terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

Vito Mancuso: ‘Cristão servos do imperador, com Trump voltamos ao século IV’

”Seria tranquilizador rotular o cristianismo de Trump Vance como uma paródia. A questão é mais sutil e preocupante: é a revitalização de outra forma possível de cristianismo, aquela que nós, no Ocidente, havíamos superado com o Concílio Vaticano II”, afirma o filósofo e teólogo Vito Mancuso.

<><> Eis a entrevista.

·        J.D. Vance recorre a São Tomás para justificar a deportação de imigrantes ilegais.

A primeira virtude cardeal é a sabedoria, ou seja, aprender a olhar e entender. Devemos exercer o discernimento. Eu gostaria de poder dizer que estamos diante de um cristianismo falso. Mas, na realidade, é uma das possíveis faces do cristianismo e das religiões. Aliás, é a face do cristianismo que historicamente mais se afirmou.

Nos séculos passados, em todos os países ocidentais, havia capelães militares que abençoavam as armas e incitavam os soldados contra os inimigos do outro lado, muitas vezes católicos como eles próprios; basta pensar, por exemplo, nas guerras entre italianos e austríacos. O estado medieval era a expressão da religião e vice-versa. O Antigo e o Novo Testamento estão repletos de divisões: nós, os puros, de um lado, eles, os impuros, do outro. Nós nos massacramos durante séculos em nome de divindades opostas.

·        A que se refere?

Vamos pensar no conceito judaico de 'herem' que motivou a hediondez da guerra de conquista da chamada Terra Santa. 'Herem' significa literalmente extermínio total e marca o passar ao fio da espada, como diz a Bíblia, todo ser vivo: homens, mulheres, crianças, idosos, animais. Sua instituição está no livro de Deuteronômio, capítulo sete, ou seja, na parte mais sagrada da Bíblia hebraica, a Torá.

É sistemática a aplicação desse terrível mandamento quando Israel conquista as cidades da terra de Canaã, entre as quais Jericó. Aqueles que querem encontrar motivações na Bíblia para sua guerra santa têm abundante material para fazê-lo.

·        A exigência de ter uma sociedade ordeira é um conceito estranho ao pensamento cristão?

Não. A exigência de ordem e segurança é algo inerente à condição humana, e tudo o que é humano não pode ser estranho a um cristianismo corretamente entendido. Se, para favorecer unilateralmente o acolhimento, se coloca em risco a ordem e a segurança, estará se cometendo um erro político, social e teológico.

O mandamento de amar o próximo é formulado na Bíblia e retomado por Jesus ao dizer para amar o próximo “como a si mesmo”. Não se trata de amar o próximo mais do que a si mesmo, mas como a si mesmo. A exigência de acolhimento dos migrantes não pode ser feita às custas das exigências de segurança dos residentes. Não se trata de um desequilíbrio no exercício do amor para com algumas categorias de pessoas em detrimento de outras.

Por outro lado, a exigência de segurança também não pode ser feita às custas do obrigatório e humano acolhimento dos necessitados. Proteger os próprios cidadãos e acolher os estrangeiros necessitados devem ser os dois pilares a serem unidos para formar a ponte da verdadeira política de inspiração cristã, desde que não se queira usar a referência ao cristianismo de maneira enganosa e falsa. Uma política saudável que se define cristã deve ter como objetivo compor essas duas polaridades.

·        E Trump fotografado como Jesus na Última Ceia?

É uma foto impactante, que me impressionou tanto que a salvei em meu computador. Marca uma mudança de paradigma em nível religioso e político. O clero, incluindo um padre católico, serve de corte ao imperador!

É uma foto chocante que nos leva de volta ao século IV, à época do imperador Constantino e seu sucessor Teodósio, que queriam e convocaram os primeiros concílios ecumênicos, começando com o primeiro, o de Niceia, proposto por Constantino em 325, exatamente 1700 anos atrás, e depois o de Constantinopla, proposto por Teodósio em 381.

Um ano antes, Teodósio havia proclamado o cristianismo como religião do Estado com o Édito de Tessalônica. E, desde então, o vínculo entre o poder político e o poder religioso foi orgânico e contínuo, representando a verdadeira cola da sociedade cristã, embora com alguns atritos, como a luta pelas investiduras nos séculos medievais.

·        Mas então veio o Vaticano II.

O Concílio percebeu que o vínculo orgânico entre o poder político e o poder religioso no Ocidente estava se dissolvendo e que o relacionamento precisava ser reconstruído em novas bases. No Ocidente católico e protestante, diferentemente do Oriente ortodoxo, no início da década de 1960, pensava-se ter saído das épocas de colaboracionismo trono-altar e das subsequentes concordatas com o regime fascista (1929) e o regime nazista (1933).

Espero estar errado, mas com Trump e Vance parece que podemos estar voltando para lá. A foto no estilo ‘Última Ceia’ com Trump no lugar de Jesus, que citamos acima, demonstra isso. Agora há o Papa Francisco no Vaticano que se opõe veementemente a essa visão, mas depois dele, ninguém sabe. Uma coisa é certa: embora seja algo que a história da Igreja e a teologia conhecem bem, essa redução do cristianismo a um instrumentum regni é o que de mais anticristão pode existir.

·        Por que anticristão?

Jesus foi condenado e crucificado pelo poder imperial. Ele foi executado com a pena capital que o Império atribuía aos sediciosos e rebeldes, culpados do pior crime: o crimen laesae maiestatis. Jesus representou o exemplo mais radical de oposição aos poderes deste mundo e, de fato, foi eliminado por uma aliança entre o poder político romano e o poder religioso judaico que expressava os interesses da aristocracia sacerdotal.

Portanto, se há algo que o cristianismo tem a oferecer, na medida em que for fiel a Jesus, é justamente a oposição aos poderes deste mundo. Se os cristãos se tornam funcionais ao poder, traem o sentido específico de sua fé, tornam-se inúteis como crentes, equivalentes aos muitos funcionários amigos do poder que a história e a economia produzem continuamente.

·        Pode nos dar um exemplo?

Retomando as palavras de Jesus, perdem o sabor e se tornam como o sal de que ele falou no Sermão da Montanha, questionando-se para que serve o sal se perdeu o sabor e respondendo que não serve mais para nada, exceto para ser jogado fora e pisoteado pelos homens.

Já há cortesãos em demasia, não há necessidade que se juntem também os cristãos. Infelizmente, porém, eles se juntam, já se juntaram. Os cristãos devem ser o sal da terra, ou o fermento da massa, para retomar as imagens do Evangelho.

Em suma, há dois extremos opostos a serem evitados: o radicalismo daqueles que só querem ser fermento sem se perder e entrar na massa (estou me referindo àquele radicalismo, às vezes fanatismo, que recusa qualquer mediação com a lógica do mundo sem entender que o fermento existe justamente em função da massa) e, do outro lado, o alinhamento total com o poder sob a insígnia do servilismo e da corte. O verdadeiro cristianismo está no meio, sempre distinguindo a cada oportunidade com responsabilidade a ação a ser tomada ou não.

 

¨      Dado o domínio do cristianismo nos EUA, Trump levanta a sobrancelha com iniciativa de preconceito anticristão

O cristianismo é de longe a maior fé na América, e os conservadores cristãos têm um forte controle sobre as alavancas do governo. Esse domínio está deixando muitos questionando por que a nova força-tarefa do presidente Donald Trump para erradicar o preconceito anticristão é necessária.

Os críticos veem a iniciativa da força-tarefa como desnecessária e bajuladora para a base de Trump. Mas alguns apoiadores cristãos disseram que ela está atrasada, alegando que o governo Biden os discriminou por meio de ações e omissões.

A força-tarefa de dois anos, presidida pela procuradora-geral Pam Bondi e composta pelo gabinete e outros representantes do governo, tem a tarefa de revisar e "identificar quaisquer ações anticristãs ilegais" durante o governo Biden, alterar quaisquer políticas questionáveis ​​e recomendar medidas para corrigir quaisquer falhas passadas.

<><> Um debate sobre a vitimização

Bruce Ledewitz, professor de direito na Universidade Duquesne, em Pittsburgh, criticou a mentalidade por trás da ordem executiva como a de um grupo poderoso que reivindica o papel de vítima.

O movimento conservador cristão — um eleitorado republicano central — agora tem influência significativa na Suprema Corte e em vários estados, no Congresso e na presidência, disse Ledewitz. E ainda assim, eles declaram: "Somos vítimas", disse ele.

"Há uma luta pela alma da América", disse Ledewitz, que estuda a relação entre direito constitucional e religião. "Nós chamamos isso de guerra cultural, mas é muito profunda", animada pela acusação "de que vocês, os democratas, não são religiosos, e nós somos".

Trump disse exatamente isso em um Café da Manhã Nacional de Oração em 6 de fevereiro.

"O lado oposto se opõe à religião, se opõe a Deus", afirmou Trump, acusando o governo anterior de se envolver em "perseguição". O presidente Joe Biden, um católico frequentador assíduo da missa, frequentemente falava em se basear nos valores de sua fé e tinha relações calorosas com o Papa Francisco.

Mas Ryan Bangert, vice-presidente sênior da organização jurídica conservadora Alliance Defending Freedom, disse que a força-tarefa está atrasada.

Ele disse que o governo Biden estava "deliberadamente mirando crenças cristãs por meio de políticas discriminatórias" em questões como aborto e gênero. Essas "não são crenças marginais" e são compartilhadas por outros grupos religiosos além dos cristãos, disse ele.

<><> Os casos de suposto preconceito se somam para formar um padrão?

Críticos disseram que Trump afirma ver perseguição em descrições distorcidas de casos, coincidências de calendário e outras situações que, embora levantem preocupações, não configuram um padrão.

Por exemplo, Trump falou no café da manhã de oração sobre como ele perdoou um grupo de manifestantes contra o aborto. Ele deturpou o caso de uma mulher, que foi condenada à prisão aos 75 anos, como sendo "colocada na cadeia porque estava rezando". Ela e os co-réus foram condenados por bloquear uma clínica de aborto em violação ao Freedom of Access to Clinic Entrances Act, promulgado na década de 1990 após ataques violentos a provedores de aborto.

Mas Bangert disse que o governo Biden "armou severamente" o FACE Act, sendo muito mais agressivo contra manifestantes antiaborto do que aqueles que vandalizaram ou ameaçaram outras instituições protegidas pelo mesmo ato, incluindo igrejas e centros de gravidez que aconselham mulheres a não fazer abortos. Esses sofreram uma onda de ataques depois que a Suprema Corte, em 2022, anulou a decisão Roe v. Wade de 1973 que havia tornado o aborto legal em todo o país.

Um documento do Departamento de Justiça da era Biden lista um caso de condenação de três ativistas que apoiaram os direitos ao aborto e vandalizaram centros de gravidez. Essa lista, de outra forma, documenta vários processos contra manifestantes antiaborto que bloquearam, ameaçaram ou interromperam atividades clínicas.

O ato foi "simplesmente implantado para processar defensores pró-vida que, se estivessem defendendo qualquer outro conjunto de crenças, nunca teriam sido processados ​​pelo governo", disse Bangert. "No entanto, o governo Biden se recusou a aplicar o FACE Act em casos em que centros de gravidez pró-vida, igrejas ou sinagogas foram alvos."

A Conferência dos Bispos Católicos dos EUA acolheu com satisfação a criação da força-tarefa.

"Estamos esperançosos ao ouvir as notícias de que o governo está tentando abordar o preconceito e os incidentes anticristãos, e estamos prontos para oferecer nossas próprias percepções sobre como podemos garantir que todas as pessoas possam exercer plenamente sua liberdade religiosa", disse a porta-voz da conferência, Chieko Noguchi.

A conferência mantém uma lista atualizada de relatos de vandalismo e ataques a igrejas, relatando pelo menos 366 casos de incêndio criminoso, danos a estátuas religiosas e outros incidentes desde 2020. O comitê de liberdade religiosa da conferência divulgou um relatório em 2024 citando uma lista bipartidária de preocupações que vão desde mandatos do governo Biden em relação a gênero e aborto até uma repressão do procurador-geral republicano do Texas às organizações católicas que atendem imigrantes.

A ordem executiva de Trump alega que as autoridades de igualdade de emprego da era Biden tentaram "forçar os cristãos a afirmar a ideologia transgênero radical contra sua fé" e que outro departamento "procurou expulsar os cristãos do sistema de assistência social".

Trump afirmou que o FBI em 2023 "afirmou que os católicos tradicionais eram ameaças de terrorismo doméstico e sugeriu a infiltração em igrejas católicas como 'mitigação de ameaças'".

A alegação surgiu do caso de um homem que se declarou culpado de uma acusação federal de porte de armas e que havia falado sobre a intenção de matar judeus e outras minorias. Ele estava frequentando uma igreja que defendia crenças católicas tradicionalistas — embora não em comunhão com o papa — onde ele supostamente tentou recrutar outros, de acordo com uma revisão do Departamento de Justiça.

Um relatório vazado do FBI citou uma suposta ligação entre "extremistas violentos motivados por raça ou etnia" e adeptos de "católicos tradicionalistas radicais".

Um inspetor-geral do Departamento de Justiça posteriormente concluiu que "não havia evidências de intenção maliciosa", mas que o memorando demonstrava uma falha em "obedecer aos padrões analíticos de habilidade".

Trump também citou uma mistura de calendários.

Biden emitiu uma declaração proclamando 31 de março de 2024 como "Dia da Visibilidade Transgênero", que ocorre anualmente nessa data. Em 2024, essa data também aconteceu no Domingo de Páscoa. Embora as igrejas tenham uma variedade de visões sobre questões LGBTQ+, o momento da proclamação levou a respostas indignadas de líderes cristãos conservadores que não afirmam a identidade transgênero.

<><> Olhando para o quadro geral

Uma ação da Casa Branca focada em uma religião específica não é inédita. O governo Biden, por exemplo, emitiu planos estratégicos para combater o antissemitismo e a islamofobia.

O grupo de defesa secular Freedom From Religion Foundation questionou a nova força-tarefa na plataforma de mídia social X, dizendo que "o trabalho do governo é proteger os direitos de todos, não dar tratamento especial a uma religião". Ele questionou se a força-tarefa iria "apenas promover uma agenda nacionalista cristã".

Ledewitz disse que a força-tarefa não viola a proibição constitucional do estabelecimento de uma religião pelo Estado — em teoria.

"Se, na prática, o governo vai promover o cristianismo, isso viola a cláusula de estabelecimento", disse ele.

Ledewitz citou a decisão da Suprema Corte de 2017 em favor de um padeiro do Colorado que se recusou a fazer um bolo de casamento para um casal do mesmo sexo, dizendo que a Comissão de Direitos Civis de seu estado mostrou "hostilidade" às ​​suas crenças religiosas.

"O governo não tem permissão para ser hostil à religião", disse Ledewitz.

No entanto, Ledewitz disse que não há argumentos que justifiquem que os cristãos americanos sofram perseguição sistêmica.

Embora o número de pessoas sem religião tenha crescido para cerca de 3 em cada 10 adultos americanos, os cristãos ainda representam quase dois terços da população .

Matthew Taylor, acadêmico protestante do Institute for Islamic, Christian and Jewish Studies em Baltimore, disse que a força-tarefa levanta preocupações. O livro de Taylor de 2024, "The Violent Take It By Force: The Christian Movement That Is Threatening Our Democracy", relata o papel de líderes carismáticos que estão entre os apoiadores mais fervorosos de Trump.

Em um país de maioria cristã, "é um pouco absurdo alegar que há preconceito anticristão generalizado", disse Taylor. "Quando uma maioria começa a alegar perseguição, isso geralmente é uma licença para ataques a minorias."

 

Fonte: La Stampa/National Catholic Reporter

 

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