A
revolta jamaicana foi um duro golpe no escravismo colonial britânico
O livro
“Island on Fire”, de Tom Zoellner, é uma contribuição importante para a nossa
compreensão do que Saidiya Hartman descreveu como a “vida após a morte” da
escravidão. Zoellner documenta em detalhes vívidos a violência e a desumanidade
da escravidão institucionalizada na Jamaica durante a era das plantações. Mas
ele também conta uma história de resistência irreprimível e auto-organização
que gerou a rebelião de escravizados de 1831.
Foi uma
revolta em massa que se tornou um ponto de virada crucial no declínio de um
sistema que sustentou os impérios europeus por séculos. Island on Fire não é
uma leitura fácil. Os detalhes narrados por Zoellner, que se baseia em extensa
documentação histórica, são frequentemente angustiantes. No entanto, sua
habilidade narrativa torna esta história extremamente legível, senão menos
dolorosa.
O
subúrbio do inferno
Oautor
descreve a sociedade de plantações dos brancos na Jamaica colonial como “um
subúrbio do Inferno”, onde “o sistema de classes sufocante que reinava na
Inglaterra foi completamente reformulado nas Índias Ocidentais”. A principal
característica definidora dessa sociedade colonial era a acumulação de
africanos negros como propriedade escravizada e o uso de sua mão de obra. Uma
marca clara de privilégio de classe entre os proprietários de plantações era o
absenteísmo: aqueles que podiam se dar ao luxo de deixar a ilha, “a classe alta
endinheirada”, retornavam à Inglaterra.
“A
plantocracia branca local governava a Jamaica colonial como uma pequena minoria
que vivia com medo constante da população escravizada, da qual dependiam sua
riqueza e privilégios.”
Nove em
cada dez jamaicanos eram escravizados. O sistema de governo da ilha baseava-se
na coerção, sem sequer um resquício de consentimento. Era, portanto,
inerentemente instável. A plantocracia branca local governava a Jamaica
colonial como uma pequena minoria que vivia com um medo constante da população
escravizada, da qual dependiam sua riqueza e privilégios. Zoellner compara
essas características estruturais da Jamaica no início do século XIX às
condições do Sul dos Estados Unidos, com uma população escravizada
representando 33% do total — uma região onde, em contraste, “fazendas de
propriedade plena e pequenos negócios artesanais coexistiam com grandes
plantações”.
A
classe dominante colonial jamaicana levava a vida como se não houvesse problema
algum, confiando puramente na coerção exercida “pelas mãos dos feitores das
plantações e seus mosquetes e chicotes”, de forma comparável aos assentamentos
fronteiriços. O colonialismo britânico desferiu sua violência e ganância
perniciosa principalmente contra os corpos sequestrados e escravizados de
africanos negros, mas também não era incomum que armas fossem sacadas quando
eclodiam disputas entre figuras políticas brancas locais.
O nome
original da Jamaica na língua do povo Taino, Xaymaca, significa “terra de
madeira e água”. Como colônia britânica, possuía terras extensas e férteis e
muito capital, mas carecia de mão de obra suficiente após a destruição da
população indígena por doenças e a escravidão. O tráfico atlântico de
escravizados tornou-se, assim, o elemento central de um processo de acumulação
internacional.
“A
Jamaica possuía terras extensas e férteis e grandes volumes de capital, mas
carecia de mão de obra suficiente após a destruição da população indígena. O
tráfico atlântico de escravizados tornou-se, assim, o elemento central de um
processo de acumulação internacional.”
Uma
região da África Ocidental — hoje composta pelas nações de Benim, Gana, Togo e
partes da Nigéria — tornou-se o vil território de caça para os mercadores
europeus. A Grã-Bretanha passou a dominar o tráfico de escravizados, bem como
os fluxos. Como Zoellner afirma: “A Royal African Company viria a transportar
mais corpos negros do que qualquer outra instituição na história, e deu aos
britânicos quase três quartos da participação de mercado.”
A
travessia mortal, o leilão de seres humanos e a exploração brutal da mão de
obra em condições que CLR James comparou à produção industrial moderna acabaram
gerando lucros enormes: “O homem branco médio residente na Jamaica era 52,3
vezes mais rico do que seu par na Inglaterra e 57,6 vezes mais rico do que um
homem branco vivendo na Nova Inglaterra.” Em todos os pontos da economia
política e do tecido social desse sistema, a violência e a tortura estavam
profundamente enraizadas. Elas eram organizadas em torno da escravização até a
morte.
• Religião e rebelião
Na
medida em que existia uma sociedade civil na Jamaica colonial, a Igreja
Anglicana servia como parceira oficial da Coroa e do governador local. A Igreja
era responsável por registrar nascimentos, casamentos e óbitos, embora a
plantocracia fosse, como observa Zoellner, “em grande parte um grupo
irreligioso”.
No
entanto, a religião provou ser um terreno contraditório. A Sociedade
Missionária Batista interessou-se pela ilha, em grande parte por meio de
William Knibb, que chegou à Jamaica vindo da Inglaterra em 1825. Embora Knibb
tivesse recebido instruções estritas para não mencionar a escravidão ou
perturbar o sistema arraigado de racismo antinegro e o colonialismo que dela
dependia, ele passou a acreditar que a ilha era um lugar “onde Satanás reina
com um poder terrível e manteve as multidões cativas segundo sua vontade”.
O
cristianismo dos missionários batistas concentrava-se na salvação das almas dos
oprimidos. Mas o desafio religioso à escravidão não era apenas, nem mesmo
primariamente, um fenômeno de inspiração cristã. Apesar da repressão massiva,
os praticantes africanos continuaram a servir secretamente como sacerdotes
espirituais tradicionais, seguindo a sabedoria “obeah” que a plantocracia
branca temia.
“Apesar
da repressão massiva, os praticantes africanos continuaram a servir
secretamente como sacerdotes espirituais tradicionais. Os escravizados
protestavam por meio de uma linguagem religiosa em que textos bíblicos se
cruzavam com práticas indígenas africanas.”
Um
líder escravo chamado Tacky liderou uma rebelião anterior e localizada em 1765,
recrutando rebeldes por meio de rituais de bebidas especiais combinados com a
lealdade para resistir. Em um movimento que prefigurou ondas posteriores de
rebelião jamaicana contra o colonialismo e o capitalismo, os escravizados
expressaram insatisfação por meio do que já denominei em outra ocasião como uma
expressão religiosa em que textos bíblicos se cruzavam com práticas originárias
africanas. Isso deu origem a coletividades de culto entre os escravizados, nas
quais algum grau de autogoverno poderia ocorrer longe do controle branco.
As
aulas de leitura da Bíblia, que promoviam a alfabetização entre os
trabalhadores escravizados, aterrorizavam a plantocracia, e com razão. Em
consonância com o princípio protestante de que “o caminho para o divino passa
pelas palavras da Bíblia”, em 1831, a maior parte da congregação batista
possuía algum nível de alfabetização, segundo William Knibb. Os 4.600
adoradores escravos recrutados pelos batistas incluíam alguns chamados
“diáconos”, que recebiam “a autoridade para distribuir o pão e o vinho da Comunhão,
distribuir dinheiro para os necessitados, visitar os doentes e dar instrução
religiosa”.
Samuel
Sharpe foi um desses diáconos. Ele levou a sério a passagem bíblica que
afirmava que “Ninguém pode servir a dois senhores” (Mt 6:24). Se Deus era um
senhor, a plantocracia branca não poderia ser outro. Portanto, não era apenas
justo, mas divinamente correto, que os escravizados se rebelassem e recusassem
a reivindicação do senhor à autoridade universal. Com o tempo, o religioso se
fundiu com o político para consolidar uma rebelião em massa de proporções
imensas e transformadoras.
• Atiçando o fogo
Arebelião
começou, não por coincidência, durante o feriado de Natal, em 27 de dezembro de
1831. Primeiro, houve um incêndio relatado por um vigia chamado Coronel George
Lawson enquanto estava no topo de um tribunal colonial em Montego Bay. Depois,
outro incêndio irrompeu nas proximidades, e mais um terceiro. Isso confirmou os
rumores, até então impensáveis para a elite colonial branca, de que a população
negra escravizada da costa noroeste da ilha estava se rebelando, desafiando a
escravidão nas plantações.
John
Roby, um funcionário da alfândega, recebeu o relatório do vigia e, por sua vez,
enviou uma mensagem ao governador colonial: “Teme-se que este incêndio não
tenha causas acidentais…”. Ele tinha razão. Os incêndios devastaram as
plantações de açúcar da Jamaica por quase duas semanas, como uma tática de
rebelião cuidadosamente planejada e altamente organizada.
Zoellner
mostra como Sam Sharpe conseguiu visitar plantações sob a proteção da missão
batista, persuadindo rebeldes a fazerem um juramento perante a Bíblia para se
juntarem à conspiração da rebelião, codificada como “o negócio”, usando sua
condição de escravizado favorecido na hierarquia de abusos por parte dos
senhores. Sharpe trabalhou em estreita colaboração com uma rede em posição
semelhante, que se apresentava como aparentemente inofensiva, enquanto
conspirava em “células” secretas por todo o sistema de plantações.
Se a
linguagem era religiosa, o conteúdo do movimento era econômico e político.
Sharpe lia jornais da Grã-Bretanha descartados que refletiam os debates da
época, incluindo aqueles sobre o papel da escravidão no império colonial
britânico e suas implicações. Ele defendia a crença — segundo Zoellner,
provavelmente como uma modificação consciente das notícias da época — de que o
governo da Inglaterra já havia declarado a liberdade para os escravizados, mas
essa promessa de emancipação enfrentava resistência da elite colonial
jamaicana.
“Os
rebeldes mobilizados juraram perante a Bíblia que se recusariam a trabalhar até
que os senhores os pagassem salários, exigindo especificamente ‘50 por cento do
que um trabalhador livre normalmente ganharia pelo mesmo trabalho’.”
Enquanto
as fogueiras queimavam, o caráter principal da rebelião assumiu a forma de uma
greve trabalhista, exigindo pagamento em troca do trabalho. Os rebeldes
mobilizados juraram perante a Bíblia que se recusariam a trabalhar até que os
senhores os pagassem salários, exigindo especificamente “50% do que um
trabalhador livre normalmente ganharia pelo mesmo trabalho”.
O nível
de organização e o propósito compartilhado do movimento eram notáveis, forjados
nas condições mais perigosas de brutalidade e repressão. Como Zoellner resume:
Os
juramentos e a formação das células duraram vários meses e, antes que
terminassem, a influência de Sharpe já havia se estendido por mais de 1.600
quilômetros quadrados; seu plano de paralisação do trabalho no Natal era
conhecido por aproximadamente 20 mil escravos em mais de 100 plantações.
• Império adoçado
Oaçúcar
era a principal mercadoria produzida na Jamaica, e as plantações de açúcar só
lucravam com a exploração brutal e contínua da mão de obra escravizada.
Zoellner detalha graficamente o impacto do açúcar altamente refinado como
alimento básico para a sociedade colonial na terra natal da monarquia. Um
capítulo começa com a descrição da idosa Rainha Elizabeth I, que falava com um
murmúrio e raramente sorria. Ela estava disfarçando a dor e a deformação dos
dentes desgastados em fragmentos enegrecidos pelas cáries, graças a uma dieta
rica em açúcar.
Ao
longo do reinado de Elizabeth, no século XVI, o espaço do açúcar refinado na
dieta diária da sociedade britânica cresceu. Os suprimentos vinham
originalmente da região do Mediterrâneo, mas as plantações das Índias
Ocidentais se expandiram ao longo dos séculos seguintes para abastecer o
mercado interno de açúcar. Como observa Zoellner: “Os clientes do mercado
ansiavam pelo açúcar das Índias Ocidentais — especialmente aquele que havia
sido refinado de seu estado escuro de melaço para uma brancura que anunciava
falsamente sua pureza”. Ele também sugere que a preferência por açúcar
altamente refinado pode ter refletido uma “literal lavagem de suas origens”.
Inicialmente
associado à riqueza e ao poder, o consumo de açúcar tornou-se mais tarde um
alimento básico na dieta da classe trabalhadora: “O chá com açúcar era a droga
suave que trazia um momento de paz e a determinação para continuar
trabalhando”. Tornou-se um ingrediente padrão em todas as refeições, do mingau
ao pudim, com o britânico médio consumindo nove quilos por ano — dez vezes mais
do que seus colegas franceses. O diabetes, identificado pela primeira vez na
década de 1670, seguiu a mesma curva ascendente do consumo de açúcar.
“Numa
época em que o pensamento iluminista prometia expandir as noções de liberdade e
razão, a sociedade europeia excluiu as populações agrícolas sequestradas da
África de sua concepção do que era ser humano.”
Esse
doce hábito estava encharcado de sangue. Numa época em que o pensamento
iluminista prometia expandir as noções de liberdade e razão, a sociedade
europeia excluía as populações agrícolas sequestradas da África de sua
concepção do que era ser humano. Até ícones liberais como John Locke eram
defensores desse ofício.
A
violência racial do tráfico atlântico de escravos e da escravidão nas
plantações caribenhas não é simplesmente uma característica do passado
histórico, ou do Sul global, geograficamente. A riqueza roubada na forma de
terras e corpos, os lucros acumulados com a exploração violenta e os
privilégios herdados, transmitidos de geração em geração, produziram um modelo
de raça e poder que se mostrou dolorosamente resiliente.
• A segunda fase
Houve
resistência em todos os momentos, e havia contradições no sistema. As
autoridades coloniais dividiram as terras de subsistência para os escravizados,
em terras nas encostas consideradas inúteis para a produção de plantações, para
que pudessem cultivar alimentos que, de outra forma, não estariam disponíveis.
Feiras de domingo surgiram, onde os produtos dos escravizados também serviam à
plantocracia.
“Depois
que os donos das plantações reprimiram violentamente a greve geral, os rebeldes
recorreram a táticas de guerrilha e esconderam suas forças em cavernas de
calcário, conhecidas como ‘cockpits’.”
Após a
primeira onda de rebelião nas plantações, Zoellner identifica uma segunda fase
que ele compara ao “Exército Continental de George Washington, que lutou contra
as tropas coloniais meio século antes, embora sem munições, comando e controle
centralizados”.
Outra
maneira de entender essa mudança foi que, depois que os fazendeiros reprimiram
violentamente a greve geral dos trabalhadores, os rebeldes recorreram a táticas
de guerrilha e esconderam suas forças em cavernas de calcário, conhecidas como
“cockpits”. Frustrado com a engenhosidade da resistência dos escravizados, o
exército colonial recorreu a ataques aos campos de subsistência. Mas, como
observa Zoellner, “a quantidade impressionante de alimentos recolhidos e
armazenados pelos rebeldes” indicava o potencial de meses de resistência.
Zoellner
dedica atenção às dimensões de gênero do colonialismo e da resistência. A
escravidão nas plantações era uma sociedade baseada em estupros constantes e
contínuos. Os senhores de escravos usavam mulheres escravizadas como concubinas
sexuais. Mas as mulheres também foram centrais na rebelião. A revolta dos
escravos foi notavelmente seletiva, visando propriedades muito mais do que
pessoas, e Zoellner relata inúmeras histórias heroicas de resistência criativa
de homens e mulheres escravizados.
A
plantocracia branca não demonstrou tal cuidado ou misericórdia. Eles executaram
Sam Sharpe em meio a uma onda de repressão liderada pelo Estado, que incluiu
execuções, açoites públicos e uma onda de terror de justiceiros brancos que
Zoellner retrata como uma antecipação da violência da Ku Klux Klan após a
Guerra Civil Estadunidense. Os missionários batistas também se viram na mira
dessa reação violenta.
• Emancipação
William
Knibb não havia sido informado sobre a rebelião e não a defendia. No entanto,
insistiu em falar explicitamente sobre as condições de repressão brutal que
caracterizavam a escravidão nas plantações. Em 24 de maio de 1832, um dia após
a execução de Sam Sharpe, um grupo seleto de parlamentares no Palácio Antigo de
Westminster convocou uma comissão para investigar a possibilidade de abolir a
escravidão.
A
motivação deles era predominantemente pragmática: reconheciam a probabilidade
de novas revoltas e consideravam o custo da repressão proibitivo a longo prazo.
Knibb estava entre as 32 testemunhas que responderam a 8.572 perguntas da
comissão durante o verão de 1832. As histórias que ele contou incluíam a de
Catherine Williams, uma escravizada jamaicana que havia recusado uma relação
sexual com seu senhor e foi espancada como vingança até que suas costas se
tornassem “uma massa de sangue”. Em 1833, o parlamento britânico aprovou a Lei
de Abolição da Escravatura.
“Os
parlamentares britânicos reconheceram a probabilidade de novas revoltas e
consideraram o custo da repressão proibitivo a longo prazo. Em 1833, aprovaram
a Lei de Abolição da Escravatura.”
Este é
um texto importante. Ele apresenta, é claro, algumas limitações. O estudo é
mais descritivo do que analítico, e, por vezes, há deslizes na clareza teórica.
Mas podemos preencher essas lacunas lendo o trabalho de Zoellner em conjunto
com outros teóricos que nos ajudaram a compreender a experiência caribenha,
desde o trabalho pioneiro de CLR James, Eric Williams e Richard Hart até
estudos mais recentes de escritores como Anthony Bogues, Hilary Beckles e
Verene Shepherd.Island on Fire nos lembra do que Alissa Trotz demonstra ser a
centralidade epistêmica do Caribe. Também reforça a mensagem de que a
emancipação é o resultado da autoatividade do subalterno e que aqueles que nos
precederam inspiram a longa marcha rumo à liberdade hoje.
Fonte:
Por Abigail Bakan – Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil

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