terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

GIOVANNI MARIA VIAN: A NOVA PASTORAL ESTADUNIDENSE - TRUMP ENTRE O REI DAVI E CIRO

"Para além da improvável, mas repetidamente evocada, semelhança com o Rei Davi, o fato é que o presidente - na esteira, aliás, de seus antecessores, tanto republicanos quanto democratas - sempre fez amplo uso de uma retórica poderosamente religiosa. Como aconteceu logo após o atentado em 13 de julho de 2024, quando o controverso candidato que escapou por pouco da morte atribuiu sua salvação ao próprio Deus".

>>>> Eis o artigo. 

Donald Trump como Rei Davi? A justaposição parece bizarra, mas não para muitos evangélicos que apoiam o presidente, e a semelhança expressa bem o importante papel da religião - e ao mesmo tempo o uso político da Bíblia - nos Estados Unidos. Confirmando uma componente profunda que remonta à pré-história da nação, desde a chegada em 1620 dos “Pais Peregrinos”, e que depois de mais de quatro séculos continua relevante.

“Escrevo sobre as maravilhas da religião cristã, levada das depravações da Europa para a costa americana”, pode ser lido nos Magnalia Christi Americana, publicados em 1702 pelo pregador puritano Cotton Mather para celebrá-las. “Não há nação no mundo em que a religião cristã tenha uma maior presença sobre as almas do que na América”, observa Alexis de Tocqueville em 1831, em uma opinião que se tornou famosa, e acrescenta que “a religião é o principal organismo do país”.

<><> Trump como Rei Davi

A comparação entre o candidato republicano e Davi remonta já à primeira campanha que levou Trump ao comando da maior potência do mundo. Em 2016, dois importantes expoentes do protestantismo estadunidense - Jerry Falwell Junior, diretor de uma das principais universidades da galáxia fundamentalista cristã, e Franklin Graham, filho do famoso Billy, o pregador amigo de presidentes, de Lyndon Johnson e Richard Nixon a Ronald Reagan e Barack Obama - compararam-no ao Rei de Judá - uma figura complexa e fascinante que Ugo Volli investigou recentemente com sutileza e erudição (Musica sono per me le Tue leggi, La nave di Teseo).

Até mesmo o volumoso topete exibido pelo presidente “é tudo menos anódino”, comentou o historiador Christian-Georges Schwentzel quando questionado no Le Monde em 25 de janeiro por Virginie Larousse. Puxa para o amarelo, embora a cor não seja tão brilhante quanto aquela dos Simpsons, que em um episódio de 2000 incrivelmente previram a eleição de Trump.

Até mesmo essa característica inconfundível lembraria a descrição de Davi que lemos no primeiro livro de Samuel: no latim da Vulgata, rufus et pulcher adspectu decoraque facie. Poucas palavras que Dante transforma no maravilhoso verso - “formoso e louro, tinha heroico aspecto” - com o qual ele descreve o infeliz Manfredi no terceiro canto do Purgatório.

Pode-se, sem dúvida, duvidar das reminiscências bíblicas do presidente, que em 2019 se esquivava de uma pergunta jornalística sobre sua fé religiosa - de matriz protestante presbiteriana - e respondia que era uma questão “pessoal”. Mas, quatro anos antes, The Donald havia convidado, durante um comício na Carolina do Sul, a tocar em seu esvoaçante cabelo aloirado, como um rei taumaturgo da Idade Média, mas de forma banal, apenas para verificar se era verdadeiro.

<><> Retórica religiosa

Para além da improvável, mas repetidamente evocada, semelhança com o Rei Davi, o fato é que o presidente - na esteira, aliás, de seus antecessores, tanto republicanos quanto democratas - sempre fez amplo uso de uma retórica poderosamente religiosa. Como aconteceu logo após o atentado em 13 de julho de 2024, quando o controverso candidato que escapou por pouco da morte atribuiu sua salvação ao próprio Deus.

Nesse contexto permeado de referências bíblicas também havia sido percebida por muitos cristãos evangélicos fundamentalistas - apoiadores incondicionais do Estado israelense - a transferência em 2017, durante o primeiro mandato de Trump, da embaixada dos EUA de Tel Aviv para Jerusalém. A decisão presidencial era totalmente coerente com suas expectativas, embora apenas 16% dos judeus estadunidenses a apoiassem, como lembrou o teólogo espanhol Rafael Aguirre.

Em seu segundo discurso de posse, em 20 de janeiro, o presidente garantiu que a “Era de Ouro da América”, que ele já havia prometido durante a campanha eleitoral, recorrendo a um imaginário apocalíptico positivo, estava começando. De acordo com o medievalista Joël Schnapp, de fato, a referência seria ao reino milenar dos justos descrito no final do último livro da Bíblia. As “revelações”

Essas alusões parecem “totalmente anacrônicas na França e na Europa Ocidental, onde a secularização domina”, disse o historiador ao Le Monde, mas conservam “um efeito mobilizador” nos Estados Unidos. Muito temido na Europa, como o jornal parisiense retrata numa reelaboração perturbadora da conhecida gravura de Dürer em que três dos quatro cavaleiros do Apocalipse - que na visão das escrituras trariam violência, injustiça e morte na Terra - têm os rostos de Trump, Musk e Zuckerberg.

Pelo contrário, um dos maiores financiadores do presidente dos EUA, Peter Thiel, no Financial Times de 11 e 12 de janeiro, fez alusão ao livro bíblico de uma forma totalmente diferente: se levarmos em conta o sentido original do título - que significa “revelação” - o retorno de Trump à Casa Branca promete desvelar alguns dos “segredos do antigo regime”: do assassinato de John Kennedy à pandemia. Mesmo que o amigo do presidente tenha escrito que “as revelações do novo governo” não precisam de vinganças porque “chegou a hora da verdade e da reconciliação”.

No vácuo, portanto, parece ter caído o apelo que um grupo de especialistas em história das religiões havia lançado no Washington Post em 2019 para resistir à tentação de comparar políticos com modelos bíblicos. Até mesmo porque os estudiosos de fato se afastaram da história dos EUA.

<><> Abraham Lincoln

Obviamente, a figura de Abraham Lincoln, o presidente que aboliu a escravidão, continua sendo emblemática. Criado em uma família batista, mas sem ser batizado nem aderir a nenhuma denominação, Lincoln - escreveu Michael Lahey - mais do que qualquer outro “foi um messias para seu povo”: assassinado em 1865 na Sexta-Feira Santa, “o dia em que se rememora a morte do Messias cristão”.

Quase todos os presidentes dos EUA iniciaram seus mandatos jurando sobre a Bíblia. Apenas quatro - Thomas Jefferson, John Quincy Adams, Theodore Roosevelt e Calvin Coolidge - não o fizeram, enquanto Johnson, após o assassinato de Kennedy, jurou sobre um missal católico que estava no Air Force One que o levava a Washington. Em contrapartida, seis outros presidentes usaram duas Bíblias: entre eles, Obama e Trump também quiseram jurar sobre a Bíblia de Lincoln.

No costumeiro uso político das Sagradas Escrituras pelos presidentes estadunidenses, uma guinada na direção conservadora foi feita por Reagan, que, com base em uma decisão do Senado, declarou 1983 o “ano da Bíblia”. No mesmo ano, ele fez um discurso de tons apocalípticos sobre a necessidade de se opor ao “império do mal”. Tons que, após o 11 de setembro, voltaram a aparecer nos discursos do “cristão renascido” George W. Bush.

Obama falou sobre o papel da religião em 2006, antes de ser eleito presidente. Com o objetivo de declarar sua “fé cristã” questionada pelos adversários: é “um erro quando deixamos de reconhecer o poder da fé na vida das pessoas - na vida do povo estadunidense - e acredito que é hora de abrir um debate sério sobre como reconciliar a fé com a nossa democracia moderna e pluralista”.

Os estadunidenses “são um povo religioso”, e isso “não é simplesmente o resultado do sucesso do marketing de pregadores especializados”, mas expressa “uma fome mais profunda”, disse Obama. E como presidente, ele citou a Bíblia com frequência e defendeu a tradição cristã estadunidense, mas reafirmou o caráter pluralista e tolerante da nação.

<><> “Nação cristã”

Em 2022, de acordo com uma pesquisa do Pew Research Center, 45% dos entrevistados consideravam que os Estados Unidos deveriam ser uma “nação cristã”. Mas, ao mesmo tempo, 54% achavam que a separação entre as igrejas e Estado deveria ser reforçada. Portanto, o quadro está mudando, e o sociólogo francês Sébastien Fath disse que na última campanha eleitoral Trump não se dirigiu apenas aos “nacionalistas cristãos”. E se JD Vance, agora vice-presidente, se tornou católico em 2019, Musk se declara deísta “e não tem nada de cristão”.

Em última análise, Trump, mais do que Davi, se assemelharia a Ciro, que no livro de Isaías (45,1-8) é descrito como o messias pagão vitorioso sobre os babilônios porque pôs fim ao exílio do povo judeu em 539 a.C. Cunhada por evangélicos fundamentalistas, a comparação entre o “grande rei” persa e o presidente em 2017 foi retomada por Benjamin Netanyahu, despertando as críticas de muitos judeus e cristãos. 

 

¨      Viver na correnteza. Por José Eduardo Andaluza

Elon Musk confundiu Gaza, na Palestina, com Gaza, em Moçambique. Um equívoco compreensível, não fosse Musk sul-africano, e o Império de Gaza o resultado de uma disputa entre a nobreza Zulu, após o assassinato do famoso Rei Shaka kaSenzangakhona — o Shaka Zulu, uma figura venerada no país natal do oligarca.

Indignado, Musk anunciou ao mundo que o anterior executivo americano gastara US$ 50 milhões em camisinhas, oferecendo-as aos terroristas do Hamas, na Faixa de Gaza. Trump adorou o escândalo e apressou-se a propagá-lo. Os jornais israelenses deliraram. Finalmente, jornalistas sérios fizeram o que os jornalistas sérios fazem — investigaram. Não tiveram de investigar muito. Logo perceberam que aquela Gaza não se situa no Oriente Médio e que a Usaid, entretanto extinta ou quase extinta, não havia gasto US$ 50 milhões apenas em preservativos, mas em todo um programa de combate à Aids, um problema muitíssimo sério em Moçambique.

Confrontado com o disparate, Musk admitiu cometer erros. Disse aquilo sem o menor sinal de arrependimento, com a leviandade do costume — o filho X empoleirado nos ombros, e Donald Trump escutando-o, embevecido, com as mãozinhas pousadas na secretária presidencial, como uma bizarra aparição alaranjada.

Leviandade, crueldade, idiotice — três palavras que resumem a atuação do novo governo americano. Decisões gravíssimas, que irão destruir a vida de milhões de pessoas, são tomadas por Donald Trump, ou por Elon Musk, com a mesma ligeireza com que decidem qual o boné adequado para uma conferência de imprensa na Sala Oval.

O pior é que estas decisões não afetam apenas a vida dos cidadãos americanos. A extinção da Usaid, por exemplo, pode provocar a morte de centenas de milhares de pessoas. A médio prazo, lançará muitos países, sobretudo em África, para a esfera de influência da China.

Amo cachoeiras. Sempre me surpreende encontrar plantas que sobrevivem presas às rochas, lutando contra a força das águas, como se a vida naquelas circunstâncias fosse fácil e até aprazível.

Precisamos aprender, como aquelas plantas, a viver na correnteza. A correnteza, a que podemos também chamar incerteza, é o novo normal. Sim, a vida foi sempre imprevisível. Uma larga fatia da Humanidade nunca conheceu o conforto de não ter de se preocupar com o que irá comer no dia seguinte. Houve um tempo, contudo, em que o futuro parecia um pouco mais sólido — tanto quanto pode parecer sólido algo que apenas existe na nossa imaginação.

Depois, o futuro começou a decompor-se. O regresso de Trump — e de tudo aquilo que ele representa — apenas acelerou esse processo.

Viver na correnteza não é fácil. Podemos deixar-nos arrastar por ela, ou aprender a ler os seus fluxos, a encontrar pontos de apoio, a construir formas de resistência. Períodos de grande turbulência costumam ser também momentos de transformação e descoberta. Quero acreditar que o colapso do futuro acabará forçando a Humanidade a criar novas utopias — um outro modo de se relacionar com o planeta e de criar sociedades mais justas.

 

Fonte: IHU/Racismo Ambiental

 

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