GIOVANNI MARIA VIAN:
A NOVA PASTORAL ESTADUNIDENSE - TRUMP ENTRE O REI DAVI E CIRO
"Para além da
improvável, mas repetidamente evocada, semelhança com o Rei Davi, o fato é
que o presidente - na esteira, aliás, de seus antecessores, tanto republicanos
quanto democratas - sempre fez amplo uso de uma retórica poderosamente
religiosa. Como aconteceu logo após o atentado em 13 de julho de 2024, quando o
controverso candidato que escapou por pouco da morte atribuiu sua salvação ao
próprio Deus".
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Eis o artigo.
Donald
Trump como Rei
Davi? A justaposição parece bizarra, mas não para muitos evangélicos que apoiam
o presidente, e a semelhança expressa bem o importante papel da religião - e ao
mesmo tempo o uso político da Bíblia - nos Estados Unidos. Confirmando uma
componente profunda que remonta à pré-história da nação, desde a chegada em
1620 dos “Pais Peregrinos”, e que depois de mais de quatro séculos continua
relevante.
“Escrevo sobre as
maravilhas da religião cristã, levada das depravações da Europa para a costa
americana”, pode ser lido nos Magnalia Christi Americana, publicados em
1702 pelo pregador puritano Cotton Mather para celebrá-las. “Não há
nação no mundo em que a religião cristã tenha uma maior presença sobre as almas
do que na América”, observa Alexis de Tocqueville em 1831, em uma
opinião que se tornou famosa, e acrescenta que “a religião é o principal
organismo do país”.
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Trump como Rei Davi
A comparação entre
o candidato republicano e Davi remonta já à primeira campanha que
levou Trump ao comando da maior potência do mundo. Em 2016, dois
importantes expoentes do protestantismo estadunidense - Jerry Falwell
Junior, diretor de uma das principais universidades da galáxia fundamentalista
cristã, e Franklin
Graham,
filho do famoso Billy, o pregador amigo de presidentes, de Lyndon Johnson e Richard
Nixon a Ronald Reagan e Barack Obama - compararam-no
ao Rei de Judá - uma figura complexa e fascinante que Ugo
Volli investigou recentemente com sutileza e erudição (Musica sono per me
le Tue leggi, La nave di Teseo).
Até mesmo o
volumoso topete exibido pelo presidente “é tudo menos anódino”, comentou o
historiador Christian-Georges Schwentzel quando questionado
no Le Monde em 25 de janeiro por Virginie Larousse. Puxa para o
amarelo, embora a cor não seja tão brilhante quanto aquela dos Simpsons,
que em um episódio de 2000 incrivelmente previram a eleição de Trump.
Até mesmo essa
característica inconfundível lembraria a descrição de Davi que lemos
no primeiro livro de Samuel: no latim da Vulgata, rufus et
pulcher adspectu decoraque facie. Poucas palavras que Dante transforma no
maravilhoso verso - “formoso e louro, tinha heroico aspecto” - com o qual ele
descreve o infeliz Manfredi no terceiro canto do Purgatório.
Pode-se, sem
dúvida, duvidar das reminiscências bíblicas do presidente, que em 2019 se
esquivava de uma pergunta jornalística sobre sua fé religiosa - de matriz
protestante presbiteriana - e respondia que era uma questão “pessoal”.
Mas, quatro anos antes, The Donald havia convidado, durante um
comício na Carolina do Sul, a tocar em seu esvoaçante cabelo
aloirado, como um rei taumaturgo da Idade Média, mas de forma banal,
apenas para verificar se era verdadeiro.
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Retórica religiosa
Para além da
improvável, mas repetidamente evocada, semelhança com o Rei Davi, o fato é
que o presidente - na esteira, aliás, de seus antecessores, tanto republicanos
quanto democratas - sempre fez amplo uso de uma retórica poderosamente
religiosa. Como aconteceu logo após o atentado em 13 de julho de 2024, quando o
controverso candidato que escapou por pouco da morte atribuiu sua salvação ao
próprio Deus.
Nesse contexto
permeado de referências bíblicas também havia sido percebida por muitos cristãos
evangélicos fundamentalistas - apoiadores incondicionais do Estado
israelense - a transferência em 2017, durante o primeiro mandato de Trump,
da embaixada dos EUA de Tel Aviv para Jerusalém. A decisão
presidencial era totalmente coerente com suas expectativas, embora apenas 16%
dos judeus estadunidenses a apoiassem, como lembrou o teólogo
espanhol Rafael Aguirre.
Em seu segundo
discurso de posse, em 20 de janeiro, o presidente garantiu que a “Era
de Ouro da América”,
que ele já havia prometido durante a campanha eleitoral, recorrendo a um
imaginário apocalíptico positivo, estava começando. De acordo com o
medievalista Joël Schnapp, de fato, a referência seria ao reino milenar
dos justos descrito no final do último livro da Bíblia. As “revelações”
Essas alusões
parecem “totalmente anacrônicas na França e na Europa Ocidental, onde a
secularização domina”, disse o historiador ao Le Monde, mas conservam “um
efeito mobilizador” nos Estados Unidos. Muito temido na Europa, como o
jornal parisiense retrata numa reelaboração perturbadora da conhecida gravura
de Dürer em que três dos quatro cavaleiros do Apocalipse - que na
visão das escrituras trariam violência, injustiça e morte na Terra - têm os
rostos de Trump, Musk e Zuckerberg.
Pelo contrário, um
dos maiores financiadores do presidente dos EUA, Peter Thiel, no Financial
Times de 11 e 12 de janeiro, fez alusão ao livro bíblico de uma forma
totalmente diferente: se levarmos em conta o sentido original do título - que
significa “revelação” - o retorno de Trump à Casa Branca
promete desvelar alguns dos “segredos do antigo regime”: do assassinato
de John Kennedy à pandemia. Mesmo que o amigo do presidente tenha
escrito que “as revelações do novo governo” não precisam de vinganças porque
“chegou a hora da verdade e da reconciliação”.
No vácuo, portanto,
parece ter caído o apelo que um grupo de especialistas em história das religiões
havia lançado no Washington Post em 2019 para resistir à tentação de
comparar políticos com modelos bíblicos. Até mesmo porque os estudiosos de fato
se afastaram da história dos EUA.
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Abraham Lincoln
Obviamente, a
figura de Abraham Lincoln, o presidente que aboliu a escravidão, continua
sendo emblemática. Criado em uma família batista, mas sem ser batizado nem
aderir a nenhuma denominação, Lincoln - escreveu Michael Lahey - mais do que
qualquer outro “foi um messias para seu povo”: assassinado em 1865 na
Sexta-Feira Santa, “o dia em que se rememora a morte do Messias cristão”.
Quase todos os
presidentes dos EUA iniciaram seus mandatos jurando sobre
a Bíblia. Apenas quatro - Thomas Jefferson, John Quincy
Adams, Theodore Roosevelt e Calvin Coolidge - não o
fizeram, enquanto Johnson, após o assassinato de Kennedy, jurou sobre um
missal católico que estava no Air Force One que o levava
a Washington. Em contrapartida, seis outros presidentes usaram duas
Bíblias: entre eles, Obama e Trump também quiseram jurar
sobre a Bíblia de Lincoln.
No costumeiro uso
político das Sagradas Escrituras pelos presidentes estadunidenses,
uma guinada na direção conservadora foi feita por Reagan, que, com base em
uma decisão do Senado, declarou 1983 o “ano da Bíblia”. No mesmo ano, ele fez
um discurso de tons apocalípticos sobre a necessidade de se opor ao “império do
mal”. Tons que, após o 11
de setembro,
voltaram a aparecer nos discursos do “cristão renascido” George W. Bush.
Obama falou
sobre o papel da religião em 2006, antes de ser eleito presidente. Com o
objetivo de declarar sua “fé cristã” questionada pelos adversários: é “um erro
quando deixamos de reconhecer o poder da fé na vida das pessoas - na vida do
povo estadunidense - e acredito que é hora de abrir um debate sério sobre como
reconciliar a fé com a nossa democracia moderna e pluralista”.
Os estadunidenses “são
um povo religioso”, e isso “não é simplesmente o resultado do sucesso do
marketing de pregadores especializados”, mas expressa “uma fome mais profunda”,
disse Obama. E como presidente, ele citou a Bíblia com frequência e defendeu a
tradição cristã estadunidense, mas reafirmou o caráter pluralista e tolerante
da nação.
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“Nação cristã”
Em 2022, de acordo
com uma pesquisa do Pew Research Center, 45% dos entrevistados
consideravam que os Estados Unidos deveriam ser uma “nação cristã”. Mas, ao
mesmo tempo, 54% achavam que a separação entre as igrejas e Estado deveria
ser reforçada. Portanto, o quadro está mudando, e o sociólogo francês Sébastien
Fath disse que na última campanha eleitoral Trump não se dirigiu apenas aos
“nacionalistas cristãos”. E se JD Vance, agora
vice-presidente, se tornou católico em 2019, Musk se declara deísta “e não tem
nada de cristão”.
Em última
análise, Trump, mais do que Davi, se assemelharia a Ciro, que
no livro de Isaías (45,1-8) é descrito como o messias
pagão vitorioso sobre os babilônios porque pôs fim ao exílio do povo judeu
em 539 a.C. Cunhada por evangélicos fundamentalistas, a comparação entre o
“grande rei” persa e o presidente em 2017 foi retomada por Benjamin
Netanyahu, despertando as críticas de muitos judeus e cristãos.
¨ Viver na correnteza. Por José Eduardo Andaluza
Elon Musk confundiu
Gaza, na Palestina, com Gaza, em Moçambique. Um equívoco compreensível, não
fosse Musk sul-africano, e o Império de Gaza o resultado de uma disputa entre a
nobreza Zulu, após o assassinato do famoso Rei Shaka kaSenzangakhona — o Shaka
Zulu, uma figura venerada no país natal do oligarca.
Indignado, Musk
anunciou ao mundo que o anterior executivo americano gastara US$ 50 milhões em
camisinhas, oferecendo-as aos terroristas do Hamas, na Faixa de Gaza. Trump
adorou o escândalo e apressou-se a propagá-lo. Os jornais israelenses
deliraram. Finalmente, jornalistas sérios fizeram o que os jornalistas sérios
fazem — investigaram. Não tiveram de investigar muito. Logo perceberam que
aquela Gaza não se situa no Oriente Médio e que a Usaid, entretanto extinta ou
quase extinta, não havia gasto US$ 50 milhões apenas em preservativos, mas em
todo um programa de combate à Aids, um problema muitíssimo sério em Moçambique.
Confrontado com o
disparate, Musk admitiu cometer erros. Disse aquilo sem o menor sinal de
arrependimento, com a leviandade do costume — o filho X empoleirado nos ombros,
e Donald Trump escutando-o, embevecido, com as mãozinhas pousadas na secretária
presidencial, como uma bizarra aparição alaranjada.
Leviandade,
crueldade, idiotice — três palavras que resumem a atuação do novo governo
americano. Decisões gravíssimas, que irão destruir a vida de milhões de
pessoas, são tomadas por Donald Trump, ou por Elon Musk, com a mesma ligeireza
com que decidem qual o boné adequado para uma conferência de imprensa na Sala
Oval.
O pior é que estas
decisões não afetam apenas a vida dos cidadãos americanos. A extinção da Usaid,
por exemplo, pode provocar a morte de centenas de milhares de pessoas. A médio
prazo, lançará muitos países, sobretudo em África, para a esfera de influência
da China.
Amo cachoeiras.
Sempre me surpreende encontrar plantas que sobrevivem presas às rochas, lutando
contra a força das águas, como se a vida naquelas circunstâncias fosse fácil e
até aprazível.
Precisamos
aprender, como aquelas plantas, a viver na correnteza. A correnteza, a que
podemos também chamar incerteza, é o novo normal. Sim, a vida foi sempre
imprevisível. Uma larga fatia da Humanidade nunca conheceu o conforto de não
ter de se preocupar com o que irá comer no dia seguinte. Houve um tempo,
contudo, em que o futuro parecia um pouco mais sólido — tanto quanto pode
parecer sólido algo que apenas existe na nossa imaginação.
Depois, o futuro
começou a decompor-se. O regresso de Trump — e de tudo aquilo que ele
representa — apenas acelerou esse processo.
Viver na correnteza
não é fácil. Podemos deixar-nos arrastar por ela, ou aprender a ler os seus
fluxos, a encontrar pontos de apoio, a construir formas de resistência.
Períodos de grande turbulência costumam ser também momentos de transformação e
descoberta. Quero acreditar que o colapso do futuro acabará forçando a
Humanidade a criar novas utopias — um outro modo de se relacionar com o planeta
e de criar sociedades mais justas.
Fonte: IHU/Racismo
Ambiental

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