Por
que Jards Macalé ficou 40 anos sem falar com Caetano Veloso
O
cantor e compositor Jards Macalé, morto aos 82 anos, vítima de uma parada
cardíaca, sofrida após um procedimento cirúrgico — ele estava internado no Rio
de Janeiro, onde morava, para tratar um enfisema pulmonar —, não se destacou
apenas como compositor.
Autor
de canções icônicas como "Vapor Barato" e "Mal Secreto",
ambas em parceria com o poeta Waly Salomão, Macalé também se destacou como
produtor e arranjador, sendo responsável pela concepção musical do disco
Transa, considerado por muitos o melhor e mais importante disco de Caetano
Veloso.
"Sem
Macalé não haveria Transa", escreveu Caetano em suas redes sociais,
minutos após a confirmação da morte do compositor carioca.
O
antológico disco, gravado em Londres, uniu e separou os dois músicos e amigos.
Eles
ficaram mais de 40 anos sem se falar, trocando farpas pela imprensa, numa rinha
iniciada por Macalé, que não se conformava com o fato de seu nome não aparecer
na ficha técnica de Transa.
Os dois
se apresentaram juntos nos shows comemorativos dos 50 anos de Transa.
Caetano
convidou Macalé para subir no palco nas duas apresentações no Espaço Unimed, em
São Paulo. O músico carioca foi ovacionado pelo público em vários momentos,
como no solo de guitarra em "Nine Out of Ten".
Por que
Caetano não deu crédito a Macalé em Transa? Além do disco não existir sem o
produtor, como reconheceu o baiano, eles eram grandes amigos — foi Macao, como
era chamado na intimidade, quem ensinou Caetano a tocar violão.
"Havia
muita intimidade com ele (...) Eu tinha muita timidez como músico, e com ele
não ficava intimidado", disse Caetano, em entrevista ao jornal O Globo, em
2012.
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De cabeça para baixo
Macalé
e Caetano conheceram-se no verão de 1963, em Salvador. O compositor tijucano,
de férias na Bahia, assustou-se com a timidez quase crônica do jovem artista
baiano, que, apesar de ser um ano mais velho, se comportava como um calouro no
primeiro dia de aula.
"A
gente tocava um pouco de violão na sala e depois íamos para o quarto dele. Ele
[Caetano] plantava bananeira, ficava de ponta cabeça na cama e dizia: 'Vire
também, Macao, vai começar a sessão'', lembrou Macalé, em depoimento ao livro
Outras Palavras - Seis Vezes Caetano, de Tom Cardoso.
A luz
que entrava pela janela projetava na parede do quarto tudo o que se passava no
lado de fora – mas por conta de um fenômeno óptico, essa imagem era projetada
de forma invertida, de modo que, para ver o que estava rolando, era preciso
ficar de ponta cabeça, relatou o músico
"A
gente ficava assim um tempão, vendo as imagens. Caetano mudo, no mais completo
silêncio. Nos conhecemos assim", contou Macalé.
Dois
anos depois desse inusitado começo de amizade, Macalé hospedou Maria Bethânia
em seu apartamento, em Ipanema.
A
cantora havia acabado de chegar ao Rio para substituir Nara Leão no espetáculo
Opinião. A amizade com os irmãos Veloso estreitou-se, mas o laço foi
interrompido com a prisão de Caetano e o exílio em Londres.
Em
1970, Macalé voltava de uma noite de Carnaval quando recebeu uma ligação de
Caetano. O baiano começaria a gravação de um novo disco e precisava
imediatamente da presença do amigo no Chappelle 's Recording Studios.
Ele
estava cheio de ideias na cabeça, mas só Macao seria capaz de organizá-las, de
dar uma unidade ao disco.
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Maconha, ácido e leite
A banda
que tocaria em "Transa" formou-se no estúdio, no calor da hora. Uma
seleção da música brasileira: Macalé no violão, Tutty Moreno na bateria, Moacyr
Albuquerque no baixo e Áureo de Souza na percussão.
Responsável
pela produção e arranjos, Macalé aproveitou o clima na cidade — a capital
inglesa vivia ainda o rescaldo da Swinging London, como ficou conhecido o
período de grande efervescência cultural e comportamental — para tomar todas as
drogas possíveis. Logo ele, chamado para organizar o pensamento musical do
careta Caetano.
"Caetano
nunca fumou, nem cheirou, nem tomou ácido. Ele tem medo de ficar maluco, como
se ele já não fosse louco. Mas ele pegava carona, ficava tão louco quanto a
gente", lembrou Macalé, em entrevista ao UOL, em 2017.
Além de
maconha, LSD e outros aditivos, os músicos consumiram litros e mais litros de
leite.
"A
gente ensaiava tomando leite para evitar contaminação. Tinha uma intensidade.
Gravamos tudo praticamente ao vivo para pegar o calor da hora. É uma saudade da
sua terra, da língua, do seu jeito de ser, do seu povo", contou Macalé, na
entrevista ao UOL.
Nesse
clima de doideira, gravou-se um grande álbum, um dos maiores da discografia
brasileira. Caetano, deprimido desde a chegada a Londres, se sentiu revigorado
— e grato a Macalé.
"Era
um trabalho orgânico, espontâneo, e meu primeiro disco de grupo, gravado quase
como um show ao vivo. Foi Transa que me deu coragem de fazer os trabalhos com A
Outra Banda da Terra", disse Caetano, em entrevista ao Jornal do Brasil,
em 1991.
"Tem
'Nine out of Ten', a minha melhor música em inglês. É histórica. É a primeira
vez que uma música brasileira toca alguns compassos de reggae, uma vinheta no
começo e no fim. Muito antes de John Lennon, de Mick Jagger e até de Paul
McCartney", afirmou o baiano.
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O 'desaparecimento' de Macalé
Caetano
e Macalé certamente gravariam muitos outros LPs juntos se o nome do músico
carioca constasse na ficha técnica do disco. Não foi o que aconteceu.
O seu
nome não aparecia em lugar nenhum, assim como o de Angela Ro Ro, também
presente no estúdio.
Mas ao
contrário da então jovem cantora, cuja participação se resumia a um solo de
gaita na faixa "Nostalgia", Macalé, além de tocar violão em todas as
faixas, era o arranjador, o produtor e o grande organizador musical do disco.
Caetano,
primeiro, colocou a culpa no produtor e artista gráfico Alvinho Guimarães, seu
grande amigo, responsável pela capa de Transa.
"Como
é que bota essa bobagem de dobra e desdobra, parece que vai fazer um abajur com
a capa, e não bota a ficha técnica? Era importantíssimo", disse, em 1991,
em entrevista ao Jornal do Brasil.
Em
2006, durante entrevista coletiva na sede da gravadora Universal Music,
responsável pela reedição do disco, Caetano argumentou que, na época da
gravação de Transa , os nomes dos músicos não apareciam nas capas dos discos
brasileiros. O baiano não deixava de ter razão.
"A
ficha técnica do [disco] Gal-Fatal, de 1971, por exemplo, é bem confusa em
relação aos músicos que tocam. Quem é o guitarrista de quais faixas? Lanny
Gordin ou Pepeu Gomes?", questiona o crítico musical Tárik de Souza, em
depoimento à BBC News Brasil.
"O
caso mais escandaloso que me ocorre, já depois dessa época, é o do disco do
João Gilberto gravada nos EUA, The best of two worlds, de 1976, em que ele está
na capa com o Stan Getz e a Miúcha e o nome dela não aparece", afirma.
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A reconciliação
O fato
é que Macalé, magoado profundamente com o descaso do amigo, rompeu a amizade. E
não se calou. Reclamou diversas vezes pela imprensa.
O
leonino Caetano, bom de briga, não deixou barato. A briga escalou, com trocas
de acusações de ambos os lados.
Bethânia,
Gil e Jorge Mautner, também muito próximos de Macalé, tomaram as dores de
Caetano e se afastaram do convívio do autor de "Vapor Barato".
Macalé
e Caetano fizeram as pazes no aniversário de uma amiga em comum, a atriz
Marieta Severo. Na mesma noite, o baiano convidou Macao para cantar nos shows
comemorativos de Transa.
A idade
não permitiu que ambos vissem um filme de ponta cabeça no sofá, mas os
fraternos laços estavam retomados.
"Estou
chorando porque ele morreu hoje. Foi meu primeiro amigo carioca da
música", escreveu Caetano, em seu Instagram.
Fonte:
BBC News Brasil

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