Rabah
Benakouche: O dólar como poder político
Em artigo anterior, mostrou-se que o
tarifaço do presidente Donald Trump é um meio para salvar o estatuto
internacional do dólar. Com efeito, “salvar o dólar” consistiria em salvar
também os superpoderes da “hiperpotência” americana. Isso implica em dizer que
o dólar se assenta em bases monetárias e não-monetárias; que, além do seu poder
monetário, “outros” poderes de atores e fatores (tais como os do petróleo, FMI,
Banco Mundial, BRI, OCDE, OMC, Wall Street etc.) agregam-lhe novos “poderes”.
Sobre o
poder do dinheiro, James Carville, estrategista-chefe da campanha eleitoral que
elegeu Bill Clinton presidente dos Estados-Unidos, sustenta — com humor — que
ele impõe restrições à ação política. Dizia ele: “Antigamente eu achava que, se
houvesse reencarnação, eu iria querer voltar como presidente, papa ou craque do
beisebol”. Após convivência no ambiente presidencial, acrescenta: “Mas, agora,
prefiro voltar como mercado financeiro. Você intimida qualquer um”1. Esses atores
participam — e muito — na manutenção do estatuto internacional do dólar; e a
fragilidade da economia americana não o afeta em quase nada2. Com efeito, note-se
que em 1950 os EUA detinham 62% da produção industrial mundial, contra apenas
18% em 2025. Nesse período, os 80% de divisas mundiais que eram mantidas em
dólar passam para 60%, enquanto os fluxos comerciais transnacionais em dólar vão
de 70% a 45%. Registra-se, pois, um declínio relativo, mas o dólar continua
proeminente.
Daí, se
coloca a questão de saber em que consistem os mecanismos que fazem do
dólar um ator político. Para sabê-lo, enfoca-se, inicialmente, o contexto
monetário que gerou a “cria” e, num segundo momento, esmiuçam-se as bases que
sustentam o dólar e seus “poderes”.
·
Contexto monetário
Antes
da Primeira Guerra, até 1914, o ouro teve um papel de referência durante
décadas (período conhecido como a era-ouro). O ouro então deixou de ser
referência, porque os Estados Nacionais precisaram rodar suas máquinas de
impressão de dinheiro para financiar os esforços de guerra. Isso fez com que a
quantidade de ouro se tornasse insuficiente perante a quantidade de dinheiro
fabricado3. Esse processo
atravessa diversas situações. Quais sejam:
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A Guerra 1914-1918 ou a primeira expansão monetária:
- todos
os beligerantes, quer dizer, os aliados do Reich e os contrários, financiaram
seus esforços de guerra com empréstimos realizados junto aos próprios bancos
centrais, o que gerou inflação elevada. Por outro lado, enquanto a Europa
se defrontava com essa Guerra, um evento monetário, com consequências globais
inéditas em toda a história mundial, acontecia nos EUA: no dia 23 de dezembro
de 1913, registrou-se a constituição do Federal Reserve (FED).
<><>
A Conferência de 1922 e a Crise de 1929:
- a
primeira teve por objetivo examinar as “reparações de guerra” impostas à
Alemanha vencida, e gerou hiperinflação; enquanto a segunda gerou um “crash”
de repercussão mundial, com perdas drásticas das moedas. O dólar de hoje
representa menos de 1% do seu valor em 1914.
<><>
A Guerra 1939-1945 ou a entrada do dólar na cena internacional:
- é aí
que os EUA se tornam a nova liderança mundial na área industrial. O país
fornece bens e serviços aos beligerantes, com pagamento em ouro. Acrescente-se
a esse montante as 30.000 toneladas de ouro alemãs que foram posteriormente
tomadas como butim de guerra. Tudo isso fez com que cerca de 80% do ouro dos
demais bancos centrais passasse para as mãos do FED. Emerge, aí, o reinado do
dólar, moeda essa que foi considerada “tão boa quanto o ouro”.
<><>
O dia 15 de agosto de 1971:
- diante
da quantidade de ouro insuficiente nos cofres do FED para atender a tantas
demandas de convertibilidade de dólares em ouro, o Presidente Richard Nixon
decidiu, unilateralmente, decretar a inconversibilidade do dólar em ouro. Essa
decisão significava que o dólar não era mais convertível em ouro, e que não era
mais garantido pelo Estado. Houve um “golpe de Estado monetário”. Uma
desconsideração com o “resto do mundo”. Inúmeras razões apontam nessa direção:
os EUA decidiram sozinhos mudar as regras do sistema monetário internacional; romperam
contrato com “o resto do mundo” unilateralmente ao saírem do campo do Direito
para o da força.
<><>
O ano de 1973:
- quando
ocorreu um aumento do preço de petróleo, resultando em transferência de
recursos fantásticos para os países produtores. Essa transferência, contudo,
deixou os EUA com receio de que seus aliados — maiores players internacionais
de commodities, em especial do petróleo — pudessem renunciar ao uso
do dólar nas transações internacionais. Nesse sentido, foi assinado um acordo
com a Arábia Saudita para que todas as suas vendas de petróleo fossem faturadas
exclusivamente em dólares. Isso daria lastro real ao dólar para manter seu
estatuto internacional. Por outro lado, desde a inconversibilidade do dólar em
ouro, está-se vivendo no “não sistema” monetário internacional.
<><>
O período 2007-2010:
- socorro
aos bancos para evitar a tal “crise sistêmica” do setor financeiro nos EUA. No
caso, houve, literalmente, transferência de valor do setor público ao setor
privado. Por outro lado, houve pressões dos EUA sobre a Europa para que
elaborasse programas de socorro aos bancos seguindo o “modelito” americano.
Entende-se que tudo isso foi feito com a clara evidência de manter o status
quo do sistema monetário e financeiro internacional, ou seja, manter a
hegemonia internacional do dólar.
É
preciso ainda explicitar quais atores e fatores foram mobilizados para a
manutenção do dólar. Vejam-se as Bases de apoio ao dólar. Essas bases são
diversas e múltiplas. Eis algumas delas:
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Criação monetária:
- Um
banco central tem por função ser um serviço público que cumpre o papel de
criação monetária, ou seja, atua criando papel-moeda e moeda fiduciária ou
eletrônica, moedas essas que são colocadas à disposição do Estado para garantir
o bom funcionamento da sua economia. No caso dos EUA, tem-se o FED, que recebeu
do governo a incumbência e o poder de criar moeda e vendê-la ao Estado
cobrando-lhe juros. Estes representam um “imposto” que a
nação paga ao FED para imprimir dinheiro. Esse ente, por sua vez, fixa a taxa
de juro, ou seja, o preço da venda do dólar. Quanto maior for a taxa de
juros, mais o Estado se endivida e mais o FED e bancos comerciais se enriquecem.
Essa operação denomina-se empréstimo (dita também de moeda-crédito). Esse
empréstimo exige juros, desembocando no pagamento anual do denominado juro da
dívida (dito também serviço da dívida). Este é, na verdade, um
tributo pago pelas populações dos EUA e do resto do mundo. Com uma
dívida em trilhões, tem-se montantes de juros em bilhões!
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Criação dos petrodólares:
- Na
crise do petróleo de 1973, uma massa fenomenal de recursos é transferida aos
países da OPEP. Diante disso, o Estado americano
ficou receoso de perder o estatuto internacional do dólar, pois não seria
viável obrigar todos os países a seguirem as decisões americanas. Foi aí que se
escolheu, estrategicamente, o petróleo para que sua comercialização fosse
sempre feita em dólar. A escolha não foi feita à toa, até porque o petróleo não
é uma commodity qualquer. Tratou-se de uma decisão da maior
importância econômica para os EUA, porque o petróleo passou a ser referência
real e valiosa para o dólar; referência muito mais importante do que o ouro ou
qualquer commodity. Qualquer país que não tenha petróleo (e são
mais de 90% dos países do mundo) precisa comprá-lo em dólar. E para ter dólares
— já que não pode fabricá-los — vai ser preciso exportar bens e serviços reais,
pagos nessa moeda. Por outro lado, os EUA se abastecem de petróleo com papel
fabricado à vontade. Tal é a “grandiosa contribuição” econômica, política e
estratégica que os países produtores oferecem aos EUA. Essa contribuição
ajuda a manter o dólar como moeda hegemônica. Isso beneficia os EUA, porque
podem receber o petróleo com a dispensa de produzir bens e serviços para serem
trocados pelo petróleo; e os produtores de petróleo transformam seus recursos
em compra de títulos do tesouro, pois têm capacidade limitada de gastos. Eis os
porquês de o dólar ter recebido um apoio e tanto para sustentar seu estatuto.
·
Concluindo
Desde o
pós-guerra, o dólar é a moeda de reserva universal, isto é, aquela que é a mais
acumulada (no sentido contábil e não físico) por bancos centrais do mundo
inteiro. Já os EUA a emprestam para o mundo inteiro, sem deter estoque de
divisas de outros países. Não precisam ser concorrentes em termos de taxa de
juros para atrair capitais internacionais. E, paradoxalmente: quanto mais
dólares são detidos pelo país estrangeiro, mais ele deve fornecer bens e
serviços reais aos EUA pelo montante de dólares acumulado. Sua dívida externa é
cotada em dólar, ou seja, na sua moeda nacional; por isso, os EUA não têm
propriamente dívida, mas sim “quase dívida” — ou seja, seu “endividamento” é
elástico, para não dizer ad infinitum! Esse “endividamento” cresce
no “papel”. Gera mais déficit na balança de pagamento. E há mais e mais
déficits porque os EUA importam mais bens e serviços do que exportam. O déficit
anual é fenomenal. Por outro lado, montanhas (no sentido contábil) de dólares
acumulam-se em bancos centrais do mundo inteiro, e nenhum deles pede a
conversão em ouro ou em outras divisas. Sem essa demanda de conversão por parte
do estrangeiro, o dólar faz ofício de moeda de reserva. Dentro dessa
perspectiva, o Estado americano desfruta da confiança e do crédito das elites
do mundo inteiro. Isto acontece, reitere-se, porque suas instituições
internacionais referidas trabalham, articuladamente, em prol do
dólar.
Em
suma, verifica-se que o dólar é mais do que moeda por ser um ator político. Ele
agrega, em cima da sua força monetária, as forças do aparato governamental
americano e as das forças de nações e firmar aliadas, sejam elas grandes ou
pequenas. Em suma, o dólar é ajudado por “n” atores e fatores; que recebem como
recompensa a “Paz do Dólar”. Sustenta regimes políticos, garante estabilidade,
cria espaço seguro de rentabilidade, mas também pune desobedientes, firmas e
nações, entre outros. Eis alguns dos elementos que fazem do dólar um ator
político e, enquanto tal, detentor de poder político. E que poder!
A
importância econômica do poder do dólar expressa-se, pois, sob formas diversas:
venda de títulos do tesouro, empréstimos, posição externa (i.e., a diferença
entre os investimentos entrando e saindo…). Esse último ponto é apreciado pelo
ex-presidente do FED, Alan Greenspan, nestes termos: “[…] a taxa de retorno de
mais de US$ 2 trilhões de investimentos diretos dos EUA no exterior era de 11%
em 2005, muito abaixo dos juros pagos aos estrangeiros sobre a dívida
americana”4. A taxa
paga pelos títulos do tesouro americano variava então entre 5 e 6% anuais,
o que permitiu, com efeito, o revigoramento do dólar como moeda internacional
hegemônica, com especial destaque para o direito de seigniorage5 e a reciclagem
dos petrodólares. Com esse expediente, explica David Harvey, os EUA ficaram com
“[…] o privilégio monopolista de reciclar petrodólares na economia mundial,
trazendo de volta para casa o mercado do eurodólar. Nova York tornou-se o centro
financeiro da economia global, o que, associado à desregulação interna dos
mercados financeiros, permitiu que a cidade se recuperasse de sua crise e
florescesse até o ponto da incrível opulência e do consumo ostensivo da década
de 1990”6.
Eis, em
suma, alguns dos mecanismos que serviram para “construir” o dólar como poder
político.
¨
Cesar Fonseca: Bolha financeira pode estourar guerra
civil nos Estados Unidos
O
espectro do crash de 1929 e de 2008 rondam novamente os Estados Unidos,
prenunciando estouro de bolha financeira especulativa.
O
presidente Trump e o Tribunal do Comércio Internacional (TCI) protagonizaram o
grande confronto da semana que pode se desdobrar na debacle da financeirização
econômica global, como alertam especialistas.
A
guerra tarifária é o reconhecimento de que a financeirização está entrando em
crise com aceleração da desdolarização.
Só a
China, nos últimos 30 dias, desacoplou do dólar, vendendo 50 bilhões da moeda
americana.
Isso
levou o presidente do BC americano, Jerome Powell, à Casa Branca, às pressas,
para avisar o presidente Trump que estará sendo obrigado a emitir, em última
instância, se o mercado não cobrir as necessidades de financiamento do Tesouro,
em 2025.
Esse
ano, diz o mercado, a dívida pública deve alcançar 37 trilhões de dólares e o
FED precisará pagar cerca de 2 trilhões de dólares para rolar a dívida pública.
Precisa
que o mercado compre os títulos do tesouro, para cobrir o buraco, mas essa
certeza Powell não tem mais, se a China colocou 50 bilhões de suas reservas de
um total de 780 bilhões.
Ele
precisa de dinheiro, mas está vendo este escapulir por meio da maior potência
comercial do planeta.
O
Japão, maior detentor de dólares, em torno de 1,1 trilhão, está fazendo o papel
de financiador, no carry trade, vendendo dólar a juro de 0,5% para os tomadores
venderem a 4,5%(inflação americana) ao tesouro americano.
Mas,
até quando o Japão continuará fazendo esse papel de rolar os papagaios
americanos, se vê a China vendendo suas reservas, temerosa de possíveis
sanções, aplicadas por Trump, como o ex-presidente Biden fez com a Rússia?
O clima
é de guerra monetária.
Desesperado,
Trump pressiona Jerome Powell a reduzir as taxas de juros, para favorecer o
combate ao déficit comercial por meio de realização de superávit, mas Powell
está sob pressão dos financistas – do deep state – que precisam do juro alto,
para continuar comprando títulos do tesouro.
O
mercado já alerta que pode haver tremor de terra a qualquer momento, se a
desdolarização se acelerar.
RESERVAS
BRASILEIRAS AMEAÇADAS
Certamente,
os 350 bilhões de dólares que o governo brasileiro possui em reservas tenderiam
a se desvalorizar, no ambiente de incerteza que está pintando.
Não
terá chegado a hora de Lula fazer o que Xi Jinping está fazendo: desfazer do
dólar, antes que vire papel de parede?
Dilma
Rousseff, ex-presidenta do Brasil e presidenta do Banco do BRICS, já prega
relações de trocas comerciais em moedas locais, prevendo a bancarrota da moeda
americana.
É nesse
contexto, realmente, explosivo que Trump entrou em confronto com o Tribunal
Comercial Internacional (TCI).
O TCI
questiona que quem tem poder para fazer política comercial nos Estados Unidos
não é o executivo, mas o Congresso, o verdadeiro poder americano.
<><>
E agora?
- Trump quer combater o
déficit comercial explosivo que ameaça as finanças americanas com tarifas
elevadas de importação, mas os congressistas concluem que quem está gerando
renda disponível para o consumo, de modo a girar a economia, não é mais a economia
real, mas a especulação financeira.
A
economia real já não sustenta uma taxa de lucro satisfatória para garantir a
acumulação capitalista, simplesmente, porque não suporta a concorrência
chinesa.
E
quanto mais Trump acelera a guerra tarifária, o resultado pode ser o que os
americanos mais temem: inflação.
Não é à
toa que o especulador Elon Musk, sabendo do perigo que seus negócios correm com
a guerra tarifária, pois depende da especulação financeira para concorrer com
os chineses, pulou fora do governo, nesta semana.
Para
combater a inflação, o FED só tem o remédio clássico: aumento da taxa de juro.
Mas,
aí, mora o perigo: juro mais alto, contra o qual Trump briga com Jerome Powell,
afeta a dívida pública, fonte de preocupação dos fundos de investimentos,
temerosos de que não se encontre compradores para os títulos do tesouro, na
escala necessária para rolar o endividamento recorde de 37 trilhões, que
exigirão pagamentos de cerca de 2 trilhões para serem rolados.
Conflitos
internos, agravados por concentração de renda e desigualdade social,
característica essencial do capitalismo americano, acirram as contradições
internas.
É nessa
hora que a elite americana busca culpados, bodes expiatórios, para punir:
emigrantes, guerras, invasões, conflitos etc.
O
império está no seu momento decisivo.
O
Brasil vai esperar o barco virar para pular fora?
Fonte: Blog
da Boitempo/Brasil 247

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