terça-feira, 3 de junho de 2025

'É desenergizante': parlamentares mulheres relatam machismo diário no Congresso, de interrupções a ameaças

Mesmo ocupando cargos de poder no Congresso Nacional, senadoras e deputadas afirmam que o machismo ainda é uma presença constante no dia a dia parlamentar. Em entrevistas ao g1, elas relataram episódios de interrupções sistemáticas, deslegitimação de falas, intimidações e até agressões físicas.

O tema voltou ao centro do debate após a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, ter sido alvo de ataques e ofensas durante uma audiência no Senado nesta semana.

Um dos senadores chegou a dizer que era preciso separar a mulher da ministra, porque “a mulher merecia respeito, mas a ministra, não”.

<><> 'É uma violência velada'

A deputada Delegada Katarina (PSD-SE) diz que o machismo no Congresso opera muitas vezes de forma sutil, mas poderosa.

“É uma violência velada, que tenta minar as nossas forças e nos desestimular a estar ali. Aquela que se impõe, acaba sofrendo mais, mas temos que reagir.”

A deputada, única mulher na Mesa Diretora, relembra um episódio em que presidiu uma sessão da Câmara, em fevereiro.

Na ocasião, aliados do governo e do ex-presidente Jair Bolsonaro começaram a discutir, a ponto de inviabilizar a sessão, e ignoraram o apelo da deputada para voltarem ao silêncio.

“Eu queria muito acreditar que se fosse um homem ali seria a mesma coisa", diz a parlamentar.

Atualmente, apenas 18% das cadeiras da Câmara são ocupadas por mulheres — 99 entre os 555 nomes que compõem a legislatura, considerando titulares e suplentes.

No Senado, são 16 mulheres entre 81 senadores (19,75%). Isso contrasta com os 51,5% da população brasileira que é feminina, segundo o IBGE.

🔎O que é violência política de gênero?

Segundo a Secretaria da Mulher, a violência política de gênero pode ser caracterizada como todo e qualquer ato com o objetivo de excluir a mulher do espaço político, impedir ou restringir seu acesso ou induzi-la a tomar decisões contrárias à sua vontade.

As mulheres podem sofrer violência quando concorrem, já eleitas e também durante o mandato.

A violência pode ocorrer tanto no meio virtual (com ataques em suas páginas, fake news e deepfakes) quanto nas ruas, quando são vítimas de agressões de eleitores. Além disso, a violência pode ocorrer, inclusive, dentro de casa.

⚠️Como denunciar? Na Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180. O serviço também fornece informações sobre os direitos da mulher, como os locais de atendimento mais próximos e apropriados para cada caso. A ligação é gratuita e o serviço funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana, em todo o território nacional.

<><> 'Já fui agredida fisicamente'

Com 34 anos de mandato, a deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) afirma que já enfrentou agressões físicas e ameaças dentro do Congresso.

“É desenergizante. Esse tipo de violência desgasta nossa energia, que deveria estar sendo gasta com a política. A violência de gênero sempre existiu, mas antes não era nomeada.”

Em uma sessão recente da Comissão de Cultura, Jandira foi ameaçada pelo deputado Paulo Bilynskyj (PL-SP), que afirmou que, fora do parlamento, bastaria “prender ou atirar” em quem discordasse.

Ela também relatou que projetos com a palavra “gênero” sofrem rejeição automática:

“Nem mesmo quando se trata de ‘gênero alimentício’. Eles não aceitam nem o vocabulário.”

<><> 'Querem nos desqualificar'

A deputada Rosana Valle (PL-SP) afirma que já foi descredibilizada por colegas em reuniões da Comissão de Viação e Transportes, por ser mulher em um ambiente tradicionalmente masculino.

“Às vezes não vem com grito, mas com desdém. Interrupções, explicações desnecessárias, tentativas de desqualificar o que acabamos de falar.”

Ela defende cotas temporárias para mulheres, inclusive na ocupação de cadeiras no Congresso, e não apenas na disputa eleitoral.

“Nós queremos ser eleitas pela nossa capacidade, mas o ambiente precisa deixar isso possível.”

<><> Lugar simbólico

A senadora Daniella Ribeiro (PP-PB) menciona que durante eventos parlamentares, organizadores já pediram que ela cedesse o lugar para um homem. As situações ocorriam mesmo quando a paraibana ocupava cargos mais elevados.

“Eu respondo ‘não vou me levantar’, sou incisiva. Mas, perdemos o debate do evento, ficamos nos questionando o motivo da interrupção. 'Por que só com a mulher?’”, questiona a senadora.

A paraibana, que presidiu a Comissão Mista Orçamentária, conta que também sofreu machismo quando relatou, durante o governo Bolsonaro, um projeto que mudava a outorga de concessões na telecomunicação.

“Um dia depois que fiz o discurso da sanção da PL, em reunião na Residência Oficial, um general do Bolsonaro me cumprimentou e falou que a esposa dele havia perguntado quem eu era, e ele teve que responder que eu era uma assessora, porque senão daria ‘problema em casa’”, comenta.

A parlamentar ainda completa, “para mim, ele destratou tanto o cargo de assessora, quanto a minha função legislativa. Foi a maior grosseria, é indignante, precisamos falar muito mais sobre isso”.

<><> 'Incômodo por ser contestado por uma mulher'

A senadora Teresa Leitão (PT-PE) diz que não presenciou episódios explícitos no Senado, mas percebe um incômodo visível de colegas ao serem contestados por mulheres.

“A política, para os homens, é naturalizada. O espaço público é o último que conquistamos ao longo da história. Não podemos retroceder.”

Ela também defende que o Senado avance em medidas estruturantes para fortalecer candidaturas femininas, como cotas de cadeiras e mais tempo de TV.

<><> Denúncias de violência política de gênero

Desde 2013, a Secretaria da Mulher da Câmara recebeu 86 denúncias formais de violência política de gênero — interrupções, ameaças, constrangimentos, racismo, representação por decoro e até adesivos sexistas.

Veja os números por ano:

•        2021: 8 casos

•        2022: 15 casos

•        2023: 22 casos

•        2024: 23 casos (recorde)

•        2025: 3 registros até abril

A partir de 2021, a criação de uma lei específica contra violência política de gênero permitiu que os casos fossem formalmente denunciados. A lei prevê pena de 1 a 4 anos de prisão e multa, além da proibição de propaganda eleitoral que deprecie a condição da mulher.

<><> Ataques a Marina no Senado

Em uma audiência no Senado nesta semana, a ministra Marina Silva foi interrompida diversas vezes pelo senador Marcos Rogério (PL-RO), que cortou seu microfone e disse: “ponha-se no seu lugar”.

Rogério já havia cortado o microfone de Marina várias vezes antes, impedindo-a de falar, e ironizou as queixas dela.

A ministra respondeu dizendo que ele gostaria que ela "fosse uma mulher submissa". "E eu não sou", completou Marina.

Logo depois, o senador Plínio Valério (PSDB-AM) afirmou que a ministra merecia críticas, mas “a mulher, respeito”. Em março, o mesmo senador já havia dito, em evento público, que tinha “vontade de enforcar Marina Silva”.

“Sou uma mulher de luta e de paz. Mas nunca vou abrir mão da luta”, reagiu Marina.

“Quem brinca com a vida dos outros ou ameaça por diversão é psicopata.”

•        'Queria acreditar que se fosse um homem seria a mesma coisa', diz deputada que presidia a Câmara em tumulto

Única mulher entre os integrantes da Mesa Diretora da Câmara dos Deputados, a delegada Katarina (PSD-SE), enfrentou uma situação de machismo ao se ver diante de dezenas de homens ignorando seus pedidos por ordem no plenário.

“Eu queria muito acreditar que se fosse um homem ali seria a mesma coisa", diz a parlamentar.

Katarina foi eleita terceira-secretária da Câmara em fevereiro deste ano e ficará no cargo pelos próximos dois anos, ao lado de seis colegas homens. Ela tem 51 anos e está no primeiro mandato como deputada federal.

A parlamentar presidiu a sessão desta quarta-feira diante de um plenário incendiário após a denúncia feita pela Procuradoria Geral da República contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Quando o líder do PT, Lindbergh Farias (PT-RJ), subiu à tribuna munido de cartazes ao lado dos colegas com os dizeres “sem anistia" e “Bolsonaro preso”, o tumulto escalou.

Do plenário, bolsonaristas também portavam cartazes e gritavam palavras de ordem contra o presidente Lula. Mesmo falando alto, o petista foi interrompido. "Presidente, tem que ter autoridade nesse momento", se queixou Farias, pedindo maior vigor de Katarina.

Depois da sessão, a sergipana disse em entrevista à TV Globo que sua conduta não poderia mudar o comportamento dos colegas.

“Não teria nada ali que um homem pudesse fazer diferente do que eu fiz, mas se eu tomasse uma atitude de querer gritar, eu era a louca. A mulher era 'louca', fosse um homem, não. Então eu procurei manter o equilíbrio, manter a compostura", disse.

A gritaria continuou a despeito da campainha usada para chamar atenção dos deputados soar insistentemente.

Ao longo de 28 minutos, a campainha foi pressionada 17 vezes por Katarina. Nada surtiu efeito. Diante da situação, a sessão foi suspensa e deputadas de diferentes partidos subiram à tribuna para pedirem respeito aos comandos de Delegada Katarina na presidência da Mesa.

Segundo Katarina, a suspensão da sessão foi um pedido de Hugo Motta. “Por mim eu ficaria ali a noite toda, a madrugada toda, toda vez que interrompessem [o deputado] eu restabeleceria o tempo. Seria que nem o BBB, ver quem aguentava mais", disse.

“Só que foi se criando um clima tão ruim que o próprio presidente Hugo achou por bem pedir que suspendesse, porque ele estava vindo.”

Motta pressionou a campainha uma única vez e conseguiu a atenção dos pares. O presidente da Casa fez um discurso duro pedindo decoro aos deputados.

“Enquanto esteve aqui, a Deputada Delegada Katarina contou com toda a autoridade da Presidência da Casa para conduzir os trabalhos. Ninguém vai desrespeitar uma parlamentar ou um parlamentar que esteja no exercício da Presidência. Nós não vamos aceitar isso”, disse.

Minutos após o ocorrido, Katarina ainda tinha dificuldade em assimilar como se sentira.

“É complicado falar como eu me senti. Eu venho de uma profissão em que já vi e vivenciei coisas muito piores. Já vivenciei situações muito mais difíceis, mas ali naquele momento o sentimento foi de vergonha", disse. “Vergonha não por mim, mas pela Casa, porque a gente sabe que isso é transmitido para o Brasil todo.”

Segundo ela, em sua atuação como delegada sua autoridade foi menos questionada do que pelos colegas deputados.

“Nunca passei por isso, de ter minha autoridade enfrentada e não ter armas para lutar contra aquilo. Eu não tinha armas para lutar ali. Você toca a campainha, não resolve. Você pega o microfone e pede ordem, não resolve. Você fica: que armas vou usar agora aqui?”

Ela disse que pretende se reunir com o presidente da Câmara para que novos procedimentos sejam estabelecidos. “Não pode ficar dessa forma. Porque eu sofri isso hoje, amanhã será outro, que pode ser homem, pode ser mulher.

E afirma: “vou continuar presidindo sessões"

 

Fonte: g1

 

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