Vito Mancuso:
‘Cristão servos do imperador, com Trump voltamos ao século IV’
”Seria
tranquilizador rotular o cristianismo de Trump e Vance como uma
paródia. A questão é mais sutil e preocupante: é a revitalização de outra forma
possível de cristianismo, aquela que nós, no Ocidente, havíamos superado com
o Concílio Vaticano
II”,
afirma o filósofo e teólogo Vito Mancuso.
<><> Eis
a entrevista.
·
J.D.
Vance recorre a São Tomás para justificar a deportação de imigrantes ilegais.
A primeira virtude
cardeal é a sabedoria, ou seja, aprender a olhar e entender. Devemos exercer o
discernimento. Eu gostaria de poder dizer que estamos diante de um cristianismo falso. Mas,
na realidade, é uma das possíveis faces do cristianismo e
das religiões. Aliás, é a face do cristianismo que historicamente mais se
afirmou.
Nos séculos
passados, em todos os países ocidentais, havia capelães militares que
abençoavam as armas e incitavam os soldados contra os inimigos do outro lado,
muitas vezes católicos como eles próprios; basta pensar, por exemplo, nas
guerras entre italianos e austríacos. O estado medieval era a
expressão da religião e vice-versa. O Antigo e o Novo
Testamento estão
repletos de divisões: nós, os puros, de um lado, eles, os impuros, do outro.
Nós nos massacramos durante séculos em nome de divindades opostas.
·
A
que se refere?
Vamos pensar
no conceito judaico de 'herem'
que motivou a hediondez da guerra de conquista da chamada Terra Santa. 'Herem' significa
literalmente extermínio total e marca o passar ao fio da espada, como diz
a Bíblia, todo ser vivo: homens, mulheres, crianças, idosos, animais. Sua
instituição está no livro de Deuteronômio, capítulo sete, ou
seja, na parte mais sagrada da Bíblia hebraica, a Torá.
É sistemática a
aplicação desse terrível mandamento quando Israel conquista as
cidades da terra de Canaã, entre as quais Jericó. Aqueles que querem
encontrar motivações na Bíblia para sua guerra santa têm abundante
material para fazê-lo.
·
A
exigência de ter uma sociedade ordeira é um conceito estranho ao pensamento
cristão?
Não. A exigência de
ordem e segurança é algo inerente à condição humana, e tudo o que é humano não
pode ser estranho a um cristianismo corretamente entendido. Se, para favorecer
unilateralmente o acolhimento, se coloca em risco a ordem e a segurança,
estará se cometendo um erro político, social e teológico.
O mandamento de
amar o próximo é formulado na Bíblia e retomado por Jesus ao
dizer para amar o próximo “como a si mesmo”. Não se trata de amar o próximo
mais do que a si mesmo, mas como a si mesmo. A exigência de acolhimento dos
migrantes não pode ser feita às custas das exigências de segurança dos
residentes. Não se trata de um desequilíbrio no exercício do amor para com
algumas categorias de pessoas em detrimento de outras.
Por outro lado, a
exigência de segurança também não pode ser feita às custas do
obrigatório e humano acolhimento dos necessitados. Proteger os próprios cidadãos
e acolher os estrangeiros necessitados devem ser os dois pilares a serem unidos
para formar a ponte da verdadeira política de inspiração cristã, desde que não se
queira usar a referência ao cristianismo de maneira enganosa e falsa. Uma
política saudável que se define cristã deve ter como objetivo compor essas duas
polaridades.
·
E
Trump fotografado como Jesus na Última Ceia?
É uma foto
impactante,
que me impressionou tanto que a salvei em meu computador. Marca uma mudança de
paradigma em nível religioso e político. O clero, incluindo um padre católico,
serve de corte ao imperador!
É uma foto chocante que nos leva
de volta ao século IV, à época do imperador Constantino e seu
sucessor Teodósio, que queriam e convocaram os primeiros concílios
ecumênicos, começando com o primeiro, o de Niceia, proposto por
Constantino em 325, exatamente 1700 anos atrás, e depois o de Constantinopla, proposto por
Teodósio em 381.
Um ano
antes, Teodósio havia proclamado o cristianismo como religião do
Estado com o Édito de Tessalônica. E, desde então, o vínculo
entre o poder político e o poder religioso foi orgânico e contínuo,
representando a verdadeira cola da sociedade cristã, embora com alguns atritos,
como a luta pelas investiduras nos séculos medievais.
·
Mas
então veio o Vaticano II.
O Concílio percebeu
que o vínculo orgânico entre o poder político e o poder religioso
no Ocidente estava se dissolvendo e que o relacionamento precisava
ser reconstruído em novas bases. No Ocidente católico e protestante,
diferentemente do Oriente ortodoxo, no início da década de 1960,
pensava-se ter saído das épocas de colaboracionismo trono-altar e das
subsequentes concordatas com o regime fascista (1929) e o regime nazista
(1933).
Espero estar
errado, mas com Trump e Vance parece que
podemos estar voltando para lá. A foto no estilo ‘Última Ceia’
com Trump no lugar de Jesus, que citamos acima, demonstra isso.
Agora há o Papa Francisco no Vaticano que se opõe
veementemente a essa visão, mas depois dele, ninguém sabe. Uma coisa é certa:
embora seja algo que a história da Igreja e a teologia conhecem bem,
essa redução do cristianismo a um instrumentum
regni é
o que de mais anticristão pode existir.
·
Por
que anticristão?
Jesus foi
condenado e crucificado pelo poder imperial. Ele foi executado com a pena
capital que o Império atribuía aos sediciosos e rebeldes, culpados do
pior crime: o crimen laesae maiestatis. Jesus representou o exemplo mais
radical de oposição aos poderes deste mundo e, de fato, foi eliminado por uma
aliança entre o poder político romano e o poder religioso judaico que
expressava os interesses da aristocracia sacerdotal.
Portanto, se há
algo que o cristianismo tem a oferecer, na medida em que for fiel a Jesus,
é justamente a oposição aos poderes deste mundo. Se os cristãos se tornam
funcionais ao poder, traem o sentido específico de sua fé, tornam-se inúteis
como crentes, equivalentes aos muitos funcionários amigos do poder que a
história e a economia produzem continuamente.
·
Pode
nos dar um exemplo?
Retomando as
palavras de Jesus, perdem o sabor e se tornam como o sal de que ele falou
no Sermão da Montanha, questionando-se
para que serve o sal se perdeu o sabor e respondendo que não serve mais para
nada, exceto para ser jogado fora e pisoteado pelos homens.
Já há cortesãos em
demasia, não há necessidade que se juntem também os cristãos. Infelizmente,
porém, eles se juntam, já se juntaram. Os cristãos devem ser o sal da terra, ou
o fermento da massa, para retomar as imagens do Evangelho.
Em suma, há dois
extremos opostos a serem evitados: o radicalismo daqueles que só
querem ser fermento sem se perder e entrar na massa (estou me referindo àquele
radicalismo, às vezes fanatismo, que recusa qualquer mediação com a lógica do
mundo sem entender que o fermento existe justamente em função da massa) e, do
outro lado, o alinhamento total com o poder sob a insígnia do
servilismo e da corte. O verdadeiro cristianismo está no meio, sempre
distinguindo a cada oportunidade com responsabilidade a ação a ser tomada ou
não.
¨ Dado o domínio do cristianismo nos EUA, Trump levanta a
sobrancelha com iniciativa de preconceito anticristão
O cristianismo é de
longe a maior fé na América, e os conservadores cristãos têm um forte
controle sobre as alavancas do governo. Esse domínio está deixando muitos
questionando por que a nova força-tarefa do presidente Donald
Trump para
erradicar o preconceito anticristão é necessária.
Os críticos veem a
iniciativa da força-tarefa como desnecessária e bajuladora para a base
de Trump. Mas alguns apoiadores cristãos disseram que ela está atrasada,
alegando que o governo Biden os
discriminou por meio de ações e omissões.
A força-tarefa de
dois anos, presidida pela procuradora-geral Pam
Bondi e
composta pelo gabinete e outros representantes do governo, tem a tarefa de
revisar e "identificar quaisquer ações anticristãs ilegais" durante o
governo Biden, alterar quaisquer políticas questionáveis e recomendar medidas para corrigir quaisquer falhas
passadas.
<><> Um
debate sobre a vitimização
Bruce Ledewitz,
professor de direito na Universidade Duquesne, em Pittsburgh, criticou a
mentalidade por trás da ordem executiva como a de um grupo poderoso que
reivindica o papel de vítima.
O movimento
conservador cristão — um eleitorado republicano central — agora tem
influência significativa na Suprema Corte e em vários estados, no Congresso e
na presidência, disse Ledewitz. E ainda assim, eles declaram: "Somos
vítimas", disse ele.
"Há uma luta
pela alma da América", disse Ledewitz, que estuda a relação entre direito
constitucional e religião. "Nós chamamos isso de guerra
cultural,
mas é muito profunda", animada pela acusação "de que vocês, os
democratas, não são religiosos, e nós somos".
Trump disse
exatamente isso em um Café da Manhã Nacional de Oração em 6 de fevereiro.
"O lado oposto
se opõe à religião, se opõe a Deus", afirmou Trump, acusando o
governo anterior de se envolver em "perseguição". O presidente Joe Biden,
um católico frequentador assíduo da missa, frequentemente falava em se basear
nos valores de sua fé e tinha relações calorosas com o Papa
Francisco.
Mas Ryan
Bangert, vice-presidente sênior da organização jurídica
conservadora Alliance Defending Freedom, disse que a força-tarefa está
atrasada.
Ele disse que o
governo Biden estava "deliberadamente mirando crenças cristãs por meio de
políticas discriminatórias" em questões como aborto e gênero. Essas
"não são crenças marginais" e são compartilhadas por outros grupos
religiosos além dos cristãos, disse ele.
<><> Os
casos de suposto preconceito se somam para formar um padrão?
Críticos disseram
que Trump afirma ver perseguição em descrições distorcidas de casos,
coincidências de calendário e outras situações que, embora levantem
preocupações, não configuram um padrão.
Por
exemplo, Trump falou no café da manhã de oração sobre como ele
perdoou um grupo de manifestantes contra o aborto. Ele deturpou o
caso de uma mulher, que foi condenada à prisão aos 75 anos, como sendo
"colocada na cadeia porque estava rezando". Ela e os co-réus foram
condenados por bloquear uma clínica de aborto em violação ao Freedom of
Access to Clinic Entrances Act, promulgado na década de 1990 após ataques
violentos a provedores de aborto.
Mas Bangert disse
que o governo Biden "armou severamente" o FACE Act,
sendo muito mais agressivo contra manifestantes antiaborto do que aqueles que
vandalizaram ou ameaçaram outras instituições protegidas pelo mesmo ato,
incluindo igrejas e centros de gravidez que aconselham mulheres a não fazer
abortos. Esses sofreram uma onda de ataques depois que a Suprema Corte, em
2022, anulou
a decisão Roe v. Wade de 1973 que havia tornado o aborto legal em
todo o país.
Um documento do
Departamento de Justiça da era Biden lista um caso de condenação de três
ativistas que apoiaram os direitos ao aborto e vandalizaram centros de
gravidez. Essa lista, de outra forma, documenta vários processos contra
manifestantes antiaborto que bloquearam, ameaçaram ou interromperam atividades
clínicas.
O ato foi
"simplesmente implantado para processar defensores
pró-vida que,
se estivessem defendendo qualquer outro conjunto de crenças, nunca teriam sido
processados pelo governo",
disse Bangert. "No entanto, o governo Biden se recusou a aplicar
o FACE Act em casos em que centros de gravidez pró-vida, igrejas ou
sinagogas foram alvos."
A Conferência dos
Bispos Católicos dos EUA acolheu com satisfação a criação da força-tarefa.
"Estamos
esperançosos ao ouvir as notícias de que o governo está tentando abordar o
preconceito e os incidentes anticristãos, e estamos prontos para oferecer
nossas próprias percepções sobre como podemos garantir que todas as pessoas
possam exercer plenamente sua liberdade
religiosa",
disse a porta-voz da conferência, Chieko
Noguchi.
A conferência
mantém uma lista atualizada de relatos de vandalismo e ataques a igrejas,
relatando pelo menos 366 casos de incêndio criminoso, danos a estátuas
religiosas e outros incidentes desde 2020. O comitê de liberdade religiosa da
conferência divulgou um relatório em 2024 citando uma lista bipartidária de
preocupações que vão desde mandatos do governo Biden em relação a gênero e
aborto até uma repressão do procurador-geral republicano do Texas às
organizações católicas que atendem imigrantes.
A ordem executiva
de Trump alega que as autoridades de igualdade de emprego da
era Biden tentaram "forçar os cristãos a afirmar a ideologia
transgênero radical contra sua fé" e que outro departamento "procurou
expulsar os cristãos do sistema de assistência social".
Trump afirmou que o
FBI em 2023 "afirmou que os católicos tradicionais eram ameaças de
terrorismo doméstico e sugeriu a infiltração em igrejas católicas como
'mitigação de ameaças'".
A alegação surgiu
do caso de um homem que se declarou culpado de uma acusação federal de porte de
armas e que havia falado sobre a intenção de matar judeus e outras minorias.
Ele estava frequentando uma igreja que defendia crenças católicas
tradicionalistas — embora não em comunhão com o papa — onde ele supostamente
tentou recrutar outros, de acordo com uma revisão do Departamento de Justiça.
Um relatório vazado
do FBI citou uma suposta ligação entre "extremistas violentos
motivados por raça ou etnia" e adeptos de "católicos tradicionalistas
radicais".
Um inspetor-geral
do Departamento de Justiça posteriormente concluiu que "não havia
evidências de intenção maliciosa", mas que o memorando demonstrava uma
falha em "obedecer aos padrões analíticos de habilidade".
Trump também citou
uma mistura de calendários.
Biden emitiu
uma declaração proclamando 31 de março de 2024 como "Dia
da Visibilidade Transgênero", que ocorre anualmente nessa data. Em 2024, essa
data também aconteceu no Domingo de Páscoa. Embora as igrejas tenham uma
variedade de visões sobre questões LGBTQ+, o momento da proclamação levou a
respostas indignadas de líderes cristãos conservadores que não afirmam a identidade
transgênero.
<><> Olhando
para o quadro geral
Uma ação da Casa
Branca focada em uma religião específica não é inédita. O governo Biden,
por exemplo, emitiu planos estratégicos para combater o antissemitismo e a
islamofobia.
O grupo de defesa
secular Freedom From Religion Foundation questionou a nova
força-tarefa na plataforma de mídia social X, dizendo que "o trabalho
do governo é proteger os direitos de todos, não dar tratamento especial a uma
religião". Ele questionou se a força-tarefa iria "apenas promover uma
agenda nacionalista cristã".
Ledewitz disse
que a força-tarefa não viola a proibição constitucional do estabelecimento de
uma religião pelo Estado — em teoria.
"Se, na
prática, o governo vai promover o cristianismo, isso viola a cláusula de
estabelecimento", disse ele.
Ledewitz citou a
decisão da Suprema Corte de 2017 em favor de um padeiro do Colorado que se
recusou a fazer um bolo de casamento para um casal do mesmo sexo, dizendo que a
Comissão de Direitos Civis de seu estado mostrou "hostilidade" às suas crenças religiosas.
"O governo não
tem permissão para ser hostil à religião", disse Ledewitz.
No
entanto, Ledewitz disse que não há argumentos que justifiquem que
os cristãos
americanos sofram perseguição sistêmica.
Embora o número de
pessoas sem religião tenha crescido para cerca de 3 em cada 10 adultos
americanos, os cristãos ainda representam quase dois terços da população .
Matthew Taylor,
acadêmico protestante do Institute for Islamic, Christian and Jewish
Studies em Baltimore, disse que a força-tarefa levanta preocupações. O
livro de Taylor de 2024, "The Violent Take It By Force: The Christian
Movement That Is Threatening Our Democracy", relata o papel de líderes
carismáticos que estão entre os apoiadores mais fervorosos de Trump.
Em um país de
maioria cristã, "é um pouco absurdo alegar que há preconceito anticristão
generalizado", disse Taylor. "Quando uma maioria começa a alegar
perseguição, isso geralmente é uma licença para ataques a minorias."
Fonte: La
Stampa/National Catholic Reporter

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