder comprar, ainda que não na mesma proporção e, assim, sucessivamente. E nesse ciclo, o tempo — nossa maior riqueza — se esvai. O ser humano passa a medir o próprio valor pela produtividade e pelo poder de compra, não mais pela solidariedade, pela sabedoria ou pelo amor. É o triunfo da máquina e do ter sobre o ser. Mas o preço desse modelo não se limita ao indivíduo: a natureza paga a conta.

Quando queimamos florestas para pasto ou transformamos rios em esgoto, não destruímos apenas ambientes, destruímos partes de nós mesmos. O capitalismo global transforma florestas em estoques, rios em esgoto, animais em mercadoria e coloca a sobrevivência do ser humano em risco. É o que Ulrich Beck chamou de sociedade de risco: um tempo em que o perigo é fabricado pelas próprias mãos humanas. As conquistas que prometiam conforto nos trouxeram, também, novas ameaças — guerras, poluição, pandemias e lixo eterno.

Nesse cenário, autores(as) e pensadores(as) indígenas e ambientalistas se tornam essenciais. Leonardo Boff, Ailton Krenak e Davi Kopenawa nos convidam a sonhar outro mundo possível. Eles lembram que a Terra não é um recurso, é um ser vivo, e que cada árvore caída é uma parte de nós que desaba junto. Krenak nos provoca: É preciso adiar o fim do mundo. Mas talvez o fim do mundo não seja uma data no futuro — talvez ele aconteça um pouco todos os dias, cada vez que trocamos o cuidado pela pressa, o ser pelo ter, o encontro pela tela, ao contrário de interação social real.

Por isso, a Sociologia é tão urgente: porque nos ensina a ver o que o capitalismo e nosso estilo de vida, forjado no consumismo, tentam esconder. Ela nos convida a desacelerar, pensar e reconstruir o sentido de comunidade/sociedade; a compreender que viver bem não é acumular, mas pertencer — a uma rede de vida que nos inclui, e não nos separa. Assim, a Sociologia, tantas vezes atacada e desacreditada por vários políticos de direita e, mais recentemente, pela ala da extrema direita, tem sido injustamente acusada de doutrinar jovens — quando, na realidade, o que ela faz é ensinar a refletir. E nesse tempo de polarização e desinformação que vivemos, o desafio torna-se ainda maior para professores e professoras de Humanas, já que até parte da juventude, que também já se encontra bastante contaminada por notícias falsas (fake news) e discursos de ódio, passa a ver a educação crítica como ameaça.

Apesar disso, é justamente nessa juventude que deposito minha esperança. Pois é com esses jovens — inquietos, criativos, potentes — que sigo unindo Sociologia e Arte, como caminhos de libertação e consciência. Djamila Ribeiro enfatiza que a educação crítica é forma de resistência às estruturas opressoras e bell hooks lembra que a educação deve ser prática de liberdade, não instrumento de dominação. Porque a arte pode tocar onde a teoria, sozinha, talvez não alcance e a Sociologia ilumina o que a arte pressente. Juntas, elas podem romper o silêncio, despertar perguntas e abrir espaço para um novo modo de existir, mais livre, mais empático e mais humano.

Então, é na sala de aula, como professora de História e Sociologia, que, ao lado dessa juventude inquieta, encontro a força transformadora, unindo, em minha prática pedagógica, conhecimento crítico e criação artística — dramatizações, oficinas de poesia, vídeos ou mesmo atividades de análise de imagens — numa aposta clara: educar para a sensibilidade crítica é formar cidadãos capazes de questionarem as ordens naturais do capital. Essa prática exige planejamento detalhado e reflexivo, inspirando-se em Florestan Fernandes, que entendeu a escola como espaço de crítica e inclusão; em Darcy Ribeiro, que apontou a educação como projeto de nação e valorização das diferenças culturais; em Pierre Bourdieu, cujas categorias — habitus e capital cultural, social e simbólico — ajudam a compreender porque a sociedade gera exclusões; em Jessé Souza, que nos alerta para as armadilhas da meritocracia e da falsa neutralidade das instituições.

Na prática, isso significa elaborar aulas que ofereçam mais do que memorização de conteúdos: faz-se necessário organizar atividades para ampliação de conhecimento e trabalhos em grupo de: projetos sociais, oficinas de criação e avaliações por projetos. Mas aqui vai um desabafo: esse planejamento implica rever conteúdos impostos pela Secretaria de Educação (SEDUC-SP) que, muitas vezes, exige o uso de slides desproporcionais ao tempo de aula, de forma que a aula consiga perfurar a barreira superficial dos slides e realmente levar à compreensão ampla e reflexões críticas. Obviamente, cada estudante responde de modo distinto, conforme seu ritmo e estruturas cognitivas, mas minha intenção é sempre gerar reflexão e construção ativa do conhecimento.

Portanto, no lugar de provas exclusivamente memorísticas (as quais somos obrigados a aplicar), procuro integrar tarefas que exigem do aluno reflexão sobre seus próprios hábitos e os impactos sociais e ambientais, de forma com que a escola deixe de ser somente reprodutora automática de conteúdos/informações e passe a oferecer espaços de experimentação, nas aulas de Sociologia.

Politicamente, essa prática é pedagogia de resistência, que contradiz os ataques ideológicos de quem pretende transformar o ensino crítico em “doutrinação”, já que ensinar Sociologia é ensinar a pensar — e pensar é condição de liberdade. É por isso que, mesmo diante de pressões e acusações, invisto em estratégias que aproximem teoria e reflexão verdadeiramente crítica, trazendo para a sala de aula diversos pensadores como os já citados acima: Florestan Fernandes, Darcy Ribeiro, Bourdieu, Jessé Souza e, além destes, vários outros autores e autoras fora do eixo ocidental, que nos tragam visões expandidas, como Davi Kopenawa, Ailton Krenak, Achille Mbembe, entre outros — para que os estudantes reconheçam múltiplas fontes de conhecimento e percebam que a transformação social nasce da articulação entre pensamento e prática coletiva.

Para ilustrar a relação entre consumo e responsabilidade, faz-se necessário, também, observar os impactos dos objetos que compramos (social, ambiental etc.), tendo em vista que cada produto que adquirimos carrega cadeias de exploração, desde extração de minerais, condições de trabalho precárias até descarte que contamina ecossistemas inteiros. E a Sociologia tem por obrigação revelar essas camadas invisíveis do consumo, mostrando interdependência entre sociedade e natureza. Além disso, as redes sociais, criadas para conectar pessoas, muitas vezes amplificam ainda mais a solidão e a comparação, a competição. Cada like, curtida ou seguidor se torna um termômetro do valor pessoal, substituindo relações humanas reais por métricas artificiais. Discutir isso em sala é ajudar os jovens a refletirem sobre identidade, pertencimento e bem-estar.

Por isso tudo, ratifico que refletir criticamente sobre consumo não é apenas exercício intelectual, mas prática de cidadania que desperta transformação social concreta.

Em suma: ensinar Ciências Sociais hoje é preparar para resistir e reinventar. É devolver sentido ao tempo dos alunos e alunas, é resgatar valores comunitários e dar ferramentas para que a juventude possa atuar como sujeitos políticos — não apenas como meros consumidores passivos, sem qualquer reflexão. Esse é o lugar onde atuo, com esperança (do verbo esperançar). Avanço movida pela inquietação diária que me acompanha toda vez que entro em sala e vejo rostos inseguros, mas, ao mesmo tempo, cheios de potência. Sigo trabalhando para transformar essa inquietação em práticas pedagógicas concretas. Embora, confesso que, constantemente, me pergunte se, de fato, consigo atingir plenamente todos(as) os alunos(as), dada a diversidade de personalidades, a desmotivação típica da faixa etária do Ensino Médio e, até mesmo, a descredibilização dos docentes. Mas, apoiada também em Piaget e Vygotsky, procuro propor situações de reflexão e mediação que ofereçam oportunidades para que cada um, no seu tempo, se aproprie do conhecimento de modo significativo. Caminho com dúvidas, é verdade, mas também com a expectativa de que, como nos lembra o educador Paulo Freire, a educação possa transformar pessoas — ao menos algumas — e, por meio delas, transformar o mundo.

A sociedade de consumo nos ensina a comprar coisas e esquecer pessoas. A Sociologia nos ensina a lembrar que o mundo pode ser diferente — e que mudar o mundo começa dentro de nós.

¨      Ricardo Antunes: Trabalho e a linguagem da exploração

Da fraude da “empregabilidade” ao contorcionismo do “empreendedorismo”, estamos presenciando uma fase de profunda derrelição dos direitos e das condições de trabalho no Brasil.

Podemos recordar o engodo da falta de “empregabilidade” como pretexto para as demissões no passado recente. Quem perdia seu emprego recebia esta justificativa: não havia empregabilidade! Nem o dicionário do mestre Aurélio conhecia esta inusitada palavra, inventada pelo ideário desprezível dos CEOs.

Para eliminar trabalho, era preciso ter uma “explicação”. Esperar que as grandes corporações exibissem coágulos de sinceridade é como imaginar que no deserto do Saara se possa ter gelo o ano inteiro! É por isso que, mesmo quando trabalhadores e trabalhadoras faziam cursos de todo tipo, das especializações às pós-graduações, não tinha jeito: sem “empregabilidade”, uma hora vinha a demissão!

Mas a classe trabalhadora percebeu, algum tempo depois, que seu emprego estava de fato sendo eliminado pelos novos inventos tecnológicos, que são preferencialmente programados para eliminar trabalho vivo. Era preciso, então, “culpar” a classe trabalhadora e responsabilizá-la pelo desemprego, na passagem do taylorismo-fordismo para o toyotismo e sua empresa flexível e enxuta (lean production).

Adentramos, então, uma nova era de financeirização do capital (do arcabouço fiscal que tem a face de calabouço social) impondo a demolição do trabalho regulamentado. Fenômeno global, basta recordar o trabalho contingente e dos jovens que compreendem os cyber-refugiados no Japão, sem esquecer os imigrantes nos Estados Unidos, as maquiladoras no México, o “trabalho atípico” na Itália ou os recibos verdes em Portugal, só para dar alguns exemplos.

No Brasil, vimos esparramarem-se as “falsas” cooperativas, depois a terceirização, inicialmente das atividades-meio e depois das atividades-fim. Todas concebidas, moldadas e calibradas pelo mundo do capital, visando à sistemática corrosão dos direitos do trabalho, que dilapidou ainda mais as condições de trabalho e de remuneração da classe trabalhadora, intensificando os níveis de exploração e de precarização da força de trabalho, da qual cerca de 40% trabalha na informalidade.

Com o neoliberalismo entrelaçado à financeirização, impôs-se também a privatização dos serviços públicos, turbinada pelas novas tecnologias digitais. Os objetivos e os resultados se evidenciam: quanto mais trabalho morto, com algoritmos e inteligência artificial, melhor. Mas como é impossível a eliminação completa do trabalho humano – e este é o calcanhar de Aquiles do capital – urge devastá-lo e depauperá-lo ao limite, eliminando tudo que um dia significou algum direito real.

Para que tal empreitada fosse efetivada, o léxico do capital ganhou uma impulsão frenética: era preciso adulterar profundamente o sentido etimológico original das palavras pelo novo dicionário empresarial: trabalhadores(as) tornaram-se “parceiros(as)”, “colaboradores(as)”; assalariados(as) converteram-se em “empreendedores(as)”.

A cada nova onda corporativa, a enxurrada de adulterações ganhava mais lustre catártico: “líder”, “times”, “metas”, “gestão de pessoas”, “inovação”, “sinergia”, “resiliência”.

Assim, proliferou-se o “novo” palavrório obrigatório da desmedida empresarial. Tudo cuidadosamente concebido para obliterar o assalariamento, como se vê na pejotização e no trabalho uberizado, de modo a recuperar modalidades de trabalhos vigentes nos séculos XVIII e XIX, agora recheadas com sabor algorítmico e digital e, “coincidentemente”, cada vez mais com menos direitos do trabalho.

O resultado é explosivo: mais informalidade, precarização, subemprego, desemprego, trabalho intermitente etc. A terceirização – que no fordismo se restringia à setores como limpeza, segurança, transporte, alimentação –, de exceção, vem se tornando regra (até mesmo no trabalho público) e se amplificando na era da inteligência artificial, “abrindo a porteira” para formas de contratação como PJ, MEI, microtrabalhos, crowdwork, à margem da legislação protetora do trabalho.

Suas consequências são profundas: como as “metas” são interiorizadas cotidianamente na subjetividade da classe trabalhadora (em substituição ao também nefasto cronômetro taylorista), aflora um resultado assustador: aproximadamente 30% da força de trabalho ocupada no Brasil sofre de burnout, doença que se caracteriza “pelo esgotamento físico e mental relacionado ao trabalho” (conforme dados da Associação Nacional de Medicina do Trabalho – ANAMT), o que nos coloca em segundo lugar no ranking mundial desta doença, que tristemente singulariza nosso tempo.

Adoecimentos mentais, assédios, depressões, suicídios, então, não podem ser efetivamente compreendidos se não se considera a realidade do trabalho precarizado no Brasil atual. O exemplo do trabalho em plataformas é também desolador: na cidade de São Paulo, em média, mais de um entregador por aplicativo morre por dia por acidente de trabalho. E a pesquisa recém-divulgada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em 17 de outubro de 2025, mostra que a jornada de trabalho realizada pelos trabalhadores de plataformas vem se ampliando: em 2024 ela foi, em média, 5,5 h mais extensa que a dos demais trabalhadores. É essa a dura realidade do trabalho “moderno” no Brasil.

É nesse cipoal que o STF terá que refletir e decidir, seja ao tratar do Tema 1389, sobre a pejotização, seja ao julgar as demandas do IFood e da Uber que pretendem legitimar essa modalidade de trabalho uberizado e sem direitos no Brasil, desconsiderando tanto as decisões do TST, como o princípio protetor do trabalho que consta do artigo 7º da Constituição de 1988.

Como procederá o Supremo? Será seu nome escrito em maiúsculo, como tem feito na luta contra o golpismo em nosso país, ou será escrito em minúsculo, tornando-se diretamente responsável por uma irreversível regressão na legislação protetora do trabalho no Brasil?

 

Fonte: Por Janethe Fontes, em Outras Palavras/Jornal da Unicamp

 

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