terça-feira, 3 de junho de 2025

Rabah Benakouche: O dólar como poder político

Em artigo anterior, mostrou-se que o tarifaço do presidente Donald Trump é um meio para salvar o estatuto internacional do dólar. Com efeito, “salvar o dólar” consistiria em salvar também os superpoderes da “hiperpotência” americana. Isso implica em dizer que o dólar se assenta em bases monetárias e não-monetárias; que, além do seu poder monetário, “outros” poderes de atores e fatores (tais como os do petróleo, FMI, Banco Mundial, BRI, OCDE, OMC, Wall Street etc.) agregam-lhe novos “poderes”.

Sobre o poder do dinheiro, James Carville, estrategista-chefe da campanha eleitoral que elegeu Bill Clinton presidente dos Estados-Unidos, sustenta — com humor — que ele impõe restrições à ação política. Dizia ele: “Antigamente eu achava que, se houvesse reencarnação, eu iria querer voltar como presidente, papa ou craque do beisebol”. Após convivência no ambiente presidencial, acrescenta: “Mas, agora, prefiro voltar como mercado financeiro. Você intimida qualquer um”1. Esses atores participam — e muito — na manutenção do estatuto internacional do dólar; e a fragilidade da economia americana não o afeta em quase nada2. Com efeito, note-se que em 1950 os EUA detinham 62% da produção industrial mundial, contra apenas 18% em 2025. Nesse período, os 80% de divisas mundiais que eram mantidas em dólar passam para 60%, enquanto os fluxos comerciais transnacionais em dólar vão de 70% a 45%. Registra-se, pois, um declínio relativo, mas o dólar continua proeminente.

Daí, se coloca a questão de saber em que consistem os mecanismos que fazem do dólar um ator político. Para sabê-lo, enfoca-se, inicialmente, o contexto monetário que gerou a “cria” e, num segundo momento, esmiuçam-se as bases que sustentam o dólar e seus “poderes”. 

·        Contexto monetário 

Antes da Primeira Guerra, até 1914, o ouro teve um papel de referência durante décadas (período conhecido como a era-ouro). O ouro então deixou de ser referência, porque os Estados Nacionais precisaram rodar suas máquinas de impressão de dinheiro para financiar os esforços de guerra. Isso fez com que a quantidade de ouro se tornasse insuficiente perante a quantidade de dinheiro fabricado3. Esse processo atravessa diversas situações. Quais sejam:  

<><> A Guerra 1914-1918 ou a primeira expansão monetária: 

- todos os beligerantes, quer dizer, os aliados do Reich e os contrários, financiaram seus esforços de guerra com empréstimos realizados junto aos próprios bancos centrais, o que gerou inflação elevada.  Por outro lado, enquanto a Europa se defrontava com essa Guerra, um evento monetário, com consequências globais inéditas em toda a história mundial, acontecia nos EUA: no dia 23 de dezembro de 1913, registrou-se a constituição do Federal Reserve (FED). 

<><> A Conferência de 1922 e a Crise de 1929: 

- a primeira teve por objetivo examinar as “reparações de guerra” impostas à Alemanha vencida, e gerou hiperinflação; enquanto a segunda gerou um “crash” de repercussão mundial, com perdas drásticas das moedas. O dólar de hoje representa menos de 1% do seu valor em 1914.  

<><> A Guerra 1939-1945 ou a entrada do dólar na cena internacional: 

- é aí que os EUA se tornam a nova liderança mundial na área industrial. O país fornece bens e serviços aos beligerantes, com pagamento em ouro. Acrescente-se a esse montante as 30.000 toneladas de ouro alemãs que foram posteriormente tomadas como butim de guerra. Tudo isso fez com que cerca de 80% do ouro dos demais bancos centrais passasse para as mãos do FED. Emerge, aí, o reinado do dólar, moeda essa que foi considerada “tão boa quanto o ouro”. 

<><> O dia 15 de agosto de 1971: 

- diante da quantidade de ouro insuficiente nos cofres do FED para atender a tantas demandas de convertibilidade de dólares em ouro, o Presidente Richard Nixon decidiu, unilateralmente, decretar a inconversibilidade do dólar em ouro. Essa decisão significava que o dólar não era mais convertível em ouro, e que não era mais garantido pelo Estado. Houve um “golpe de Estado monetário”. Uma desconsideração com o “resto do mundo”. Inúmeras razões apontam nessa direção: os EUA decidiram sozinhos mudar as regras do sistema monetário internacional; romperam contrato com “o resto do mundo” unilateralmente ao saírem do campo do Direito para o da força.

<><> O ano de 1973: 

- quando ocorreu um aumento do preço de petróleo, resultando em transferência de recursos fantásticos para os países produtores. Essa transferência, contudo, deixou os EUA com receio de que seus aliados — maiores players internacionais de commodities, em especial do petróleo — pudessem renunciar ao uso do dólar nas transações internacionais. Nesse sentido, foi assinado um acordo com a Arábia Saudita para que todas as suas vendas de petróleo fossem faturadas exclusivamente em dólares. Isso daria lastro real ao dólar para manter seu estatuto internacional. Por outro lado, desde a inconversibilidade do dólar em ouro, está-se vivendo no “não sistema” monetário internacional.

<><> O período 2007-2010: 

- socorro aos bancos para evitar a tal “crise sistêmica” do setor financeiro nos EUA. No caso, houve, literalmente, transferência de valor do setor público ao setor privado. Por outro lado, houve pressões dos EUA sobre a Europa para que elaborasse programas de socorro aos bancos seguindo o “modelito” americano. Entende-se que tudo isso foi feito com a clara evidência de manter o status quo do sistema monetário e financeiro internacional, ou seja, manter a hegemonia internacional do dólar.  

É preciso ainda explicitar quais atores e fatores foram mobilizados para a manutenção do dólar. Vejam-se as Bases de apoio ao dólar. Essas bases são diversas e múltiplas. Eis algumas delas:

<><> Criação monetária: 

- Um banco central tem por função ser um serviço público que cumpre o papel de criação monetária, ou seja, atua criando papel-moeda e moeda fiduciária ou eletrônica, moedas essas que são colocadas à disposição do Estado para garantir o bom funcionamento da sua economia. No caso dos EUA, tem-se o FED, que recebeu do governo a incumbência e o poder de criar moeda e vendê-la ao Estado cobrando-lhe juros. Estes representam um “imposto” que a nação paga ao FED para imprimir dinheiro. Esse ente, por sua vez, fixa a taxa de juro, ou seja, o preço da venda do dólar. Quanto maior for a taxa de juros, mais o Estado se endivida e mais o FED e bancos comerciais se enriquecem. Essa operação denomina-se empréstimo (dita também de moeda-crédito)Esse empréstimo exige juros, desembocando no pagamento anual do denominado juro da dívida (dito também serviço da dívida). Este é, na verdade, um tributo pago pelas populações dos EUA e do resto do mundo. Com uma dívida em trilhões, tem-se montantes de juros em bilhões! 

<><> Criação dos petrodólares: 

- Na crise do petróleo de 1973, uma massa fenomenal de recursos é transferida aos países da OPEP.  Diante dissoo Estado americano ficou receoso de perder o estatuto internacional do dólar, pois não seria viável obrigar todos os países a seguirem as decisões americanas. Foi aí que se escolheu, estrategicamente, o petróleo para que sua comercialização fosse sempre feita em dólar. A escolha não foi feita à toa, até porque o petróleo não é uma commodity qualquer. Tratou-se de uma decisão da maior importância econômica para os EUA, porque o petróleo passou a ser referência real e valiosa para o dólar; referência muito mais importante do que o ouro ou qualquer commodity. Qualquer país que não tenha petróleo (e são mais de 90% dos países do mundo) precisa comprá-lo em dólar. E para ter dólares — já que não pode fabricá-los — vai ser preciso exportar bens e serviços reais, pagos nessa moeda. Por outro lado, os EUA se abastecem de petróleo com papel fabricado à vontade. Tal é a “grandiosa contribuição” econômica, política e estratégica que os países produtores oferecem aos EUA.  Essa contribuição ajuda a manter o dólar como moeda hegemônica. Isso beneficia os EUA, porque podem receber o petróleo com a dispensa de produzir bens e serviços para serem trocados pelo petróleo; e os produtores de petróleo transformam seus recursos em compra de títulos do tesouro, pois têm capacidade limitada de gastos. Eis os porquês de o dólar ter recebido um apoio e tanto para sustentar seu estatuto.

·        Concluindo 

Desde o pós-guerra, o dólar é a moeda de reserva universal, isto é, aquela que é a mais acumulada (no sentido contábil e não físico) por bancos centrais do mundo inteiro. Já os EUA a emprestam para o mundo inteiro, sem deter estoque de divisas de outros países. Não precisam ser concorrentes em termos de taxa de juros para atrair capitais internacionais. E, paradoxalmente: quanto mais dólares são detidos pelo país estrangeiro, mais ele deve fornecer bens e serviços reais aos EUA pelo montante de dólares acumulado. Sua dívida externa é cotada em dólar, ou seja, na sua moeda nacional; por isso, os EUA não têm propriamente dívida, mas sim “quase dívida” — ou seja, seu “endividamento” é elástico, para não dizer ad infinitum! Esse “endividamento” cresce no “papel”. Gera mais déficit na balança de pagamento. E há mais e mais déficits porque os EUA importam mais bens e serviços do que exportam. O déficit anual é fenomenal. Por outro lado, montanhas (no sentido contábil) de dólares acumulam-se em bancos centrais do mundo inteiro, e nenhum deles pede a conversão em ouro ou em outras divisas. Sem essa demanda de conversão por parte do estrangeiro, o dólar faz ofício de moeda de reserva. Dentro dessa perspectiva, o Estado americano desfruta da confiança e do crédito das elites do mundo inteiro. Isto acontece, reitere-se, porque suas instituições internacionais referidas trabalham, articuladamente, em prol do dólar.  

Em suma, verifica-se que o dólar é mais do que moeda por ser um ator político. Ele agrega, em cima da sua força monetária, as forças do aparato governamental americano e as das forças de nações e firmar aliadas, sejam elas grandes ou pequenas. Em suma, o dólar é ajudado por “n” atores e fatores; que recebem como recompensa a “Paz do Dólar”. Sustenta regimes políticos, garante estabilidade, cria espaço seguro de rentabilidade, mas também pune desobedientes, firmas e nações, entre outros. Eis alguns dos elementos que fazem do dólar um ator político e, enquanto tal, detentor de poder político. E que poder! 

A importância econômica do poder do dólar expressa-se, pois, sob formas diversas: venda de títulos do tesouro, empréstimos, posição externa (i.e., a diferença entre os investimentos entrando e saindo…). Esse último ponto é apreciado pelo ex-presidente do FED, Alan Greenspan, nestes termos: “[…] a taxa de retorno de mais de US$ 2 trilhões de investimentos diretos dos EUA no exterior era de 11% em 2005, muito abaixo dos juros pagos aos estrangeiros sobre a dívida americana”4. A taxa paga pelos títulos do tesouro americano variava então entre 5 e 6% anuais, o que permitiu, com efeito, o revigoramento do dólar como moeda internacional hegemônica, com especial destaque para o direito de seigniorage5 e a reciclagem dos petrodólares. Com esse expediente, explica David Harvey, os EUA ficaram com “[…] o privilégio monopolista de reciclar petrodólares na economia mundial, trazendo de volta para casa o mercado do eurodólar. Nova York tornou-se o centro financeiro da economia global, o que, associado à desregulação interna dos mercados financeiros, permitiu que a cidade se recuperasse de sua crise e florescesse até o ponto da incrível opulência e do consumo ostensivo da década de 1990”6. 

Eis, em suma, alguns dos mecanismos que serviram para “construir” o dólar como poder político. 

¨      Cesar Fonseca: Bolha financeira pode estourar guerra civil nos Estados Unidos

O espectro do crash de 1929 e de 2008 rondam novamente os Estados Unidos, prenunciando estouro de bolha financeira especulativa.

O presidente Trump e o Tribunal do Comércio Internacional (TCI) protagonizaram o grande confronto da semana que pode se desdobrar na debacle da financeirização econômica global, como alertam especialistas.

A guerra tarifária é o reconhecimento de que a financeirização está entrando em crise com aceleração da desdolarização.

Só a China, nos últimos 30 dias, desacoplou do dólar, vendendo 50 bilhões da moeda americana.

Isso levou o presidente do BC americano, Jerome Powell, à Casa Branca, às pressas, para avisar o presidente Trump que estará sendo obrigado a emitir, em última instância, se o mercado não cobrir as necessidades de financiamento do Tesouro, em 2025.

Esse ano, diz o mercado, a dívida pública deve alcançar 37 trilhões de dólares e o FED precisará pagar cerca de 2 trilhões de dólares para rolar a dívida pública.

Precisa que o mercado compre os títulos do tesouro, para cobrir o buraco, mas essa certeza Powell não tem mais, se a China colocou 50 bilhões de suas reservas de um total de 780 bilhões.

Ele precisa de dinheiro, mas está vendo este escapulir por meio da maior potência comercial do planeta.

O Japão, maior detentor de dólares, em torno de 1,1 trilhão, está fazendo o papel de financiador, no carry trade, vendendo dólar a juro de 0,5% para os tomadores venderem a 4,5%(inflação americana) ao tesouro americano.

Mas, até quando o Japão continuará fazendo esse papel de rolar os papagaios americanos, se vê a China vendendo suas reservas, temerosa de possíveis sanções, aplicadas por Trump, como o ex-presidente Biden fez com a Rússia?

O clima é de guerra monetária.

Desesperado, Trump pressiona Jerome Powell a reduzir as taxas de juros, para favorecer o combate ao déficit comercial por meio de realização de superávit, mas Powell está sob pressão dos financistas – do deep state – que precisam do juro alto, para continuar comprando títulos do tesouro.

O mercado já alerta que pode haver tremor de terra a qualquer momento, se a desdolarização se acelerar.

 RESERVAS BRASILEIRAS AMEAÇADAS

Certamente, os 350 bilhões de dólares que o governo brasileiro possui em reservas tenderiam a se desvalorizar, no ambiente de incerteza que está pintando.

Não terá chegado a hora de Lula fazer o que Xi Jinping está fazendo: desfazer do dólar, antes que vire papel de parede?

Dilma Rousseff, ex-presidenta do Brasil e presidenta do Banco do BRICS, já prega relações de trocas comerciais em moedas locais, prevendo a bancarrota da moeda americana.

É nesse contexto, realmente, explosivo que Trump entrou em confronto com o Tribunal Comercial Internacional (TCI).

O TCI questiona que quem tem poder para fazer política comercial nos Estados Unidos não é o executivo, mas o Congresso, o verdadeiro poder americano.

<><> E agora?

Trump quer combater o déficit comercial explosivo que ameaça as finanças americanas com tarifas elevadas de importação, mas os congressistas concluem que quem está gerando renda disponível para o consumo, de modo a girar a economia, não é mais a economia real, mas a especulação financeira.

A economia real já não sustenta uma taxa de lucro satisfatória para garantir a acumulação capitalista, simplesmente, porque não suporta a concorrência chinesa.

E quanto mais Trump acelera a guerra tarifária, o resultado pode ser o que os americanos mais temem: inflação.

Não é à toa que o especulador Elon Musk, sabendo do perigo que seus negócios correm com a guerra tarifária, pois depende da especulação financeira para concorrer com os chineses, pulou fora do governo, nesta semana.

Para combater a inflação, o FED só tem o remédio clássico: aumento da taxa de juro.

Mas, aí, mora o perigo: juro mais alto, contra o qual Trump briga com Jerome Powell, afeta a dívida pública, fonte de preocupação dos fundos de investimentos, temerosos de que não se encontre compradores para os títulos do tesouro, na escala necessária para rolar o endividamento recorde de 37 trilhões, que exigirão pagamentos de cerca de 2 trilhões para serem rolados.

Conflitos internos, agravados por concentração de renda e desigualdade social, característica essencial do capitalismo americano, acirram as contradições internas.

É nessa hora que a elite americana busca culpados, bodes expiatórios, para punir: emigrantes, guerras, invasões, conflitos etc.

O império está no seu momento decisivo.

O Brasil vai esperar o barco virar para pular fora?

 

Fonte: Blog da Boitempo/Brasil 247

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário