Paulo
Kliass: Economia - Quando se dança a música da Faria Lima
A
reunião mais recente do Comitê de Política Monetária (COPOM) decidiu, por mais
uma vez, pelo aumento na taxa referencial de juros. De nada serviram os
inúmeros apelos de amplos setores da sociedade – e mesmo no interior das
classes dominantes – para que isso não acontecesse. Os nove integrantes do
colegiado optaram por unanimidade pela elevação da SELIC para o patamar de 15%
ao ano. Esta foi a sétima reunião consecutiva com aumentos na taxa. Na verdade,
desde maio de 2006 que o Brasil não vivia sob uma taxa tão alta. Trata-se de um
retrocesso de 19 anos, uma volta aos tristes tempos do austericídio do primeiro
mandato de Lula, sob o comando de Antonio Palocci no Ministério da Fazenda e
Henrique Meirelles no Banco Central (BC).
Toda as
expectativas apresentadas pelo Presidente Lula quando da nomeação de Gabriel
Galípolo para Presidência do BC parecem ter escorrido pelo ralo. É importante
recordarmos que o Chefe do Executivo convocou uma emissão especial em suas
redes sociais para registrar sua confiança no nome sugerido a ele por Haddad
para a nova função. Para tanto convocou a Ministra do Planejamento, o Ministro
da Fazenda e o Ministro Chefe da Casa Civil para aparecerem como meros
figurantes, enquanto Lula tecia longos elogios a Galípolo. Se antes valia a
desculpa da herança maldita de Bolsonaro personificada na figura de Roberto
Campos Neto para justificar as críticas públicas do Presidente da República às
elevadas taxas de juros, a partir de janeiro de 2025 nada disso se sustenta
mais.
Atualmente,
sete dos nove membros da diretoria do BC foram nomeados por Lula. E, ao longo
dos quatro encontros do COPOM realizados desde então, o colegiado comandado por
Galípolo promoveu elevações da SELIC em todos eles. Em janeiro, houve um
aumento de 1%, saindo de 12,25% para 13,25%. Em março, mais 1%, subindo a taxa
para 14,25%. Em maio, nova elevação de 0,5% levando a SELIC ao patamar de
14,75%. E nesta reunião de junho, aumento de 0,25% e a taxa chegou a 15%. Ou
seja, em pouco menos de 6 meses a frente do BC, Galípolo conseguiu realizar a
“proeza” de promover uma elevação de 2,75 pontos percentuais na taxa. Isso
significa que, apenas nestas quatro canetadas, o COPOM estabeleceu um aumento
de despesas financeiras com juros da dívida pública da ordem de R$ 220 bilhões
ao longo dos próximos 12 meses.
Ora,
para um governo que segue trilhando de forma obsessiva o caminho da austeridade
fiscal cega, burra e surda, tal decisão beira o ridículo e a hipocrisia. Em
nome de uma suposta expansão “irresponsável” dos gastos públicos, Haddad mantém
a estratégia de reduzir as despesas primárias a todo o custo. Assim, o governo
promove cortes e contingenciamentos em rubricas estratégicas e sensíveis como
educação, previdência social, saúde, assistência social e tantas outras que
dizem respeito às condições de vida da ampla maioria da base da nossa
vergonhosa pirâmide da desigualdade social e econômica. No entanto, ao mesmo
tempo, as despesas não primárias seguem em rota, esta sim, explosiva. Estamos
nos aproximando da casa de R$ 1 trilhão de despesas financeiras ao longo dos
últimos 12 meses.
Ao
optar pela SELIC em 15%, o COPOM sinaliza que é razoável que a sociedade e a
economia brasileiras convivam em um ambiente de 10% de taxa real de juros.
Afinal, esse é o resultado a que se chega depois de subtrair a inflação próxima
a 5% do valor da taxa oficial. Com tal decisão, o Brasil se mantém dentre as
economias de maior rentabilidade financeira real do mundo. Atualmente, somos
ultrapassados apenas pela Turquia neste verdadeiro quesito da vergonha
internacional.
A
questão que se coloca para compreender essa escalada da SELIC refere-se à
pesquisa Focus, realizada pelo próprio BC. Trata-se de uma consulta semanal que
o órgão efetua a 160 pessoas ligadas à nata do financismo em nosso País. A
partir de tal coleta de tais opiniões junto a um público hiper selecionado, o
COPOM consolida as bases para sua tomada de decisões. Os grandes meios de
comunicação estampam em suas páginas e telas que o “mercado” avalia isso e
pensa aquilo. No caso, da última projeção da SELIC para 2025, por exemplo, a
pesquisa que aponta para o patamar de 15% contou apenas com 146 respondentes.
Ou seja, o financismo realiza a sua profecia e o COPOM apenas a referenda em
seus encontros periódicos, realizados a cada 45 dias.
Para
esse modelo que segue intocável há décadas, pouco importa o que pensem os
representantes das entidades da indústria, do comércio ou dos serviços.
Tampouco importa o que pensem as entidades do “lado de cá”, como centrais
sindicais, movimentos pela reforma agrária ou as associações de aposentados. E
de nada servem as contribuições e opiniões de economistas do campo
progressista. Ou seja, tudo segue como dantes no Quartel de Abrantes. As
projeções e as expectativas que interessam são apenas as deste refinado grupo
de pouco mais de uma centena de indivíduos. Eles seriam o tal do “mercado”. Um
absurdo.
O que
torna o quadro ainda mais esquizofrênico é o fato de que é o governo quem
oferece de bandeja a munição ao BC para manter a SELIC nas estratosferas.
Refiro-me à decisão do Ministro da Fazenda em ter reduzido a meta da inflação
para 3% ao ano. Trata-se de mais uma das inúmeras bravatas de Haddad, em sua
busca incansável por se apresentar como o bom moço junto ao universo da Faria
Lima. Ao longo dos últimos 30 anos, o Brasil só conseguiu apresentar uma taxa
de inflação abaixo de 3% em apenas 2 deles. Assim, a meta atual é absolutamente
irreal e impossível de ser atingida.
No
entanto, graças à inclusão de tal objetivo irrealizável, o governo apenas
reforça o discurso conservador do COPOM e da elite do sistema financeiro de que
a inflação estaria “descontrolada” e que o único remédio seria aumentar ainda
mais a SELIC para trazer o ritmo de crescimento dos preços para o centro da
meta. Caso Lula tivesse ouvido os apelos dos economistas progressistas desde
2023, ele poderia ter estabelecido a meta oficial da inflação em um patamar
mais realista, por exemplo em 4,5%. Assim, desde o início de seu terceiro
mandato não haveria mais argumentos para sustentar a narrativa da Faria Lima em
prol da elevação da taxa referencial de juros.
A ata
da 271a reunião do COPOM revela de forma cristalina a harmonia existente entre
os humores de seus integrantes e a profecia do financismo. O documento reafirma
o compromisso do Comitê com a tentativa de trazer a inflação para o centro da
meta e não descarta tampouco a necessidade de novos aumentos na taxa, caso esta
questão se coloque.
(…)
“19. O Comitê optou pela elevação de 0,25 ponto percentual, avaliando que a
economia ainda apresenta resiliência, o que dificulta a convergência da
inflação à meta e requer maior aperto monetário. Por outro lado, ressaltou-se
que o ciclo até então empreendido foi particularmente rápido e bastante firme,
reforçando o entendimento de que, dadas as defasagens inerentes aos efeitos da
política monetária, grande parte dos impactos da taxa mais contracionista ainda
está por vir. Em função disso, o Comitê comunicou que antecipa uma interrupção
no ciclo de elevação de juros para avaliar os impactos acumulados ainda a serem
observados da política monetária.” (…)
Depois
da tradução dos termos da redação do copomês, o que se pode depreender é que
esta decisão pode ser a última elevação da SELIC para os próximos meses. É
“óbvio” que isto vai depender da evolução dos preços no período a seguir.
(…)
“20. O Comitê avalia que, após um ciclo rápido e firme de elevação de juros,
antecipa-se, como estratégia de condução de política monetária, interromper o
ciclo de alta e observar os efeitos do ciclo empreendido para, então, avaliar
se a taxa de juros corrente é apropriada para assegurar a convergência da
inflação à meta. Ressaltou-se que, determinada a taxa apropriada de juros, ela
deve permanecer em patamar significativamente contracionista por período
bastante prolongado devido às expectativas desancoradas. O Comitê enfatiza que
seguirá vigilante, que os passos futuros da política monetária poderão ser
ajustados e que não hesitará em prosseguir no ciclo de ajuste caso julgue
apropriado.” (…)
Assim,
no entender do COPOM, não devem ser aguardadas deliberações que impliquem
redução na taxa, muito antes pelo contrário.
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Acorda Lula!
Ora, a
combinação da política monetária arrochada de Galípolo com a política fiscal
igualmente contracionista de Haddad só fazem trazer péssimas noticias para o
projeto de reeleição de Lula em 2026. Custo de crédito nas alturas e
impossibilidade de realizar gastos de natureza social por conta da meta fiscal
primária compõem um coquetel que dificilmente promoverão alguma alteração
significativa na queda de popularidade do Presidente da República e de seu
governo.
Estamos
a apenas 16 meses do pleito do ano que vem. Os efeitos de decisões de política
econômica levam um certo tempo para se manifestarem como melhoria das condições
de vida das pessoas. Chama a atenção a resistência de Lula em promover
alterações efetivas nos rumos da economia. O quadro é urgente e exige decisões
imediatas. Caso contrário, esses sinais de indefinição do Palácio do Planalto
só fazem reforçar os boatos de que Lula não estaria mais disposto a concorrer a
um quarto mandato. Afinal, se existe uma unanimidade dentre os analistas, é de
que ele não toparia encerrar sua carreira exitosa com uma derrota humilhante no
ano que vem.
• Glauco Farias: Como o Congresso
sequestra a democracia?
Nos
últimos anos, o sistema político brasileiro passou por uma transformação que
vai além das mudanças conjunturais típicas resultantes das eleições. Uma
alteração estrutural no equilíbrio de forças entre o Executivo e o Legislativo
redefiniu a lógica de funcionamento do chamado presidencialismo de coalizão,
vigente desde a redemocratização. Esse novo arranjo tem sido chamado pelo
cientista político Cláudio Couto, professor da Fundação Getulio Vargas
(FGV-SP), de “governo congressual”.
Em
entrevista concedida ao programa Outra Manhã, da Outras Palavras TV, nesta
segunda-feira (24), ele pontuou que um dos elementos centrais dessa mudança diz
respeito às regras de execução do orçamento federal. O Congresso Nacional
passou a controlar uma fatia crescente dos recursos públicos por meio de
emendas parlamentares impositivas, que obrigam o Executivo a executá-las dentro
do exercício fiscal. Isso enfraqueceu um dos principais instrumentos de
negociação política da Presidência da República, que, até então, podia liberar
ou reter emendas conforme o apoio parlamentar, negociando também o comando de
pastas ministeriais — antes principais responsáveis pela execução de boa parte
das emendas.
O
processo começou em 2015, durante o segundo mandato de Dilma Rousseff, que,
enfraquecida politicamente pela ofensiva de uma direita oportunista, aliada a
uma extrema direita que começava a tomar forma, não conseguiu evitar o avanço
do Legislativo sobre prerrogativas do Executivo.
Em
março daquele ano, o Senado aprovou a Emenda Constitucional nº 86, tornando
“impositiva a execução de emendas individuais dos parlamentares ao Orçamento da
União […]”, obrigando “o governo a executar as emendas parlamentares à lei
orçamentária até o limite de 1,2% da receita corrente líquida (RCL) realizada
no ano anterior. Desse total, metade — ou seja, 0,6% da RCL — terá de ser
aplicada na área da saúde”.
Couto
lembra, em seu artigo publicado no livro Governo Lula 3: Reconstrução
democrática e impasses políticos, organizado por Fábio Kerche e Marjorie
Marona, que essa emenda havia sido aprovada em 2013, mas ficou parada e só
voltou à tona em um momento de fragilidade, sendo aprovada finalmente pela
Câmara dos Deputados apenas dez dias após a aprovação no Senado.
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Bolsonaro e a ruptura definitiva com o modelo tradicional
Após o
governo Temer — ideologicamente mais alinhado à maioria do Congresso Nacional e
aos interesses econômicos que o pautam, o que facilitou a aprovação da reforma
trabalhista e da Lei do Teto —, Jair Bolsonaro iniciou seu governo rejeitando o
modelo tradicional de coalizão. Antes mesmo de assumir, Bolsonaro anunciou que
não faria alianças formais com partidos e apostaria em articulações com as
chamadas frentes parlamentares — a do agronegócio, a evangélica e a da
segurança pública (a famosa “bancada BBB”).
A
estratégia revelou-se inócua, como destaca Couto na entrevista. Essas frentes
não possuem prerrogativas institucionais dentro do Congresso, como indicação de
líderes, controle de comissões ou capacidade de pautar votações. A falta de
articulação partidária abriu caminho para um novo avanço do Legislativo sobre o
orçamento.
“No
primeiro ano do governo Bolsonaro, em 2019, vem uma segunda emenda
constitucional que institui a impositividade das emendas orçamentárias de
bancada, que são aquelas que as bancadas dos estados propõem. O Executivo
perdeu mais um recurso de barganha. Um pouco mais à frente, aprovou-se também
uma emenda constitucional que institui as emendas Pix, aquelas em que o
parlamentar pode destinar recursos diretamente para o município, sem qualquer
tipo de definição de como esse dinheiro vai ser gasto”, relembra o cientista
político.
As
alterações sucessivas fizeram com que o Legislativo acumulasse um poder antes
inédito. “Resumo da história: foi se empoderando o Congresso de tal maneira, ao
longo desse período todo, que ele passou a assumir as rédeas do processo
decisório”, pontua Couto.
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Congresso empoderado e a era do governo congressual
Esse
processo resultou na consolidação de um Congresso com enorme autonomia
orçamentária, mudando o jogo político brasileiro. Na prática, o Legislativo
passou a ter o protagonismo na definição da agenda nacional e orçamentária,
deslocando o centro de gravidade da política de Brasília para dentro das Casas
Legislativas.
Mesmo
com o retorno de Lula à Presidência e a tentativa de restabelecer a lógica do
presidencialismo de coalizão — distribuindo ministérios entre partidos aliados
e promovendo negociações —, o cenário já era outro. Como revelou o presidente
da União Brasil, Antônio Rueda, em entrevista à Veja, o interesse por
ministérios diminuiu drasticamente. “Ele [Rueda] fala algo nessa entrevista que
é muito impressionante. Diz o seguinte: ‘olha, para que a gente vai querer
ministério?’ O Ministério do Turismo, ele dá esse exemplo, tem 37 milhões de
reais de orçamento. Um deputado controla 50 milhões.”
O
presidencialismo de coalizão, portanto, não desapareceu, mas foi profundamente
alterado. Os desencontros de hoje entre o governo Lula e o Congresso Nacional
podem até ter como um de seus componentes eventuais falhas na articulação
política, mas dão sinais de que não se trata apenas de uma crise momentânea
entre Executivo e Legislativo, e sim da consolidação de um modelo em que o
Congresso pauta o governo — e não o contrário.
À
medida que as emendas ganham mais relevância no orçamento nacional, causam
problemas não só de gestão fiscal por parte do Executivo, como também de
execução das políticas públicas, já que as emendas nem sempre são consonantes
com o que foi planejado pelo governo, gerando distorções.
Couto
destaca também que o denominado “hiperpresidencialismo” no comando das Casas —
onde tanto o presidente da Câmara quanto o do Senado detêm grande poder
concentrado — altera ainda mais a correlação de forças.
Uma
ilustração desse cenário foi vista em abril, quando o deputado federal Pedro
Lucas (União Brasil-MA) aceitou, e depois recusou, o convite para ser ministro
das Comunicações, a fim de continuar como líder da bancada de seu partido na
Câmara. Se saísse, seria necessário um novo processo de escolha interna, e um
racha era quase certo entre parlamentares próximos ao governo e os contrários a
ele. Integrante do Colégio de Líderes, Pedro Lucas tem papel fundamental
justamente na destinação do orçamento, e não valia a pena para seu grupo
arriscar essa posição.
Com o
Supremo Tribunal Federal sendo o Poder responsável por conter os excessos da
sanha legislativa — em especial quando parlamentares aprovam leis frontalmente
inconstitucionais —, o desgaste do desequilíbrio chega também ao Poder
Judiciário. Com a perspectiva de uma eleição em que a extrema direita possa
conquistar metade das cadeiras em disputa no Senado em 2026, processos de
impeachment de ministros da Corte poderiam ser abertos, desvirtuando ainda mais
um debate sobre as questões nacionais já rebaixado.
O
sistema político brasileiro entrou, definitivamente, em uma nova fase. E isso
não é uma boa notícia.
Fonte:
Outras Palavras

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