Daniel
Innerarity: Fizemos algo errado que permitiu a extrema-direita crescer
Na
política, às vezes ocorrem constelações que favorecem um ator que não fez nada
para merecê-las. Não seria possível que a extrema-direita tivesse
alcançado uma posição tão proeminente se não fossem as condições muito
favoráveis em que a política
é praticada hoje. O resto de nós
deve ter feito algo para permitir que os autoritários alcançassem
uma posição política que eles próprios
foram incapazes de alcançar. Se a estrutura da extrema-direita, sua
maneira de conceber questões políticas, suas disposições emocionais, passaram a
prevalecer em grande parte do espaço público, não foi por sua capacidade
estratégica, nem por ter formulado ideias particularmente atraentes, mas por
preguiça ou falta de jeito de outros.
O
barulho em torno da extrema-direita os beneficiou e pode continuar a
fazê-lo se não agirmos de forma inteligente. Nossos gritos coincidem com o
silêncio deles porque enquanto eles permanecem em silêncio, nós não fazemos
nada além de falar sobre eles. O paradoxo surgiu: eles se saem melhor quando
permanecem em silêncio e recebem suas piores avaliações quando precisam tornar
seu programa de governo explícito, por exemplo, após a grotesca moção de
censura de Tamames. O silêncio e o modo incógnito lhes convêm, essa
suposta novidade que parecem representar. O fato de eles se terem colocado no
centro do debate sem serem questionados sobre suas propostas específicas se
deve, sobretudo, aos erros dos outros. Talvez eu contribua para alimentar essa
contradição, mas faço isso para falar de nós e não tanto deles.
Várias
circunstâncias causaram uma interrupção na coordenação política, o que
beneficiou a extrema-direita. Houve algumas mudanças surpreendentes que
conferem certa credibilidade, por exemplo, que os ultrarricos parecem confiáveis quando falam em nome
dos trabalhadores, que uma parte da casta está liderando a luta
contra a casta, que a culpa pelas elites improdutivas mudou da esquerda para a
direita,
e que a direita agora parece representar melhor a crítica aos parasitas.
Particularmente sem precedentes é o apelo da extrema-direita à
democracia,
a ponto de se apresentar como o partido da autossuficiência democrática.
O fato
de a extrema-direita falar em nome da democracia não é novidade, mas
o fato de essa apropriação ser tão amplamente aceita é. Podemos interpretar
isso como pura demagogia, mas também como resultado de ter se beneficiado da
desnaturalização do conceito e da prática da democracia. Além da capacidade da
extrema-direita de assumir o controle da linguagem de seu adversário, devemos
questionar como a política contemporânea evoluiu e até que ponto essa evolução
revela nossas próprias inconsistências.
A
atenção da mídia (não apenas das mídias sociais ou pseudomídias) à controvérsia
e ao conflito é o espaço necessário para provocadores como Donald Trump, cujo histrionismo
receberia muito menos atenção se as notícias não tivessem essa qualidade
confrontacional viciante. A extrema-direita é uma ideologia que prospera no
desprezo pela política, de modo que não apenas o fato de a política ser mal
feita, mas também o retrato dramatizado de suas deficiências beneficia aqueles
que prosperam em seu descrédito.
Para
explicar por que a extrema-direita impôs sua maneira de entender certas
questões, é inevitável falar de nossa colaboração involuntária, tanto
da direita quanto da esquerda. Esse favor não intencional pode
ser alcançado adotando-se a estrutura dos extremistas com a intenção de
neutralizar seu uso, e o que se consegue é que a estrutura é imposta sem
prejudicar aqueles que vivem dela. O paradoxo é que até mesmo seus antagonistas
mais ferrenhos lhes prestam serviços inestimáveis quando propõem
uma forma de combate que corresponde exatamente ao que mais lhes convém:
extremista, sem compromissos possíveis, de oposição
crua.
A
questão da migração é o domínio que lhes dá maior vantagem, sobretudo quando a
apresentamos como um “problema” ou aceitamos o discurso da
“imigração ordenada” e assim damos a entender que o interior das nossas
sociedades é perfeitamente ordenado e só é perturbado pelo que vem de fora;
Aqueles que falam de “integração” muitas vezes têm uma ideia excessivamente
homogênea da sociedade e subestimam o pluralismo interno. A maneira como as
pessoas falam sobre imigração (mesmo aquelas
que não são abertamente xenófobas) tem um impacto nos medos e na hostilidade
que se desenvolvem na sociedade.
A
categoria de "estrangeiros" santifica aqueles que não o são, ficando
assim isentos de responsabilidade em questões de insegurança. O foco em crimes
menores cometidos por imigrantes obscurece os maiores, que geralmente são
cometidos por moradores locais. Com todo esse potencial, não foi difícil para
a extrema-direita convencer uma grande parcela da classe média de que
os desenvolvimentos do capitalismo contemporâneo, e não os migrantes, são as
causas determinantes de seu empobrecimento e seu desconforto com a identidade.
O
atual feudalismo
tecnológico foi
preparado pelo culto à eficiência, pelo pragmatismo despolitizado e pela
assepsia ideológica, que são oferecidos como soluções para as falhas
burocráticas. O prestígio do tecnossolucionismo é reforçado por um espaço
público cujas narrativas catastróficas abrem caminho para justificar formas
autoritárias de governo, urgência sem deliberação e dão atenção imerecida
àqueles que dramatizam o mal-estar, oferecem proteção a qualquer preço e
anunciam soluções fora dos procedimentos democráticos e sem respeito às
instituições. Este é o terreno em que o autoritarismo tecnológico se torna
credível.
A velha
batalha entre esquerda e direita tomou um rumo inesperado
hoje, e o que estamos enfrentando agora é pressa versus lentidão, foguete
versus conversa, velocidade versus deliberação, falta de controle versus regulamentação.
O Estado, os procedimentos e a própria democracia são apresentados como
instituições de lentidão. A convicção de Peter Thiel, o
libertário que fundou o PayPal com Elon Musk, de que os problemas
do mundo contemporâneo não podem ser resolvidos dentro da estrutura de valores
e procedimentos democráticos se espalhou. Os autoritários não aparecem mais
como defensores do passado, mas como aqueles que prometem um futuro transumano
e pós-democrático. Em alguns países, prevalece um exibicionismo
tecnológico que pretende superar a preguiça burocrática, mas na realidade
desconsidera os procedimentos democráticos. Se ela se apresenta como
democrática, é porque acredita que as pessoas querem eficiência, desempenho e
soluções imediatas, algo que a política democrática parece ter deixado de
proporcionar.
O
tecnossolucionismo desafia a reflexão e a responsabilização; Cria um ambiente
político sem debate significativo ou oportunidades de desafio. Ela estabeleceu
um ritmo tão rápido para a política porque não perde tempo considerando seus
efeitos sociais e ambientais. O mantra de que a regulamentação impede a
criatividade é a narrativa necessária para a exploração oportunista de brechas
legislativas; Essa suposta inovação opera no tempo entre a descoberta de um
método de ganhar dinheiro e o momento em que o Estado consegue
elaborar uma lei sobre o assunto.
Se o
aceleracionismo oferece resultados imediatos, é porque, diferentemente da deliberação
democrática,
não perde tempo recolhendo as opiniões dos afetados pelas suas decisões; Sem
reflexão, debate e inclusão, podemos rapidamente acabar em um lugar
despolitizado, onde certamente nem todos estaremos presentes, especialmente
aqueles cujos interesses não têm outros meios de serem afirmados.
¨
Por um novo horizonte político de esquerda. Por C.J.
Polychroniou
Avanço
da ultradireita deve-se a uma ausência. Movimentos que encheram as ruas na
virada do século foram incapazes de alternativas. No vácuo, emergiu o
neofascismo. Onda é reversível – mas exige ir além da mera crítica ao sistema.
A
esquerda está em frangalhos em todo o Ocidente, enquanto partidos de direita e
extrema-direita avançam junto à opinião pública. Sustento que a globalização
está no cerne desses desenvolvimentos e, portanto, é crucial que a esquerda
compreenda os erros em sua abordagem da globalização neoliberal e elabore uma
visão alternativa de ordem mundial.
A
globalização tornou-se uma força dominante em nossas vidas por volta dos anos
1980. Coincidiu com a ascensão do neoliberalismo, embora a globalização não
seja um fenômeno do século XX. O século XIX testemunhou um enorme surto de
globalização. Na verdade, entre 1850 e 1913, a economia mundial estava
provavelmente tão aberta quanto no final do século XX. As tarifas caíram,
acordos de livre-comércio proliferaram, fluxos comerciais dispararam, a
circulação de informações acelerou e migrantes se espalharam por todos os
cantos do globo. Nem a Europa, nem os EUA impunham restrições migratórias. Nos
Estados Unidos, sequer eram necessários vistos ou passaportes para entrar no
país.
Essa
onda de globalização foi interrompida pela Primeira Guerra Mundial, e a onda
seguinte só ocorreria no início dos anos 1980. De muitas formas, o novo
movimento de globalização capitalista foi mais intenso que o anterior, pois
caracterizou-se por uma vasta desregulamentação financeira e aceleração dos
fluxos de capital, enquanto a integração comercial se tornou mais rápida do que
nunca. Nos anos 1990, a nova onda de globalização havia alcançado tal magnitude
que o mundo estava se tornando cada vez mais uma aldeia global. Vamos chamá-la
de onda de hiperglobalização neoliberal.
Porém,
houve uma enorme diferença qualitativa entre as ondas de globalização do século
XIX e do final do século XX. Os movimentos de capital explodiram e as
multinacionais se espalharam pelo mundo em busca de mão de obra mais barata –
mas a migração de trabalhadores foi severamente restringida. Em contraste, ela
havia se tornado um fenômeno global, no fim do século XIX. E a onda de
globalização do século XX, que supostamente traria benefícios incomparáveis
para todos, também teve outro lado sombrio. Embora não fosse abertamente
imperialista como a onda do século XIX, baseou-se em estruturas altamente
exploradoras, não muito diferentes das do colonialismo. Afinal, o capitalismo
sempre alimentou dependência, desigualdade e exploração.
Sob a
onda de hiperglobalização neoliberal, o Norte Global aproveitou-se da
fragilidade do Sul Global, aprisionando milhões de trabalhadores em um ciclo
implacável de exploração, enquanto a terceirização teve impactos dramáticos no
padrão de vida dos cidadãos no próprio Norte Global. Os empregos industriais
bem remunerados tornaram-se escassos, os salários estagnaram e a rede de
proteção social foi desmantelada. Em parte, devido à redução de receitas
governamentais por causa dos cortes de impostos para corporações e ricos; em
parte, por puro raciocínio ideológico. Austeridade para as massas, mas
subsídios, isenções fiscais e resgates para a indústria e o setor financeiro
são aspectos centrais da agenda ideológica neoliberal. E embora algumas nações
em desenvolvimento tenham se beneficiado da grande conectividade na economia
global desencadeada desde o início dos anos 1980, foram principalmente as
elites do Sul Global, assim como as do Norte Global, que mais ganharam com a
onda de hiperglobalização neoliberal.
Entra a
política.
No
final dos anos 1990, os protestos contra os rumos da economia capitalista
mundial levaram multidões a exigir mudanças, e um movimento antiglobalização
surgiu em todo o mundo, denunciando especificamente a onda de hiperglobalização
neoliberal. Protestos e manifestações contra a Organização Mundial do Comércio,
o Banco Mundial e o FMI tornaram-se uma característica comum do movimento
antiglobalização em vários países entre 1995 e 2018. Tal movimento foi
inspirado por ideologias de esquerda e foi impressionantemente transnacional.
Na América Latina, foi especialmente bem-sucedido, resultando em apoio e, ao
fim, vitória eleitoral para partidos de esquerda em vários países da região. No
início dos anos 1990, 64% dos presidentes latino-americanos vinham de partidos
de direita. Uma década depois, esse número havia caído pela metade.
O
movimento antiglobalização e anticapitalista não foi menos proeminente na
Europa. No verão de 2001, mais de 300 mil pessoas de toda a Europa reuniram-se
em Gênova, Itália, para expressar sua oposição ao Grupo dos Oito (G8). A
polícia italiana reprimiu com brutalidade nunca vista até então na Europa
Ocidental do pós-guerra. Na primavera de 2002, mais de meio milhão de pessoas
mobilizaram-se em Barcelona contra a reunião de chefes de Estado e de governo
da União Europeia, sob o lema “Contra o Capital e a Guerra”.
O
movimento antiglobalização havia atingido a maturidade. As perspectivas de
mudança radical nunca pareceram mais promissoras do que durante a primeira
década do novo milênio. Os ventos da mudança ainda estavam no ar na segunda
década do novo milênio, quando a ascensão ao poder da Coalizão da Esquerda
Radical (Syriza) na Grécia trouxe esperança para movimentos de esquerda em todo
o mundo – embora fosse bastante claro, para quem prestasse atenção à política
grega, que a liderança do partido havia decidido mudar seu perfil ideológico do
radicalismo para o pragmatismo ainda antes de sua chegada ao poder.
Há de
fato algo impressionante nas mudanças rápidas e abrangentes trazidas pela onda
de hiperglobalização neoliberal, e isso deve-se ao fato de que o mundo agora
gira mais rápido. Mudanças sociais, políticas e ideológicas extraordinárias
podem acontecer de uma década para outra. E eis que, no final da segunda década
do novo milênio, não apenas a crítica da esquerda radical à globalização perdeu
seu apelo entre a classe trabalhadora e grandes parcelas da juventude, mas o
antiglobalismo emergiu como um princípio ideológico fundamental da
extrema-direita.
A
crítica ao “globalismo” por partidos de direita e extrema-direita não se baseou
em uma crítica contundente do capitalismo neoliberal. Mas a globalização passou
a ser vista por muitos como um projeto político promovido pelo marxismo e pela esquerda
radical, com o duplo objetivo de destruir a cultura nacional e substituir o
Estado-nação por instituições de governança global. É, evidentemente, distorcer
o que realmente significa a globalização capitalista, mas seria ingênuo pensar
que a reação da extrema-direita contra o “globalismo” não tem raízes
socioeconômicas. O sentimento antiglobalista que levou o Donald Trump ao poder
nos Estados Unidos, e vários outros líderes políticos autoritários pelo mundo,
é impulsionado por fatores culturais e socioeconômicos e é alimentado pela
mentalidade de “nós contra eles”. A extrema-direita, claro, não é
antissistêmica e, na verdade, conta com o apoio de magnatas digitais como Elon
Musk. Está enganando os eleitores com promessas de uma nova ordem. O antiglobalismo
da extrema-direita começa e termina com a imposição de medidas draconianas
contra a imigração e a criação de uma cultura de crueldade.
O
antiglobalismo da extrema-direita é perverso e irracional, e pode dizer muito
sobre a necessidade de uma cidadania ampla e publicamente educada para
sustentar a democracia. Mas também chama a atenção para os graves fracassos
políticos dos partidos de esquerda que chegaram ao poder durante o auge do
período antiglobalização. Embora as contradições da globalização neoliberal
levassem a vitórias eleitorais de partidos de esquerda em vários países nas
últimas décadas, o projeto global do neoliberalismo não foi confrontado pelos
partidos de esquerda que assumiram o poder. Eles criticaram a hiperglobalização
neoliberal enquanto estavam na oposição mas, ao chegarem ao poder, fizeram
muito pouco para combater seus efeitos destrutivos. No máximo, aumentaram alguns
gastos em programas sociais, mas não tentaram diminuir o avanço da globalização
capitalista em suas economias e sociedades. Ao não serem capazes de
enfrentá-la, viram seu capital político declinar repidamente e os cidadãos
mudarem de lado, no espectro político. Este é o principal fator que desencadeou
uma guinada para a extrema-direita no Ocidente – inclusive nos Estados Unidos,
embora o trumpismo também precise ser considerado à luz das peculiaridades
sociais, culturais e ideológicas do país.
O
problema da esquerda reformista em relação à globalização neoliberal persiste.
Ela ensaia uma crítica das consequências da globalização capitalista, mas
parece aceitar o fenômeno como inevitável e inalterável. Ao fazer isso, deixa o
campo aberto para populistas de extrema-direita conquistarem eleitores
descontentes, apelando para seus piores instintos, como no caso da imigração.
Também
sabemos que a pressão “de baixo” para domar ou mesmo reverter a globalização
neoliberal – uma visão defendida pelo núcleo do movimento antiglobalização dos
anos 1990 e 2000 – é uma estratégia falha. A saída da globalização neoliberal
está em desenvolver uma nova globalização que esteja livre das tendências
destrutivas da acumulação capitalista e opere através de processos políticos em
que democracia e globalização estejam em uma relação simbiótica e, assim,
apoiem-se e se reforcem mutuamente.
A
esquerda tem a obrigação histórica de propor uma visão alternativa de ordem
mundial, além do capitalismo. Uma ordem mundial onde os direitos do trabalho
estejam no ápice dos valores da sociedade humana e, portanto, os meios de
produção sejam coletivamente possuídos pelos trabalhadores, enquanto a
exploração da natureza seja vista como injustiça.
Em
suma, um projeto para superar a hiperglobalização neoliberal exige consciência
antissistêmica e um programa político abrangente para uma nova ordem mundial.
Se a esquerda não desenvolver a coragem necessária para se engajar econômica,
política, ideológica e culturalmente na construção de uma ordem mundial
alternativa, a globalização capitalista continuará a reinar suprema, e a
extrema-direita será sua principal beneficiária política.
Fonte:
El País/Outras Palavras

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